Ⓐrtigos – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org vandalismo, depredação e análise Tue, 04 Aug 2026 01:22:06 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2019/09/cropped-FAC_logo19_ilustra-32x32.png Ⓐrtigos – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org 32 32 Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do Que o Fim da Polícia – Poster Para Imprimir https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2026/08/03/fim-do-mundo-fim-da-policia/ Mon, 03 Aug 2026 21:55:19 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3540 Continuar a ler "Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do Que o Fim da Polícia – Poster Para Imprimir"

]]>

 

[Baixe em PDF]

Um pensamento atribuído a Frederic Jameson e repetido por Slavoj Žižek e Mark Fisher, diz que, em nosso tempo, seria “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do Capitalismo”. A frase traz um diagnóstico crítico importante sobre a impossibilidade da imaginação e o sentimento perpétuo de que é impossível viver fora do atual sistema econômico e político dominante. A possibilidade de fim dessa ordem seria vivenciada apenas como o fim da humanidade em si e de seu mundo.

Talvez por esse motivo quase toda distopia apocalíptica conta com um roteiro semelhante, onde pessoas buscam reabilitar o mundo que foi destruído, e retornar para a “normalidade” conhecida – um desejo que se tornou universal durante a pandemia da Covid-19. Uma herança judaico-cristã, que aceita um deus, um mundo e, portanto, uma única “humanidade”. Se esquecendo que o mundo dos povos indígenas acabou muitas vezes desde 1492 mas seguem resistindo e nos ensinando a sobreviver o fim de mais esse mundo. 

Sejam reformistas ou revolucionários, tanto os defensores quanto os falsos críticos da ordem parecem concordar que os rumos do Capitalismo ameaçam a sobrevivência da vida no planeta. Porém sua disposição para acabar com as estruturas de dominação encontram limites no Estado e nos seus aparelhos repressores. De jacobinos a bolcheviques, de sociais-democratas a fascistas, a disputa parece ficar em torno da questão de que para superar o Capitalismo (ou o “sistema”) é necessário tomar o poder através de um “governo revolucionário” (e sua polícia). A questão parece ser sempre a de quem detém o controle de suas estruturas – e não a destruição das instituições que perpetuam a destruição de nossas comunidades e do meio ambiente.

Fica claro que críticas vindas da esquerda e das classes oprimidas muitas vezes evitam debater e promover ações que apontem para o fim da polícia e das prisões porque consideram que estas serão necessárias quando for sua vez de assumirem o comando por meios revolucionários ou da ocupação gradual dos postos de direção política. Afinal, quem vai impor as decisões do novo governo, do partido que “representa a classe” e seu comitê central?

Não é por acidente e nem deveria surpreender que movimentos revolucionários vitoriosos que se dedicaram a erguer sua própria polícia e a desenvolver seus aparatos repressivos, passaram a conduzir sua própria contrarrevolução e voltaram suas armas para as camadas populares que ajudaram a derrubar o regime anterior. Sem uma polícia e toda uma organização militar própria e secreta, os Bolcheviques não conseguiriam tomar grãos de camponeses à força, reprimir greves e massacrar camaradas socialistas e anarquistas que protestavam contra seus abusos.

Por compreenderem isso no seio da própria luta, anarquistas, desde Bakunin, diferenciam a revolução social, que derruba Estado e Capital em favor da ação direta e da autogestão, de uma revolução política; que entrega o controle do Capital ao Estado, dirigido pelos burocratas iluminados (e um tanto depressivos) da revolução e do partido que governa em nome dos trabalhadores.

* * *

Desde o surgimento do que entendemos por uma polícia moderna, na Inglaterra do século XIX, sua função era o de disciplinar as massas trabalhadoras e controlar as camadas excluídas e miseráveis. Quando empregar em seu próprio território um exército treinado para guerras contra inimigos externos parecia ser brutal e ineficiente, a polícia surge como uma força mais amena de profissionais empregados para defender a propriedade e agir contra o ameaças internas à paz: greves, rebeliões e movimentos sindicais.

Nas chamadas Américas, onde as sociedades foram fundadas sobre o colonialismo e a escravidão, as polícias surgem como uma extensão das forças que capturavam e mantinham pessoas escravizadas. Nunca foi seu objetivo prevenir o crime, mas governar garantindo que apenas os comportamentos de certos grupos sejam criminalizados e punidos com base não apenas na cor da pele e no pertencimento de classe, mas também no gênero, idade, profissão (ou a falta dela). Mesmo se você não tiver nada, a polícia estará lá. Ela é o patrão de quem não tem emprego ou casa. Para isso,  as elites no poder recrutam entre a massa empobrecida pessoas dispostas a defender seus interesses em troca de dinheiro e respeito. São traidores da classe dispostos a ferir sua comunidade por um salário e o poder que uma arma na mão pode lhe dar.

A chamada “Guerra às Drogas” trouxe de volta a noção militarizada da força bruta e letal para a repressão da sua própria população. Mas obviamente, que não igualmente para todas as pessoas envolvidas com produção, venda e consumo de drogas. As pessoas brancas ricas e proprietárias, no topo, sofrem (quando muito) processos legais e administrativos. Na base, a população preta, imigrante e periférica enfrenta o encarceramento em massa, suspensão de direitos básicos e o extermínio.

Reformar a polícia é, portanto, apenas tentar dar mais legitimidade à sua existência e tornar mais difícil sua abolição. Mesmo quando a polícia recruta membros da mesma cor, gênero ou origem dos grupos tradicionalmente excluídos, a realidade mostra que isso apenas aumenta a tensão nessas comunidades.

* * *

A devoção ao Estado é, inevitavelmente, o amor pela polícia. Sem ela, não é possível uma divisão entre quem manda e quem obedece, entre quem trabalha e quem administra, entre pessoas incluídas e excluídas. Ela fabrica inimigos internos para justificar sua existência.

O mito de que a vida é melhor para  todo mundo – e não só para  a elite – com o trabalho da polícia está tão entranhado em nosso imaginário que as pessoas que se declaram revolucionárias e de esquerda acreditam que sua revolução também será melhor conduzida com a ajuda da polícia. Elas se recusam a assumir que o que desejam é a garantia de poder e controle que o uniforme e as armas dos especialistas em violência imposta os garante.

Em um mundo em colapso, a única coisa capaz de impedir que as pessoas consigam lutar por suas vidas e tirar a riqueza e os recursos das mãos dos ricos é a força bruta. A última e maior função do Estado é a repressão policial. Cientes disso, uma esquerda que almeja o poder centralizado não pode oferecer outra coisa que não um novo círculo de legitimação das forças de segurança. O Capitalismo pode até acabar, mas alguém precisa garantir o poder dos novos líderes.

Ou criamos comunidades livres e fortes com autogestão e por meio da ação direta, capazes de construir sua autodefesa sem depender de profissionais e especialistas em violência, ou prepararemos o terreno, os recursos materiais e a legitimidade de aparatos repressores que podem simplesmente cair na mão de futuros governos fascistas. Ou pior seguir na mão de benevolentes e humanistas governantes iluminados que praticam massacres em nome da democracia.

Quem fala de uma luta contra o capitalismo e o fascismo, sem falar de uma luta contra o Estado, suas polícias, tribunais, exércitos e prisões, fala com um cadáver entre os dentes.


LEITURAS RECOMENDADAS:

SOMOS TODAS ANTIFASCISTAS – MENOS A POLÍCIA: sobre como e com quem lutamos – por Facção Fictícia

Polícia: Um Estudo Etnográfico Foto-Ensaio Sobre a Obediência Armada – por CrimethInc.

O Fim do Policiamento – Alex S. Vitale

 

Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do Que o Fim da Polícia – Poster Para Imprimir ©, .

]]>
A COP30 não é um fracasso — é uma farsa https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2025/12/22/cop30-farsa/ Mon, 22 Dec 2025 15:09:40 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3468 Continuar a ler "A COP30 não é um fracasso — é uma farsa"

]]>

Em novembro de 2025, líderes de governos, empresas e ONG’s se reuniram em Belém, Pará, para a COP30 para debater supostas saídas ecológicas para o inferno na Terra que o capitalismo está construindo. Nosso camarada Peter Gelderloos, anarquista e pesquisador autônomo estadunidense esteve presente nos eventos críticos à conferência, percorrendo o território brasileiro coletando entrevistas com membros de comunidades indígenas, assentamentos e territórios de movimentos como MST e Teia dos Povos, além de ocupações urbanas. O artigo a seguir é uma das primeiras impressões que o autor publicou sobre o contexto e propostas em torno da COP30.

O autor está prestes a lançar livro “As soluções já estão aqui: estratégias revolucionárias ecológicas vindas de baixo”, editado neste ano pelas editoras Teia dos Povos, GLAC e Entremares e fez um bate-papo sobre o Jornadas ANTI-COP30 em Belém, organizadas pelo Centro de Cultura Libertária da Amazônia (CCLA).

Para saber mais sobre a posição de anarquistas do Pará sobre a COP30 e como foram as Jornadas Anti-COP30, leia o artigo completo do do CCLA aqui.


A COP30 não é um fracasso, é uma farsa – Porque cúpulas climáticas não podem resolver a crise e porque devemos apoiar as lutas indígenas

Ao fim da cúpula climática da COP30 em Belém, no estado brasileiro do Pará, os organizadores de conferências têm pouco a mostrar após duas semanas de conversas altamente divulgadas. Isto é ruim para todos. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas precisava desesperadamente restaurar sua reputação. Afinal, a COP 29 do ano passado ocorreu no Azerbaijão, onde os combustíveis fósseis representam 90% das exportações e onde o governo estava sendo acusado de realizar genocídio nos meses que antecederam a conferência. No ano anterior, a COP 28 foi realizada em Dubai, capital de outro petro-estado.

Este ano, a estratégia de marketing para a conferência climática começou com um mea culpa pela exclusão histórica dos povos indígenas. Um comunicado de imprensa da ONU anunciando as conclusões de um relatório recente sobre os povos indígenas e a crise climática colocou da seguinte forma: “De projetos de energia verde impostos sem consentimento para decisões políticas tomadas em salas onde as vozes indígenas estão ausentes, essas comunidades são muitas vezes excluídas de soluções climáticas, deslocadas por eles e negadas os recursos para liderar o caminho”.

Para isso, o Ministério dos Povos Indígenas (PMI) do Brasil convidou 360 líderes indígenas para participar de negociações dentro da COP, após um processo de seis meses em que eventos foram realizados com 80 povos indígenas cujos territórios são ocupados pelo estado brasileiro. O objetivo era “garantir a maior participação indígena na história das Conferências Climáticas da ONU”, segundo o site oficial da COP 30. Em uma espécie de chamada e resposta, o The New York Times e outros meios de comunicação ecoaram acriticamente essas alegações, com manchetes como “Indígenas, há muito marginalizados nas negociações climáticas, sobem ao palco”.

O que essas declarações pressupõem é que, embora possa haver erros no processo, a solução é maior participação. Nenhuma dessas instituições – a ONU, os grandes meios de comunicação, as principais ONGs e os governos mundiais – parece disposto a enfrentar a verdade de que o processo da COP não está simplesmente falhando em resolver a crise climática: eles não podem resolver a crise climática. E essa farsa está atrapalhando estratégias reais e ativas para proteger os povos indígenas e abordar o ecocídio.

A metáfora do Times sobre tomar o palco é apropriada, dada a natureza vistosa e espetacular desses esforços. Cidades em todo o Brasil têm sido cobertas de publicidade colorida que mostra povos indígenas e vida selvagem amazônica. E na segunda-feira, quando uma marcha dos povos indígenas começou a segunda e última semana da COP30, representantes indígenas que apoiam o governo e a conferência tiveram seu lugar na frente da marcha, com grandes faixas e um sistema de som móvel, enquanto grupos mais críticos falando sobre a falta de resultados reais foram relegados para trás.

Anarquista e outros movimento se juntam aos protestos Anti-COP30 em Belém, novembro de 2025.

Para manipular os movimentos indígenas, os governos usam benefícios e punições. Os benefícios incluem promessas de investimento e financiamento, como os US $ 11,8 bilhão que quatro países europeus e trinta e cinco filantropias apoiadas pela indústria prometeram aos povos indígenas nos próximos cinco anos. A maior parte desse dinheiro é destinada a ONGs que trabalham com povos indígenas. Tais investimentos têm um histórico duvidoso quando se trata de proteger a terra ou aumentar a autonomia indígena, embora seja certamente um recurso significativo para apoiar representantes indígenas em conformidade que são frequentemente nomeados pelos estados que ocupam suas terras.

As punições, entretanto, podem variar de técnicas difíceis a suaves de repressão. O dia da marcha, dos direitos humanos e dos grupos ambientais publicou uma carta aberta acusando o chefe climático da ONU, Simon Stiell, de ​ “ criando um efeito arrepiante e um sentimento de insegurança para os indígenas povos”, após Stiell pedir ao Brasil que aumentasse as forças de segurança em torno do local da COP.

No dia anterior, homens armados atacaram a comunidade indígena Guarani Kaiowá de Pyelito Kue, no sul Estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, matando o defensor da terra Vicente Fernandes Vilhalva, ferindo outros quatro membros da comunidade e queimando por todas as casas e propriedades da comunidade. O assalto, o quarto de seu tipo em duas semanas, vem como os Guarani Kaiowá se envolveram em um luta para reocupar algumas de suas terras ancestrais.

De todas as realizações que o quadro climático dominante pode se orgulhar, nenhuma delas tem a ver com a redução das emissões de gases de efeito estufa ou a desaceleração do desmatamento e a devastação de áreas úmidas em todo o mundo. Quando países específicos são capazes de reivindicar uma redução nas emissões, é em parte graças ao comércio de carbono e sistemas de contabilidade de carbono que os lobistas corporativos se certificaram de que estão incluídos em acordos climáticos, como eu relatei anteriormente aqui, aqui e aqui. Pelo contrário, as realizações da COP têm a ver com a garantia de investimentos e financiamento. As empresas que podem reivindicar um rótulo verde estão desfrutando de um mercado em crescimento e os lucros que vêm com ele, mas o benefício para as comunidades indígenas ou o movimento mais amplo para parar a crise ecológica é duvidoso.

Manifestantes indígenas marcham do lado de fora da conferência climática COP30 em Belém do Pará, Brasil, 17 de novembro.

Os povos indígenas em todo o Brasil fizeram seus maiores avanços na recuperação de seu território não com planos de investimento, mas por meio de ações diretas. O Ka’apor da Amazônia tem queimado caminhões madeireiros. Os Guarani da Mata Atlântica usaram protestos e bloqueios para forçar o governo a devolver uma pequena parte de suas terras que haviam sido roubadas. Gah Te Iracema, líder espiritual da comunidade Kaingang de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, que viajou para Belém para a COP 30, me diz que ““recuperamos uma parte de nossa terra, mas não é reconhecida pelo governo. Então, estamos aqui para falar sobre a nossa luta. Nós chamamos isso de recuperação de terras, mas é como voltar para nossa casa.”

Os Guarani Kaiowá, mencionados acima, foram violentamente expulsos de suas terras nos anos 1980 s. Os principais interesses da pecuária então se mudaram e assumiu. Os Guarani Kaiowá têm tentado recuperar alguns dos suas terras, mas a FUNAI, a agência governamental brasileira designada para proteger os povos indígenas, não seguiu com oficial demarcação. Um relatório da Survival International, uma organização que defensores dos direitos dos povos indígenas em todo o mundo, chamado a estagnação “ uma violação do direito brasileiro e internacional” que tem forçou “os Guarani a suportar ataques violentos e assassinatos nas mãos dos pecuaristas e policiais apoiados por políticos locais que atuam com impunidade”. O relatório prossegue: “Um acordo oficial feito entre promotores públicos, FUNAI, e os Guarani em 20072007, e terras recentes promessas de demarcação do Presidente Lula — não foram mantidos.”

O povo Guarani Kaiowá enfrenta escassez de alimentos e envenenamento por químicos agrícolas. Ao mesmo tempo, esses fazendeiros e donos de plantações têm uma voz menos pública mas bastante mais efetiva na COP30: s lobistas agrícolas, dos quais mais de 300 vieram à COP30, onde alguns receberam “acesso privilegiado” a negociações chave. Atualmente, a pecuária e a expansão de terras agrícolas, maioritariamente para plantações de soja para a alimentação do gado, são os principais fatores de desmatamento da bioma da Amazônia. O presidente Lula propôs uma mudança para outra indústria lucrativa, uma com uma reputação mais verde: os biocombustíveis, que podem substituir os combustíveis fósseis. No entanto, as plantações que cultivam biocombustíveis também contribuem para o desmatamento. Um estudo recente pelo think thank Transport and Environment descobriu que, quando todos os seus impactos são contabilizados, os biocombustíveis causam 16% mais emissões que os combustíveis fósseis.

Isso aponta para uma falha incorrigível na discurso oficial sobre o clima. Para todos os principais participantes — ministros do governo, indústria lobistas e até mesmo os diretores de grandes ONGs — o inquestionável fundação de uma solução climática é uma economia baseada no crescimento organizada por governos. A questão fundamental na COP 0 e todas as anteriores conferências climáticas não é, “como paramos a mudança climática?” A questão com a qual eles estão trabalhando é: “ que respostas às mudanças climáticas são compatível com o poder do Estado e as economias baseadas no crescimento?” E a resposta eles se recusam a admitir é que respostas efetivas não são compatíveis com o sistema atual, porque este sistema em si — suas formas aceitáveis de organização política e econômica — são as causas profundas da crise.

Os investidores não estão no negócio de dar dinheiro a programas dos quais eles não pode tirar lucro. Culturas se empoderando plenamente, que são eco-centradas e comunais, que não tratam a terra como mercadoria, são a verdadeira solução — mas isso seria uma má notícia para os negócios e para todos os governos em todo o mundo que atrelam seu poder ao crescimento econômico. Não importa quantos representantes de povos marginalizados estão na mesa de diálogo: o crescimento econômico está em conflito com a vida neste planeta. Não podemos ter ambos.

Para todos nós tentando sobreviver em meio a catástrofes em série sobre um planeta sitiado, a escolha entre lucro e a vida não deveria ser uma escolha difícil.


Peter Gelderloos é um pesquisador independente, escritor anarquista e militante estadunidense, autor de diversas obras, incluindo o célebre livro Como a Não Violência Protege o Estado e Anarquia Funciona.

A COP30 não é um fracasso — é uma farsa ©, .

]]>
Não Precisamos de Heróis – Notas Sobre o Assassinato de um CEO https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2025/01/17/nao-precisamos-de-herois/ Fri, 17 Jan 2025 16:13:09 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3417 Continuar a ler "Não Precisamos de Heróis – Notas Sobre o Assassinato de um CEO"

]]>
Um evento próprio de nosso tempo: um vídeo de 30 segundos, um jovem encapuzado e de mochila atirando em um sujeito de meia idade, corpulento e de cabelos grisalhos se espalha em poucas horas nos noticiários e nas mídias sociais. Isso se dá menos pelo que se pode ver nele e mais pelo que ele testemunha. O homem atingido pelos três disparos do jovem encapuzado é Brian R. Thompson, CEO da United Healthcare (UHC), uma megacorporação estadunidense de seguro saúde que, até 2023, era dona da empresa Amil, no Brasil. Os detalhes da ação, que logo foram conhecidos, fazem crescer o interesse por ela: as três cápsulas de bala encontradas pela polícia na calçada em frente ao Hotel Hilton, no centro de Manhattan, levavam as inscrições: defender, negar, destituir (defend, deny, depose, em inglês). As palavras são uma evidente alusão à forma como as empresas de seguridade médica costumam responder aos seus segurados, quando precisam de um serviço mais complexo e se encontram evidentemente fragilizados física e mentalmente.  Algo muito semelhante ao que lobistas dos planos de saúde brasileiros já buscam fazer para negar procedimentos e tratamento a milhares de pacientes, uma vez que não são previstos como obrigatórios no rol da ANS. A diferença é que nos Estados Unidos não existe um sistema público e gratuito de saúde como o SUS, no Brasil.

Ano novo, antigos vícios.

A ação foi planejada e executada quase à perfeição. Um sujeito sozinho, se aproxima do alvo, dispara e foge correndo até encontrar uma bicicleta elétrica e sumir sem deixar rastros. Um trabalho paciente e dedicado que logrou êxito de forma admirável.

Todos sabem que o sistema de saúde nos EUA é um grande negócio (só em 2023, a UnitedHealth Group Incorporated, dona da UHC, arrecadou US$ 371,6 bilhões) que funciona para extorquir as pessoas precisamente em momentos nos quais economizar é a última coisa que passa pela cabeça. Além disso, UHC e outras companhias já implementam sistemas que usam inteligência artificial para avaliar, aprovar ou negar atendimento a clientes. Por isso, qualquer cidadão conhece uma história tenebrosa da relação com seguro saúde que, invariavelmente, também envolve batalhas judiciais.

Histórias vividas na própria pele ou na de amigos e parentes próximos. Mesmo em países onde há assistência médico-securitária estatal e gratuito, como Brasil e Inglaterra, planos de saúde são amplamente conhecidos como urubus que circundam os corpos de gente doente ou morta pelos seus atendentes, advogados e médicos, que ganham muito dinheiro com isso. Assim, não é exagero dizer que um CEO de uma megacorporação de seguro saúde é responsável direto e/ou indireto pelo sofrimento e a morte de muitas pessoas. E não surpreende, portanto, que a ação que matou Brian Thompson tenha sido recebida com simpatia por muitas pessoas e lida como um ato de justiça perpetrado por esse jovem de capuz.

Como é comum em tempos de comunicação instantânea, a ação foi capaz catalisar o sentimento de raiva e injustiça de milhares de pessoas no planeta, e logo viralizou e provocou uma enxurrada de comentários que alçaram o autor da ação ao paradoxal patamar de herói e procurado pela polícia. A UHC precisou retirar do ar a publicação das mídias sociais em que lamentava a morte de Thompson após receber mais de 40 mil reações e comentários de risos.

É compreensível — e até pare um pouco tardio — que uma pessoa comum decida atacar diretamente um CEO de uma empresa de saúde nos EUA. O que chama a atenção é o fato de alguém poderoso ser alvo de um cidadão comum. Quando é o contrário, e a ação de um executivo ou político resulta na vulnerabilidade ou morte de grupos inteiros de pessoas, isso é apenas mais uma “fatalidade”.

Como já se sabe, Mangione acabou capturado pela polícia. Seu sequestro por forças policiais se deu após a delação de uma pessoa que trabalhava numa lanchonete (a polícia simplesmente não existiria sem colaboração cidadã) e o herói de muitos, que catalisou o ódio latente por corporações em uma ação, está preso e será julgado. Se condenado em tribunal federal, pode encarar a pena de morte — pena que não foi aplicada nem mesmo a atiradores que mataram dezenas de crianças nos recorrentes tiroteios em escolas americanas. O que comprova que para o judiciário, a polícia, governos e a classe dominante, a vida de um dos seus é mais valiosa e motiva mais penalidades do que o assassinato em massa de cidadãos comuns.

 Risco de Neutralização do Conflito

Aqui começa um problema fundamental para os efeitos de uma ação como esta: a capacidade do sistema de justiça criminal e da mídia de neutralizar uma ação que, embora tenha sido perpetrada por um sujeito, expressa um sentimento coletivo de injustiça.

A espetacularização da ação e do seu autor e a individualização da responsabilidade criminal do ato criam a figura de um herói ao mesmo tempo em que o debate personaliza a “maldade” nos CEO’s, como se esse fossem proprietários ou a peça principal de uma empresa. É fácil esquecer que, no capitalismo financeiro, esses são apenas funcionários muito bem pagos, cujos salários milionários não chegam a um décimo do que ganham os reais donos da grana: os investidores. Para ficar em apenas um exemplo grosseiro, o CEO da Coca-Cola recebeu em 23 milhões de dólares em 2023. Enquanto isso, o investidor Warren Buffett recebeu da mesma empresa 776 milhões de dólares em dividendos apenas em 2024, uma fortuna que, diferente do CEO, não o obriga sequer a pagar imposto ao governo americano.

Portanto, mesmo dentro da lógica de bode expiatório, onde a classe dominante pode até aceitar a morte de um dos seus para se preservar enquanto grupo, sair individualmente disposto a alvejar CEOs pouco muda em uma luta para derrubar o Capitalismo, mesmo que isso promova avanços no debate sobre acesso a saúde e concentração de riquezas. O CEO é um alto funcionário. De um altíssimo escalão, é óbvio, mas apenas mais um funcionário.

Nem heróis nem mártires

Transformar Luigi Maggioni, a um só tempo, em herói e criminoso é a tática perfeita para que se fale de tudo, menos do mais importante: sua ação revela que é intolerável que a vida de milhões de pessoas esteja nas mãos de executivos que se hospedam em hotéis de luxo em Manhattan e fazem da vida e da morte um cálculo econômico. E que esses sejam apenas os funcionários de agentes que sequer sabemos o nome, mas os recursos que controlam determinam o destino de nações inteiras.

A essa altura, basta ter um smartphone na mão para se saber tudo sobre Luigi: onde estudou, o que gostava de ler, que música ouvia etc e etc. E, em torno dessas informações, especula-se sobre ele ser ou não de esquerda, sobre ter sofrido ou não com o plano de saúde em questão, sobre ser ou não um incel, ser bonito ou feio, sobre ter ligações com organizações políticas ou não etc., etc. Nada mais cômodo para os poderosos que Luigi e sua ação se tornem uma espécie de reality show que entretém os acomodados comentadores em sua passividade. Em pouco tempo, Luigi se torna uma espécie de duplo complementar de um personagem típico dos filmes policiais, um sujeito repleto de intenções nobres e assassinas, mas que é impedido pelo sistema de fazer justiça porque… as coisas são assim.

De quebra, o espetáculo persecutório que levou um atendente de uma rede de lanchonetes a delatá-lo (sempre tem um cagueta) cumpre o devido efeito dissuasório nas pessoas que, com razão, já pensaram em expressar violentamente sua raiva contra os donos do poder reunidos em salas pomposas das grandes corporações ou em congressos corporativos realizados em hotéis de luxo. Paradoxalmente, neste momento, interessa mais saber quem é e ao que serve Brian R. Thompson, do que especular sobre a vida do autor da ação.

Em relação Luigi Maggioni só interessa uma coisa: libertá-lo! O que ele fez ressoa em qualquer pessoa cuja saúde depende das escolhas de um executivo que tem as mãos, o quarto de hotel e seu cargo lavados de sangue de gente que paga planos de saúde para não morrer. Ninguém é inocente!

Para Além da Guilhotina e do Martírio: Uma Perspectiva Histórica

Precisamos olhar para ação de Luigi a luz da história das lutas libertárias e como um sintoma de nosso tempo. O chamado “período do terror anarquista”, do final do século XIX e começo do século XX, quando ações realizadas por anarquistas expropriadores ou regicidas se espalharam por todo mundo, revelou-se, hoje podemos dizer, como sinais de um clima geral de transformação social radical. Ações de anarquistas como Ravachol, Gaetano Bresci, Émile Henry e Severino Di Giovanni ou de grupos como Los Solidarios, Bando Bonnot e os Niilistas Russos, mais do que ações individuais ou simples roubos e assassinatos, eram a expressão da revolta latente na sociedade que dizia escandalosamente que as coisas não poderiam seguir daquela forma. Não à toa, essas ações eram seguidas ou associadas à grandes greves e mobilizações populares ou ao início de processo revolucionários como a Comuna de Paris, a Revolução Russa e a Revolução Espanhola.

Mais recentemente, os ataques à bomba contra uma delegacia de Santiago do Chile e contra Rodrigo Hinzpeter (ex-ministro do interior chileno, conhecido pela perseguição às lutas anárquicas e do povo Mapuche) em 2019, ambos reivindicados pelo anarquista Francisco Solar. Sob a acusação de participação nestes e em outros atentados aos poderosos e ao bairro dos ricos em Santiago, Francisco e Mónica Caballero seguem atrás das grades desde 2020. Os ataques ocorreram no contexto da insurreição que tomou as ruas naquele território, com atos gigantescos e enfrentamentos massivos diários com a polícia. Em resumo, nestes e em vários outros casos que poderíamos mencionar, não se trata de um ato individual, embora tenha sido perpetrado por um único sujeito ou por um pequeno grupo.

Por isso, devemos ter mais ambição e pensar para além do espetáculo do CEO e seu algoz. Já abordamos isso em outro texto sobre o assassinato de políticos e poderosos:

Anarquistas e socialistas já mataram presidentes e reis. Mas será que conseguiram alguma mudança sistêmica profunda com ações isoladas para eliminar certos indivíduos em posições de poder? Os fatos levam a crer que não, pois as instituições que acumulam poder continuaram intactas e operando com carne sempre nova. Bakunin nos alertou também sobre essa questão quando disse que “as carnificinas políticas nunca mataram os partidos; mostraram-se, sobretudo, impotentes contra as classes privilegiadas, porque a força reside menos nos homens do que nas posições ocupadas pelos homens privilegiados na organização das coisas”.

O debate é tão antigo quanto a luta por liberdade dos povos. E faz tempo que anarquistas se dedicam a apontar que os maiores inimigos são instituições políticas e econômicas controlando os recursos, a cultura, as leis e violência legítima.

Por aqui no Brasil, alguns debates entre anarquistas já escolhem o caminho do elogio e do aplauso puro e simples. Como radicais pensando e atuando no mundo de hoje, queremos mais do que convidar para uma luta de autossacrifício ou pela execução sumária de nossos inimigos. Entraremos em conflito e devemos vencer, mesmo que sangue seja derramado. Mas, como dizem combatentes anarquistas em Rojava, “a luta não é pelo martírio, mas pela vida”.  Mesmo sabendo do risco de matar e morrer numa guerra aberta, ou na luta cotidiana contra a classe dominante e suas forças de segurança, a morte, a dor ou a prisão não são o objetivo dessa luta. Assim como não é parte do nosso projeto erguer novas guilhotinas, paredões e cadafalsos para nossos nossos inimigos de classe, como fizeram os Bolcheviques e o os Jacobinos antes deles.

Independentemente da opinião e dos planos de grupos ou teorias anticapitalistas, eventos como o assassinado do CEO ou o sacrifício daqueles que, como do tuniziano Mohamed Bouazizi ou do estadunidense Aaron Bushnell vão acontecer cada vez mais em uma sociedade capitalista em franca decadência. E é nosso papel também não fazer com que eventuais sacrifícios sejam em vão. Precisamos avançar o debate e aprimorar as ações coletivamente.

Escapemos das especulações e dos espetáculos. Diante da perseguição policial, do assédio jurídico e da algaravia midiática, tenhamos a coragem de dizer que qualquer pessoa já pensou em se vingar de um patrão, um político ou policial. E isso não faz de ninguém um herói, mas um sujeito comum que sente que a existência de bilionários e seus capangas é intolerável!

E “não se trata, neste momento, de uma questão de conscientização, mas sim de jogos de poder claramente dispostos. Evidentemente sou o primeiro a encarar isso com uma honestidade tão brutal”. E que não seja o último!

Ninguém é inocente! Vivemos na guerra social! Não precisamos de heróis!


Para saber mais:

Organizar a morte do Estado e do Capital, não de pessoas – perspectivas revolucionárias sobre atentados e assassinato de poderosos

Antinomia #128: Luigi Mangione

Sacrificial Violence and Retribution, coletivo CrimethInc.

Não Precisamos de Heróis – Notas Sobre o Assassinato de um CEO ©, .

]]>
“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2024/12/05/nao-temos-medo-das-ruinas-declaracao-de-tekosina-anarsist-sobre-atual-situacao-em-rojava/ Thu, 05 Dec 2024 13:21:10 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3404 Continuar a ler "“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA"

]]>
Desde 2020, a guerra civil na Síria não sofreu grandes desdobramentos. Com a Rússia, maior aliada do regime sírio, ocupada com a invasão da Ucrânia, e o Irã distraído com as agressões de Israel em Gaza e no Líbano, as forças jihadistas, como o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), tomaram Aleppo, cidade mais importante no norte da Síria, desafiando o poder do ditador Bashar al-Assad e impondo nova ameaça à luta por liberdade e a revolução social em Rojava. Em em meio a esses eventos, o grupo Tekoşîna Anarşîst (Luta Anarquista/TA), atuando em Rojava há pelo menos 5 anos, lançou um comunicado sobre a situação e sua posição diante dos novos desdobramentos da guerra civil síria.

Já entrevistamos companheiros do TA em 2020 e traduzimos uma outra entrevista feita pela da federação Anarquista uruguaia (fAu) aqui em nosso blog. Convidamos a todas as pessoas interessadas na superação do capitalismo, do fascismo, do patriarcado e do colonialismo a conhecer o processo revolucionário em Rojava e a contribuição de anarquistas em solo para essas lutas. A tradução do artigo abaixo foi feita pela editora Terra Sem Amos.


“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”

Há mais de cinco anos, as Forças Democráticas Sírias (SDF) puseram fim ao califado do Estado Islâmico (ISIS). Agora, com a nova ofensiva do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), corremos o risco de reviver suas atrocidades. O HTS uniu diversos grupos jihadistas, incluindo ex-combatentes do califado em suas fileiras. Recentemente, eles iniciaram uma grande ofensiva, rompendo o cerco de Idlib e provocando o colapso do Exército Árabe Sírio (SAA). Aleppo foi a primeira grande cidade capturada, com a apreensão de grandes quantidades de armamento avançado deixado para trás por soldados do regime.

As SDF reagiram rapidamente, enviando reforços para proteger o bairro curdo de Sheh Maqsoud, em Aleppo, bem como os campos de refugiados na região de Sheba. No entanto, as forças que representam o exército turco, o Exército Nacional Sírio (SNA), iniciaram uma nova ofensiva coordenada com o HTS, invadindo essa mesma região de Sheba. Os refugiados deslocados pela invasão turca de Afrin em 2018 são, mais uma vez, forçados a abandonar seus lares sob a mira de armas. Mais de 100.000 pessoas agora buscam abrigo em tendas improvisadas às margens do rio Eufrates, ainda ameaçadas por novos avanços de grupos jihadistas.

Esses novos desdobramentos agravam a instabilidade no Oriente Médio e devem ser analisados em conjunto com outros conflitos em curso na região. A ocupação israelense de Gaza, juntamente com os ataques contra o Hezbollah, enfraqueceram a posição do Irã na Síria, limitando sua capacidade de apoiar o SAA. Tropas russas, também enfraquecidas após quase três anos de guerra na Ucrânia, abandonaram várias posições terrestres e estão bombardeando brutalmente Idlib e Aleppo. Os Estados Unidos tentam se manter fora do conflito, sabendo que Trump pode pressionar pela retirada de suas tropas do território sírio. Os soldados turcos ainda não estão abertamente envolvidos, mas o Estado turco está mexendo os pausinhos do SNA para continuar suas políticas genocidas contra o povo curdo. Assad está tentando obter apoio internacional de outros países árabes, e o Irã já começou a enviar reforços para uma contraofensiva conjunta com o SAA. Em meio a esse caos, a Revolução de Rojava e o Movimento de Libertação Curdo resistem como a principal esperança para revolucionários no Oriente Médio.

A maior movimentação de forças na Síria nos últimos cinco anos está em curso e pode ter implicações que ainda não conseguimos prever. É uma situação complexa, e vemos como muitos jornalistas têm dificuldade em compreendê-la. Grande parte da mídia ocidental tem sido complacente com o avanço do HTS, chegando até a chamá-los de oposição revolucionária, “rebeldes” contra a ditadura de Assad. Também desejamos a queda do regime, mas o HTS e seu “governo de salvação” não são uma solução libertadora. Seu objetivo é substituir a dinastia Assad por leis da sharia e um estado islâmico, pouco diferente do que o Talibã está fazendo no Afeganistão ou do que a República Islâmica do Irã tem feito desde 1979. Esse não é um futuro que podemos aceitar, e muitos sírios também não aceitarão.

Nós, como anarquistas e internacionalistas em Rojava, desempenharemos nosso papel nesses tempos desafiadores. Lutaremos ao lado das SDF para defender e expandir o projeto revolucionário, construindo uma sociedade sem Estado onde prevaleçam os princípios do confederalismo democrático, pluralismo e da revolução das mulheres. Conclamamos todas as forças anarquistas e outros movimentos revolucionários, agora mais do que nunca, a defender Rojava!

Sabemos que a guerra traz sofrimento e destruição, mas também pode abrir oportunidades para uma vida livre para aqueles que estão prontos. Vimos o que a vitória sobre o ISIS nos possibilitou e estamos prontos para continuar lutando por um futuro melhor. Porque não temos medo de ruínas!

Muitos camaradas estão perguntando: O que posso fazer para apoiar a revolução?
  • Viajar para o Nordeste da Síria (NES) não é possível no momento, pois as fronteiras estão fechadas. Mas você pode garantir que o que está acontecendo na Síria seja conhecido, escrevendo artigos, realizando entrevistas, podcasts, organizando palestras e eventos em coordenação com comitês de solidariedade já existentes.
  • Se houver manifestações de solidariedade em sua região, participe e apoie! Se não houver, talvez você possa organizá-las!
  • Você também pode fornecer apoio econômico aos mais necessitados, já que a crise humanitária atual é crítica e requer nossa atenção. Para isso, a Heyva Sor, uma organização independente, já está trabalhando para apoiar e prover assistência aos afetados pela guerra no nordeste da Síria.

Isto está longe de acabar. Mantenha-se informado e prepare-se para os próximos acontecimentos!


PARA SABER MAIS:

“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA ©, .

]]>
A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2024/11/13/a-historia-se-repete-farsa-trump/ Wed, 13 Nov 2024 18:43:36 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3391 Continuar a ler "A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder"

]]>

Donald Trump venceu a eleição presidencial de 2024 nos Estados Unidos. Antifascistas, anarquistas e todos insubmissos deverão se preparar para lugar as mesmas batalhas de 2017-2020 novamente, em um terreno ainda mais perigoso, uma vez que Trump e sua base fascista conhecem melhor o terreno em que lutarão, além de terem mais cadeira no congresso e senado.

O retorno de Trump como presidente eleito pelo partido Republicano já é tratado como exemplo a ser seguido no Brasil por Jair Bolsonaro e seus familiares, que acompanharam de perto a apuração da eleição estadunidense. Apesar de condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral e tornado inelegível, Bolsonaro diz que será candidato voltar à presidência ou eleger um aliado próximo em 2026.

Outros paralelos entre o que aconteceu nos EUA e no Brasil podem ser traçados a partir da leitura do artigo a seguir, do coletivo CrimethInc., uma vez que desde a forma como concorreram, governaram e buscaram dar um golpe de estado ao perder a reeleições, um parece emular a cartilha do outro.

De qualquer forma, seja para combater o bolsonarismo nas próximas eleições, ou seus aliados ocupando cargos no executivo e legislativo, ou seus capangas ruas, é preciso avaliar como a esquerda brasileira fez de tudo para sabotar os protestos de rua, greves e organizações populares contra o governo Bolsonaro. Da  mesma forma que o partido Democrata condenou e atacou protestos radicais nos Estados Unidos, numa das maiores ondas de protestos de sua história, contra a polícia e o racismo.

Democratas tiraram a legitimidade de um levante popular amplo que trouxe ao debate a redução de investimentos em polícia e prisões, aceitando levar suas políticas ainda mais para a direita só para conseguir competir com Trump, enquanto abria caminho para o fascismo se radicalizar sem oposição popular. Por aqui, o ministro da Fazenda de Lula, Fernando Haddad, já avaliou como “moderada” a declaração de Trump ao anunciar vitória nas urnas.

Se não aprendermos com nossos erros por aqui e com a derrota da esquerda estadunidense, estaremos em desvantagem para enfrentar o fascismo que pode muito bem voltar ao poder em 2026, mas, o que é mais perigoso, se instalar no imaginário social como única saída “radical” para as crises do capitalismo.

Portando, publicamos e convidamos a todas as pessoas para entender a escala do que está acontecendo nos EUA e como foi o caminho até aqui.

Leia mais artigos do coletivo CrimethInc. em português aqui.


A batata quente muda de mãos novamente

Há muito tempo argumentamos que, no século XXI, o poder estatal é uma batata quente. Como a globalização neoliberal tornou difícil para as estruturas estatais mitigar o impacto do capitalismo sobre as pessoas comuns, nenhum partido é capaz de manter o poder estatal por muito tempo sem perder credibilidade. De fato, nos últimos meses, derrotas inesperadas minaram os partidos governantes na França, Áustria, Reino Unido, e Japão.

Na eleição de 2024, tanto Kamala Harris quanto Donald Trump já estavam manchados por seu relacionamento com o poder do estado, mas Harris era a única associada ao governo vigente e esta é uma das razões pelas quais ela perdeu. Dezenas de milhões de eleitores de Trump apoiam seu programa, sim, mas os eleitores que o empurraram para a vitória estavam essencialmente dando votos de protesto ao status quo.

Democratas fizeram tudo o que podiam para se associar à ordem dominante: movendo suas políticas para a direita, mudando o apoio de supostos “esquerdistas” dentro de suas fileiras, desmobilizando movimentos de protesto. Acontece que essa foi uma aposta perdida em um momento em que as pessoas estão sedentas por mudanças.

Resta saber como o resto do país responderá. Se a liderança do Partido Democrata for capaz de ceder e aceitar uma posição como sócios minoritários no fascismo, o futuro pode ser realmente sombrio. Por outro lado, se ficar claro que metade do país vai resistir ao programa Trump, parte da liderança Democrata será forçada a seguir sua posição como representantes dessa parte da população, como ocorreu em 2017.

O que acontecerá a seguir será decidido nas ruas.

O Partido da Cumplicidade

Republicanos se tornaram o partido do fascismo. Na preparação para esta eleição, os democratas se estabeleceram como o partido da cumplicidade com o fascismo.

O que significa reconhecer que Donald Trump é um fascista, mas não fazer nada além de incitar as pessoas a votarem contra ele? Se, de fato, Trump pretende introduzir o fascismo nos Estados Unidos — se, como ele prometeu explicitamente, ele irá perseguir milhões de pessoas (“a maior operação de deportação doméstica na história americana”), colocar os militares nas ruas para reprimir protestos e usar o sistema judicial para atacar qualquer um que se oponha a ele — então limitar-se à mera oposição eleitoral significa acolher o fascismo de braços abertos.

Quando o fascismo está a caminho, a coisa apropriada a fazer é organizar redes subterrâneas de resistência, como os antifascistas italianos e franceses fizeram nas décadas de 1930 e 1940. A coisa apropriada a fazer é se preparar para resistir por quaisquer meios necessários. Qualquer coisa menos que isso é cumplicidade.

Reformar as instituições que serão usadas pelos fascistas parar aplicar suas políticas é cumplicidade. Normalizar a violência contra as pessoas que os fascistas pretendem atacar é cumplicidade. Entregar as plataformas de comunicação por meio das quais as pessoas compartilham informações é cumplicidade. Desencorajar as pessoas do tipo de tática necessária para lutar contra um regime fascista é cumplicidade. Nos últimos quatro anos, os democratas fizeram cada uma dessas coisas.

A liderança do partido Democrata já está preparada para coexistir com fascistas, para ser governada por fascistas. Eles prefeririam o fascismo a mais quatro anos de protestos tumultuados. Ter um partido mais autoritário no poder lhes dá um álibi — os faz parecer bons em comparação, mesmo que sejam eles que canalizam as pessoas para fora das ruas e pavimentam o caminho para Trump executar seu programa.


O Caminho para o Fascismo

Vamos explicar por que os democratas são culpados por essa situação.

A Polícia

Democratas começaram a era Biden-Harris dobrando seu apoio à polícia, precisamente quando milhões de pessoas nos Estados Unidos estavam se perguntando se era hora de procurar uma maneira mais eficaz de lidar com a pobreza e as crises de saúde mental do que continuar canalizando grandes quantidades de financiamento público para a militarização dos departamentos de polícia. Quando Trump assumir o cargo novamente em 2025, os departamentos de polícia em todo o país que o governo Biden financiou e glorificou estarão na vanguarda da imposição da agenda de Trump.

A virada pró-polícia do Partido Democrata ajudou a trazer ex-policiais como o prefeito de Nova York, Eric Adams, para o gabinete em 2020. A administração de Adams tem sido um desastre; ele é atualmente o primeiro prefeito de Nova York a enfrentar acusações federais, incluindo suborno, conspiração e fraude. Desde então, Trump estendeu a mão para Adams, um homem forte corrupto para outro. É isso que acontece quando você coloca o poder do estado diretamente nas mãos das forças de repressão.

A Lei

Desde o início do primeiro governo Trump, os democratas concentraram suas críticas a Trump na ideia de que o que ele estava fazendo era ilegal, usando o slogan “Ninguém está acima da lei”. Como debatemos em 2018,

Se você está tentando estabelecer a base para um poderoso movimento social contra o governo de Trump, “ninguém está acima da lei” é uma narrativa autodestrutiva. O que acontece quando uma legislatura escolhida por manipulação eleitoral aprova novas leis? O que acontece quando os tribunais lotados com os juízes que Trump nomeou decidem a seu favor? O que você fará quando o FBI reprimir os protestos?

Agora, com a Suprema Corte controlada pelos indicados de Trump e este se preparando para retomar o poder, veremos as respostas para essas perguntas. Qualquer um que esteja determinado a impedir Trump de executar sua agenda precisará se preparar para quebrar as leis que a legislatura de Trump vai aprovar e os juízes de Trump irão aplicar.

Marchar sob a bandeira “ninguém está acima da lei” é cuspir na cara de todos aqueles para quem o funcionamento diário da lei é uma experiência de opressão e injustiça. É rejeitar a solidariedade com os setores da sociedade que poderiam dar a um movimento social contra Trump alavancagem nas ruas. Finalmente, é legitimar o próprio instrumento de opressão — a lei — que Trump eventualmente usará para suprimir seu movimento.

Como alertamos em julho passado, uma vitória de Trump significa que todas as instituições com as quais os centristas contavam para protegê-los — a política eleitoral, o sistema judiciário, a polícia, a inclinação dos cidadãos comuns de obedecer à lei e respeitar as autoridades — agora são armas nas mãos de seus inimigos.

A Mídia

Quando os donos do Twitter o venderam para Elon Musk em 2022, eles entenderam que estavam colocando o controle da principal plataforma de comunicação política do século 21 nas mãos de um megalomaníaco de extrema direita. Uma das primeiras coisas que Musk fez foi banir algumas das contas anarquistas mais conhecidas que ajudaram a mobilizar pessoas durante o primeiro governo Trump. Este foi um passo no processo de reduzir o Twitter a um veículo de propaganda de extrema direita.

Como apontamos na época,

A aquisição do Twitter por Musk não é apenas o capricho de um plutocrata individual — é também um passo para resolver algumas das contradições dentro da classe capitalista, para melhor estabelecer uma frente unificada contra os trabalhadores e todos os outros que sofrem a violência do sistema capitalista.

De fato, o financiamento de um grupo de bilionários foi um dos principais fatores que permitiram que Trump vencesse a eleição de 2024. Os bilionários conseguiram mudar sua lealdade para Trump em parte porque, com as plataformas de comunicação e os protestos de rua controlados, eles não precisaram temer que uma segunda administração Trump criasse um caos que seria ruim para os negócios.

Isso nos leva ao próximo ponto.

Esvaziando as Ruas

O esforço dos democratas para desacreditar e desmobilizar o movimento contra a polícia caiu diretamente nas mãos de seus adversários, preparando o caminho para Trump retornar ao poder sem resistência.

Ao competir com os Republicanos para se afirmarem como o partido da lei e da ordem, os Democratas permitiram que os Republicanos levassem o discurso sobre “crime” tão para a direita que Trump e seus capangas puderam usar a retórica de combate ao crime, embora crimes violentos tenham diminuído nos últimos anos. Isso contrasta dramaticamente com a maneira como Donald Trump se recusou a recuar seus pontos de discussão um milímetro sequer.

Ao mesmo tempo, Democratas buscaram impedir que novos movimentos ganhassem força. Quando o acesso ao aborto foi restringido em todo o país, por exemplo, os Democratas fizeram o melhor que puderam para impedir uma mobilização popular eficaz em resposta.

Beneficiou as perspectivas eleitorais dos democratas em 2024 esvaziar as ruas? Vamos voltar para 2020 para uma resposta.

Na época, em artigo de opinião após artigo de opinião, os centristas expressaram preocupação de que os confrontos de rua de maio e junho de 2020 pudessem influenciar a eleição para Donald Trump. Na verdade, o registro de eleitores democratas em junho de 2020 aumentou em 50%, enquanto o registro de eleitores republicanos cresceu apenas 6% naquele mês. Uma pesquisa entre o eleitorado constatou que, dentre as pessoas que citaram os protestos como um fator de determinação para votar em 2020, uma porção 7% maior disse que votou em Joe Biden.

Em outras palavras, a Revolta por George Floyd ajudou a eleger Biden.

E lembre-se: a Revolta de George Floyd não começou com uma campanha de registro de eleitores. Ela começou com a queima de uma delegacia de polícia. De acordo com uma pesquisa da Newsweek, 54% dos entrevistados acreditavam que queimar a delegacia era justificável. Se isso não tivesse ocorrido, o movimento não teria conseguido empurrar os assassinatos de George Floyd, Breonna Taylor e outros para o debate público, e não haveria ganho eleitoral para o Partido Democrata. Não há como criar movimentos poderosos sem tomar medidas reais contra as causas da injustiça.

Como o partido que coopta movimentos de resistência, os democratas teriam se beneficiado de movimentos mais poderosos em 2021-2024. Eles preferiram perder.

A Catraca Política

A campanha de Harris recebeu o apoio do ex-presidente George W. Bush, da ex-representante Liz Cheney, do apresentador de rádio conservador Charlie Sykes e de muitas outras figuras de direita. Isso não ocorreu apenas porque a agenda de Trump era chocante até mesmo para aqueles que antes representavam a face do establishment republicano — também porque Harris representava um projeto político centrista, deixando os Republicanos determinarem o discurso sobre questões como imigração.

Como já argumentamos anteriormente,

O sistema bipartidário dos EUA funciona como uma catraca, com o Partido Republicano puxando constantemente as políticas públicas e o discurso permitido para a direita, enquanto os Democratas, ao tentarem adquirir poder perseguindo o centro político, servem como um mecanismo que impede que as políticas e o discurso retornem.

Essa estratégia ajudou os Republicanos a normalizar o que antes eram ideias marginais sobre imigração e crime, mas não tornou os Democratas mais elegíveis.

Para voltar atrás no tempo, podemos ver que a vitória de Trump em 2024 marca uma virada crucial no discurso político do século XXI. Quando Trump foi eleito em 2016, o consenso neoliberal parecia invencível; sua vitória parecia representar um acaso em que um político atípico chegou ao poder cooptando a retórica do chamado movimento antiglobalização. Hoje, está claro que o auge do consenso neoliberal acabou e algo mais terá que vir a seguir. No entanto, por décadas, os democratas têm colaborado com os republicanos para esmagar movimentos que propunham uma alternativa. Eles suprimiram as forças dentro de seu campo, como a campanha de Bernie Sanders, que representavam um caminho a seguir; foi isso que tornou possível para Trump se apresentar falsamente como um representante da rebelião.

Isso tornou inevitável que a extrema direita detenha o poder na próxima fase, já que os Democratas ajudaram a suprimir alternativas anarquistas, antiautoritárias e de esquerda.

Dessensibilizando o Público

Finalmente, de forma dolorosa, o governo Biden já fez muito do trabalho para dessensibilizar o público em geral para o programa que um segundo governo Trump encorajado tentará executar. Acima de tudo, o governo Biden conseguiu isso apoiando os militares israelenses na execução de um genocídio brutal em Gaza. Ao fazer isso, Biden e Harris acostumaram milhões de pessoas à ideia de que a vida humana não tem valor inerente — que é aceitável massacrar, aprisionar e atormentar pessoas com base em seu status em um grupo demográfico específico.

Este é exatamente o tipo de ambiente que permitirá que Donald Trump execute o tipo de políticas internas brutais que ele pretende fazer quando retornar ao cargo em dois meses e meio.


O caminho à frente

No final das contas, não podemos culpar os Democratas por tudo. Nós falhamos em construir movimentos poderosos o suficiente para sobreviver aos seus esforços para nos suprimir. Nós ainda não estamos preparadas para impedir Trump de deportar milhões de pessoas e canalizar bilhões de dólares a mais para bilionários e o aparato de segurança do estado.

Felizmente, esta história ainda não acabou.

Temos a responsabilidade de não deixar que as estatísticas eleitorais nos desmobilizem. Como escrevemos em 2016, em resposta à primeira vitória de Trump,

As eleições servem para nos representar uns aos outros no nosso pior, destilando os aspectos mais ofensivos, covardes e servis da espécie. Muitas pessoas que nunca arrancariam pessoalmente uma mãe de seus filhos são capazes de endossar a deportação da privacidade de uma cabine de votação, assim como a maioria das pessoas que comem carne nunca poderiam trabalhar em um matadouro. Se não fosse pela alienação que caracteriza o próprio governo, a maioria das políticas feias que compõem a agenda de Trump nunca poderiam ser implementadas.

Haverá uma breve janela de possibilidade agora, quando milhões de pessoas que contavam com os Democratas para mantê-los seguros acordarem e perceberem que somos a única esperança um do outro. Temos que agir imediatamente para fazer contato uns com os outros, para restabelecer tudo o que perdemos desde o ano de 2020.

Temos que empreender projetos proativos que nos diferenciem dos partidos políticos, projetos que mostrem o que todos têm a ganhar com nossas propostas e que ofereçam oportunidades para pessoas de todas as esferas da vida se envolverem no projeto de mudar o mundo para melhor.

A boa notícia é que podemos fazer isso. Já fizemos isso antes. Nos vemos na linha de frente.


Leitura Adicional


A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder ©, .

]]>
O DESASTRE TEM NOME: CAPITALISMO – Anarquistas no Sul do Brasil Falam Sobre as Enchentes e a Solidariedade no RS https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2024/06/14/o-desastre-tem-nome-capitalismo/ Fri, 14 Jun 2024 15:05:55 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3359 Continuar a ler "O DESASTRE TEM NOME: CAPITALISMO – Anarquistas no Sul do Brasil Falam Sobre as Enchentes e a Solidariedade no RS"

]]>
Água invadindo a cidade de Porto Alegre em maio.

Nos primeiros dias do mês de maio de 2024, o território conhecido estado do Rio Grande do Sul, no assim chamado Brasil, foi atingido pela maior catástrofe climática de sua história. Mais de uma semana de chuvas intensas fizeram com que diversos rios transbordassem, arrasando dezenas de cidades e destruindo tudo no seu caminho, para então desaguarem no rio Guaíba causando a maior enchente já registrada na região da Grande Porto Alegre e outras cidades do estado. Até 1 de junho, 171 mortes foram confirmadas. Milhares de pessoas perderam tudo. 614 mil ficaram desabrigadas. Mais de dois milhões foram afetadas. Cidades inteiras praticamente apagadas do mapa pela força das águas.

Em números de pessoas afetadas e proporção dos danos materiais, a tragédia já supera a destruição causada pelo furacão Katrina na cidade em Nova Orelans, nos Estados Unidos em 2005. É o maior estrago econômico e estrutural causado por um evento climático no Brasil.

O Estado e o modo de produção capitalista têm responsabilidade direta pela devastação do planeta, produzindo cada vez mais catástrofes, derrubando florestas para dar lugar ao gado, às monoculturas e à mineração, degradando e impermeabilizando o solo com a expansão urbana. Em meio ao horror, fica evidente a completa incapacidade dos governos e dos ricos de cuidarem de nossas vidas e do nosso ambiente.

Município de Lajeado coberto de lama, após as águas da enchente de maio baixarem.

No centro dessa tragédia que anuncia uma nova realidade de eventos extremos cada vez mais frequentes, anarquistas, comunidades indígenas, quilombos e movimentos sociais organizam a solidariedade enquanto tentam reconstruir suas vidas e seus territórios gravemente afetados, seja pedindo e distribuindo doações, chamando por mutirões para limpar e voltar para imóveis atingidos, ou organizando novas ocupações de prédios vazios para abrigar pessoas que perderam suas casas.

Compilamos nesse artigo e em uma curta entrevista as reflexões sobre a atuação de anarquistas e outros movimentos de base atuando nessas campanhas por apoio mútuo em Porto Alegre e outras cidades atingidas pela maior enchente da história do Rio Grande do Sul.

Este artigo é também um vídeo produzido pelo coletivo Antimídia.

O ESTADO

No momento de um grande desastre “natural” – e até mesmo antes – o Estado deixa claro que sua prioridade nunca foi proteger nossas vidas. No longo prazo, o Estado brasileiro ignorou os alertas feitos décadas atrás sobre os perigos da devastação ambiental e das mudanças climática e também não tomou medidas eficazes para impedir catástrofes como esta. Mas mais do que isso, foi agente ativo da destruição – ora devastando de forma mais branda, ora devorando a terra de forma mais voraz. No governo neofascista de Bolsonaro, esse desprezo pela vida e ódio à natureza era escancarado. Mas mesmo os regimes sociais-democratas, incluindo governos progressistas de partidos como o PT, contribuíram em peso com o aquecimento global, apostando na indústria automotiva, na extração de petróleo e outras fontes de energia de alto impacto ambiental para alavancar o crescimento econômico. Em 2015, durante o governo de Dilma Rousseff, do PT, que relatórios científicos que apontavam para enchentes causadas pelas mudanças climáticas foram arquivados depois de serem considerados “alarmistas demais”.

Nos níveis estadual e municipal a negligência do Estado se repete com um impacto ainda mais direto e imediato sobre nossas vidas. Apesar dos repetidos comunicados dos sistemas meteorológicos, o governador e o prefeito não elaboraram planos nem realizaram alertas de evacuação adequados. Pelo contrário, não investiram o mínimo necessário na prevenção e proteção da população. O atual governador, Eduardo Leite (do partido de direita PSDB), retalhou a legislação ambiental do Estado para favorecer empresários e reduziu os investimentos na Defesa Civil durante seu governo. Quando questionado por jornalistas, Leite tentou justificar alegando que “tem esses estudos que, de alguma forma, alertam, mas o governo também tem outras agendas”.

Em Porto Alegre as comportas do dique que protegem a cidade falharam por falta de manutenção e erros no fechamento. O que ocorreu se tornou ainda mais grave pelo fato do DMAE (Departamento Municipal de Agua e Esgoto) ter acumulado as demandas do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), órgão responsável pelo sistema de diques, comportas e estações de bombeamento que protegem a capital gaúcha contra inundações, ter sido sucateado pelas últimas gestões da prefeitura de Porto Alegre. Segundo especialistas, a cidade não teria inundado se o sistema tivesse a manutenção e manejo adequados.

Para piorar o cenário, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, só decretou o racionamento de água depois que 85% da cidade já estava sem acesso à água potável. E a população de alguns bairros só foi avisada do desligamento das bombas que evitavam a inundação de suas casas depois delas terem sido desligadas, não lhes dando tempo hábil para evacuação.

CAPITALISMO É O DESASTRE

O modo de produção capitalista é a raiz das mudanças climáticas que ameaçam toda vida na terra. Ao mesmo tempo, as ações de corporações e grandes empresários que acumulam recursos materiais e financeiros fizeram pouco para ajudar nos resgates e aliviar o sofrimento da população. Pelo contrário, tornaram a situação ainda pior.

Os capitalistas fracassaram em manter os supermercados que ainda funcionavam abastecidos, pois ao estarem interessados no lucro das vendas, permitiram que pessoas com maior poder aquisitivo fizessem grandes estoques de água e mantimentos. Ao mesmo tempo, dezenas de lojas foram inundadas com água, alimentos e outros itens essenciais para a população trancados lá dentro sob a proteção de policiais e seguranças armados com fuzis, formando grupos paramilitares para impedir que pessoas famintas tivesse acesso a comida ou outros recursos. As empresas e o Estado se mostraram mais interessados em proteger essa mercadoria, do que deixar as pessoas terem acesso aos itens que mais necessitavam. Mesmo que esses itens fossem depois ser descartados ou indenizados por seguradoras.

Policial civil atira na direção de um suspeito de saquear supermercado em Porto Alegre.

Enquanto pessoas se voluntariavam para resgatar dezenas de milhares de cães, gatos e cavalos de telhados, montavam e organizavam espaços para acolhê-los, com atendimento veterinário e alimentação, empresas que comercializam animais abandonaram peixes, aves e mamíferos em suas gaiolas dentro das lojas inundadas, ao mesmo tempo em que se preocuparam em transferir os computadores para um andar mais elevado. Animais vendidos como objetos e abandonados para morrerem afogados, evidenciando a lógica desse sistema: para capitalistas, a vida é apenas mais uma mercadoria, a ser contabilizada e indenizada.

O pouco apoio que as grandes empresas ofereceram foi irrisório. A Grendene, uma das maiores produtoras de calçados do mundo, sugeriu que suas trabalhadoras doassem itens de suas próprias cestas básicas para pessoas atingidas pela enchente.

A indústria de bebidas Ambev, maior cervejaria do mundo, cujo lucro anual equivale ao dobro do orçamento da cidade de Porto Alegre, envasou água potável em latas de alumínio, constituindo mais uma ação de marketing do que qualquer forma de solidariedade real.

A FIERGS, entidade que representa as indústrias do Rio Grande do Sul pediu auxílio de R$100 bilhões ao governo federal para a recuperação das empresas atingidas pela enchente. Deixando claro que quando empresários falam em Estado mínimo, é apenas quando se trata dos interesses das pessoas menos favorecidas, mas querem um Estado forte para apoiar e defender os interesses da elite.

Defensores do capitalismo louvaram as ações de bilionários e empresários que doaram porções irrisórias de suas fortunas para ajudar as vítimas da enchente. Isso quando as boas ações não eram mentiras completas, como a imagem que mostraria um helicóptero do bilionário Luciano Hang resgatando pessoas ilhadas, que na verdade era uma imagem gerada por inteligência artificial.

Enquanto isso, pessoas comuns, inclusive algumas que perderam tudo, se mostraram muito mais solidárias e dispostas a ajudar, doando proporcionalmente muito mais de seus recursos que os super-ricos. Uma live solidária de uma banda de rock, arrecadou um valor maior do que as doações que o governo dos Estados Unidos e o bilionário egocêntrico Elon Musk enviaram para o Rio Grande do Sul, somados.

Isso pra não mencionar que capitalistas lucraram diretamente com a catástrofe, como os grandes mercados que venderam todos seus estoques de água engarrafada para pessoas desesperadas, muitas vezes a preços abusivos, e ainda tiveram recordes de vendas com a generosidade de pessoas comuns que compravam itens para doar a quem perdeu tudo. E vão continuar lucrando enquanto as pessoas afetadas e aquelas que se solidarizam com elas estiverem lutando para reconstruir o que foi perdido.

APOIO MÚTUO DE BASE

O apoio mútuo e a solidariedade entre pessoas atingidas se mostrou essencial para a sobrevivência e para não deixar a situação se tornar ainda pior. Ainda assim, a prefeitura de Porto Alegre tentou atrapalhar grupos voluntários que organizaram centros de doações em espaços cedidos e os mantiveram funcionando durante semanas, ao fazer acordos com os proprietários dos imóveis para que estes assumissem as operações que até então eram autogeridas pelas voluntárias, que foram então excluídas e criminalizadas. Em outro episódio, dia 20 de maio, a Polícia Militar apreendeu caminhão usado para distribuir comida a pessoas afetadas pelas enchentes. A polícia alegou que o caminhão da Cozinha Solidária da Azenha, ligada ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), estava sem licenciamento, porém não era possível fazer o licenciamento já que o sistemas estavam fora do ar em todo o estado devido aos efeitos das chuvas.

De fato, na grande maioria dos bairros, o auxílio às pessoas afetadas pela enchente ficou a cargo da própria comunidade e outros grupos voluntários que se articularam para garantir suprimentos de água, comida, roupas e agasalhos. Esse foi o caso das pessoas encarceradas ilhadas em presídios da região, sem acesso à água, alimento e itens de higiene. Coube às famílias, também afetadas pelas cheias, se organizarem para levar tais itens básicos e, assim, evitar o sofrimento ainda maior de pessoas sequestradas atrás das grades.

Cozinha Solidária da Azenha, organizada pelo MTST em Porto Alegre.

Outro exemplo é do Quilombo dos Machado, no bairro Sarandi, em Porto Alegre, que, com o apoio de outros quilombos urbanos da cidade, organizou essas operações por semanas, sem qualquer suporte do Estado. Como disse Luiz Machado, morador do Quilombo dos Machado, “esse acolhimento que o Estado devia estar fazendo, a comunidade, a gente pela gente mesmo está fazendo”. Quando a comunidade do Quilombo solicitou ajuda ao governador Eduardo Leite, do PSDB, este respondeu que “o Estado e o poder público não tem estrutura para atender todas as pontas”.

A cada declaração, as palavras do governador evidenciam uma versão da necropolítica brasileira e do racismo ambiental, desenhando um sistema voltado para cumprir demandas econômicas dos ricos, garantir lucros e votos em vez de destinar recursos para estruturas que podem salvar vidas – especialmente se for o caso de populações pobres, negras e indígenas, como é o caso dos grupos mais atingidos pelas atuais enchentes. Ressaltamos que não se trata de inação ou falha do Estado. Essas situações são partes do projeto de extermínio em curso.

Chamado para doações para ocupações anárquicas e autônomas atingidas pelas enchentes em Porto Alegre.

DEPOIS DA CATÁSTROFE: AÇÃO DIRETA

Os governos municipais e estaduais pretendem construir cidades temporárias para as dezenas de milhares de pessoas desabrigadas, até que os bairros onde moravam sejam reconstruídos ou novas habitações sejam construídas em outros locais. No entanto, a construção de moradias temporárias são desnecessárias e apenas desperdiçarão materiais e energia. Só em Porto Alegre existe mais de 100 mil residências vazias. No centro da cidade, 30% das habitações estão desocupadas. Um número 10 vezes maior do que o número de lares temporários planejados na cidade. Esse plano nada mais é do que mais uma forma de gerar lucro para as empreiteiras e para políticos alavancarem sua popularidade através de medidas populistas e ineficazes, que não atacam as raízes do sofrimento e da desigualdade. Pior do que isso, é uma tentativa de deslocar a população pobre e negra para longe de áreas cobiçadas pelo Estado e por empreiteiras, abrindo caminho para a apropriação de seus antigos lares por construtoras e seus projetos predatórios.

Como resposta ao problema da falta de moradia, novas ocupações de prédios estão surgindo. Um movimento autônomo de pessoas desabrigadas ocupou um antigo hotel abandonado no centro de Porto Alegre para acolher 45 famílias. O Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLN) ocupou também outro prédio, agora chamado de Ocupação Rexistência, dedicado a abrigar dezenas de famílias de pessoas atingidas pela atual crise. Membros do movimento alegam que não querem a construção de uma “cidade provisória” para famílias afetadas, e sim que os imóveis vazios sejam destinados imediatamente para a moradia. No dia 8 de junho, o MTST ocupou um prédio abandonado de 25 andares do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), também em Porto Alegre, para abrigar famílias desabrigadas pelas enchentes. Provando mais uma vez que os movimentos sociais e a ação direta estão sendo muito mais eficientes do que os governantes para abrigar as 160 mil pessoas que perderam suas casas.

Ocupação Maria da Conceição Tavares, surgida em junho, em Porto Alegre para abrigar vítimas das enchentes.

Para políticos e empresários, a reconstrução da cidade é uma oportunidade de lucrar. Serão necessárias quantidades gigantescas de materiais para reconstruir a infraestrutura e as casas destruídas pela água. E capitalistas vão lucrar produzindo e vendendo esses materiais. Empresas serão contratadas através de licitações feitas às pressas. E, como em toda ação do Estado aliado ao Capitalismo, haverá atrasos, corrupção, superfaturamento, desvio de verbas, favorecimentos.

Não vamos nos iludir, pois nem mesmo os supostos governos de esquerda, como o governo federal do PT, têm coragem e poder para atacar de frente o capitalismo e sua turba de defensores reacionários. Não importa qual partido estava ou estará no governo, da centro-esquerda democrática do PT até a extrema-direita lunática de Bolsonaro, o Estado brasileiro está intrinsecamente conectado ao capitalismo, ao enriquecimento de uma elite, barganhando o futuro da vida no planeta em troca de governabilidade.

CONCLUSÃO: NÃO EXISTE CATÁSTROFE NATURAL

A tragédia que devastou o território ocupado pelo estado do Rio Grande do Sul não foi simplesmente uma catástrofe natural inevitável. É mais um em uma série de eventos climáticos extremos que estão acontecendo com frequência e intensidade cada vez maior como resultado de décadas de destruição e exploração do planeta, ignorando alertas de cientistas e reprimindo a autodeterminação e resistência de movimentos sociais e povos tradicionais, em nome do crescimento econômico. Um sistema brutal onde Estado e capitalismo se unem para saquear a terra e explorar nossos corpos, ao mesmo tempo em que sabotam medidas que podem diminuir ou evitar os impactos desses eventos na vida da população.

Sentimos localmente as consequências de um problema global. O mesmo sistema que causa inundações no Rio Grande do Sul causa incêndios no Pantanal e na Amazônia, promove genocídio em Gaza para controlar reservas de gás natural e oprime estudantes que se levantam contra esse massacre; contamina a água, viola territórios indígenas e afunda bairros inteiros para arrancar da terra minérios cobiçados, destrói florestas, oceanos, montanhas e desertos para garantir lucro a um punhado de pessoas privilegiadas, enquanto condena bilhões ao sofrimento e à miséria.

Se por um lado o Estado e o capitalismo mostraram mais uma vez que sua prioridade não é o bem-estar da população ou a vida de modo geral, por outro pudemos perceber que a solidariedade brota espontaneamente e somos capazes de nos apoiar mutuamente, suplantando até sérias diferenças ideológicas.

Milhares de pessoas tomaram a frente e organizaram resgates, com seus próprios recursos, arriscando suas próprias vidas para salvar a de outras pessoas, humanas ou não. A criação de abrigos e pontos de apoio como centros de distribuição de doações e cozinhas solidárias e emergenciais, que produzem diariamente milhares de marmitas para as pessoas desabrigadas, transportadas por motoristas voluntárias. Tudo mantido por uma rede massiva de solidariedade, que se estendeu para fora das regiões afetadas pelo desastre, se alastrando por todo território ocupado pelo Estado Brasileiro, e outros países.

Quando o desastre se instaurou, a meritocracia e o individualismo foram rapidamente deixados de lado pela maior parte da população, que dedicou seu tempo a ajudar outras pessoas sem se perguntar se elas mereciam aquela ajuda e sem esperar qualquer recompensa por isso. Pessoas que pagaram do seu próprio bolso para garantir que outras pessoas tivessem o que vestir e o que comer, compartilhando recursos materiais sem exigir uma troca financeira. Foram essas pessoas que colocaram suas vidas em risco para garantir a sobrevivência de outras. No meio da catástrofe, muitas as tiveram a chance de perceber que estamos todas juntas nisso e que dinheiro é de pouca ajuda quando não há mais água para vender no mercado.

O Estado e o mercado farão o que estiver ao seu alcance para assumir e centralizar as ações de solidariedade auto-organizadas. Seja tomando à força o controle das operações, requisitando os imóveis utilizados para retomada de aulas ou dos trabalhos, coagindo as pessoas a voltarem aos seus empregos ou formalizando e institucionalizando as organizações que permanecerem. Nossa auto-organização e nossa solidariedade irrestrita são uma ameaça real ao governo e ao capitalismo, pois eles dependem da nossa desunião, da nossa indiferença e inação frente ao sofrimento das outras pessoas.

Para evitar que capitalistas usem essa e as próximas catástrofes para avançar seus projetos destrutivos precisamos continuar nos mobilizando e nos coordenando. Cabe a nós nos organizarmos para tomar e ocupar imóveis ociosos e abandonados e garantir que sejam usados para benefício de nossas comunidades. Certificar-nos que prédios de igrejas sejam usados para apoiar pessoas em necessidade e não para espalhar ódio e intolerância. Lutar para que ninguém lucre com a tragédia, para que os recursos sejam distribuídos a quem precisa. Se precisamos reconstruir nossas vidas e nossas cidades, vamos ter certeza de construir algo melhor, mais justo.

Se o que se chama de humanidade tem futuro, esse futuro será coletivo. Ou, simplesmente, não será.


Entrevista com membros do Território Okupado dos Mil Povos

A Okupa dos Mil Povos é uma ocupação com quase 20 anos de história em Porto Alegre. Localizada em um dos bairros mais afetados pela enchente, o território ficou submerso por 24 dias. Dentre os habitantes, estão crianças, cães e gatos que ainda sofrem com os efeitos da água, da lama, dos óleos e produtos químicos que restaram depois das enchentes. Além dos efeitos causados pelos produtos para limpeza pesada necessários para reativar e retomar o espaço. Nessa breve entrevista, conversamos com participantes da ocupação sobre os desafios e os trabalhos de solidariedade e captação de recursos para recuperar o espaço e retomar a vida após a tragédia, agora que, mais do que nunca, catástrofes climáticas não são mais uma ameaça futura, mas parte do presente de todos que sobrevivem ao capitalismo.

1. Fale um pouco da Okupa dos Mil Povos, sua atuação nos últimos anos e como as enchentes de maio afetaram os espaço, a vida e as atividades no espaço.

O Território Okupado dos Mil Povos nasce como um coletivo autônomo no começo do ano de 2021. Este coletivo anárquico, composto por várias pessoas vindas de diferentes partes do mundo, surge dentro de uma okupa surgida em 2005 quando expropriou o capitalismo e a especulação imobiliária para construir uma alternativa real à vida inerte do neoliberalismo imperante. Nestes poucos anos de vida como coletivo deu rédea solta ao acúmulo de conhecimentos que o Movimento Anarkopunk construiu durante décadas, seguindo também a herança rebelde e combativa de muitas gerações de anarquistas que deram suas vidas para construir o presente de luta que hoje levamos a cabo com autogestão e ação direta. Temos sido parte ativa da Teia dos Povos em luta do Rio Grande do Sul, criando e mantendo uma banca de difusão de material teórico e gráfico por 2 anos, aproximando as pessoas das ideias de autonomia da Teia que se expande por todo o Brasil.

Construímos junto com aldeias indígenas e quilombolas a 5ª Assembleia dos povos (2022), realizamos também jornadas de saúde com indígenas Warao que imigraram desde a Venezuela, autofinanciamos com rifas e vendas de camisetas serigrafadas a casa de cura e reza para a comunidade Kaingang na retomada em Canela, na Serra Gaúcha, bem como muitas jornadas de construção, hortas, muralismo (2022), conversas e discussões. Fomos parte de um coletivo de propaganda e muralismo que se reunia no Ateneu Batalha da Várzea (2021, 2022). Neste Ateneu nosso coletivo realizou em 2022 uma jornada de difusão sobre os conflitos na América Latina que chamamos de “latinoamérica em chamas”, onde tivemos participações desde a Colômbia, Equador e Chile.

Realizamos chamados abertos de manifestações de rua, denunciando a perseguição e desaparecimento de indígenas Yanomami (2022) e em apoio ao povo colombiano em 2021. Visitamos, acompanhamos e promovemos retomadas de territórios ancestrais ao lado de povos indígenas Kaingang, Xokleng e Guarani. Escrevemos pelos muros da cidade de Porto Alegre mil vezes, de dia e de noite, em manifestações ou na escuridão da noite.

As inundações de maio somente confirmam e reafirmam que a luta contra o capitalismo e os Estados de todo o mundo é cada dia mais imprescindível e vital. Nossa casa, junto com o espaço comunitário, ficou debaixo d’água, debaixo do barro, dos químicos e óleos contaminantes por mais de 20 dias. Seguiremos limpando e continuaremos construindo autonomia e rebeldia popular anárquica, sem líderes nem partidos, até destruir o último pilar da sociedade carcerária.

Território Okupado dos Mil Povos

2. Como tem sido organizadas as ações de apoio mútuo agora, um mês após as enchentes?

Agora, após o primeiro mês desde a inundação, já não sobra mais doação que não seja institucionalizada ou burocratizada com registros sociais e persoais. Neste contexto, para nós é muito difícil recuperar algo desde essas plataformas. Nossas únicas entradas de dinheiro, por assim dizer, são de companheirxs solidárixs e de pessoas conhecidas que sabem de nossa situação e nos ajudam com alguma coisa. Seguimos muito necessitadxs de coisas básicas como camas, uma cozinha e uma geladeira. São coisas que não temos acesso por falta de recursos econômicos, com nossos trabalhos não conseguimos cubrir os gastos de coisas como essas. No começo chegaram todas as ajudas e, apesar de não ter sido suficiente frente a tudo o que perdemos, ficamos muito felizes de sentir e ver o apoio mútuo de pessoas, em especial dos meios anárquicos, que é onde mais se vê a solidariedade em um momento de perdas como este. Também vemos uma constância na geração e acumulação de dados por parte da maioria das ONGs e instituições de entrega.

3. Quais ocupações foram afetadas e como tem sido a colaboração entre centros sociais radicais, ocupações e outros movimentos para se reerguer?

Em Porto Alegre existem várias okupações, todas muito diferentes umas das outras, de tendências de esquerda e outras também anarquistas, de dissidências de gênero etc. Desde nossa experiência enquanto casa, creio que o apoio entre esses centros tem sido quase nulo, é triste, mas real. Existe um centro social não okupado que fez uma ponte entre esses espaços anarquistas, o coletivo “Esp(A)ço” fez uma campanha grande onde conseguiram comprar algumas ferramentas coletivas que, em certo sentido, foi a ponte para o mínimo de diálogo e comunicação. É importante assinalar que as relações de afinidade pessoal também levam e trazem esse fluxo de comunicação que não é tão visível, mas existe. No final das contas, todxs sabemos como estão xs companeirxs de outros espaços por esse boca-a-boca que desde as sombras se comunica. Outros canais de entrega de doações normalmente são muito limitados e precários, além de burocráticos. Em geral nós recebemos pouca coisa e nos dedicamos a contribuir com outros espaços de resistência, apesar de não sermos tão próximxs em relação ao pensamento e a ação. Vemos a urgência da necessidade de coordenação mínima de espaços anárquicos e também na construção de instâncias colectivas meramente ácratas.

4. Como pessoas de fora do Rio Grande do Sul e também de fora do Brasil podem ajudar o trabalho de reconstrução e retomada das atividades nas ocupações em Porto Alegre e região?

Para responder a última pergunta, gostaríamos de dizer que vemos a solidariedade ácrata desde vários pontos de vista. O primeiro é o material, sem dúvida, muitas vezes é urgente para o cotidiano e a subsistência. Nesse sentido, ainda temos canais abertos para receber apoios desde qualquer parte do planeta. Acreditamos que a solidariedade combativa é muito importante. Seguir fortalecendo a luta frontal contra todas as estruturas de poder também faz parte da ferramenta chamada solidariedade. Outra dimensão importante que vemos é a comunicação para além do Instagram ou Facebook. A conversa direta é importante para aproximarmos as diferentes realidades e gerar afinidades futuras. Para terminar, agradecemos a todxs que ainda acreditam que a anarquia é possível, que construí-la é uma tarefa cotidiana e que se esforçam para viver cada dia mais concretamente suas ideias de liberdade!!!

Abrazos para todxs!!!

Desde el territorio okupado de los mil pueblos,
8 de junio 2024, Porto Alegre
Individualidades organizadas y colectivo anárquico de los mil pueblos


APOIE O TERRITÓRIO OKUPADO DOS MIL POVOS CLICANDO AQUI.

BAIXE ESSE ARTIGO COMO ZINE PARA IMPRIMIR CLICANDO AQUI.

O DESASTRE TEM NOME: CAPITALISMO – Anarquistas no Sul do Brasil Falam Sobre as Enchentes e a Solidariedade no RS ©, .

]]>
Contra a Criminalização da Revolta! Fim do processo contra Caio e Fábio! https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/11/29/fim-do-processo-contra-caio-e-fabio/ Wed, 29 Nov 2023 16:11:41 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3349 Continuar a ler "Contra a Criminalização da Revolta! Fim do processo contra Caio e Fábio!"

]]>

2013: 10 anos depois, a revolta pode ir a julgamento novamente

A justiça do estado do Rio de Janeiro definiu a data do júri popular dos ativistas Fábio Raposo Barbosa e Caio Silva de Souza, acusados pela morte do cinegrafista Santiago Andrade em fevereiro de 2014. A sessão plenária do 3º Tribunal do Júri está prevista para as 12h, do dia 12 de dezembro de 2023. Fábio e Caio respondem por homicídio doloso qualificado e explosão. Há quase dez anos, Santiago foi atingido por um rojão na cabeça enquanto registrava confrontos entre manifestantes e policiais sem qualquer tipo de equipamento de proteção, para a TV Bandeirantes, no Centro do Rio, perto da Central do Brasil. Apesar do que o Estado, através do punitivismo populista penal e a mídia, através do linchamento discursivo, tentam emplacar, Caio e Fábio não poderiam ser responsabilizados pela morte de Santiago Andrade. A explosão de um artefato como aquele não tem previsibilidade e, portanto, qualquer noção de intenção teria que ser descartada. Se fizéssemos dez reconstituições do incidente, obteríamos dez resultados diferentes. Além disso, não existe nenhuma prova conclusiva de que o morteiro que acertou o jornalista tenha sido disparado pelos manifestantes, já que existem relatos de testemunhas, de que naquele dia, a própria polícia estava com morteiros.

A criminalização de Caio e Fábio se confunde com a própria criminalização da revolta popular, e foi a maneira que o Estado encontrou para tirar as pessoas das ruas no Rio de Janeiro. Lembrando que até aquele momento na cidade as manifestações atraíam grandes massas e contavam com grande apoio popular. Somente através da fabricação de uma acusação de assassinato, diante de um terrível e evitável acidente sofrido pelo jornalista Santiago foi possível emplacar um discurso para fazer as pessoas temerem sua própria capacidade de insurreição. Importante ressaltar que a rede Bandeirantes enviou Santiago para uma zona de conflito sem nenhum material de proteção.

Diante disso, o julgamento segue confirmado sem que a rede bandeirantes tenha liberado as imagens completas que estavam na câmera do jornalista quando foi atingido. A emissora foi intimada a entregar essas imagens, mas entregou apenas uma parte claramente editada. Não podemos então deixar de perguntar: o que há para se esconder nesses arquivos? Por que querem que os manifestantes sejam julgados sem que essas imagens apareçam? Nossa luta neste momento é para que o julgamento seja adiado e não ocorra dia 12 de dezembro sem que a defesa tenha acesso às imagens completas, garantindo assim o amplo direito de defesa de Caio e Fábio. Mas é também pela sua absolvição e pela extinção de todos os processos fabricados, envolvendo manifestantes e lutadores das jornadas de 2013.

Sabemos que os verdadeiros assassinos seguem matando diariamente e de muitos modos na nossa sociedade. Sabemos que o caso em questão é apenas mais um para barrar a autodefesa popular e criar uma situação de pânico diante da exploração da morte e do sofrimento pela mídia, que sabemos ser sempre convenientemente seletiva, para que a revolta seja tirada de cena. Fazer isso é instrumentalizar a morte e a dor das pessoas para um fim político e de controle social. Não há qualquer respeito genuíno com o sofrimento das pessoas quando se usa vidas dessa forma. O que é, aliás, o modo geral de proceder do capitalismo: a instrumentalização dos afetos.

O caso lembra o que ocorreu na Grécia, em 2010, quando um incêndio em um banco durante um protesto levou três pessoas a óbito, e isso foi amplamente usado para jogar a opinião pública contra os protestos, esvaziar as ruas, e gerar um pânico na população, como se se rebelar pudesse gerar mais mortes do que as próprias políticas de austeridade que se pretendia barrar. Sabemos, entretanto, que isso não é verdade, que os bancos ceifam direta e indiretamente muito mais vidas do que qualquer incêndio. Que se as mortes convenientes, quando não são diretamente fabricadas, são pelo menos facilitadas e exploradas para abafar as revoltas. As inúmeras mortes diárias contra as quais nos revoltamos seguem numerosas e constantes, sendo naturalizadas e tomadas como inevitáveis.

A morte de Santiago não foi a única morte em contexto de manifestações, tivemos manifestantes jogados de uma ponte pela polícia; tivemos professoras asfixiadas com gás; e não é como se não morressem tantas pessoas diariamente pela violência policial; pela precarização da vida; pelos motivos que justamente levaram a população às ruas para protestar. Mas as mortes invisíveis, de tantas pessoas matáveis, foram contrapostas pela morte de um “cidadão de bem”, o acidente conveniente foi então usado como instrumento e moeda de troca para que a revolta se tornasse condenável. Mas quem usa pessoas como moeda, que nos usa como um meio para aumentar suas riquezas e poderes, não se importa de fato com a vida. Por isso defender Caio e Fábio é defender a possibilidade da revolta, é defender o direito a uma outra forma de vida diante do capitalismo que cada vez mais nos tira as mínimas condições de sobrevivência. Somos todys nós que não nos conformamos com essa vida sem o mínimo, que não nos calamos diante das opressões, e que lutamos por uma outra sociedade livre e igualitária, que também estamos indo a júri sem direito de defesa.

FIM DO PROCESSO PARA CAIO E FÁBIO!

NÃO PODE HAVER JÚRI SEM ACESSO ÀS IMAGENS!

VIVA A ANARQUIA!

Contra a Criminalização da Revolta! Fim do processo contra Caio e Fábio! ©, .

]]>
BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 10 anos de uma das ações radicais mais emblemáticas de 2013 https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/10/30/black-blocs-libertacao-animal-10-anos/ Mon, 30 Oct 2023 23:14:33 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3324 Continuar a ler "BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 10 anos de uma das ações radicais mais emblemáticas de 2013"

]]>

Exatamente 10 anos atrás, em outubro de 2013, um protesto contra o uso de animais em testes realizados em um laboratório no interior do estado de São Paulo se transformou em uma das mais emblemáticas ações diretas daquele ano que mudou o cenário político e os movimentos sociais no Brasil. O evento por si só já chama a atenção pelo tamanho, pela eficiência das diferentes ações e pelo sucesso alcançado, ainda mais no contexto brasileiro, pouco familiarizado com ações radicais pela libertação animal aliada a uma perspectiva anticapitalista.

Acreditamos ser importante revisitar tais acontecimentos para aprender com suas limitações e desenvolver seus acertos no que diz respeito a diversidade de táticas, coordenação de diferentes movimentos, radicalidade e contundência da ação que pode inspirar outros grupos e novas campanhas. Para isso, revisitamos essa breve análise e entrevistas feitas logo nas semanas seguintes com duas participantes das linhas de frente dessas ações.

A ação em São Roque: bons exemplos mas não um modelo pronto

Após dias acorrentadas nos portões do Instituto Royal, na cidade de São Roque, denunciando o uso e o assassinato de animais com técnicas como a vivissecção (cortar animais ainda vivos e sem anestesia para experimentações), ativistas atraíram a atenção da mídia e de outras organizações para a causa. E na madrugada do dia 18 daquele mês a manifestação se tornou uma ação de resgate dos animais que libertou quase 200 cães da raça beagle e dezenas de ratos. Toda a ação foi fotografa e filmadas pelas participantes.

Do lado de fora do laboratório, a estrada foi tomada por barricadas logo pela manhã. Uma viatura da polícia militar e um carro da imprensa foram queimados por manifestantes. Algumas pessoas menos acostumadas com a dinâmica de resistência em protestos de rua ainda tentaram formar uma barreira para proteger os carros de emissoras de TV da destruição, mas não adiantou. Do lado de dentro, jaulas foram esvaziadas, computadores, documentos e materiais de pesquisa foram destruídos. Paredes pixadas por símbolos da Frente de Libertação Animal (ALF) e ruas tomadas por Black Blocs que montaram barricadas para impedir que a tropa de choque chegasse ao laboratório e prendesse manifestantes.

Carro de emissora de TV depredada e viatura da Polícia Militar incendiada na estrada em frente ao laboratório.

Para muitas pessoas ali, era como se enfim chegasse o dia que toda uma geração de movimentos pela libertação animal, anticapitalistas e anarquistas sonharam e trabalharam para ver. Era o momento em que táticas radicais se encontram, convergem permitindo que movimentos distintos, com táticas distintas, operassem em conjunto para uma ação efetiva. Foi possível atingir tanto seu objetivo imediato (resgatar os animais e impor consequências ao laboratório pelo uso e tortura dos mesmos), quanto objetivos de médio e longo prazo (o fechar o laboratório e a educar a opinão pública sobre o tema). A ação chamou a atenção do público geral e tomou as notícias em todo o país, provocando uma mudança inédita no imaginário das pessoas sobre o que é possível fazer em uma ação direta pelos animais e educando as pessoas sobre o quão perverso e inútil são os testes em animais e o uso dos animais para qualquer fim. Tudo isso devido a uma janela de possibilidades aberta nas ruas em junho de 2013 nos grandes levantes contra o aumento das passagens no transporte público.

A invasão do Instituto Royal é um exemplo emblemático mas que também desperta curiosidade e demanda reflexão. Como nas ruas tomadas na luta contra o aumento em todo o país em junho daquele ano, a batalha em São Roque contou com a presença de uma grande diversidade de pessoas. Diferentes idades, posições políticas, classes sociais e também diferentes táticas e modos de luta e organização: ativistas que defendem o “bem estar animal” (ou que focam sua ação apenas em cães e gatos) estavam lado a lado com grupos veganos anticapitalistas. Personalidades da TV ou manifestantes de classe média que defendem a causa animal protegidas atrás de barricadas feitas por Black Blocs anarquistas. Um mosaico de inúmeras formas e contextos de luta se aliaram com um objetivo comum. A articulação prévia de longos dias foi organizada por um número reduzido de pessoas e catalisou a luta que surgiu de forma espontânea para centenas de pessoas que aderiram ao movimento imediatamente após um chamado aberto para a ação direta. Uma estratégia improvisada e repentina se tornou a principal arma contra uma polícia despreparada e incapaz de prever os movimentos de pessoas determinadas a agir.

Animais foram resgatados, o laboratório declarou falência e o impacto nas leis e na opinião pública foi maior do que todo o ativismo estritamente legalista ou outros protestos simbólicos contra a empresa durante os cinco anos anteriores: até o início de 2014, novas leis que regulam e restringem o uso de animais em testes foram aprovadas, incluindo a proibição desse tipo de teste para cosméticos em todo o país. O que nos prova que mesmo quando as pessoas querem apenas reformas, novas leis ou o fim de uma instituição opressiva, é melhor demonstrar força popular para realizar essas mudanças por nossas própria ações do que pedir pacificamente e esperar a boa vontade de poderosos. Se nos mostrarmos irredutíveis e com disposição para ação, as autoridades vão correr para nos atender antes que consigamos algo por nossa conta. Nesse momento é que os movimentos devem buscar ainda mais força para dobrar as autoridades.

Manifestantes rompendo as barreiras policiais e ativistas resgatando cães dentro das dependências do Instituto Royal.

A invasão ao Instituto Royal serve com um exemplo de sucesso obtido quando a organização de longo prazo encontra a imprevisibilidade de ações imediatas, inovadoras e capazes de mudar de táticas para encontrar uma brecha no sistema, antes que a repressão policial seja capaz de reagir à altura. Questionando o discurso tradicional das lutas sociais legalistas, vimos que a diversidade de táticas e de formas de organização, quando aliadas, podem ser a chave para vitórias que tornam possível o que era até mesmo impensável.

Ainda assim, o episódio é um bom exemplo e não um modelo ou receita a serem seguidos metodicamente. Mais do que buscar repetir suas táticas e etapas de ação, é preciso entender e assimilar as posturas que permitiram o sucesso da ação. Mesmo conflituosa e divergente para muitas pessoas que participaram, a ação mostra que uma diversidade de táticas e frentes de luta diferentes pode ser muito mais eficientes, tanto a curto quanto a longo prazo. Diferentes níveis de luta, como ação direta e confronto com forças de repressão, mídia independente e autônoma, comissões legais e porta-vozes, ajudam a distribuir a legitimidade dos movimentos e torna difícil a tentativa do Estado de isolar e silenciar “minorias infiltradas” ou “grupos radicais” do resto da luta. Essa harmonia e cumplicidade entre formas diferentes de ação se mostrou muito efetiva para libertar os animais, impor danos ao laboratório e não dividir o movimento entre “legítimos” e “ilegítimos”, “legais” ou “ilegais”, impedindo que as autoridade encontrassem divisões fáceis entre participantes que permitisse isolar e prender quem realizou ações ilegais de invasão, dado a propriedade.

O sucesso imediato e a continuidade do debate sobre o uso de animais como objetos e sua condição de propriedade em um sistema capitalista conseguem ir para além do reformismo bem-estarista (que visa apenas regular o uso de animais) e desafia o moralismo burguês dos movimentos abolicionistas (que lutam para que nenhum animal seja considerado propriedade) que se baseiam, muitas vezes, em princípios pacifistas como valores absolutos.

Black Blocs formando um cordão de proteção para bloquear o avanço da polícia em direção ao laboratório.

É necessário sempre repensar táticas, ser capaz de inovar e sempre fazer uma autocrítica. Não há problema na radicalização das ações antiautoritárias e de libertação. O problema não é atacar ferozmente o sistema, mas sim não continuar atacando. Somente a radicalização aliada ao debate sobre uma diversidade de táticas e discursos pode impedir que a legitimidade das lutas seja determinada pela mídia, pelo Estado ou por ativistas privilegiados – empresários, apresentadoras de TV e políticos – que buscam sequestrar lutas sociais organizadas por pessoas anônimas ou invisibilizadas como forma de acumular ainda mais poder e privilégios.

Para compreender um pouco mais de como foi a luta por trás das barricadas e por baixo das máscaras, publicamos aqui dois relatos escritos por pessoas que estiveram na invasão do laboratório. Elas contam como foram esses momentos de luta e descrevem sua importância para ações futuras. É preciso mais debates e, principalmente, mais ações que desafiam as leis e as “receitas de bolo” revolucionárias.

Por uma luta de libertação animal e humana total, radical e anticapitalista!

Primeiro Relato:

Em meio ao instável cenário político que veio após os protestos de junho de 2013, ativistas pelos direitos animais começaram uma campanha para fechar o Instituto Royal, um laboratório localizado no interior do estado de São Paulo conhecido pelos testes em animais e pelas práticas de vivissecção.

Após alguns dias atraindo atenção para o assunto e para esse estabelecimento em particular, a noite que mudaria como a mídia, a população e até legisladores encaram a vivissecção estava por vir. E sua história seria escrita através da ação direta. Naquela noite, em especial, as pessoas se reuniam em frente ao portão do laboratório atraídas pelas notícias que circulavam nas mídias sociais. No momento que cheguei àquela área rural cortada por estradas de terra e algumas poucas casas, a polícia estava guardando os portões e podíamos ver funcionários e seguranças privados andando dentro do prédio. Caminhões entravam e saíam, aparentemente, levando documentos e animais por medo de uma invasão. Mas essa não era uma ação da Frente de Libertação Animal (ALF). Pessoas de todos os tipos estavam presentes. Algumas só se importavam com os beagles, outras com apenas cães e gatos em geral, outras eram ativistas dos direitos animais. Black Blocs também estavam lá e até apresentadoras de TV que apoiam causas animais chegaram pois a mídia começou a divulgar que uma invasão estaria para acontecer. O que fez com que a mídia burguesa aparecesse e também mais pessoas em geral.

A polícia logo ficou em menor número e claramente incapaz de lidar com o fenômeno que tomava forma ali. É importante lembrar que São Roque fica a uma hora de qualquer cidade maior. Em poucas horas éramos muitas à postos naquela estrada sem saída cercada de mato. A estrada termina em um portão com uma largura que cabe 15 pessoas enfileiradas. De repente não parecia mais ser uma barreira e a polícia já demonstrava não estar preparada para a situação. O que pode dizer que eles poderiam reagir de forma desproporcional, mas como não se tratava do batalhão de choque, era mais provável que iriam apenas recuar. Especialmente devido à diversidade da multidão composta por senhoras de cinquenta ou sessenta anos junto a estudantes e pessoas vestidas como um Black Bloc.

Por volta da meia noite os carros do laboratório não conseguiam mais sair pelo portão e os latidos dos cães nos lembrava que as pessoas do lado de fora não eram as únicas apreensivas. Redes sociais funcionavam fortalecendo centenas de nós que estavam ali. Às duas da manhã, no dia 18 de outubro, ficou óbvio que haveria uma invasão. Bastou alguém tomar a iniciativa de começar a bater no cadeado do portão com uma pedra para que todo mundo ver que estava na hora. O portão já estava sendo derrubado enquanto gente cortava as cercas e a multidão pressionava em todas as possíveis entradas.

Entramos! Uma pequena estrada leva ao prédio principal, com mais portas a serem quebradas e arrombadas. A polícia só conseguia olhar e a mídia estava lá dentro também com as câmeras ligadas. A maioria das pessoas usava máscaras como em um resgate aberto. Algumas de nós, que temiam o que podia acontecer depois, tínhamos o cuidado de cobrir nossos rostos.

Um por um, quase 200 beagles foram transportados no colo subindo o morro até onde, há poucos minutos, havia um portão onde outras ativistas esperavam com seus carros – praticamente todo mundo chegou lá de carro porque não havia outro meio de transporte para o local a essa hora da noite. Quem libertava os cães de suas jaulas não sabia para onde eles estavam sendo levados. O que importava era que estavam sendo libertos da exploração. Isso foi útil quando ativistas que estavam lá dentro sob o foco das câmeras começaram a ser identificados e sofrer acusações por roubar “propriedade privada”. Como argumentamos, as chamadas “propriedades” nunca foram tomadas como posse daquelas pessoas que os tiraram de lá.

Um grupo de advogados voluntários se formou para defender quem era identificado e uma rede clandestina de veterinárias se dispuseram a remover chips que poderiam identificar animais adotados. Curiosamente, um deputado que atua na área de bem estar animal também estava presente durante o resgate, atraído pela presença da mídia e pela multidão de ativistas. Ele adotou dois beagles que passaram a morar em sua casa e poucos dias depois a mídia estava lá para filmar os cães e contar sua história. Em seu benefício, a lei brasileira diz que um membro do congresso não pode ser acusado desse tpo de crime enquanto exerce seu mandato. Para pessoas menos privilegiadas, podíamos apenas ter a companhia de alguns beagles que sofreram abusos, com sinais de mutilação e traumas psicológicos que às vezes são difíceis de notar.

A invasão foi realmente uma cena caótica, sem planejamento prévio, nenhuma direção e, provavelmente, não é um modelo a ser repetido. Sua espontaneidade foi a mágica que fez com que tudo fosse possível. Sua diversidade foi um fator que fez os números de participantes possíveis e a repressão impossível. A compaixão de todo mundo presente foi a força que ampliou seu significado para além dos indivíduos salvos.

Poucas semanas depois, após extensiva e persistente cobertura da mídia sobre o assunto, leis começaram a ser propostas na cidade, no estado e no país. A prefeitura mandou trancar o laboratório e manifestantes mantiveram a pressão até que o Instituto Royal anunciou seu fechamento no dia seis de novembro. Ainda assim, eles recusavam a liberar os animais que ainda estavam lá durante o primeiro resgate. Então uma nova e legítima ação da ALF realizada no dia 13 de novembro por uma pequena célula resgatou os 300 ratos que ainda estavam lá e nenhum animal esteve presente para testemunhar os últimos momentos do Instituto Royal.

Interior do laboratório atacado durante a madrugada.

“Tendo em vista as elevadas e irreparáveis perdas e os danos sofridos em decorrência da invasão realizada no último dia 18 – com a perda de quase todo o plantel de animais e de aproximadamente uma década de pesquisas -, bem como a persistente instabilidade e a crise de segurança que colocam em risco permanente a integridade física e moral de seus colaboradores, os associados concluíram que está irremediavelmente comprometida a atuação do Instituto Royal para dar continuidade à realização pesquisa científica e testes mediante utilização de animais. Por este motivo, o Instituto decidiu encerrar suas atividades na unidade de São Roque”

–Declaração do Instituto Royal em 06/11/2013 sobre seu fechamento.

Vídeo da segunda invasão ao Instituto Royal para resgatar ratos que ainda estavam presos.

Segundo Relato:

Nós fomos de carro de São Paulo a São Roque em três pessoas no segundo dia de manifestação. Ativistas que retiraram os cães ficaram a noite toda lá e, no dia seguinte, iriam retirar os roedores que restaram. Eu cheguei em São Paulo pela manhã e nós chegamos no instituto no começo da tarde, a Rodovia Raposo Tavares já estava interditada pela Polícia Militar muito antes. Chegando lá havia muito tumulto e uma divisão bem clara: de um lado, ativistas pacifistas pelos cães com faixas e dizeres cristãos, se recusando a cobrir o rosto e mantendo distância do conflito com a Tropa de Choque. Do outro, pessoas de máscaras e bandanas iam de encontro a linha policial. A polícia parecia estar evitando o conflito e focando na porta do instituto, que já estava fortemente protegida pela PM para evitar a segunda entrada dos militantes. Uma viatura foi incendiada e logo após outro carro de uma emissora de TV também estava em chamas. A polícia interviu muito após isso para tentar dispersar a manifestação e me juntei a um grupo que se formou para tentar entrar no instituto através da mata em volta. Pulamos uma cerca e tentamos dar a volta para entrar pela parte de trás onde não havia policia, mas havia helicópteros sobrevoando o local e nos escondemos em uma casa abandonada. De lá chegamos perto dos limites do instituto para encontrar com uma segurança privada, sem identificação e portando de armas de fogo.

A PM percebeu a tentativa de entrar por trás e começou a perseguir alguns manifestantes dentro da mata. O grupo inicial havia se dividido em vários por não concordar em como entrar no instituto. Havia ainda ativistas que se recusam a cobrir o rosto por insistir em que resgatar animais não consistia em crime. E foi esse o sentimento que persistiu do começo ao fim.

Considerando que as pessoas que organizaram a manifestação inicial são pacifistas e cristãs, houve muita desorganização por conta desse racha ideológico. As pessoas pacifistas colocaram muito em risco a identidade e segurança de quem se dispôs a entrar no instituto e enfrentar a polícia.

Por fim, encurralados, saímos da mata muito longe do instituto e fomos cercadas por bombas de gás. A manifestação foi se dispersando no fim da tarde e só nos restou o plano de voltar em outra ocasião.

Havia pessoas de várias partes do país. Todas as placas, cercas, carros e estruturas no perímetro do instituto foram destruídas. Em comparação a junho de 2013, houve muito mais organização, disposição em se arriscar e união. Todos presentes nas ações radicais sabiam claramente qual era o objeto e que tal objeto era extremamente legítimo. Motivadas de maneira quase emotiva, as pessoas viram claramente que aquilo era apenas o começo e que a PM não era capaz de frustrar nossas tentativas, tamanha a presença e vontade de muitas pessoas dispostas a libertar aqueles animais por quaisquer meios necessários. Esse evento inspirou o resgate das chinchilas em Itapecirica e outras ações. E independente de rachas ideológicos, foi possível conciliar a disposição dos Black Blocs em se arriscar com a força legalista para fechar o instituto Royal permanentemente e proteger as pessoas que tiveram suas identidades expostas.

Um acontecimento sem precedentes no Brasil e uma semente que, acredito eu, ainda vá germinar em forma de um Frente pela Libertação Animal concreta.


Para baixar e imprimir:

[PDF Leitura] [PDF Impressão]

BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 10 anos de uma das ações radicais mais emblemáticas de 2013 ©, .

]]>
GEZI PARK: 10 anos dos levantes de junho na Turquia https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/06/29/revolta-gezi-park-10-anos/ Thu, 29 Jun 2023 20:15:25 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3207 Continuar a ler "GEZI PARK: 10 anos dos levantes de junho na Turquia"

]]>

Quando as revoltas contra aumento das tarifas do transporte pelo Brasil tomaram escala nacional em  junho de 2013, em Istambul, um levante balançaria toda a Turquia, numa região ainda abalada pelos levantes da Primavera Árabe. As duas revoltas contra o custo e qualidade de vida em economias emergentes demonstravam solidariedade mútua: bandeiras e faixas em São Paulo em apoio ao levante turco, mensagens em Istambul solidarizavam com a revolta popular brasileira.

Uma década depois, Recep Tayyip Erdogan ainda está no poder na Turquia e acaba de vencer mais uma eleição cheia de polêmicas e suspeitas de fraude. Seu projeto de poder busca restaurar uma soberania turca na região, passando por cima da natureza, dos povos, especialmente os curdos. E para isso, se apoia em movimentos nacionalistas de bases fascistas e financia de forma oculta os jihadistas do Estado Islâmico, dispostos a eliminar o povo e a cultura curda e ameaçar a revolução social em Rojava.

No Brasil, o ciclo da década se fecha com o retorno do PT ao poder com a eleição de Lula em 2022, como única aposta eleitoral para barrar uma reeleição da extrema direita com Jair Bolsonaro.

No mês em que muito se fala e analisa sobre os levantes de junho de 2013 pelo Brasil, retomamos também esse movimento rebelde que tomou a Turquia na esteira de levantes internacionais como a Primavera Árabe e o Movimento Occupy.

Como vimos em 2020 e 2021 durante a pandemia da Covid-19, torcidas organizadas brasileiras romperam com o discurso pacificado do “fique em casa” adotado pela maior parte da esquerda enquanto a extrema-direita fazia carreatas e atos públicos para divulgar suas políticas de ódio e morte. Novamente, as torcidas ganharam atenção ao enfrentar nas estradas os bloqueios de bolsonaristas insatisfeitos com a derrota nas urnas. O potencial de mobilização e combatividade das torcidas organizadas de futebol é visível em muitos momentos de agitação social como nos últimos anos no Brasil, mas também no Chile em 2019 durante o “Estallido Social” contra preço das passagens e custo de vida. Nas revoltas da praça Taksin e Gezi Parque na Turquia de 2013 também temos exemplos emblemáticos dessa convergência.

Para relembrar essas lutas e nos inspirar para as próximas, revisitamos esse artigo lançado em 2014 na publicação Balaklava que analisa o levante turco e seus paralelos com a revolta no Brasil de 2013.

11 de junho de 2013, Praça Taksim.

“Por aqui para chegar à Comuna de Taksim”

Ao fim de maio de 2013, uma semana antes das Jornadas de Junho no Brasil, iniciou-se uma série de conflitos na Turquia que resultaram no maior levante popular da história do país. Só a época e a relevância histórica e política já são suficientes para induzir alguns paralelos entre os dois episódios, mesmo com tantas diferenças de contexto e proporções. Os confrontos na Turquia foram muito mais radicais e marcados por uma violência ainda maior em números. A população se ergueu contra um projeto de renovação urbana que contava com a demolição de um parque no centro de Istambul e o movimento se transformou rapidamente num levante contrário ao autoritarismo do presidente Erdogan. Tudo começou no Parque Gezi, vizinho à Praça Taksim, e logo se espalhou pela cidade e por todo o país.

Diferentemente dos poderosos protestos que vimos recentemente na Grécia em 2008, Espanha em 2011 ou nos Estados Unidos em 2012, o levante turco não foi gerado por uma crise de austeridade, com cortes de recursos sociais para salvar bancos e corporações como medida para estabilizar uma economia em constante crise. O levante turco foi, assim como no Brasil, um levante resultante do desenvolvimento e do crescimento econômico de um país emergente, porém muito particular. O primeiro-ministro Erdogan é conhecido por convergir um islamismo reacionário com um neoliberalismo desenvolvimentista bastante agressivo. Ao mesmo tempo que resgata tradições conservadoras, impõe um desenvolvimentismo econômico e infraestrutural. Privatizando e vendendo o que resta de recursos públicos enquanto o desemprego continua em alta, se empenhando em grandes empreendimentos, como uma ponte ligando dois continentes, a demolição e o replanejamento de várias partes das cidades para empreiteiras lucrarem com a construção civil e para que novos negócios se estabelecerem no local. Na capital Istambul um audacioso projeto de renovação e gentrificação previa desmatar parte do Parque Gezi e remodelar a Praça Taksin para abrigar shopping centers e ser uma “zona de pedestres”, dentre outros projetos para os ricos. No entanto, Erdogan parecia ignorar a relevância histórica e política do local para a população.

A Praça Taksin é um tradicional ponto de encontro de mobilizações sociais, protestos de Primeiro de Maio, e carrega um peso histórico de ter sido palco de diversas lutas sociais e massacres. Lá estudantes foram enforcados em 1977 como inimigos do Estado durante o regime militar por protestarem em um Primeiro de Maio. Em outras manifestações ao longo do mesmo ano, 34 pessoas foram baleadas e mortas por paramilitares. Exatos 30 anos depois, em 2007, a esquerda organizou um grande protesto em memória dos mortos de 1977, mas o governo tentou impedir o protesto e radicais resistiram com pedras e molotovs. Nos dois anos seguintes, mais protestos, confrontos e resistência do povo contra a polícia marcaram os dias dos trabalhadores e trabalhadoras.

Então, no dia 28 de maio de 2013, ativistas já se amarravam em árvores para impedir que fossem derrubadas e no dia 31 o levante explodiu, ecoando por todo o planeta. A primeira coisa a chamar atenção da imprensa por aqui foi que a polícia turca utilizava bombas e munições fabricadas no Brasil para reprimir a população numa série de operações que, ao fim do levante, resultaram em pelo menos 6 mil pessoas feridas – sendo 10 cegas – e mais de 10 mortes. Mesmo assim, muito foi noticiado sobre as experiências de vida comunal, resistência e autogestão que tomaram lugar na ocupação dessa área central de Istambul por 10 dias de intensa resistência.

Um dos projeteis de gás lacrimogêneo brasileiros utilizados pela polícia turca.

Entre o primeiro e o dia 10 de junho, todas as ruas e avenidas que levavam à Praça Taksim foram tomadas por barricadas para se defender da polícia. Em grandes avenidas era possível ver até 12 barricadas, muitas com mais de três metros de altura, usando materiais de construção, lixo, ônibus e veículos da mídia corporativa. Como em muitas outros levantes populares, as barricadas baniram a presença do Estado da área e abriram espaço para que novas e inimagináveis relações sociais pudessem surgir e tomar forma. Placas no caminho indicavam “Por aqui para chegar à Comuna de Taksim”.

A região era tradicionalmente muito frequentada por pessoas de todas as idades, mas conhecida por ser uma zona boêmia. Chamou atenção o fato da violência urbana ter caído significativamente com a tomada da praça pelas pessoas e a expulsão da polícia de toda a região. Sem o Estado, a população experimentava a solidariedade, cooperação e luta contra a repressão, deixando relações nocivas e competitivas de lado. Mulheres, que compunham ao menos metade (se não a maioria) das pessoas presentes, ressaltaram a queda de violência sexista, abusos e assédios. Muito disso devido a sua participação, juntamente pessoas LGBTQIA+ e tantas outras, inclusive intervindo sobre gritos de guerra e pichações sexistas e homofóbicas.

Um curioso caso envolveu as torcidas organizadas de futebol, grupos feministas e o movimento LGBTQIA+, que se destacaram pela presença política e combatividade nas ruas. As torcidas dos maiores times de Istambul, historicamente arqui rivais, se uniram na luta pela resistência pela Praça Taksim, sendo responsáveis por muito da energia nos confrontos contra a polícia. No entanto, foram também responsáveis por muitos gritos e grafites com mensagens sexistas e homofóbicas que conhecemos bem no Brasil. Feministas e queers combateram isso de uma forma transformadora para as pessoas ali, gritando de volta respostas antipatriarcais e pichando sobre os grafites com xingamentos machistas.

Como resultado das intervenções e debates antissexistas, algumas torcidas marcharam até a frente de um escritório de uma das maiores organizações LGBTQIA+ que, assim como muitos movimentos e organizações de esquerda, ficava em um prédio próximo ao Parque Gezi. Ao chegarem, disseram que reavaliaram suas posturas e as mensagens sexistas e homofóbicas que vinham passando, tendo absorvido isso da sociedade e reproduzindo-as sem questionar seu conteúdo. Disseram que iriam tomar posturas diferentes contra isso e, para selar seu pedido de desculpas, deram de presente à organização um escudo da tropa de choque da polícia.

Esse episódio resume muito bem o contexto de convergência entre tantas pessoas, grupos, organizações e comunidades de diferentes trajetórias que nunca se imaginaram lado a lado numa barricada e que se uniam ali, fazendo de suas causas uma luta comum. Para defender esse espaço, era preciso estarem em contato e em constante questionamento e revisão de suas próprias atitudes. Até mesmo conflitos étnicos foram deixados de lado quando as pessoas se uniram contra o partido e Erdogan e sua polícia. Nos prédios ao redor da praça tomada era possível ver bandeiras da Turquia juntas de bandeiras do PKK, o Partido dos Trabalhadores Curdos, envolvida na luta revolucionária em Rojava, fronteira entre a Síria e Turquia. Alguns disseram ser esse o verdadeiro processo de paz entre povos turcos e o povo Curdo, que por século resiste ao racismo, à  xenofobia e têm sua cultura criminalizada e perseguida em todos os países da região.

O clima marcante dentro da comuna de Taksim era o bom humor, o otimismo e a positividade. Até mesmo as barricadas eram pichadas com frases engraçadas e piadas com figuras políticas ou até teóricos anarquistas. Manifestantes estavam sempre criando sátiras e memes a serem compartilhados na internet. O bom humor ajudava a manter a união e aliviar a tensão e afastar o medo da violência policial.

O espírito anticapitalista e antiautoritário era visível na cooperação envolvida em cada construção. Materiais corriam de mão em mão, por jovens, mulheres, homens, idosas. Muitas barricadas foram construídas assim. Ao seu lado, havia sempre uma tenda com água, pedras e até abrigo para vigilantes descansarem.

Um dos cordões em que pessoas passavam pedras para construção de barricadas.

Cooperações inusitadas apareciam, unindo pessoas de classes e papéis muito diferentes. Camelôs e ambulantes que trabalhavam na região passaram a adaptar seus negócios e muitos passaram a vender máscaras de gás. Em um momento, comerciantes e estabelecimentos não simpáticos à ocupação tinham de cooperar ou sofrer as consequências. O dono de uma loja de kebab, postou no Facebook sua indignação com os “cães que tomaram conta da região”. Minutos após seu post a loja foi reduzida a destroços. Até mesmo a Starbucks acabou dizendo à imprensa que apoiava a resistência e alegou que sempre iria dar suporte ao movimento. Logo depois foi atacada por não cumprir o que foi dito.

Curiosamente, muito apoio foi de fato dado por membros da burguesia, principalmente em infraestrutura. Empresários forneceram materiais para enfermarias improvisadas, uma empresa de telefonia levou veículos que funcionavam como antenas para receber e transmitir o sinal necessário para comunicação via e-mail, tweets e mensagens de celular. Em suas vans era possível ver escrito “estamos aqui para contribuir para sua comunicação” – talvez uma forma de evitar que fossem incendiadas. O motivo por trás desse apoio, no entanto, é compreensível se considerarmos que muitos liberais e progressistas nas elites viam no tradicionalismo islâmico de Erdogan uma ameaça a suas liberdades modernas. E viram no levante de Gezi uma oportunidade. Esse fato revelou uma certa falha das mobilizações em Gezi quanto a firmar uma força anticapitalista, mesmo com muitos grupos anticapitalistas envolvidos.

Sem líderes

O movimento na Turquia também foi um movimento sem lideranças personalizadas, sem movimentos sociais e organizações partidárias tradicionais à frente. Os poderosos se viam frustrados em não conseguir encontrar líderes ou representantes com quem negociar e sabotar o movimento. Essa ausência de lideranças desenvolveu uma estrutura de decisão coletiva que foi talvez sua principal força. Os objetivos extrapolaram a preservação do parque e denunciaram uma crise de representação. A organização da comuna era totalmente autônoma. Pequenos grupos de afinidade armaram as primeiras tendas para se fixar e logo depois a região foi tomada por tendas e barracas de quase todos os grupos de esquerda, sociais e ativistas da cidade. Tudo funcionava com base no apoio mútuo e pessoas que nunca imaginaram um mundo sem polícia se surpreendiam com o clima harmonioso nesse território livre das garras do Estado. Assim como em muitos acampamentos do movimento Occupy, lojas grátis, bibliotecas, espaços para oficinas, enfermarias, várias cozinhas, espaços multimídia para produzir e transmitir conteúdo e muito eventos culturas preenchiam e enriqueciam o espaço.

As assembleias gerais eram descentralizadas e funcionavam como uma continuação das reuniões e demandas dos grupos de afinidades menores. No palco central havia um microfone aberto onde as pessoas podiam subir para falar do que quisessem. O caráter de ocupar uma parte da cidade e torná-la aberta a quem quer que seja para se juntar e construir em conjunto novas relações com as pessoas e o espaço foi fundamental para dissociar a ação política e o “protagonismo” de uma identidade engessada, como “trabalhadores” ou “estudantes” – categorias e identidades simplesmente inacessíveis para crescente parcela da população no capitalismo – e abrir espaço para ação e a livre associação rebelde independentes do seu papel na máquina.

Como sempre, o partido do governo tentava fragmentar a união da comuna espalhando mensagens distorcidas para criar uma divisão entre os chamados “provocadores” (isto é, aqueles que revidam quando a polícia ataca) ou os grupos “marginais” (esquerdistas e radicais). O já conhecido esforço para criar uma minoria deslegitimada a ser reprimida, para então, suprimir todo o movimento. No entanto foi difícil para Erdogan manter seu esforço de polarizar a sociedade e voltar a opinião pública contra a resistência do Parque Gezi. Toda vizinhança dos bairros centrais viam pessoalmente a truculenta e desproporcional ação da polícia ao mesmo tempo que a internet era inundada de imagens e relatos da repressão que manchava a imagem do governo de Erdogan.

A falta de aceitação do movimento em apontar representantes e porta-vozes para a armadilha disfarçada de negociação com o governo foi seguida por uma ofensiva ainda mais violenta do Estado para retomar o Parque. Depois de quase tomar a praça num violento ataque no dia 11 de junho, o Estado atacou a praça novamente quando ninguém esperava. Durante um festival que contava com a presença de muitas crianças e idosos a polícia entrou destruindo tudo e atacando a todos. A cidade explodiu em raiva mais uma vez, vizinhos se juntaram à resistência e abrigavam pessoas em suas casa, xingando os policias das janelas dos prédios.

Um movimento tão novo e com pouca experiência em atuação nas ruas, repleto de jovens que se mobilizavam pela primeira vez teve dificuldades de lidar com suas multidões sob os ataques da polícia. Cada noite era uma grande tensão, pessoas usavam capacetes, máscaras, e escreviam o tipo sanguíneo na roupa. Sua determinação era incrível. Mas o mais importante é que toda uma geração pode se encontrar e começar a sonhar juntas o que podem alcançar juntas.

Veículos da mídia encontraram novos usos durante a ocupação da Praça Taksin.

Novas relações

Em cada horta ou tenda médica; cada debate sobre sexismo e homofobia; ou na construção de cada palco ou barricada as pessoas estavam vivendo relações totalmente diferente das do cotidiano comum em qualquer cidade moderna. E essas relações emergiam em cada ação como uma forma de resistência a um poder hegemônico econômico e político. Esse é o espírito fundamental da comuna como máquina de guerra. Fazer de cada gesto uma forma de cuidar de si e das outras pessoas frente a um poder que tenta eliminar qualquer sombra de desobediência. Não buscar na estrutura uma forma de se incluir, mas sim uma forma de destruir toda a estrutura. Isso é uma batalha que tem como palco cada indivíduo e seus semelhantes. Escalando até o conflito político ou físico entre as comunas e os agentes do Império pelos territórios que queremos proteger.

Tão inesperado quanto, o levante no Brasil também foi marcado por violência policial e o uso indiscriminado dessas armas ditas “não-letais” que matam e mutilam. Demonstrações de solidariedade e apoio entre os povos de ambos os países circulavam pela internet. É difícil pontuar exatamente como e em que medida um levante influenciou o outro, mas podemos traçar alguns paralelos mais óbvios, inclusive com movimentos anteriores.

A resistência no Parque Gezi e na Praça Taksim empregaram amplamente formas de organização e estruturas semelhantes ao do movimento Occupy nos EUA e de ocupações de praças na Europa, ou Ocupa Sampa de 2012. As formas de divulgação e organização política são frequentemente comparadas às da primavera árabe de 2011. A inegável influência imediata do levante turco sobre as lutas de junho no Brasil foram visíveis tanto com manifestantes compartilhando maneiras de neutralizar bombas de gás made in Brazil quanto nas frases e gritos de guerra adaptados que lá diziam não se tratar de “apenas por algumas árvores” mas sim uma revolta contra um governo autoritário e o próprio sistema democrático, aqui transformado na balela do “não são só 20 centavos”. O problema está na forma como isso foi importado para o Brasil, atendendo à pautas direitistas e da embriagada classe média branca. Isso levou às mobilizações o risco de perder totalmente o foco da luta contra o aumento da passagem para pautas genéricas anticorrupção, contra o PT e outras tradicionais causas inofensivas e úteis para a elite.

Na Turquia a ampliação do discurso que motivava os confrontos ampliava a luta contra um governo autoritário, contra a democracia representativa, contra as forças policiais em si, contra o projeto urbanístico e juntava as pessoas para ações em favor de ocupar a cidade e torná-la um espaço gerido pelo e para o povo; enquanto isso, no Brasil, radicais, anarquistas e autonomistas não conseguiram ampliar a crítica ou difundir de forma mais ampla uma radicalidade além do discurso do “acesso à cidade” e correram o risco de ver a luta se tornar um caldeirão de causas inviáveis a curto prazo para a classe média brincar de ativismo no Instagram e a direita espreitasse o momento para inserir suas pautas. A radicalidade ficou por conta da ação meio desorientada de Black Blocs, durante e depois de junho. Enquanto o MPL lutou para manter a pauta da luta contra o aumento diante das explosão de temas genéricos e sem avanços possíveis no curto prazo. O que estrategicamente foi interessante para barrar imediatamente o aumento, beneficiando os bolsos de todos nós e abrir espaços para as multidões mostrarem que podem atingir seus objetivos se aceitarem assumir alguns riscos.

Da Turquia ao Brasil, da Grécia ao Chile, de Chiapas a Rojava, o trabalho, a moradia, o espetáculo e a miséria de nossas vidas serão as mesmas sob o Capitalismo. Cabe a todas as pessoas que querem organizar a revolta que destrua essa forma de vida intercambiar as lições de luta e os riscos que envolvem tomar as ruas quando novos atores chegam todos ao mesmo tempo disputando pautas e a dianteira dos chamados. Do contrário, corremos riscos semelhantes aos de camaradas anarquistas na Ucrânia que viram as ruas sendo tomadas por grupos conservadores e fascistas, enfrentando o Estado e seu aparato com as mesmas ferramentas que grupos libertários e radicais empregam em suas lutas, visando objetivos que desde o início já eram muito duvidosos. Ou, como vimos após os atos da extrema-direita de 2015 no Brasil, ferramentas desenvolvidas para lutas radicais podem facilmente ser apropriadas por reacionários.

Chamados serão feitos. Cabe principalmente a quem responder fazê-lo com o poder e as intenções necessárias para ampliar a revolta para caber nela tudo o realmente importa.


Mais sobre o tema:

GEZI PARK: 10 anos dos levantes de junho na Turquia ©, .

]]>
Lançamento: Revista Tormenta #3 – 2023: “Quem Tem Medo de Junho de 2013?” https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/06/28/tormenta-2023/ Wed, 28 Jun 2023 14:25:10 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3285 Continuar a ler "Lançamento: Revista Tormenta #3 – 2023: “Quem Tem Medo de Junho de 2013?”"

]]>
[Baixar PDF Tormenta 2023]
Nossa revista Tormenta retorna para uma terceira edição especial em 2023, com destaque para os 10 anos dos levantes de 2013 pelo Brasil, incluindo os artigos “Por que 2013 agora?” e o “Junho (rastejante) em Belo Horizonte” e uma reedição do nosso artigo sobre os também 10 anos da revolta pelo Parque Gezi e Praça Taksin na Turquia. Além disso, análises sobre o fascismo e as eleições brasileiras de 2022, relatos e entrevistas dos levantes no Peru, na França e dos bloqueios de estradas em São Paulo na luta indígena contra o PL 490.

Baixe o PDF, difunda, imprima, debata na sua comunidade, seus coletivos, movimentos e cumplicidades.

Conteúdo:
  • Por que 2013 agora?
  • Esquerda eleitoral, ações diretas fascistas e resistência antifascista as eleições brasileiras de 2022
  • Isto não é uma insurreição popular
  • A revolta popular no Peru: anarquistas discutem o levante contra a violência policial e o estado de emergência
  • “O governo quer roubar anos de nossas vidas”: as lutas contra a reforma da previdência na França
  • Gezi Park: 10 anos dos levantes na Turquia
  • O junho (rastejante) em Belo Horizonte
  • Das barricadas: relato dos bloqueios contra a PL 490

APRESENTAÇÃO

Neste mês, completam-se 10 anos dos levantes de junho de 2013 no Brasil. Uma onda que começou em Porto Alegre no início do ano com protestos contra o aumento do preço das passagens de ônibus e metrô, se espalhou pelo país em uma revolta popular em escala nacional após os atos em São Paulo contra o aumento da passagem. Uma década depois, as lutas radicais contra os custos e miséria da vida no capitalismo é apresentada pelos partidos de esquerda, a mídia e supostos intelectuais como “a origem da nova extrema-direita” que chegou ao poder em 2018 com Jair Bolsonaro. É lamentável que etejamos aqui hoje tentando contar a história como ela foi, disputando o discurso com negacionismo puro, em vez de estarmos celebrando os protestos com mais atos radicalizados, como fazem no Chile as multidões indo para as ruas todo Primeiro de Maio, todo Día del Joven Combatiente ou todo aniversário do golpe de 1973, mantendo a memória de luta com mais luta.

O Partido dos Trabalhadores nos presenteia com mais uma inovação: pela primeira vez, a esquerda institucional não tenta cooptar e reivindicar uma revolta popular, mas sim associar o protesto de rua e a mobilização autônoma ao fascismo, numa tentativa desonesta de culpar o oprimido pela reação dos opressores. A finalidade dessa tese é simplesmente favorecer uma cultura política que condena a auto-organização e a rebelião, justificando a repressão e a criminalização dos que não se submetem aos ritos democráticos e jurídicos, especialmente movimentos autônomos e anticapitalistas de base.

Uma década depois de lançarmos os primeiros textos desse coletivo editorial, aqui estamos mais uma vez para refletir sobre junho de 2013. Naqueles dias ainda enfumaçados, começamos a escrever e difundir uma análise anárquica e insurrecional diretamente das barricadas, compartilhando e trocando experiências e reflexões com outros indivíduos e grupos organizados em movimentos de luta contra a tarifa, ocupações, coletivos editoriais, tentando entender o solo instável em que pisávamos e nos preparar para os anos turbulentos que viriam. Sabíamos muito bem que era preciso lutar com a mesma – ou maior – força contra o capitalismo quando ele é gerido por um partido de esquerda. Pois as políticas e leis repressivas que eles nos fazem aceitar enquanto estão no poder como algo normal do exercício de gestão, servem apenas para serem aplicadas com ainda maior peso e violência quando a direita volta ao poder.

Estivemos nas ruas lutando e registrando nossas experiências, seja nas lutas contra o aumento da tarifa em 2013, contra os megaeventos como a Copa e as Olimpíadas em 2014, saímos em apoio às ocupações de escolas em 2015, que começaram em reação às reformas neoliberais do então governador tucano Geraldo Alckimin e reprimidas pelo jurista linha-dura Alexandre de Moraes. O primeiro, recém-filiado ao Partido Socialista Brasileiro é transformado em vice-presidente na atual gestão petista e o outro, é nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal. proclamado “herói da democracia” e seu maior defensor. Estivemos também nas lutas contra a austeridade aprofundada pela gestão Temer, nas lutas por moradia e pela terra, por demarcações, contra a eleição de Bolsonaro e, novamente contra a esquerda acovardada, quebrando o pacto do “fique em casa” junto às torcidas e coletivos antifas enquanto fascistas organizavam carreatas e motociatas na pandemia mais letal do século.

Não imaginamos o quão turbulento seria aquele período logo depois percebermos que não saberíamos o que fazer com nossa primeira grande vitória em escala nacional naquele junho de 2013. Dez anos se passaram, e aquele mês vitorioso foi ofuscado por uma década de derrotas. Agora, os que venceram querem enterrar e caluniar nossas lutas, nossas histórias – e nossos mortos.

A ideia de que as jornadas de junho foram a “antessala do golpe” ou o que abriu as portas para a vitória de Bolsonaro não se sustenta nos dados da realidade. O ano de 2013 foi o ano com o maior número de greves desde os anos 1980. Mais de 2 mil greves mobilizaram cerca de 2 milhões de trabalhadoras e trabalhadores, segundo o DIEESE. Logo após junho, mais de 30 Câmaras Municipais foram ocupadas, como em Belo Horizonte [veja o aritgo Junho (rastejante) em Belo Horizonte], ainda no desdobramento das lutas contra o aumento da tarifa dos transportes públicos. A esquerda e os movimentos permanceram ativos e presentes nas ruas. O antipetismo, que não começou em 2013, não se traduziu nas urnas e não foi capaz de nem mesmo barrar uma nova vitória de Dilma nas urnas. Reeleita em 2014, a petista enfrentou os primeiros grandes atos contestando o resultado das urnas eletrônicas organizados pelo opositor Aécio Neves, do PSDB. Ainda assim, foi por vontade própria que Dilma escolheu abandonar a irreal promessa de dar uma “guinada à esquerda” e aplicar políticas de austeridade e cortes sociais mais alinhadas com a do candidato derrotado da direita.

Quem trouxe as serpentes para dentro de casa foram os próprios governos petistas. Além da vice-presidência ser sempre de um membro do PMDB (José de Alencar e Michel Temer), o PT nomeou quadros do PMDB, do PP e políticos fisiológicos centrão para sua base governista e para altos cargos em estatais como a Petrobras. Quando os protestos massivos abalam o sistema e a opinião pública, a direita vem sequestrar pautas e emplacar o chavão de que a “revolta é contra a corrupção”, Dilma topa comprar essa pauta como estratégia de marketing para se blindar perante a opinião pública. Porém, esquece que governantes que não blindam enquanto classe, corporativista e corrupta por definição, são traidores para aqueles que sabem jogar o jogo. Dilma acreditou que poderia se beneficiar dos resultados da operação Lava Jato como se fosse possível alegar que todos são corruptos, menos o seu governo. Quando o lavajatismo avança e empresários e políticos são presos, diretores são demitidos das Estatais, sem a proteção costumeira, essa mesma classe política decide inverter a chave, e se aliam pra dizer que “todos são limpos, menos o PT” e quebrar o pacto até então bem-sucedido.Mas como PT e autocrítica são palavras rivais, é muito mais fácil criticar quem luta para mudar a realidade de fora do sistema político, do que fazer a crítica de suas próprias práticas, ou as dos grupos reacionários – as verdadeiras serpentes – com os quais se aliaram e pelos quais foram mordidos. O movimentos sociais que se recusam a ser governados, esses sim devem ser esmagados, presos, expurgados e apagados dos livros.

Se direita se reorganizou após os levantes de 2013, cooptando e emulando formas autônomas de organização, estéticas e linguagens, não vemos aí nenhuma novidade, do ponto de vista histórico, uma vez que tanto a Primavera dos Povos de 1848, a Comuna de Paris em 1871, a tentativa de Revolução Alemã em 1919, ou mesmo as lutas campesinas nos anos 1960 no Brasil foram seguidas de reações e golpes da classe dominante e conservadora. O fascismo se alimenta da energia de revoluções fracassadas, mas nem por isso o antídoto seria não lutar – pelo contrário, seria lutar mais e melhor! Cabe a nós, radicais, nos reagruparmos para contra-atacar.

Mesmo acumulando tração e conquistando vitórias na última década, a extrema direita brasileira se mostra tão incompetente quanto a estadunidense em governar, e sua “anti-gestão” ainda parece incapaz de entregar a estabilidade que o Capital tanto precisa. Lula retorna prometendo reverter o estrago feito pelo bolsonarismo e entregar a pacificação tão necessária para os negócios. Em menos de seis meses, a nova gestão teve que se aliar e ceder espaços aos mesmos parlamentares de aluguel do centrão e da base bolsonarista. As derrotas no Parlamento para aplicar o Marco Temporal, e que tiram poder do recém-criado Ministério dos Povos Indígenas já indicam que a classe política não vai ajudar Lula a cumprir suas promessas de inclusão feitas às minorias representadas pelos indivíduos que subiram com ele a rampa do palácio no ritual de posse. Ou seja, a nova frente ampla petista já demonstra mais uma vez a antiga tese de que qualquer aliança da esquerda com a direita tente sempre para o conservadorismo.

O primeiro dia de governo é celebrado com um pretensioso “Festival do Futuro”, ironicamente organizado para celebrar uma esquerda que só é capaz de prometer um passado, como um filme de ação em que o protagonista tenta reinterpretar, já na terceira idade, seu sucesso da juventude – sem dublês! O fracasso em amenizar os efeitos da vida no capitalismo agonizante é inveitavel para qualquer governo e apenas uma questão de tempo para Lula – e fascistas estarão mais preparados e armados que da última vez.

Portanto, não há como celebrar como vitória o retorno do partido que nos enfiou goela abaixo aumento vertiginoso do encarceramento, os megaeventos e seus desalojos, Belo Monte e a destruição do meio ambiente e dos povos originários, que enviou as tropas da Força de Segurança Nacional atirar e nos prender, que sancionou uma Lei Antiterrorismo contra os movimentos sociais, e agora nos faz engolir uma aliança com Alckmin, Lira e os demais. Uma vitória por menos de 2% nas urnas é muito mais uma sorte, uma frágil condição favorável, do que uma tranquilidade. O bolsonarismo colocou em movimento paixões fascistas capazes de mobilizar o ódio e a reação nas ruas, nas escolas, nas estradas, no campo, nas instituições e em todo espaço de convívio. E somente o enfrentamento feito por fora da via institucional poderá fazer frente e barrar esse avanço.

Será preciso lutar como em 2013 de novo e de novo, quantas vezes for necessário. Não ajustaremos o nosso tom. Agora, quando o pacto de classes petista se refaz de maneira ainda mais reacionário do que da primeira vez, como uma pausa para respirar enquanto a burguesia, os militares, as milícias e as tradicionais castas políticas não retomam o controle total da máquina, e o maior partido de esquerda do país quer usar o fantasma fascismo para chantagear movimentos sociais e o protesto de rua, reafirmamos nossa postura sem acordo e sem recuo na guerra contra gestores da vida e da morte, sejam da esquerda ou da direita.

Elejam quem quiser. Somos ingovernáveis!

Facção Fictícia,
Outono de 2023.


Leia também:

TORMENTA #2, – 2021

TORMENTA #1, – 2020

Mais sobre o tema:

Lançamento: Revista Tormenta #3 – 2023: “Quem Tem Medo de Junho de 2013?” ©, .

]]>