Notícias – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org vandalismo, depredação e análise Thu, 08 Jan 2026 03:50:18 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2019/09/cropped-FAC_logo19_ilustra-32x32.png Notícias – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org 32 32 “Um mundo governado pela força” — O ataque à Venezuela e os conflitos que virão. https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2026/01/08/governado-pela-forca-venezuela/ Thu, 08 Jan 2026 03:45:10 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3488 Continuar a ler "“Um mundo governado pela força” — O ataque à Venezuela e os conflitos que virão."

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No artigo a seguir, camaradas do coletivo CrimethInc. contextualizam o ataque o ataque à Venezuela na ordem mundial emergente, refletindo sobre como oferecer uma oposição eficaz para resistir e responder a esse novo cenário.

“Um mundo governado pela força” — O ataque à Venezuela e os conflitos que virão.

“Vivemos em um mundo governado pela força, governado pelo poder”, disse Stephen Miller ao apresentador da CNN, Jake Tapper, em 5 de janeiro de 2026, detalhando o programa fascista ao justificar a tomada da Groenlândia pela força. “Estas são as leis de ferro do mundo desde o princípio dos tempos.”

Na madrugada de 3 de janeiro, o governo Trump realizou uma operação feita para a televisão na Venezuela, bombardeando pelo menos sete alvos em Caracas e sequestrando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Celia Flores. Este foi o ápice de uma campanha de pressão que durou um ano, durante a qual o governo classificou imigrantes venezuelanos nos EUA como “narcoterroristas”, tentou aplicar a Lei de Inimigos Estrangeiros (Alien Enemies Act), bombardeou supostos “barcos de narcotráfico”, apreendeu petroleiros e mobilizou a Marinha dos EUA para bloquear a Venezuela.

Inicialmente, o governo Trump acusou Maduro de liderar o “Cartel de los Soles”, uma invenção tão absurda quanto a feita contra movimentos “antifas”. Embora tenham revisado essa acusação ontem, a fim de formular um argumento jurídico menos frágil, é típico de seu método começar com uma narrativa falsa e buscar meios de impô-la à realidade. Um dos principais objetivos de Donald Trump era publicar uma fotografia de Nicolás Maduro acorrentado, ecoando as fotos que agências federais têm divulgado de pessoas detidas pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). Em vez de oferecer melhorias nas condições econômicas das pessoas, Trump oferece a seus apoiadores a emoção de se identificarem com carcereiros e torturadores. Seu objetivo é desumanizar seus adversários e dessensibilizar a todos para o tipo de violência necessária para sustentar seu reinado e o próprio capitalismo em uma era de lucros em declínio.

A mídia corporativa está desempenhando seu papel clássico de oposição leal, questionando a legalidade da ação enquanto demoniza Maduro e endeusa sua oponente de direita, María Corina Machado. Para anarquistas e outros que buscam se opor ao imperialismo, é necessário situar o ataque à Venezuela em um contexto mais amplo, refletir sobre o que seria uma oposição efetiva e identificar como podemos agir em resposta.

Incêndio no complexo militar Fuerte Tiuna, na Venezuela, 3 de janeiro de 2026.

O Manual

O governo dos Estados Unidos tem um longo histórico de intervenções imperialistas na América Latina, incluindo mais de um século de operações contra Cuba, os sangrentos golpes militares no Brasil em 1964, no Chile em 1973 e a invasão do Panamá por George Bush em 1989. O ataque à Venezuela dá continuidade a uma série de iniciativas mais recentes, desde as invasões do Afeganistão e do Iraque por George W. Bush em 2002 e 2003 até o desmantelamento da “ordem internacional baseada em regras” por Joe Biden, para permitir que Benjamin Netanyahu realize um genocídio na Palestina a partir de 2023.

Ao mesmo tempo, o programa da administração Trump representa um afastamento das normas anteriores. Ao buscar extrair recursos pela força bruta, sem a menor pretensão de qualquer outra agenda, Trump se junta a Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu na inauguração de uma era de pilhagem desenfreada por ganância.

Embora os subordinados de Trump tenham citado as eleições fraudulentas que ocorreram na Venezuela em 2024 para justificar o ataque, Trump não pretende trazer eleições ou “democracia” para a Venezuela. Algumas fontes afirmam que a oposição liderada por María Corina Machado conta com o apoio de quase 80% da população venezuelana, mas Trump sustenta que ela não tem apoio suficiente para governar; presumivelmente, ele se refere à falta de apoio dos militares. O próprio Trump prefere trabalhar com um regime autocrático que lhe seja diretamente subordinado. Ele também prefere não ter que prestar contas a eleições, seja na Venezuela ou nos Estados Unidos.

Trump está usando a guerra para evitar uma crise interna. Embora Trump e um grupo de republicanos anticomunistas pressionem há tempos por uma mudança de regime e a presença naval no Caribe esteja aumentando desde agosto, este golpe foi orquestrado para dominar o noticiário e desviar a atenção da piora nas pesquisas de opinião e de uma série de derrotas judiciais relacionadas aos esforços de Trump para mobilizar a Guarda Nacional dentro do seu próprio país. Ao mesmo tempo, as evidências da cumplicidade de Trump no esquema de abuso e estupro de menores de Jeffrey Epstein estão finalmente fragmentando sua base eleitoral.

À medida que os autocratas perdem o controle do poder, tornam-se mais perigosos e imprevisíveis. As manobras de Netanyahu para se manter à frente do escândalo de corrupção — incluindo sua disposição em sacrificar reféns para continuar perpetrando um genocídio — nos ensinam muito sobre esse assunto. Quando ameaçados por crises, esses governantes criam outras crises para distrair seus governados. Qualquer oposição eficaz deve se lembrar de manter o foco naquilo que Trump está tentando esconder. É isso que ele mais teme.

Entendido como uma operação midiática, o ataque à Venezuela é um ataque a todos nós: uma tentativa de intimidar todos aqueles que possam resistir ao regime de Trump, de nos fazer aceitar que a violência estatal continuará a aumentar independentemente do que façamos, de nos convencer de que não somos os protagonistas do nosso tempo.

Como argumentamos em 2025, Trump copiou grande parte de sua estratégia de autoritários como Vladimir Putin. Quando Putin se tornou primeiro-ministro em agosto de 1999, seus índices de aprovação eram ainda menores do que os de Trump atualmente. Ele resolveu esse problema por meio da segunda guerra da Chechênia, que reverteu drasticamente as pesquisas de opinião a seu favor. Depois disso, sempre que seu apoio caía, ele repetia esse truque — invadindo a Geórgia em 2008, a Crimeia e Donbas em 2014 e a Ucrânia em 2022 — consolidando lentamente o controle da sociedade russa até que pudesse se dar ao luxo de enviar russos para o moedor de carne da guerra, cem mil de cada vez.

Putin usou a guerra na Ucrânia como meio de controle interno — e, na Rússia, isso vai muito além da repressão de protestos. À medida que as condições econômicas pioram, Putin precisa projetar força e brutalidade continuamente, mas também precisa descobrir o que fazer com uma população cada vez mais inquieta e desesperada. Enviar jovens de famílias pobres do interior para o meio da guerra permite que Putin os mantenha ocupados; se algumas centenas de milhares deles nunca voltarem para casa, melhor ainda — eles não aparecerão nas estatísticas de desemprego e a polícia não precisará reprimir seus protestos. Da mesma forma, o recrutamento obrigatório fez com que milhares daqueles que provavelmente liderariam uma revolução fugissem do país. Essa é uma estratégia que veremos se repetir em outros lugares à medida que a crise global do capitalismo se intensifica.

A principal diferença entre os dois contextos é que, embora os Estados Unidos sejam muito mais poderosos que a Rússia, o poder de Trump não é nem de longe tão seguro quanto o de Putin. Ao mesmo tempo, após as desastrosas ocupações do Afeganistão e do Iraque, os eleitores americanos têm consideravelmente menos disposição para operações que coloquem em risco a vida de soldados americanos.

Trump não é particularmente um líder tático e disciplinado, nem um estrategista focado. Ele sempre se apoia em ameaças e intimidação para atingir seus objetivos, aproveitando-se da covardia e da fraqueza de seus contemporâneos. Presumivelmente, ele aposta que a intimidação servirá para dobrar os governos da América Latina aos seus caprichos sem a necessidade de novas ações militares. Se isso não funcionar, ele provavelmente pretende recorrer à tecnologia militar, mercenários e outros meios de exercer força sem ter que enviar tropas americanas para ocupar a Venezuela ou outros países. Mas a guerra, uma vez instaurada, impõe sua própria lógica. Se o governo Trump continuar por esse caminho, as forças americanas podem acabar envolvidas em um conflito aberto.

Na sequência do ataque à Venezuela, Trump e seus asseclas ameaçaram tomar medidas semelhantes contra o México, Cuba, Colômbia, Dinamarca e outras nações. Certamente, eles as executarão se sentirem que estão agindo de uma posição de força, mas mesmo que as coisas corram mal para ele, Trump pode tentar usar tais manobras para desviar a atenção de sua fragilidade.

Filas de carros aguardam em postos de gasolina na Venezuela após os ataques.

O Retorno da Pilhagem

O capitalismo começou em meio à pilhagem colonial e, à medida que as margens de lucro diminuem em toda a economia global, os governos estão retornando a essa estratégia antiquada de acumulação. Isso explica a apropriação de terras por Putin na Ucrânia, a tentativa contínua de Netanyahu de usar o genocídio como forma de gentrificação e a mais recente aventura de Trump na Venezuela.

Em um documento de “Estratégia de Segurança Nacional” de novembro de 2025, o governo Trump se comprometeu explicitamente com um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, visando “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental” como forma de “negar aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério”.

Trump adotou a renomeação autoengrandecedora dessa estratégia geopolítica como a “Doutrina Donroe”, afirmando que “o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente”. Trata-se de petróleo, como Trump enfatizou — a Venezuela detém 17% das reservas mundiais de petróleo —, mas também é uma forma de disputar poder com a China, grande investidora e importadora da indústria petrolífera venezuelana, responsável por 80% das exportações de petróleo da Venezuela e sustentando o setor com mais de US$ 60 bilhões em empréstimos desde 2007. Essa estratégia é anterior a Trump: uma renovação da Doutrina Monroe, com foco na competição com a China e a Rússia no Sul Global, foi um ponto-chave da Comissão de Estratégia de Segurança Nacional de 2024, criada durante o governo de Joe Biden. A Comissão de 2024 defendeu explicitamente a competição com a China e a Rússia por influência na América Latina no que diz respeito ao “desenvolvimento e exploração de recursos naturais, bem como instalações e capacidades para projeção de poder”. Embora Trump represente a guinada em direção à autocracia, a lógica geopolítica e econômica já estava em vigor.

Em outras palavras, a brutalidade desenfreada de Trump oferece à classe dominante uma solução para um problema que capitalistas de todos os tipos estão enfrentando: o problema da escassez de oportunidades.

O plano de Trump de permitir que empresas petrolíferas americanas assumam a extração de recursos na Venezuela faz parte de uma nova fase de pilhagem colonial, um retorno à apropriação direta de ativos de outros países. Precisamos entender isso dentro do contexto mais amplo de estagnação e financeirização. Historicamente, isso reflete períodos anteriores de “caos sistêmico” 1 quando a queda nos lucros obrigou os capitalistas a se voltarem para a especulação financeira e a máquina do sistema capitalista mundial entrou em colapso até ser reconstituída em uma nova ordem por meio da violência em massa. O exemplo recente mais relevante é o período de 1914 a 1945, que testemunhou as duas guerras mundiais do século XX.

Portanto, não se trata apenas de petróleo; é um meio de consolidar as condições para a exploração capitalista em geral e um vislumbre da violência em larga escala que está por vir. Estamos entrando em uma fase de relações baseadas na força bruta, não no “estado de direito” ou na diplomacia, e este ataque — assim como a própria presidência de Trump — é um sintoma, não uma causa.

Mas isso representa um afastamento do imperialismo nacionalista e populista do passado, no qual os regimes roubavam recursos da periferia global para melhorar a qualidade de vida no núcleo imperial. O ataque de Trump à Venezuela visa beneficiar um grupo cada vez menor de capitalistas. A classe média e a classe trabalhadora branca não são mais “parceiras minoritárias” em empreendimentos coloniais e têm cada vez menos motivos para se identificar com eles.

Em Caracas, pessoas limpam os destroços dos bombardeios dos Estados Unidos..

A Questão da Liderança

Inicialmente, a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez adotou um tom desafiador, mas logo recuou para uma retórica mais conciliatória. Isso gerou especulações de que Rodríguez estaria disposta a cooperar com o governo Trump, ou que já estaria cooperando.

Diversos cenários são possíveis, e é difícil determinar a verdade. Talvez os Estados Unidos tenham colocado Delcy Rodríguez em uma situação terrível, mas ela esteja resistindo bravamente; talvez o governo Trump já tenha negociado secretamente com Delcy Rodríguez, e ela pretenda adotar uma postura firme enquanto facilita a agenda americana de extração de recursos; talvez haja algo mais acontecendo. Independentemente disso, a vulnerabilidade do Chavismo2 frente ao sequestro de seu líder — e a possibilidade de que Rodríguez ou outros elementos do governo venezuelano sejam cúmplices, ou venham a ser cúmplices, do plano de Trump de assumir o controle dos recursos venezuelanos — ambos ressaltam o fato de que todas as hierarquias representam um ponto de falha para as lutas de libertação.

Já vimos como a liderança de movimentos revolucionários de esquerda anteriores, como o governo de Daniel Ortega na Nicarágua, foi forçado a se integrar ao funcionamento do neoliberalismo e obrigada a impor medidas de austeridade capitalista e controle estatal sobre as populações sob seu domínio. Diante dessas derrotas, alguns chegam à conclusão de que a única maneira de possuir soberania é controlar um Estado-nação poderoso que possua armas nucleares. Essa é a lógica que sustenta o “campismo”3, o apoio a potências imperialistas como a Rússia e a China, que rivalizam com os Estados Unidos.

No entanto, a Rússia e a China operam segundo a mesma lógica autoritária e capitalista que o governo dos Estados Unidos utiliza hoje — e aqueles que optam por apoiá-las não terão mais influência sobre as ações de seus líderes do que os venezuelanos têm sobre o governo dos Estados Unidos. Aqueles que buscam se alinhar a um ou outro ator geopolítico acabarão inevitavelmente defendendo autocratas genocidas a partir de uma posição de total impotência. A verdadeira alternativa não é o campismo, mas sim uma resistência popular internacional que ultrapasse fronteiras.

Mas para que isso se torne uma alternativa convincente, as pessoas nos Estados Unidos precisarão desenvolver a capacidade de impedir que o governo americano bombardeie e saqueie o exterior.

Agora é tudo ou nada para todos.

O Que Esperar, Como se Preparar

O ataque à Venezuela marca a escalada de uma guerra por procuração com a China. A mudança da base industrial, incluindo a indústria tecnológica, para a indústria bélica é uma forma de lidar com a economia estagnada, mas isso só será possível se o governo Trump conseguir inflamar ainda mais o “espírito nacional” e o patriotismo. Pode-se argumentar que a corrida para consolidar o financiamento e a proliferação da inteligência artificial visa criar uma população mais crédula e controlável para esse fim final.

A curto prazo, podemos esperar que o governo Trump tente mais uma vez usar a Lei de Inimigos Estrangeiros contra venezuelanos e outros alvos. A tentativa anterior de Trump e Miller foi derrotada na justiça porque os EUA não estavam, de fato, em guerra. Agora que criaram uma guerra, usarão isso para declarar uma série de novas emergências e justificar novas medidas repressivas. Também podemos esperar mais violência racista contra latino-americanos e chineses, bem como retaliação contra a política externa dos EUA por parte de atores não estatais ou agentes indiretos, das quais o governo Trump tentará se aproveitar para promover sua agenda.

As eleições de meio de mandato estão marcadas para novembro de 2026. Donald Trump e os republicanos não são os favoritos; mas Trump já ultrapassou tantos limites que não tolera nenhuma ameaça ao seu poder. Seja por interferência eleitoral, fraude ou, mais provavelmente, crises orquestradas que legitimem um estado de exceção, podemos esperar que as eleições de meio de mandato sejam as menos “democráticas” da história recente. As eleições por si só não nos tirarão dessa bagunça.

À medida que Trump enfrenta diversas crises, escândalos e obstáculos, ele se tornará mais violento, imprevisível e perigoso. Isso é um sinal de fraqueza, mas uma fraqueza respaldada por toda a força das Forças Armadas dos EUA. Devemos esperar confrontos militares em larga escala até outubro deste ano, incluindo novos destacamentos da Guarda Nacional e talvez até mesmo a decretação da lei marcial.

Guerras impopulares sem um mandato claro — especialmente guerras que resultam em baixas americanas ou outros sacrifícios em território nacional — podem significar a queda de um regime. É nossa tarefa transformar esta guerra — juntamente com os outros erros de Trump e as guerras que virão — em um fardo para toda a classe dominante. Será necessária tanta força popular para destituir Trump que devemos popularizar propostas igualmente ambiciosas — e não simplesmente exigir um retorno a um status quo centrista impopular. Os revolucionários devem se preparar para superar as tentativas centristas de reequilibrar o Estado. Pode parecer difícil de imaginar agora, mas levantes e revoluções se desenrolam rapidamente. As revoluções da “Geração Z” derrubaram regimes ao redor do mundo ao longo de 2024.

Manifestações por todos os Estados Unidos têm usado slogans conhecidos como “Sem sangue por petróleo”. Infelizmente, Trump concluiu que seus seguidores querem ambos: petróleo e sangue. Movimentos pacifistas tendem a ser inerentemente conservadores, pois buscam influenciar as políticas de Estado; mas, assim como os governos anteriores, o regime de Trump deixou claro que não se importa com a oposição. Em vez de apresentar demandas por meio de protestos simbólicos, precisamos construir movimentos horizontais capazes de atender às necessidades por meio de ações diretas. Esses movimentos devem se concentrar nas condições comuns que as pessoas comuns enfrentam de Caracas a Minneapolis: pobreza, austeridade, pilhagem de recursos essenciais, controle por mercenários violentos, domínio de magnatas irresponsáveis. A resistência às atividades do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) nos Estados Unidos representa um passo promissor nessa direção.

Se, de fato, como Stephen Miller sugere, os governos não representam os desejos ou a vontade do povo que governam, se — como já deveria ser óbvio para todos — eles não têm nossos melhores interesses em mente, mas simplesmente agem para acumular o máximo de riqueza possível para si mesmos, então ninguém é obrigado a obedecê-los. A única questão é como construir força coletiva suficiente — força popular suficiente, poder horizontal suficiente — para derrotá-los.

O retorno do fascismo em escala global — e, esperançosamente, a capacidade de derrotá-lo.

Apêndice: Leituras complementares

Para começar, os leitores devem consultar “FRENTE À OFENSIVA DO IMPÉRIO, SOLIDARIEDADE AO POVO VENEZUELANO! ”, uma declaração internacional de organizações anarquistas latino-americanas publicada em dezembro de 2025.

Para um contexto mais aprofundado sobre a situação na Venezuela, encorajamos os leitores de língua espanhola a consultar o arquivo da extinta publicação anarquista venezuelana El Libertario, onde se pode encontrar, por exemplo, uma avaliação crítica das organizações sociais bolivarianas de 2006, ou uma coletânea de textos sobre o papel da indústria petrolífera na repressão dos movimentos populares de base na Venezuela e na sua integração na economia global:

A Venezuela faz parte do processo de construção de novas formas de governança na região, que desmobilizaram os movimentos sociais que reagiram à aplicação de medidas de ajuste estrutural na década de 1990, relegitimando tanto o Estado quanto a democracia representativa para atender às cotas de exportação de recursos naturais para os principais mercados mundiais.”

-Ley Habilitante: dictadura para el capital energético (“A Lei Habilitante: Ditadura para o Capital Energético) em El Libertario # 62, março-abril de 2011

Podemos entender o ataque de Trump à Venezuela como uma forma de dar continuidade a esse “processo de construção de novas formas de governança na região” atualmente.


Uma lista de pessoas recentemente encarceradas em um único centro de detenção no Brooklyn indica a crescente gama de contradições histórico-mundiais que vêm à tona em nossa época.
  1. Em O Longo Século XX, Giovanni Arrighi argumenta que os últimos 700 anos testemunharam uma oscilação pendular previsível entre períodos relativamente “pacíficos” e estáveis ​​de expansão comercial, durante os quais mercados em crescimento permitem que capitalistas e estados lucrem sem concorrência significativa, e investimentos em produção ou comércio geram lucros confiáveis, e períodos cada vez mais caóticos de expansão financeira, durante os quais a competição intercapitalista reduz os lucros e o capital de investimento busca lucro principalmente por meio da especulação financeira. À medida que a economia global para de crescer, capitalistas e elites nacionais recorrem cada vez mais à força e à pilhagem para sustentar os lucros, culminando em períodos de “caos sistêmico”. Esses períodos são notavelmente violentos, caracterizados por gastos militares e pilhagem; Historicamente, esses ciclos só terminam quando uma nova força hegemônica impõe uma nova ordem global e restaura as condições para a acumulação capitalista. A hegemonia americana do século XX e o sistema internacional introduzido pelas Nações Unidas desempenharam esse papel após a Segunda Guerra Mundial, mas ambos estão em declínio desde a transição para a financeirização e a ascensão do “neoliberalismo” na década de 1970, e agora demonstram sua irrelevância à medida que mais e mais forças tentam obter lucros pela força bruta em vez do investimento capitalista. Os especialistas que lamentam o fim da ordem internacional baseada em regras e expressam nostalgia pelas Nações Unidas estão ignorando a floresta da estagnação econômica, concentrando-se apenas em figuras isoladas como Trump e Putin. Qualquer solução real para o período de barbárie em que estamos entrando terá que ser mais abrangente e ambiciosa do que a “Era das Revoluções” de 1789-1848. ↩
  2. Chavismo é o movimento socialista associado ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. ↩
  3. “Campismo” é uma palavra usada para descrever uma doutrina da época da Guerra Fria. os adeptos desse dogma sustentavam que o mais importante era apoiar a URSS a todo custo contra os estados capitalistas e imperialistas. Esta doutrina persiste hoje na parte da esquerda radical que apoia a Rússia de Putin na invasão da Ucrânia ou então relativiza a guerra em curso. Como fizeram na Síria, usam o pretexto de que os regimes russo ou sírio encarnam a luta contra o imperialismo ocidental e atlantista [isto é, pró-OTAN]. Infelizmente, esse anti-imperialismo maniqueísta, que é puramente abstrato, recusa-se a ver o imperialismo em qualquer ator que não seja o Ocidente.

“Um mundo governado pela força” — O ataque à Venezuela e os conflitos que virão. ©, .

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A COP30 não é um fracasso — é uma farsa https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2025/12/22/cop30-farsa/ Mon, 22 Dec 2025 15:09:40 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3468 Continuar a ler "A COP30 não é um fracasso — é uma farsa"

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Em novembro de 2025, líderes de governos, empresas e ONG’s se reuniram em Belém, Pará, para a COP30 para debater supostas saídas ecológicas para o inferno na Terra que o capitalismo está construindo. Nosso camarada Peter Gelderloos, anarquista e pesquisador autônomo estadunidense esteve presente nos eventos críticos à conferência, percorrendo o território brasileiro coletando entrevistas com membros de comunidades indígenas, assentamentos e territórios de movimentos como MST e Teia dos Povos, além de ocupações urbanas. O artigo a seguir é uma das primeiras impressões que o autor publicou sobre o contexto e propostas em torno da COP30.

O autor está prestes a lançar livro “As soluções já estão aqui: estratégias revolucionárias ecológicas vindas de baixo”, editado neste ano pelas editoras Teia dos Povos, GLAC e Entremares e fez um bate-papo sobre o Jornadas ANTI-COP30 em Belém, organizadas pelo Centro de Cultura Libertária da Amazônia (CCLA).

Para saber mais sobre a posição de anarquistas do Pará sobre a COP30 e como foram as Jornadas Anti-COP30, leia o artigo completo do do CCLA aqui.


A COP30 não é um fracasso, é uma farsa – Porque cúpulas climáticas não podem resolver a crise e porque devemos apoiar as lutas indígenas

Ao fim da cúpula climática da COP30 em Belém, no estado brasileiro do Pará, os organizadores de conferências têm pouco a mostrar após duas semanas de conversas altamente divulgadas. Isto é ruim para todos. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas precisava desesperadamente restaurar sua reputação. Afinal, a COP 29 do ano passado ocorreu no Azerbaijão, onde os combustíveis fósseis representam 90% das exportações e onde o governo estava sendo acusado de realizar genocídio nos meses que antecederam a conferência. No ano anterior, a COP 28 foi realizada em Dubai, capital de outro petro-estado.

Este ano, a estratégia de marketing para a conferência climática começou com um mea culpa pela exclusão histórica dos povos indígenas. Um comunicado de imprensa da ONU anunciando as conclusões de um relatório recente sobre os povos indígenas e a crise climática colocou da seguinte forma: “De projetos de energia verde impostos sem consentimento para decisões políticas tomadas em salas onde as vozes indígenas estão ausentes, essas comunidades são muitas vezes excluídas de soluções climáticas, deslocadas por eles e negadas os recursos para liderar o caminho”.

Para isso, o Ministério dos Povos Indígenas (PMI) do Brasil convidou 360 líderes indígenas para participar de negociações dentro da COP, após um processo de seis meses em que eventos foram realizados com 80 povos indígenas cujos territórios são ocupados pelo estado brasileiro. O objetivo era “garantir a maior participação indígena na história das Conferências Climáticas da ONU”, segundo o site oficial da COP 30. Em uma espécie de chamada e resposta, o The New York Times e outros meios de comunicação ecoaram acriticamente essas alegações, com manchetes como “Indígenas, há muito marginalizados nas negociações climáticas, sobem ao palco”.

O que essas declarações pressupõem é que, embora possa haver erros no processo, a solução é maior participação. Nenhuma dessas instituições – a ONU, os grandes meios de comunicação, as principais ONGs e os governos mundiais – parece disposto a enfrentar a verdade de que o processo da COP não está simplesmente falhando em resolver a crise climática: eles não podem resolver a crise climática. E essa farsa está atrapalhando estratégias reais e ativas para proteger os povos indígenas e abordar o ecocídio.

A metáfora do Times sobre tomar o palco é apropriada, dada a natureza vistosa e espetacular desses esforços. Cidades em todo o Brasil têm sido cobertas de publicidade colorida que mostra povos indígenas e vida selvagem amazônica. E na segunda-feira, quando uma marcha dos povos indígenas começou a segunda e última semana da COP30, representantes indígenas que apoiam o governo e a conferência tiveram seu lugar na frente da marcha, com grandes faixas e um sistema de som móvel, enquanto grupos mais críticos falando sobre a falta de resultados reais foram relegados para trás.

Anarquista e outros movimento se juntam aos protestos Anti-COP30 em Belém, novembro de 2025.

Para manipular os movimentos indígenas, os governos usam benefícios e punições. Os benefícios incluem promessas de investimento e financiamento, como os US $ 11,8 bilhão que quatro países europeus e trinta e cinco filantropias apoiadas pela indústria prometeram aos povos indígenas nos próximos cinco anos. A maior parte desse dinheiro é destinada a ONGs que trabalham com povos indígenas. Tais investimentos têm um histórico duvidoso quando se trata de proteger a terra ou aumentar a autonomia indígena, embora seja certamente um recurso significativo para apoiar representantes indígenas em conformidade que são frequentemente nomeados pelos estados que ocupam suas terras.

As punições, entretanto, podem variar de técnicas difíceis a suaves de repressão. O dia da marcha, dos direitos humanos e dos grupos ambientais publicou uma carta aberta acusando o chefe climático da ONU, Simon Stiell, de ​ “ criando um efeito arrepiante e um sentimento de insegurança para os indígenas povos”, após Stiell pedir ao Brasil que aumentasse as forças de segurança em torno do local da COP.

No dia anterior, homens armados atacaram a comunidade indígena Guarani Kaiowá de Pyelito Kue, no sul Estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, matando o defensor da terra Vicente Fernandes Vilhalva, ferindo outros quatro membros da comunidade e queimando por todas as casas e propriedades da comunidade. O assalto, o quarto de seu tipo em duas semanas, vem como os Guarani Kaiowá se envolveram em um luta para reocupar algumas de suas terras ancestrais.

De todas as realizações que o quadro climático dominante pode se orgulhar, nenhuma delas tem a ver com a redução das emissões de gases de efeito estufa ou a desaceleração do desmatamento e a devastação de áreas úmidas em todo o mundo. Quando países específicos são capazes de reivindicar uma redução nas emissões, é em parte graças ao comércio de carbono e sistemas de contabilidade de carbono que os lobistas corporativos se certificaram de que estão incluídos em acordos climáticos, como eu relatei anteriormente aqui, aqui e aqui. Pelo contrário, as realizações da COP têm a ver com a garantia de investimentos e financiamento. As empresas que podem reivindicar um rótulo verde estão desfrutando de um mercado em crescimento e os lucros que vêm com ele, mas o benefício para as comunidades indígenas ou o movimento mais amplo para parar a crise ecológica é duvidoso.

Manifestantes indígenas marcham do lado de fora da conferência climática COP30 em Belém do Pará, Brasil, 17 de novembro.

Os povos indígenas em todo o Brasil fizeram seus maiores avanços na recuperação de seu território não com planos de investimento, mas por meio de ações diretas. O Ka’apor da Amazônia tem queimado caminhões madeireiros. Os Guarani da Mata Atlântica usaram protestos e bloqueios para forçar o governo a devolver uma pequena parte de suas terras que haviam sido roubadas. Gah Te Iracema, líder espiritual da comunidade Kaingang de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, que viajou para Belém para a COP 30, me diz que ““recuperamos uma parte de nossa terra, mas não é reconhecida pelo governo. Então, estamos aqui para falar sobre a nossa luta. Nós chamamos isso de recuperação de terras, mas é como voltar para nossa casa.”

Os Guarani Kaiowá, mencionados acima, foram violentamente expulsos de suas terras nos anos 1980 s. Os principais interesses da pecuária então se mudaram e assumiu. Os Guarani Kaiowá têm tentado recuperar alguns dos suas terras, mas a FUNAI, a agência governamental brasileira designada para proteger os povos indígenas, não seguiu com oficial demarcação. Um relatório da Survival International, uma organização que defensores dos direitos dos povos indígenas em todo o mundo, chamado a estagnação “ uma violação do direito brasileiro e internacional” que tem forçou “os Guarani a suportar ataques violentos e assassinatos nas mãos dos pecuaristas e policiais apoiados por políticos locais que atuam com impunidade”. O relatório prossegue: “Um acordo oficial feito entre promotores públicos, FUNAI, e os Guarani em 20072007, e terras recentes promessas de demarcação do Presidente Lula — não foram mantidos.”

O povo Guarani Kaiowá enfrenta escassez de alimentos e envenenamento por químicos agrícolas. Ao mesmo tempo, esses fazendeiros e donos de plantações têm uma voz menos pública mas bastante mais efetiva na COP30: s lobistas agrícolas, dos quais mais de 300 vieram à COP30, onde alguns receberam “acesso privilegiado” a negociações chave. Atualmente, a pecuária e a expansão de terras agrícolas, maioritariamente para plantações de soja para a alimentação do gado, são os principais fatores de desmatamento da bioma da Amazônia. O presidente Lula propôs uma mudança para outra indústria lucrativa, uma com uma reputação mais verde: os biocombustíveis, que podem substituir os combustíveis fósseis. No entanto, as plantações que cultivam biocombustíveis também contribuem para o desmatamento. Um estudo recente pelo think thank Transport and Environment descobriu que, quando todos os seus impactos são contabilizados, os biocombustíveis causam 16% mais emissões que os combustíveis fósseis.

Isso aponta para uma falha incorrigível na discurso oficial sobre o clima. Para todos os principais participantes — ministros do governo, indústria lobistas e até mesmo os diretores de grandes ONGs — o inquestionável fundação de uma solução climática é uma economia baseada no crescimento organizada por governos. A questão fundamental na COP 0 e todas as anteriores conferências climáticas não é, “como paramos a mudança climática?” A questão com a qual eles estão trabalhando é: “ que respostas às mudanças climáticas são compatível com o poder do Estado e as economias baseadas no crescimento?” E a resposta eles se recusam a admitir é que respostas efetivas não são compatíveis com o sistema atual, porque este sistema em si — suas formas aceitáveis de organização política e econômica — são as causas profundas da crise.

Os investidores não estão no negócio de dar dinheiro a programas dos quais eles não pode tirar lucro. Culturas se empoderando plenamente, que são eco-centradas e comunais, que não tratam a terra como mercadoria, são a verdadeira solução — mas isso seria uma má notícia para os negócios e para todos os governos em todo o mundo que atrelam seu poder ao crescimento econômico. Não importa quantos representantes de povos marginalizados estão na mesa de diálogo: o crescimento econômico está em conflito com a vida neste planeta. Não podemos ter ambos.

Para todos nós tentando sobreviver em meio a catástrofes em série sobre um planeta sitiado, a escolha entre lucro e a vida não deveria ser uma escolha difícil.


Peter Gelderloos é um pesquisador independente, escritor anarquista e militante estadunidense, autor de diversas obras, incluindo o célebre livro Como a Não Violência Protege o Estado e Anarquia Funciona.

A COP30 não é um fracasso — é uma farsa ©, .

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“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2024/12/05/nao-temos-medo-das-ruinas-declaracao-de-tekosina-anarsist-sobre-atual-situacao-em-rojava/ Thu, 05 Dec 2024 13:21:10 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3404 Continuar a ler "“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA"

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Desde 2020, a guerra civil na Síria não sofreu grandes desdobramentos. Com a Rússia, maior aliada do regime sírio, ocupada com a invasão da Ucrânia, e o Irã distraído com as agressões de Israel em Gaza e no Líbano, as forças jihadistas, como o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), tomaram Aleppo, cidade mais importante no norte da Síria, desafiando o poder do ditador Bashar al-Assad e impondo nova ameaça à luta por liberdade e a revolução social em Rojava. Em em meio a esses eventos, o grupo Tekoşîna Anarşîst (Luta Anarquista/TA), atuando em Rojava há pelo menos 5 anos, lançou um comunicado sobre a situação e sua posição diante dos novos desdobramentos da guerra civil síria.

Já entrevistamos companheiros do TA em 2020 e traduzimos uma outra entrevista feita pela da federação Anarquista uruguaia (fAu) aqui em nosso blog. Convidamos a todas as pessoas interessadas na superação do capitalismo, do fascismo, do patriarcado e do colonialismo a conhecer o processo revolucionário em Rojava e a contribuição de anarquistas em solo para essas lutas. A tradução do artigo abaixo foi feita pela editora Terra Sem Amos.


“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”

Há mais de cinco anos, as Forças Democráticas Sírias (SDF) puseram fim ao califado do Estado Islâmico (ISIS). Agora, com a nova ofensiva do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), corremos o risco de reviver suas atrocidades. O HTS uniu diversos grupos jihadistas, incluindo ex-combatentes do califado em suas fileiras. Recentemente, eles iniciaram uma grande ofensiva, rompendo o cerco de Idlib e provocando o colapso do Exército Árabe Sírio (SAA). Aleppo foi a primeira grande cidade capturada, com a apreensão de grandes quantidades de armamento avançado deixado para trás por soldados do regime.

As SDF reagiram rapidamente, enviando reforços para proteger o bairro curdo de Sheh Maqsoud, em Aleppo, bem como os campos de refugiados na região de Sheba. No entanto, as forças que representam o exército turco, o Exército Nacional Sírio (SNA), iniciaram uma nova ofensiva coordenada com o HTS, invadindo essa mesma região de Sheba. Os refugiados deslocados pela invasão turca de Afrin em 2018 são, mais uma vez, forçados a abandonar seus lares sob a mira de armas. Mais de 100.000 pessoas agora buscam abrigo em tendas improvisadas às margens do rio Eufrates, ainda ameaçadas por novos avanços de grupos jihadistas.

Esses novos desdobramentos agravam a instabilidade no Oriente Médio e devem ser analisados em conjunto com outros conflitos em curso na região. A ocupação israelense de Gaza, juntamente com os ataques contra o Hezbollah, enfraqueceram a posição do Irã na Síria, limitando sua capacidade de apoiar o SAA. Tropas russas, também enfraquecidas após quase três anos de guerra na Ucrânia, abandonaram várias posições terrestres e estão bombardeando brutalmente Idlib e Aleppo. Os Estados Unidos tentam se manter fora do conflito, sabendo que Trump pode pressionar pela retirada de suas tropas do território sírio. Os soldados turcos ainda não estão abertamente envolvidos, mas o Estado turco está mexendo os pausinhos do SNA para continuar suas políticas genocidas contra o povo curdo. Assad está tentando obter apoio internacional de outros países árabes, e o Irã já começou a enviar reforços para uma contraofensiva conjunta com o SAA. Em meio a esse caos, a Revolução de Rojava e o Movimento de Libertação Curdo resistem como a principal esperança para revolucionários no Oriente Médio.

A maior movimentação de forças na Síria nos últimos cinco anos está em curso e pode ter implicações que ainda não conseguimos prever. É uma situação complexa, e vemos como muitos jornalistas têm dificuldade em compreendê-la. Grande parte da mídia ocidental tem sido complacente com o avanço do HTS, chegando até a chamá-los de oposição revolucionária, “rebeldes” contra a ditadura de Assad. Também desejamos a queda do regime, mas o HTS e seu “governo de salvação” não são uma solução libertadora. Seu objetivo é substituir a dinastia Assad por leis da sharia e um estado islâmico, pouco diferente do que o Talibã está fazendo no Afeganistão ou do que a República Islâmica do Irã tem feito desde 1979. Esse não é um futuro que podemos aceitar, e muitos sírios também não aceitarão.

Nós, como anarquistas e internacionalistas em Rojava, desempenharemos nosso papel nesses tempos desafiadores. Lutaremos ao lado das SDF para defender e expandir o projeto revolucionário, construindo uma sociedade sem Estado onde prevaleçam os princípios do confederalismo democrático, pluralismo e da revolução das mulheres. Conclamamos todas as forças anarquistas e outros movimentos revolucionários, agora mais do que nunca, a defender Rojava!

Sabemos que a guerra traz sofrimento e destruição, mas também pode abrir oportunidades para uma vida livre para aqueles que estão prontos. Vimos o que a vitória sobre o ISIS nos possibilitou e estamos prontos para continuar lutando por um futuro melhor. Porque não temos medo de ruínas!

Muitos camaradas estão perguntando: O que posso fazer para apoiar a revolução?
  • Viajar para o Nordeste da Síria (NES) não é possível no momento, pois as fronteiras estão fechadas. Mas você pode garantir que o que está acontecendo na Síria seja conhecido, escrevendo artigos, realizando entrevistas, podcasts, organizando palestras e eventos em coordenação com comitês de solidariedade já existentes.
  • Se houver manifestações de solidariedade em sua região, participe e apoie! Se não houver, talvez você possa organizá-las!
  • Você também pode fornecer apoio econômico aos mais necessitados, já que a crise humanitária atual é crítica e requer nossa atenção. Para isso, a Heyva Sor, uma organização independente, já está trabalhando para apoiar e prover assistência aos afetados pela guerra no nordeste da Síria.

Isto está longe de acabar. Mantenha-se informado e prepare-se para os próximos acontecimentos!


PARA SABER MAIS:

“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA ©, .

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O DESASTRE TEM NOME: CAPITALISMO – Anarquistas no Sul do Brasil Falam Sobre as Enchentes e a Solidariedade no RS https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2024/06/14/o-desastre-tem-nome-capitalismo/ Fri, 14 Jun 2024 15:05:55 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3359 Continuar a ler "O DESASTRE TEM NOME: CAPITALISMO – Anarquistas no Sul do Brasil Falam Sobre as Enchentes e a Solidariedade no RS"

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Água invadindo a cidade de Porto Alegre em maio.

Nos primeiros dias do mês de maio de 2024, o território conhecido estado do Rio Grande do Sul, no assim chamado Brasil, foi atingido pela maior catástrofe climática de sua história. Mais de uma semana de chuvas intensas fizeram com que diversos rios transbordassem, arrasando dezenas de cidades e destruindo tudo no seu caminho, para então desaguarem no rio Guaíba causando a maior enchente já registrada na região da Grande Porto Alegre e outras cidades do estado. Até 1 de junho, 171 mortes foram confirmadas. Milhares de pessoas perderam tudo. 614 mil ficaram desabrigadas. Mais de dois milhões foram afetadas. Cidades inteiras praticamente apagadas do mapa pela força das águas.

Em números de pessoas afetadas e proporção dos danos materiais, a tragédia já supera a destruição causada pelo furacão Katrina na cidade em Nova Orelans, nos Estados Unidos em 2005. É o maior estrago econômico e estrutural causado por um evento climático no Brasil.

O Estado e o modo de produção capitalista têm responsabilidade direta pela devastação do planeta, produzindo cada vez mais catástrofes, derrubando florestas para dar lugar ao gado, às monoculturas e à mineração, degradando e impermeabilizando o solo com a expansão urbana. Em meio ao horror, fica evidente a completa incapacidade dos governos e dos ricos de cuidarem de nossas vidas e do nosso ambiente.

Município de Lajeado coberto de lama, após as águas da enchente de maio baixarem.

No centro dessa tragédia que anuncia uma nova realidade de eventos extremos cada vez mais frequentes, anarquistas, comunidades indígenas, quilombos e movimentos sociais organizam a solidariedade enquanto tentam reconstruir suas vidas e seus territórios gravemente afetados, seja pedindo e distribuindo doações, chamando por mutirões para limpar e voltar para imóveis atingidos, ou organizando novas ocupações de prédios vazios para abrigar pessoas que perderam suas casas.

Compilamos nesse artigo e em uma curta entrevista as reflexões sobre a atuação de anarquistas e outros movimentos de base atuando nessas campanhas por apoio mútuo em Porto Alegre e outras cidades atingidas pela maior enchente da história do Rio Grande do Sul.

Este artigo é também um vídeo produzido pelo coletivo Antimídia.

O ESTADO

No momento de um grande desastre “natural” – e até mesmo antes – o Estado deixa claro que sua prioridade nunca foi proteger nossas vidas. No longo prazo, o Estado brasileiro ignorou os alertas feitos décadas atrás sobre os perigos da devastação ambiental e das mudanças climática e também não tomou medidas eficazes para impedir catástrofes como esta. Mas mais do que isso, foi agente ativo da destruição – ora devastando de forma mais branda, ora devorando a terra de forma mais voraz. No governo neofascista de Bolsonaro, esse desprezo pela vida e ódio à natureza era escancarado. Mas mesmo os regimes sociais-democratas, incluindo governos progressistas de partidos como o PT, contribuíram em peso com o aquecimento global, apostando na indústria automotiva, na extração de petróleo e outras fontes de energia de alto impacto ambiental para alavancar o crescimento econômico. Em 2015, durante o governo de Dilma Rousseff, do PT, que relatórios científicos que apontavam para enchentes causadas pelas mudanças climáticas foram arquivados depois de serem considerados “alarmistas demais”.

Nos níveis estadual e municipal a negligência do Estado se repete com um impacto ainda mais direto e imediato sobre nossas vidas. Apesar dos repetidos comunicados dos sistemas meteorológicos, o governador e o prefeito não elaboraram planos nem realizaram alertas de evacuação adequados. Pelo contrário, não investiram o mínimo necessário na prevenção e proteção da população. O atual governador, Eduardo Leite (do partido de direita PSDB), retalhou a legislação ambiental do Estado para favorecer empresários e reduziu os investimentos na Defesa Civil durante seu governo. Quando questionado por jornalistas, Leite tentou justificar alegando que “tem esses estudos que, de alguma forma, alertam, mas o governo também tem outras agendas”.

Em Porto Alegre as comportas do dique que protegem a cidade falharam por falta de manutenção e erros no fechamento. O que ocorreu se tornou ainda mais grave pelo fato do DMAE (Departamento Municipal de Agua e Esgoto) ter acumulado as demandas do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), órgão responsável pelo sistema de diques, comportas e estações de bombeamento que protegem a capital gaúcha contra inundações, ter sido sucateado pelas últimas gestões da prefeitura de Porto Alegre. Segundo especialistas, a cidade não teria inundado se o sistema tivesse a manutenção e manejo adequados.

Para piorar o cenário, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, só decretou o racionamento de água depois que 85% da cidade já estava sem acesso à água potável. E a população de alguns bairros só foi avisada do desligamento das bombas que evitavam a inundação de suas casas depois delas terem sido desligadas, não lhes dando tempo hábil para evacuação.

CAPITALISMO É O DESASTRE

O modo de produção capitalista é a raiz das mudanças climáticas que ameaçam toda vida na terra. Ao mesmo tempo, as ações de corporações e grandes empresários que acumulam recursos materiais e financeiros fizeram pouco para ajudar nos resgates e aliviar o sofrimento da população. Pelo contrário, tornaram a situação ainda pior.

Os capitalistas fracassaram em manter os supermercados que ainda funcionavam abastecidos, pois ao estarem interessados no lucro das vendas, permitiram que pessoas com maior poder aquisitivo fizessem grandes estoques de água e mantimentos. Ao mesmo tempo, dezenas de lojas foram inundadas com água, alimentos e outros itens essenciais para a população trancados lá dentro sob a proteção de policiais e seguranças armados com fuzis, formando grupos paramilitares para impedir que pessoas famintas tivesse acesso a comida ou outros recursos. As empresas e o Estado se mostraram mais interessados em proteger essa mercadoria, do que deixar as pessoas terem acesso aos itens que mais necessitavam. Mesmo que esses itens fossem depois ser descartados ou indenizados por seguradoras.

Policial civil atira na direção de um suspeito de saquear supermercado em Porto Alegre.

Enquanto pessoas se voluntariavam para resgatar dezenas de milhares de cães, gatos e cavalos de telhados, montavam e organizavam espaços para acolhê-los, com atendimento veterinário e alimentação, empresas que comercializam animais abandonaram peixes, aves e mamíferos em suas gaiolas dentro das lojas inundadas, ao mesmo tempo em que se preocuparam em transferir os computadores para um andar mais elevado. Animais vendidos como objetos e abandonados para morrerem afogados, evidenciando a lógica desse sistema: para capitalistas, a vida é apenas mais uma mercadoria, a ser contabilizada e indenizada.

O pouco apoio que as grandes empresas ofereceram foi irrisório. A Grendene, uma das maiores produtoras de calçados do mundo, sugeriu que suas trabalhadoras doassem itens de suas próprias cestas básicas para pessoas atingidas pela enchente.

A indústria de bebidas Ambev, maior cervejaria do mundo, cujo lucro anual equivale ao dobro do orçamento da cidade de Porto Alegre, envasou água potável em latas de alumínio, constituindo mais uma ação de marketing do que qualquer forma de solidariedade real.

A FIERGS, entidade que representa as indústrias do Rio Grande do Sul pediu auxílio de R$100 bilhões ao governo federal para a recuperação das empresas atingidas pela enchente. Deixando claro que quando empresários falam em Estado mínimo, é apenas quando se trata dos interesses das pessoas menos favorecidas, mas querem um Estado forte para apoiar e defender os interesses da elite.

Defensores do capitalismo louvaram as ações de bilionários e empresários que doaram porções irrisórias de suas fortunas para ajudar as vítimas da enchente. Isso quando as boas ações não eram mentiras completas, como a imagem que mostraria um helicóptero do bilionário Luciano Hang resgatando pessoas ilhadas, que na verdade era uma imagem gerada por inteligência artificial.

Enquanto isso, pessoas comuns, inclusive algumas que perderam tudo, se mostraram muito mais solidárias e dispostas a ajudar, doando proporcionalmente muito mais de seus recursos que os super-ricos. Uma live solidária de uma banda de rock, arrecadou um valor maior do que as doações que o governo dos Estados Unidos e o bilionário egocêntrico Elon Musk enviaram para o Rio Grande do Sul, somados.

Isso pra não mencionar que capitalistas lucraram diretamente com a catástrofe, como os grandes mercados que venderam todos seus estoques de água engarrafada para pessoas desesperadas, muitas vezes a preços abusivos, e ainda tiveram recordes de vendas com a generosidade de pessoas comuns que compravam itens para doar a quem perdeu tudo. E vão continuar lucrando enquanto as pessoas afetadas e aquelas que se solidarizam com elas estiverem lutando para reconstruir o que foi perdido.

APOIO MÚTUO DE BASE

O apoio mútuo e a solidariedade entre pessoas atingidas se mostrou essencial para a sobrevivência e para não deixar a situação se tornar ainda pior. Ainda assim, a prefeitura de Porto Alegre tentou atrapalhar grupos voluntários que organizaram centros de doações em espaços cedidos e os mantiveram funcionando durante semanas, ao fazer acordos com os proprietários dos imóveis para que estes assumissem as operações que até então eram autogeridas pelas voluntárias, que foram então excluídas e criminalizadas. Em outro episódio, dia 20 de maio, a Polícia Militar apreendeu caminhão usado para distribuir comida a pessoas afetadas pelas enchentes. A polícia alegou que o caminhão da Cozinha Solidária da Azenha, ligada ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), estava sem licenciamento, porém não era possível fazer o licenciamento já que o sistemas estavam fora do ar em todo o estado devido aos efeitos das chuvas.

De fato, na grande maioria dos bairros, o auxílio às pessoas afetadas pela enchente ficou a cargo da própria comunidade e outros grupos voluntários que se articularam para garantir suprimentos de água, comida, roupas e agasalhos. Esse foi o caso das pessoas encarceradas ilhadas em presídios da região, sem acesso à água, alimento e itens de higiene. Coube às famílias, também afetadas pelas cheias, se organizarem para levar tais itens básicos e, assim, evitar o sofrimento ainda maior de pessoas sequestradas atrás das grades.

Cozinha Solidária da Azenha, organizada pelo MTST em Porto Alegre.

Outro exemplo é do Quilombo dos Machado, no bairro Sarandi, em Porto Alegre, que, com o apoio de outros quilombos urbanos da cidade, organizou essas operações por semanas, sem qualquer suporte do Estado. Como disse Luiz Machado, morador do Quilombo dos Machado, “esse acolhimento que o Estado devia estar fazendo, a comunidade, a gente pela gente mesmo está fazendo”. Quando a comunidade do Quilombo solicitou ajuda ao governador Eduardo Leite, do PSDB, este respondeu que “o Estado e o poder público não tem estrutura para atender todas as pontas”.

A cada declaração, as palavras do governador evidenciam uma versão da necropolítica brasileira e do racismo ambiental, desenhando um sistema voltado para cumprir demandas econômicas dos ricos, garantir lucros e votos em vez de destinar recursos para estruturas que podem salvar vidas – especialmente se for o caso de populações pobres, negras e indígenas, como é o caso dos grupos mais atingidos pelas atuais enchentes. Ressaltamos que não se trata de inação ou falha do Estado. Essas situações são partes do projeto de extermínio em curso.

Chamado para doações para ocupações anárquicas e autônomas atingidas pelas enchentes em Porto Alegre.

DEPOIS DA CATÁSTROFE: AÇÃO DIRETA

Os governos municipais e estaduais pretendem construir cidades temporárias para as dezenas de milhares de pessoas desabrigadas, até que os bairros onde moravam sejam reconstruídos ou novas habitações sejam construídas em outros locais. No entanto, a construção de moradias temporárias são desnecessárias e apenas desperdiçarão materiais e energia. Só em Porto Alegre existe mais de 100 mil residências vazias. No centro da cidade, 30% das habitações estão desocupadas. Um número 10 vezes maior do que o número de lares temporários planejados na cidade. Esse plano nada mais é do que mais uma forma de gerar lucro para as empreiteiras e para políticos alavancarem sua popularidade através de medidas populistas e ineficazes, que não atacam as raízes do sofrimento e da desigualdade. Pior do que isso, é uma tentativa de deslocar a população pobre e negra para longe de áreas cobiçadas pelo Estado e por empreiteiras, abrindo caminho para a apropriação de seus antigos lares por construtoras e seus projetos predatórios.

Como resposta ao problema da falta de moradia, novas ocupações de prédios estão surgindo. Um movimento autônomo de pessoas desabrigadas ocupou um antigo hotel abandonado no centro de Porto Alegre para acolher 45 famílias. O Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLN) ocupou também outro prédio, agora chamado de Ocupação Rexistência, dedicado a abrigar dezenas de famílias de pessoas atingidas pela atual crise. Membros do movimento alegam que não querem a construção de uma “cidade provisória” para famílias afetadas, e sim que os imóveis vazios sejam destinados imediatamente para a moradia. No dia 8 de junho, o MTST ocupou um prédio abandonado de 25 andares do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), também em Porto Alegre, para abrigar famílias desabrigadas pelas enchentes. Provando mais uma vez que os movimentos sociais e a ação direta estão sendo muito mais eficientes do que os governantes para abrigar as 160 mil pessoas que perderam suas casas.

Ocupação Maria da Conceição Tavares, surgida em junho, em Porto Alegre para abrigar vítimas das enchentes.

Para políticos e empresários, a reconstrução da cidade é uma oportunidade de lucrar. Serão necessárias quantidades gigantescas de materiais para reconstruir a infraestrutura e as casas destruídas pela água. E capitalistas vão lucrar produzindo e vendendo esses materiais. Empresas serão contratadas através de licitações feitas às pressas. E, como em toda ação do Estado aliado ao Capitalismo, haverá atrasos, corrupção, superfaturamento, desvio de verbas, favorecimentos.

Não vamos nos iludir, pois nem mesmo os supostos governos de esquerda, como o governo federal do PT, têm coragem e poder para atacar de frente o capitalismo e sua turba de defensores reacionários. Não importa qual partido estava ou estará no governo, da centro-esquerda democrática do PT até a extrema-direita lunática de Bolsonaro, o Estado brasileiro está intrinsecamente conectado ao capitalismo, ao enriquecimento de uma elite, barganhando o futuro da vida no planeta em troca de governabilidade.

CONCLUSÃO: NÃO EXISTE CATÁSTROFE NATURAL

A tragédia que devastou o território ocupado pelo estado do Rio Grande do Sul não foi simplesmente uma catástrofe natural inevitável. É mais um em uma série de eventos climáticos extremos que estão acontecendo com frequência e intensidade cada vez maior como resultado de décadas de destruição e exploração do planeta, ignorando alertas de cientistas e reprimindo a autodeterminação e resistência de movimentos sociais e povos tradicionais, em nome do crescimento econômico. Um sistema brutal onde Estado e capitalismo se unem para saquear a terra e explorar nossos corpos, ao mesmo tempo em que sabotam medidas que podem diminuir ou evitar os impactos desses eventos na vida da população.

Sentimos localmente as consequências de um problema global. O mesmo sistema que causa inundações no Rio Grande do Sul causa incêndios no Pantanal e na Amazônia, promove genocídio em Gaza para controlar reservas de gás natural e oprime estudantes que se levantam contra esse massacre; contamina a água, viola territórios indígenas e afunda bairros inteiros para arrancar da terra minérios cobiçados, destrói florestas, oceanos, montanhas e desertos para garantir lucro a um punhado de pessoas privilegiadas, enquanto condena bilhões ao sofrimento e à miséria.

Se por um lado o Estado e o capitalismo mostraram mais uma vez que sua prioridade não é o bem-estar da população ou a vida de modo geral, por outro pudemos perceber que a solidariedade brota espontaneamente e somos capazes de nos apoiar mutuamente, suplantando até sérias diferenças ideológicas.

Milhares de pessoas tomaram a frente e organizaram resgates, com seus próprios recursos, arriscando suas próprias vidas para salvar a de outras pessoas, humanas ou não. A criação de abrigos e pontos de apoio como centros de distribuição de doações e cozinhas solidárias e emergenciais, que produzem diariamente milhares de marmitas para as pessoas desabrigadas, transportadas por motoristas voluntárias. Tudo mantido por uma rede massiva de solidariedade, que se estendeu para fora das regiões afetadas pelo desastre, se alastrando por todo território ocupado pelo Estado Brasileiro, e outros países.

Quando o desastre se instaurou, a meritocracia e o individualismo foram rapidamente deixados de lado pela maior parte da população, que dedicou seu tempo a ajudar outras pessoas sem se perguntar se elas mereciam aquela ajuda e sem esperar qualquer recompensa por isso. Pessoas que pagaram do seu próprio bolso para garantir que outras pessoas tivessem o que vestir e o que comer, compartilhando recursos materiais sem exigir uma troca financeira. Foram essas pessoas que colocaram suas vidas em risco para garantir a sobrevivência de outras. No meio da catástrofe, muitas as tiveram a chance de perceber que estamos todas juntas nisso e que dinheiro é de pouca ajuda quando não há mais água para vender no mercado.

O Estado e o mercado farão o que estiver ao seu alcance para assumir e centralizar as ações de solidariedade auto-organizadas. Seja tomando à força o controle das operações, requisitando os imóveis utilizados para retomada de aulas ou dos trabalhos, coagindo as pessoas a voltarem aos seus empregos ou formalizando e institucionalizando as organizações que permanecerem. Nossa auto-organização e nossa solidariedade irrestrita são uma ameaça real ao governo e ao capitalismo, pois eles dependem da nossa desunião, da nossa indiferença e inação frente ao sofrimento das outras pessoas.

Para evitar que capitalistas usem essa e as próximas catástrofes para avançar seus projetos destrutivos precisamos continuar nos mobilizando e nos coordenando. Cabe a nós nos organizarmos para tomar e ocupar imóveis ociosos e abandonados e garantir que sejam usados para benefício de nossas comunidades. Certificar-nos que prédios de igrejas sejam usados para apoiar pessoas em necessidade e não para espalhar ódio e intolerância. Lutar para que ninguém lucre com a tragédia, para que os recursos sejam distribuídos a quem precisa. Se precisamos reconstruir nossas vidas e nossas cidades, vamos ter certeza de construir algo melhor, mais justo.

Se o que se chama de humanidade tem futuro, esse futuro será coletivo. Ou, simplesmente, não será.


Entrevista com membros do Território Okupado dos Mil Povos

A Okupa dos Mil Povos é uma ocupação com quase 20 anos de história em Porto Alegre. Localizada em um dos bairros mais afetados pela enchente, o território ficou submerso por 24 dias. Dentre os habitantes, estão crianças, cães e gatos que ainda sofrem com os efeitos da água, da lama, dos óleos e produtos químicos que restaram depois das enchentes. Além dos efeitos causados pelos produtos para limpeza pesada necessários para reativar e retomar o espaço. Nessa breve entrevista, conversamos com participantes da ocupação sobre os desafios e os trabalhos de solidariedade e captação de recursos para recuperar o espaço e retomar a vida após a tragédia, agora que, mais do que nunca, catástrofes climáticas não são mais uma ameaça futura, mas parte do presente de todos que sobrevivem ao capitalismo.

1. Fale um pouco da Okupa dos Mil Povos, sua atuação nos últimos anos e como as enchentes de maio afetaram os espaço, a vida e as atividades no espaço.

O Território Okupado dos Mil Povos nasce como um coletivo autônomo no começo do ano de 2021. Este coletivo anárquico, composto por várias pessoas vindas de diferentes partes do mundo, surge dentro de uma okupa surgida em 2005 quando expropriou o capitalismo e a especulação imobiliária para construir uma alternativa real à vida inerte do neoliberalismo imperante. Nestes poucos anos de vida como coletivo deu rédea solta ao acúmulo de conhecimentos que o Movimento Anarkopunk construiu durante décadas, seguindo também a herança rebelde e combativa de muitas gerações de anarquistas que deram suas vidas para construir o presente de luta que hoje levamos a cabo com autogestão e ação direta. Temos sido parte ativa da Teia dos Povos em luta do Rio Grande do Sul, criando e mantendo uma banca de difusão de material teórico e gráfico por 2 anos, aproximando as pessoas das ideias de autonomia da Teia que se expande por todo o Brasil.

Construímos junto com aldeias indígenas e quilombolas a 5ª Assembleia dos povos (2022), realizamos também jornadas de saúde com indígenas Warao que imigraram desde a Venezuela, autofinanciamos com rifas e vendas de camisetas serigrafadas a casa de cura e reza para a comunidade Kaingang na retomada em Canela, na Serra Gaúcha, bem como muitas jornadas de construção, hortas, muralismo (2022), conversas e discussões. Fomos parte de um coletivo de propaganda e muralismo que se reunia no Ateneu Batalha da Várzea (2021, 2022). Neste Ateneu nosso coletivo realizou em 2022 uma jornada de difusão sobre os conflitos na América Latina que chamamos de “latinoamérica em chamas”, onde tivemos participações desde a Colômbia, Equador e Chile.

Realizamos chamados abertos de manifestações de rua, denunciando a perseguição e desaparecimento de indígenas Yanomami (2022) e em apoio ao povo colombiano em 2021. Visitamos, acompanhamos e promovemos retomadas de territórios ancestrais ao lado de povos indígenas Kaingang, Xokleng e Guarani. Escrevemos pelos muros da cidade de Porto Alegre mil vezes, de dia e de noite, em manifestações ou na escuridão da noite.

As inundações de maio somente confirmam e reafirmam que a luta contra o capitalismo e os Estados de todo o mundo é cada dia mais imprescindível e vital. Nossa casa, junto com o espaço comunitário, ficou debaixo d’água, debaixo do barro, dos químicos e óleos contaminantes por mais de 20 dias. Seguiremos limpando e continuaremos construindo autonomia e rebeldia popular anárquica, sem líderes nem partidos, até destruir o último pilar da sociedade carcerária.

Território Okupado dos Mil Povos

2. Como tem sido organizadas as ações de apoio mútuo agora, um mês após as enchentes?

Agora, após o primeiro mês desde a inundação, já não sobra mais doação que não seja institucionalizada ou burocratizada com registros sociais e persoais. Neste contexto, para nós é muito difícil recuperar algo desde essas plataformas. Nossas únicas entradas de dinheiro, por assim dizer, são de companheirxs solidárixs e de pessoas conhecidas que sabem de nossa situação e nos ajudam com alguma coisa. Seguimos muito necessitadxs de coisas básicas como camas, uma cozinha e uma geladeira. São coisas que não temos acesso por falta de recursos econômicos, com nossos trabalhos não conseguimos cubrir os gastos de coisas como essas. No começo chegaram todas as ajudas e, apesar de não ter sido suficiente frente a tudo o que perdemos, ficamos muito felizes de sentir e ver o apoio mútuo de pessoas, em especial dos meios anárquicos, que é onde mais se vê a solidariedade em um momento de perdas como este. Também vemos uma constância na geração e acumulação de dados por parte da maioria das ONGs e instituições de entrega.

3. Quais ocupações foram afetadas e como tem sido a colaboração entre centros sociais radicais, ocupações e outros movimentos para se reerguer?

Em Porto Alegre existem várias okupações, todas muito diferentes umas das outras, de tendências de esquerda e outras também anarquistas, de dissidências de gênero etc. Desde nossa experiência enquanto casa, creio que o apoio entre esses centros tem sido quase nulo, é triste, mas real. Existe um centro social não okupado que fez uma ponte entre esses espaços anarquistas, o coletivo “Esp(A)ço” fez uma campanha grande onde conseguiram comprar algumas ferramentas coletivas que, em certo sentido, foi a ponte para o mínimo de diálogo e comunicação. É importante assinalar que as relações de afinidade pessoal também levam e trazem esse fluxo de comunicação que não é tão visível, mas existe. No final das contas, todxs sabemos como estão xs companeirxs de outros espaços por esse boca-a-boca que desde as sombras se comunica. Outros canais de entrega de doações normalmente são muito limitados e precários, além de burocráticos. Em geral nós recebemos pouca coisa e nos dedicamos a contribuir com outros espaços de resistência, apesar de não sermos tão próximxs em relação ao pensamento e a ação. Vemos a urgência da necessidade de coordenação mínima de espaços anárquicos e também na construção de instâncias colectivas meramente ácratas.

4. Como pessoas de fora do Rio Grande do Sul e também de fora do Brasil podem ajudar o trabalho de reconstrução e retomada das atividades nas ocupações em Porto Alegre e região?

Para responder a última pergunta, gostaríamos de dizer que vemos a solidariedade ácrata desde vários pontos de vista. O primeiro é o material, sem dúvida, muitas vezes é urgente para o cotidiano e a subsistência. Nesse sentido, ainda temos canais abertos para receber apoios desde qualquer parte do planeta. Acreditamos que a solidariedade combativa é muito importante. Seguir fortalecendo a luta frontal contra todas as estruturas de poder também faz parte da ferramenta chamada solidariedade. Outra dimensão importante que vemos é a comunicação para além do Instagram ou Facebook. A conversa direta é importante para aproximarmos as diferentes realidades e gerar afinidades futuras. Para terminar, agradecemos a todxs que ainda acreditam que a anarquia é possível, que construí-la é uma tarefa cotidiana e que se esforçam para viver cada dia mais concretamente suas ideias de liberdade!!!

Abrazos para todxs!!!

Desde el territorio okupado de los mil pueblos,
8 de junio 2024, Porto Alegre
Individualidades organizadas y colectivo anárquico de los mil pueblos


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O DESASTRE TEM NOME: CAPITALISMO – Anarquistas no Sul do Brasil Falam Sobre as Enchentes e a Solidariedade no RS ©, .

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Contra a Criminalização da Revolta! Fim do processo contra Caio e Fábio! https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/11/29/fim-do-processo-contra-caio-e-fabio/ Wed, 29 Nov 2023 16:11:41 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3349 Continuar a ler "Contra a Criminalização da Revolta! Fim do processo contra Caio e Fábio!"

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2013: 10 anos depois, a revolta pode ir a julgamento novamente

A justiça do estado do Rio de Janeiro definiu a data do júri popular dos ativistas Fábio Raposo Barbosa e Caio Silva de Souza, acusados pela morte do cinegrafista Santiago Andrade em fevereiro de 2014. A sessão plenária do 3º Tribunal do Júri está prevista para as 12h, do dia 12 de dezembro de 2023. Fábio e Caio respondem por homicídio doloso qualificado e explosão. Há quase dez anos, Santiago foi atingido por um rojão na cabeça enquanto registrava confrontos entre manifestantes e policiais sem qualquer tipo de equipamento de proteção, para a TV Bandeirantes, no Centro do Rio, perto da Central do Brasil. Apesar do que o Estado, através do punitivismo populista penal e a mídia, através do linchamento discursivo, tentam emplacar, Caio e Fábio não poderiam ser responsabilizados pela morte de Santiago Andrade. A explosão de um artefato como aquele não tem previsibilidade e, portanto, qualquer noção de intenção teria que ser descartada. Se fizéssemos dez reconstituições do incidente, obteríamos dez resultados diferentes. Além disso, não existe nenhuma prova conclusiva de que o morteiro que acertou o jornalista tenha sido disparado pelos manifestantes, já que existem relatos de testemunhas, de que naquele dia, a própria polícia estava com morteiros.

A criminalização de Caio e Fábio se confunde com a própria criminalização da revolta popular, e foi a maneira que o Estado encontrou para tirar as pessoas das ruas no Rio de Janeiro. Lembrando que até aquele momento na cidade as manifestações atraíam grandes massas e contavam com grande apoio popular. Somente através da fabricação de uma acusação de assassinato, diante de um terrível e evitável acidente sofrido pelo jornalista Santiago foi possível emplacar um discurso para fazer as pessoas temerem sua própria capacidade de insurreição. Importante ressaltar que a rede Bandeirantes enviou Santiago para uma zona de conflito sem nenhum material de proteção.

Diante disso, o julgamento segue confirmado sem que a rede bandeirantes tenha liberado as imagens completas que estavam na câmera do jornalista quando foi atingido. A emissora foi intimada a entregar essas imagens, mas entregou apenas uma parte claramente editada. Não podemos então deixar de perguntar: o que há para se esconder nesses arquivos? Por que querem que os manifestantes sejam julgados sem que essas imagens apareçam? Nossa luta neste momento é para que o julgamento seja adiado e não ocorra dia 12 de dezembro sem que a defesa tenha acesso às imagens completas, garantindo assim o amplo direito de defesa de Caio e Fábio. Mas é também pela sua absolvição e pela extinção de todos os processos fabricados, envolvendo manifestantes e lutadores das jornadas de 2013.

Sabemos que os verdadeiros assassinos seguem matando diariamente e de muitos modos na nossa sociedade. Sabemos que o caso em questão é apenas mais um para barrar a autodefesa popular e criar uma situação de pânico diante da exploração da morte e do sofrimento pela mídia, que sabemos ser sempre convenientemente seletiva, para que a revolta seja tirada de cena. Fazer isso é instrumentalizar a morte e a dor das pessoas para um fim político e de controle social. Não há qualquer respeito genuíno com o sofrimento das pessoas quando se usa vidas dessa forma. O que é, aliás, o modo geral de proceder do capitalismo: a instrumentalização dos afetos.

O caso lembra o que ocorreu na Grécia, em 2010, quando um incêndio em um banco durante um protesto levou três pessoas a óbito, e isso foi amplamente usado para jogar a opinião pública contra os protestos, esvaziar as ruas, e gerar um pânico na população, como se se rebelar pudesse gerar mais mortes do que as próprias políticas de austeridade que se pretendia barrar. Sabemos, entretanto, que isso não é verdade, que os bancos ceifam direta e indiretamente muito mais vidas do que qualquer incêndio. Que se as mortes convenientes, quando não são diretamente fabricadas, são pelo menos facilitadas e exploradas para abafar as revoltas. As inúmeras mortes diárias contra as quais nos revoltamos seguem numerosas e constantes, sendo naturalizadas e tomadas como inevitáveis.

A morte de Santiago não foi a única morte em contexto de manifestações, tivemos manifestantes jogados de uma ponte pela polícia; tivemos professoras asfixiadas com gás; e não é como se não morressem tantas pessoas diariamente pela violência policial; pela precarização da vida; pelos motivos que justamente levaram a população às ruas para protestar. Mas as mortes invisíveis, de tantas pessoas matáveis, foram contrapostas pela morte de um “cidadão de bem”, o acidente conveniente foi então usado como instrumento e moeda de troca para que a revolta se tornasse condenável. Mas quem usa pessoas como moeda, que nos usa como um meio para aumentar suas riquezas e poderes, não se importa de fato com a vida. Por isso defender Caio e Fábio é defender a possibilidade da revolta, é defender o direito a uma outra forma de vida diante do capitalismo que cada vez mais nos tira as mínimas condições de sobrevivência. Somos todys nós que não nos conformamos com essa vida sem o mínimo, que não nos calamos diante das opressões, e que lutamos por uma outra sociedade livre e igualitária, que também estamos indo a júri sem direito de defesa.

FIM DO PROCESSO PARA CAIO E FÁBIO!

NÃO PODE HAVER JÚRI SEM ACESSO ÀS IMAGENS!

VIVA A ANARQUIA!

Contra a Criminalização da Revolta! Fim do processo contra Caio e Fábio! ©, .

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Camarada Serge: notícias da revolta popular na França https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/03/31/camarada-serge-franca/ Fri, 31 Mar 2023 15:45:11 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3156 Continuar a ler "Camarada Serge: notícias da revolta popular na França"

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As ruas da França estão em chamas desde que protestos e greves que começaram em janeiro se transformaram em um verdadeiro levante contra reforma da previdência social que visa aumentar a idade mínima de aposentadoria. A polícia comandada pelo governo de Emmanuel Macron tenta reprimir o movimento que já se tornou uma das maiores onda de protestos da atualidade e novos focos surgem em centenas de cidades.

No sábado, dia 25 de março, no oeste da França, um protesto de 30 mil manifestantes contra a construção de um reservatório de água em Sainte-Soline e seus dramáticos impactos sociais e ambientais culminou em mais repressão e violência policial. Um camarada conhecido com Serge foi atingido na cabeça por explosivos da polícia e teve atendimento negado pelos capangas de Emmanuel Macron. Abaixo, disponibilizamos a tradução de alguns comunicados e chamados de seus amigos e parentes.

Camarada internado e com risco de morte após a manifestação em Sainte-Soline

Nosso camarada S. foi atingido na cabeça por uma granada explosiva durante a manifestação contra reservatórios de água neste sábado, 26 de março, em Sainte Soline.

Apesar de seu estado grave, a prefeitura impediu conscientemente, em um primeiro momento, que os serviços de emergência interviessem e apenas depois de algum tempo o transportaram para uma unidade de atendimento apropriada. Ele está atualmente em terapia intensiva neurocirúrgica. Seu prognóstico vital ainda está comprometido.

A onda de violência sofrida pelos manifestantes deixou centenas de feridos, com vários atentados graves à integridade física, conforme anunciado pelos diversos relatórios de informação disponíveis. Os 30.000 manifestantes tinham o objetivo de bloquear o local da megabacia [grandes reservatórios de água destinados à agroindústria] de Sainte-Soline, um projeto de apropriação privada de água por uma minoria em benefício de um modelo capitalista que não tem mais nada a oferecer além de morte. A violência do braço armado do estado democrático é a expressão mais clara disso.

Logo em seguida do movimento contra a reforma da previdência, a polícia mutila e tenta assassinar para impedir a sublevação, para defender a burguesia e seu mundo. Nada impedirá nossa determinação em acabar com o reinado deles.

Na terça-feira, 28 de março, e nos dias seguintes, vamos fortalecer as greves e bloqueios, sair às ruas, por S. e todos os feridos e presos de nossos movimentos.

Vida longa à revolução.

Camaradas de S.

PS: Se você tiver alguma informação sobre as circunstâncias dos ferimentos infligidos a S., entre em contato conosco: s.informations@proton.me

Gostaríamos que este comunicado fosse distribuído o mais amplamente possível.

Traduzido do Francês

Polícia sob ataque dos manifestantes em Sainte-Soline, 25 de março de 2023.

Comunicado dos Pais de Serge (S.) em 29 de março de 2023

Esta é a tradução de uma declaração dos pais de um ativista que permanece em coma cinco dias após a violência policial em Sainte-Soline.

Após o ferimento causado por uma granada GM2L, durante a manifestação de 25 de março de 2023 organizada em Sainte-Soline contra os projetos de bacias de irrigação, nosso filho Serge está atualmente em um hospital lutando por sua vida.

Apresentamos queixa por tentativa de homicídio e obstrução voluntária à chegada dos serviços de emergência e por violação de segredo profissional no âmbito de inquérito policial e apropriação indébita de informação constante do arquivo para tal.

Na sequência dos vários artigos publicados na imprensa, muitos dos quais imprecisos ou enganosos, gostaríamos de dar a conhecer que:

  • Sim, Serge está na lista “S” (lista de observação da “Segurança do Estado”) – como milhares de ativistas na França de hoje.

  • Sim, Serge teve problemas legais – como a maioria das pessoas que lutam contra a ordem estabelecida.

  • Sim, Serge participou de muitas manifestações anticapitalistas – como milhões de jovens em todo o mundo que acham que uma boa revolução não seria demais e como milhões de trabalhadores que lutam atualmente contra a reforma previdenciária na França.

Acreditamos que esses não são atos criminosos que manchariam nosso filho, mas, ao contrário, esses atos são creditados a ele.

Os pais de Serge
29 de março de 2023

Vídeo sobre a Batalha das Mega Bacias em Sainte Soline: legendas em português disponíveis.

 


Uma atualização sobre Serge

Apresentamos uma segunda declaração escrita pelos companheiros e próximos de Serge, divulgada na quarta-feira, 29 de março.

Enquanto nosso camarada Serge continua lutando pela vida que o Estado tentou tirar dele, estamos testemunhando uma nova onda de violência contra ele. A mídia está tentando retratá-lo como um homem que deveria ser fuzilado. Hoje, ele ainda está em coma, em estado crítico. Enviamos nossa solidariedade a Mickaël e a todos que sentiram a força bruta da violência policial cair sobre eles.

A mídia burguesa continua repetindo incessantemente palavras cuidadosamente escolhidas pelo Estado para construir, do nada, o inimigo que quer combater. Sua fachada falsa vai desmoronar diante das muitas narrativas que corrigiram e reescreveram o curso dos acontecimentos. A polícia usou granadas com o objetivo específico de causar danos físicos e mentais aos manifestantes; eles são responsáveis ​​por impedir que os socorristas evacuem os feridos, mesmo que isso signifique deixar nossos camaradas morrerem.

Os serviços de inteligência têm distribuído livremente as informações que coletaram sobre Serge para redações em todo o país. O objetivo deles é nos obrigar a nos definirmos nas palavras usadas pela polícia. Aqui, não vamos nos envolver com as versões deliberadamente abreviadas da identidade de Serge que a polícia tem circulado. Não acreditamos que qualquer verdade sobre ele possa ser encontrada nos arcanos da propaganda estatal e da mídia. Como revolucionário, Serge tem participado com todas as suas forças e por muitos anos em muitas lutas de classes contra a nossa exploração, sempre com vistas à ampliação e fortalecimento da vida e vitória do proletariado.

E, de fato, não podemos nos deixar esmagar.

Apelamos a todos aqueles que o conhecem para dizer aos outros ao seu redor quem ele é. Lembre-se: Serge, em luta, recusa a estratégia do estado de separar bons e maus manifestantes. Com ele e para ele, defendemos esta linha.

Na terça-feira, 28 de março, pessoas de todos os lugares se comprometeram a mostrar sua solidariedade ao movimento contra a reforma previdenciária na França. Também recebemos muitas mensagens de camaradas internacionais. Nós os agradecemos calorosamente e os encorajamos a continuar e apoiar o movimento. Mais ações já estão planejadas e encorajamos as pessoas a se juntarem e multiplicarem sem restrições, na França e no resto do mundo.

Queremos que este comunicado seja compartilhado o mais amplamente possível.

PS: Há muitos rumores sobre a condição médica de Serge. Não os compartilhe. Nós manteremos você atualizado.

Para entrar em contato conosco:

s.informations@proton.me

Camaradas de S.

Camarada Serge: notícias da revolta popular na França ©, .

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A REVOLTA POPULAR NO PERU – Anarquistas Discutem a Revolta Contra a Violência Policial e o Estado de Emergência https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/02/23/a-revolta-popular-no-peru/ Thu, 23 Feb 2023 15:28:05 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3138 Continuar a ler "A REVOLTA POPULAR NO PERU – Anarquistas Discutem a Revolta Contra a Violência Policial e o Estado de Emergência"

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Em dezembro de 2022, uma onda de protestos populares liderados por camponeses e os movimentos indígenas varreram o Peru depois que o ex-presidente Pedro Castillo sofreu impeachment após uma tentativa fracassada de dissolver o legislativo e sua vice-presidente, a conservadora Dina Boluarte, assumiu o governo. Em 14 de dezembro, o ministro da Defesa, Alberto Otárola, decretou estado de emergência, suspendendo a liberdade de reunião, a liberdade de ir e vir, a inviolabilidade do lar e outros direitos. No entanto, os protestos só aumentaram de intensidade. Em 18 de janeiro, movimentos populares do sul do Peru marcharam até a capital em uma mobilização conhecida como “Tomada de Lima”. Estudantes e sindicatos os receberam, juntando-se aos protestos para exigir novas eleições para a presidência e o legislativo. Em resposta, a polícia matou mais de 60 pessoas e feriu milhares. Para uma visão direta desses acontecimentos, conversamos com anarquistas peruanos, na esperança de obter uma perspectiva sobre os aspectos desse movimento que ultrapassam a política de estado.


O Peru tem uma longa história de golpes de estado no poder e violência estatal e paramilitar no campo. Após uma crise envolvendo a falta da última página de um contrato entre o governo peruano e a Companhia Internacional de Petróleo, o general Juan Velasco Alvarado derrubou o presidente eleito Fernando Belaúnde Terry em 1968. A partir da década de 1980, o grupo armado maoísta Sendero Luminoso conduziu uma guerra de guerrilha no campo que ceifou dezenas de milhares de vidas. O presidente Alberto Fujimori dissolveu o Congresso em 1992 para obter o poder absoluto, que manteve por meio de uma vasta rede de atividades secretas coordenadas pelo chefe do serviço de inteligência do Peru, Vladimiro Montesinos – até ser derrubado em 2000 após uma eleição fraudulenta. Em novembro de 2020, protestos generalizados forçaram o presidente interino Manuel Merino a renunciar após apenas cinco dias no cargo.

Mais recentemente, o vizinho Equador viu revoltas em 2019 e 2022, nas quais grupos de base ligados à Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) desempenharam um papel central na resistência às medidas de austeridade impostas pelo Estado. Algo semelhante ocorre hoje no Peru, onde um movimento composto principalmente por camponeses e indígenas interrompeu o funcionamento do capitalismo extrativista, afirmando seus próprios interesses e estruturas organizacionais fora do quadro do poder estatal.

À medida que uma nova série de tentativas de golpe ocorre nas Américas, do 6 de janeiro de 2021 nos Estados Unidos ao 8 de janeiro de 2023 no Brasil, é importante aprender como os movimentos populares podem manter a resistência diante da repressão policial – especialmente movimentos envolvendo os explorados e excluídos.

Conversamos com participantes do Periodico Libertária, publicação anarquista que surgiu como parte da resistência ao regime peruano. Seu objetivo, como eles dizem, é “a libertação total dos Andes e de todo o território dominado pelo estado assassino chamado ‘Peru’”.

Capa da primeira edição do Periodico Libertária, com o slogan “Espalhamos a anarquia quando podem”. O balão diz “Um misantropo que também é filantropo, é um pouco difícil de entender” e a legenda diz “Oxímoro: Protesto dos trabalhadores do IPC em Lima, 29 de junho de 1956”.

Em outros países, são muito escassas as informações que recebemos sobre a revolta que ocorre neste momento nas ruas peruanas. A mídia noticia de forma superficial que há manifestações e greves, com repressão policial que já matou dezenas de pessoas e feriu milhares. Ainda assim, pouco se discute sobre o contexto e quando se fala, mantém-se o binário: apoio a Pedro Castillo, presidente que tentou dissolver o Congresso e aplicar um golpe, ou a destituição de Dina Boluarte, sua vice que assumiu o cargo depois do Impeachment do presidente, e também a demanda popular pela realização de uma nova eleição. Mas sabemos que as revoltas estão sempre para além dessas simplificações e, por isso, é preciso entender o contexto e as lutas recentes nos territórios onde as insurreições acontecem. Sendo assim, gostaríamos que você escrevesse uma história de uma perspectiva anarquista sobre o que está acontecendo lá no momento e quais são as possíveis conexões com outras insurreições que ocorreram na chamada América Latina?

Normalmente, os meios de comunicação de massa cobrem os protestos no exterior como algo isolado e localizado, mesmo que o que está acontecendo esteja a apenas alguns quilômetros de distância. Nos meios de “comunicação” existe o receio de expor problemas estruturais e analisá-los em profundidade. Sabe-se que no Peru vivemos um processo antiautoritário que poderia ocorrer em qualquer país latino-americano, especialmente considerando a coincidência e a origem dos problemas – racismo estrutural, pobreza extrema, corrupção institucionalizada e uma violenta democracia neoliberal.

Nesse caso, a repressão do atual governo tem sido caracterizada pelo racismo desenfreado. Houve massacres em cidades dos Andes e do Altiplano [as montanhas e planaltos do Peru]. Obviamente, a desprezível imprensa amarela não tem apresentado uma representação fiel da realidade. Enquanto a militarização continua em várias cidades – como Ica, no litoral, e Puno, no altiplano – o último assassinado em Lima (28/01/23) foi descrito pela mídia como mero delinquente quando sua morte foi transmitida no um canal a cabo no país. Há um constante confronto assimétrico entre as armas do Estado e as lutas dos povos em busca da liberdade.

No que diz respeito às conexões com outros eventos, sem esquecer os problemas específicos deste território e o caráter camponês da revolta peruana, as referências mais próximas são as experiências antiautoritárias de outubro de 2019 da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE). A diferença está na ausência de grandes organizações indígenas, já que a Confederación Campesina del Perú (a Confederação Campesina do Peru fundada em 1947) sofreu o violento assédio do Sendero Luminoso (grupo marxista) e também a perseguição do ditador Alberto Fujimori, resultando em sua atual desintegração. Para compensar esta ausência existem as organizações camponesas de base , tanto provinciais como distritais.

Isso também explica o fracasso da esquerda política em direcionar os protestos para seus interesses. Vimos confrontos abertos com parlamentares nas ruas e até ações diretas contra suas propriedades.

Confrontos em Lima.

Você pode falar sobre a participação dos camponeses e indígenas nas manifestações?

Deve-se afirmar abertamente que os grupos camponeses estão à frente dos levantes neste território. Existem diferentes grupos étnicos no Peru que resistiram à maquinaria colonial (em todas as suas formas) e mantêm uma longa tradição antiautoritária. Nessas circunstâncias, diferentes etnias ou nações se uniram para enfrentar diretamente a açougueiro Dina Boluarte.

Embora alguns dos partidos políticos tenham contribuído para organizar os protestos por meio de suas bases, eles estão tentando se posicionar como vanguarda; isso não é mais sustentável, pois as pessoas não aceitam mais os apelos à não violência vindos desses partidos. É por isso que as pessoas queimaram prédios estatais, incluindo delegacias de polícia.

Por outro lado, essas ações também nascem de uma justa sede de vingança contra a capital Lima, porque dirige toda a maquinaria legal colonialista que, através do extrativismo e outras atividades econômicas, esmaga as populações das províncias, usando a violência do estado e força privada para expulsá-los, prendê-los e até matá-los sempre que se opõem a um projeto – ou simplesmente quando exigem o cumprimento dos termos com os quais concordaram como condições para aceitar um projeto estatal ou privado.

A isto se somam as lembranças do comportamento de muitas pessoas de Lima que alugavam quartos, apartamentos ou casas a gente do interior e que não queriam abater o aluguel (ou baixar o valor ou adiá-lo) durante a primeira fase da pandemia, e ainda começou a expulsá-los de suas casas, causando um êxodo de pessoas dos Andes e da selva de volta aos seus lugares de origem por causa da quarentena. Da mesma forma, algumas pessoas foram expulsas de suas casas “por medo de contágio”, porque a imprensa (irresponsavelmente como sempre) espalhou o medo sobre o COVID-19. Além disso, como eles viajavam em grandes grupos a pé porque o transporte era proibido por medo de contágio – e eles nem podiam usar o próprio transporte – a polícia começou a reprimi-los em todos os postos de controle da estrada. E também, os habitantes de algumas localidades, temendo a exposição ao vírus, também participaram dessa repressão e do fechamento das estradas de seus territórios.

É perigoso generalizar esse ódio a todos que moram em Lima, algo que pouco se tem falado nas redes sociais, talvez porque muitas pessoas já tenham família, amigos ou moradia nas províncias para onde possam ir se essa situação tornar-se mais aguda e as províncias tomam a decisão de bloquear o envio de alimentos para Lima. Lima quase não produz alimentos in natura, apenas alimentos processados ​​– mas sem matéria-prima importada de fora, nem isso seria possível.

É por isso que, há alguns dias, circulou um vídeo da caminhada de Ancón ao centro de Lima (que dizem ser 20 quilômetros) em que uma senhora do Sul agradeceu aos lxs desactivadorxs [os “desativadores”, os grupos que se organizam para neutralizar as armas químicas da polícia] pelo esforço e disseram (embora eu acredite que de brincadeira) que terão um espaço na Grande República do Sul. Parece que essa ideia de dividir o Peru em duas repúblicas, que surgiu durante as eleições presidenciais (primeiro entre a direita, quando viram que grande parte do Sul votaria em Pedro Castillo, e depois nos meios de esquerda, que acredita isso é do interesse de seu governo), ganhou força como resultado dos assassinatos de cidadãos. Isso pode ser aproveitado pelos esquerdistas que – com Evo Morales à frente e o apoio da China por meio de sua Cúpula da CELAC [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos] – aspiram a governar os novos pactos comerciais extrativistas com a China, especialmente do lítio presente na cidade de Puno, no sul do Peru e na fronteira com a Bolívia. Até os Estados Unidos pretendem obter o controle dessa área, por isso apoia o modelo de exportação mineral para aquela região – não só com a presença de seu embaixador, mas também apoiando o governo do Peru e suas forças armadas e policiais, militarmente e taticamente. É por isso que eles enviaram forças militarizadas para Puno.

Diante de várias propostas de “independência” ou de saída para esta crise, é preciso analisar cada uma delas, pois atrás de cada uma há aspirantes a opressores querendo puxar os cordelinhos em benefício próprio. Os irmãos e irmãs no Chile já estão nos alertando sobre os perigos ou a ilusão de uma Assembléia Constituinte, até mesmo do próprio processo. [Para mais contexto, veja nossa cobertura de como o movimento no Chile se perdeu na tentativa de introduzir uma nova constituição por meios institucionais.] A esquerda, com seus partidos políticos e parlamentares, está tentando se fazer passar por aliada desses protestos em um esforço que só pode ser descrito como oportunismo político; em alguns lugares, os manifestantes os expulsaram ou vaiaram. A esquerda tenta fingir que se importa com seus irmãos e irmãs nas províncias, mas eles apenas os veem e os tratam como possíveis votos a seu favor.

Para concluir, foram os camponeses que colocaram seus corpos em risco nesses protestos – que, com suas huaracas feitas à mão, trocaram projéteis com a tombería [tropa de choque], repelindo as covardes forças repressivas do sangrento regime de Dina Boluarte. Eles sabem que é uma questão de vitória ou morte; a democracia nunca resolveu nada para eles, ao contrário daqueles que se venderam a um partido. Essas marchas trouxeram à tona o racismo velado no Peru.

Também nos preocupamos com os recursos para o autocuidado e as possibilidades de voltarem para casa quando tudo passar. Já existe um precedente infeliz desde 2000, quando o povo indígena Shipibo-Konibo foi abandonado e marginalizado após os protestos maciços da “Marcha de los 4 Suyos” contra o ditador Fujimori. [A “Marcha dos Quatro Quartos” em julho de 2000 foi uma mobilização de massas organizada por esquerdistas, partidos social-democratas e movimentos sociais contra as eleições fraudulentas e a posse de Fujimori]. Com a queda do ditador e o parlamento cheio de políticos contrários ao antigo regime, toda a esquerda, centro e liberais se esqueceram dessas pessoas, que ainda sofrem com a pobreza extrema.

A mídia corporativa sempre vê os eventos da perspectiva da polícia.

Vimos imagens de terrorismo de Estado no Peru, incluindo assassinatos, tortura e prisão em massa, bem como outras formas de agressão da polícia peruana. Sabemos que estes não são eventos isolados – a repressão é algo comum em todos os estados, especialmente quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como está estruturada a polícia peruana? Qual é a história da repressão policial contra os protestos no Peru?

A moderna polícia peruana foi fundada em 1988, a partir da unificação de três agências estatais anteriores. Sabemos que a formação de policiais é um fenômeno transnacional, ou seja, no desenvolvimento da instituição do policiamento, houve vários modelos que serviram de ideal para outros países (em um momento, foi o modelo francês, em outro, o modelo espanhol e, atualmente é uma mistura de várias instituições repressivas em todo o planeta).

No início, a polícia peruana só dispunha de bastões, apitos e coisas do gênero para estabelecer a ordem municipal; então seu armamento aumentou: pistolas, rifles, pinochios (conhecidos no Chile como guanacos, são carros blindados usados ​​para atacar manifestações), caminhões, motocicletas, gás lacrimogêneo, spray de pimenta, drones e computadores.

Eles sempre estiveram do lado do poder. Eles fizeram greve apenas uma vez, durante a ditadura de Velasco Alvarado, que os reprimiu com força militar, deixando um número desconhecido de mortos.

Nos anos 1980 e 1990, as autoridades deram à polícia imunidade legal e moral para assassinar a fim de eliminar o Sendero Luminoso (partido maoísta). Foi então que cometeram as piores injustiças: assassinar, torturar, estuprar, desaparecer, extorquir em todas as cidades e vilas do Peru.

Em 2000 [quando o presidente Alberto Fujimori fugiu para o Japão, substituído por Alejandro Toledo], eles tiveram que se adaptar à ideologia do novo presidente; porém, carregavam no DNA o autoritarismo e o racismo, junto com o montesinism. [Vladimiro Lenin Ilich Montesinos Torres, ex-oficial de inteligência do exército e espião dos EUA, foi conselheiro do ditador Fujimori e serviu como chefe do serviço de inteligência do Peru sob seu comando.]

A história recente da polícia é um exemplo claro da impunidade do setor político Fujimontesinista, que nunca foi expulso do aparato institucional do Estado, apenas acomodado nele. Hoje, as práticas repressivas vêm dos ex-quadros de Vladimiro Montesinos e também de seus aprendizes.

Polícia se mobiliza para atacar manifestantes no Peru.

Como o chamado Brasil, Argentina, Chile e muitos outros lugares, a região peruana viveu uma ditadura civil-militar. É um território com uma longa história de golpes, como o do presidente peruano Alberto Fujimori em 1992. Fale da resistência e da memória combativa contra os legados da ditadura e a continuidade da repressão e do extermínio na democracia.

É verdade que nesta região houve seguidas interrupções da democracia representativa (o que, obviamente, como anarquistas, não queremos de qualquer maneira) e, consequentemente, houve vários períodos de resistência ao autoritarismo e às ditaduras. No entanto, e um tanto contraditoriamente, também houve ditadores apreciados pelos setores populares – por exemplo, o militar nacionalista Juan Velasco Alvarado, que é celebrado por um setor da esquerda conservadora ou kitsch.

Outro ponto a destacar é que o antifascismo dos anos 1930 e 1940 e suas experiências de resistência foram esquecidos no Peru – goste ou não, quem participou do confronto foram anarquistas, comunistas, apristas [membros a APRA, Aliança Popular Revolucionária Americana, um partido socialista fundado em 1924] e progressistas.

A memória antiautoritária das esquerdas dos anos 1970 e 1980 se perdeu com as perseguições sofridas pelo ditador Fujimori e pelos genocidas do Sendero Luminoso – comunistas dogmáticos que assassinaram camponeses, líderes esquerdistas e qualquer outro que se opusesse a eles. Tudo isso contribuiu para uma despolitização nos anos 1990 e para a aceitação da narrativa neoliberal delirante sobre o “empreendedorismo” em 2000, que grande parte da população dessa região ainda hoje aceita.

Apesar de tudo isso, no dia 5 de abril, aniversário do golpe do genocida Fujimori, marcham contra tudo o que representa a atual ditadura: o neofujimorismo, o neoliberalismo, a corrupção em massa, o narcotráfico e o genocídio. É preciso reconhecer que os partidos de esquerda procuram monopolizar o “anti-fujimorismo” para ganhos políticos e que, seguindo as vicissitudes da política peruana, alguns “anti-fujimoristas” revelaram sua verdadeira face a ponto de ingressar nas fileiras do pos-fascistas (por exemplo, o autor conservador Mario Vargas Llosa, [ex-ministro do Interior] Fernando Rospigliosi e [presidente em exercício] Dina Boluarte, entre outros).

Em todo caso, é o antifujimorismo que entregou o trono da presidência ao atual governo. E embora alguns se orgulhem disso (por ter impedido que Keiko Fujimori, filha mais velha do ex-presidente peruano Alberto Fujimori, chegasse ao poder), é preciso dizer claramente que isso só contribuiu para consertar um abominável sistema político que foi brutalmente nos explorando – sob o qual há massacres contínuos nos Andes, graças a políticos, bandidos e empresários.

Agora, vemos ressurgir essa memória combativa; muitas pessoas pararam de se censurar e estão falando sobre o que sofreram por resistir à ditadura de Fujimori. Ao mesmo tempo, o ataque da extrema-direita tem indignado as pessoas pela forma como usam a acusação de “terrorismo” contra quem se opõe a eles e aos seus ídolos. O famoso “terruqueo” é um conceito que nasceu na década de 1980: é o adjetivo usado para definir quem pode ser morto impunemente. Se você é um terruco(suposto terrorista), pode queimar na fogueira ou ser executado – como fizeram sistematicamente os militares em Ayacucho nas décadas de 1980 e 1990.

Por isso, hoje, o mais próximo da memória combativa é o esforço para desarmar os partidários do ditador genocida Fujimori de sua arma semântica: o “terruqueo”. E é assim que as pessoas estão procedendo nas regiões do sul (lugar onde tanto os militares quanto o Sendero Luminoso massacraram os camponeses). Sem falar em confrontá-los implacavelmente nas ruas até que o fascismo seja destruído!

Os restos de um edifício histórico que pegou fogo perto da Plaza San Martin em Lima durante as manifestações de janeiro de 2023. Segundo o filho do proprietário, o incêndio foi causado por bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia para dispersar manifestantes.

Há debates sobre legítima defesa nas ruas? Existe alguma discussão por parte dos movimentos e coletivos sobre a abolição da polícia?

Nesta região, ouvimos vários discursos diferentes sobre a polícia. O primeiro é o desrespeito da polícia pelos assassinatos de manifestantes, o que é compatível com o repugnante “princípio da proporcionalidade” (teoria imbecil que tem origem no pacifismo do século passado e justifica guerras, massacres, etc., com base em igualar o uso de armas). A maioria das pessoas que promovem essa ideia são cidadãos e esquerdistas moderados (obviamente não vão atacar a instituição pela qual querem disciplinar quando estiverem no poder). O segundo é o discurso da extrema-direita que dá desculpas ao gatilho (apoiando tomberìa e militares em matar sem repercussão legal ou moral) e até mesmo paramilitarismo fascista.

Dentro da esquerda radical, não há quase nada sobre abolir a polícia, embora as pessoas odeiem a instituição por sua corrupção, sua inutilidade em responder a feminicídios, crimes antissociais e outras questões e, finalmente, pelo papel que a polícia desempenha na proteção do empresariado extrativista.

Como anarquistas, acreditamos que é urgente pedir a destruição dessa instituição assassina. Há alguns dias, no blog, um camarada compartilhou alguns artigos não anarquistas discutindo a origem da polícia, a fim de imprimi-los e compartilhá-los na linha de frente.

Ele nos convidou a compartilhar o seguinte fragmento:

“Desde a formação das primeiras cidades, quem as governou teve necessariamente de criar forças repressivas para resguardar os seus domínios dos ataques externos daqueles que procuravam reclamar o que estes governantes lhes arrebataram nas zonas rurais onde viviam, e contra os ataques internos dos aqueles que estavam insatisfeitos com esses governos, reinos ou impérios. Toda a história da civilização e de suas cidades e outros domínios sempre foi dividida entre governantes e governados. A questão é que a direita ama a polícia porque, para ela, os policiais se comportam como servidores que garantem a segurança de seus domínios e privilégios. Por outro lado, o problema é que seu suposto adversário, a esquerda, não busca a abolição da polícia porque isso enfraqueceria seu controle quando chegar ao poder. A abolição da polícia é um passo necessário para uma vida em plena liberdade, encontrar outras formas de convivência equilibrada e respeito é mais um passo necessário para não depender para sempre da existência da polícia. De fato, as comunidades indígenas viveram outrora sem a instituição da polícia ou sua lógica. Hoje, em várias dessas comunidades, essas lógicas e práticas estão sendo impostas como parte do processo civilizatório do sistema e dificultam nosso caminho.

Contracapa da primeira edição do Periodico Libertária. “Mais de 300 assassinados sob a democracia (2003-2020), graças a políticos e policiais. Fogo eterno para os assassinos tomberìa [polícia] e seus símbolos!”

Por fim, estamos interessados ​​nas diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Por favor, fale sobre os envolvidos nas lutas anárquicas na região peruana.

O anarquismo é muito humilde nesta região. Existem diferentes organizações e indivíduos com diferentes abordagens: anarco-sindicalismo, insurgentes, plataformistas e anarquistas sem adjetivos. Não há “black bloc” como observado em outras regiões, ou talvez haja, mas apenas muito pequeno. Tampouco existem “grandes organizações” – admitamos isso como uma forma de autocrítica – mas existem indivíduos que resistem nas diversas províncias do Peru.

A repressão em Lima que o açougueiro Manuel Merino supervisionou em 2020, que representou para muitos jovens anarquistas seu primeiro encontro com a verdadeira face do estado assassino, destacou a urgência de autocuidado e autodefesa agudos, bem como um retorno à realidade (o resultado da situação foi um governo de transição, o enfraquecimento dos protestos e injustiça permanente para os caídos).

Atualmente, com um levante em curso, os anarquistas que não vivem na capital (especialmente no sul do Peru) experimentaram suas consideráveis ​​limitações para enfrentar as forças repressivas e as armas letais da ditadura cívico-militar de Dina Boluarte.

Apesar disso, não desanimamos. A tarefa dos anarquistas hoje, desde nossa humilde posição, é acompanhar os camponeses em todas as ações diretas. Como nossas famílias camponesas , vamos junto com elas em qualquer posição possível, seja resistindo na linha de frente, desativando gás lacrimogêneo, dando assistência médica, coletando doações para nossas irmãs, divulgando medidas de autocuidado, debatendo todas as questões políticas e sociais de nossa região e, finalmente, conhecer sua experiência de resistência. Sem intermediários, políticos de esquerda e influenciadores legalistas, marchamos juntos para a destruição da ditadura cívico-militar e não descansaremos enquanto não vermos a justiça que nos foi roubada séculos atrás.

Manifestação em Puno.

A REVOLTA POPULAR NO PERU – Anarquistas Discutem a Revolta Contra a Violência Policial e o Estado de Emergência ©, .

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O 8 de Janeiro no Brasil – A Escalada Fascista do Capitólio ao Planalto https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/01/12/8-de-janeiro-brasil/ Thu, 12 Jan 2023 14:10:49 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3111 Continuar a ler "O 8 de Janeiro no Brasil – A Escalada Fascista do Capitólio ao Planalto"

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Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes apoiadores do ex-presidente derrotado Jair Bolsonaro invadiram prédios do governo em Brasília, numa imitação grotesca do fiasco que os eleitores de Donald Trump fizeram na capital dos EUA, Washington, no 6 de janeiro de 2021 . A seguir, analisamos partes um pouco da trajetória que levou a esses eventos e discutem o que antifascistas enfrentam por lá como consequência desses protestos.

Estas ações da extrema-direita brasileira coloca questões que anarquistas e outros antifascistas devem enfrentar em todo o mundo.

Quem está conduzindo os esforços da extrema-direita para escalar o conflito civil e transformar as instituições estatais em um campo de batalha? Embora muitos nos Estados Unidos tenham sugerido o envolvimento de Steve Bannon, o Brasil e a América Latina em geral têm uma longa história de golpes liderados por militares locais e forças de direita e apoiados por centristas e conservadores dentro do governo dos Estados Unidos. Ao contrário de Trump, o próprio Bolsonaro esteve ausente do Brasil durante o assalto aos prédios, tendo fugido antes do fim de seu mandato presidencial. Provavelmente é um erro reduzir esses eventos às maquinações de alguns autocratas.

Quem quer que esteja por trás da incursão, por que o desastre de 6 de janeiro de 2021 foi considerado bem-sucedido o suficiente para valer a pena ser repetido? O objetivo dos participantes era tomar o poder, exercer pressão sobre o novo governo ou provocá-lo a uma reação exagerada, legitimar táticas extralegais como um passo para a construção de um movimento fascista? Ou não há objetivo racional aqui, apenas os efeitos colaterais das estratégias de campanha dos demagogos de extrema-direita, a crescente polarização de uma sociedade fragmentada e a atração irresistível dessas táticas meméticas?

Como as populações marginalizadas que são alvo dos movimentos fascistas podem se mobilizar para se defender sem legitimar as mesmas instituições de Estado que tanto fascistas quanto centristas empregam contra elas? Como os anarquistas e outros que investem em mudanças sociais profundas podem impedir que os “rebeldes” de extrema-direita monopolizem a maneira como o público em geral vê as táticas que nós também precisaremos usar, embora em busca da libertação?

Esperamos que a seguinte contribuição ajude nossos camaradas a refletir sobre essas questões.


As Eleições Não Param o Fascismo

Desde a derrota de Jair Bolsonaro para o cargo de presidente do Brasil e a vitória de Luís Inácio Lula da Silva por uma margem de menos de 2% em 30 de outubro de 2022, as mobilizações da extrema-direita foram escalando em proporção e em violência nas ruas. Logo após o anúncio da vitória petista, manifestantes se mantiveram acampados diante de quartéis do Exército, fechando parte de vias, contestando o resultado das eleições e clamando por intervenção militar. Muitos desses acampamentos, que contavam com banheiros químicos, barracas e cozinha, eram financiados por empresários e políticos alinhados ao bolsonarismo e à extrema-direita que, posteriormente, tiveram contas bloqueadas e mandados de busca e apreensão ordenadas pelo Superior Tribunal Federal em novembro.

Como já tratamos, muitos caminhoneiros organizados por grupos patronais realizaram bloqueios em centenas de estradas pelo país, com a total conivência da Polícia Rodoviária Federal. Quando os bloqueios foram desmobilizados, movimentações urbanas passaram a prevalecer, com acampamentos diante de quartéis. Os acampamentos que começaram um caráter mais diverso, contando com idosos e crianças, passou para um perfil predominantemente masculino, marchando pela noite e dispostos a agir de forma mais contundente. Ações como linchamentos de pessoas que tentavam atravessar bloqueios, sequestros e até casos tortura de qualquer um que discordasse de suas táticas ou visões se tornaram comuns.

Uma ocupação pró-Bolsonaro. Os interesses de classe dos participantes são bem claros.

Na noite de 12 de dezembro, durante a diplomação do presidente Lula e seu vice Alckimin, a base de rua radicalizada do bolsonarismo avançou mais um passo: grupos que estavam acampados em Brasília, atacaram uma Delegacia e a sede da Polícia Federal, cinco ônibus e três carros foram incendiados como resposta à prisão de um homem indígena, também pastor evangélico e bolsonarista. Serere Xavante foi acusado de organizar atos golpistas, praticar ameaças e promover ataques ao Estado Democrático de Direito, teve a prisão decretada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Ainda assim, evidências já apontaram a imensa permissividade das autoridades policiais com a ação criminosa de bolsonaristas.

A mídia e diversos juristas acreditaram que bastaria chamar o que está acontecendo de terrorismo e tratar com prisões e penas duras seus participantes para barrá-los. Tal iniciativa é parte do processo pacificador que professa a fé nas leis e nas instituições que nada fizeram até agora para interromper de fato tais ações, deixando as ruas livres para o fascismo. O STF tentou responder mais uma vez com a prisão de dezenas de envolvidos nos atos e no financiamento dos acampamentos. A esquerda, como de costume, voltou a apostar que as instituições e a repressão policial e jurídica bastariam para fazer os protestos recuar.

A imagem de ônibus em chamas, antes o símbolo da luta contra a repressão do estado e a exploração capitalista, vista nos atos contra aumento da tarifa em 2013, contra a Copa da FIFA em 2014 ou tão comum contra ações da polícia nas periferias, agora está prestes a se tornar o retrato do “terrorismo de direita”. O papel de “defensor da lei e da ordem” passa então a ser adotado pela esquerda legalista e institucional que sob a tutela de um novo governo petista.

Como Trump em janeiro de 2021, Bolsonaro não suportou uma derrota em sua reeleição, porém, não estava no país no dia dos protestos e abandonou seus apoiadores para lutarem sozinhos por seu sonho golpista. Partiu no dia 30 de dezembro, com comitiva e familiares, o avião presidencial parte (com tudo pago com dinheiro público) para sua última viagem em direção a Orlando nos EUA. No Brasil, o General Mourão, vice-presidente, passa a ser o presidente em exercício. Esse fez um pronunciamento enaltecendo a alternância de poder, relativizando o papel central das Forças Armadas em duvidar das eleições e nas tensões institucionais provocados. Ambos são vistos por parte da extrema-direita como traidores, o que apenas deixou os bolsonaristas sem Bolsonaro ainda mais enraivecidos e dispostos a radicalizar ainda mais.

Na véspera do Natal de 2022, um episódio quase acelerou a escalada de violência fascista: um motorista de um caminhão de combustível encontrou um artefato explosivo no veículo e alertou a polícia – vale ressaltar que não houve investigação que levasse à ameaça de bomba, se não fosse o motorista, os policiais nunca encontrariam nada. O autor da tentativa de atentado, George Washington de Sousa, de 54 anos, foi preso e confessou ter a intenção de explodir o veículo perto do aeroporto de Brasília antes da posse de Lula, forçando então o ainda presidente Bolsonaro a instaurar um estado de sítio. No apartamento do autor ainda foram encontradas uma coleção de armas pesadas que o homem alegou ter adquirido ao longo de anos, motivado pelos discursos de Bolsonaro, além de mais explosivos oriundos de garimpos para outros atentados. Tudo isso chamou atenção das autoridades policiais e jurídicas, além da equipe de Lula para como os acampamentos bolsonaristas estavam servindo para o recrutamento e radicalização da extrema-direita.

No dia 01 de janeiro de 2023, Lula foi empossado sob forte esquema de segurança e se tornou o único presidente eleito três vezes pelo voto democrático no Brasil – e Bolsonaro o primeiro presidente a não conseguir se reeleger, também o primeiro na era democrática a se recusar a passar a faixa presidencial em cerimônia de posse. As imagens de representantes dos povos indígenas, trabalhadores, negros, deficientes e excluídos passando a faixa para Lula percorreram o mundo com otimismo, como se paliativos para uma sociedade capitalista em franco declínio e desagregação social não fossem apenas uma breve melhora superficial antes do colapso.

Mas a sensação de calmaria e otimismo após a “vitória do fascismo nas urnas” não duraria nem mesmo uma semana.

8 de janeiro de 2023, em Brasília.

O Motim dos Escoltados

Os protestos e acampamentos da extrema-direita diminuiram em número, mas continuaram por mais de dois meses. Nos primeiros dias do ano, um ato foi chamado para o domingo, dia 08 de janeiro. Cerca de 100 ônibus levaram 4 mil pessoas que estavam nas portas dos quartéis em diversas cidades do país seguiram em ônibus fretados para a capital Brasília, somando forças para um grande ato de repúdio à posse de Lula como presidente. Eles argumentam que, além das eleições terem sido fraudadas, Lula seria o chefe de uma quadrilha de criminosos que quer roubar o Brasil para “financiar o comunismo”.

Com a chegada dos ônibus à capital, os fascistas com a camisa da seleção e bandeiras do Brasil seguiram em marcha tranquilamente no início da tarde, sem nenhum tipo de interferência ou incômodo policial em um local que comumente é fortemente policiado e de difícil acesso , rumo aos prédios do Congresso Nacional, STF e Palácio do Planalto (sedes dos três poderes federais, legislativo, judiciário e executivo do Brasil). Lá destruíram janelas, equipamentos e mobiliário, danificando ou roubando objetos históricos e raríssimas obras de arte de Portinari, Di Cavalcanti, Brecheret e outros avaliados em milhões de dólares. Roubaram documentos e armas dentro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), no térreo do Palácio do Planalto, sede do poder executivo, o que levanta a hipótese de terem acesso previamente a informações sobre a localização desses objetos.

Como nos eventos do Capitólio em 6 de Janeiro de 2020 nos EUA, os manifestantes filmaram tudo o que faziam eles mesmos, mostrando o rosto e postando ao vivo nas redes sociais sem nenhum tipo de preocupação com a possível atribuição de crime posteriormente. Ironicamente, conseguiram atacar os prédios e humilhar as autoridades dos 3 Poderes da República, poderes esses em que muitos confiaram que livrariam a sociedade do fascismo após as eleições deu um governo de esquerda e progressista.

A invasão contou com a total conivência e colaboração da Polícia Militar do Distrito Federal, comandada pelo governador Ibaneis Rocha (antigo aliado de Bolsonaro), não havendo qualquer oposição ou repressão policial por pelo menos 3 horas. Policiais facilitaram a entrada dos invasores, e somente às 18h a polícia decidiu tomar alguma iniciativa e cercar os prédios. Diversos vídeos mostram policiais tirando selfies e rindo enquanto manifestantes invadiam o Congresso e outros flagram policiais sendo elogiados e confraternizando com os “manifestantes” dentro dos prédios invadidos.

8 de janeiro, 2023, Brasília.

Somente após as 20h é que as polícias incluindo a Força Nacional, tão eficiente em atacar professores, estudantes ou povos indígenas protestando no mesmo local, conseguiu “conter” pacificamente o protesto e prender entre cerca de 200 pessoas. Nos vídeos podemos ver a polícia retirando os bolsonaristas pacificamente, sem feridos ou mortos, sendo a policia brasileira a mais letal do mundo.

A reação institucional aos fascistas só começou, de fato, quando o presidente eleito Lula, que estava em uma cidade no interior de São Paulo, fez um pronunciamento condenando os atos e emitindo um decreto de Intervenção Federal na Segurança Pública do Distrito Federal, nomeando o Secretário de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Ricardo Cappelli, como interventor até o dia 31 de janeiro de 2023. Na prática, isso significa tirar as polícias do governo do estado do caso (Polícia Militar e Polícia Civil) e entregar o caso para as polícias do governo federal (Força Nacional de Segurança e Polícia Federal). Pela noite, o Ministro da Justiça e Segurança Pública, fez um pronunciamento dizendo que investigações foram abertas, os financiadores dos ônibus foram identificados e que cerca de 200 pessoas haviam sido detidas.

O Ministro da Justiça Flávio Dino, ex-juiz e ex-governador do estado do Maranhão, também se pronunciou, fazendo uma fala comedida onde tentou resguardar a institucionalidade, tratando os atos e as pessoas envolvidas como radicais isolados que seriam tratados como criminosos, esvaziando o conteúdo político do evento (embora o tenha chamado de tentativa de golpe de Estado). O ministro da Suprema Corte, Alexandre de Moraes, muito atuante durante toda gestão de Bolsonaro como uma espécie de “guardião da ordem institucional democrática”, também se pronunciou de forma dura e determinou o afastamento do governador do DF, conhecido quadro político do bolsonarismo.

No dia seguinte aos eventos, o quadro era de certa perplexidade da imprensa e das autoridades, apesar de tais ações estarem há meses anunciadas nas redes bolsonaristas, que estão apostando que a situação será pacificada pela atuação das instituições e pela persecução criminal aos golpistas envolvidos na ação, o que nós duvidamos.

Uma Manifestação Local de Uma Onda Fascista Global

Há muitas semelhanças com o aconteceu nos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, a chamada “Invasão do Capitólio”, porém, também há diferenças significativas, começando pela liderança política dos fascistas.

Jair Bolsonaro sempre se posicionou como apoiador de Donald Trump, alinhando-se com movimentos globais de extrema direita, como os da Polônia e da Hungria. A família Bolsonaro tem conexões com Steve Bannon, que orientou filhos de Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018 e em 2022 alegou que a eleição de Jair Bolsonaro era a segunda mais importante para o seu movimento. Após a derrota, Bannon e Trump, aconselharam Bolsonaro a contestar o resultado das eleições. Ainda assim, não é possível afirmar que haja interferência direta de Bannon ou da extrema-direita internacional.

A motivação para as duas invasões de prédios do governo também é semelhante no conteúdo da suposta conspiração: apoiadores de Bolsonaro alegam que as eleições foram fraudadas em favor de uma elite globalista simpática ao comunismo e à China, com o objetivo de desestabilizar governos nacionalistas para disseminam o que chamam de “ideologia de gênero”, incentivam o uso de drogas e promovem os interesses de cartéis criminosos internacionais. Seguindo o exemplo da alt-right em outras partes do mundo, eles se declaram liberais em seu programa econômico e conservadores em seu programa cultural. Assim, eles afirmam defender a família cristã tradicional como meio de espalhar a supremacia branca, o ódio às pessoas LGBTQI+ e a ansiedade sobre uma suposta ameaça comunista.

A forma de ação também guarda semelhança coma invasão do Capitólio nos EUA, uma turba fascista que não reconhecem a legitimidade das instituições e do processo eleitoral que derrotou o candidato deles, reivindicam ser representantes do povo e invadiram as sedes físicas dos poderes constituídos para depredar, gerar caos e enfrentamento com a esperança de suspender o resultado das eleições. Usam slogans associados ao que se chama de populismo de direita, dizendo que as instituições estão sendo manipuladas por uma elite globalista contra os interesses do povo que, no caso, são eles.

Tanto em 6 de janeiro de 2021 quanto em 8 de janeiro de 2023, uma turba fascista que se dizia a verdadeira representante do povo e se recusava a reconhecer a legitimidade do processo eleitoral que derrotou seu candidato invadiu a sede física dos poderes constituídos para gerar o caos na esperanças de suspender o resultado das eleições.

Após décadas de gestão democrática, durante as quais praticamente todos os partidos a aceitaram como a única forma possível de fazer política na era da globalização capitalista, a extrema direita recolocou a política no campo da disputa e do confronto. Está cada vez mais claro que o consenso construído no pós-Segunda Guerra Mundial em torno da fórmula capitalismo + democracia liberal + direitos humanos, que ignorava as contradições e desigualdades inerentes ao sistema capitalista e estatal, foi rompido. Significativamente, é a direita que aposta nessa ruptura, endossando explicitamente a insurgência e guerra civil, enquanto a maior parte da esquerda ainda se apega às instituições democráticas e à gestão de uma paz cada vez mais precária.

Os acontecimentos no Brasil diferem dos ocorridos nos Estados Unidos na medida em que os bolsonaristas se concentravam em algo mais antigo que o culto a Trump, algo que é próprio da história política brasileira: a nostalgia da ditadura que se instalou por um golpe civil-militar com a ajuda dos Estados Unidos em 1964 e fidelidade a todos os aspectos da ditadura que persistem na sociedade brasileira.

Na formulação do psicanalista Aziz Ab’Sáber: “O que resta da ditadura no Brasil? Tudo, menos a ditadura.”

Bolsonaristas golpistas aproveitando a conivência da polícia para posarem como rebeldes.

Além disso, diferente do que se passou nos EUA após a eleição de Biden, as Forças Armadas Brasileiras, composta por oficiais formados em escolas militares permeadas pelo discurso anticomunista do contexto de Guerra Fria e pelo revisionismo histórico que chama o golpe civil-militar de “revolução de 64”, são parte fundamental dos movimentos golpistas. O bolsonarismo (podendo ser chamado assim o atual neofascismo brasileiro e as movimentações de extrema direita no país) social e eleitoral é composto por inúmeros oficiais da reserva do exército, marinha e aeronáutica, além disso, os oficiais da ativa mal disfarçam seu apoio aos manifestantes e fazem, desde 2014, declarações públicas de sua oposição aos partidos e candidatos de esquerda. A prova mais evidente do apoio das Forças Armadas aos movimentos golpistas é a tolerância aos acampamentos nas portas dos quartéis de todo país, algo que não seria admitido se o teor das manifestações fosse outro.

A coalizão liderada pela esquerda institucional que ganhou as eleições em outubro, como temos repetido, acreditou novamente na institucionalidade e em um acordo nomeou para o Ministério da Defesa, José Múcio, um político de direita amigo dos militares cujo partido PTB tem como lema: “Deus, Família, Pátria e Liberdade” . O resultado foi que o próprio presidente Lula em sua declaração sobre os atos admitiu que o Ministro da Defesa não agiu como deveria para desocupar a porta dos quartéis.

Anarquistas e outros antifascistas marcham em 9 de janeiro de 2023 em várias cidades contra a ameaça do fascismo no Brasil.

O que se passa hoje no Brasil é uma manifestação inequívoca e radical da força que a extrema-direita tem ganhado no mundo nos últimos anos, impulsionada por um fascismo social difuso que sempre existiu na sociedade brasileira mas que a democracia instalada com a Constituição de 1988 não soube ou não quis combater, a começar pela participação dos militares no próprio processo de retomada retomada democrática nos anos 1980 e o seu “papel constitucional” como supostos garantidores dos poderes do Estado.

A maior vergonha para a esquerda como um todo – e especialmente para aqueles que se consideram radicais – é que o governo de Jair Bolsonaro e suas milícias reorganizaram toda a estrutura do Estado, desmantelando a saúde pública, a educação e as proteções ambientais enquanto miravam negros e indígenas pessoas, mulheres e pessoas LGBTQI+, tudo em meio a uma pandemia global que matou no Brasil mais pessoas do que a média per capita mundial. No entanto, fomos incapazes de responder a esses eventos – nem com uma greve geral, nem fechando cidades e rodovias, nem invadindo o palácio do presidente.

Agora, todas essas ações, que deveríamos ter tomado para nos defender contra a extrema direita, estarão associadas à extrema direita. Isso contribui para um discurso que pode nos paralisar, impossibilitando a alavancagem necessária contra os fascistas fora e dentro das instituições estatais, sem falar nos outros partidos que também usarão as instituições do governo para continuar impondo os piores efeitos do capitalismo sobre nós.

Nosso desafio agora é continuar fomentando a revolta e, principalmente, não sabotar o caminho da insurreição quando o aparato do estado está na mão da centro-esquerda e as ruas estão nas mãos dos fascistas e forças de segurança. Para isso, será , será preciso saber provocar a desordem sem ceder as chantagens dos mantenedores da ordem, com seu eterno moralismo defensor da propriedade privada ou estatal.

Ato em Belo Horizonte, 9 de janeiro de 2023 contra a ameaça fascista no Brasil.

Mais sobre o assunto:

NÃO EXISTE OPOSIÇÃO INSTITUCIONAL AO FASCISMO: Análises sobre a escalada da violência da extrema-direita no Brasil

ISTO NÃO É UMA INSURREIÇÃO POPULAR – Breves notas pós-eleitorais

Esquerda Eleitoral, Ações Diretas Fascistas e Resistência Antifascista As Eleições Brasileiras de 2022

Violência, democracia e segurança nas eleições de 2022 no Brasil

VÍDEO: “Chama a Polícia!” – Sobre a criminalização da ação direta e a legitimação das instituições.

O 8 de Janeiro no Brasil – A Escalada Fascista do Capitólio ao Planalto ©, .

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NÃO EXISTE OPOSIÇÃO INSTITUCIONAL AO FASCISMO: Análises sobre a escalada da violência da extrema-direita no Brasil https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/12/17/nao-existe-oposicao-institucional-ao-fascismo/ Sat, 17 Dec 2022 18:14:43 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3042 Continuar a ler "NÃO EXISTE OPOSIÇÃO INSTITUCIONAL AO FASCISMO: Análises sobre a escalada da violência da extrema-direita no Brasil"

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Na noite de 12 de dezembro, a violência da base bolsonarista de rua avançou mais um passo em sua radicalização. Uma Delegacia e a sede da Polícia Federal foram atacadas, cinco ônibus e três carros foram incendiados em Brasília como resposta à prisão de um indígena pastor evangélico e bolsonarista acusado de organizar os atos golpistas, praticar ameaças e promover ataques ao Estado Democrático de Direito. O homem que se intitula “líder indígena” mesmo sem o reconhecimento dos povos da sua etnia, teve a prisão decretada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.
Quando esses grupos neofascistas começam a adotar táticas de luta radicalizada sem qualquer oposição das polícias, é preciso refletir sobre o futuro dos conflitos políticos por vir. E repensar – mais uma vez – o papel da esquerda radical diante dos avanços do fascismo de rua.

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No início, a maioria dos atos dos autoproclamados “cidadãos de bem” contestando o resultado das eleições para presidente foram diurnos e compostos por homens, mulheres, idosos e, muitas vezes, crianças para dar um ar de “família” e justificar a falta de ação violenta da polícia que ataca protestos e bloqueios de movimentos de esquerda com ou sem crianças. Já nessa época, alertamos sobre o risco de atribuir falsa legitimidade a certas ações ao tratar como “insurreição popular” os atos bolsonaristas por intervenção militar e anulação das eleições patrocinados por empresários do agronegócio e das indústrias.

Agora, quando ações violentas como linchamentos e até sequestros e torturas se tornam parte do seu repertório de ação, um novo perfil majoritariamente masculino, radicalizado, noturno e disposto ao confronto aberto está se consolidando, segue sem oposição dos movimentos de esquerda e com o apoio quase integral das forças de segurança. É preciso compreender que o fascismo sem oposição nas ruas crescerá como um motim cada vez mais violento.

A esquerda petista, a mídia e alguns juristas acreditam que basta chamar o que está acontecendo de terrorismo e tratar com prisões e penas duras seus participantes. Tal iniciativa é parte do processo pacificador que professa a fé nas leis e nas instituições que nada fizeram até agora para barrar de fato tais ações e deixaram as ruas livres para o fascismo. Como resultado, a imagem de ônibus em chamas, antes o símbolo da luta contra a repressão do estado e a exploração capitalista, vista nos atos contra aumento da tarifa, contra a Copa da FIFA ou contra ações da polícia nas periferias, agora está prestes a se tornar o retrato do “terrorismo de direita”. E o papel de “defensor da lei e da ordem” passa a ser adotado pela esquerda legalista e institucional que em breve estará sob a tutela de um novo governo petista.

De fato, os confrontos do dia 12 mostram que essa direita está disposta a “não deixar ninguém” pra trás e lutar pela libertação de um dos seus integrantes. A Secretaria de Segurança do DF (governo alinhado ao Bolsonaro) alegou não ter efetuado nenhuma prisão para assim “reduzir danos e evitar uma escalada ainda maior nos ânimos”, atestando a eficiência da organização do protesto radicalizado. Dá a impressão até de que seu sucesso confirmaria a tese insurrecional de que “a força de uma insurreição é social, não militar“. Mas é bom lembrar que a motivação e os interesses dessa base radicalizada do bolsonarismo não são populares, isto é, originada dos debaixo: são os mesmos do presidente derrotado, sua família e sua rede de políticos eleitos para cargos no legislativo; além, é claro, do “partido militar” informal responsável pela eleição do representante do seu projeto de poder em 2018.

Uma imagem do futuro?

Assim sendo, não causa surpresa o fato das polícias militares e federais não efetuarem nenhuma prisão na noite de ataques pela libertação do pastor indígena bolsonarista. O que permite ao filho do milionário praticar feminicídio, dirigir bêbado e matar, ou ao aliado de político encomendar a morte de inimigos e seguir a vida sem importurnação é a mesma lógica que permite grupos fascistas cometerem atos de violência contra pessoas ou de destruição da propriedade sem a menor consequência: a justiça é burguesa e a polícia é sua empregada. Ambos têm lado, partido e ideologia. O fascismo está inscrito na forma-Estado, por isso nenhum governo suprime totalmente o fascismo, pois, quando necessário, recorre a ele para garantir seus privilégios e de sua classe dirigente.

Qualquer um de nós de grupos pobres, pretos, periféricos ou mulheres que praticarem tais atos colocarão suas vidas em risco. Pois serão imediatamente alvo de violência letal e prisões arbitrárias, provas plantadas e inquéritos forjados, como Rafael Braga ou os 23 do Rio de Janeiro, presos nos protestos de 2013/14. Naquela época, após uma década de gestão petista, os protestos de 2013 apresentaram os black blocs e táticas populares combativas contra a repressão policial e intelectuais de esquerda não pouparam críticas desonestas. Marilena Chauí, por exemplo, em fala para cadetes da PM do Rio, disse que anarquistas e adeptos da tácita black bloc “agiam com inspiração fascista”.

Dessa vez, o futuro governo de Lula e Alckmin, herdeiro das leis antiterrorismo de Dilma para criminalizar movimentos sociais, já se inicia com promessa de tolerância zero para protestos de rua – o que sempre vai bater mais forte nos movimentos populares e anistiar os fascistas aliados da polícia e do empresariado. O novo pacto de classes será ainda mais à direita do que aquele firmado há exatos 20 anos. Quando Flávio Dino, futuro ministro da Justiça de Lula, afirma que protestos com vandalismo serão tratados com rigor e como sinônimo de terrorismo, e um ex-ministro petista, Gilberto Carvalho, aponta que os ataques bolsonaristas são “o retorno dos black blocs”, podemos ter certeza de que qualquer ruptura nesse novo consenso petista será esmagado pela polícia e pela lei. Mas, por agora é conveniente deixar os fascistas na rua e retroalimentar a posição santificada da esquerda institucional, da fé nas estruturas de poder e gestão.

Mesmo que o STF detone uma diligencia policial para prender uma centena de apoiadores de protestos golpistas, isso não passa do que parece: um espetáculo na ordem. Passada a turbulência da transição, a pacificação já estará consolidada. Ele junta o aparato jurídico e policial à chantagem do “antes era pior” e o fascismo pode voltar para produzir sua fórmula mágica da paz com algumas migalhas de políticas públicas para os miseráveis.

O avanço eleitoral e como força social mobilizada da extrema-direita no Brasil, que sob o nome bolsonarismo e sob a liderança de militares congrega desde profissionais da violência (policiais e similares legais e ilegais) até amplos setores das classes médias e altas, coloca de maneira inequívoca quais os termos da atual falência funcional das democracias atuais: ou uma insurreição abole as regras do jogo para a construção de algo novo ou morreremos de inanição sob o julgo do aparato securitário do Estado e com medo perene de que a violência fascista irá nos atingir.


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Esquerda Eleitoral, Ações Diretas Fascistas e Resistência Antifascista As Eleições Brasileiras de 2022 https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/11/08/antifascista-eleicoes-2022/ Tue, 08 Nov 2022 21:24:16 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2960 Continuar a ler "Esquerda Eleitoral, Ações Diretas Fascistas e Resistência Antifascista As Eleições Brasileiras de 2022"

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As eleições de 2022 no Brasil colocaram em confronto o nacionalismo autoritário de Jair Bolsonaro ao esquerdismo institucional, Luiz Inácio Lula da Silva do PT. Cada uma dessas estratégias rivais de governança se apresentava como a única salvação possível para a democracia. Toda a campanha foi marcada por atos de violência fascista, e não apenas de eleitores: nas semanas finais, parlamentares aliados a Bolsonaro trocaram tiros com policiais e perseguiram adversários nas ruas com armas na mão.

Para dar um panorama sobre o fosso em que estamos e os possíveis desdobramentos futuros, apresentamos essa breve análise escrita em conjunto com camaradas do coletivo CrimethInc. sobre os protestos ao fim das eleições de 2022.

As eleições de 2022 colocaram em confronto o nacionalismo autoritário de Jair Bolsonaro ao esquerdismo institucional, Luiz Inácio Lula da Silva do PT. Cada uma dessas estratégias rivais de governança se apresentava como a única salvação possível para a democracia. Toda a campanha foi marcada por atos de violência fascista, e não apenas de eleitores: nas semanas finais, parlamentares aliados a Bolsonaro trocaram tiros com policiais e perseguiram adversários nas ruas com armas na mão.

Dia 30 de outubro, aconteceu o segundo turno da eleição para determinar o presidente e os governadores, e Bolsonaro perdeu para o ex-presidente Lula. Mas Lula venceu por apenas 1,8%, preparando o terreno para o conflito que continuará dividindo o Brasil, assim como as eleições de 2020 nos Estados Unidos não marcaram o fim da polarização política.

Após o resultado ser divulgado na noite de domingo, protestos de apoiadores do atual presidente de extrema-direita começaram pelas ruas nas cidades e bloqueando estradas do país. A esquerda institucional e seus movimentos de base se mantiveram recuados e, mais uma vez, coube a antifascistas, torcidas organizadas e moradores das periferias partir para a ação e começar ações de desbloqueio das vias. Essa pode ser uma amostra dos impasses e conflitos que veremos nos próximos anos de governo petista e de reorganização da extrema-direita.

Um problema global.

Não se Derrotada o Fascismo nas Urnas

As primeiras horas após a eleição deixaram claro que, longe de ser uma “derrota do fascismo”, o resultado nas urnas mostra que o projeto bolsonarista, abertamente autoritário, misógino, racista e que trabalhou para agravar a pandemia que matou mais de 700 mil pessoas, ainda tem apoio de metade do eleitorado – quase 60 milhões de pessoas. Parte considerável desse grupo está disposta a lutar por ele, nunca parando de se mobilizar e ocupar as ruas. Além disso, os aliados de Bolsonaro que conquistaram o governo de 13 estados e uma grande bancada nos parlamento darão continuidade à sua agenda criada pelos militares que o colocaram no poder junto de setores conservadores da burguesia, do cristianismo fundamentalista e dentro das forças de segurança.

Naquela noite, momentos após o resultado da eleição ser divulgado, um bolsonarista armado matou duas pessoas e baleou várias de uma mesma família que celebrava a vitória de Lula em Belo Horizonte. Na madrugada de segunda-feira, já haviam bloqueios em 221 pontos em estradas na metade dos estados do país, e em dois dias, 26 dos 27 estados contavam com estradas bloqueadas por bolsonaristas, chegando a um ápice de quase 900 pontos com bloqueios ou manifestações pelo país.

Os bloqueios no Brasil não surgiram do nada. Eles atendem à uma mobilização e radicalização reproduzida pelo presidente e seus apoiadores desde a vitória em 2018. Nos últimos anos, houveram outras paralizações os bloqueios de caminhões desempenharam um papel significativo na agitação da extrema-direita nas Américas. No Chile, caminhoneiros de direita organizaram bloqueios nas rodovias, colocando-os como uma resposta ao ativismo indígena mapuche. No México, os trabalhadores dos transportes são frequentemente usados ​​como tropas de choque para exercer pressão em nome do PRI (Partido Revolucionário Institucional). No inverno passado, no Canadá, caminhoneiros de extrema-direita montaram bloqueios em protesto contra as leis obrigando a vacinação. Provavelmente veremos mais bloqueios de caminhões no futuro.

Bolsonaro repetiu diversas vezes que temia ter o mesmo “destino que Jeanine Añez”, que assumiu o governo da Bolívia após um golpe de estado promovido pelas forças policiais enquanto os militares apenas observavam, e acabou condenada à prisão. O fato de que a direção da PRF decidiu atrasar eleitores no domingo e apoiar ativamente os bloqueios dos bolsonarista mostra que o caso boliviano serviu de inspiração para seus planos.

Derrotado, Bolsonaro levou quase 48 horas para se pronunciar. Em seu discurso de 2 minutos, não reconheceu abertamente o resultado, criticou o movimento que bloqueia estradas e recomendou que fizessem outras forma de “protesto pacífico”, mas fez o típico discurso ambíguo da extrema-direita que mantém inflamadas as suas bases militantes ao mesmo tempo em que tenta evitar implicações legais .

Longe de ser uma “derrota do fascismo”, o resultado nas urnas mostra que o projeto bolsonarista, abertamente autoritário, misógino, racista e que trabalhou para agravar a pandemia que matou mais de 700 mil pessoas, ainda tem apoio de metade do eleitorado – quase 60 milhões de pessoas. Parte considerável desse grupo está disposta a lutar por ele, nunca parando de se mobilizar e ocupar as ruas. Além disso, os aliados de Bolsonaro conquistaram a maioria dos cargos nos estados e nos parlamentos e darão continuidade à sua agenda criada pelos militares que o colocaram no poder junto de setores conservadores da burguesia, do cristianismo fundamentalista e dentro das forças de segurança.

Para além dos aliados de Bolsonaro que se perpetuarão no poder, é importante lembrar que seus milhões de eleitores e, especialmente, sua base radicalizada não vão mudar de ideia de um dia para o outro. Como os recentes atos e bloqueios mostram, eles estarão dispostos a levar suas ideias adiante mesmo sem Bolsonaro. O silêncio do presidente após a derrota trouxe à superfície uma articulação radical que se articulou sem um chamado central do líder, de seus filhos ou apoiadores diretos e figuras públicas conhecidas. Os chamados se deram nos grupos de Whatsapp e Telegram responsáveis por criar e difundir notícias falsas, discursos de ódio e conspiracionistas.

Diferente das greves de caminhoneiros durante o governo Temer e as de 2018, essa não é uma paralisação da categoria como um todo, mas de alguns setores patronais e relativamente poucos militantes radicalizados. E não é preciso muito para fechar as estradas. Apenas um veículo e algumas pessoas.

Manifestantes clamando por um golpe de estado militar.

Durante o domingo de eleição a PRF (Polícia Rodoviária Federal) fez uma megaoperação ilegal de blitz e apreensões de veículos que impediram milhares de eleitores de chegar nos postos de votação, especialmente nas regiões onde Lula era mais popular. No entanto, quando começaram as ações de apoiadores de bolsonaro revoltados com sua derrota, a PRF nada fez para impedir ou acabar com os bloqueios bolsonaristas.

No dia 1 de novembro, o acesso ao aeroporto internacional de Guarulhos, o principal da cidade de São Paulo, contou com ajuda direta de agentes da PRF que foram filmados rompendo as grades de acesso ao aeroporto.

Em algumas cidades, como no estado de Santa Catarina, manifestantes adotaram um tom abertamente nazi-fascista, com saudações nazistas e frases racistas.

Ao longo de quatro anos de resistência popular, incluindo a revolta por George Floyd, Donald Trump manteve o apoio inabalável da polícia e do Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security), mas perdeuo apoio de grande parte da hierarquia militar dos EUA. Em contrapartida, Bolsonaro ainda pode contar com a fidelidade de parte considerável dos militares brasileiros. Após o pronunciamento de Bolsonaro em 2 de novembro, muitos dos manifestantes pró-Bolsonaro dirigiram suas demandas aos militares, exigindo “intervenção federal” – em outras palavras, um golpe militar. Nos Estados Unidos de Trump e no Brasil de Bolsonaro, as eleições não terminam com o anúncio dos resultados nas urnas; eles são, em última análise, determinados pelo equilíbrio de poder dentro do Estado.

Essa “base bolsonarista sem Bolsonaro” pode estar agora à deriva e esperando um novo líder. E sua primeira aposta está sendo nos militares que, ao longo de 4 anos, infiltraram mais de 6 mil oficiais no governo, sendo 2.600 indicados diretamente para cargos de confiança.

Essa foi a recompensa paga por Bolsonaro por ter sido colocado como representante desse “partido militar” informal que é anterior e pode sobreviver ao fim do bolsonarismo. Outro representante dessa classe é o recém-eleito governador do estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas. O mais populoso estado do país, com maior orçamento público, estará agora sob a gestão de um ex-militar presente nas operações de ocupação do Haiti, comandadas pelos governos Lula-Dilma nas oeprações da MINUSTAH, da ONU. Agentes das forças de segurança ganharam eleições para muitos cargos no congresso, avançando uma “politização das polícias”, usando, inclusive, candidaturas coletivas aos moldes daquelas criadas por ativistas que vieram de movimentos de rua dispostos a “renovar a democracia”.

Ações autônomas e antifascistas

Durante pandemia torcidas organizadas, antifascistas e anarquistas e moradores de favelas organizaram redes de apoio mútuo e, ao mesmo tempo, promoveram atos para demandar direito à moradia, saúde, suprimentos e vacinas. Além disso, as torcidas de esquerda foram as primeiras a convocar contramanifestações para barrar carreatas e ações de apoiadores do presidente em São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte.

Por outro lado, a esquerda tornou o “fique em casa” como um mandamento para sua prática política e preferiu recuar e desmobilizar as ações de rua com receio de que isso desse “pretextos para mais repressão”, alegando que era “isso o que Bolsonaro queria” e precisava para um golpe. Antes das eleições, a estratégia era esperar o governo se queimar para eleger Lula mais uma vez – o único capaz de fazer oposição ao projeto bolsonarista. No entanto, ficou claro que essa política recuada e passiva é uma estratégia permanente, pois mesmo com Lula eleito e o presidente acuado, a esquerda institucional e os movimento sob a influência petista se negaram a convocar atos e contramanifestações. Por exemplo, quando o MSTS (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) convocou seus militantes a abrir as estradas, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) contestou, argumentando que a desobstrução das rodovias era papel do Estado.

Vale ressaltar aqui que até o New York Times, um dos mais veementes defensores da passividade nos Estados Unidos antes das eleições de 2020, apontou que o levante de George Floyd de fato contribuiu para mobilizar uma parcela significativa dos eleitores que permitiram a Joe Biden vencer as eleições de 2020. A verdadeira razão pela qual o editorial do New York Times, a liderança do Partido dos Trabalhadores e outras autoridades liberais e de esquerda desencorajam as mobilizações de rua não é porque acreditam que isso lhes custará eleições, mas porque desejam manter o controle total da situação em todos os níveis da sociedade e estão preparados para correr o risco de perder o poder por causa disso.

Se para eleger Lula a esquerda preferiu ficar em casa, agora com o petista eleito é que parece que vão ficar lá para sempre, aguardando a gestão estatal e policial resolver problemas como o fascismo na ruas. O problema é que os mesmos fascistas estão se mobilizando dentro da polícia e do próprio Estado.

Felizmente, nem todos estavam comprometidos com a passividade.

Logo no dia 1 de novembro, torcedores da Galoucura, do Atlético Mineiro, passaram pela BR-318 que liga Belo Horizonte a São Paulo para ver uma partida e romperam sozinhos os bloqueios bolsonaristas, desmobilizando manifestantes. No dia 2, torcedores da Gaviões, do Corinthians, fizeram o mesmo na Marginal Tietê, importante via de São Paulo, ainda jogaram fogos e perseguiram carros dos golpistas. Ainda em São Paulo, antifascistas perseguiram militantes bolsonaristas saindo dos atos de rua.

No feriado do dia 2 de novembro, militantes antifascistas do Rio de Janeiro fizeram um chamado para uma contramanifestação com 50 pessoas para enfrentar mais de 50 mil manifestantes pedindo golpe militar no centro da cidade, sem qualquer apoio dos maiores movimentos ou partidos. Ao chegarem, foram revistados pela Polícia Militar mais preocupada com a segurança da extrema-direita.

A ação direta e radical nunca deveria ter sido o plano B, uma vez que a rua ainda é fundamental ponto de encontro e articulação e as autoridades não tem o menor interesse em barrar o ressurgimento de hordas pro-fascistas. Quando anarquistas e antifascistas perdem batalha pela a narrativa e aceitam a estratégia da esquerda hegemônica, aceitamos que as ruas se tornem palco para ação e recrutar membros. Qualquer resistência à extrema-direita e a um novo governo petista deve levar em conta o papel central das ruas e da organização popular.

Antifascistas no Rio de Janeiro desafiando manifestação golpista: 50 contra 50.000.

Brilha a luz de uma estrela morta

Ao invés de uma derrota do fascismo pela esquerda, a eleição de 2022 significou a reconstituição do centro – um retorno a um 2013 sem esperança de mudança positiva, em que toda oposição radical será tratada como se estivesse ajudando a extrema direita. Resta saber se alguém ficará satisfeito com essa nova gestão, cujo aspecto mais radical é a nostalgia dos avanços moderados ocorridos há mais de uma década.

A campanha eleitoral de 2022 ressaltou algo que já estava evidente na eleição de 2018 que deu a vitória para Bolsonaro: a esquerda petista e sua base militante e eleitoral só conseguem prometer uma imagem do passado, de 2003 a 2012, quando Lula e Dilma governaram uma nova fase extrativista do capitalismo latino, compensando os impactos da extração violenta de recursos como minério, celulose, carne, grãos e petróleo com benefícios sociais. Essa política foi necessária para incluir as novas classes despossuídas, removidas de seus territórios para dar lugar ao agronegócio, barragens e usinas, e empobrecidas pela urbanização forçada e pela marginalização do trabalho. A escolha para os gestores era bem fácil: era isso ou esperar que mais gente fosse recrutada para o crime organizado ou aderisse à revolta popular.

Agora que o ciclo se fechou, uma extrema direita mais encorajada observa uma nova coalizão de centro-esquerda pacificando sua base eleitoral para ela saia das ruas e desista de lutar por uma sociedade igualitária, alegando que movimentos sociais como o levante de 2013 só ajudarão os “extremistas” distantes do centro.

Enquanto isso, Bolsonaro e sua seita ousam prometer um futuro pretensamente revolucionário, de “ruptura com o sistema”, “contra tudo” e contra a “velha política” – de ele mesmo que foi parte por 3 décadas como deputado. A imagem de futuro do bolsonarismo e do partido militar é uma reedição de diversos projetos da extrema-direita que vemos pelo mundo, que busca num passado distante uma revisão para seus sonhos autoritários, racistas e misóginos. A bandeira do império brasileiro, carregada por alguns setores da direita brasileira, tem o mesmo efeito que a bandeira dos confederados nos Estados Unidos, resgatando uma narrativa bandeirante de conquista do oeste, quando não existiam leis nem poderes que, em tese, regulam o mandatário, como seria no estado democrático de direito. Para ambos, o cenário perfeito é o da lei do seu monopólio da força armada usada contra o negro, o indígena, a mulher, as florestas e todo o território.

Torcida corinthiana a caminho do Rio de Janeiro exibem faixas que capturaram de bolsonaristas.

Em 2008, a América Latina via uma chamada “Onda Rosa” de governos progressistas que canalizaram décadas de levantes populares – iniciados com o Caracazo de 1989 e a redemocratização brasileira – para vencer nas urnas com o discurso de “mudar o mundo de cima para baixo”. Mas se tornaram apenas gestores humanizados do neoliberalismo. A opção pela conciliação de classe do PT não conseguiu incluir os pobres e satisfazer os ricos por muito tempo. E muito menos lidar com as classes médias, brancas, especialmente masculinas, que se sentiram pela primeira vez sendo alcançados por pobres, negros e mulheres no acesso a estudo e mercado de trabalho. O resultado foi a revolta popular estourar ao mesmo tempo em que o ressentimento reacionário, que conseguiu capturar melhor a energia das ruas, derrubar um governo petista e colocar um ex-militar no poder.

Ao contrário dos liberais e da direita tradicional, Bolsonaro e seus aliados não buscam realmente governar ou administrar o Brasil, apenas tomar o poder e gerir para poucos aliados e para suas bases radicalizadas. Em vez de comprar vacinas, exigir passaportes de sanitários e controlar o movimento das pessoas em nome da saúde pública, por exemplo, ele simplesmente deixou as pessoas morrerem para manter a economia funcionando.

Tanto Trump quanto Bolsonaro não conseguiram se reeleger como a maioria de seus predecessores. E agora o pêndulo da democracia volta para o lado progressista. É uma questão de tempo até que os novos governos da social-democracia decepcionem mais uma vez as bases exploradas e excluídas e a revolta exploda, como já vemos se desenhar no Chile e nos Estados Unidos. E o fascismo estará a espreita mais uma vez para reunir seu exército.

Uma oposição à esquerda que quer esperar pelas instituições, pelos direitos humanos e internacionais, por um julgamento no Tribunal de Haia, que se compromete com a paz e os ritos democráticos, está naturalmente desarmada e despreparada para enfrentar um inimigo disposto a matar ou morrer enquanto delira pelo seu líder, por deus e sua imagem de futuro glorioso. Assim como esperar que o Estado acabe com os protestos e puna militantes golpistas, ou demandar que faça isso com discursos que criminalizam o protesto, os bloqueios e a ação nas ruas apenas vão dar mais armas e legitimidade às polícias e aos justiceiros que vão nos enfrentar quando formos nós nas ruas protestando por motivos reais, como moradia, comida e dos territórios que sustentam nossa vida.

Também e notório que o uso das fake news e do sensacionalismo podem ter ajudado a desestabilizar a propaganda bolsonarista na reta final, mas alimentar a máquina de desinformação, confusão e a mediação da realidade por corporações como Meta e Google é preparar um terreno para uma luta que estamos condenados a perder. A extrema direita tem uma vantagem fundamental no sensacionalismo da mídia, pois não tem nenhum escrúpulo em mentir e a confusão geralmente serve à sua agenda.

Como fizeram nos anos que antecederam a revolta de 2013, a esquerda institucional voltou a optar por um governo aliado ao centro e à direita. Desta vez, podemos esperar resultados ainda piores em um contexto muito menos favorável. Ou retomamos as ruas e nos organizamos com base em bairros, ocupações, cooperativas, quilombos, aldeias, assentamentos e centros sociais, ou acabaremos descobrindo que somos obrigados a lutar em terreno inimigo, seja virtual ou institucional, quando for tarde demais.

Nenhuma mudança virá de cima. Ninguém está vindo para nos salvar. Tudo depende de nós.

 

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