General – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org vandalismo, depredação e análise Tue, 08 Feb 2022 19:01:38 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2019/09/cropped-FAC_logo19_ilustra-32x32.png General – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org 32 32 Nem CPI, Nem Eleições: Só o Povo Nas Ruas Vai Barrar o Genocídio https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/07/22/nem-cpi-nem-eleicoes/ Thu, 22 Jul 2021 15:09:16 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2569 Continuar a ler "Nem CPI, Nem Eleições: Só o Povo Nas Ruas Vai Barrar o Genocídio"

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A pandemia segue matando mais de mil pessoas por dia no Brasil, na maior média diária do mundo. Sem qualquer plano no nível federal para vacinar e barrar o contágio, o saldo de mortes evitáveis continuará crescendo. Pessoas em todo país começam tomar novamente as ruas para enfrentar um governo tão ou mais perigoso que a pandemia. Além do vírus e da crise social que o acompanha, o governo e o congresso promovem ataques históricos às populações indígenas, ameaçando sua permanência em suas terras e entregando o que resta das florestas para a mineração e o agronegócio.

Enquanto isso, a oposição dentro do Senado lidera uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que busca comprovar se a negligência do governo federal foi elaborada intencionalmente para espalhar a Covid-19, com especial impacto mortífero sobre as pessoas pobres, negras e indígenas. A investigação encontra várias provas dessas práticas, além de revelar escândalos de corrupção na compra de vacinas. Com efeito, muita gente renova a esperança de que as “instituições funcionem” para punir os responsáveis por mais de meio milhão de mortes. Quem escolhe protestar nas ruas, encontra sindicatos e partidos da centro-esquerda tentando controlar e canalizar a revolta para lançar seus candidatos nas próximas eleições. Enquanto os nossos morrem, sabemos que não é possível esperar nem por punição nem por eleição.

As Instituições Estão Funcionando Normalmente – e Precisamos Pará-las

A democracia é sempre apresentada como a “antítese” da ditadura e/ou do fascismo. Alega-se que a divisão dos poderes serve de freios e contrapesos para regular o poder do chefe de Estado e de governo. Acredita-se que essa fórmula da democracia moderna é suficiente para impedir que ele faça apenas o que bem entende sem limites ou consequências em caso de abuso de autoridade. Mas não é isso o que vemos na prática, especialmente nas Américas, onde praticamente todos os países foram fundados sobre a escravidão negra e o etnocídio indígena. As investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito podem oferecer uma esperança, mas não podemos nos dar ao luxo de confiar nos ritos democráticos.

Tomemos um exemplo recente da chamada “maior democracia do mundo”: Donald Trump saiu ileso de dois processos de Impeachment, em 2020 e em 2021. Em ambos obteve a maioria dos votos no parlamento dos Estados Unidos mesmo após cometer crimes explícitos e bem documentados – como chantagear o presidente da Ucrânia para interferir nas eleições americanas e incentivar seus apoiadores a invadir o Capitólio em janeiro de 2021 com símbolos neonazistas para atacar congressistas e tentar vingar sua derrota nas urnas.

Durante as investigações de crimes eleitorais em 2019 e o primeiro processo de Impeachment de Trump em 2020, parte da população renovou sua confiança de que as instituições e a lei cumpririam a promessa de punir o presidente Trump por seus “desvios”. Os protestos que marcaram o governo desde a sua posse foram dando lugar à promessa de que as autoridades resolveriam o problema. Foi somente após o assassinato de George Floyd pela polícia em maio de 2020, que as ruas tornaram a ser o principal palco da ação popular. Uma onda de levantes iniciada em Minneapolis varreu 200 cidades no país, queimando delegacias e centenas de viaturas, ocupando praças e prédios e expulsando a polícia de vizinhanças inteiras.

Manifestantes em frente à 3ª Delegacia de Minneapolis em chamas, após assassinado de George Floyd, 2020.

Figuras proeminentes do partido Democrata acusaram os movimentos insurgentes da rebelião de George Floyd de assustarem o eleitorado, de serem a imagem de “inimigo interno” perfeita para Trump se projetar nas urnas como solução para o caos político e para a crise sanitária – ambos ampliados por ele mesmo e pelas políticas que ele representa. Mas os eventos demonstraram que a população se identificava com os protestos combativos contra a violência e o racismo policial e, como resultado, a popularidade de Trump despencou.

Como afirmam camaradas dos EUA antes da eleição,

“Na verdade, se estudarmos as pesquisas ao longo de 2020, Biden consolidou sua liderança depois que a Rebelião George Floyd começou no final de maio; Trump só começou a recuperar terreno quando os protestos cessaram. Se Trump perder esta eleição e deixar de manter o poder por outros meios, muito do crédito deve ir para os rebeldes por forçarem parte da classe dominante a mudar de lado e apoiar Biden, mostrando que mais quatro anos de Trump podem tornar aos Estados Unidos ingovernável.”

Deixar claro que não haveria paz sob o governo de Trump foi uma forma de dizer que se aliar a ele é desgastar a própria imagem e uma grande quantidade de energia para manter legitimidade e controlar a rebelião. A semelhança entre a esquerda liberal, a direita conservadora e os ricos de toda espécie é que ambos preferem a paz para governar e manter as instituições e os negócios funcionando.

Não foram as instituições democráticas, e sim a coragem das pessoas enfrentando a polícia e milícias supremacistas brancos nas ruas que deixou Trump isolado, contribuiu para a queda da sua popularidade e perda de votos – algo que nenhuma investigação ou Impeachment conseguiu. Se a maior parte das pessoas tivessem aceitado não ir para as manifestações e deixar as poucas pessoas que foram lutarem sozinhas, isoladas, para serem reprimidas, a extrema-direita poderia ter se sobressaído e ganhado ainda mais confiança ocupando essas ruas ao lado das forças policiais. Ambas teriam mais legitimidade e o controle da situação para ajudar Trump a dominar o debate público e vencer a eleição.

Sem a revolta popular demolindo a imagem do governo, esses apoiadores dentro das elites ainda tentariam apoiar um segundo mandato de Donald Trump – mesmo após sua gestão catastrófica da pandemia e a tentativa de invasão do Capitólio por seus apoiadores.

Imitando as trapaças do magnata americano, Bolsonaro e sua corte miliciana prometem contestar o resultado das eleições em 2022 e já está há tempos aparelhando as instituições com mais de 6 mil militares da ativa, muitos deles generais, em altos cargos civis do governo – mais do que a própria Ditadura Civil-Militar de 1964-1985 – e comprando o apoio das polícias militares com prestígio, impunidade para crimes cometidos em serviço e crédito para compra de imóveis. Sem falar de sua campanha permanente para armar cidadãos alinhados à sua ideologia patriarcal e autoritária que já dobrou o número de armas em circulação no país. Carreatas e desfiles de motos caras complementam seu espetáculo performando uma imagem de apoio popular e ameaça à oposição no estilo gangue de macho branco ressentido.

Para entender onde Trump e Bolsonaro se encaixam na política de nossa época, devemos considerar que eles não são a morte das democracias, são sua face mais pura e sem pudores expondo os mesmos elementos policiais, securitários, racistas, genocidas, prisionais e patriarcais que governos democráticos compartilham com os regimes fascistas históricos. Para executarem seus planos autoritários e colocar a vida de milhões de pessoas em risco ainda maior, basta conquistar a maioria dos votos populares e apoio no parlamento para agir com legitimidade e total impunidade. No caso brasileiro, isso é ainda mais explícito uma vez que não houve justiça de transição nem qualquer forma de responsabilização aos militares pelas perseguições, prisões, torturas, desaparecimentos e mortes que praticaram ao longo da última ditadura¹. Hoje, Bolsonaro é apenas o maior representante do mesmo projeto ou “partido militar” que nunca deixou de controlar a República, desde sua fundação em 1889.

Sempre foi evidente, antes mesmo da vitória eleitoral, que Bolsonaro representava um projeto violento que custaria a liberdade e a vida das populações pobres e excluídas. Mas não imaginávamos as dimensões que uma pandemia adicionaria a essa tragédia. A Covid-19 se tornou uma verdadeira arma biológica na matança de pobres e não-brancos se aliando e ampliando o morticínio policial cotidiano. Com 2,7% da população mundial, Brasil já contabiliza 13% das mortes por Covid-19 no mundo. Nessa ofensiva, povos indígenas enfrentam não só a pandemia, mas incêndios na Amazônia, no Pantanal, o avanço do agronegócio, mineração ilegal e extração de madeira sem regulação ou qualquer consequência legal. Pelo contrário, legisladores estão determinados a entregar reservas indígenas ao latifúndio e ao extrativismo em nome do crescimento do PIB, como abordaremos adiante.

Seu plano de extermínio ceifou mais de meio milhão de vidas com o pretexto de “salvar a economia” jogando as pessoas no trabalho, nas escolas e nos transportes lotados para se contaminarem com a Covid-19. Até agora, esse plano nada secreto de disseminação do vírus, comprovado e descrito pelo estudo de diversas instituições de pesquisa, ganhou alguma materialidade e testemunhos bem embasados durante os inquéritos da CPI, que apurou também que ao menos 400 mil mortes teriam sido evitadas se o básico tivesse sido feito para promover a prevenção.

Além disso, ficaram evidentes a censura de estudos que atestam o impacto desproporcional da Covid-19 sobre população negra e indígena, demissão ou silenciamento de servidores que se comprometem em aplicar as recomendações sanitárias que funcionaram em todo o mundo (uso de máscara, testagem, isolamento), uma campanha de boicote à vacinação e em favor da “imunidade de rebanho” aliado ao uso de remédios ineficazes contra o vírus e, mais recentemente, o atraso deliberado na compra de vacinas eficazes para poder comprar vacinas superfaturadas por intermédio de paraísos fiscais, evidenciando que a corrupção está muito bem articulada com o negacionismo científico.

Gráfico do pesquisador Pedro Hallal censurado em reunião com membros do Ministério da Saúde.

A CPI trouxe também declarações e comparações com o Holocausto em mais de um momento. Primeiro quando parlamentares compararam a busca por responsáveis pelas mortes na pandemia com o julgamento de Adolf Eichmann, oficial nazista responsável pela logística dos campos de concentração de Hitler. Em outros casos, trazendo a imagem da cidade de Manaus durante a crise de falta de oxigênio no estado do Amazonas, quando centenas de pessoas morreram sufocadas em hospitais sem ter atendimento em casos graves de Covid-19, os mortos eram enterrados em valas comuns e vieram as acusações de que a cidade foi usada como “campo de teste” para uso em massa de medicamentos ineficazes, como a cloroquina. Exagero ou não, o cenário é terrível o bastante para trazer tais paralelos no debate público.

Com esse peso trágico, a investigação no Senado atrai a atenção de quem não quer “apenas esperar 2022” e torce pelos possíveis resultados da CPI da Covid-19, assim como grande parte dos estadunidenses aguardaram em vão uma condenação de Trump ou um Impeachment. Mas o projeto colonial, patriarcal e genocida brasileiro segue mais vivo do que nunca enquanto o mesmo Congresso que investiga a gestão Bolsonaro não faz nada para barrar as leis que viabilizam seu projeto de destruição dos biomas e dos povos.

Rebeliões de um Novo Junho

Desde 29 de Maio e ao longo de Junho e Julho de 2021, movimentos sociais e centrais sindicais convocaram atos nacionais para protestar contra o governo de Jair Bolsonaro. Os protestos levaram dezenas de milhares de pessoas às ruas nas maiores capitais. Muitas pessoas compareceram carregando o nome e a foto de entes que perderam na pandemia. Blocos autônomos, formados por anarquistas, indígenas, torcidas organizadas e antifascistas em geral tomaram espaço em muitas cidades. Alguns foram mais combativos, com barricadas, pixações e ataque à propriedade dos ricos e do Estado. Aos poucos, o luto e a revolta por todas as mortes evitáveis, pela miséria e pela violência que se aprofundam vão tomando espaço.

Alguns movimentos sociais sob a hegemonia dos partidos de centro-esquerda ressoam a perigosa ideia de que somente nas eleições de 2022 poderemos nos livrar de Bolsonaro e seu governo. Lula se tornou novamente elegível após ter suas condenações anuladas por falta de provas e é apresentado como favorito nas pesquisas eleitorais para ser o novo/velho salvador da pátria. Após o grande ato de 29 de Maio, com forte repressão policial contra um ato pacífico em Recife, e os protestos de 19 de Junho, marcado por confrontos em São Paulo, tais organizações convocaram um novo ato apenas para 24 de Julho, mais de um mês depois.

Bloco Autônomo em São Paulo, dia 3 de julho.

No entanto, escândalos de corrupção envolvendo membros do governo federal comprando de vacinas superfaturadas, deram um tom de “urgência” aos atos, que foram marcados às pressas para o início de julho. Dessa forma, muitas renovaram suas esperanças nas instituições, como nas investigações durante o governo Trump nos EUA. Como reflexo, vimos as centrais sindicais, partidos e movimentos da esquerda tentando centralizar o controle e as decisões sobre quando serão os atos de rua.

Muitas pessoas, coletivos e movimentos autônomos criticaram a explícita tentativa de adiar os atos para amortecer a radicalização que começava a surgir e domesticar a revolta para não comprometer sua agenda e seus interesses eleitorais – sempre um dos riscos de depender da centralização dentro dos movimentos luta. Quando as centrais sindicais e partidos decidem que é razoável esperar mais de um mês para o próximo ato e protesto pelas centenas de milhares de mortes evitáveis para, em seguida, decidir adiantá-los quando veio à tona um escândalo de corrupção, elas estão se somando o moralismo que ergueu a extrema direita ao afirmar: a morte em massa é parte do nosso cotidiano, mas a corrupção não, essa é intolerável!

Se queremos derrubar governantes, temos que fazer isso por nossas mãos. Mesmo que o contexto nos leve apenas a conseguir meias vitórias, como um Impeachment ou a derrota eleitoral de Bolsonaro, dificilmente isso acontecerá sem as ruas em chamas. E isso implica enfrentar práticas centralizadoras e legalistas em meio a nossos próprios movimentos e exige abandonar os desejos de governar a revolta. Quando alguém tenta centralizar a influência sobre os movimentos e monopolizar o discurso de legitimidade para então distribuí-la de forma desigual entre quem parte para ação, o próximo passo é sempre a repressão policial.

https://twitter.com/RedeInfoA/status/1411434924645752837

Da Centralização à Polícia da Paz

Muitos movimentos sociais no Brasil dizem se inspirar na radicalidade das lutas recentes na Colômbia, nos Estados Unidos e no Chile, mesmo que para arrancar avanços pontuais – como foi o caso da nova constituição chilena ou da luta do povo colombiano para barrar a reforma tributária de Iván Duque. Mas parece que devemos sempre lembrá-los que tamanha força social só é possível respeitando e promovendo a diversidade de ações nas ruas e em cada tipo de organização. Não é deve ser aceitável criminalizar ou tentar disputar legitimidade reproduzindo o que diz a lei burguesa e sua polícia.

Assim como fazem petistas em seus delírios sobre os levantes de 2013 no Brasil, ou democratas e liberais nos EUA em 2020, a esquerda reformista e a mídia voltam a difundir boatos de que a revolta popular é sempre fruto de “infiltrados” – a nova figura mítica temida por quem não tem intimidade com as ruas e teme a revolta mais do que teme a polícia. Para tanto, além de romper de vez com a narrativa que culpa quem se rebela pela repressão, é preciso eliminar do debate público a noção de que não ir paras as ruas e ficar em casa, depois de nos aglomerar no trabalho e no transporte público, é o que vai nos manter a salvo em meio a uma pandemia governada por uma extrema direita sem qualquer pudor de deixar nítido uma política genocida.

Dia 19 de junho em São Paulo, um dos primeiros atos mais combativos, ficou marcado por revelar as consequências das inclinações centralizadoras dentro dos movimentos sociais de massa que aceitam ser base eleitoral e conduzem a práticas policialescas. Membros do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, de onde saiu Guilherme Boulos, candidato a presidência e à prefeitura de São Paulo) atacaram fisicamente um bloco autônomo de luta que incluía indígenas, sindicatos, indivíduos e coletivos anarquistas. Membros do MTST tentavam desfazer barricadas na avenida e denunciar pessoas para a polícia – repetindo os feitos de 2014 quando desmascararam e entregaram pessoas em um black bloc para polícia.

Tal episódio foi condenado por grande parte dos movimentos negros, indígenas e libertários. O MTST é um dos maiores movimentos do país e não é justo julgar todos os indivíduos que compõe, sendo muitos deles também indígenas e negros. Dinâmica semelhante se repetiu nos protestos de 13 de julho no Rio de Janeiro, quando membros de um partido stalinista tentaram tomar a frente do ato expulsando o bloco autônomo formado também por indígenas e anarquistas.

A tentativa de abafar organizações autônomas, não partidárias, indígenas e libertárias dentro da esquerda nas ruas mostra os riscos das práticas e métodos centralizadores e hierarquizados aplicados às dinâmicas de rua. Se blocos ou pessoas agindo autonomamente e expressando sua revolta pela perda dos mortos e pela miséria dos vivos incomodam não só a polícia, mas quem marcha ao nosso lado, então é mais provável que os movimentos abortarão qualquer rebelião muito antes que a própria polícia o faça. A disposição dos que optaram por atacar as barricadas e o protagonismo indígena e a ação de grupos autônomos, e o total silêncio de suas lideranças sobre os ocorridos apenas expõe uma faceta autoritária de parte da esquerda que aceita a revolta apenas se puder controlá-la. Fazer pressão nas ruas e causar transtorno para governantes não é tanto uma prioridade quando se quer apenas uma revolta simbólica voltada para a única forma de transformação social vista como legítima: a das urnas.

O Levante é Pela Terra

Desde o início de junho de 2021, indígenas de ao menos 25 etnias se reúnem em Brasília para protestar contra o Projeto de Lei 490/ 2007 que entrega seus territórios para a exploração econômica predatória e inviabiliza a demarcação de novas terras e incentiva a evangelização dos povos que escolheram viver isolados dos brancos e da cidade. Para ter direito às suas terras, indígenas precisam comprovar a sua posse até o dia que foi promulgada a Constituição Federal de 1988, ao fim da Ditadura Civil-Militar. Um dos maiores ataques aos povos indígenas nesse governo, mas que tem raízes nos governos anteriores e avançou bastante com o PT no poder. O projeto foi redigido em 2007 mas encarna as ambições coloniais de um país fundado sobre a conquista e extermínio indígena, que quer reverter direitos conquistados e apagar a diversidade étnica e cultural dos povos que habitam essas terras muito antes da invasão europeia. É também um avanço rumo ao “ponto de não retorno” de devastação na Amazônia, maior floresta tropical do mundo que, em 2020, teve o maior desmatamento da década e pode não se recuperar totalmente dos impactos atuais.

No primeiro dia de protesto, 8 de junho, cerca de 800 indígenas protestavam para pressionar Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Deputados que aprovaria ou não a PL/490. Na porta da FUNAI, a polícia atacou com bombas e bala de borracha os indígenas quando estes apenas se reuniam e cantavam músicas tradicionais.

No dia 22, dia da votação da lei, a polícia atacou novamente indígenas na porta da Câmara dos Deputados, que revidaram com flechadas e acertaram dois policiais. O confronto adiou a votação para o dia 23, quando foi aprovada pela maioria dos deputados. Os acampamentos em Brasília continuam e já contam com quase 2 mil indígenas de 52 etinias.

Os indígenas que permaneceram em seus territórios organizaram ações solidárias junto a outros movimentos autônomos para apoiar e repercutir a luta em Brasília. Bloqueios de rodovias com pneus e fogo foram organizados no dia 25 de junho em São Paulo, por Guaranis da Terra Indígenas do Jaraguá, e no dia 28, Guajajaras, Puris, Xoklengs bloquearam uma avenida no Rio de Janeiro. O mais famoso foi, provavelmente, o bloqueio organizado pelos Pataxós no sul da Bahia no próprio dia 22, bloqueando a rodovia BR101 aos cantos de “Vamos cantar, dançar o catimbó, pra trazer o bolsonaro amarrado no cipó”.

Mais resistência é esperada em agosto para derrubar a PL/490 na Justiça. Porém, fica a lição da articulação indígena que adiou a votação na Câmara e no STF, chamando atenção e solidariedade pelo país e pelo mundo: quando parte dos movimentos sociais urbanos se destaca por desfazer e atacar quem ergue barricadas ou organiza a autodefesa, se distanciando destes para favorecer a repressão, as lutas indígenas provam que ações diretas combativas e a solidariedade entres os diversos povos e movimentos são parte fundamental da luta contra um governo e um estado genocidas.

Nenhuma Paz Pode nos Proteger 

Historicamente, movimentos fascistas como o Integralismo foram barrados pela ação direta, muitas vezes violenta, como no episódio que ficou conhecido como Batalha da Praça da Sé em 1934. Nela, anarquistas, socialistas e comunistas acabaram com um encontro Integralista no centro de São Paulo, roubaram uma metralhadora da polícia e dispersaram violentamente os fascistas, sepultando seu movimento pelas décadas que se seguiram.

Em 2020, protestos no Brasil se deram conta de que era preciso agir diretamente e começaram com chamados das torcidas organizadas e grupos antifascistas barrando atos da direita nas ruas e, posteriormente, denunciando o racismo e a violência policial – o que ganhou fôlego e inspiração com onda de protestos nos EUA. Muitos movimentos e personalidades políticas e artísticas disseram que não se juntariam aos atos e recomendaram que muitos não fossem, alegando que isso “ofereceria ao governo Bolsonaro o pretexto para uma repressão ainda maior” ou até mesmo para “um golpe” (ou auto-golpe). Como vimos durante os levantes por George Floyd, essa narrativa é falha e reacionária em si, pois coloca a responsabilidade da repressão na revolta dos oprimidos. Como se a resposta para um momento de crise e escalada autoritária fosse ainda mais passividade e submissão. Como se baixar a cabeça fosse uma estratégia válida, legítima ou efetiva para enfrentar déspotas como Bolsonaro ou Trump. Algo sem qualquer correspondência na história ou na atualidade.

Para dar fim a um governo, devemos confiar no poder da revolta popular nas ruas para conseguir isso, seja diretamente, seja como vimos nos EUA, destruindo a imagem e o apoio político e econômico de seus líderes, ameaçando a tranquilidade e os negócios de seus aliados, seja como no Chile e na Colômbia, massificando a revolta e tornando-a incontrolável, tanto para a polícia quanto para os movimentos partidários e governistas. Não devemos nos iludir, é claro, com vitórias parciais. Uma nova constituição chilena ou uma reforma policial nos EUA não são nossos objetivos revolucionários de longo prazo e, pelo contrário, podem colocar novas limitações a esses objetivos . Ainda assim, está óbvio que não conseguiremos nem mesmo uma vitória parcial, como a queda imediata de Bolsonaro, se as forças que tentam controlar, pacificar e criminalizar a revolta surgem e crescem dentro dos movimentos sociais do nosso lado das barricadas.

Se queremos a revolta popular massificada nas ruas, temos a certeza de que nem todas as pessoas participando serão parte de uma organização formal – e nem precisam ser para se juntar aos protestos. Nem toda forma de ação é prevista e planejada pelos movimentos sociais. Da Primavera Árabe aos levantes por George Floyd nos EUA, dos protestos contra Lei de Extradição em Hong Kong aos levantes contra o neoliberalismo no Chile, vários exemplos comprovam essa tese. E nem por isso tais agitações deixam de ser uma expressão legítima da revolta dos povos. Em vez de questionar a “organização” ou a “legitimidade” por trás das ações de pessoas ou grupos dispostos tomar a cidade, atacar a propriedade e se defender da polícia nas ruas, devemos nos perguntar como apoiar e oferecer ferramentas para que essa revolta se torne uma força revolucionária ainda mais perigosa para essa ordem social assassina, e ainda mais efetiva em construir alternativas duradouras.

Quanto aos perigos das ações combativas nas ruas, lembramos que no dia 29 de Maio a polícia do Recife não precisou de pretexto algum para atacar um protesto pacífico e cegar duas pessoas que nem participavam do ato. Se um bloco organizado estivesse presente para proteger manifestantes com escudos e capacidade para revidar e afastar a tropa de choque, como fazem com sucesso as linhas de frente no Chile e em Hong Kong, a presença de idosos, famílias ou pessoas com mobilidade reduzidas não seria uma justificativa para promover o pacifismo e apanhar gratuitamente da polícia. No “relógio revolucionário” dos que buscam centralização, controle e pacificação, nunca é hora de erguer barricadas e contra-atacar. Porém quando o fascismo está florescendo e tomando tanto as ruas quanto as instituições, é sinal de que nosso relógio está atrasado e já passou da hora de agir.

Combater e desarticular o fascismo envolve impedir seus eventos de acontecerem, bloquear suas marchas e carreatas para que não ocupem as ruas recrutando mais membros, desmantelar as estratégias para difundir suas ideologias e mentiras. Os atos de junho e julho mostram que milhares de pessoas estão dispostas a ocupar as ruas e impor consequências para os ricos e poderosos. Povos indígenas se articulam contra o governo mais nocivo para sua sobrevivência em décadas e mostram disposição para uma aliança popular e radicalizada.

O que beneficia um governo autoritário não são as ações radicais e combativas nas ruas, mas a falta delas. É também saber que a própria esquerda acha que a revolta popular só pode ser ação de “elementos infiltrados”. Dividindo manifestantes entre legais e ilegais, legítimos ou ilegítimos. Cavando uma divisão e agindo como polícia de si mesmo, a ala legalista da esquerda poupa dois dos principais trabalhos da repressão.

Lutar Será Crime

Nosso sistema penal já é uma máquina de moer vidas e toda prisão deve ser considerada uma questão política. A repressão durante o governo Bolsonaro, porém, vem reafirmando a perseguição ideológica de opositores. Dia 18 de março, em Brasília, Rodrigo Pilha, militante do PT, foi preso pela Polícia Federal por carregar uma faixa escrito “Bolsonaro Genocida” e só foi liberado mais de 100 dias depois ao iniciar uma greve de fome denunciando isolamento, torturas e ainda estar preso mesmo depois de ter direito ao regime semiaberto. Ele e mais quatro companheiros serão processados sob a Lei de Segurança Nacional, entulho jurídico dos tempos da Ditadura. Em São Paulo, nos protestos do dia 3 de julho, o jovem Matheus Machado foi preso arbitrariamente e levado para um presídio por 10 dias depois de achar no chão um capacete policial. Acusado de furtar o item, Matheus também seguirá respondendo em liberdade. Ambos só estão em casa depois de muita pressão popular e nas redes. O uso desses dispositivos legais para enquadrar manifestantes e militantes não é novo e foi usado em 2013 no governo Dilma. Porém, vemos um avanço e um estímulo explícito à perseguição policial e à criação de leis ainda mais duras, como o projeto de lei escrito pelo próprio Bolsonaro, quando ainda deputado em 2016, inspirada no Patriotic Act – absurdo decreto do governo de George W. Bush nos EUA após o 11 de setembro. Outro projeto em curso, a PL272, ataca diretamente a movimentos sociais, considerando crime até mesmo greves, protestos e pequenos atos de vandalismo (já tipificados como dano a propriedade), introduzindo trechos vetados pela Lei Antiterrorismo assinada por Dilma Roussef e seu governo petista logo antes de sua queda em 2016.

É inegável a relação simbiótica e de fundação do moderno projeto de democracia capitalista brasileiro com o que há de mais sombrio de sua herança colonial, escravocrata, aristocrática e ditatorial. Nas leis, na polícia e na política vivemos o resultado dessa história não superada. Especialmente quando muitos dos agentes militares e seus discípulos da época da Ditadura Civil-Militar ainda mantém seus poderes, privilégios e a noção de que podem fazer o que quiserem sem consequências.

As intenções golpistas do presidente são óbvias e muito anteriores ao seu governo. Suas ameaças serão um risco ainda maior se souber que não haverá resistência. Como ele mesmo alegou, são os militares é que “decidem se o povo vai viver numa democracia ou numa ditadura”. Se até o governo Dilma os líderes militares não costumavam opinar frequentemente sobre a política e se diziam “estarem totalmente comprometidos com a democracia”, hoje é rotina declarações que se somam ao tensionamento e às ameaças de Bolsonaro. O chefe da Aeronáutica reagiu às investigações da CPI que apontam para a corrupção de militares ligados ao governo dizendo que “homem armado não ameaça” – o que em si já é uma ameaça.

Nesse cenário, militantes bolsonaristas organizando atos, carreatas e passeios de moto, policiais milicianos aparelhados e os militares controlando a maior parte do poder Executivo representam uma ofensiva autoritária que vai da rua ao topo das forças de segurança e do governo. O atual aparelhamento das polícias militares, até então controladas a nível estadual, e o precedente de golpe orquestrado pelas polícias na Bolívia em 2019 não contribuem para perspectivas otimistas.

Bloqueio de viaduto em Belo Horizonte, 3 de julho de 2021.

Se perdermos a chance de ir para as ruas desmoralizar o governo Bolsonaro e desarticular seus apoiadores – como os povos têm feito de norte a sul do continente –, para apenas esperar uma simples vitória nas urnas em 2022 ou uma condenação após a CPI, corremos o risco de duplicar o saldo de mortes pela pandemia, aprofundar a crise social e securitária, o genocídio de negros e indígenas e ainda ter que enfrentar uma base fascista mais consolidada do que nunca nas ruas num futuro próximo. Por isso, o melhor momento para agir e barrar o fascismo é sempre agora. E a melhor forma é sempre diretamente. Não podemos esperar que o parlamento que aprova os projetos desse governo ou as mesmas elites político-econômicas que abriram as portas para o militarismo protofascista de Bolsonaro sejam aliados em nossa luta para derrubá-lo. Restaurar a política democrática-liberal não é eliminar o fascismo, é apenas voltar com ele para a caserna de onde será recrutado novamente assim que avanços sociais, mesmo que mínimos, ou revoltas populares abalarem o sono dos poderosos.

Quando ocupamos as ruas massivamente, aprendendo com nossos erros e acertos, compartilhando ferramentas para a resistência e a autodefesa, avançamos muito mais numa construção revolucionária do que quando esperamos que líderes e burocratas façam o serviço em nosso lugar. O governo cumpre seu papel assassino, as força políticas que disputam o governo querem pacificar as ruas. Só a revolta pode introduzir um elemento novo, provocar o ingovernável e fazer emergir o mundo novo que trazemos em nossos corações. Se governo é a morte, a fome e a destruição com a política que é a programação racional desses atos, sejamos a revolta ingovernável que afirma a vida e não teme a ruína, pois tudo que aí está foi construído por nós, faremos melhor sem o governo atrapalhando. Mais do que nunca, devemos bradar, nem ditadura, nem democracia, anarquia!

Sejamos quem constrói as barricadas nas ruas para enfrentar o fascismo, não as mãos pacificadoras que as desfazem.


Notas:

1: Ironicamente, em 2021 houve a primeira condenação criminal de um membro repressão da Ditadura Civil-Militar, 36 anos após seu fim. Um delegado foi condenado a 2 anos no regime semi-aberto por sequestro e cárcere privado.

Nem CPI, Nem Eleições: Só o Povo Nas Ruas Vai Barrar o Genocídio ©, .

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Comunicação: Infraestrutura para ações https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2020/03/22/infra_solid/ Sun, 22 Mar 2020 14:22:59 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1594 Continuar a ler "Comunicação: Infraestrutura para ações"

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Infraestrutura solidária para ações solidárias

Na atual situação de crise pandêmica global, recebemos solicitações de diversos lugares e contextos sobre como é possível se apoiar digitalmente e continuar seu trabalho político. Nos perguntam, por exemplo, como uma reunião, assembleia ou plenária pode ser implementada digitalmente se as pessoas não quiserem / não puderem se reunir em uma sala.
Como um coletivo de tecnologia de esquerda, queremos te ajudar a usar as ferramentas certas, mantendo mínimo padrões de privacidade e segurança. Abaixo estão algumas recomendações específicas para ferramentas que consideramos úteis para processos de trabalhos colaborativos digitais.
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Comunicação em tempo real
Chamadas em grupo e videoconferências
As principais ferramentas para reuniões virtuais. Sua comunicação será criptografada e ninguém poderá ouvir, exceto os participantes.
Dicas básicas:
  • Todos os membros devem usar fone de ouvido (para evitar problemas de eco e feedback).
  • Silencie o microfone se você não estiver falando. Há uma opção de “mudo” na ferramenta de conferência.
  • Antes da conferência, 2-3 pessoas devem experimentar a plataforma e se familiarizar.
Plataformas recomendadas:
  • O Jitsi é uma plataforma gratuita para videoconferência e que pode ser usada diretamente no seu navegador. Funciona bem com até 10 a 15 participantes. Recomendamos duas instâncias de coletivos de tecnologia de esquerda.
      ⌲ Jitsi do Autistici / Inventati: https://vc.autistici.org/
      ⌲ Jitsi do Mayfirst: https://meet.mayfirst.org/ 
  • O Mumble permite chamadas em grupo maiores (sem vídeo), mesmo com mais de 100 participantes. Muito recentemente, foi criado um cliente de web para você. Uma melhor qualidade sonora pode ser alcançada com os clientes nativos para todos os principais sistemas operacionais. Toda a informação sobre o serviço Mumble aqui.
  • O Nextcloud Talk permite bate-papo por vídeo e compartilhamento de tela para no máximo 4 participantes. Você precisa de uma conta, mas também pode convidar outras pessoas com um link compartilhado. Toda a informação sobre o nosso serviço Cloud.
       ⌲ Nosso modelo: https://cloud.systemli.org
Mensagens instantâneas e grupos de bate-papo
Messengers para comunicação e coordenação rápidas são sempre importantes de qualquer maneira, mas atualmente são indispensáveis.
  • Signal é o melhor messenger de smartphone para comunicação 1:1 e grupos menores, não-públicos (até 50 participantes). Sempre que possível, use o Signal!
  • Riot.im usa o protocolo federado Matrix e permite grupos (chamados de salas) sem limite de participantes onde a criptografia tem que ser ativada nas preferências. Essas salas podem ser abertas (qualquer pessoa pode entrar) ou fechadas (somente com convite). Sua identidade não precisa estar vinculada ao seu número de telefone ou e-mail, o que é uma grande vantagem em questões de privacidade. Permite troca de arquivos, chamadas de voz e vídeo.
  • Telegam, normalmente, não recomendamos Telegram mas, para grupos grandes e públicos, infelizmente não há outra alternativa recomendável no momento. Muitas iniciativas solidárias de vizinhança estão sendo organizadas atualmente por meio de grupos de Telegram (por exemplo, Kiezkommune ou Corono-Soli-FFM). Nossa recomendação pragmática: use-o somente para esses grupos abertos, esteja ciente de que a comunicação não está protegida e, se possível, use o Telegram client da F-Droid. Pelo menos nele não há rastreadores embutidos para analisar seu comportamento comunicativo.
  • Jabber nosso panela velha que faz comida boa. O Jabber permite discussões 1 por 1 e também em grupos maiores. Você pode se comunicar em diferentes instâncias (isto é, simultaneamente no celular ou no computador com a mesma conta). Há um servidor com registro público e serviço web. Existem programas para todos os sistemas operacionais. Veja toda a informação sobre o serviço Jabber aqui.
    ⌲ Nosso servidor Jabber: https://jabber.systemli.org
Comunicação externa
  • Tickers são adequados para divulgar notícias. Com o nosso ticker, você pode mostrar seu entorno (o bairro, por exemplo) para mantê-lo informado sobre os desenvolvimentos atuais. Uma instância de ticker deve ser solicitada por e-mail. Temos o prazer de disponibilizá-lo em diferentes domínios. Todas as informações sobre o nosso serviço de ticker.
  • Mastodon é uma alternativa gratuita ao Twitter. Podemos recomendar as seguintes instâncias:
     ⌲ A instância dos camaradas holandeses do Wehost: https://social.weho.st/
     ⌲ Do ambiente do Chaos Computer Club (apenas por convite): https://chaos.social/
      
Discussões e armazenamento de conhecimento
  •  Etherpad é muito adequado para coletar conhecimentos ad-hoc e compartilhá-los para criar textos. Não requer registro, portanto não está protegido contra vandalismos. No entanto, os links podem ser criados sem permissão de escrita. Durante grandes assembléias, uma combinação de Etherpad e Mumble era suficiente. Tudo sobre o nosso serviço de pad.
      ⌲ Nossa instância: https://pad.systemli.org/
      ⌲ Riseup.net: https://pad.riseup.net/
  • Wikis são perfeitos para coleta e gerenciamento de conhecimento. Se você deseja criar uma base de conhecimento (interna ou pública), podemos fornecer a você um Wiki com o software Dokuwiki e disponibilizá-lo.
Esperamos ajudar você com as recomendações e com a infraestrutura para seu trabalho político. Também nas discussões, planejamentos de ações, coordenação da assistência da vizinhança e todos os outros modos de solidariedade.
PS: Como nossos amigos, administramos muitos outros serviços, que disponibilizamos com prazer para todas as iniciativas emancipatórias e solidárias.

Nota: Esse artigo será atualizado sempre que necessário. Última atualização: 18 de março de 2020.


Mais informações:

Comunicação: Infraestrutura para ações ©, .

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A REVOLTA – essa ingovernável que perturba o sono dos governantes https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2020/01/02/a-revolta/ Fri, 03 Jan 2020 00:56:09 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1501 Continuar a ler "A REVOLTA – essa ingovernável que perturba o sono dos governantes"

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Não começou em junho, não vai terminar em 2022!

As manifestações de junho de 2013 não foram um acontecimento monolítico. Sua beleza e complexidade estão justamente nesse truísmo. Teve junho antes de junho, teve junho depois de junho. Teve o junho de São Paulo, que foi diferente do que aconteceu no Rio de Janeiro que, por sua vez, teve desdobramentos diferentes do junho gaúcho e mineiro, assim como foram diferentes as manifestações no Espírito Santo, no Pará, no Ceará ou em Goiás e assim por diante. Os explicadores de junho de 2013 de todas as “vertentes” são os que se arvoram a ser coveiros da revolta que segue em curso. O fogo por vezes arrefece,  mas sua brasa segue sob as cinzas e qualquer vento pode reanimar a chama. Junho está sendo. Isso é lembrado a cada momento na política brasileira. Por isso, os melhores textos sobre junho de 2013 são análises de seus efeitos tratando-o como acontecimento e relatos da ordem do testemunho.

Tanto o que se convencionou chamar de direita, quanto o que se chama de esquerda odeiam junho de 2013. Mas a esquerda que governava à época odeia mais e por motivo bem simples: junho desvalorizou seu principal capital político parcimoniosamente acumulado desde a chamada abertura política. Capital este habilidosamente negociado com os dirigentes das elites nacionais e estrangeiras: o controle das ruas. A esquerda partidária e governista jamais perdoará as revoltas de junho por terem implodido seu bezerro de ouro.

Por isso, não surpreende que 2020 já começou com o “terraplanismo político” da blogsfera petista. Esta decidiu difamar publicamente uma militante que foi presa e perseguida insinuando que ela teria envolvimento com o fascismo e com o atentado ao prédio da produtora de vídeos de comédia Porta dos Fundos. Sites como DCM, Revista Fórum e os ventríloquos petistas na internet atacam de forma canalha e desonesta uma pessoa que teve sua vida destruída pela perseguição política nos governos PT. E assim, fazendo coro com as vozes da extrema direita. Nessa hora a tal polarização desaparece rapidinho. O mote, desta vez, foi um vídeo de 2013 em solidariedade a vários manifestantes presos na época. Nada é dito sobre 2013. E, desta maneira, usar o vídeo como meio de difamar pessoas e movimentos sociais diz mais sobre o caráter e o oportunismo de certa militância de esquerda do que sobre as pessoas que aparecem em um vídeo de 6 anos atrás.

Se vocês não lembram, nós lembraremos de como junho começou!

Quando a blogsfera petista traça uma caricatura para criminalizar as pessoas que estiveram nas ruas em junho de 2013, faz isso por medo de uma revolta popular incontrolável como as que explodiram em 2019 e ainda ocorrem no momento presente em vários lugares do mundo. Mas essa criminalização é feita também por ressentimento do que a revolta expôs de forma escandalosa: é preciso uma transformação radical. É evidente, pelo que se observa em nossos vizinhos do continente, que a revolta popular é a única resposta possível ao fascismo crescente com o qual foram e são coniventes todos os governos. Incluso o partido da ordem em junho de 2013, pois ele ajudou a implementar medidas que favoreceram tal fascismo: a política de segurança pública, a lei antiterrorismo e os projetos de cidades excludentes que acompanharam os megaeventos no Brasil, em especial no Rio de Janeiro. E as remoções nada mais eram do que uma parte desse projeto, que foi colocado em curso pelo governo do PT em aliança com o PMDB. Talvez seja essa a parte da história que mais gostariam de apagar. E era a resistência a essas remoções que se estava apoiando naquele momento, nada além disso.

Então vamos lá, mais uma vez retomar 2013. Haviam fascistas nas manifestações? Grupos de extrema direita? Sim, haviam! Extremamente minoritários, mas estavam lá, assim como outras forças políticas tentando tragar a revolta popular para suas pautas, seja para dizer que era tudo contra apenas a corrupção, seja para dizer que o povo queria a reforma política – ainda que gritássemos por revolução.

Ora, quando há uma revolta múltipla, com mais de um milhão nas ruas, é natural que as forças políticas estabelecidas tentem cooptar essa revolta para os seus interesses previamente estabelecidos pelo jogo político. Mas o mais importante sobre 2013 é que isso não deu certo, não deu certo para ninguém.

“Uma parte desta sociedade tem absoluto interesse em que a ordem siga reinando; a outra, em que tudo se derrube o mais rápido possível. Decidir de que lado está é o primeiro passo.” – Ai Ferri Corti

A revolta seguiu não tragável e foi nisso que ela se tornou incontrolável; e foi por isso que julgaram preciso criminalizá-la. Ora, quando se apoiou o indivíduo que deu um soco no secretário de obras do governo Paes, em meio a uma manifestação contra remoções, quem se estava apoiando? O indivíduo integralista, o indivíduo fascista, o indivíduo masculinista ou qualquer um dos seus outros predicados desconhecidos pelas pessoas que o apoiaram? Claro que não. O que estava sendo defendido era a soltura de manifestantes, incluindo o que deu um soco na cara do secretário durante uma remoção – era a ação e não o indivíduo que estava sendo apoiada. Não houve nenhum apoio ao fascismo ou qualquer posição política individual de tal sujeito. Se essa ação não fosse defendida, deveríamos defender a criminalização dos que lutavam contra as remoções – é isso que se espera? Nem é possível se supor que se deva conhecer bem todos aqueles que foram criminalizados por ações éticas antes de se defender a ação contra a criminalização. E contra as remoções, que uma autoridade ganhe um soco na cara não é nada: mereceu sim, mereceu muito. Daí depois se descobre que essa pessoa defende o integralismo, o governo Bolsonaro, o golpe militar… Bom, nada disso se segue da sua ação de dar um soco na cara daquele comandava as remoções, não há nada ser lamentado neste apoio pontual a uma ação e não a um indivíduo.

Mas nós vivemos o tempo das construções de narrativas capazes de forjar absurdos pelas mídias sociais, dos indivíduos que valem mais do que as ações, dos personalismos, das fake news, das guerras discursivas. Todas as pessoas na história recente assistiram o advento do fascismo contemporâneo caminhar junto à defesa da terra plana e das mamadeiras de pirocas. A política institucional representativa cresce pela tendência ao espetáculo. Mas qual diferença fundamental há em acreditar nas mamadeiras de pirocas ou em que 2013 foi orquestrado pela CIA? A política institucional tenta negar a realidade concreta porque a teme. Desde o levante popular, a esquerda institucional tenta associar a revolta que não controla à direita, tentando apagar a posição política que não se enquadra no que é tragável pelos seus objetivos eleitorais. Nessa narrativa, a culpa pela ascensão do fascismo é daqueles que radicalizaram as ruas. O certo seria aceitar a linha do grande “messias” que nos trará a paz através da conciliação de classes. Pra essa “esquerda”, a única política legitima é dos grandes acordos de gabinete. Tenta com isso obscurecer também que aqueles que sempre lutaram até o fim contra o fascismo sem concessões e que disputaram a despolitização das ruas em 2013 foram as forças políticas autônomas e anarquistas. Mas ainda assim as greves e as insurreições em resistência se espalham pelo mundo diante de uma esquerda institucional falida que abre espaço cada vez mais para o fortalecimento da extrema direita.

ALERJ, 2013: a única forma coerente de adentrar os palácios.

Por tudo isso, mais uma vez, o que gostaríamos de dizer é que essa realidade concreta permanece aí apesar dos discursos ruminantes – e ela é mais forte do que qualquer fake news espetacular que se consiga propagar. Quando a revolta popular chegar, tal como se espalhou pela América Latina e pelo mundo nos tempos recentes, a política feita por eles será impotente. A potência de 2013 jamais deixou de existir, mesmo com a criminalização, mesmo com a repressão, mesmo com as bobagens que escrevem. E assim como a terra não para de girar porque alguns dizem que ela é plana, a insurreição não se mata com discursos vazios. Absurdos não se combatem com argumentos, mas com ações.

Poderíamos seguir e especular o quanto essa “polêmica” atende aos interesses eleitorais da força hegemônica à esquerda. Como isso pode ser um meio de manter em seu lugar suas linhas auxiliares. Mas esta disputa não nos diz respeito como anarquistas. Como diz o ditado: “eles que são brancos que se entendam”. A nós, só interessa a revolta e nossa solidariedade aos amigos e amigas de luta que são alvo da má fé da esquerda institucional e seu rebanho de internet.

E seguiremos afirmando: 
Todo preso é um preso político!
Nenhum governo combate o fascismo até o final, pois recorre a ele sempre que se sente ameaçado!
Paz entre nós, guerra aos senhores e aos funcionários dos senhores!

Fogo nos fascistas! O fogo da revolta!

Nas ruas nos vemos, nas ruas reconhecemo-nos!

A REVOLTA – essa ingovernável que perturba o sono dos governantes ©, .

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POR UMA NOVA DÉCADA DE LUTA! https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2019/12/31/2020/ Tue, 31 Dec 2019 12:45:57 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1476 Continuar a ler "POR UMA NOVA DÉCADA DE LUTA!"

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Santiago, novembro de 2019

O ano de 2019 foi longo e muito produtivo para o coletivo Facção Fictícia e toda a rede de projetos editoriais, movimentos anarquistas/anticapitalistas com quem trabalhamos.

Encerramos o ano e a década felizes por participar de grandes produções dedicadas a narrar, repensar e provocar as lutas sociais por um mundo livre de estados, do capital e toda forma de opressão. Produzimos conteúdo não apenas sobre as mobilizações, mas de dentro dessas mobilizações nas quais nos envolvemos – sejam ocupações por moradia, nas mobilizações por melhores condições de vida e toda forma de protesto e ação direta que busca construir nosso poder de organização e luta para além e em confronto com o estado e o mercado.

Santiago, Chile, 2019

Escrevemos essa nota enquanto as ruas ainda ardem em Hong Kong, no Chile e na Grécia, mostrando que o neoliberalismo não venceu e a história dos de baixo ainda vai contar seu fim. Escrevemos enquanto a fumaça da guerra social ainda sobe em meio à resistência dos povos da Amazônia e de Rojava. E nos deixa muito contentes saber que pudemos compartilhar experiências e ouvir relatos em primeira mão das barricadas da Comuna de Quito e das trincheiras da revolução na Síria com a Comuna Internacionalista em Rojava. Pudemos também relembrar ações de libertação animal em São Roque em 2013 com testemunho pessoais de quem esteve na linha de frente. E publicamos nossos textos em diferentes portais e em pelo menos cinco línguas!

Quito, outubro de 2019

Além do trabalho escrito, pegamos muita estrada em 2019. No primeiro semestre colaboramos na turnê com Vitalist International e a editora Glac por 3 estados do Brasil, visitando centros sociais, culturais debatendo organização de base e paralelos possíveis entre Américas do Sul e do Norte.

Entre os meses junho e julho, realizamos uma grande turnê com o coletivo CrimethInc. passando por 15 cidades em 7 estados e pelo distrito federal, para lançar o livro impresso Da Democracia à Liberdade, que traduzimos e produzimos em parceria com os coletivos Subta e No Gods No Masters. Ao todo, foram 21 eventos, passando por centros sociais, ocupações, sedes de sindicatos, universidades, centros de pesquisa e alguns lugares inusitados. A proposta era levar tanto as ideias do livro como promover debates com pessoas e grupos organizados em lutas sociais em lugares tão diversos. Foi uma grande experiência visitar e compartilhar aprendizados, estratégias e histórias com quem luta para construir um mundo além do Capitalismo.

Turnês com Vitalist e Crimethinc em 2019

Escrevemos uma introdução que acompanha o livro Chamada da editora Glac. Chamada reúne manifestos e chamados anônimos como o italiano Ai Ferri Corti e o estadunidense Como Iniciar um Incêndio e dentre outros. Além disso, o livro conta com artigos que comentam e analisam esses chamados e sua relevância para a luta anticapitalista no século XXI. Assim, nós que desde 2013 estamos organizando e lançando publicações subterrâneas, copiáveis e pirateáveis, pudemos contribuir em 2019 com o lançamento de dois livros de maior tiragem que achamos muito importantes. Seguimos também contribuindo com dois artigos em mais uma edição da Revista Fagulha.

Nossas parcerias renderam frutos para além dos livros e textos. O coletivo Antimídia registrou e transformou as apresentações da turnê com CrimethInc. em ótimos vídeos para continuarmos o debate. Tanto a fala sobre o livro Da Democracia à Liberdade quanto a apresentação sobre A Resistência Anarquista na Era Trump podem ser vistas a qualquer momento por quem não conseguiu comparecer pessoalmente em alguma das atividades que realizamos. Aproveitem e vejam mais alguns dos ótimos vídeos realizados pelo coletivo Antimídia em seu blog antimidia.noblogs.org.

https://vimeo.com/349343511


A próxima década tem tudo para ser de muitos conflitos sociais e decisiva para barrar o avanço dos novos movimentos de direita e aspiração fascista que estão em ascensão em praticamente todos os continentes. Do mesmo modo, precisaremos oferecer soluções para além da cooptação eleitoral que o próximo ano promete: partidos de esquerda ou conservadores e grupos liberais tentarão drenar a radicalidade das ruas para nos vender o menor denominador comum através das urnas. Não cairemos nessa armadilha!

A direita que está agora no poder dá aos movimentos radicais e anticapitalistas a chance de mostrarem formas de luta e objetivos que não dependem de relação com o Estado. Rompendo o laço (ou a cooptação) que os movimentos sociais mantinham com a esquerda no controle do Estado e dificulta, mesmo que por um tempo, a identificação que os movimentos e as pessoas podem ainda ter com o aparato estatal e suas narrativas progressistas, democráticas e institucionais.

No fim das contas, sabemos que nem a esquerda, nem muito menos a direita no comando do Estado serão capazes de minimizar os impactos de uma economia neoliberal globalizada, cada vez mais brutal e excludente. A frustração atingirá eleitores de Bolsonaro e sua turma de forma ainda mais violenta que atingiu quem votou no PT e agora mudou de lado. Precisamos ter consciência desse pêndulo de atração e insatisfação que reúne a simpatia das massas hora à direita, hora à esquerda em períodos eleitoras. Em momentos de crise neoliberal, pode ser útil assumir reformas apresentadas pela esquerda institucional para incluir os pobres nas linhas de crédito e consumo ou a um relativo bem-estar. Mas quando é o momento de retomar as rédeas e os lucros da elite, populistas, neoliberais ou fascistas serão sempre uma opção para a retomada do total controle do Estado.

Essa consciência nos ajudará a apresentamos nossas propostas e mostrar de que lado lutamos e resistimos contra todos os que estão no poder do Estado e do Capital, usando seu aparato policial contra nós da base da pirâmide. Não esquecemos que foi no governo do PT que vimos um aparelho repressivo contra movimentos sociais e a ocupação das favelas serem levadas adiante como nunca. Tudo isso feito de forma a dar legitimidade para tais ações e instituições militarizadas que agora Bolsonaro – assim como Temer – herdou para usar contra movimentos sociais e toda a população.

Sendo assim, fazemos coro junto aos que entendem o cenário dos conflitos sociais em escala global não como apenas no embate binário entre direita/esquerda, conservadores/progressistas, bolsonarista/petistas. Existem ao menos três lados nos conflitos globais se delineando hoje, dentre os quais podemos nos situar de acordo com a perspectiva de ação e proposta para futuro:

  • Neoliberais de todos os tipos, de Hillary Clinton nos EUA a partidos supostamente esquerdistas como o SYRIZA na Grécia, Podemos na Espanha e o Partido dos Trabalhadores no Brasil. Embora discordem dos detalhes, todos compartilham um objetivo comum de usar a governança estatal global em rede para estabilizar o mundo em prol do Capitalismo.
  • Nacionalistas como Trump, Erdogan, Bolsonaro, Netanyahu e extremistas como o grupo Estado Islâmico, que deixaram claro que não se incomodam com a construção de estados genocidas e a eliminação de povos – sejam indígenas, negros, LGBTTTQI, imigrantes, mexicanos, curdos ou palestinos. Essa categoria também inclui Assad, Putin e outros demagogos que – como os neoliberais – costumam estar em desacordo uns com os outros, mas todos buscam a mesma visão de um mundo pós-neoliberal de etnoestados concorrentes entre si.
  • Movimentos sociais radicais de libertação que buscam promover a autodeterminação pluralista e igualitária, com base na autonomia e na solidariedade. Anarquistas, Zapatistas e a revolução em Rojava são exemplos que se encaixam nessa categoria, mesmo que grande parte também tenha um caráter nacionalista.

Nesse cenário, onde o conflito social não é mais binário, mas se divide em três, movimentos sociais anticapitalistas precisam reunir forças e desenvolver suas próprias narrativas e estratégias para difundir conhecimento, apoio, solidariedade e coordenação. É nessa perspectiva que buscaremos manter e ampliar nosso campo de trabalho no ano e na década que se inicia.

Por uma nova década de luta! Pelo fim do estado, do capital, do racismo, sexismo e toda forma de opressão!

POR UMA NOVA DÉCADA DE LUTA! ©, .

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BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 6 Anos da Ação em São Roque em 2013 https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2019/10/25/alf-saoroque/ Fri, 25 Oct 2019 13:25:30 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1251 Continuar a ler "BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 6 Anos da Ação em São Roque em 2013"

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Bons exemplos mas não um modelo pronto

Em outubro de 2013, exatos 6 anos atrás, um protesto contra o uso de animais em testes realizados em um laboratório no interior do estado de São Paulo se transformou em uma das mais emblemáticas ações diretas daquele ano que mudou o cenário político e os movimentos sociais no Brasil. O evento por si só já chama a atenção pelo tamanho e pela eficiência, ainda mais no contexto brasileiro, pouco familiarizado com ações radicais pela libertação animal com uma perspectiva anticapitalista. Acreditamos ser importante revisitar tais acontecimentos para aprender com suas limitações e desenvolver seus acertos no que diz respeito a diversidade de táticas, coordenação de diferentes movimentos, radicalidade e contundência da ação que pode inspirar outros grupos e novas campanhas.

A ação em São Roque:

Após dias acorrentadas nos portões do Instituto Royal, na cidade de São Roque, denunciando o uso e o assassinato de animais com técnicas como a vivissecção (cortar animais ainda vivos e sem anestesia para experimentações), ativistas atraíram a atenção da mídia e de outras organizações para a causa. E na madrugada do dia 18 daquele mês a manifestação se tornou uma ação de resgate dos animais que libertou quase 200 cães da raça beagle e dezenas de ratos. Toda a ação foi fotografa e filmadas pelas participantes.

Do lado de fora do laboratório, a estrada foi tomada por barricadas logo pela manhã. Uma viatura da polícia militar e um carro da imprensa foram queimados por manifestantes. Algumas pessoas menos acostumadas com a dinâmica de resistência em protestos de rua ainda tentaram formar uma barreira para proteger os carros de emissoras de TV da destruição, mas não adiantou. Do lado de dentro, jaulas foram esvaziadas, computadores, documentos e materiais de pesquisa foram destruídos. Paredes pixadas por símbolos da Frente de Libertação Animal (ALF) e ruas tomadas por Black Blocs que montaram barricadas para impedir que a tropa de choque chegasse ao laboratório e prendesse manifestantes.

Carro de emissora de TV depredada e viatura da Polícia Militar incendiada na estrada em frente ao laboratório.

Para muitas pessoas ali, era como se enfim chegasse o dia que toda uma geração de movimentos pela libertação animal, anticapitalistas e anarquistas sonharam e trabalharam para ver. Era o momento em que táticas radicais se encontram, convergem permitindo que movimentos distintos, com táticas distintas, operassem em conjunto para uma ação efetiva. Foi possível atingir tanto seu objetivo imediato (resgatar os animais e impor consequências ao laboratório pelo uso e tortura dos mesmos), quanto objetivos de médio e longo prazo (o fechar o laboratório e a educar a opinão pública sobre o tema). A ação chamou a atenção do público geral e tomou as notícias em todo o país, provocando uma mudança inédita no imaginário das pessoas sobre o que é possível fazer em uma ação direta pelos animais e educando as pessoas sobre o quão perverso e inútil são os testes em animais e o uso dos animais para qualquer fim. Tudo isso devido a uma janela de possibilidades aberta nas ruas em junho de 2013 nos grandes levantes contra o aumento das passagens no transporte público.

A invasão do Instituto Royal é um exemplo emblemático mas que também desperta curiosidade e demanda reflexão. Como nas ruas tomadas na luta contra o aumento em todo o país em junho daquele ano, a batalha em São Roque contou com a presença de uma grande diversidade de pessoas. Diferentes idades, posições políticas, classes sociais e também diferentes táticas e modos de luta e organização: ativistas que defendem o “bem estar animal” (ou que focam sua ação apenas em cães e gatos) estavam lado a lado com grupos veganos anticapitalistas. Personalidades da TV ou manifestantes de classe média que defendem a causa animal protegidas atrás de barricadas feitas por Black Blocs anarquistas. Um mosaico de inúmeras formas e contextos de luta se aliaram com um objetivo comum. A articulação prévia de longos dias foi organizada por um número reduzido de pessoas e catalisou a luta que surgiu de forma espontânea para centenas de pessoas que aderiram ao movimento imediatamente após um chamado aberto para a ação direta. Uma estratégia improvisada e repentina se tornou a principal arma contra uma polícia despreparada e incapaz de prever os movimentos de pessoas determinadas a agir.

Animais foram resgatados, o laboratório declarou falência e o impacto nas leis e na opinião pública foi maior do que todo o ativismo estritamente legalista ou outros protestos simbólicos contra a empresa durante os cinco anos anteriores: até o início de 2014, novas leis que regulam e restringem o uso de animais em testes foram aprovadas, incluindo a proibição desse tipo de teste para cosméticos em todo o país. O que nos prova que mesmo quando as pessoas querem apenas reformas, novas leis ou o fim de uma instituição opressiva, é melhor demonstrar força popular para realizar essas mudanças por nossas própria ações do que pedir pacificamente e esperar a boa vontade de poderosos. Se nos mostrarmos irredutíveis e com disposição para ação, as autoridades vão correr para nos atender antes que consigamos algo por nossa conta. Nesse momento é que os movimentos devem buscar ainda mais força para dobrar as autoridades.

Manifestantes rompendo as barreias policiais e ativistas resgatando cães dentro das dependências do Instituto Royal.

A invasão ao Instituto Royal serve com um exemplo de sucesso obtido quando a organização de longo prazo encontra a imprevisibilidade de ações imediatas, inovadoras e capazes de mudar de táticas para encontrar uma brecha no sistema, antes que a repressão policial seja capaz de reagir à altura. Questionando o discurso tradicional das lutas sociais legalistas, vimos que a diversidade de táticas e de formas de organização, quando aliadas, podem ser a chave para vitórias que tornam possível o que era até mesmo impensável.

Ainda assim, o episódio é um bom exemplo e não um modelo ou receita a serem seguidos metodicamente. Mais do que buscar respetir suas táticas e etapas de ação, é preciso entender e assimiliar as posturas que permitiram o sucesso da ação. Mesmo conflituosa e divergente para muitas pessoas que participaram, a ação mostra que uma diversidade de táticas e frentes de luta diferentes pode ser muito mais eficientes, tanto a curto quanto a longo prazo. Diferentes níveis de luta, como ação direta e confronto com forças de repressão, mídia independente e autônoma, comissões legais e porta-vozes, ajudam a distribuir a legitimidade dos movimentos e torna difícil a tentativa do Estado de isolar e silenciar “minorias infiltradas” ou “grupos radicais” do resto da luta. Essa harmonia e cumplicidade entre formas diferentes de ação se mostrou muito efetiva para libertar os animais, impor danos ao laboratório e não dividir o movimento entre “legítimos” e “ilegítimos”, “legais” ou “ilegais”, impedindo que as autoridade encontrassem divisões fáceis entre participantes que permitisse isolar e prender quem realizou ações ilegais de invasão, dado a propriedade.

O sucesso imediato e a continuidade do debate sobre o uso de animais como objetos e sua condição de propriedade em um sistema capitalista conseguem ir para além do reformismo bem-estarista (que visa apenas regular o uso de animais) e desafia o moralismo burguês dos movimentos abolicionistas (que lutam para que nenhum animal seja considerado propriedade) que se baseiam, muitas vezes, em princípios pacifistas como valores absolutos.

Black Blocs formando um cordão de proteção para bloquear o avanço da polícia em direção ao laboratório.

É necessário sempre repensar táticas, ser capaz de inovar e sempre fazer uma autocrítica. Não há problema na radicalização das ações antiautoritárias e de libertação. O problema não é atacar ferozmente o sistema, mas sim não continuar atacando. Somente a radicalização aliada ao debate sobre uma diversidade de táticas e discursos pode impedir que a legitimidade das lutas seja determinada pela mídia, pelo Estado ou por ativistas privilegiados – empresários, apresentadoras de TV e políticos – que buscam sequestrar lutas sociais organizadas por pessoas anônimas ou invisibilizadas como forma de acumular ainda mais poder e privilégios.

Para compreender um pouco mais de como foi a luta por trás das barricadas e por baixo das máscaras, publicamos aqui dois relatos escritos por pessoas que estiveram na invasão do laboratório. Elas contam como foram esses momentos de luta e descrevem sua importância para ações futuras. É preciso mais debates e, principalmente, mais ações que desafiam as leis e as “receitas de bolo” revolucionárias.

Por uma luta de libertação animal e humana total, radical e anticapitalista!

Primeiro Relato:

Em meio ao instável cenário político que veio após os protestos de junho de 2013, ativistas pelos direitos animais começaram uma campanha para fechar o Instituto Royal, um laboratório localizado no interior do estado de São Paulo conhecido pelos testes em animais e pelas práticas de vivissecção.

Após alguns dias atraindo atenção para o assunto e para esse estabelecimento em particular, a noite que mudaria como a mídia, a população e até legisladores encaram a vivissecção estava por vir. E sua história seria escrita através da ação direta. Naquela noite, em especial, as pessoas se reuniam em frente ao portão do laboratório atraídas pelas notícias que circulavam nas mídias sociais. No momento que cheguei àquela área rural cortada por estradas de terra e algumas poucas casas, a polícia estava guardando os portões e podíamos ver funcionários e seguranças privados andando dentro do prédio. Caminhões entravam e saíam, aparentemente, levando documentos e animais por medo de uma invasão. Mas essa não era uma ação da Frente de Libertação Animal (ALF). Pessoas de todos os tipos estavam presentes. Algumas só se importavam com os beagles, outras com apenas cães e gatos em geral, outras eram ativistas dos direitos animais. Black Blocs também estavam lá e até apresentadoras de TV que apoiam causas animais chegaram pois a mídia começou a divulgar que uma invasão estaria para acontecer. O que fez com que a mídia burguesa aparecesse e também mais pessoas em geral.

A polícia logo ficou em menor número e claramente incapaz de lidar com o fenômeno que tomava forma ali. É importante lembrar que São Roque fica a uma hora de qualquer cidade maior. Em poucas horas éramos muitas à postos naquela estrada sem saída cercada de mato. A estrada termina em um portão com uma largura que cabe 15 pessoas enfileiradas. De repente não parecia mais ser uma barreira e a polícia já demonstrava não estar preparada para a situação. O que pode dizer que eles poderiam reagir de forma desproporcional, mas como não se tratava do batalhão de choque, era mais provável que iriam apenas recuar. Especialmente devido à diversidade da multidão composta por senhoras de cinquenta ou sessenta anos junto a estudantes e pessoas vestidas como um Black Bloc.

Por volta da meia noite os carros do laboratório não conseguiam mais sair pelo portão e os latidos dos cães nos lembrava que as pessoas do lado de fora não eram as únicas apreensivas. Redes sociais funcionavam fortalecendo centenas de nós que estavam ali. Às duas da manhã, no dia 18 de outubro, ficou óbvio que haveria uma invasão. Bastou alguém tomar a iniciativa de começar a bater no cadeado do portão com uma pedra para que todo mundo ver que estava na hora. O portão já estava sendo derrubado enquanto gente cortava as cercas e a multidão pressionava em todas as possíveis entradas.

Rodovia que leva ao laboratório bloqueada por manifestantes.

Entramos! Uma pequena estrada leva ao prédio principal, com mais portas a serem quebradas e arrombadas. A polícia só conseguia olhar e a mídia estava lá dentro também com as câmeras ligadas. A maioria das pessoas usava máscaras como em um resgate aberto. Algumas de nós, que temiam o que podia acontecer depois, tínhamos o cuidado de cobrir nossos rostos.

Um por um, quase 200 beagles foram transportados no colo subindo o morro até onde, há poucos minutos, havia um portão onde outras ativistas esperavam com seus carros – praticamente todo mundo chegou lá de carro porque não havia outro meio de transporte para o local a essa hora da noite. Quem libertava os cães de suas jaulas não sabia para onde eles estavam sendo levados. O que importava era que estavam sendo libertos da exploração. Isso foi útil quando ativistas que estavam lá dentro sob o foco das câmeras começaram a ser identificados e sofrer acusações por roubar “propriedade privada”. Como argumentamos, as chamadas “propriedades” nunca foram tomadas como posse daquelas pessoas que os tiraram de lá.

Pessoas carregam cães um a um para fora do Instituto.

Um grupo de advogados voluntários se formou para defender quem era identificado e uma rede clandestina de veterinárias se dispuseram a remover chips que poderiam identificar animais adotados. Curiosamente, um deputado que atua na área de bem estar animal também estava presente durante o resgate, atraído pela presença da mídia e pela multidão de ativistas. Ele adotou dois beagles que passaram a morar em sua casa e poucos dias depois a mídia estava lá para filmar os cães e contar sua história. Em seu benefício, a lei brasileira diz que um membro do congresso não pode ser acusado desse tpo de crime enquanto exerce seu mandato. Para pessoas menos privilegiadas, podíamos apenas ter a companhia de alguns beagles que sofreram abusos, com sinais de mutilação e traumas psicológicos que às vezes são difíceis de notar.

A invasão foi realmente uma cena caótica, sem planejamento prévio, nenhuma direção e, provavelmente, não é um modelo a ser repetido. Sua espontaneidade foi a mágica que fez com que tudo fosse possível. Sua diversidade foi um fator que fez os números de participantes possíveis e a repressão impossível. A compaixão de todo mundo presente foi a força que ampliou seu significado para além dos indivíduos salvos.

Poucas semanas depois, após extensiva e persistente cobertura da mídia sobre o assunto, leis começaram a ser propostas na cidade, no estado e no país. A prefeitura mandou trancar o laboratório e manifestantes mantiveram a pressão até que o Instituto Royal anunciou seu fechamento no dia seis de novembro. Ainda assim, eles recusavam a liberar os animais que ainda estavam lá durante o primeiro resgate. Então uma nova e legítima ação da ALF realizada no dia 13 de novembro por uma pequena célula resgatou os 300 ratos que ainda estavam lá e nenhum animal esteve presente para testemunhar os últimos momentos do Instituto Royal.

Interior do laboratório atacado durante a madrugada.

Vídeo da segunda invasão ao Instituto Royal para resgatar ratos que ainda estavam presos.

“Tendo em vista as elevadas e irreparáveis perdas e os danos sofridos em decorrência da invasão realizada no último dia 18 – com a perda de quase todo o plantel de animais e de aproximadamente uma década de pesquisas -, bem como a persistente instabilidade e a crise de segurança que colocam em risco permanente a integridade física e moral de seus colaboradores, os associados concluíram que está irremediavelmente comprometida a atuação do Instituto Royal para dar continuidade à realização pesquisa científica e testes mediante utilização de animais. Por este motivo, o Instituto decidiu encerrar suas atividades na unidade de São Roque”

–Declaração do Instituto Royal em 06/11/2013 sobre seu fechamento.

Segundo Relato:

Nós fomos de carro de São Paulo a São Roque em três pessoas no segundo dia de manifestação. Ativistas que retiraram os cães ficaram a noite toda lá e, no dia seguinte, iriam retirar os roedores que restaram. Eu cheguei em São Paulo pela manhã e nós chegamos no instituto no começo da tarde, a Rodovia Raposo Tavares já estava interditada pela Polícia Militar muito antes. Chegando lá havia muito tumulto e uma divisão bem clara: de um lado, ativistas pacifistas pelos cães com faixas e dizeres cristãos, se recusando a cobrir o rosto e mantendo distância do conflito com a Tropa de Choque. Do outro, pessoas de máscaras e bandanas iam de encontro a linha policial. A polícia parecia estar evitando o conflito e focando na porta do instituto, que já estava fortemente protegida pela PM para evitar a segunda entrada dos militantes. Uma viatura foi incendiada e logo após outro carro de uma emissora de TV também estava em chamas. A polícia interviu muito após isso para tentar dispersar a manifestação e me juntei a um grupo que se formou para tentar entrar no instituto através da mata em volta. Pulamos uma cerca e tentamos dar a volta para entrar pela parte de trás onde não havia policia, mas havia helicópteros sobrevoando o local e nos encondemos em uma casa abandonada. De lá chegamos perto dos limites do instituto para encontrar com uma segurança privada, sem identificação e portando de armas de fogo.

Polícia ataca manifestantes e Black Blocs formam barricadas pare resistir e responder à agressão policial em frente ao laboratório.

A PM percebeu a tentativa de entrar por trás e começou a perseguir alguns manifestantes dentro da mata. O grupo inicial havia se dividido em vários por não concordar em como entrar no instituto. Havia ainda ativistas que se recusam a cobrir o rosto por insistir em que resgatar animais não consistia em crime. E foi esse o sentimento que persistiu do começo ao fim.

Considerando que as pessoas que organizaram a manifestação inicial são pacifistas e cristãs, houve muita desorganização por conta desse racha ideológico. As pessoas pacifistas colocaram muito em risco a identidade e segurança de quem se dispôs a entrar no instituto e enfrentar a polícia.

Polícia tenta dispersar a multidão sem sucesso.

Por fim, encurralados, saímos da mata muito longe do instituto e fomos cercadas por bombas de gás. A manifestação foi se dispersando no fim da tarde e só nos restou o plano de voltar em outra ocasião.

Havia pessoas de várias partes do país. Todas as placas, cercas, carros e estruturas no perímetro do instituto foram destruídas. Em comparação a junho de 2013, houve muito mais organização, disposição em se arriscar e união. Todos presentes nas ações radicais sabiam claramente qual era o objeto e que tal objeto era extremamente legítimo. Motivadas de maneira quase emotiva, as pessoas viram claramente que aquilo era apenas o começo e que a PM não era capaz de frustrar nossas tentativas, tamanha a presença e vontade de muitas pessoas dispostas a libertar aqueles animais por quaisquer meios necessários. Esse evento inspirou o resgate das chincilas em Itapecirica e outras ações. E independente de rachas ideológicos, foi possível conciliar a disposição dos Black Blocs em se arriscar com a força legalista para fechar o instituto Royal permanentemente e proteger as pessoas que tiveram suas identidades expostas.

Um acontecimento sem precedentes no Brasil e uma semente que, acredito eu, ainda vá germinar em forma de um Frente pela Libertação Animal concreta.

BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 6 Anos da Ação em São Roque em 2013 ©, .

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ENTREVISTA: Comuna Internacionalista de Rojava https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2019/10/08/entrevista-comuna-rojava/ Tue, 08 Oct 2019 17:47:35 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1402 Continuar a ler "ENTREVISTA: Comuna Internacionalista de Rojava"

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Uma revolução começou em Rojava, em 2012, mudando radicalmente a vida de milhões de  pessoas no norte da Síria. O povo curdo uniu-se a diversos outros povos da região e se organizou em conselhos autônomos, comunas e cooperativas, libertando-se assim do autoritarismo do regime de Assad. Formularam uma sociedade comum para além do Estado e do Capitalismo. A organização das mulheres tornou-se a força motriz da revolução social e política da região e desenvolveu-se um projeto multiétnico e multirreligioso singular, que hoje garante a coexistência pacífica de milhões de curdos, árabes, assírios, yazidis, armênios, cristãos e muçulmanos, ao mesmo tempo em que tomavam a frente no combate ao Estado Islâmico. Por tudo isso, tal experimento revolucionário sempre foi visto como um problema para os poderes regionais, seja pelos governos de Assad na Síria e Erdoğan na Turquia, ou pelos imperialistas ocidentais.

Nos últimos meses, as ameaças da Turquia contra a Federação Democrática do Nordeste da Síria atingiram um novo nível. O governo de Erdoğan anunciou que está pronto para invadir Rojava, o que pode reacender a guerra civil no país. O presidente turco quer massacrar aquelas pessoas que derrotaram o grupo terrorista conhecido como Estado Islâmico e agora vivem em paz e liberdade.

Assim que o Estado Islâmico foi derrotado, o governo dos EUA induziu as Forças Democráticas da Síria (SDF) a desmantelar suas defesas ao longo da fronteira síria, prometendo garantir a paz na região. região e desencorajá-los a procurar outros aliados internacionais. Uma vez que estavam indefesos, Trump deu à Turquia permissão para invadir a região.

Em meio a uma eminente ameaça de guerra e genocídio contra um povo que protagonizou o maior levante revolucionário do século XXI, conseguimos uma entrevista com a Comuna Internacionalista de Rojava, um enclave revolucionário, que recebe pessoas voluntárias de todo o planeta interessadas em se juntar a revolução, praticando políticas ecológicas, democráticas, horizontais e comunais. Tudo isso em consonância com os valores e estratégias dos povos locais.

Segue a entrevista feira pela Facção Fictícia e um chamado para a solidariedade come essa revolução que pode definir os rumos da luta anticapitalista no Oriente Médio e no mundo.

Cotidiano na Comuna Internacionalista em Rojava.

1. O que é e como você define o trabalho da Comunidade Internacionalista de Rojava? Onde ela está situada e como é a relação com as
comunidades em torno de vocês?

A Comuna Internacionalista é um local de vida e aprendizado comunal situado perto de Derik, no cantão de Cizre, no nordeste da Síria. Seu objetivo é ser um lugar onde os voluntários internacionais aprendam primeiro as bases do revolução, como a Jineolojî (ciência das mulheres) e a história do Curdistão e do Oriente Médio, como uma introdução às atividades em que irão participar então em outros lugares. Este aspecto educacional está organizado através da Academia Internacionalista Șehid Helîn Qereçox, que fica dentro da comuna. Esta é uma das principais atividades da Comuna. Mas também é um lugar que serve de base para grupos internacionais ficarem entre várias atividades, onde podemos discutir nossas experiências, ter um intercâmbio sobre temas ideológicos e aprofundar nossa compreensão da revolução. Trabalhos práticos também são realizados com a campanha Make Rojava Green Again (Torne Rojava Verde Novamente, em um trocadilho com o slogan eleitoral de Trump), que implementa projeto ecológicos.

2. Quais são os principais princípios e valores da comuna? Como isso está conectado na vida cotidiana lá com outras formas de luta como anarquismo, zapatismo, feminismo e ecologia?

Uma discussão em andamento na Comuna é: o que significa ser internacionalista? Então, podemos dizer que é por trás dessa palavra que muitos de nossos valores são colocados, como solidariedade internacional, lembrando dos nossos şehids (mártires de batalha) e o desejo de aprender com esta revolução, bem como de toda a história revolucionária.

Os internacionais aqui vêm de origens muito diferentes, que abrange os tópicos mencionados, para que possamos dizer que essas lutas fazem parte desse internacionalismo, e aprendemos com todos eles todos os dias através do debate. Mais concretamente, aqui as mulheres têm seu próprio espaço e são organizadas de forma autônoma. Pessoas que querem participar de ativismo ecológico pode se juntar ao do Make Rojava Green Again. Mas todos as pessoas na Comuna estão envolvidas nos trabalhos ecológicos. Nossa conexão com o anarquismo e o zapatismo são apresentados por retratos de figuras desses movimentos nas paredes, como Comandante Ramona ou Federica Montseny, e seus feitos são discutidos nos processos de educação ou mais informalmente também. Além disso, através de nossos trabalhos de mídia, com o site da Comuna Internacionalista (internationalistcommune.com) e a campanha Rise Up 4 Rojava (riseup4rojava.org), compartilhamos informações e perspectiva sobre movimentos radicais em todo o mundo, mantendo sólidos laços com eles.

Vídeo da campanha Riseup4Rojava:

3. O que mudou no contexto da vida cotidiana e da base organizando desde que o Estado Islâmico (ISIS ou Daesh) foi derrotado pelas forças populares curdas (YPG/YPJ)?

A queda do Estado Islâmico trouxe a possibilidade de ir mais longe na organização da sociedade de maneira comunitária e com uma perspectiva de longo prazo maior do que com a sua constante ameaça. Mas algumas células ocultas ainda existem e ataques terroristas estão acontecendo regularmente. Além disso, a
presença de muitos membros do Estado Islâmico no território detidos ou em células dormentes, com essa falta de informação sobre se serão ou não julgados em seus países de origem, tudo isso representa uma séria ameaça à segurança na região.

Combatentes da YPJ, batalhão de mulheres de Rojava.

4. Recentemente, em agosto de 2019, a Turquia se declarou abertamente como a maior inimigo das realizações da revolução em Rojava. Como isso afeta
a região e a política lá? Essa ameaça é a maior até agora?

Neste momento, ao escrever essas linhas, estamos lidando com a ameaça de uma invasão imediata, como o presidente turco Erdogan anunciou um ataque e os EUA estão removendo suas tropas da região. Essas ameaças foram feitas várias vezes, com intensidade crescente ao longo do ano passado, com picos em dezembro/janeiro e julho/agosto, onde pensávamos que a guerra poderia começar a qualquer momento, possivelmente como uma guerra total, já que sabemos o que a Turquia já foi capazes de fazer isso no passado. E eles têm anunciado: querem limpeza étnica, querem genocídio. Então sim, a Turquia é a maior ameaça à região desde o início da revolução. Em tais momentos, temos que congelar nossos trabalhos para pensar em nossa segurança. Isso afeta todos os aspectos da sociedade. Todo mundo se pergunta: o que faremos se a guerra começar? Então é claro que muitas atividades são pensadas em relação ao contexto da guerra, a política se concentra na descoberta de uma solução democrática contra as ameaças turcas e a situação pós-ISIS. Comunicamos mais sobre as realizações da revolução, para mostrar o que está em perigo. Mas também tentamos manter a vida como ela deveria ser e, de alguma forma, nos leva a ser ainda mais democráticos, ir mais longe na revolução como resposta.

5. Quais são as suas perspectivas de futuro para a revolução e o legado da Comuna Internacionalista para movimentos revolucionários em todo o mundo?

O momento em que vivemos agora é histórico: ou a revolução ficará mais forte ou será aniquilada. O que está em jogo não é apenas a revolução no nordeste da Síria, mas a possibilidade de uma revolução em todo o Oriente Médio e no mundo. Esperamos que a seriedade da situação leve as pessoas ao redor do mundo a expressarem solidariedade, se levantarem e, talvez, virem se juntar a nós. A Revolução de Rojava deve irradiar e inspirar outros movimentos revolucionários. A Comuna Internacionalista continuará a dar notícias e perspectivas sobre a situação aqui, com um foco internacional e acolherá expressões de solidariedade de todo o mundo.

Funeral para o combatente anarquista italiano Lorenzo Orsetti, em março de 2019:

 

6. Agradecemos imensamente pelas palavras e por gastar algum tempo nesse momento delicado. Esperamos que esta conversa possa ser útil para pessoas de todo o mundo trabalharem em solidariedade e apoio total às pessoas na Revolução em Rojava e todo o norte da Síria. Alguma consideração final?

A revolução Rojava é uma revolução feminina e é uma revolução de todos. Todos devem se preocupar com o que está acontecendo aqui, porque o que está ameaçado é a possibilidade de viver uma vida livre, uma vida democrática e comunitária, com princípios populares, feministas e ecológicos. Então converse com seus vizinhos, colegas e sua avó sobre isso!

Obrigado pela solidariedade, abaixo a todos os fascistas!

Da Comuna Internacionalista de Rojava

Revolução é a semente de um mundo novo.

Convidamos a todas e todos para conferir o comunicado de anarquistas sobre a ameaça Turca à revolução em Rojava e aos povos na Síria. Imprima, compartilhe, difunda e mobilize solidariedade.

Mais informações:

riseup4rojava.org

internationalistcommune.com

jinwar.org

 

ENTREVISTA: Comuna Internacionalista de Rojava ©, .

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CINCO LIÇÕES HISTÓRICAS PARA ANTIFASCISTAS https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2019/10/04/5-licoes-antifas/ Fri, 04 Oct 2019 19:13:49 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1274 Continuar a ler "CINCO LIÇÕES HISTÓRICAS PARA ANTIFASCISTAS"

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Este texto é um capítulo do livro Manual Antifascista, do autor estadunidense Mark Bray, lançado em português em 2019. Ele analisa brevemente cinco lições que muitos antifascistas extraem ou deveriam extrair da história. Cada uma delas começa com uma descrição mais factual de um determinado fenômeno histórico antes de passar para uma interpretação antifascista dos fatos em questão. Como todos os fenômenos históricos, esses fatos estão sujeitos a múltiplas interpretações. Essas certamente não são as únicas lições do antifascismo, mas esclarecem o embasamento de algumas de suas principais fundamentações históricas.

1. AS REVOLUÇÕES FASCISTAS NUNCA FORA BEM-SUCEDIDAS. OS FASCISTAS ALCANÇARAM O PODER LEGALMENTE.

Primeiro, alguns fatos importantes: a marcha de Mussolini em Roma foi apenas um espetáculo legitimando um convite anterior para formar um governo. O Putsch da Cervejaria de Hitler em 1923 falhou miseravelmente. Sua eventual ascensão ao poder veio quando o presidente Hindenburg o nomeou chanceler. A lei que lhe concedeu o poder completo foi aprovada pelo parlamento.

Para os militantes antifascistas, esses fatos históricos lançam dúvidas sobre a fórmula liberal de oposição ao fascismo. Essa fórmula equivale essencialmente na fé de um “debate fundamentado” para combater ideias fascistas, na polícia para combater a violência fascista nas ruas e nas instituições governamentais parlamentares para combater as tentativas fascistas de tomar o poder. Não há dúvidas que por algumas vezes essa fórmula funcionou. Também não há dúvidas de que algumas vezes ela falhou. O fascismo e o nazismo surgiram como apelos emocionais e antirracionais fundamentados em promessas masculinas de renovação do vigor nacional. Enquanto a argumentação política sempre é importante para fazer um apelo a uma potencial base popular do fascismo, sua nitidez se ofusca quando confrontada com as ideologias que rejeitam os termos do debate racional. A racionalidade não foi capaz de impedir os fascistas ou os nazistas. Apesar de necessária, da perspectiva antifascista, infelizmente a razão é insuficiente por si só.

Assim, não é surpresa que a história mostre que governos parlamentares nem sempre são uma barreira para o fascismo. Pelo contrário, em várias ocasiões, foram responsáveis por estender o tapete vermelho. Quando as elites econômicas e políticas do período entre guerras se sentiram suficientemente ameaçadas pela perspectiva da revolução, voltaram-se para figuras como Mussolini e Hitler para esmagar impiedosamente a dissidência e proteger a propriedade privada. Embora seja um erro reduzir inteiramente o fascismo a um último recurso de um sistema capitalista ameaçado, esse elemento de sua composição desempenhou um papel importante e muitas vezes decisivo em suas vitórias. Quando os líderes autoritários do período entre guerras se sentiam muito menos ameaçados, implementavam muitas vezes políticas fascistas de cima para baixo. Para a maioria dos revolucionários, isso significa que o antifascismo deve necessariamente ser anticapitalista. Enquanto o capitalismo continuar a fomentar a luta de classes, eles dizem, o fascismo sempre surgirá como uma solução autoritária para conter a revolução popular.

Quanto à polícia contra a violência fascista – houve vezes que a polícia prendeu e perseguiu fascistas, mas o registro histórico mostra que, junto com os militares, eles também estão entre os mais ansiosos para “restauração da ordem”. Estudos mostram que uma alta porcentagem de policiais gregos votou no Aurora Dourada. Nos EUA, está claro que muitos policiais receberam Trump como o presidente das “Blue Lives Matter” (uma alusão satírica do movimento antirracista Black Lives Matter), que permitiria que a aplicação da lei continuasse com as agressões e assassinatos nas desprotegidas comunidades negras e latinas. Recentemente, foi revelado que o FBI vem investigando de forma alarmante (embora não surpreendente) altos níveis de infiltração de supremacistas brancos na polícia por décadas. Além disso, independentemente da composição da força policial dos EUA, o fato que ela se origina das patrulhas escravocratas no Sul e da oposição ao movimento trabalhista no Norte nos dá uma visão do papel da supremacia branca dentro do sistema de “justiça” criminal.

Tudo isso para dizer que o fato de que as revoltas fascistas sempre falharam não deve diminuir as preocupações sobre seu potencial insurrecional. A “estratégia de tensão” fascista na Itália, o desenvolvimento do conceito de “lobo solitário” e “resistência sem líder” promovido pelo líder norte-americano da Klan, Louis Beam, e a luta armada fascista que se desenvolveu em ambos os lados nos conflitos na praça Euromaidan na Ucrânia atestam o perigo material da violência fascista insurrecional. Não obstante, historicamente o fascismo ganhou acesso aos corredores do poder não derrubando seus portões, mas convencendo seus porteiros gentilmente a abri-los.

2. MUITOS LÍDERES E TEÓRICOS ANTIFASCISTAS DO PERÍODO ENTRE GUERRAS NÃO LEVARAM O FASCISMO VERDADEIRAMENTE A SÉRIO ATÉ QUE FOSSE TARDE DEMAIS.

Para cada revolução, houve uma contrarrevolução. Para cada ataque da Bastilha havia um Termidor. Depois da Comuna de Paris, centenas de pessoas foram executadas e outras milhares presas e deportadas. Mais de 5 mil presos políticos foram executados e 38 mil foram presos após o fracasso da Revolução Russa de 1905, que também testemunhou 690 pogroms antissemitas que mataram mais de 3 mil judeus. Os radicais europeus e as minorias étnicas de modo algum eram estranhos à violência da reação tradicional.

No entanto, o fascismo representava algo novo. Inovações ideológicas, tecnológicas e burocráticas criaram um veículo para o imperialismo e o genocídio que os europeus haviam exportado de todo o mundo quando trouxeram suas guerras de extermínio de volta para casa.

Sem surpresa, muitos comentaristas de esquerda conceituaram incialmente o fascismo dentro dos parâmetros das forças contrarrevolucionárias existentes na época. De acordo com a Federação Socialista dos Trabalhadores, os fascistas italianos eram “no sentido mais estrito, uma Guarda Branca”, referindo-se aos contrarrevolucionários da Revolução Russa. O Partido Comunista da Grã-Bretanha os chamou de “os Black and Tans italianos”, se referindo às forças contrarrevolucionárias britânicas na Guerra da Independência da Irlanda. Na década de 1920, alguns marxistas usaram a análise do comunista húngaro Geörgy Lukács de “terror branco” para argumentar que os squadristi de Mussolini eram apenas um baluarte não-ideológico da classe dominante.

Por outro lado, vários comentaristas destacaram os recursos exclusivos do fascismo. Eles reconheceram a novidade do flerte nacionalista com o socialismo e seu elitismo populista. Eles observaram como setores anteriormente antagônicos, como os latifundiários tradicionais e capitalistas burgueses, podiam formar um movimento contrarrevolucionário unido. O foco marxista na dinâmica de classes subjacente ao fascismo revelou novos elementos dessa intrigante doutrina que os observadores centristas não foram capazes de captar. No entanto, esse foco também tendeu a limitar o perigo potencial que o fascismo poderia representar para os confins de seu suposto papel de guarda-costas da classe dominante, e assim os marxistas e muitos outros falharam em antecipar como o alcance de sua violência se estenderia além do que era “necessário” para proteger o capitalismo. Além disso, embora o fascismo do período entre guerras tenha se desenvolvido principalmente a partir de círculos eleitorais da classe média com o apoio da classe alta, à medida que os movimentos fascistas cresciam, às vezes, mas nem sempre, eles conquistavam apoiadores na classe trabalhadora – um fato que os marxistas demoraram a aceitar.

Independente do conteúdo de suas análises, muitos políticos socialistas e comunistas não agiram como se a própria existência de seus movimentos estivesse em jogo. Os socialistas italianos assinaram o Pacto de Pacificação com Mussolini em 1921, e nem eles nem os comunistas achavam que a ascensão do Duce ao poder representaria mais do que uma nova oscilação para a direita no velho pêndulo da política parlamentar burguesa. Dessa forma, eles não eram totalmente diferentes da maioria dos socialistas espanhóis que colaboraram com o governo militar meio-fascista de Primo de Rivera na década 1920. Na Alemanha, os comunistas acreditavam que o fascismo já havia chegado quando os “governos presidenciais” do início da década de 1930 começaram a governar por decreto. No entanto, nem os supostos “governos presidenciais” fascistas nem a chancelaria de Adolf Hitler foram suficientes para convencer a liderança do partido que eles enfrentavam uma ameaça existencial. Para a liderança do KPD, o fascismo não pedia resistência por quaisquer meios necessários, mas sim paciência. Seu slogan era “Hitler primeiro, depois nós”. Na virada do século, os esquerdistas tinham razões para antecipar que épocas de repressão iriam e viriam. O fascismo mudou as regras do jogo.

O primeiro reconhecimento substancial da essência do perigo fascista veio com a “Revolta de Fevereiro” de 1934, quando os socialistas austríacos lutaram contra as incursões do autoritário chanceler Dollfuss nos centros socialistas (instigadas por Mussolini). A revolta foi brutalmente reprimida, deixando 200 mortos, 300 feridos e o partido na clandestinidade. No entanto, sua bravura inspirou os mineiros socialistas espanhóis que se rebelaram mais tarde naquele ano nas Astúrias. Seu slogan era “Melhor Viena do que Berlim”, onde a ascensão de Hitler ao poder não foi combatida pela força. Quando a Guerra Civil Espanhola eclodiu, o antifascismo foi amplamente entendido como uma luta desesperada contra o extermínio.

A tendência dos teóricos e políticos esquerdistas em conceituar excessivamente o fascismo com base no paradigma da contrarrevolução tradicional impediu a capacidade da esquerda de se ajustar à nova ameaça que enfrentava. Uma vez que as formas de resistência sempre devem ser calibradas contra aquilo que está sendo resistido, cabe aos antifascistas reavaliar continuamente seus arsenais teóricos, estratégicos e táticos, se baseando nas mudanças das ideologias e de práxis de seus adversários da extrema-direita. Matthew N. Lyons colocou essa lição em prática ao criticar escritores que argumentam que a alt-right deveria só ser chamada de neonazista. Embora muitos membros da alt-right claramente sejam neonazistas, Lyons argumenta que isso “internaliza a infeliz ideia de que as políticas de supremacia branca são basicamente as mesmas…. Que não é preciso compreender nosso inimigo”. Conceber o inimigo nos termos de um paradigma ultrapassado custou muito caro aos antifascistas. Em algum ponto, a evolução da extrema-direita pode significar transcender completamente a estrutura do “fascismo”, à medida que nos afastamos cada vez mais do século XX.

É essencial que os antifascistas desenvolvam uma compreensão clara e precisa do fascismo. No entanto, a fim de compreender a natureza robusta e flexível da política antifascista, devemos reconhecer a relação entre dois dos muitos registros do antifascismo: o analítico e o moral.

O registro analítico consiste em mobilizar definições e interpretações historicamente informadas sobre o fascismo para elaborar uma estratégia antifascista adequada aos desafios específicos contra grupos e movimentos com ideologias fascistas. Métodos de oposição a grupos neonazistas podem não fazer sentido contra outros grupos de extrema-direita. Compreender sua diferença deve ser o que mantém as escolhas táticas e estratégicas bem informadas.

O registro moral se desenvolveu com o poder retórico do epíteto “fascista” – chamar alguém ou algo de fascista – no período do pós-guerra. Ele é colocado em jogo quando a lente antifascista é direcionada a fenômenos que tecnicamente podem não ser fascistas, mas são fascistóides.

Por exemplo, os Panteras Negras estavam errados ao chamar os policiais que matavam negros impunemente de “porcos fascistas” se eles pessoalmente não possuíssem crenças fascistas ou se o governo dos EUA não fosse literalmente fascista? Em uma manifestação antifa em Madrid, vi uma bandeira do arco-íris com o slogan “homofobia é fascismo”. A existência de homofóbicos não-fascistas invalida o argumento? Os guerrilheiros que lutaram contra Franco na Espanha ou Pinochet no Chile se equivocaram ao chamar sua luta de “antifascista” se, de acordo a maioria dos historiadores, esses regimes não foram tecnicamente fascistas?

Como já discutimos, é importante analisar cada um desses casos e muitos outros para podermos desenvolver uma análise bem afinada. No entanto, o registro moral do antifascismo compreende como o “fascismo” se tornou um significante moral que aqueles que lutam contra uma variedade de opressões têm utilizado para destacar a ferocidade dos inimigos políticos que enfrentam e os elementos de continuidade que eles compartilham com o fascismo real. A Espanha de Franco pode ter sido mais um regime militar católico tradicionalista do que fascismo per se, mas isso pouco importava para aqueles que eram perseguidos pela Guarda Civil.

O desafio em definir o fascismo embaça a linha entre esses dois registros. Além disso, o registro analítico contém uma crítica moral, assim como o registro moral implica em uma ampla análise da relação entre uma determinada fonte de opressão e o fascismo. Embora seja verdade que, em certo ponto, o epíteto fascista perde um pouco seu poder se for usado de forma muito genérica, um componente-chave do antifascismo é se organizar contra ambas políticas, fascistas e fascistóides, em solidariedade com todos aqueles que sofrem e lutam. Questões de definições devem influenciar nossas táticas e estratégias, não nossa solidariedade.

3. POR RAZÕES IDEOLÓGICAS E ORGANIZATIVAS, A LIDERANÇA SOCIALISTA E COMUNISTA DEMOROU MAIS QUE SUA BASE PARA AVALIAR COM PRECISÃO A AMEAÇA DO FASCISMO.

Como inicialmente muitos socialistas e comunistas consideravam o fascismo uma variação da política contrarrevolucionária tradicional, eles se concentraram muito mais em combater uns aos outros do que seus inimigos fascistas. Ambas as frentes argumentavam que, se unissem o proletariado sob sua liderança, superariam qualquer obstáculo da direita.

Assim, enquanto alguns socialistas de base se mantiveram lado a lado com o Arditi Del Popolo para lutar contra os camisas negras italianos no início da década de 20, os quadros do partido se retiraram para retomar sua trajetória eleitoral legalista. Quando esse caminho definitivamente foi bloqueado, o partido cambaleou para conseguir mudar seus rumos.

De forma similar os socialistas alemães optaram, na mesma época, por um curso estritamente legalista nas décadas de 1920 e 30, apesar do crescente desconforto dos membros do partido. Embora os socialistas do Reichsbanner, e mais tarde na Frente de Aço, tenham pressionado por medidas mais agressivas, o aparato do partido estava mal equipado para considerar estratégias alternativas. Da mesma forma, a base do socialismo austríaco lutava para empurrar a liderança do seu partido para a autodefesa militante frente aos ataques da extrema-direita. Na Grã-Bretanha, os membros do Labour Party e do Trades Union Congress confrontaram os fascistas na rua, apesar das advertências de seus líderes. A liderança trabalhista condenou os membros que participaram da Batalha de Cable Street – quando vários grupos enfrentaram os camisas negras de Oswald Mosley no quarteirão judeu do East End em Londres – e se recusou a apoiar os que se juntaram às Brigadas Internacionais para combater na Espanha. Como argumenta o historiador Larry Ceplair, os sociais-democratas “haviam jogado o jogo parlamentar por muito tempo e seus líderes se tornaram ideológica e psicologicamente incapazes de organizar, ordenar ou aprovar qualquer tipo de resistência armada ou revolução preventiva”.

Não obstante, muitos socialistas independentes, que eram muito menos sobrecarregados pela ideologia partidária legalista e pela estratégia eleitoral ditada por uma direção, parecem ter sido mais sensíveis às mudanças de condições na base e muito mais preparados para enfrentar o fascismo.

No início da década de 1920, a Internacional Comunista acreditava que a tarefa mais urgente da revolução era traçar uma clara e antagônica distinção entre o marxismo-leninismo e a social-democracia, para que ela pudesse liderar a onda de insurgência que parecia estar engolfando o continente. Esse objetivo voltou à tona com o início do “terceiro período” do Comintern em 1928. O modelo organizacional leninista de “Centralismo Democrático” ditava uma cadeia de comando disciplinada do Comintern em Moscou por intermédio dos partidos nacionais para suas filiais regionais e quadros de cada bairro. Esse modelo permitiu que o movimento comunista internacional agisse em uníssono por vastas extensões geográficas, mas também significava que as intermináveis disputas entre a elite do partido em Moscou produziam um impacto maior nas políticas do Comintern do que as condições materiais de cada local.

A linha “social-fascista” foi um desses exemplos. Muitas lideranças nacionais a adotaram a contragosto e rapidamente a negligenciaram com a mudança do Comintern para a política de Frente Popular em 1935. Os comunistas e os socialistas de base geralmente não se odiavam tanto quanto seus líderes. Na verdade, as primeiras iniciativas de unidade entre socialistas e comunistas na França e na Áustria, por exemplo, vieram de baixo. Todos esses exemplos demonstram algumas das desvantagens da organização hierárquica.

4. O FASCISMO ROUBA DA IDEOLOGIA, DA ESTRATÉGIA, DA CULTURA E DO IMAGINÁRIO DE ESQUERDA.

O nazismo e o fascismo surgiram no desejo da burguesia capitalista de libertar o nacionalismo, o militarismo e uma masculinidade “decadente” intrínseca à frente dos governos italiano e alemão, e de capturar as políticas populares coletivistas da esquerda socialista “degenerada”. Mesmo antes de Hitler assumir, o Partido Alemão dos Trabalhadores (predecessor do NSDAP) já usava uma considerável dose de vermelho em suas bandeiras e cartazes, e seus membros chamavam uns aos outros de “camaradas”. Isso produziu paradoxos anti-ideológicos e antirracionais como o “nacional-sindicalismo” e o “nacional-socialismo”. Fascistas e nazistas “de esquerda” foram expurgados à medida que seus partidos conquistavam poder e se uniam às elites econômicas, embora a cooptação nacionalista da retórica popular da classe trabalhadora tenha desempenhado um papel fundamental para fazê-los chegar até lá.

Com base nas suas boas relações com os empresários, os nazistas foram responsáveis por criar novos postos de trabalho para os desempregados. De certa forma, essa era uma variação colaboracionista entre classes, do papel do sindicato como um intermediário para alcançar o emprego em uma indústria. As tabernas das Stormtroops (SA) nazistas claramente floresceram inspiradas na tradição socialista, que datava do século XIX.

Eles também forneceram comida e abrigo gratuito para seus apoiadores no período da Grande Depressão. Essa foi uma ruptura marcante com os conservadores tradicionais, que demonstravam desprezo pelos pobres e desempregados e, no máximo, contribuíam ocasionalmente para instituições de caridade apolíticas ou religiosas.

Esse modelo de caridade política de extrema-direita foi adotado pela Aurora Dourada grega, a CasaPound italiana, o Hogar Social Madrid, e a britânica National Action, todos os quais começaram a distribuir alimentos e mantimentos grátis para gregos, italianos, espanhóis – apenas “brancos”. Os ativistas da CasaPound começaram a imitar as ocupações autonomistas em prédios abandonados, e a Hogar Social Madrid não apenas começou com ocupações, mas também se organizou contra a expulsão de espanhóis étnicos em uma clara tentativa de capitalizar com o vibrante movimento de esquerda espanhol.

Mais profusamente, os fascistas do pós-guerra continuaram a se voltar para a esquerda revolucionária e para seus insights estratégicos. Os que seguiam a linha da “Terceira Posição” procuraram aplicar teorias maoístas de revolução no Terceiro Mundo às metas de “libertação europeia”, que implicavam em uma remoção forçada de “não-europeus”. Na década de 1980, uma facção francesa chamada Troisième Voie procurou usar uma “estratégia trotskista” para se infiltrar no Front National, a fim de aparelhá-lo por dentro. Os fascistas ucranianos tentaram se apropriar do legado do líder anarquista ucraniano Nestor Makhno, enquanto as bases fascistas espanholas Autónomas elogiavam o anarquista Buenaventura Durruti.

Começando no final dos anos 80 e início dos anos 90, e ganhando força no final dos anos 2000, os fascistas em toda a Europa tentaram copiar até a tática black bloc dos autonomistas alemães. Esses “nacionalistas autônomos” vestidos de preto, que às vezes usam o logotipo das bandeiras antifascistas com slogans nacionais-socialistas ou kaffiyehs palestinos, tentaram imitar o apelo da esquerda radical defendendo o anticapitalismo, antimilitarismo e anti-sionismo na Alemanha, Grécia, República Tcheca, Polônia, Ucrânia, Inglaterra, Romênia, Suécia, Bulgária e Holanda. Essa tendência começou a declinar na Europa Ocidental por volta de 2013. A ideia de “nacional-anarquismo” é outra nova variação dessa farsa. Os “nacionais anarquistas” abusam do conceito anarquista de autonomia para defender “comunidades étnicas” separadas e homogêneas, incluindo uma pátria só de brancos.

Muitos outros exemplos poderiam ser citados, mas esses são suficientes para demonstrar como o antifascismo não se trata apenas de um escape aventuresco na oposição ao fascismo, mas sim da proteção Against the Fascist Creep, como sugere o título do maravilhoso trabalho “Les autonomes nationalistes en Allemagne” de Alexander Reid Ross. Eles também demonstram a importância da ideologia de esquerda. Sem estabelecer como eles se encaixam, conceitos como “autonomia”, “libertação nacional”, ou mesmo “socialismo”, e táticas como as ocupações, organização de mutirões de alimentos ou a formação de black blocs podem ser cooptadas bem debaixo dos nossos narizes.

5. NÃO É PRECISO UM GRANDE NÚMERO DE FASCISTAS PARA CONCEBER O FASCISMO

Em 1919, o Fasci de Mussolini tinha 100 membros. Quando Mussolini foi nomeado primeiro-ministro em 1922, cerca de 7% a 8% da população italiana, e apenas 35 dos mais de 500 membros do parlamento, pertenciam ao seu Partito Nazionale Fascista (PNF). O Partido Alemão dos Trabalhadores tinha meros 50 membros quando Hitler participou de sua primeira reunião após a Primeira Guerra Mundial. Quando Hitler foi nomeado chanceler em 1933, apenas cerca de 1,3% da população pertencia ao NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, ou Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães). Em toda a Europa, partidos fascistas de massas emergiram daquilo que inicialmente eram pequenos núcleos durante o período entre guerras. Mais recentemente, o sucesso eleitoral de muitos partidos fascistas, minúsculos antes da crise financeira de 2008, e a recente onda de migração, demonstraram o potencial para um rápido crescimento da extrema-direita quando as circunstâncias se tornam favoráveis.

Esses partidos certamente cresceram e ambos os regimes consolidaram seu poder, conquistando apoio das elites conservadoras, industriais ansiosos, dos alienados proprietários de pequenos negócios, nacionalistas desempregados e outros. As triunfantes narrativas de resistência pós-guerra talvez tenham negado que todos, menos os ideólogos do fascismo mais comprometidos, tenham apoiado figuras como Mussolini ou Hitler, mas na verdade ambos os regimes conseguiram cultivar um amplo apoio popular, obscurecendo ainda mais nosso entendimento do que significava ser um fascista ou um nazista nos anos 1930. Nesse sentido, foram necessários alguns fascistas para conceber o fascismo. O ponto é, no entanto, que antes de conseguir tal apoio popular, os fascistas e os nazistas não eram mais que minúsculos grupos de ideólogos.

Enquanto isso, é importante notar que, ao mesmo tempo em que Mussolini montava um grupo com 100 veteranos amargos e alguns socialistas nacionalistas peculiares, e Hitler lutava pela liderança do minúsculo Partido Alemão dos Trabalhadores, a Itália e a Alemanha aparentemente estavam à beira de uma revolução social. Não havia razão para que a esquerda tivesse olhado para qualquer crescimento. Esses pequenos grupos não poderiam ter sido mais irrelevantes.

Dado o que anarquistas, comunistas e socialistas sabiam na época, não havia razão para que eles dedicassem qualquer tempo ou atenção aos primórdios do fascismo. No entanto, é impossível não nos perguntarmos o que poderia ter acontecido se eles tivessem prestado mais atenção. É uma hipótese impossível de se levar a sério, e refletir demais sobre ela significaria omitir os fatores sociais mais amplos que prepararam o terreno para a ascensão do fascismo. Não obstante, os antifascistas concluíram que, como o futuro não é escrito e o fascismo frequentemente emerge de pequenos grupos marginais, todo grupo fascista ou supremacista branco deveria ser tratado como se fossem os 100 fasci de Mussolini ou os 54 membros do Partido Alemão dos Trabalhadores que ofereceram a Hitler a base para seus primeiros passos.

A trágica ironia do antifascismo moderno é que, quanto mais bem-sucedido, mais sua razão de ser é questionada. Seus maiores sucessos estão no limbo hipotético: quantos movimentos fascistas assassinos foram cortados pela raiz nos últimos 70 anos por grupos antifas antes que sua violência pudesse se espalhar? Nós nunca saberemos – e isso efetivamente é uma coisa muito boa.

CINCO LIÇÕES HISTÓRICAS PARA ANTIFASCISTAS ©, .

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SOMOS TODAS ANTIFASCISTAS – MENOS A POLÍCIA: sobre como e com quem lutamos https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2019/09/07/antifascistas-vs-policia/ Sat, 07 Sep 2019 19:06:46 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1350 Continuar a ler "SOMOS TODAS ANTIFASCISTAS – MENOS A POLÍCIA: sobre como e com quem lutamos"

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A REAÇÃO BATE À PORTA

Entramos com tudo em um tempo de reação. A década progressista dá lugar a uma onda de movimentos e governos de extrema direita ganhando espaço em todo o mundo. É difícil acreditar que existe alguma surpresa nisso. Como poderíamos nos surpreender com a eleição de Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil, “quando Putin, Berlusconi, Erdogan, Modi e Netanyahu têm reinado por anos no mesmo modelo1” na Rússia, Itália, Turquia, Índia e Israel?

Estados Unidos e Brasil são os retardatários em uma tendência mundial de governos de direita chegando ao poder democraticamente. Trump e Bolsonaro não são fascistas se usamos a palavra com rigor histórico e uma análise apurada de suas influências e características políticas. No entanto, ambos mobilizam emoções e ressentimentos comuns ao fascismo presentes em grande parte das camadas populares, e também das classe média branca e elites conservadoras que historicamente se beneficiam de privilégios desde a época da colonização e da escravidão institucionalizada nas Américas. Eles falam para os que se sentiram “esquecidos” pelas políticas sociais de programas de governo da última década, como o caso dos democratas de Obama nos EUA, e o PT de Lula e Dilma no Brasil. Portanto, entendemos os governos de Trump e Bolsonaro como populistas de extrema direita. Eles buscam aplicar reformas e ataques a direitos sociais conquistados para reinventar uma forma de governar “em nome do povo”. Sobretudo, são governos que se mantém a forma democrática, mas praticam a violência de Estado buscando promover a segurança, são, portanto, democracias securitárias.

“Estejam eles vindo de raízes ‘populares’ ou apenas apropriando seu estilo, esse grupo [de governantes] exuma aquela chamada aliança entre o soberano e seu ‘Povo’. Eles criam a aparência de um abismo no outro lado onde as elites buscam refúgio, espremidas juntas sob a obscura luz do ‘deep state’. Esse novos populistas ganharam corações com a promessa de salvaguardar tudo o que, em nome do povo, é idêntico a eles mesmos, a fim de fazê-lo se levantar, em uníssono, contra a ameaça das minorias étnicas, sexuais ou políticas – um gesto que muitas vezes parece se estender ao ponto de incluir, em um momento ou outro, quase todo mundo. Das entranhas destas massas que vagam longamente no deserto neoliberal, elas ressuscitam um novo Povo de ressentimento.”

– Liaisons, In The Name of The People

A VIOLÊNCIA NÃO ACABA, MAS É DIRECIONADA CONTRA AS MINORIAS

Nenhum estado democrático reprime ou elimina definitivamente as milícias ou grupos fascistas e racistas. No Brasil não foi diferente: em 1964 vivemos um golpe de estado com armas, tanques e disposição para matar, torturar e fazer sumir milhares de pessoas. Em 2018, vimos os herdeiros do aparato militar ditatorial, que foi para o crime organizado das milícias durante a era democrática, organizarem a vitória eleitoral de seu patrono. E Jair Bolsonaro não tem nenhuma vergonha em elogiar e estimular ações ilegais como a tortura e o extermínio, seja de suspeitos de cometer algum crime ou povos originários habitando uma terra que é sua desde muito antes. E é nessa área cinza entre o legítimo e o ilegítimo, entre a violência policial legalizada e a agressão criminosa de gangues e milícias, que o fascismo opera e cresce para, quando tomar o controle do Estado, poder usar sua força total através de grupos de extermínio, das polícias e das prisões e campos de concentração mantidos e expandidos nos períodos democráticos.

Rodrigo Amorim quebrando a placa em homenagem à Marielle Franco em 2018, metralhada e morta com o motorista Anderson Gomes por milicianos. Até então, os que encomendaram suas mortes continuam desconhecidos. Sabemos apenas que quem puxou o gatilho foram ex-policiais militares que hoje estão presos.

Bolsonaro – assim como Trump nos EUA ou Puttin na Rússia – não pretende acabar ou sequer diminuir a gigantesca violência necessária pra manter o Capitalismo neoliberal em sua fase decadente e de crise permanente. O que ele pretende é canalizar essa violência o máximo possível para as minorias políticas: as populações negras, LGBTTTIQ, mulheres, indígenas, imigrantes e pobres. A imagem do “cidadão de bem” que quer ser protegido pela liberação do porte de armas é a imagem do homem branco, de classe média ou alta e heterossexual, que diz querer defender sua família e seu patrimônio da criminalidade, mas se sente muito mais ameaçado politicamente pela ascensão de membros das classes subalternas, pela liberdade das mulheres e de pessoas não heterossexuais ou praticam sexo de forma dissidente. Os que mais se beneficiam diretamente da política de liberação de armas serão os mesmos ruralistas que já praticam torturas e assassinatos nos campos e as milícias que controlam bairros e municípios inteiros em cidades como o Rio de Janeiro. Para o senhor presidente, violência se combate com medidas que apenas aumentam a violência classista, racista e sexista no país.

Para canalizar essa violência contra as minorias, esses líderes precisaram deixar claro seu projeto para serem eleitos. Bolsonaro e Trump não foram eleitos apesar de serem abertamente sexistas, racistas, homofóbicos. Eles foram eleitos justamente porque são tudo isso. E não apenas o presidente, mas vários parlamentares foram eleitos pela mesma lógica. O candidato Rodrigo Amorim, quebrou a placa em homenagem à Marielle Franco em 2018, enquanto fazia campanha para ser deputado estadual no Rio de Janeiro. Amorim foi eleito como candidato mais votado. Depois de eleito, o deputado emoldurou e pendurou a placa quebrada em seu escritório e alega que estava “restaurando a ordem” quando a quebrou. Para seus eleitores, o fato dele afrontar publicamente a memória ou qualquer homenagem a uma mulher negra, lésbica, criada na favela e que foi assassinada por policiais, é apenas mais uma “demonstração de caráter” de seu candidato.

Quando analisamos esses perfis e suas ações, concluímos que de nada adianta acusar esses políticos de serem machistas, sexistas ou mesmo fascistas. Isso não fará com que percam apoiadores porque foram essas características que atraíram seus apoiadores. A melhor reposta que podemos dar é saber enfrentá-los mostrando que sua política é apenas mais do mesmo, que serão incapazes de melhorar a vida das pessoas dentro do neoliberalismo e entregarão às pessoas apenas mais frustração. Precisamos mostrar que eles são fracos e ainda mais limitados que a organização e solidariedade entre as pessoas.

SERIAM OS POLICIAIS NOSSOS ALIADOS? – E PORQUE POLÍCIA ANTIFASCISTA É UM CONTRASSENSO

Percebemos, assim, que vivemos em um tempo no qual ideias e emoções fascistas desfilam sem muito receio de se mostrar explicitamente, tentando ganhar propulsão com discursos canalizam o ódio contra as minorias. Por vezes, com novos nomes, como Alt-Rigth (Europa e EUA) ou bolsonarismo (Brasil), mas com as mesmas práticas de eliminação e extermínio das formas de vida que ele declara como insuportáveis e indignas de viver. Hoje, esse fascismo não apenas se serve da democracia, como aprendeu a se perpetuar com uma renovada retórica democrática associada ao desejo por segurança. Eles sabem que as instituições democráticas, ao fim, os favorecem.

Belo Horizonte, 2014.

Para ficar em um exemplo rápido (e cinematográfico) sobre como as instituições na democracia favorecem o fascismo, assistam o filme “In the fade”, de Fatih Akin, vencedor em Cannes de melhor filme estrangeiro em 2018. No filme, como na vida, a polícia e o tribunal ficam do lado dos neonazistas, sejam eles alemães do PEGIDA ou gregos do Aurora Dourada. Assim acontece qualquer gangue fascista ou neonazista sob o governo de um Estado em qualquer lugar do planeta. Fascismo e Estado democrático de direito não são, necessariamente, antagônicos. E hoje isso é uma verdade por demais evidente.

No Brasil, desde que o bolsonarismo tomou forma político-eleitoral e caminhou em direção à ocupação do governo do Estado por meio da democracia, a temática do antifascismo se espalhou por vários grupos sociais e indivíduos gerando imagens, memes em mídias sociais, camisetas, adesivos, declarações inflamadas etc. É com alegria que os anarquistas, dedicados à lutas antifascista desde sempre, veem isso. Mas essa alegria não abafa a desconfiança de que essa “onda antifa” em uma esquerda mais ampla, seja apenas isso: uma onda; ou pior, uma nova grife, uma identidade ou uma tática de frente única para conter os que são vistos como radicais.

Nesse sentido, é salutar recordar o alerta do coletivo catalão Josep Gardenyes em seu libelo “Uma Aposta para o Futuro” (Edição Subta, 2015, pp. 19-20), que diz o seguinte: “insistimos na ideia de que o antifascismo é – e tem sido desde os anos 1920 – uma estratégia da esquerda para controlar os movimentos e frear as lutas verdadeiramente anticapitalistas. Ele também sempre foi um fracasso se o pensarmos como uma luta contra o fascismo. As [históricas] estratégias propriamente anarquistas para combater o fascismo foram muito mais efetivas, porque entendiam o fascismo como uma ferramenta da burguesia – e nesse sentido, da democracia –, e dessa forma eles atacaram diretamente o fascismo não no ponto onde ele entrava em conflito com a democracia (direitos, liberdades civis, moderação), mas onde ele convergia com os interesses de proprietários e governantes. (…) O totalitarismo do sistema-mundo atual é uma tecnocracia (…) ele é totalmente compatível com a democracia e não tem nenhuma necessidade de carismas nem de aliança conscientes nem pactuadas entre classes, com seus protagonistas indispensáveis e atores proativos.” O alerta é, no mínimo, pertinente.

São Roque, 2014.

Não queremos com isso dizer que os anarquistas possuem o monopólio da luta antifascista, nem tampouco desprezar ou subestimar a atual onda neofascista e pertinentes reações que ela provoca em amplos setores da sociedade. O alerta provoca uma análise apurada em dois sentidos. Primeiro, é preciso compreender as formas do fascismo contemporâneo e como elas conseguiram equacionar sua presença nas democracias hoje, diluindo as lutas antifascismo no pluralismo democrático e neutralizando seu caráter antissistêmico. Segundo, que ao tomar o antifascismo como principal atividade, os anarquistas correm o risco de cerrar fileiras com aqueles que, mais cedo ou mais, se voltarão contra os anarquistas. Os exemplos históricos são inúmeros, não iremos repetir aqui. Como versa um velho jargão militante: mais importante do que saber contra quem lutamos é saber com quem lutamos. Ao que acrescentamos: mais importante que saber o que fazer, é saber como fazer. A nossa luta já é a vida anarquista em ação.

Mesmo admitindo que uma frente, o mais ampla possível, seja importante para se combater o neofascismo, causa, no mínimo, estranhamento que agora temos que presenciar fenômenos bizarros como o surgimento dos chamados “policiais antifascistas”. Segundo reportagem veiculada pela revista Época, o movimento surgiu em setembro de 2017, composto por policiais civis e militares e demais profissionais da área de segurança pública. Um de seus criadores, um investigador da polícia civil, diz que o Policiais Antifascismo “busca discutir novas políticas de segurança inserindo o policial no debate público — inclusive no que diz respeito aos seus direitos”. A mesma matéria, informa que o movimento conta “com 10 mil membros e representações nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal.”2 O cerne das reivindicações do movimento é a crença de que pode haver uma polícia que respeite as liberdades civis e os direitos humanos e que os policiais devem ser vistos e se entenderem como trabalhadores, assim como o são diversos profissionais de outras áreas. Não duvidamos aqui das boas intensões das pessoas, mas não há um só motivo para acreditarmos nessa histórica instituição de opressão.

A polícia emerge, modernamente no século XIX, como um dispositivo de segurança destinado ao cuidado da população. Na antiga Prússia ela surge como medicina social; na França como instrumento das reformas urbanas como resposta às sedições dos trabalhadores; na Inglaterra aparece vinculada à medicina do trabalho e ao controle dos operários nas fábricas, além de sua faceta de proteção à propriedade do comércio marítimo. Na América do Norte, a polícia é herdeira direta das patrulhas de caça e captura de escravos fugitivos. Então, além de sua faceta repressiva contemporânea, a polícia é, desde seu início, um instrumento de governo voltado ao processos de normalização biopolíticos, como mostram as pesquisas de Michel Foucault e Jacques Donzelot. Sua forma ostensiva é mais recente e ao sul do equador foi acrescida de tecnologias de caça e controle coloniais e escravocratas. Nesse sentido, não é exagero dizer que sob qualquer regime político, a polícia é destacamento dos estados dedicado a manutenção da supremacia racial branca, do controle da classe trabalhadora, da imposição de desigualdade material e do patriarcado: todos os valores e requisitos necessários a um estado fascista. E hoje em dia, após o avanço do neoliberalismo desde os 1970, não apenas do Estado, mas de empresas de segurança privada e do desejo de cada cidadão que clama pelo morte do que lhe é insuportável, atuando como um cidadão-polícia.

São Paulo, 2016.

Assim, quando uma das lideranças do movimento diz, na mesmo entrevista, que “o policial é um garantidor de direitos”, ele não está dizendo nada além da histórica função desse peculiar dispositivo de segurança. Ele segue, justificando a existência do grupo: “a própria palavra polícia significa ‘gestão da polis’. Ele [o policial] deve atuar na cidade garantindo direitos. Ele tem que entender que os direitos básicos de um cidadão são os direitos humanos e fundamentais: o direito à vida, à liberdade de expressão”. Essa declaração expõe, mesmo que involuntariamente, a vinculação da atividade policial com o dever de manter o cidadão e os grupos sociais atrelados ao Estado. Depreende-se disso que, na contingente e elástica atuação cotidiana, cada policial é um agente do golpe de Estado cotidiano que impede que se rompa o vínculo subjetivo, operado nas ditaduras e nas democracias, entre sujeito e governo de Estado. Basta reparar que em todas revoluções modernas, desde a Revolução Francesa e as Independências dos EUA e do Haiti, a única constante invariável é a permanência da polícia – ao lado das prisões, dos exércitos, dos tribunais, das fronteiras. É possível ser antifascista sendo operador de algum destes dispositivos?

“A polícia não é o oposto dos fascistas. Eles abusam, sequestram, prendem, deportam e assassinam mais pessoas de cor, mulheres e LGBTTTIQ todos os anos do que qualquer grupo fascistas. Eles trabalham mais para fazer avançar a agenda supremacista branca do que qualquer organização de extrema direita independente.”

– CrimethInc., What they can’t do with badges, they do witch torches.

Enquanto anarquistas, sempre tentamos deixar óbvio que o papel da polícia é impor e reforçar os desequilíbrios econômicos entre as classes, mantendo os pobres sob controle e o patriarcado e a supremacia branca operando como barreiras à igualdade no Capitalismo.

A violência policial não é um caso isolado, uma aberração local ou a característica de um determinado tipo de regime, mas um elemento fundamental para uma sociedade baseada nos direitos de propriedade privada e na autoridade centralizada do Estado. O papel da polícia é manter as desigualdades de classe, raça, gênero e nacionalidade. Eles vão garantir que as pessoas pobres continuem na pobreza, que as excluídas continuem na exclusão, e que as injustiçadas convivam com a injustiça.

Sendo assim, a polícia nunca será uma aliada porque ela é a maior inimiga de quem questiona a ordem imposta, de quem quer mudanças sociais, de quem quer uma vida sem as desigualdades criadas pelo Capitalismo e pelo Estado. Afinal, eles são os primeiros a aparecer para o conflito quando nos cansamos de apenas sofrer as misérias desse sistema e partimos para a ação.

UMA VIDA SEM FASCISMO É UMA VIDA SEM CAPITALISMO, SEM ESTADO E SEM POLÍCIA

“Nenhum governo do mundo combate o fascismo até suprimi-lo. Quando a burguesia vê que o poder lhe escapa das mãos, ela recorre ao fascismo para manter o poder de seus privilégios.”

–  Buenaventura Durruti, em entrevista ao jornalista Van Passen, 1936

O papel da polícia e o das gangues fascistas não são conflitantes entre si, são complementares. Em 2011, a primeira demonstração pública em defesa das posições do então deputado Jair Bolsonaro foi organizada por skinheads neonazistas em São Paulo. Na época, Bolsonaro era apenas mais um membro desconhecido do parlamento, visto como uma piada, dando declarações racistas e homofóbicas para atrair atenção com polêmicas e escândalos. Dezenas de antifascistas compareceram para impedir que uma marcha neonazi conseguisse ainda mais atenção para Bolsonaro e a polícia ficou entre os dois grupos para impedir um confronto. Quando estamos em grande número, a polícia fica entre nós e os fascistas para “garantir a segurança de todos”. Mas quando somos minoria, os policiais deixam que os fascistas nos ataquem.

Contra-manifestação antifascista para barrar “ato cívico” chamado por skinheads neonazistas em apoio às declarações racistas e sexistas de Jair Bolsonaro em São Paulo, 2011.
Quando estamos em grande número, a polícia fica entre nós e os fascistas. Mas quando somos minoria, os policiais deixam que os fascistas nos ataquem.
Neonazistas defendendo Bolsonaro em São Paulo, 2011: Mais do que aos discursos abertos de um político, devemos prestar atenção em quem serão os primeiros a lhe demonstrar apoio.

Normalmente, a polícia ataca, prende, tortura e mata com impunidade legal. Eles não existem para impedir o crime, mas para garantir que a impunidade para atos considerados criminosos continuem sendo monopólio de quem tem poder econômico e político nas mãos. Nas melhores hipóteses, suas limitações são meramente burocráticas: quando a prisão não é em flagrante e é impossível forjar as provas; ou quando é necessário um mandado judicial para desalojar violentamente um imóvel ocupado; ou então quando uma manifestação popular toma as ruas de forma radical e a violência necessária para contê-la é ilegal ou controversa demais para ser praticada de forma explícita pelas forças policiais. Nesses casos, a ação de bandos neonazistas é útil para fazer o trabalho sujo que a polícia não quer ou não pode fazer num determinado momento.

Uma outra utilidade para a ação fascista nas ruas é nos manter ocupados demais tentando evitar que as coisas fiquem “ainda piores” e para lutar contra o sistema em si. O mesmo acontece com políticos como Bolsonaro e Trump: seus escândalos e suas medidas absurdas nos obriga a estar sempre reagindo às suas agendas invés de seguir as nossas próprias. Isso faz parecer que tudo o que queremos é restaurar alguma “normalidade” perdida no sistema democrático. Passamos a ser apenas defensores da última versão menos absurda da vida sob Capitalismo. O que é sempre o risco de soarmos como reacionários enquanto a direita se apresenta como “os rebeldes antissistema”.

“…parece que ocorreu uma inversão: por um lado, os progressistas se voltam para o passado, querem evitar a “decadência” dos valores democráticos, e assumem uma posição reativa (que era desde o século XIX a posição dos conservadores clássicos, dos teóricos da decadência etc.). Por outro lado, os populistas de direita, isto é, os reacionários, se tornaram “progressistas” no sentido de que querem acelerar o tempo e adiantar o futuro – mas por isso são apocalípticos. Apocalípticos porque amigos do apocalipse, porque eles não têm pudor em acelerar o processo de devastação do meio ambiente, em aniquilar pessoas (ou simplesmente deixar morrer, como no caso italiano em que impediram que um barco de refugiados atracasse) e em transformar a sociedade em uma guerra de todos contra todos em que sobrevive o mais armado – e isso não é nenhum “retorno à Idade Média”, é o próprio ápice do desenvolvimento capitalista, cuja verdade não é nenhuma versão democrática e luminosa de sociedade, mas sim esse grande Nada destrutivo.”

– Felipe Catalani, A decisão fascista e o mito da regressão: o Brasil à luz do mundo e vice-versa

Se, depois de toda essa reflexão, alguém ainda acredita que se aliar a membros da polícia em alguma luta social revolucionária pode ser uma boa ideia, afirmamos que abrir as portas e confiar em agentes da repressão estatal que querem lutar contra o fascismo é expor nossos movimentos à infiltração e outros riscos extremos desnecessariamente. Após séculos de luta das classes trabalhadoras e excluídas sendo perseguidas, traídas, mortas e aterrorizadas por instituições como a polícia e o exército; e com a sombra de uma ditadura civil-militar ainda viva na memória, é difícil pensar que tais indivíduos possam ser confiáveis – ou que seus colegas o sejam. Deveríamos trazer para dentro de nossas reuniões, protestos e ações, as pessoas que convivem e compartilham o dia de trabalho com assassinos, torturadores e inimigos da liberdade? Se policiais acreditam que todos devem se opor ao fascismo ou a qualquer forma de opressão, seu caminho deve ser o mesmo de qualquer pessoa à frente de instituições repressivas ou exploradoras: desertar. Que abandonem seus cargos, seus salários, seus privilégios e expropriem o máximo de recursos e munições possíveis que devem estar em mãos revolucionárias – e mesmo assim, é possível que levemos anos ou décadas para sequer começar a dar alguma confiança a pessoas que abriram mão de toda decência humana para aceitar um salário em troca de perseguir, prender e matar.

O governo grego promoveu uma ofensiva em Exarchia, o bairro anarquista de Atenas, despejando várias ocupações e centenas de pessoas, dentre elas imigrantes e refugiados. No meio da operação, era possível ver policiais usando símbolos fascistas. Na foto, o policial usa brasão e slogan do partido fascista Aurora Dourada.

A luta antifascista entre anarquistas é a recusa ao fascismo, mas também é a afirmação da vida. Não podemos e não queremos estar ao lado de quem opera dispositivos de governo. Nesse sentido NÃO somos todas antifascistas, se nos juntamos a uma instituição criada para impedir que as pessoas transformem sua opressão em revolta.

Por essas e outras, os anarquistas sempre tiveram claro que não existe luta antifascista no interior da instituições. Derrotar o fascismo significa obstruir sua virtualidade contida em qualquer Estado, em especial nas instituições que racionalizam e operam o extermínio: a polícia, o exército, as prisões e todo sistema de justiça criminal. Além disso, a história das lutas anarquistas nos informam que, em muitos casos, a luta antifascista é uma tática utilizada por liberais democratas e socialistas autoritários para conter a radicalidade do nosso anticapitalismo e de nosso antiestatismo inegociáveis. E aí chegamos a nosso ponto: somos todos, realmente, antifascistas? O que pensar de operadores das instituições de extermínio e do racismo de Estado que declaram adesão às lutas antifascistas em momentos de recrudescimento autoritário do regime político? Pensamos, especificamente, nos que se autointitulam policiais antifascistas. Ser antifascista é viver uma vida não-fascista. Como viver essa vida quando se é um agente do Estado armado e autorizado a matar? Como conceber isso? Especialmente num país como o Brasil, onde a polícia carrega toda herança escravocrata e está estruturada segundo os regimes autoritários no país durante o século XX?

Por favor, não diluam suas causas a ponto de ir para a rua com uma turminha dessas.

Não precisamos nos aliar a mercenários armados, ensinados a obedecer sem questionar, com autorização legal para agredir e matar defendendo as desigualdades existentes em nossa sociedade. Podemos trabalhar em conjunto sob princípios de solidariedade e horizontalidade para atender às necessidades de nossas comunidades, resolver conflitos e nos defender mutuamente da violência autoritária – ou seja, da polícia, fascista ou antifascista. Não existe caminho para a liberdade que não seja através da liberdade aqui e agora. A única autonomia que construímos está nos nossos laços sociais e de solidariedade: se quisermos garantir nossa integridade física contra agressões, precisamos de redes de apoio mútuo capazes de se defender, precisamos construir autodefesa e autodeterminação, que é nossa forma de liberdade diante da abstrata e dependente ideia de segurança. Não queremos essa democracia securitária, queremos liberdade e autodeterminação: cada pessoa e comunidade agindo de acordo com sua consciência e responsabilidade coletivas, em vez da coerção inerente aos governos e aos agentes de segurança, pois estes são sempre externos aos conflitos e problemas que vida em sociedade inevitavelmente cria.

A luta antifascista deve ser aliada à luta pelo fim de todas as instituições estatais, principalmente as repressivas. Precisamos alimentar e expandir estruturas para tomada de decisão que promovam autonomia e, por fim, práticas de autodefesa que possam nos proteger daqueles que no futuro queiram se tornar nossos líderes, como nos ensinam os povos ameríndios em sua relação com as chefias. Da mesma forma que não existe luta contra opressão sem uma luta contra todo aparato policial e estatal, não existe espaço na luta antifascista para reformar uma economia capitalista, o Estado, sua polícia e suas prisões – e muito menos espaço para policiais em uma luta contra o fascismo. Se, como disse com razão um dos líderes do movimento de policiais supostamente antifascistas, a polícia é a gestão da polis, nós seremos ingovernáveis.

Não passarão: sejam polícias, sejam fascistas, ou ambos juntos.

1 In The Name of The People, LIAISONS

SOMOS TODAS ANTIFASCISTAS – MENOS A POLÍCIA: sobre como e com quem lutamos ©, .

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UMA SOLUÇÃO ANARQUISTA PARA O AQUECIMENTO GLOBAL https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2019/08/30/solucao-anarquista-aq-global/ Fri, 30 Aug 2019 15:52:14 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1277 Continuar a ler "UMA SOLUÇÃO ANARQUISTA PARA O AQUECIMENTO GLOBAL"

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“Fico preocupado é se os brancos vão resistir. Nós estamos resistindo há 500 anos.”

– Ailton Krenak

Apresentação

por Facção Fictícia

Vivemos o auge da maior ameaça a toda forma de sustentabilidade da vida, dos biomas e das comunidades nesse planeta. Essa ameaça se chama Capitalismo, foi criada há séculos por seres humanos, e pode ser eliminada se assim quiserem os seres humanos. No entanto, mesmo abolindo esse sistema econômico-político que explora pessoas, promove genocídios, polui, degrada e envenena a terra, a água e o ar, teremos que sobreviver convivendo com as consequências de termos deixado a burguesia e o Estado chegarem tão longe. A destruição de ambientes inteiros, os venenos nos rios e em nossos corpos, as espécies que se foram, as geleiras que desapareceram e os rios que foram pavimentados, tudo isso permanecerá assim por anos. Viveremos coletando o que precisamos de ruínas e das pilhas de sucatas deixadas para trás. Tudo o que foi tirado do solo para ser jogado na superfície, nos mares e em nossos organismo não vai voltar da noite pro dia para o seu lugar de origem.

Essa inevitável constatação afeta nossas perspectivas de futuro. E é lá que residem as perspectivas revolucionárias e do fim do Capitalismo. Não existe mais uma promessa de futuro além do Capitalismo que seja apenas uma promessa de partilha e fartura, mas sim uma promessa de compartilhar a autogestão de nossas vidas em meio a recuperação da saúde dos biomas, das nossas relações e nossos corpos, após séculos de agressão e exploração. O que existe de fato é um consenso entre a comunidade científica, ativistas, instituições políticas, povos originários e pessoas tanto do campo como das cidades quanto aos riscos cada vez mais eminentes trazidos pelo aquecimento global e o impacto da industrialização e urbanização, que estão prestes a se tornarem irreversíveis.

Protesto contra o governo e os desmatamentos na Amazônia, em São Paulo, 23 de agosto de 2019.

Projetos de expansão do extrativismo para exportação de petróleo, commodities agrícolas e políticas desenvolvimentistas de aceleração do crescimento na época da gestão do PT, como a construção da usina de Belo Monte, que desalojou e impactou comunidades indígenas, milhares de pessoas que vivem no campo, mostram que governos de esquerda ou de direita enxergam a natureza e a vida humana como recursos para produzir bens de consumo. A ameaça oferecida por um governo de extrema direita, como o de Jair Bolsonaro, declaradamente inimigo do povo, das mulheres, dos povos indígenas, disposto a estimular sem pudores da violência física da repressão política e policial, consiste na intensificação das agressões que nunca deixaram de acontecer.

Queimadas aumentaram 82% em 2019 em relação ao mesmo período no ano passado no Brasil segundo o INPE. Uma fumaça de detritos causada pelos focos de incêndio florestais na região amazônica encobriu cidades do estado de São Paulo, fazendo o dia virar noite às 15h da tarde. Tudo isso no mesmo mês em que, na Islândia, pessoas organizaram o primeiro funeral, com lápide e tudo, para uma geleira declarada morta que desapareceu devido às altas temperaturas.

Cenas terríveis e trágicas, quase pitorescas, quase absurdas, nos lembram dos cenários e eventos fictícios como os do romance Não Verás País Nenhum, uma distopia social e ambiental brasileira de Ignácio de Loyloa Brandão. O livro, escrito na década de 1970 – em plena ditadura civil-militar no Brasil – descreve um regime ditatorial fictício conhecido como “civiltar”, que celebra – com datas festivas e tom ufanista – eventos como o corte da última árvore da Amazônia e declara com orgulho ter agora “um deserto maior que o do Saara”. Compondo o cenário trágico, todos os rios brasileiros estão mortos e jarros com a água de cada um dos rios extintos são expostos em um museu hidrográfico. Dunas de latas de alumínio e rodovias onde tomadas por carcaças de carros abandonados são o cenário que compõem os arredores de São Paulo. A cidade, por sua vez, sofre com súbitos bolsões de calor capazes de matar qualquer desavisado e doenças misteriosas que consomem os cidadãos, principalmente aqueles; em situação de rua. O autor alega ter se inspirado em eventos reais que pareciam absurdos, mas hoje se mostram cada vez mais reais do que nunca.

No mundo real, as notícias do aumento de queimadas na Amazônia chocaram a opinião pública ao redor do mundo, gerando indignação das pessoas e de líderes políticos como o presidente francês Emmanuel Macron que levou o tema para a reunião de cúpula do G7 e trocou farpas com Bolsonaro na mídia. No entanto, a solidariedade internacional entre povos explorados e excluídos é fundamental. Mas a intervenção de estados estrangeiros com interesses econômicos não é nada além da continuidade do colonialismo que começou em 1492. Não será nenhum governo que vai solucionar o problema dos incêndios e dos desmatamentos. O máximo que conseguirão é retardar ou diminuir a exploração, mas o Capitalismo neoliberal não aceita nada que não seja crescimento e mais crescimento, isto é: a transformação das matas e dos recursos dos solos em bens de consumo competitivos no mercado global. O que queima a Amazônia – e todo o planeta – é o latifúndio, a disputa por terras, o lucro e propriedade privada. Nada disso será tocado por nenhum governo eleito ou imposto. Uma perspectiva ambiental deve ser uma perspectiva revolucionária pelo fim do Capitalismo.

Anarquistas em protesto contra o governo e os desmatamentos na Amazônia, em São Paulo, 23 de agosto de 2019.

Exercitar nossa capacidade de imaginar

Utopia é por definição um lugar que não existe ou é inalcançável. Logo, são inúteis. Precisamos de outros lugares possíveis. Precisamos ser capazes de imaginar um mundo diferente. É preciso compartilhar referências de sociedades funcionando sem Estado e sem Capitalismo, como a Comuna de Paris em 1871, a Revolução Russa e Ucraniana de 1917 (antes de serem traídas e esmagadas pela ditadura bolchevique), ou a Revolução Espanhola de 1936. E também os episódios atuais como o levante Zapatista no México desde 1996 e a revolução em andamento em Rojava na Síria, onde os povos nativos se levantaram em armas e milhões de pessoas organizam sua economia, seu trabalho, sua educação e a gestão de cidades, vilas e campos sem um estado ou uma economia baseada na propriedade privada dos meios de produção. Além deles, há exemplos de todas as nações indígenas ao nosso redor: Guaranis, Mundurukus, Tapajós e Krenaks e tantas outras que, há cinco séculos, resistem à expansão colonial europeia e capitalista. Todos são exemplos que anarquistas devem ter como referência de vida, organização e resistência sem Estado e contra o Estado!

Guerreiros Mundurukus sem apoio do Estado partem para a ação direta para expulsar madeireiros da Terra Indígena Sawré Mybu, no Pará.

Se usássemos nossa capacidade de inventar ou acreditar em apocalipses zumbis e desastres proféticos do cinema ou da literatura para imaginar e construir uma realidade para além do Capitalismo desde já, estaríamos em um caminho muito melhor. Hoje nosso caminho beira a descrença e a passividade. Mas não existe neutralidade em um trem em movimento correndo para um abismo. Cruzar os braços é ser conivente. Agir individualmente é insuficiente. É preciso imaginar e também buscar referências revolucionárias recentes ou tradicionais e milenares de vida autogerida, organizada e igualitária entre os povos do mundo.

Por isso, compartilhamos o texto Uma Solução Anarquista para o Aquecimento Global, do anarquista Peter Gelderloos, para que possamos exercitar nossa imaginação. Para quem gostar da ideia, recomendamos o livro de autoria desconhecida, chamado Bolo Bolo, que imagina um planeta inteiro vivendo uma era pós Capitalismo.

Para mais exemplos e referências de sociedades anarquistas revolucionárias ou povos tradicionais e indígenas vivendo e solucionando seus problemas sem chefes ou governantes –, recomendamos o livro Anarquia Funciona, também escrito por Peter Gelderloos e disponível livremente na internet. O livro aborda com exemplos históricos e factuais questões como tomada de decisão, economia, solução de conflitos, meio ambiente, crime, organização de comunidades e revolução.

Boa leitura.

“De fato, já estamos no olho do furacão. Os preços da energia subiram como consequência de já havermos alcançado o pico na produção global de petróleo e seu consequente e inevitável declínio posterior. Furacões, secas e padrões climáticos imprevisíveis tornaram-se mais frequentes e intensos, fazendo-nos sofrer as consequências do aquecimento global que nós mesmos provocamos. Enquanto isso, a qualidade do solo e da água continua a se degradar e a biodiversidade colapsa com uma taxa de extinção de espécies 10.000 vezes superior a normal. Por sua vez, a tremenda crise nos preços dos alimentos em que se vê mergulhando o mundo neste momento é a indicação mais poderosa até agora de que já não se deve esperar um retorno a situação anterior. Pelo contrario, o que vemos é a batalha final entre a necessidade infinita de crescimento do capitalismo neoliberal e os recursos limitados de um único planeta. E não é com toda a engenharia financeira ou as invenções de tecnologias de última geração que o dinheiro pode comprar que este sistema irá escapar de seu colapso inevitável. Ele atingiu o ponto de inflexão e nós somos a geração a que corresponde à duvidosa honra de viver e morrer em seus últimos espasmos.”

– Uri Gordon, Presságios Sombrios: política anarquista na época do colapso

Nem utopia, nem distopia: revolução!

Uma Solução Anarquista para o Aquecimento Global

por Peter Gelderloos

Se a resposta dos “capitalistas verdes” para as mudanças climáticas somente joga mais lenha na fogueira, e se os governos em escala mundial são incapazes de resolver o problema, como anarquistas sugeririam reorganizar a sociedade para poder diminuir a quantidade de gases estufa na atmosfera e sobreviver a um mundo que já mudou?

Não há uma só posição anarquista e muitos anarquistas se negam a oferecer qualquer tipo de proposta argumentando que quando a sociedade se libertar do Estado e do Capitalismo, ela mudará organicamente e não de acordo com um anteprojeto. Além disso, a atitude policial de ver o mundo desde cima e impor mudanças é inseparável da cultura responsável por destruir o planeta e oprimir a seus habitantes.

Contudo, queremos esboçar uma possível maneira de como poderíamos organizar nossas vidas, não dando uma proposta concreta, mas sim porque as visões nos fazem mais fortes e todos nós necessitamos de coragem para romper de uma vez por todas com as instituições existentes e com as soluções falsas que nos oferecem. Seguindo os propósitos deste texto, não vou entrarem nenhum dos importantes debates com respeito a ideais – níveis apropriados de tecnologia, escala, organização, coordenação e formalização. Vou descrever como uma sociedade ecológica e antiautoritária poderia se manifestar, fluindo desde a complexidade social do momento presente. Por razões de simplicidade,tampouco entrarei em debates científicos sobre o que é e o que não é sustentável. Esses debates e a informação que apresentam são acessíveis extensamente para quem queira fazer sua própria investigação.

Baseio a descrição deste possível futuro mundo no que é fisicamente necessário e o que é eticamente desejável, em concordância com as seguintes premissas:

  • A extração de combustíveis fósseis e seu consumo devem se encerrar por completo.
  • A produção de comida industrial deve ser substituída pela colheita sustentável de comida a nível local.
  • Estruturas centralizadas de poder são inerentemente exploradoras do meio ambiente e opressivas para as pessoas.
  • A mentalidade de valor quantitativo, acumulação, produção e consumo – ou melhor dizendo, a mentalidade do mercado livre – é inerentemente exploradora do meio ambiente e opressiva para as pessoas.
  • A descentralização, a associação voluntária, a auto-organização, o apoio mútuo e a não-coerção são viáveis e funcionaram dentro e fora da civilização ocidental inumeráveis vezes.

Bem-vindas ao futuro. Ninguém imaginaria que a sociedade global seria desta maneira. Sua característica mais definitiva é sua heterogeneidade. Algumas cidades foram abandonadas, árvores crescem através de suas avenidas, rios fluem onde antes o asfalto cobria a terra e os arranha-céus se desmoronam enquanto capivaras pastam em meio ao cimento rachado.

Outras cidades prosperam, porém mudaram a ponto de se tornarem irreconhecíveis. Terraços, lotes vazios e avenidas foram convertidas em hortas. Árvores frutíferas e nozes formam fileiras em cada quadra. Galos cantam a cada amanhecer. Em torno de um décimo das ruas – as grandes vias – permanecem pavimentadas ou asfaltadas, ônibus funcionando com biodiesel passam com frequência. Outras ruas foram amplamente ocupadas por jardins e hortas, embora ciclovias cortem o centro delas. Os únicos edifícios que tem eletricidade durante as vinte e quatro horas do dia são os centros de tratamento de água, os hospitais e as estações de rádio. Os teatros e os edifícios comunitários obtém energia em rodízio somente até atarde para que possam ficar abertos para noites de cinema ou outros eventos. Praticamente todos tem velas e lamparinas, e é assim que sempre há alguma luz em muitas janelas até tarde. Porém não é nada parecido com o que era antes. Na noite é possível ver as estrelas no céu e as crianças ficam boquiabertas quando os mais velhos lhes dizem como as pessoas haviam abandonado esse prazer.

A eletricidade é produzida por uma rede de usinas de energia que queimam desperdícios agrários (como espigas de milho, por exemplo), por meio de alguns biocombustíveis e através de uma quantidade reduzida de turbinas eólicas e painéis solares. Porém a cidade funciona com só uma fração do que usava anteriormente .As pessoas aquecem e resfriam seus lares por meio de um design solar e eficiente, sem eletricidade alguma. Nas regiões mais frias, as pessoas complementam isso no inverno com a queima de combustíveis renováveis, porém as casas estão bem isoladas e os fornos estão projetados com a máxima eficiência, por isso não é necessário muito. As pessoas também cozinham em fornos a base de combustíveis ou, em climas mais temperados, com fornos solares. Algumas cidades que utilizam mais eletricidade para a indústria manufatureira e para manter formas de geração de eletricidade renovável (solar, eólica e energia das marés e correntezas dos rios) também cozinham com eletricidade. Muitos edifícios tem uma lavadora coletiva, sem secadoras e todas as vestes são secadas como antigamente: em uma corda de varal.

Ninguém tem um refrigerador, embora cada edifício ou apartamento tenha um congelador comunal. As pessoas guardam alimentos perecíveis como iogurtes, ovos e legumes em uma geladeira portátil ou no porão, e comem alimentos frescos ou enlatados. Elas colhem nas hortas de suas quadras a metade do que consomem. Quase todos os alimentos que consomem são colhidos a vinte milhas de onde vivem. Nenhum alimento é geneticamente modificado ou produzido com químicos e todos são produzidos pelo seu sabor e nutrição, não por sua perenidade e facilidade de transporte. Em outras palavras, todos os alimentos tem um melhor sabor e as pessoas são muito mais saudáveis. Doenças cardíacas, diabetes e câncer, alguns dos maiores assassinos da sociedade capitalista, desaparecem. Os supervírus, criados durante o capitalismo, que mataram milhões de pessoas durante o colapso desapareceram em sua maior parte e o uso de antibióticos quase chegou ao fim. As pessoas vivem em condições mais saudáveis globalmente e tem sistemas imunológicos mais fortes. As viagens globais não são nem tão frequentes nem tão aceleradas. As pessoas também tem uma maior consciência com respeito ao meio ambiente e uma conexão pessoal com a biorregião porque se alimentam do que se produz em temporada e o do que se colhe localmente, e também porque são elas mesmas quem os colhem.

Cada casa tem um banheiro de compostagem e uma pia, porém não há esgoto. Se tornou uma espécie de regra subentendida ao redor do mundo que cada comunidade deve assumir a responsabilidade por seus próprios dejetos com bacias de evapotranspiração. Livrar-se de resíduos jogando-os rio abaixo tornou-se o maior tabu. As relativamente poucas fábricas restantes usam fungos e micróbios em grandes terrenos florestais ao redor das zonas industriais para corrigir qualquer eventual contaminação que produzam. Os bairros convertem seus dejetos em adubo ou combustível. A quantidade de água é limitada, porém os edifícios estão equipados com coletores de água da chuva para as hortas e para fazer faxinas. As vivências que excedem em muito a cota recomendada de uso de água são publicamente surpreendidas. A cota recomendada não é imposta, é simplesmente uma sugestão compartilhada por quem trabalha nos consórcios de tratamento das águas, baseada na quantidade de água que a cidade está permitida desviar da fonte principal e em concordância com todas as comunidades que compartilham a fonte.

Na maioria das cidades, as pessoas organizam assembleias periódicas para a manutenção de hortas, estradas, ruas, edifícios, creches e para mediar conflitos. As pessoas também participam de reuniões em qualquer sindicato ou projeto infraestrutural que desejam dedicar seu tempo. Estes podem incluir o consórcio de água, as cooperativas de transporte, o consórcio de eletricidade, os hospitais, a união de construtores, as fábricas ou as enfermarias (a maioria dos tratamentos médicos é realizado por herbalistas, naturopatas, homeopatas, acupunturistas, massoterapeutas, parteiras e outros especialistas que atendem a domicílio). A maioria destas organizações são descentralizadas ao máximo, confiando a indivíduos e pequenos grupos de trabalho a realização de suas tarefas, embora quando necessário, se coordene através de reuniões que normalmente funcionam como assembleias abertas usando o consenso, com uma preferência por compartilhar perspectivas e informação sem tomar decisões sempre que possível. Algumas vezes, reuniões interregionais (como por exemplo, a reunião de comunidades que compartilham a fonte de água), são organizadas com uma estrutura de delegações, ainda que as reuniões sempre estejam abertas a todo mundo, e sempre procuram chegar a decisões que satisfaçam a todos já que não há instituições coercitivas e qualquer tipo de coerção é reprovada por tentar “trazer de volta os velhos tempos”.

Como o poder está sempre num nível local, na medida do possível, a grande maioria das decisões é tomada por indivíduos ou grupos pequenos que compartilham afinidades e trabalham juntos regularmente. Uma vez que não há ênfase para controlar e acumular poder impondo homogeneidade ou singularidade de resultados, as pessoas descobrem que a maior parte da coordenação pode ocorrer organicamente,com gente diferente tomando diferentes decisões e resolvendo por si mesmas como reconciliar suas decisões com as dos demais.

Embora as sociedades de hoje estão estruturadas para criar sentimentos de comunidade e mutualidade, existe também espaço para a privacidade e solidão. Muitos bairros tem cozinhas comunais e salas de jantar, porém as pessoas podem cozinhar e comer por si mesmas, quando lhes der vontade – e elas normalmente o fazem. Algumas sociedades tem muitos chuveiros públicos, e outras não, dependendo das diferenças culturais. A comunização forçada em experimentos passados de utopias socialistas não existem nesse mundo. A propriedade privada foi abolida no sentido clássico dos meios de produção que as pessoas necessitam para sua sobrevivência, porém, qualquer um pode ter quantos objetos pessoais elas conseguirem – roupas, brinquedos, reservas de doces e outras iguarias, uma bicicleta, etc.

Quanto menor a comunidade, maior a probabilidade dela operar com uma economia de dádiva – qualquer coisa que você não use pode dar como um presente, reafirmando seus laços sociais e aumentando a quantidade de objetos em circulação – a qual é talvez a economia mais comum e de mais larga trajetória na história do ser humano. Além do nível de bairro, ou quando se trata de objetos raros ou que não são produzidos localmente, as pessoas podem negociar. Os sindicatos de algumas cidades podem utilizar um sistema de cupons para a distribuição de coisas que escasseiam ou que são de produção limitada. Se você trabalha no sindicato de eletricidade, por exemplo, pode obter um número de cupons que podem ser usados para conseguir coisas da fábrica de bicicletas ou de alguma fazenda fora da cidade.

Os itens mais comumente produzidos nas fábricas são bicicletas, ferramentas de metal, roupa, papel, equipamentos médicos, biodiesel e vidro. Mais comum que a fábrica é a oficina, onde as pessoas fabricam quaisquer tipo de coisa, com uma qualidade maior e em um ritmo mais lento e digno e saudável. As oficinas usualmente usam materiais reciclados (afinal, há muitos centros comerciais antigos e cheios de lixo e sucata) para fabricar coisas como brinquedos, instrumentos musicais, roupas, livros, rádios, geradores de eletricidade, bicicletas e partes de automóveis.

O trabalho não é obrigatório, porém quase todo mundo trabalha. Quando não se tem chefes é possível fazer coisas que são úteis e que têm significado, as pessoas tendem a desfrutar do trabalho. Aqueles que não contribuem trabalhando de nenhuma forma são muitas vezes desprezados ou excluídos dos aspectos mais agradáveis de viver em sociedade, porém nunca é aceitável negar a alguém comida ou tratamento médico. Pelo motivo de não ajudarem a seus próximos, é pouco provável que consigam boas comidas, consultas médicas, massagens ou acupuntura a menos que tenham um problema específico que as impeçam de trabalhar. Porém nunca serão deixadas morrer de fome. É uma pequena gasto de recursos para a comunidade, porém nada com parado como parasitismo de chefes, políticos e forças policiais do passado.

Não há mais polícia. Geralmente, as pessoas estão armadas e treinadas em autodefesa, e a vida de todos inclui atividades que incentivam sentimentos coletivos ou comunais de interesse próprio. As pessoas dependem da cooperação e do apoio mútuo para sobreviver e serem felizes, deste modo aqueles que estragam seus laços sociais, acabam se isolando e prejudicam a si mesmos. As pessoas lutaram para derrotar seus opressores. Derrotaram a polícia e as forças armadas das classes dirigentes, e recordam essa vitória. O imperativo de nunca voltar a sermos governados forma uma grande parte da identidade hoje em dia. Não serão intimidados por ocasionais psicopatas ou quadrilhas de mafiosos.

Em suma, a cidade tem uma insignificante pegada ambiental. Uma grande concentração de pessoas vive em uma área determinada, que contudo contém uma grande biodiversidade, com muitas espécies de plantas e animais vivendo juntas. Não produzem poluição que não sanem elas mesmas. Usam água de fontes, porém muito menos que uma cidade capitalista, e em acordo com outras comunidades que usam as mesmas fontes. Produzem gases estufa através da queima de combustível, porém a quantidade é menor do que a absorvida da atmosfera pela sua própria agricultura (pois todos os combustíveis são de origem agrária, e o carbono que produzem é o mesmo que essas plantas removeram da atmosfera enquanto cresciam). Quase toda a comida local é produzida de forma sustentável. Existe uma pequena quantidade de produção industrial, porém a grande parte dela usa materiais reciclados.

Fora da cidade, o mundo está ainda mais transformado. Desertos, selvas, montanhas, pântanos, tundras e outras áreas que não podem sustentavelmente suportar altas populações humanas regressaram a seu estado natural. Nenhum tipo de programa governamental foi necessário para criar reservas naturais, simplesmente não valia a pena permanecer nestes lugares quando a produção de combustíveis fósseis parou. Em muitas destas, as pessoas vivem como caçadores-coletores, levando a cabo a mais inteligente forma de economia possível nesta biorregião e tornando a noção convencional do que é futurístico de cabeça.

Algumas comunidades rurais são autossuficientes, sustentadas com a agricultura e a pecuária, ou mais intencionalmente com a permacultura. Muitas pessoas que deixaram as cidades durante o colapso formaram estas comunas e são mais felizes e saudáveis do que durante o capitalismo. Algumas das comunidades permaculturais são compostas de unidades familiares mais tradicionais, com cada família ocupando uma dois acres de terra, estendido sem uma distribuição homogênea sobre um vasto território. Outras compreendem um núcleo densamente povoado, com centenas de habitantes vivendo em doze acres de campos intensamente cultivados, rodeados por árvores frutíferas e campinas com frutas, nozes e gado, rodeados por sua vez por um anel de bosques naturais que servem como um cinturão ecológico, e com o espaço para um ocasional corte de árvores e caça de animais. Estas comunidades rurais são quase completamente autossuficientes, tem uma relação sustentável com a terra, fomentam uma alta biodiversidade, e sua emissão de gases de efeito estufa facilmente equivale a zero.

As comunidades rurais nos pequenos raios em torno das das cidades levam a cabo uma agricultura intensiva, ajudada por alguns produtos manufaturados, em uma relação simbiótica com seus vizinhos urbanos. Cada semana, utilizando carruagens ou caminhonetes a biodiesel, trazem comida e biocombustíveis até um bairro específico da cidade, e levam de volta compostagem (a maioria proveniente de banheiros, já que os restos de comida servem para alimentar as aves urbanas). Com este nutritivo composto, vidros para estufas, ferramentas de metal e o ocasional uso de tratores ou arados mecânicos compartilhados entre várias pequenas fazendas, é possível produzir altos rendimentos todo o ano sem destruir a terra nem depender de químicos ou combustíveis fósseis. Elas cultivos intercalados e outros métodos derivados da permacultura para preservar o estado saudável da terra e evitar pragas. As fazendas contam com árvores frutíferas e pequenos bosques, e por isso há uma grande biodiversidade, incluindo grande quantidade de aves que se alimentam de insetos. Já que não praticam a monocultura, as pestes e as doenças não se expandem tão incontrolavelmente como na agricultura industrial capitalista. O uso de plantas nativas, diferentes espécies, a proteção do solo, e a preservação de bosques também mitigam o impacto das secas e do clima extremo causado pelas mudanças climáticas.

Ainda existe uma quantidade aceitável de transporte entre biorregiões. As cidades estão conectadas por meio de trens a biodiesel e as pessoas cruzam regularmente os oceanos em barcos que funcionam com energia eólica. Uma quantidade de finida de comércio interregional funciona desta maneira, porém o transporte interregional serve, principalmente, para permitir o movimento das pessoas, ideias e identidades. As pessoas se locomovem menos do que nos últimos dias de capitalismo, porém, por outro lado, não tem que se preocupar por seguir os caprichos da economia que as obrigava a se mudar para longe em busca de trabalho. As biorregiões são quase completamente autossuficientes economicamente e as pessoas encontram o sustento necessário. Se querem partir é porque querem viajar para ver o mundo e são livres para fazê-lo porque as fronteiras deixaram de existir.

A comunicação de longa distância funciona principalmente através de rádio. A maioria das comunidades urbanas e semi-urbanas tem telefone e internet. A produção altamente tóxica de computadores quase acabou, porém algumas poucas cidades usam métodos inovadores e mais limpos para produzir computadores em uma escala mínima e mais lenta. No entanto, existem suficientes peças em circulação e a maioria dos bairros podem manter alguns computadores funcionando se assim desejam. Muitas pessoas da zona rural vivem o suficientemente perto de uma cidade para ter acesso a estas formas de comunicação de vez em quando. Ainda é possível receber notícias de todo o mundo e continuar a cultivar uma identidade parcialmente global.

A base econômica da sociedade se diversificou bastante dentro de cada comunidade linguística. Em outras palavras, uma pessoa pode viver em uma comuna agrícola com um nível de tecnologia muito similar ao da sociedade ocidental no século dezenove, mas na vizinhança existe um bosque habitado por caçadores-coletores. E, algumas vezes por ano, essa pessoa pode visitar uma cidade organizada por sindicatos e assembleias, onde há eletricidade, ônibus, uma estação de trem ou um porto, onde se pode ver filmes ou ler o blog de alguém que está no outro lado do planeta. Imagens e notícias ao redor do mundo passam por cada comuna regularmente. Se fala o mesmo idioma e se compartilha uma cultura e história similar com estas comunidades que são, no entanto, muito diferentes entre si. O resultado disso é que uma identidade exclusivamente separatista e isolada, que poderia trazer problemas como o renascimento de comportamentos dominadores e imperialistas, é constantemente balanceada pelo crescimento de uma identidade global e a mescla com membros tão diferentes de uma comunidade ampla. Na verdade, já que a maioria das comunidades linguísticas se estendem bem mais além de uma biorregião e já que as pessoas desfrutam de uma mobilidade social sem precedentes, cada indivíduo decide, quando chega a uma certa idade, se quer viver na cidade, no campo ou nos bosques. Não somente as fronteiras não existem entre nações artificialmente construídas; as fronteiras sociais tampouco detém o movimento entre diferentes categorias identitárias e culturais.

Para as pessoas mais velhas, esta forma de vida se assemelha ao paraíso, mesclado com os sombrios detalhes da realidade – conflitos, trabalho duro, desamores e pequenos dramas. Os jovens simplesmente pensam que este tipo de vida é resultado de um senso comum.

Ecada ano, o mundo se cura um pouco mais dos estragos causados pelo capitalismo industrial. Novas áreas retornam ao estado silvestre e a quantidade de bosques e zonas úmidas aumenta, enquanto que áreas altamente povoadas se tornam ecossistemas saudáveis graças a jardinagem, a permacultura e a eliminação dos carros. Os níveis de gases de efeito estufa se reduzem lentamente, pela primeira vez em décadas, o carbono retorna aos solos, aos bosques e zonas úmidas, a novas áreas urbanas verdes; e a queima de combustíveis fósseis é erradicada. Mais de um terço das espécies no planeta se extinguiram antes das pessoas mudarem a maneira de viver, porém agora que a perda de habitat foi invertida, muitas espécies voltam a se proliferar. Enquanto a humanidade não esquece a lição mais difícil que já aprendeu, em alguns milhões de anos e a biodiversidade do planeta será tão grande como sempre foi.

Uma vida digna substituiu o lucro como o novo termômetro social e, em um golpe a todos os engenheiros do planejamento social, todo mundo pode fazer suas próprias metas e determinar por si mesmos como alcançá-las. As pessoas recuperaram a habilidade de se alimentar e de fazer suas próprias casas, e as comunidades individuais mostraram que elas são as que se encontram melhor situadas para projetar um modo de sustentabilidade adaptado as condições locais e as várias mudanças resultantes do aquecimento global. Era algo tão óbvio. A única solução que todos os que se beneficiavam com uma economia que gerava mudanças climáticas nunca discutiram era as que poderiam realmente funcionar.

Durante a maior parte do tempo, as pessoas não acreditavam em quem tentava alertar sobre as mudanças climáticas, sobre o colapso ecológico, e outros problemas criados pelo governo e pelo capital – os mesmos que clamavam soluções radicais. Ao final, viram que a melhor decisão que tomaram em suas vidas foi a de parar de confiar naqueles que estão no poder, os responsáveis por todos esses problemas, e ao invés disso começar a confiar em si mesmas e se partirem para a ação.

A esses leitores que duvidam da possibilidade desta visão, podem dar uma olhada em “Campos, Fábricas e Oficinas”, de Peter Kropotkin, onde cientificamente se mostra uma proposta similar já há mais de cem anos. Também podem prestar atenção em como a terra nativa onde vivem foi organizada antes da colonização. De onde eu venho a Confederação Powhatan manteve a paz e coordenou o comércio entre várias nações no sul da Bahia de Chesapeake, na costa atlântica dos Estados Unidos. Ao norte, os Haudensaunne mantiveram a paz entre cinco, e logo seis nações, por cem anos. Ambos grupos suportaram uma alta densidade populacional mediante a horticultura intensiva e pescando sem degradar o meio ambiente.

Onde agora vivo, em Barcelona, os trabalhadores tomaram a cidade e as fábricas e geriram tudo por si mesmos em 1936. E onde estou escrevendo este artigo, em Seattle, houve uma greve geral de um mês em 1919 e os trabalhadores também se provaram capazes de se organizar e manter a paz. Não é um sonho. É uma possibilidade iminente, porém somente se tivermos a coragem de acreditar nela!

São Paulo, 23 de agosto de 2019.
UM OUTRO FIM DO MUNDO É POSSÍVEL!

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UMA SOLUÇÃO ANARQUISTA PARA O AQUECIMENTO GLOBAL ©, .

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A AMEAÇA À ROJAVA: zine para imprimir https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2019/08/19/a-ameaca-a-rojava-zine-para-imprimir/ Mon, 19 Aug 2019 14:09:55 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1266 Continuar a ler "A AMEAÇA À ROJAVA: zine para imprimir"

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No mês de julho de 2019, o governo da Turquia anunciou que está pronto para invadir Rojava, território autônomo e autogerido no norte da Síria, para reacender a guerra civil no país. O presidente Erdogan quer massacrar pessoas que derrotaram o grupo jihadista, terrorista e fascista conhecido como Estado Islâmico.

Em dezembro de 2018, após o anúncio surpresa do presidente Donald Trump de que ele está retirando da Síria as tropas dos EUA que ajudaram a barrar os avanços dos jihadistas, anarquistas combatendo em Rojava escreveram esse artigo, explicando o que isso significa para a região e quais são os efeitos em escala global. É preciso entender o que se passa e que coloca em risco a vida de milhões de pessoas que lutam há anos em uma guerra pela liberdade e há séculos pelo direito de existir.

Está chegando o Dia X, o começo de uma invasão turca: tomem as ruas, realizem ações, ocupem, perturbem e bloqueiem! Mostre aos responsáveis nos escritórios do governo e nos locais de trabalho o que você acha da guerra deles! Juntos podemos parar a guerra de agressão da Turquia! Nenhuma guerra contra o norte da Síria!

A revolução no nordeste da Síria sairá vitoriosa, todo fascismo será esmagado!

Mais informações:

riseup4rojava.org

internationalistcommune.com

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