Entrevista – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org vandalismo, depredação e análise Mon, 17 Jun 2024 21:23:34 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2019/09/cropped-FAC_logo19_ilustra-32x32.png Entrevista – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org 32 32 O DESASTRE TEM NOME: CAPITALISMO – Anarquistas no Sul do Brasil Falam Sobre as Enchentes e a Solidariedade no RS https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2024/06/14/o-desastre-tem-nome-capitalismo/ Fri, 14 Jun 2024 15:05:55 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3359 Continuar a ler "O DESASTRE TEM NOME: CAPITALISMO – Anarquistas no Sul do Brasil Falam Sobre as Enchentes e a Solidariedade no RS"

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Água invadindo a cidade de Porto Alegre em maio.

Nos primeiros dias do mês de maio de 2024, o território conhecido estado do Rio Grande do Sul, no assim chamado Brasil, foi atingido pela maior catástrofe climática de sua história. Mais de uma semana de chuvas intensas fizeram com que diversos rios transbordassem, arrasando dezenas de cidades e destruindo tudo no seu caminho, para então desaguarem no rio Guaíba causando a maior enchente já registrada na região da Grande Porto Alegre e outras cidades do estado. Até 1 de junho, 171 mortes foram confirmadas. Milhares de pessoas perderam tudo. 614 mil ficaram desabrigadas. Mais de dois milhões foram afetadas. Cidades inteiras praticamente apagadas do mapa pela força das águas.

Em números de pessoas afetadas e proporção dos danos materiais, a tragédia já supera a destruição causada pelo furacão Katrina na cidade em Nova Orelans, nos Estados Unidos em 2005. É o maior estrago econômico e estrutural causado por um evento climático no Brasil.

O Estado e o modo de produção capitalista têm responsabilidade direta pela devastação do planeta, produzindo cada vez mais catástrofes, derrubando florestas para dar lugar ao gado, às monoculturas e à mineração, degradando e impermeabilizando o solo com a expansão urbana. Em meio ao horror, fica evidente a completa incapacidade dos governos e dos ricos de cuidarem de nossas vidas e do nosso ambiente.

Município de Lajeado coberto de lama, após as águas da enchente de maio baixarem.

No centro dessa tragédia que anuncia uma nova realidade de eventos extremos cada vez mais frequentes, anarquistas, comunidades indígenas, quilombos e movimentos sociais organizam a solidariedade enquanto tentam reconstruir suas vidas e seus territórios gravemente afetados, seja pedindo e distribuindo doações, chamando por mutirões para limpar e voltar para imóveis atingidos, ou organizando novas ocupações de prédios vazios para abrigar pessoas que perderam suas casas.

Compilamos nesse artigo e em uma curta entrevista as reflexões sobre a atuação de anarquistas e outros movimentos de base atuando nessas campanhas por apoio mútuo em Porto Alegre e outras cidades atingidas pela maior enchente da história do Rio Grande do Sul.

Este artigo é também um vídeo produzido pelo coletivo Antimídia.

O ESTADO

No momento de um grande desastre “natural” – e até mesmo antes – o Estado deixa claro que sua prioridade nunca foi proteger nossas vidas. No longo prazo, o Estado brasileiro ignorou os alertas feitos décadas atrás sobre os perigos da devastação ambiental e das mudanças climática e também não tomou medidas eficazes para impedir catástrofes como esta. Mas mais do que isso, foi agente ativo da destruição – ora devastando de forma mais branda, ora devorando a terra de forma mais voraz. No governo neofascista de Bolsonaro, esse desprezo pela vida e ódio à natureza era escancarado. Mas mesmo os regimes sociais-democratas, incluindo governos progressistas de partidos como o PT, contribuíram em peso com o aquecimento global, apostando na indústria automotiva, na extração de petróleo e outras fontes de energia de alto impacto ambiental para alavancar o crescimento econômico. Em 2015, durante o governo de Dilma Rousseff, do PT, que relatórios científicos que apontavam para enchentes causadas pelas mudanças climáticas foram arquivados depois de serem considerados “alarmistas demais”.

Nos níveis estadual e municipal a negligência do Estado se repete com um impacto ainda mais direto e imediato sobre nossas vidas. Apesar dos repetidos comunicados dos sistemas meteorológicos, o governador e o prefeito não elaboraram planos nem realizaram alertas de evacuação adequados. Pelo contrário, não investiram o mínimo necessário na prevenção e proteção da população. O atual governador, Eduardo Leite (do partido de direita PSDB), retalhou a legislação ambiental do Estado para favorecer empresários e reduziu os investimentos na Defesa Civil durante seu governo. Quando questionado por jornalistas, Leite tentou justificar alegando que “tem esses estudos que, de alguma forma, alertam, mas o governo também tem outras agendas”.

Em Porto Alegre as comportas do dique que protegem a cidade falharam por falta de manutenção e erros no fechamento. O que ocorreu se tornou ainda mais grave pelo fato do DMAE (Departamento Municipal de Agua e Esgoto) ter acumulado as demandas do DEP (Departamento de Esgotos Pluviais), órgão responsável pelo sistema de diques, comportas e estações de bombeamento que protegem a capital gaúcha contra inundações, ter sido sucateado pelas últimas gestões da prefeitura de Porto Alegre. Segundo especialistas, a cidade não teria inundado se o sistema tivesse a manutenção e manejo adequados.

Para piorar o cenário, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, só decretou o racionamento de água depois que 85% da cidade já estava sem acesso à água potável. E a população de alguns bairros só foi avisada do desligamento das bombas que evitavam a inundação de suas casas depois delas terem sido desligadas, não lhes dando tempo hábil para evacuação.

CAPITALISMO É O DESASTRE

O modo de produção capitalista é a raiz das mudanças climáticas que ameaçam toda vida na terra. Ao mesmo tempo, as ações de corporações e grandes empresários que acumulam recursos materiais e financeiros fizeram pouco para ajudar nos resgates e aliviar o sofrimento da população. Pelo contrário, tornaram a situação ainda pior.

Os capitalistas fracassaram em manter os supermercados que ainda funcionavam abastecidos, pois ao estarem interessados no lucro das vendas, permitiram que pessoas com maior poder aquisitivo fizessem grandes estoques de água e mantimentos. Ao mesmo tempo, dezenas de lojas foram inundadas com água, alimentos e outros itens essenciais para a população trancados lá dentro sob a proteção de policiais e seguranças armados com fuzis, formando grupos paramilitares para impedir que pessoas famintas tivesse acesso a comida ou outros recursos. As empresas e o Estado se mostraram mais interessados em proteger essa mercadoria, do que deixar as pessoas terem acesso aos itens que mais necessitavam. Mesmo que esses itens fossem depois ser descartados ou indenizados por seguradoras.

Policial civil atira na direção de um suspeito de saquear supermercado em Porto Alegre.

Enquanto pessoas se voluntariavam para resgatar dezenas de milhares de cães, gatos e cavalos de telhados, montavam e organizavam espaços para acolhê-los, com atendimento veterinário e alimentação, empresas que comercializam animais abandonaram peixes, aves e mamíferos em suas gaiolas dentro das lojas inundadas, ao mesmo tempo em que se preocuparam em transferir os computadores para um andar mais elevado. Animais vendidos como objetos e abandonados para morrerem afogados, evidenciando a lógica desse sistema: para capitalistas, a vida é apenas mais uma mercadoria, a ser contabilizada e indenizada.

O pouco apoio que as grandes empresas ofereceram foi irrisório. A Grendene, uma das maiores produtoras de calçados do mundo, sugeriu que suas trabalhadoras doassem itens de suas próprias cestas básicas para pessoas atingidas pela enchente.

A indústria de bebidas Ambev, maior cervejaria do mundo, cujo lucro anual equivale ao dobro do orçamento da cidade de Porto Alegre, envasou água potável em latas de alumínio, constituindo mais uma ação de marketing do que qualquer forma de solidariedade real.

A FIERGS, entidade que representa as indústrias do Rio Grande do Sul pediu auxílio de R$100 bilhões ao governo federal para a recuperação das empresas atingidas pela enchente. Deixando claro que quando empresários falam em Estado mínimo, é apenas quando se trata dos interesses das pessoas menos favorecidas, mas querem um Estado forte para apoiar e defender os interesses da elite.

Defensores do capitalismo louvaram as ações de bilionários e empresários que doaram porções irrisórias de suas fortunas para ajudar as vítimas da enchente. Isso quando as boas ações não eram mentiras completas, como a imagem que mostraria um helicóptero do bilionário Luciano Hang resgatando pessoas ilhadas, que na verdade era uma imagem gerada por inteligência artificial.

Enquanto isso, pessoas comuns, inclusive algumas que perderam tudo, se mostraram muito mais solidárias e dispostas a ajudar, doando proporcionalmente muito mais de seus recursos que os super-ricos. Uma live solidária de uma banda de rock, arrecadou um valor maior do que as doações que o governo dos Estados Unidos e o bilionário egocêntrico Elon Musk enviaram para o Rio Grande do Sul, somados.

Isso pra não mencionar que capitalistas lucraram diretamente com a catástrofe, como os grandes mercados que venderam todos seus estoques de água engarrafada para pessoas desesperadas, muitas vezes a preços abusivos, e ainda tiveram recordes de vendas com a generosidade de pessoas comuns que compravam itens para doar a quem perdeu tudo. E vão continuar lucrando enquanto as pessoas afetadas e aquelas que se solidarizam com elas estiverem lutando para reconstruir o que foi perdido.

APOIO MÚTUO DE BASE

O apoio mútuo e a solidariedade entre pessoas atingidas se mostrou essencial para a sobrevivência e para não deixar a situação se tornar ainda pior. Ainda assim, a prefeitura de Porto Alegre tentou atrapalhar grupos voluntários que organizaram centros de doações em espaços cedidos e os mantiveram funcionando durante semanas, ao fazer acordos com os proprietários dos imóveis para que estes assumissem as operações que até então eram autogeridas pelas voluntárias, que foram então excluídas e criminalizadas. Em outro episódio, dia 20 de maio, a Polícia Militar apreendeu caminhão usado para distribuir comida a pessoas afetadas pelas enchentes. A polícia alegou que o caminhão da Cozinha Solidária da Azenha, ligada ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), estava sem licenciamento, porém não era possível fazer o licenciamento já que o sistemas estavam fora do ar em todo o estado devido aos efeitos das chuvas.

De fato, na grande maioria dos bairros, o auxílio às pessoas afetadas pela enchente ficou a cargo da própria comunidade e outros grupos voluntários que se articularam para garantir suprimentos de água, comida, roupas e agasalhos. Esse foi o caso das pessoas encarceradas ilhadas em presídios da região, sem acesso à água, alimento e itens de higiene. Coube às famílias, também afetadas pelas cheias, se organizarem para levar tais itens básicos e, assim, evitar o sofrimento ainda maior de pessoas sequestradas atrás das grades.

Cozinha Solidária da Azenha, organizada pelo MTST em Porto Alegre.

Outro exemplo é do Quilombo dos Machado, no bairro Sarandi, em Porto Alegre, que, com o apoio de outros quilombos urbanos da cidade, organizou essas operações por semanas, sem qualquer suporte do Estado. Como disse Luiz Machado, morador do Quilombo dos Machado, “esse acolhimento que o Estado devia estar fazendo, a comunidade, a gente pela gente mesmo está fazendo”. Quando a comunidade do Quilombo solicitou ajuda ao governador Eduardo Leite, do PSDB, este respondeu que “o Estado e o poder público não tem estrutura para atender todas as pontas”.

A cada declaração, as palavras do governador evidenciam uma versão da necropolítica brasileira e do racismo ambiental, desenhando um sistema voltado para cumprir demandas econômicas dos ricos, garantir lucros e votos em vez de destinar recursos para estruturas que podem salvar vidas – especialmente se for o caso de populações pobres, negras e indígenas, como é o caso dos grupos mais atingidos pelas atuais enchentes. Ressaltamos que não se trata de inação ou falha do Estado. Essas situações são partes do projeto de extermínio em curso.

Chamado para doações para ocupações anárquicas e autônomas atingidas pelas enchentes em Porto Alegre.

DEPOIS DA CATÁSTROFE: AÇÃO DIRETA

Os governos municipais e estaduais pretendem construir cidades temporárias para as dezenas de milhares de pessoas desabrigadas, até que os bairros onde moravam sejam reconstruídos ou novas habitações sejam construídas em outros locais. No entanto, a construção de moradias temporárias são desnecessárias e apenas desperdiçarão materiais e energia. Só em Porto Alegre existe mais de 100 mil residências vazias. No centro da cidade, 30% das habitações estão desocupadas. Um número 10 vezes maior do que o número de lares temporários planejados na cidade. Esse plano nada mais é do que mais uma forma de gerar lucro para as empreiteiras e para políticos alavancarem sua popularidade através de medidas populistas e ineficazes, que não atacam as raízes do sofrimento e da desigualdade. Pior do que isso, é uma tentativa de deslocar a população pobre e negra para longe de áreas cobiçadas pelo Estado e por empreiteiras, abrindo caminho para a apropriação de seus antigos lares por construtoras e seus projetos predatórios.

Como resposta ao problema da falta de moradia, novas ocupações de prédios estão surgindo. Um movimento autônomo de pessoas desabrigadas ocupou um antigo hotel abandonado no centro de Porto Alegre para acolher 45 famílias. O Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLN) ocupou também outro prédio, agora chamado de Ocupação Rexistência, dedicado a abrigar dezenas de famílias de pessoas atingidas pela atual crise. Membros do movimento alegam que não querem a construção de uma “cidade provisória” para famílias afetadas, e sim que os imóveis vazios sejam destinados imediatamente para a moradia. No dia 8 de junho, o MTST ocupou um prédio abandonado de 25 andares do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), também em Porto Alegre, para abrigar famílias desabrigadas pelas enchentes. Provando mais uma vez que os movimentos sociais e a ação direta estão sendo muito mais eficientes do que os governantes para abrigar as 160 mil pessoas que perderam suas casas.

Ocupação Maria da Conceição Tavares, surgida em junho, em Porto Alegre para abrigar vítimas das enchentes.

Para políticos e empresários, a reconstrução da cidade é uma oportunidade de lucrar. Serão necessárias quantidades gigantescas de materiais para reconstruir a infraestrutura e as casas destruídas pela água. E capitalistas vão lucrar produzindo e vendendo esses materiais. Empresas serão contratadas através de licitações feitas às pressas. E, como em toda ação do Estado aliado ao Capitalismo, haverá atrasos, corrupção, superfaturamento, desvio de verbas, favorecimentos.

Não vamos nos iludir, pois nem mesmo os supostos governos de esquerda, como o governo federal do PT, têm coragem e poder para atacar de frente o capitalismo e sua turba de defensores reacionários. Não importa qual partido estava ou estará no governo, da centro-esquerda democrática do PT até a extrema-direita lunática de Bolsonaro, o Estado brasileiro está intrinsecamente conectado ao capitalismo, ao enriquecimento de uma elite, barganhando o futuro da vida no planeta em troca de governabilidade.

CONCLUSÃO: NÃO EXISTE CATÁSTROFE NATURAL

A tragédia que devastou o território ocupado pelo estado do Rio Grande do Sul não foi simplesmente uma catástrofe natural inevitável. É mais um em uma série de eventos climáticos extremos que estão acontecendo com frequência e intensidade cada vez maior como resultado de décadas de destruição e exploração do planeta, ignorando alertas de cientistas e reprimindo a autodeterminação e resistência de movimentos sociais e povos tradicionais, em nome do crescimento econômico. Um sistema brutal onde Estado e capitalismo se unem para saquear a terra e explorar nossos corpos, ao mesmo tempo em que sabotam medidas que podem diminuir ou evitar os impactos desses eventos na vida da população.

Sentimos localmente as consequências de um problema global. O mesmo sistema que causa inundações no Rio Grande do Sul causa incêndios no Pantanal e na Amazônia, promove genocídio em Gaza para controlar reservas de gás natural e oprime estudantes que se levantam contra esse massacre; contamina a água, viola territórios indígenas e afunda bairros inteiros para arrancar da terra minérios cobiçados, destrói florestas, oceanos, montanhas e desertos para garantir lucro a um punhado de pessoas privilegiadas, enquanto condena bilhões ao sofrimento e à miséria.

Se por um lado o Estado e o capitalismo mostraram mais uma vez que sua prioridade não é o bem-estar da população ou a vida de modo geral, por outro pudemos perceber que a solidariedade brota espontaneamente e somos capazes de nos apoiar mutuamente, suplantando até sérias diferenças ideológicas.

Milhares de pessoas tomaram a frente e organizaram resgates, com seus próprios recursos, arriscando suas próprias vidas para salvar a de outras pessoas, humanas ou não. A criação de abrigos e pontos de apoio como centros de distribuição de doações e cozinhas solidárias e emergenciais, que produzem diariamente milhares de marmitas para as pessoas desabrigadas, transportadas por motoristas voluntárias. Tudo mantido por uma rede massiva de solidariedade, que se estendeu para fora das regiões afetadas pelo desastre, se alastrando por todo território ocupado pelo Estado Brasileiro, e outros países.

Quando o desastre se instaurou, a meritocracia e o individualismo foram rapidamente deixados de lado pela maior parte da população, que dedicou seu tempo a ajudar outras pessoas sem se perguntar se elas mereciam aquela ajuda e sem esperar qualquer recompensa por isso. Pessoas que pagaram do seu próprio bolso para garantir que outras pessoas tivessem o que vestir e o que comer, compartilhando recursos materiais sem exigir uma troca financeira. Foram essas pessoas que colocaram suas vidas em risco para garantir a sobrevivência de outras. No meio da catástrofe, muitas as tiveram a chance de perceber que estamos todas juntas nisso e que dinheiro é de pouca ajuda quando não há mais água para vender no mercado.

O Estado e o mercado farão o que estiver ao seu alcance para assumir e centralizar as ações de solidariedade auto-organizadas. Seja tomando à força o controle das operações, requisitando os imóveis utilizados para retomada de aulas ou dos trabalhos, coagindo as pessoas a voltarem aos seus empregos ou formalizando e institucionalizando as organizações que permanecerem. Nossa auto-organização e nossa solidariedade irrestrita são uma ameaça real ao governo e ao capitalismo, pois eles dependem da nossa desunião, da nossa indiferença e inação frente ao sofrimento das outras pessoas.

Para evitar que capitalistas usem essa e as próximas catástrofes para avançar seus projetos destrutivos precisamos continuar nos mobilizando e nos coordenando. Cabe a nós nos organizarmos para tomar e ocupar imóveis ociosos e abandonados e garantir que sejam usados para benefício de nossas comunidades. Certificar-nos que prédios de igrejas sejam usados para apoiar pessoas em necessidade e não para espalhar ódio e intolerância. Lutar para que ninguém lucre com a tragédia, para que os recursos sejam distribuídos a quem precisa. Se precisamos reconstruir nossas vidas e nossas cidades, vamos ter certeza de construir algo melhor, mais justo.

Se o que se chama de humanidade tem futuro, esse futuro será coletivo. Ou, simplesmente, não será.


Entrevista com membros do Território Okupado dos Mil Povos

A Okupa dos Mil Povos é uma ocupação com quase 20 anos de história em Porto Alegre. Localizada em um dos bairros mais afetados pela enchente, o território ficou submerso por 24 dias. Dentre os habitantes, estão crianças, cães e gatos que ainda sofrem com os efeitos da água, da lama, dos óleos e produtos químicos que restaram depois das enchentes. Além dos efeitos causados pelos produtos para limpeza pesada necessários para reativar e retomar o espaço. Nessa breve entrevista, conversamos com participantes da ocupação sobre os desafios e os trabalhos de solidariedade e captação de recursos para recuperar o espaço e retomar a vida após a tragédia, agora que, mais do que nunca, catástrofes climáticas não são mais uma ameaça futura, mas parte do presente de todos que sobrevivem ao capitalismo.

1. Fale um pouco da Okupa dos Mil Povos, sua atuação nos últimos anos e como as enchentes de maio afetaram os espaço, a vida e as atividades no espaço.

O Território Okupado dos Mil Povos nasce como um coletivo autônomo no começo do ano de 2021. Este coletivo anárquico, composto por várias pessoas vindas de diferentes partes do mundo, surge dentro de uma okupa surgida em 2005 quando expropriou o capitalismo e a especulação imobiliária para construir uma alternativa real à vida inerte do neoliberalismo imperante. Nestes poucos anos de vida como coletivo deu rédea solta ao acúmulo de conhecimentos que o Movimento Anarkopunk construiu durante décadas, seguindo também a herança rebelde e combativa de muitas gerações de anarquistas que deram suas vidas para construir o presente de luta que hoje levamos a cabo com autogestão e ação direta. Temos sido parte ativa da Teia dos Povos em luta do Rio Grande do Sul, criando e mantendo uma banca de difusão de material teórico e gráfico por 2 anos, aproximando as pessoas das ideias de autonomia da Teia que se expande por todo o Brasil.

Construímos junto com aldeias indígenas e quilombolas a 5ª Assembleia dos povos (2022), realizamos também jornadas de saúde com indígenas Warao que imigraram desde a Venezuela, autofinanciamos com rifas e vendas de camisetas serigrafadas a casa de cura e reza para a comunidade Kaingang na retomada em Canela, na Serra Gaúcha, bem como muitas jornadas de construção, hortas, muralismo (2022), conversas e discussões. Fomos parte de um coletivo de propaganda e muralismo que se reunia no Ateneu Batalha da Várzea (2021, 2022). Neste Ateneu nosso coletivo realizou em 2022 uma jornada de difusão sobre os conflitos na América Latina que chamamos de “latinoamérica em chamas”, onde tivemos participações desde a Colômbia, Equador e Chile.

Realizamos chamados abertos de manifestações de rua, denunciando a perseguição e desaparecimento de indígenas Yanomami (2022) e em apoio ao povo colombiano em 2021. Visitamos, acompanhamos e promovemos retomadas de territórios ancestrais ao lado de povos indígenas Kaingang, Xokleng e Guarani. Escrevemos pelos muros da cidade de Porto Alegre mil vezes, de dia e de noite, em manifestações ou na escuridão da noite.

As inundações de maio somente confirmam e reafirmam que a luta contra o capitalismo e os Estados de todo o mundo é cada dia mais imprescindível e vital. Nossa casa, junto com o espaço comunitário, ficou debaixo d’água, debaixo do barro, dos químicos e óleos contaminantes por mais de 20 dias. Seguiremos limpando e continuaremos construindo autonomia e rebeldia popular anárquica, sem líderes nem partidos, até destruir o último pilar da sociedade carcerária.

Território Okupado dos Mil Povos

2. Como tem sido organizadas as ações de apoio mútuo agora, um mês após as enchentes?

Agora, após o primeiro mês desde a inundação, já não sobra mais doação que não seja institucionalizada ou burocratizada com registros sociais e persoais. Neste contexto, para nós é muito difícil recuperar algo desde essas plataformas. Nossas únicas entradas de dinheiro, por assim dizer, são de companheirxs solidárixs e de pessoas conhecidas que sabem de nossa situação e nos ajudam com alguma coisa. Seguimos muito necessitadxs de coisas básicas como camas, uma cozinha e uma geladeira. São coisas que não temos acesso por falta de recursos econômicos, com nossos trabalhos não conseguimos cubrir os gastos de coisas como essas. No começo chegaram todas as ajudas e, apesar de não ter sido suficiente frente a tudo o que perdemos, ficamos muito felizes de sentir e ver o apoio mútuo de pessoas, em especial dos meios anárquicos, que é onde mais se vê a solidariedade em um momento de perdas como este. Também vemos uma constância na geração e acumulação de dados por parte da maioria das ONGs e instituições de entrega.

3. Quais ocupações foram afetadas e como tem sido a colaboração entre centros sociais radicais, ocupações e outros movimentos para se reerguer?

Em Porto Alegre existem várias okupações, todas muito diferentes umas das outras, de tendências de esquerda e outras também anarquistas, de dissidências de gênero etc. Desde nossa experiência enquanto casa, creio que o apoio entre esses centros tem sido quase nulo, é triste, mas real. Existe um centro social não okupado que fez uma ponte entre esses espaços anarquistas, o coletivo “Esp(A)ço” fez uma campanha grande onde conseguiram comprar algumas ferramentas coletivas que, em certo sentido, foi a ponte para o mínimo de diálogo e comunicação. É importante assinalar que as relações de afinidade pessoal também levam e trazem esse fluxo de comunicação que não é tão visível, mas existe. No final das contas, todxs sabemos como estão xs companeirxs de outros espaços por esse boca-a-boca que desde as sombras se comunica. Outros canais de entrega de doações normalmente são muito limitados e precários, além de burocráticos. Em geral nós recebemos pouca coisa e nos dedicamos a contribuir com outros espaços de resistência, apesar de não sermos tão próximxs em relação ao pensamento e a ação. Vemos a urgência da necessidade de coordenação mínima de espaços anárquicos e também na construção de instâncias colectivas meramente ácratas.

4. Como pessoas de fora do Rio Grande do Sul e também de fora do Brasil podem ajudar o trabalho de reconstrução e retomada das atividades nas ocupações em Porto Alegre e região?

Para responder a última pergunta, gostaríamos de dizer que vemos a solidariedade ácrata desde vários pontos de vista. O primeiro é o material, sem dúvida, muitas vezes é urgente para o cotidiano e a subsistência. Nesse sentido, ainda temos canais abertos para receber apoios desde qualquer parte do planeta. Acreditamos que a solidariedade combativa é muito importante. Seguir fortalecendo a luta frontal contra todas as estruturas de poder também faz parte da ferramenta chamada solidariedade. Outra dimensão importante que vemos é a comunicação para além do Instagram ou Facebook. A conversa direta é importante para aproximarmos as diferentes realidades e gerar afinidades futuras. Para terminar, agradecemos a todxs que ainda acreditam que a anarquia é possível, que construí-la é uma tarefa cotidiana e que se esforçam para viver cada dia mais concretamente suas ideias de liberdade!!!

Abrazos para todxs!!!

Desde el territorio okupado de los mil pueblos,
8 de junio 2024, Porto Alegre
Individualidades organizadas y colectivo anárquico de los mil pueblos


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BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 10 anos de uma das ações radicais mais emblemáticas de 2013 https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/10/30/black-blocs-libertacao-animal-10-anos/ Mon, 30 Oct 2023 23:14:33 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3324 Continuar a ler "BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 10 anos de uma das ações radicais mais emblemáticas de 2013"

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Exatamente 10 anos atrás, em outubro de 2013, um protesto contra o uso de animais em testes realizados em um laboratório no interior do estado de São Paulo se transformou em uma das mais emblemáticas ações diretas daquele ano que mudou o cenário político e os movimentos sociais no Brasil. O evento por si só já chama a atenção pelo tamanho, pela eficiência das diferentes ações e pelo sucesso alcançado, ainda mais no contexto brasileiro, pouco familiarizado com ações radicais pela libertação animal aliada a uma perspectiva anticapitalista.

Acreditamos ser importante revisitar tais acontecimentos para aprender com suas limitações e desenvolver seus acertos no que diz respeito a diversidade de táticas, coordenação de diferentes movimentos, radicalidade e contundência da ação que pode inspirar outros grupos e novas campanhas. Para isso, revisitamos essa breve análise e entrevistas feitas logo nas semanas seguintes com duas participantes das linhas de frente dessas ações.

A ação em São Roque: bons exemplos mas não um modelo pronto

Após dias acorrentadas nos portões do Instituto Royal, na cidade de São Roque, denunciando o uso e o assassinato de animais com técnicas como a vivissecção (cortar animais ainda vivos e sem anestesia para experimentações), ativistas atraíram a atenção da mídia e de outras organizações para a causa. E na madrugada do dia 18 daquele mês a manifestação se tornou uma ação de resgate dos animais que libertou quase 200 cães da raça beagle e dezenas de ratos. Toda a ação foi fotografa e filmadas pelas participantes.

Do lado de fora do laboratório, a estrada foi tomada por barricadas logo pela manhã. Uma viatura da polícia militar e um carro da imprensa foram queimados por manifestantes. Algumas pessoas menos acostumadas com a dinâmica de resistência em protestos de rua ainda tentaram formar uma barreira para proteger os carros de emissoras de TV da destruição, mas não adiantou. Do lado de dentro, jaulas foram esvaziadas, computadores, documentos e materiais de pesquisa foram destruídos. Paredes pixadas por símbolos da Frente de Libertação Animal (ALF) e ruas tomadas por Black Blocs que montaram barricadas para impedir que a tropa de choque chegasse ao laboratório e prendesse manifestantes.

Carro de emissora de TV depredada e viatura da Polícia Militar incendiada na estrada em frente ao laboratório.

Para muitas pessoas ali, era como se enfim chegasse o dia que toda uma geração de movimentos pela libertação animal, anticapitalistas e anarquistas sonharam e trabalharam para ver. Era o momento em que táticas radicais se encontram, convergem permitindo que movimentos distintos, com táticas distintas, operassem em conjunto para uma ação efetiva. Foi possível atingir tanto seu objetivo imediato (resgatar os animais e impor consequências ao laboratório pelo uso e tortura dos mesmos), quanto objetivos de médio e longo prazo (o fechar o laboratório e a educar a opinão pública sobre o tema). A ação chamou a atenção do público geral e tomou as notícias em todo o país, provocando uma mudança inédita no imaginário das pessoas sobre o que é possível fazer em uma ação direta pelos animais e educando as pessoas sobre o quão perverso e inútil são os testes em animais e o uso dos animais para qualquer fim. Tudo isso devido a uma janela de possibilidades aberta nas ruas em junho de 2013 nos grandes levantes contra o aumento das passagens no transporte público.

A invasão do Instituto Royal é um exemplo emblemático mas que também desperta curiosidade e demanda reflexão. Como nas ruas tomadas na luta contra o aumento em todo o país em junho daquele ano, a batalha em São Roque contou com a presença de uma grande diversidade de pessoas. Diferentes idades, posições políticas, classes sociais e também diferentes táticas e modos de luta e organização: ativistas que defendem o “bem estar animal” (ou que focam sua ação apenas em cães e gatos) estavam lado a lado com grupos veganos anticapitalistas. Personalidades da TV ou manifestantes de classe média que defendem a causa animal protegidas atrás de barricadas feitas por Black Blocs anarquistas. Um mosaico de inúmeras formas e contextos de luta se aliaram com um objetivo comum. A articulação prévia de longos dias foi organizada por um número reduzido de pessoas e catalisou a luta que surgiu de forma espontânea para centenas de pessoas que aderiram ao movimento imediatamente após um chamado aberto para a ação direta. Uma estratégia improvisada e repentina se tornou a principal arma contra uma polícia despreparada e incapaz de prever os movimentos de pessoas determinadas a agir.

Animais foram resgatados, o laboratório declarou falência e o impacto nas leis e na opinião pública foi maior do que todo o ativismo estritamente legalista ou outros protestos simbólicos contra a empresa durante os cinco anos anteriores: até o início de 2014, novas leis que regulam e restringem o uso de animais em testes foram aprovadas, incluindo a proibição desse tipo de teste para cosméticos em todo o país. O que nos prova que mesmo quando as pessoas querem apenas reformas, novas leis ou o fim de uma instituição opressiva, é melhor demonstrar força popular para realizar essas mudanças por nossas própria ações do que pedir pacificamente e esperar a boa vontade de poderosos. Se nos mostrarmos irredutíveis e com disposição para ação, as autoridades vão correr para nos atender antes que consigamos algo por nossa conta. Nesse momento é que os movimentos devem buscar ainda mais força para dobrar as autoridades.

Manifestantes rompendo as barreiras policiais e ativistas resgatando cães dentro das dependências do Instituto Royal.

A invasão ao Instituto Royal serve com um exemplo de sucesso obtido quando a organização de longo prazo encontra a imprevisibilidade de ações imediatas, inovadoras e capazes de mudar de táticas para encontrar uma brecha no sistema, antes que a repressão policial seja capaz de reagir à altura. Questionando o discurso tradicional das lutas sociais legalistas, vimos que a diversidade de táticas e de formas de organização, quando aliadas, podem ser a chave para vitórias que tornam possível o que era até mesmo impensável.

Ainda assim, o episódio é um bom exemplo e não um modelo ou receita a serem seguidos metodicamente. Mais do que buscar repetir suas táticas e etapas de ação, é preciso entender e assimilar as posturas que permitiram o sucesso da ação. Mesmo conflituosa e divergente para muitas pessoas que participaram, a ação mostra que uma diversidade de táticas e frentes de luta diferentes pode ser muito mais eficientes, tanto a curto quanto a longo prazo. Diferentes níveis de luta, como ação direta e confronto com forças de repressão, mídia independente e autônoma, comissões legais e porta-vozes, ajudam a distribuir a legitimidade dos movimentos e torna difícil a tentativa do Estado de isolar e silenciar “minorias infiltradas” ou “grupos radicais” do resto da luta. Essa harmonia e cumplicidade entre formas diferentes de ação se mostrou muito efetiva para libertar os animais, impor danos ao laboratório e não dividir o movimento entre “legítimos” e “ilegítimos”, “legais” ou “ilegais”, impedindo que as autoridade encontrassem divisões fáceis entre participantes que permitisse isolar e prender quem realizou ações ilegais de invasão, dado a propriedade.

O sucesso imediato e a continuidade do debate sobre o uso de animais como objetos e sua condição de propriedade em um sistema capitalista conseguem ir para além do reformismo bem-estarista (que visa apenas regular o uso de animais) e desafia o moralismo burguês dos movimentos abolicionistas (que lutam para que nenhum animal seja considerado propriedade) que se baseiam, muitas vezes, em princípios pacifistas como valores absolutos.

Black Blocs formando um cordão de proteção para bloquear o avanço da polícia em direção ao laboratório.

É necessário sempre repensar táticas, ser capaz de inovar e sempre fazer uma autocrítica. Não há problema na radicalização das ações antiautoritárias e de libertação. O problema não é atacar ferozmente o sistema, mas sim não continuar atacando. Somente a radicalização aliada ao debate sobre uma diversidade de táticas e discursos pode impedir que a legitimidade das lutas seja determinada pela mídia, pelo Estado ou por ativistas privilegiados – empresários, apresentadoras de TV e políticos – que buscam sequestrar lutas sociais organizadas por pessoas anônimas ou invisibilizadas como forma de acumular ainda mais poder e privilégios.

Para compreender um pouco mais de como foi a luta por trás das barricadas e por baixo das máscaras, publicamos aqui dois relatos escritos por pessoas que estiveram na invasão do laboratório. Elas contam como foram esses momentos de luta e descrevem sua importância para ações futuras. É preciso mais debates e, principalmente, mais ações que desafiam as leis e as “receitas de bolo” revolucionárias.

Por uma luta de libertação animal e humana total, radical e anticapitalista!

Primeiro Relato:

Em meio ao instável cenário político que veio após os protestos de junho de 2013, ativistas pelos direitos animais começaram uma campanha para fechar o Instituto Royal, um laboratório localizado no interior do estado de São Paulo conhecido pelos testes em animais e pelas práticas de vivissecção.

Após alguns dias atraindo atenção para o assunto e para esse estabelecimento em particular, a noite que mudaria como a mídia, a população e até legisladores encaram a vivissecção estava por vir. E sua história seria escrita através da ação direta. Naquela noite, em especial, as pessoas se reuniam em frente ao portão do laboratório atraídas pelas notícias que circulavam nas mídias sociais. No momento que cheguei àquela área rural cortada por estradas de terra e algumas poucas casas, a polícia estava guardando os portões e podíamos ver funcionários e seguranças privados andando dentro do prédio. Caminhões entravam e saíam, aparentemente, levando documentos e animais por medo de uma invasão. Mas essa não era uma ação da Frente de Libertação Animal (ALF). Pessoas de todos os tipos estavam presentes. Algumas só se importavam com os beagles, outras com apenas cães e gatos em geral, outras eram ativistas dos direitos animais. Black Blocs também estavam lá e até apresentadoras de TV que apoiam causas animais chegaram pois a mídia começou a divulgar que uma invasão estaria para acontecer. O que fez com que a mídia burguesa aparecesse e também mais pessoas em geral.

A polícia logo ficou em menor número e claramente incapaz de lidar com o fenômeno que tomava forma ali. É importante lembrar que São Roque fica a uma hora de qualquer cidade maior. Em poucas horas éramos muitas à postos naquela estrada sem saída cercada de mato. A estrada termina em um portão com uma largura que cabe 15 pessoas enfileiradas. De repente não parecia mais ser uma barreira e a polícia já demonstrava não estar preparada para a situação. O que pode dizer que eles poderiam reagir de forma desproporcional, mas como não se tratava do batalhão de choque, era mais provável que iriam apenas recuar. Especialmente devido à diversidade da multidão composta por senhoras de cinquenta ou sessenta anos junto a estudantes e pessoas vestidas como um Black Bloc.

Por volta da meia noite os carros do laboratório não conseguiam mais sair pelo portão e os latidos dos cães nos lembrava que as pessoas do lado de fora não eram as únicas apreensivas. Redes sociais funcionavam fortalecendo centenas de nós que estavam ali. Às duas da manhã, no dia 18 de outubro, ficou óbvio que haveria uma invasão. Bastou alguém tomar a iniciativa de começar a bater no cadeado do portão com uma pedra para que todo mundo ver que estava na hora. O portão já estava sendo derrubado enquanto gente cortava as cercas e a multidão pressionava em todas as possíveis entradas.

Entramos! Uma pequena estrada leva ao prédio principal, com mais portas a serem quebradas e arrombadas. A polícia só conseguia olhar e a mídia estava lá dentro também com as câmeras ligadas. A maioria das pessoas usava máscaras como em um resgate aberto. Algumas de nós, que temiam o que podia acontecer depois, tínhamos o cuidado de cobrir nossos rostos.

Um por um, quase 200 beagles foram transportados no colo subindo o morro até onde, há poucos minutos, havia um portão onde outras ativistas esperavam com seus carros – praticamente todo mundo chegou lá de carro porque não havia outro meio de transporte para o local a essa hora da noite. Quem libertava os cães de suas jaulas não sabia para onde eles estavam sendo levados. O que importava era que estavam sendo libertos da exploração. Isso foi útil quando ativistas que estavam lá dentro sob o foco das câmeras começaram a ser identificados e sofrer acusações por roubar “propriedade privada”. Como argumentamos, as chamadas “propriedades” nunca foram tomadas como posse daquelas pessoas que os tiraram de lá.

Um grupo de advogados voluntários se formou para defender quem era identificado e uma rede clandestina de veterinárias se dispuseram a remover chips que poderiam identificar animais adotados. Curiosamente, um deputado que atua na área de bem estar animal também estava presente durante o resgate, atraído pela presença da mídia e pela multidão de ativistas. Ele adotou dois beagles que passaram a morar em sua casa e poucos dias depois a mídia estava lá para filmar os cães e contar sua história. Em seu benefício, a lei brasileira diz que um membro do congresso não pode ser acusado desse tpo de crime enquanto exerce seu mandato. Para pessoas menos privilegiadas, podíamos apenas ter a companhia de alguns beagles que sofreram abusos, com sinais de mutilação e traumas psicológicos que às vezes são difíceis de notar.

A invasão foi realmente uma cena caótica, sem planejamento prévio, nenhuma direção e, provavelmente, não é um modelo a ser repetido. Sua espontaneidade foi a mágica que fez com que tudo fosse possível. Sua diversidade foi um fator que fez os números de participantes possíveis e a repressão impossível. A compaixão de todo mundo presente foi a força que ampliou seu significado para além dos indivíduos salvos.

Poucas semanas depois, após extensiva e persistente cobertura da mídia sobre o assunto, leis começaram a ser propostas na cidade, no estado e no país. A prefeitura mandou trancar o laboratório e manifestantes mantiveram a pressão até que o Instituto Royal anunciou seu fechamento no dia seis de novembro. Ainda assim, eles recusavam a liberar os animais que ainda estavam lá durante o primeiro resgate. Então uma nova e legítima ação da ALF realizada no dia 13 de novembro por uma pequena célula resgatou os 300 ratos que ainda estavam lá e nenhum animal esteve presente para testemunhar os últimos momentos do Instituto Royal.

Interior do laboratório atacado durante a madrugada.

“Tendo em vista as elevadas e irreparáveis perdas e os danos sofridos em decorrência da invasão realizada no último dia 18 – com a perda de quase todo o plantel de animais e de aproximadamente uma década de pesquisas -, bem como a persistente instabilidade e a crise de segurança que colocam em risco permanente a integridade física e moral de seus colaboradores, os associados concluíram que está irremediavelmente comprometida a atuação do Instituto Royal para dar continuidade à realização pesquisa científica e testes mediante utilização de animais. Por este motivo, o Instituto decidiu encerrar suas atividades na unidade de São Roque”

–Declaração do Instituto Royal em 06/11/2013 sobre seu fechamento.

Vídeo da segunda invasão ao Instituto Royal para resgatar ratos que ainda estavam presos.

Segundo Relato:

Nós fomos de carro de São Paulo a São Roque em três pessoas no segundo dia de manifestação. Ativistas que retiraram os cães ficaram a noite toda lá e, no dia seguinte, iriam retirar os roedores que restaram. Eu cheguei em São Paulo pela manhã e nós chegamos no instituto no começo da tarde, a Rodovia Raposo Tavares já estava interditada pela Polícia Militar muito antes. Chegando lá havia muito tumulto e uma divisão bem clara: de um lado, ativistas pacifistas pelos cães com faixas e dizeres cristãos, se recusando a cobrir o rosto e mantendo distância do conflito com a Tropa de Choque. Do outro, pessoas de máscaras e bandanas iam de encontro a linha policial. A polícia parecia estar evitando o conflito e focando na porta do instituto, que já estava fortemente protegida pela PM para evitar a segunda entrada dos militantes. Uma viatura foi incendiada e logo após outro carro de uma emissora de TV também estava em chamas. A polícia interviu muito após isso para tentar dispersar a manifestação e me juntei a um grupo que se formou para tentar entrar no instituto através da mata em volta. Pulamos uma cerca e tentamos dar a volta para entrar pela parte de trás onde não havia policia, mas havia helicópteros sobrevoando o local e nos escondemos em uma casa abandonada. De lá chegamos perto dos limites do instituto para encontrar com uma segurança privada, sem identificação e portando de armas de fogo.

A PM percebeu a tentativa de entrar por trás e começou a perseguir alguns manifestantes dentro da mata. O grupo inicial havia se dividido em vários por não concordar em como entrar no instituto. Havia ainda ativistas que se recusam a cobrir o rosto por insistir em que resgatar animais não consistia em crime. E foi esse o sentimento que persistiu do começo ao fim.

Considerando que as pessoas que organizaram a manifestação inicial são pacifistas e cristãs, houve muita desorganização por conta desse racha ideológico. As pessoas pacifistas colocaram muito em risco a identidade e segurança de quem se dispôs a entrar no instituto e enfrentar a polícia.

Por fim, encurralados, saímos da mata muito longe do instituto e fomos cercadas por bombas de gás. A manifestação foi se dispersando no fim da tarde e só nos restou o plano de voltar em outra ocasião.

Havia pessoas de várias partes do país. Todas as placas, cercas, carros e estruturas no perímetro do instituto foram destruídas. Em comparação a junho de 2013, houve muito mais organização, disposição em se arriscar e união. Todos presentes nas ações radicais sabiam claramente qual era o objeto e que tal objeto era extremamente legítimo. Motivadas de maneira quase emotiva, as pessoas viram claramente que aquilo era apenas o começo e que a PM não era capaz de frustrar nossas tentativas, tamanha a presença e vontade de muitas pessoas dispostas a libertar aqueles animais por quaisquer meios necessários. Esse evento inspirou o resgate das chinchilas em Itapecirica e outras ações. E independente de rachas ideológicos, foi possível conciliar a disposição dos Black Blocs em se arriscar com a força legalista para fechar o instituto Royal permanentemente e proteger as pessoas que tiveram suas identidades expostas.

Um acontecimento sem precedentes no Brasil e uma semente que, acredito eu, ainda vá germinar em forma de um Frente pela Libertação Animal concreta.


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BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 10 anos de uma das ações radicais mais emblemáticas de 2013 ©, .

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A REVOLTA POPULAR NO PERU – Anarquistas Discutem a Revolta Contra a Violência Policial e o Estado de Emergência https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/02/23/a-revolta-popular-no-peru/ Thu, 23 Feb 2023 15:28:05 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3138 Continuar a ler "A REVOLTA POPULAR NO PERU – Anarquistas Discutem a Revolta Contra a Violência Policial e o Estado de Emergência"

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Em dezembro de 2022, uma onda de protestos populares liderados por camponeses e os movimentos indígenas varreram o Peru depois que o ex-presidente Pedro Castillo sofreu impeachment após uma tentativa fracassada de dissolver o legislativo e sua vice-presidente, a conservadora Dina Boluarte, assumiu o governo. Em 14 de dezembro, o ministro da Defesa, Alberto Otárola, decretou estado de emergência, suspendendo a liberdade de reunião, a liberdade de ir e vir, a inviolabilidade do lar e outros direitos. No entanto, os protestos só aumentaram de intensidade. Em 18 de janeiro, movimentos populares do sul do Peru marcharam até a capital em uma mobilização conhecida como “Tomada de Lima”. Estudantes e sindicatos os receberam, juntando-se aos protestos para exigir novas eleições para a presidência e o legislativo. Em resposta, a polícia matou mais de 60 pessoas e feriu milhares. Para uma visão direta desses acontecimentos, conversamos com anarquistas peruanos, na esperança de obter uma perspectiva sobre os aspectos desse movimento que ultrapassam a política de estado.


O Peru tem uma longa história de golpes de estado no poder e violência estatal e paramilitar no campo. Após uma crise envolvendo a falta da última página de um contrato entre o governo peruano e a Companhia Internacional de Petróleo, o general Juan Velasco Alvarado derrubou o presidente eleito Fernando Belaúnde Terry em 1968. A partir da década de 1980, o grupo armado maoísta Sendero Luminoso conduziu uma guerra de guerrilha no campo que ceifou dezenas de milhares de vidas. O presidente Alberto Fujimori dissolveu o Congresso em 1992 para obter o poder absoluto, que manteve por meio de uma vasta rede de atividades secretas coordenadas pelo chefe do serviço de inteligência do Peru, Vladimiro Montesinos – até ser derrubado em 2000 após uma eleição fraudulenta. Em novembro de 2020, protestos generalizados forçaram o presidente interino Manuel Merino a renunciar após apenas cinco dias no cargo.

Mais recentemente, o vizinho Equador viu revoltas em 2019 e 2022, nas quais grupos de base ligados à Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) desempenharam um papel central na resistência às medidas de austeridade impostas pelo Estado. Algo semelhante ocorre hoje no Peru, onde um movimento composto principalmente por camponeses e indígenas interrompeu o funcionamento do capitalismo extrativista, afirmando seus próprios interesses e estruturas organizacionais fora do quadro do poder estatal.

À medida que uma nova série de tentativas de golpe ocorre nas Américas, do 6 de janeiro de 2021 nos Estados Unidos ao 8 de janeiro de 2023 no Brasil, é importante aprender como os movimentos populares podem manter a resistência diante da repressão policial – especialmente movimentos envolvendo os explorados e excluídos.

Conversamos com participantes do Periodico Libertária, publicação anarquista que surgiu como parte da resistência ao regime peruano. Seu objetivo, como eles dizem, é “a libertação total dos Andes e de todo o território dominado pelo estado assassino chamado ‘Peru’”.

Capa da primeira edição do Periodico Libertária, com o slogan “Espalhamos a anarquia quando podem”. O balão diz “Um misantropo que também é filantropo, é um pouco difícil de entender” e a legenda diz “Oxímoro: Protesto dos trabalhadores do IPC em Lima, 29 de junho de 1956”.

Em outros países, são muito escassas as informações que recebemos sobre a revolta que ocorre neste momento nas ruas peruanas. A mídia noticia de forma superficial que há manifestações e greves, com repressão policial que já matou dezenas de pessoas e feriu milhares. Ainda assim, pouco se discute sobre o contexto e quando se fala, mantém-se o binário: apoio a Pedro Castillo, presidente que tentou dissolver o Congresso e aplicar um golpe, ou a destituição de Dina Boluarte, sua vice que assumiu o cargo depois do Impeachment do presidente, e também a demanda popular pela realização de uma nova eleição. Mas sabemos que as revoltas estão sempre para além dessas simplificações e, por isso, é preciso entender o contexto e as lutas recentes nos territórios onde as insurreições acontecem. Sendo assim, gostaríamos que você escrevesse uma história de uma perspectiva anarquista sobre o que está acontecendo lá no momento e quais são as possíveis conexões com outras insurreições que ocorreram na chamada América Latina?

Normalmente, os meios de comunicação de massa cobrem os protestos no exterior como algo isolado e localizado, mesmo que o que está acontecendo esteja a apenas alguns quilômetros de distância. Nos meios de “comunicação” existe o receio de expor problemas estruturais e analisá-los em profundidade. Sabe-se que no Peru vivemos um processo antiautoritário que poderia ocorrer em qualquer país latino-americano, especialmente considerando a coincidência e a origem dos problemas – racismo estrutural, pobreza extrema, corrupção institucionalizada e uma violenta democracia neoliberal.

Nesse caso, a repressão do atual governo tem sido caracterizada pelo racismo desenfreado. Houve massacres em cidades dos Andes e do Altiplano [as montanhas e planaltos do Peru]. Obviamente, a desprezível imprensa amarela não tem apresentado uma representação fiel da realidade. Enquanto a militarização continua em várias cidades – como Ica, no litoral, e Puno, no altiplano – o último assassinado em Lima (28/01/23) foi descrito pela mídia como mero delinquente quando sua morte foi transmitida no um canal a cabo no país. Há um constante confronto assimétrico entre as armas do Estado e as lutas dos povos em busca da liberdade.

No que diz respeito às conexões com outros eventos, sem esquecer os problemas específicos deste território e o caráter camponês da revolta peruana, as referências mais próximas são as experiências antiautoritárias de outubro de 2019 da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE). A diferença está na ausência de grandes organizações indígenas, já que a Confederación Campesina del Perú (a Confederação Campesina do Peru fundada em 1947) sofreu o violento assédio do Sendero Luminoso (grupo marxista) e também a perseguição do ditador Alberto Fujimori, resultando em sua atual desintegração. Para compensar esta ausência existem as organizações camponesas de base , tanto provinciais como distritais.

Isso também explica o fracasso da esquerda política em direcionar os protestos para seus interesses. Vimos confrontos abertos com parlamentares nas ruas e até ações diretas contra suas propriedades.

Confrontos em Lima.

Você pode falar sobre a participação dos camponeses e indígenas nas manifestações?

Deve-se afirmar abertamente que os grupos camponeses estão à frente dos levantes neste território. Existem diferentes grupos étnicos no Peru que resistiram à maquinaria colonial (em todas as suas formas) e mantêm uma longa tradição antiautoritária. Nessas circunstâncias, diferentes etnias ou nações se uniram para enfrentar diretamente a açougueiro Dina Boluarte.

Embora alguns dos partidos políticos tenham contribuído para organizar os protestos por meio de suas bases, eles estão tentando se posicionar como vanguarda; isso não é mais sustentável, pois as pessoas não aceitam mais os apelos à não violência vindos desses partidos. É por isso que as pessoas queimaram prédios estatais, incluindo delegacias de polícia.

Por outro lado, essas ações também nascem de uma justa sede de vingança contra a capital Lima, porque dirige toda a maquinaria legal colonialista que, através do extrativismo e outras atividades econômicas, esmaga as populações das províncias, usando a violência do estado e força privada para expulsá-los, prendê-los e até matá-los sempre que se opõem a um projeto – ou simplesmente quando exigem o cumprimento dos termos com os quais concordaram como condições para aceitar um projeto estatal ou privado.

A isto se somam as lembranças do comportamento de muitas pessoas de Lima que alugavam quartos, apartamentos ou casas a gente do interior e que não queriam abater o aluguel (ou baixar o valor ou adiá-lo) durante a primeira fase da pandemia, e ainda começou a expulsá-los de suas casas, causando um êxodo de pessoas dos Andes e da selva de volta aos seus lugares de origem por causa da quarentena. Da mesma forma, algumas pessoas foram expulsas de suas casas “por medo de contágio”, porque a imprensa (irresponsavelmente como sempre) espalhou o medo sobre o COVID-19. Além disso, como eles viajavam em grandes grupos a pé porque o transporte era proibido por medo de contágio – e eles nem podiam usar o próprio transporte – a polícia começou a reprimi-los em todos os postos de controle da estrada. E também, os habitantes de algumas localidades, temendo a exposição ao vírus, também participaram dessa repressão e do fechamento das estradas de seus territórios.

É perigoso generalizar esse ódio a todos que moram em Lima, algo que pouco se tem falado nas redes sociais, talvez porque muitas pessoas já tenham família, amigos ou moradia nas províncias para onde possam ir se essa situação tornar-se mais aguda e as províncias tomam a decisão de bloquear o envio de alimentos para Lima. Lima quase não produz alimentos in natura, apenas alimentos processados ​​– mas sem matéria-prima importada de fora, nem isso seria possível.

É por isso que, há alguns dias, circulou um vídeo da caminhada de Ancón ao centro de Lima (que dizem ser 20 quilômetros) em que uma senhora do Sul agradeceu aos lxs desactivadorxs [os “desativadores”, os grupos que se organizam para neutralizar as armas químicas da polícia] pelo esforço e disseram (embora eu acredite que de brincadeira) que terão um espaço na Grande República do Sul. Parece que essa ideia de dividir o Peru em duas repúblicas, que surgiu durante as eleições presidenciais (primeiro entre a direita, quando viram que grande parte do Sul votaria em Pedro Castillo, e depois nos meios de esquerda, que acredita isso é do interesse de seu governo), ganhou força como resultado dos assassinatos de cidadãos. Isso pode ser aproveitado pelos esquerdistas que – com Evo Morales à frente e o apoio da China por meio de sua Cúpula da CELAC [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos] – aspiram a governar os novos pactos comerciais extrativistas com a China, especialmente do lítio presente na cidade de Puno, no sul do Peru e na fronteira com a Bolívia. Até os Estados Unidos pretendem obter o controle dessa área, por isso apoia o modelo de exportação mineral para aquela região – não só com a presença de seu embaixador, mas também apoiando o governo do Peru e suas forças armadas e policiais, militarmente e taticamente. É por isso que eles enviaram forças militarizadas para Puno.

Diante de várias propostas de “independência” ou de saída para esta crise, é preciso analisar cada uma delas, pois atrás de cada uma há aspirantes a opressores querendo puxar os cordelinhos em benefício próprio. Os irmãos e irmãs no Chile já estão nos alertando sobre os perigos ou a ilusão de uma Assembléia Constituinte, até mesmo do próprio processo. [Para mais contexto, veja nossa cobertura de como o movimento no Chile se perdeu na tentativa de introduzir uma nova constituição por meios institucionais.] A esquerda, com seus partidos políticos e parlamentares, está tentando se fazer passar por aliada desses protestos em um esforço que só pode ser descrito como oportunismo político; em alguns lugares, os manifestantes os expulsaram ou vaiaram. A esquerda tenta fingir que se importa com seus irmãos e irmãs nas províncias, mas eles apenas os veem e os tratam como possíveis votos a seu favor.

Para concluir, foram os camponeses que colocaram seus corpos em risco nesses protestos – que, com suas huaracas feitas à mão, trocaram projéteis com a tombería [tropa de choque], repelindo as covardes forças repressivas do sangrento regime de Dina Boluarte. Eles sabem que é uma questão de vitória ou morte; a democracia nunca resolveu nada para eles, ao contrário daqueles que se venderam a um partido. Essas marchas trouxeram à tona o racismo velado no Peru.

Também nos preocupamos com os recursos para o autocuidado e as possibilidades de voltarem para casa quando tudo passar. Já existe um precedente infeliz desde 2000, quando o povo indígena Shipibo-Konibo foi abandonado e marginalizado após os protestos maciços da “Marcha de los 4 Suyos” contra o ditador Fujimori. [A “Marcha dos Quatro Quartos” em julho de 2000 foi uma mobilização de massas organizada por esquerdistas, partidos social-democratas e movimentos sociais contra as eleições fraudulentas e a posse de Fujimori]. Com a queda do ditador e o parlamento cheio de políticos contrários ao antigo regime, toda a esquerda, centro e liberais se esqueceram dessas pessoas, que ainda sofrem com a pobreza extrema.

A mídia corporativa sempre vê os eventos da perspectiva da polícia.

Vimos imagens de terrorismo de Estado no Peru, incluindo assassinatos, tortura e prisão em massa, bem como outras formas de agressão da polícia peruana. Sabemos que estes não são eventos isolados – a repressão é algo comum em todos os estados, especialmente quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como está estruturada a polícia peruana? Qual é a história da repressão policial contra os protestos no Peru?

A moderna polícia peruana foi fundada em 1988, a partir da unificação de três agências estatais anteriores. Sabemos que a formação de policiais é um fenômeno transnacional, ou seja, no desenvolvimento da instituição do policiamento, houve vários modelos que serviram de ideal para outros países (em um momento, foi o modelo francês, em outro, o modelo espanhol e, atualmente é uma mistura de várias instituições repressivas em todo o planeta).

No início, a polícia peruana só dispunha de bastões, apitos e coisas do gênero para estabelecer a ordem municipal; então seu armamento aumentou: pistolas, rifles, pinochios (conhecidos no Chile como guanacos, são carros blindados usados ​​para atacar manifestações), caminhões, motocicletas, gás lacrimogêneo, spray de pimenta, drones e computadores.

Eles sempre estiveram do lado do poder. Eles fizeram greve apenas uma vez, durante a ditadura de Velasco Alvarado, que os reprimiu com força militar, deixando um número desconhecido de mortos.

Nos anos 1980 e 1990, as autoridades deram à polícia imunidade legal e moral para assassinar a fim de eliminar o Sendero Luminoso (partido maoísta). Foi então que cometeram as piores injustiças: assassinar, torturar, estuprar, desaparecer, extorquir em todas as cidades e vilas do Peru.

Em 2000 [quando o presidente Alberto Fujimori fugiu para o Japão, substituído por Alejandro Toledo], eles tiveram que se adaptar à ideologia do novo presidente; porém, carregavam no DNA o autoritarismo e o racismo, junto com o montesinism. [Vladimiro Lenin Ilich Montesinos Torres, ex-oficial de inteligência do exército e espião dos EUA, foi conselheiro do ditador Fujimori e serviu como chefe do serviço de inteligência do Peru sob seu comando.]

A história recente da polícia é um exemplo claro da impunidade do setor político Fujimontesinista, que nunca foi expulso do aparato institucional do Estado, apenas acomodado nele. Hoje, as práticas repressivas vêm dos ex-quadros de Vladimiro Montesinos e também de seus aprendizes.

Polícia se mobiliza para atacar manifestantes no Peru.

Como o chamado Brasil, Argentina, Chile e muitos outros lugares, a região peruana viveu uma ditadura civil-militar. É um território com uma longa história de golpes, como o do presidente peruano Alberto Fujimori em 1992. Fale da resistência e da memória combativa contra os legados da ditadura e a continuidade da repressão e do extermínio na democracia.

É verdade que nesta região houve seguidas interrupções da democracia representativa (o que, obviamente, como anarquistas, não queremos de qualquer maneira) e, consequentemente, houve vários períodos de resistência ao autoritarismo e às ditaduras. No entanto, e um tanto contraditoriamente, também houve ditadores apreciados pelos setores populares – por exemplo, o militar nacionalista Juan Velasco Alvarado, que é celebrado por um setor da esquerda conservadora ou kitsch.

Outro ponto a destacar é que o antifascismo dos anos 1930 e 1940 e suas experiências de resistência foram esquecidos no Peru – goste ou não, quem participou do confronto foram anarquistas, comunistas, apristas [membros a APRA, Aliança Popular Revolucionária Americana, um partido socialista fundado em 1924] e progressistas.

A memória antiautoritária das esquerdas dos anos 1970 e 1980 se perdeu com as perseguições sofridas pelo ditador Fujimori e pelos genocidas do Sendero Luminoso – comunistas dogmáticos que assassinaram camponeses, líderes esquerdistas e qualquer outro que se opusesse a eles. Tudo isso contribuiu para uma despolitização nos anos 1990 e para a aceitação da narrativa neoliberal delirante sobre o “empreendedorismo” em 2000, que grande parte da população dessa região ainda hoje aceita.

Apesar de tudo isso, no dia 5 de abril, aniversário do golpe do genocida Fujimori, marcham contra tudo o que representa a atual ditadura: o neofujimorismo, o neoliberalismo, a corrupção em massa, o narcotráfico e o genocídio. É preciso reconhecer que os partidos de esquerda procuram monopolizar o “anti-fujimorismo” para ganhos políticos e que, seguindo as vicissitudes da política peruana, alguns “anti-fujimoristas” revelaram sua verdadeira face a ponto de ingressar nas fileiras do pos-fascistas (por exemplo, o autor conservador Mario Vargas Llosa, [ex-ministro do Interior] Fernando Rospigliosi e [presidente em exercício] Dina Boluarte, entre outros).

Em todo caso, é o antifujimorismo que entregou o trono da presidência ao atual governo. E embora alguns se orgulhem disso (por ter impedido que Keiko Fujimori, filha mais velha do ex-presidente peruano Alberto Fujimori, chegasse ao poder), é preciso dizer claramente que isso só contribuiu para consertar um abominável sistema político que foi brutalmente nos explorando – sob o qual há massacres contínuos nos Andes, graças a políticos, bandidos e empresários.

Agora, vemos ressurgir essa memória combativa; muitas pessoas pararam de se censurar e estão falando sobre o que sofreram por resistir à ditadura de Fujimori. Ao mesmo tempo, o ataque da extrema-direita tem indignado as pessoas pela forma como usam a acusação de “terrorismo” contra quem se opõe a eles e aos seus ídolos. O famoso “terruqueo” é um conceito que nasceu na década de 1980: é o adjetivo usado para definir quem pode ser morto impunemente. Se você é um terruco(suposto terrorista), pode queimar na fogueira ou ser executado – como fizeram sistematicamente os militares em Ayacucho nas décadas de 1980 e 1990.

Por isso, hoje, o mais próximo da memória combativa é o esforço para desarmar os partidários do ditador genocida Fujimori de sua arma semântica: o “terruqueo”. E é assim que as pessoas estão procedendo nas regiões do sul (lugar onde tanto os militares quanto o Sendero Luminoso massacraram os camponeses). Sem falar em confrontá-los implacavelmente nas ruas até que o fascismo seja destruído!

Os restos de um edifício histórico que pegou fogo perto da Plaza San Martin em Lima durante as manifestações de janeiro de 2023. Segundo o filho do proprietário, o incêndio foi causado por bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia para dispersar manifestantes.

Há debates sobre legítima defesa nas ruas? Existe alguma discussão por parte dos movimentos e coletivos sobre a abolição da polícia?

Nesta região, ouvimos vários discursos diferentes sobre a polícia. O primeiro é o desrespeito da polícia pelos assassinatos de manifestantes, o que é compatível com o repugnante “princípio da proporcionalidade” (teoria imbecil que tem origem no pacifismo do século passado e justifica guerras, massacres, etc., com base em igualar o uso de armas). A maioria das pessoas que promovem essa ideia são cidadãos e esquerdistas moderados (obviamente não vão atacar a instituição pela qual querem disciplinar quando estiverem no poder). O segundo é o discurso da extrema-direita que dá desculpas ao gatilho (apoiando tomberìa e militares em matar sem repercussão legal ou moral) e até mesmo paramilitarismo fascista.

Dentro da esquerda radical, não há quase nada sobre abolir a polícia, embora as pessoas odeiem a instituição por sua corrupção, sua inutilidade em responder a feminicídios, crimes antissociais e outras questões e, finalmente, pelo papel que a polícia desempenha na proteção do empresariado extrativista.

Como anarquistas, acreditamos que é urgente pedir a destruição dessa instituição assassina. Há alguns dias, no blog, um camarada compartilhou alguns artigos não anarquistas discutindo a origem da polícia, a fim de imprimi-los e compartilhá-los na linha de frente.

Ele nos convidou a compartilhar o seguinte fragmento:

“Desde a formação das primeiras cidades, quem as governou teve necessariamente de criar forças repressivas para resguardar os seus domínios dos ataques externos daqueles que procuravam reclamar o que estes governantes lhes arrebataram nas zonas rurais onde viviam, e contra os ataques internos dos aqueles que estavam insatisfeitos com esses governos, reinos ou impérios. Toda a história da civilização e de suas cidades e outros domínios sempre foi dividida entre governantes e governados. A questão é que a direita ama a polícia porque, para ela, os policiais se comportam como servidores que garantem a segurança de seus domínios e privilégios. Por outro lado, o problema é que seu suposto adversário, a esquerda, não busca a abolição da polícia porque isso enfraqueceria seu controle quando chegar ao poder. A abolição da polícia é um passo necessário para uma vida em plena liberdade, encontrar outras formas de convivência equilibrada e respeito é mais um passo necessário para não depender para sempre da existência da polícia. De fato, as comunidades indígenas viveram outrora sem a instituição da polícia ou sua lógica. Hoje, em várias dessas comunidades, essas lógicas e práticas estão sendo impostas como parte do processo civilizatório do sistema e dificultam nosso caminho.

Contracapa da primeira edição do Periodico Libertária. “Mais de 300 assassinados sob a democracia (2003-2020), graças a políticos e policiais. Fogo eterno para os assassinos tomberìa [polícia] e seus símbolos!”

Por fim, estamos interessados ​​nas diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Por favor, fale sobre os envolvidos nas lutas anárquicas na região peruana.

O anarquismo é muito humilde nesta região. Existem diferentes organizações e indivíduos com diferentes abordagens: anarco-sindicalismo, insurgentes, plataformistas e anarquistas sem adjetivos. Não há “black bloc” como observado em outras regiões, ou talvez haja, mas apenas muito pequeno. Tampouco existem “grandes organizações” – admitamos isso como uma forma de autocrítica – mas existem indivíduos que resistem nas diversas províncias do Peru.

A repressão em Lima que o açougueiro Manuel Merino supervisionou em 2020, que representou para muitos jovens anarquistas seu primeiro encontro com a verdadeira face do estado assassino, destacou a urgência de autocuidado e autodefesa agudos, bem como um retorno à realidade (o resultado da situação foi um governo de transição, o enfraquecimento dos protestos e injustiça permanente para os caídos).

Atualmente, com um levante em curso, os anarquistas que não vivem na capital (especialmente no sul do Peru) experimentaram suas consideráveis ​​limitações para enfrentar as forças repressivas e as armas letais da ditadura cívico-militar de Dina Boluarte.

Apesar disso, não desanimamos. A tarefa dos anarquistas hoje, desde nossa humilde posição, é acompanhar os camponeses em todas as ações diretas. Como nossas famílias camponesas , vamos junto com elas em qualquer posição possível, seja resistindo na linha de frente, desativando gás lacrimogêneo, dando assistência médica, coletando doações para nossas irmãs, divulgando medidas de autocuidado, debatendo todas as questões políticas e sociais de nossa região e, finalmente, conhecer sua experiência de resistência. Sem intermediários, políticos de esquerda e influenciadores legalistas, marchamos juntos para a destruição da ditadura cívico-militar e não descansaremos enquanto não vermos a justiça que nos foi roubada séculos atrás.

Manifestação em Puno.

A REVOLTA POPULAR NO PERU – Anarquistas Discutem a Revolta Contra a Violência Policial e o Estado de Emergência ©, .

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ENTREVISTA: Anarquistas Iraniano falam sobre os protestos em resposta ao assassinato pela polícia de Mahsa Amini https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/09/29/entrevista-com-anarquistas-iranianos/ Thu, 29 Sep 2022 20:33:05 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2949 Continuar a ler "ENTREVISTA: Anarquistas Iraniano falam sobre os protestos em resposta ao assassinato pela polícia de Mahsa Amini"

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INTRODUÇÃO

A 13 de setembro de 2022, Mahsa Amini, de 22 anos, foi presa por uma “patrulha de orientação” iraniana (também conhecida como “polícia da moralidade”). Mahsa foi presa em Teerão por não respeitar as leis relacionadas ao vestuário. Três dias depois, em 16 de setembro, a polícia informou a família de Mahsa de que ela “teve uma paragem cardíaca” e tinha entrado em coma dois dias antes de morrer.

Relatos de testemunhas oculares, incluindo o do seu próprio irmão, mostram de forma clara que ela foi brutalmente espancada durante a prisão. Exames médicos divulgados indicam que ela sofreu uma hemorragia cerebral e um acidente vascular cerebral  – lesões causadas por uma pancada que levaram à sua morte.

Manifestantes em Istambul, Turquia, seguram uma imagem de Mahsa Amini.

Desde que esta informação se tornou pública, protestos em massa eclodiram em todo o Irã para denunciar o assassinato de Mahsa pela polícia.

Para entender melhor essa situação em rápida mudança, realizamos uma breve entrevista com a Federação Anarquista ERA, uma organização com seções no Irã e no Afeganistão.

Esta entrevista foi realizada entre os dias 20/09/22 e 23/09/22.

ENTREVISTA

Black Rose / Rosa Negra (BRRN): Em primeiro lugar, poderiam apresentar-nos a Federação Anarquista ERA?

FAE: A Federação Anarquista ERA é uma federação anarquista regional ativa no chamado Irã, Afeganistão e mais além.

A nossa federação é baseada no Anarquismo de Síntese, aceitando todas as tendências anarquistas, exceto as tendências nacionalistas, religiosas, capitalistas e pacifistas. Os nossos muitos anos de experiência organizativa em ambientes extremamente opressivos como o Irã nos levaram a desenvolver e a utilizar táticas e filosofias organizativas insurrecionais.

Somos uma organização ateísta, vemos a religião como uma estrutura hierárquica que é mais antiga e duradoura do que quase todos os outros sistemas autoritários e muito semelhante ao capitalismo e outras estruturas sociais autoritárias que escravizam hoje a humanidade. A guerra de classes, do nosso ponto de vista, inclui a guerra contra o clero que nos rouba a liberdade e a autonomia, definindo o que é sagrado ou tabu, e impondo-os através da coerção e da violência.

BRRN: Quem foi Mahsa Amini? Quando, porque e como ela foi morta?

FAE: Mahsa Amini, a quem a sua família chama Zhina, era uma jovem curda comum de 22 anos, natural da cidade de Saghez (Saqez) no Curdistão.

Ela estava viajando com sua família para Teerã para visitar famíliares. Em 13 de setembro, enquanto estava com o seu irmão, Kiaresh Amini, a polícia da moralidade ou a chamada “Patrulha de Orientação” prendeu Mahsa por usar “hijab impróprio”. O irmão dela tentou resistir à prisão, mas a polícia usou gás lacrimogêneo e também espancou Kiaresh.

Muitas outras mulheres presas testemunharam o que aconteceu na van da polícia. No caminho para a delegacia, houve uma discussão entre as mulheres detidas e os policias. Mahsa Amini foi uma das que protestaram contra a prisão. Ela disse que não era de Teerã e que deveria ser libertada.

A polícia usou de violência física para calar todas as detidas. Mahsa também foi espancada. De acordo com testemunhas oculares, a policia atingiu a cabeça de Mahsa fazendo com que batesse com força na parte lateral da van em que seguiam.

Ela ainda estava consciente quando chegou à Agência de Segurança Moral, mas as outras mulheres detidas notaram que ela não estava bem. A polícia mostrou-se completamente indiferente e acuso dela ter protestado durante a viagem. As mulheres continuaram protestando para ajudar Mahsa a obter os cuidados médicos que ela precisava. Os protestos foram recebidos com violência por parte da polícia. Mahsa Amini foi novamente espancada pela polícia e perdeu a consciência.

A polícia tentou reanimá-la bombeando ar com massagens no peito e levantando e massageando suas pernas. Após essas tentativas frustradas, a polícia agrediu as outras mulheres confiscando todos os celulares e câmaras que pudessem ter gravado o incidente.

Depois de muita demora e de encontarem as chaves perdidas da ambulância, Mahsa foi levada para o Hospital Kasra.

A clínica que recebeu Mahsa Amini disse num post no Instagram que Mahsa estava com morte cerebral quando foi internada. Este post do Instagram foi posteriormente apagado.

Em 14 de setembro, uma conta no Twitter de um amigo que trabalhava no Hospital Kasra relatou que a polícia ameaçou os médicos, enfermeiros e funcionários para não tirarem fotos ou fazerem vídeos e para mentirem aos pais de Mahsa sobre a causa da morte. O hospital, intimidado, obedeceu à polícia. Disseram aos pais que ela tinha sofrido um “acidente” e a mantiveram em suporte de vida durante dois dias. Mahsa foi declarada morta em 16 de setembro. Exames médicos, divulgados por hacktivistas, revelam fraturas ósseas, hemorragia e edema cerebral.

BRRN: A identidade de Mahsa como curda desempenhou algum papel na sua prisão e na sua morte?

FAE: Sem dúvida, ser curdo em Teerã teve um papel importante na eventual morte de Mahsa. Mas, esta é uma realidade que todas as mulheres no Irã experimentam. Não precisamos ir muito longe para encontrar imagens de vídeos da polícia da moralidade espancando e forçando mulheres a entrarem em vans, atirando mulheres para fora de um carro em movimento e assediando mulheres de hijab devido ao seu “hijab impróprio”. Esses vídeos mostram apenas uma pequena parte do inferno que as mulheres passam no Irã.

O fato de Mahsa estar com o irmão no dia da sua prisão não foi um acaso. Na sociedade patriarcal do Irã, as mulheres devem ser acompanhadas por um familiar do sexo masculino, seja pai, marido, irmão ou primo, para afastar a policia da moralidade e desencorajar indivíduos desagradáveis em público. Casais jovens não devem ser vistos muito próximos um do outro em público ou correm o risco de serem espancados e presos pela polícia da moralidade. Os familiares devem ter documentos como prova caso sejam questionados pela polícia. Prender mulheres por causa de batons e unhas era uma realidade que muitos de nós, mais velhos, nos lembramos vividamente no Irã.

A ameaça de ataques com ácido por “mau hijab” é outro pesadelo que as mulheres enfrentam no Irã.

O patriarcado e a autocracia religiosa afetam todas as mulheres.

BRRN: Como é que o povo iraniano soube da morte de Mahsa? Qual foi a resposta popular inicial?

FAE: Como dissemos anteriormente, havia muitas testemunhas oculares. Nenhuma ameaça poderia ter impedido que a história da morte de Mahsa fosse conhecida.

Vale a pena mencionar que o médico que atendeu Mahsa e o fotojornalista que documentou o estado de Mahsa e da sua família em perigo foram presos, e seus paradeiros são desconhecidos.

A resposta inicial foi de indignação. As pessoas já compartilhavam a história de Mahsa desde o dia 14 de setembro. A indignação ainda não era suficientemente forte para provocar protestos e revoltas. As pessoas ainda pensavam que Mahsa estava em coma e havia esperança de sua recuperação. Então, ela foi declarada morta em 16 de setembro.

Primeiro, houve pequenos protestos no Hospital Kasra, que foram dispersados pela polícia. As faíscas da atual revolta foram acesas em Saghez, cidade natal de Mahsa.

Uma motocicleta da polícia é queimada em uma manifestação em Teerã.

BRRN: Qual a dimensão dos protestos atuais? Em que áreas do país se concentraram as manifestações?

FAE: A situação é muito dinâmica e está mudando excepcionalmente rápido. No momento em que escrevo estas linhas, as chamas da revolta incendiaram 29 das 31 províncias do Irã. Uma das características dessa revolta é que ela se espalhou rapidamente para as principais cidades do Irã, como Teerã, Tabriz, Isfahan, Ahvaz, Rasht e outras.

Qom e Mashhad, as fortalezas ideológicas do regime, juntaram-se à revolta. A ilha de Kish, o centro capitalista e comercial do regime, também se revoltou. Esta é a revolta mais diversificada que testemunhamos nos últimos anos.

Em 23 de setembro, os sindicalistas planejam uma greve geral em favor dos protestos.

O regime planejou uma manifestação do Exército para o mesmo dia. Muita coisa está acontecendo.

BRRN: Como o estado iraniano respondeu a estas manifestações?

FAE: A resposta inicial do regime foi menos brutal do que já experimentámos antes. Uma razão é que eles foram apanhados de surpresa. Não esperavam uma resposta tão forte. A razão mais importante é que Ibrahim Raisi está na ONU. A ausência de altos funcionários, a história divulgada de Mahsa e os protestos, e a pressão exercida sobre o governo sob o olhar atento da comunidade internacional pararam o massacre por enquanto.

Mas não nos enganemos. A polícia matou e feriu muitas pessoas desde o primeiro dia dos protestos. Alguns deles eram crianças de 10 anos e adolescentes de 15 anos. No entanto, antes tivemos  o mês de novembro de 2019, quando o regime massacrou milhares de pessoas em 3 dias.

Em todas as revoltas anteriores, a polícia não foi diretamente o alvo da raiva popular. Mas isso não aconteceu dessa vez. Desta vez, eles são os bandidos e as pessoas querem o seu sangue. Isso esgota-os física e mentalmente, o que consideramos uma boa notícia.

Neste momento, Saghez e Sanandaj estão passando por uma repressão implacável. O regime trouxe tanques e veículos militares pesados para reprimir a revolta. Há muitos relatos de munição real disparadas contra os manifestantes.

Os protestos continuam. Muitos carros da polícia foram vandalizados. As delegacias de polícia foram atacadas e incendiadas. Só precisamos nos armar saqueando o arsenal deles. Então, entraremos numa fase completamente diferente da revolta.

Uma barricada construída em uma manifestação em Teerã em 21/09/22.

BRRN: É correto considerar estes protestos como feministas?

FAE: Sim, absolutamente. Como em todas as outras revoltas, houve desenvolvimentos e movimentações subterrâneas..

Pode-se dizer que a recente campanha de repressão ao Hijab e o aumento da brutalidade da polícia da moralidade começaram em resposta à auto-organização espontânea, autónoma e feminista das mulheres iranianas. No início deste ano, as mulheres no Irã começaram a colocar na lista negra e a boicotar pessoas e empresas, como cafés, que aplicam estritamente o Hijab. O movimento era descentralizado e sem liderança e tinha como objetivo criar espaços seguros para mulheres e membros da comunidade LGBTQ.

Essa opressão brutal culminou neste momento em que as mulheres estão na vanguarda em todos os lugares, queimando os seus lenços e enfrentando a polícia, já sem Hijab. O principal slogan do levante também é “Mulher, Vida, Liberdade”, um slogan de Rojava, uma sociedade cujas reivindicações são baseadas na ideologia anarquista, feminista e laica.

BRRN: Que elementos políticos (organizações, partidos, grupos) estão presentes nas manifestações, se existirem?

FAE: Muitas organizações, partidos e grupos tentam se apropriar ou influenciar os protestos em seu benefício a cada levante.

A maioria deles deparou-se com um problema insolúvel durante esta revolta.

Primeiro, os monarquistas. Reza Pahlavi, o filho caloteiro do ex-xá do Irã, um indivíduo sustentado por dinheiro roubado e redes de mídia fora do Irã, pediu um dia nacional de luto em meio à indignação pública e aos protestos iniciais, em vez de usar seus recursos para ajudar o revolta. As pessoas finalmente viram o charlatão que ele é. A frase “Morte aos opressores, seja o Xá ou o Líder”, foi ouvida em todo o Irã.

Em seguida,  MEK ou Mujahedin Kalq. O MEK tem um problema ideológico com esta revolta. É uma seita cujos membros femininos são forçados a usar lenços vermelhos. A sua origem está numa combinação das ideologias marxistas e islâmicas, dominada pelos marxistas-leninistas antes de 1979, e hoje são uma seita ao serviço de estados capitalistas e imperialistas. No entanto, as mulheres no Irã estão queimando os seus lenços e o Alcorão. Eles não têm voz neste clima político.

Depois, há partidos comunistas que desprezam Rojava e sempre falam mal dela. A sua análise de classe, desmascarada e enferrujada, não os ajuda a ganhar corações aqui.

Apesar de todos os discursos e propaganda na defesa do secularismo e do feminismo, não tinham sequer um slogan voltado para a libertação das mulheres. A sua ideologia impedia-os de gritarem  “Mulheres, Vida, Liberdade”. Eles não tinham nada a dizer, por isso calaram-se. Graças a isso, a sua presença é muito mais fraca nos protestos atuais.

O movimento anarquista está crescendo no Irã. Esse revolta, sem liderança, feminista, antiautoritária e entoando slogans de Rojava, fez com que anarquistas, filiados e não afiliados na federação, tivessem uma forte presença nesse levante. Infelizmente, muitos foram presos e feridos também.

Estamos trabalhando para perceber o potencial anticapitalista desse movimento. Porque a República Islâmica é um culto e uma religião de morte, sendo o patriarcado, o racismo e o capitalismo os seus pilares ideológicos. Para vivermos, precisamos ser livres; e isso não pode ser feito sem que a libertação das mulheres esteja na vanguarda.

Manifestação de estudantes universitário em Teerã em 19/09/22.

BRRN: Em solidariedade. Obrigado pelo seu tempo.

FAE: Solidariedade.

Obs: Esta é uma tradução de uma entrevista publicada no site blackrosefed.org efetuada pelo Portal Anarquista e revisada pela Facção Fictícia

ENTREVISTA: Anarquistas Iraniano falam sobre os protestos em resposta ao assassinato pela polícia de Mahsa Amini ©, .

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​O Estado da Praga – Entrevista com coletivo Chuang https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/01/12/estado-da-praga-chuang/ Wed, 12 Jan 2022 15:29:49 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2729 Continuar a ler "​O Estado da Praga – Entrevista com coletivo Chuang"

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闯 Chuang é um coletivo comunista situado dentro e fora da China, que publica uma revista e um blog. Desde o início da pandemia seus textos, artigos e entrevistas se tornaram conhecidos por revelar uma abordagem crítica sobre as origens do vírus e sua relação com o desenvolvimento do repressivo capitalismo de estado chinês e os argumentos preconceituosos do ocidente para desviar o foco da responsabilidade que o agronegócio tem para o surgimento e difusão de epidemias.

Traduzimos e lançamos, em 2020, um de seus artigos sobre os levantes em Hong Kong contra a lei de extradição e seus paralelos e influência sobre as ondas de protesto no Chile e nos Estados Unidos nas táticas usadas por manifestantes e a relação entre “violência” e “não-violência”.

Abaixo uma entrevista concedida à revista Brooklyn Rail em setembdo de 2021 para anunciar o lançamento em inglês do seu livro Contágio Social – coronavírus, China, capitalismo tardio e o ‘mundo natural’, lançado no Brasil como livro digital gratuito pela editora Veneta. Recomendamos como uma importante leitura para início de mais um ano onde enfrentaremos mais uma vez o vírus da pandemia e do oportunismo autoritário estatal e capitalista.


​O Estado da Praga – Entrevista com coletivo Chuang

Chuang é um coletivo comunista internacional que publica entrevistas, traduções e artigos autorais sobre a ascensão da China através das pilhas de destroços da história e das lutas daqueles que foram arrastados por baixo deles. Ao longo de anos de pesquisas locais, o coletivo desenvolveu uma análise comunista incisiva enfatizando as dimensões globais da experiência chinesa, iluminada pelos debates do século 20 e reforçada pela atenção contínua às mudanças de condições da luta proletária na China e além. Em suas atentas intervenções teóricas e nas janelas para vida cotidiana visíveis em seu blog, o coletivo sempre enfatizou as lições práticas para as muitas batalhas travadas pelos proletários em todo o mundo hoje e no futuro próximo.

Aminda Smith e Fabio Lanza  entrevistaram Chuang para a revista Brooklyn Rail em setembro de 2021 sobre seu primeiro livro, “Social Contagion and Other Material on Microbiological Class War in China “. Smith é historiadora da China moderna, codiretora do PRC History Group e professora associada da Michigan State University. Lanza é professor de história moderna da China na Universidade do Arizona.

O livro inclui uma versão atualizada de seu influente artigo “Contágio Social” (publicado originalmente em fevereiro de 2020), uma tradução de um relatório chinês sobre as condições dos trabalhadores e as lutas de trabalhadores e trabalhadoras durante e após o pico da pandemia doméstica COVID-19, uma entrevista com dois ativistas sobre suas experiências em Wuhan durante os primeiros meses do surto e um longo artigo sobre como a classe dominante tentou usar esta catástrofe como uma oportunidade para reestruturar e expandir o estado para os interesses da acumulação capitalista de longo prazo. No geral, o livro oferece uma perspectiva nova e surpreendente sobre a relação entre o capitalismo, a pandemia, o projeto de construção do Estado na China e a agência das pessoas comuns.



Aminda Smith e Fabio Lanza (RAIL): A visão geral sobre a resposta da China à pandemia, promovida pela mídia ocidental e pelo Partido Comunista Chinês (PCCh), é que ela teve sucesso devido à enorme capacidade do Estado, sua natureza autoritário ou até mesmo totalitária, sua penetração profunda em todos os aspectos da vida social, todas as características que tornavam aquele modelo de resposta inaplicável e/ou desagradável nos Estados Unidos ou na Europa. No livro, vocês argumentam, de forma bastante convincente, que a pandemia revelou, em vez disso, a fraqueza do estado, e que o estado era finalmente capaz de lidar com a crise, reconhecendo essa fraqueza e delegando autoridade aos governos locais e grupos de voluntários. Esta é uma tese fascinante, então você pode explicar como a resposta do estado à pandemia foi estruturada, o que falhou e o que funcionou no final das contas?

Chuang: Esta é definitivamente uma visão abrangente, tanto na China quanto no exterior. Parte da razão pela qual foi tão eficaz em obscurecer o que realmente aconteceu durante a pandemia é que essa imagem do estado onisciente já estava disseminada de antemão. Talvez possamos apelidá-lo de algo como o “mito da onipotência totalitária”. Mas é importante lembrar que esse mito não é cultivado apenas pelos órgãos oficiais do partido-estado na China para proteger seus interesses. Na verdade, é ainda mais avidamente propagandeado na mídia ocidental, por exemplo, através do tipo de clickbait sinofuturista que relata constantemente como todos na China têm uma “pontuação de crédito social” que determina suas escolhas de vida, como a tecnologia de reconhecimento facial em todas as áreas a cidade automaticamente multará você por infrações menores, ou como o governo está planejando estabelecer centenas de milhares de seus próprios cidadãos em países longínquos da África. Nenhuma dessas coisas é verdade, mas um ambiente de bombardeio constante com esse tipo de conteúdo naturalmente cultiva uma imagem mítica do estado todo-poderoso.

Esse mito disfarça duas coisas. Em primeiro lugar, ele obscurece a fraqueza persistente do estado e a realidade de que, apesar de seu horizonte cintilante, a China ainda é, em muitos aspectos, um país relativamente pobre, especialmente em termos per capita. Se você comparar medidas realmente básicas – como a receita tributária total que vai para o governo central na China e a receita tributária total que vai para o governo federal dos Estados Unidos – isso fica claro instantaneamente. E, em termos per capita, a diferença é obviamente muito ampliada. Em outro exemplo relevante, o gasto público per capita da China com saúde é baixo, mesmo em comparação com outros países em um nível semelhante de desenvolvimento econômico, embora esteja aumentando. Isso também significa que a administração do Estado foi fundamentalmente moldada pela necessidade de “governar à distância”, definida por altos graus de autonomia local, balcanização nas estruturas de comando e vigilância e uma latitude substancial para a corrupção. Isso tem historicamente dado aos governos locais muito mais liberdade e independência na China do que em outros lugares, e todas essas características têm sido realmente importantes para o desenvolvimento de uma classe capitalista doméstica. A corrupção, por exemplo, não é necessariamente “ineficiente” – é uma parte muito normal do desenvolvimento capitalista porque é como os capitalistas nascem quando o mercado se abre pela primeira vez e as regras de engajamento não são bem definidas. É somente depois que o acúmulo atinge um certo limite que todos esses recursos se tornam um obstáculo.

Em segundo lugar, também torna difícil entender adequadamente que a classe dominante na China está engajada em um projeto de construção do Estado bastante extenso, que está sendo construído há décadas, mas realmente começou a acelerar sob Xi Jinping. Essas duas coisas estão conectadas, obviamente, uma vez que a necessidade de construção do estado pressupõe algum tipo de fraqueza. A acumulação avançou o suficiente para que a corrupção, as cadeias de comando deficientes e a falta de canais confiáveis de informação começassem a se tornar mais um obstáculo do que um benefício. O rápido aumento da dívida do governo local, associado a projetos de infraestrutura de estímulo na década de 2010, foi um sinal claro desse problema. A campanha anticorrupção teve como objetivo abordar a questão nos níveis mais altos, eliminando magnatas do interior que potencialmente representavam uma ameaça ao governo central, e também organizar cadeias de comando e canais de informação de cima para baixo.

Ao lado disso, havia coisas muito mais mundanas, como reformas na metodologia usada pelo National Bureau of Statistics e tentativas de integrar melhor todos os tipos de registros públicos. Da mesma forma, várias campanhas de repressão contra feministas, centros de trabalhadores e grupos de estudantes maoistas também mostraram que houve tentativas semelhantes de integração dentro de uma infraestrutura de policiamento mais ampla. As pessoas muitas vezes não percebem que a China era um lugar onde, por décadas, era bastante fácil evitar um processo por vários crimes simplesmente mudando-se para outra cidade – pelo menos até que você chamasse a atenção do estado central – e onde havia uma quantidade assustadora de margem de manobra para as autoridades locais determinarem as punições, o que também significava que era fácil escapar de problemas se você tivesse contatos na delegacia local. Muitas vezes, ainda é fato que a polícia local não terá acesso a bancos de dados nacionais simples e padronizados, portanto, nem sempre é possível suspender sua carteira de motorista, processar suas impressões digitais ou usar seu DNA, mesmo que registre essas informações localmente. Isso está começando a mudar rapidamente, mas é um grande contraste com o que estamos acostumados em muitos outros países e com o mito da onipotência totalitária, que, é claro, pressupõe que esses sistemas são mais integrados e penetrantes na China do que em qualquer outro lugar.

Então, como isso se relaciona com a pandemia? Bem, o exemplo óbvio é que essa delegação local de autoridade foi desastrosa. Apesar de todos os mitos de como essa contenção foi eficaz, é meio risível quando você pensa sobre isso. Afinal, um surto com uma origem geográfica clara e rapidamente identificada acabou se tornando uma epidemia nacional e depois uma pandemia global. Como isso pôde acontecer, quando os médicos identificaram desde muito cedo que alguma nova doença respiratória mortal estava se espalhando na cidade? E quando isso estava claramente relacionado a um coronavírus? Em grande parte, é porque as autoridades locais se apressaram em suprimir informações sobre o surto quando ele estava saindo dos hospitais, incluindo esconder informações do estado central, sem tomar medidas para restringir viagens, fechar negócios ou encorajar o uso de máscaras quando essas coisas teriam sido a mais útil a se fazer. O livro inclui uma longa entrevista com amigos em Wuhan, que oferecem uma linha do tempo detalhada dos eventos e explicam quais informações estavam sendo fornecidas no local. Eles apontam o estranho fato, por exemplo, de que seus amigos em Xangai sabiam mais sobre o surto, em uma data anterior, do que muitas pessoas que moravam na própria Wuhan. Outra coisa que é perceptível nesta narrativa em primeira mão é como houve essa mudança muito repentina na política, efetivamente durante a noite, onde parece que alguma autoridade superior deve ter finalmente intervindo para implementar o bloqueio de forma decisiva. Isso geralmente é um sinal de que o governo central se envolveu, colocando as autoridades locais sob seu comando direto.

Portanto, de muitas maneiras, temos que entender o surto como um grande fracasso inicial – sinalizado pelo fato de que se tornou uma pandemia que está conosco até hoje – e que só prevaleceu internamente pelo esforço coordenado de centenas de milhares de pessoas comuns, muitas vezes trabalhando voluntariamente ao lado das autoridades locais. Não é exagero dizer que a epidemia nunca teria sido contida se não fosse pelo esforço desses voluntários. Ao mesmo tempo, foi completamente fortuito que o surto tenha ocorrido em grande parte em uma única cidade e, o que é mais, na véspera do Festival da Primavera, quando todos já estavam estocados na expectativa de que os negócios fossem encerrados. Isso minimizou o impacto imediato do bloqueio e permitiu que o estado central concentrasse a vasta maioria de seus recursos em Wuhan (e, em menor grau, em Pequim – onde o governo central está realmente localizado). Ao mesmo tempo, o governo central, por meio do CDC (Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças), entendeu a importância de abrir o fluxo de informações, convidar investigadores médicos internacionais, compartilhar pesquisas sobre o novo vírus imediatamente e criar rapidamente padrões de prevenção facilmente delegáveis que erraram em o lado da segurança. Da mesma forma, eles intervieram para garantir que os sistemas de alimentação e energia estivessem sendo mantidos. Este é o nível em que você pode identificar um certo sucesso. Durante todo o processo, o governo reconheceu sua própria incapacidade e, com muita eficácia e rapidez, delegou imensas quantidades de autoridade administrativa de fato ao nível mais baixo de governança, que incluía toda uma gama de órgãos administrativos impulsionados em todos os pontos pelos esforços de voluntários.

Rail: Durante a era Mao (você usa o termo “regime desenvolvimentista”), o estado fez um esforço para atingir a sociedade, até o nível de bairro, por meio de formas organizacionais híbridas, como os comitês de residentes. Eles ainda estão em operação, então qual foi seu papel durante a pandemia? Suas capacidades organizacionais foram reduzidas durante o período de reforma?

Chuang: No que chamamos de regime desenvolvimentista socialista (da década de 1950 até a retomada da transição capitalista na década de 1970), houve uma tentativa capenga de estender o Estado até os níveis mais locais da sociedade e uma certa expectativa de que, ao fazer assim, o próprio estado deixaria de ser uma presença distante e estranha na vida das pessoas e, em vez disso, se tornaria uma instituição verdadeiramente universal. Foi assim que o processo foi expresso em teoria. Na realidade, o que aconteceu foi uma extensão hesitante e geograficamente desigual da autoridade central, seguida por uma fragmentação dessa autoridade em muitos locais autárquicos de tomada de decisão. Os principais símbolos dessa experiência não eram propriamente os comitês de moradores, mas sim os vínculos com o partido e o aparato de planejamento que se formava nas empresas e nos coletivos rurais.No caso rural, algumas dessas ligações foram preservadas nas reformas iniciadas na década de 1980 e formalizadas no status legal de “autonomia da aldeia”, centralizado no comitê de moradores como a unidade fundamental da administração rural.

Os comitês de moradores foram criados inicialmente nas áreas urbanas durante o regime de desenvolvimento, mas não eram os principais órgãos da administração local. Em vez disso, a governança cotidiana era em grande parte transferida para as várias empresas da cidade, em grande parte autárquicas. Se você fosse um residente urbano naqueles anos, a grande maioria de seus bens de consumo básicos – moradia, roupas, comida e até entretenimento – era fornecida gratuitamente por meio de seu danwei , ou unidade de trabalho, vinculado a um determinado empreendimento. Comitês de residentes foram criados para administrar a (inicialmente) pequena parcela da população urbana que não tinha um danwei. Perto do final do regime de desenvolvimento, no entanto, muitas cidades (especialmente no sul) começaram a ver um crescimento em sua população de trabalhadores migrantes rurais. Tecnicamente, como esses trabalhadores não tinham um danwei urbano , eles estavam sob a autoridade administrativa do comitê de residentes para qualquer distrito em que vivessem e/ou trabalhassem. No início, eram principalmente trabalhadores sazonais. Mas, com o tempo, eles se tornaram uma característica cada vez mais permanente da cidade. À medida que o regime desenvolvimentista começou a entrar em colapso e a transição capitalista foi retomada[1], muitas cidades experimentaram um rápido crescimento, mesmo enquanto a velha empresa e o sistema de bem-estar das unidades de trabalho estavam sendo desmantelados. O resultado final foi que a maioria das pessoas que viviam nas cidades não tinha vínculos com nenhuma empresa local e, portanto, estava sob a autoridade do comitê de residentes.

Portanto, o comitê de residentes era uma instituição inteiramente marginal que, acidentalmente, sobreviveu ao desmantelamento do regime desenvolvimentista e passou a ocupar uma função completamente diferente da pretendida originalmente. Inicialmente, porém, o estado realmente não tinha recursos para construir adequadamente sua infraestrutura governamental local. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, tanto nas áreas rurais quanto nas urbanas, houve uma série de mudanças legais concedendo “autonomia” aos órgãos administrativos locais e designando o comitê de residentes da “comunidade / bairro” (社区) como a unidade fundamental da cidade administração, semelhante aos comitês de aldeia no campo, onde essas reformas foram acompanhadas pela implementação de eleições locais. Mas tudo isso foi feito em um contexto de reversão geral da autoridade do Estado. Realmente, só nos últimos anos é que as atenções se voltaram para a construção do estado em nível local. A pandemia foi um grande ímpeto nesse sentido, pois dividiu claramente as áreas onde os comitês de residentes funcionavam das áreas onde não funcionavam. Em muitos lugares, os comitês permaneceram efetivamente vazios por anos. Em outros, eles funcionaram como pouco mais do que um site para as formas mais medianas de corrupção local e nunca ofereceram nenhum serviço público real. Agora, está pelo menos claro que haverá uma tentativa combinada de construir esses órgãos, colocá-los sob cadeias de comando mais claras, vinculá-los mais estreitamente às delegacias locais de polícia, etc.

Rail: Você descreve, em detalhes, um processo de mobilização em massa em resposta à pandemia, com grupos de voluntários prestando todos os tipos de serviços, tanto para conter a propagação quanto para ajudar as pessoas a sobreviverem à pandemia, mas deixa claro que essa mobilização não era necessariamente contra o estado, nem representava uma ameaça à legitimidade do PCCh, apesar do tratamento inadequado da crise. Além disso, parece que, em alguns casos, esses esforços de ajuda mútua reforçaram as divisões sociais pré-existentes, em vez de fornecer uma chance para alianças trans-sociais. Porque?

Chuang: Às vezes, os voluntários operavam com total independência do governo. Mas houve muito poucos casos em que entenderam que sua atividade estava em total oposição a ela e, meses depois, quando o estado interveio para pedir-lhes que interrompessem suas atividades, todos o fizeram. Isso não quer dizer que o processo não foi confuso ou mesmo antagônico às vezes. Em muitas áreas, especialmente no campo, houve uma mobilização local bastante agressiva voltada para excluir basicamente quaisquer forasteiros. Isso foi visível nas redes sociais chinesas, que mostravam aldeões de meia-idade guardando barricadas com armas arcaicas (uma ilustração dessa cena serve de capa do livro) ou voluntários patrulhando bairros com drones e gritando com qualquer um que fosse encontrado do lado de fora. Essas imagens eram populares e, na maioria das vezes, alegres, mas em seus extremos a mesma atitude costumava ser perigosa, xenófoba e violenta. Em um caso, um motociclista foi decapitado porque um vilarejo havia colocado um arame em sua entrada para evitar que estranhos tivessem acesso. E quando a província de Hubei (onde Wuhan está localizada) foi reaberta, houve um confronto amplamente relatado na fronteira com Jiangxi, envolvendo policiais de ambos os lados lutando entre si, porque o lado de Jiangxi achou que era muito perigoso permitir a entrada de pessoas de Hubei.

É difícil enfatizar o quanto a atitude pública básica na China difere da de muitos países ocidentais. Nem foi esse o caso em que todos confiaram no governo e se ofereceram para ajudar por causa de alguma fé na autoridade. Na verdade, exatamente o oposto era verdadeiro: muitas pessoas se sentiram motivadas a se voluntariar precisamente porque não tinham confiança de que o estado seria capaz de conter o vírus com eficácia. Eles viram a incapacidade e a corrupção dos funcionários locais em primeira mão durante toda a sua vida e, portanto, não tinham confiança de que essas pessoas seriam capazes de fazer o trabalho. Se havia uma diferença fundamental, não seria encontrada em alguma obediência imaginária ao estado. Em vez disso, parece que o principal contraste entre o sentimento público na China e em outros lugares era que havia uma falta generalizada de fé no estado, uma intuição de que o problema não seria resolvido automaticamente pelas autoridades competentes e que todos tinham para se unir para se mobilizar contra o vírus. Em lugares como os EUA, a falha na capacidade estatal teve um caráter quase exatamente oposto, sem ninguém realmente preparado para reconhecer e lidar com a realidade da competência em declínio, especialmente quando se tratava do declínio dos serviços públicos. Então você teve uma atitude muito diferente nos Estados Unidos, com alguns criticando a resposta de seu estado particular em pequenos protestos anti-máscara, outros apoiando medidas estaduais ou esperando por uma resposta maior, mas fazendo isso de casa.

Rail: E quanto aos trabalhadores? A pandemia abriu novas possibilidades para a mobilização dos trabalhadores contra o capital ou outras vias restritas de organização e ação?

Chuang: Apesar da recuperação (relativa) da economia doméstica durante o segundo semestre de 2020 e neste ano, houve muito menos ações dos trabalhadores do que nos anos anteriores. Isso é mostrado nas poucas estatísticas disponíveis de organizações como o China Labour Bulletin (CLB), que registrou um pouco mais da metade do número de incidentes em 2020 em relação ao ano anterior, e esses números parecem estar de acordo com o que nós e nossos amigos temos visto no chão. Os setores de manufatura e mineração lideraram o declínio aqui, continuando um declínio já plurianual em incidentes em massa desde seu pico no início de 2010. A maioria dos outros setores o seguiram. A queda nos protestos manufatureiros também pode ter sido relacionada à explosão da produção até o final do ano, onde a China, cujas fábricas permaneceram abertas enquanto tantas foram fechadas ao redor do mundo,experimentou aumento dos salários e escassez de mão de obra enquanto as empresas lutavam para atender à demanda de exportação[2]. As disputas trabalhistas em manufatura e serviços começaram a aumentar em meados de 2020 – conforme documentado no artigo traduzido escrito por alguns amigos nossos, que serve como capítulo dois do livro – mas é discutível até que ponto o número de disputas reflete o número de ações trabalhistas. Embora as estatísticas ainda não estejam disponíveis para todo o ano de 2020, parece que as disputas trabalhistas, como uma medida geral de conflito, estavam pelo menos no mesmo nível do ano anterior. Por exemplo, em Pequim, os tribunais de arbitragem trabalhista receberam mais de 94.000 casos nos 10 meses entre janeiro e outubro[3]. Isso corresponde essencialmente aos 93.000 casos coletados nos nove meses entre janeiro e setembro de 2019, o que já foi um aumento de 37,4% em relação ao ano anterior[4].

Houve, no entanto, um aumento curioso no número de trabalhadores da construção civil protestando contra os atrasos salariais em 2020, conforme registrado pelo CLB – o maior já registrado pela organização desde o início do projeto de mapeamento em 2011. E talvez ainda mais estranho, nos primeiros meses de 2021, houve uma ausência do aumento maciço de protestos dos trabalhadores da construção civil que normalmente é visto antes do Ano Novo Chinês, quando os trabalhadores bloqueiam estradas, realizam marchas ou até mesmo ameaçam suicídio para receber o pagamento de fim de ano para que não viagem de volta para casa com as mãos vazias. Isso pode ser devido, pelo menos em parte, às restrições de viagem pela COVID-19 impostas aos trabalhadores durante o feriado de Ano Novo. Algumas estimativas mostraram que o número de viajantes em 2021 caiu em até 60% em comparação com 2019, atingindo o menor número de viagens registradas em 20 anos[5]. Em contraste, as ações dos trabalhadores no setor de logística, especialmente entre os passageiros que fazem entregas, são uma área em que a organização dos trabalhadores se expandiu durante a pandemia. As ações no setor de logística como um todo representaram 20% de todas as ações dos trabalhadores em 2020, o nível mais alto em vários anos. Este setor provavelmente produzirá altos níveis de agitação nos próximos anos, à medida que o comércio eletrônico continua a se expandir. Essencialmente, todas as ações trabalhistas de alto nível que ocorreram no ano passado (2020) envolveram motoristas de entrega. Na época, traduzimos um artigo viral[6] sobre a situação dos entregadores de alimentos que já circulavam na China, gerando discussão pública em todo o país e até gerando algumas declarações obrigatórias por parte dos dois gigantes do setor, Ele.me e Meituan. Essas declarações foram acompanhadas por mudanças bastante mornas, no entanto, com as empresas fazendo apenas pequenos ajustes para permitir que os passageiros tenham mais tempo para fazer seus pedidos, mas fazendo pouco para resolver os problemas subjacentes por trás das queixas dos trabalhadores.

Então, no final de fevereiro de 2021, o mais proeminente organizador popular de entregadores de entregas da China, Chen Guojiang – conhecido simplesmente como “Mengzhu” ou “líder de grupo” (盟主) por amigos e ativistas – foi detido pelas autoridades, provavelmente com a intenção de manter o A mídia social franca ficou quieta durante o congresso nacional do partido no início de março. Desde então, Chen foi acusado de “criar brigas e provocar problemas” (寻衅 滋事), a acusação mais comum usada para prender todos os tipos de agitadores em todo o país durante anos.[7] Alguns amigos falaram com Mengzhu antes de ele ser detido, sabendo como ele se organizou. Com base em Pequim, ele mantinha uma vasta rede de milhares de transportadores, principalmente no norte do país. Ele desenvolveu a rede em parte por causa de sua forte presença na mídia social, transmitindo ao vivo a vida dos entregadores. Ele também aconselhou outros pilotos, organizou refeições em grupo e até alugou um pequeno apartamento com cama em Pequim, onde pilotos novos na cidade podiam se hospedar gratuitamente por uma ou duas noites enquanto procuravam seu próprio lugar. Aqueles que o conheciam também descreveram como Mengzhu havia transformado sua plataforma em uma espécie de pequeno negócio para si mesmo, ganhando pequenas taxas aqui e ali, incluindo a coleta de bônus por recomendar pilotos para a plataforma, ou dos eventos que ele organizou para os pilotos .Durante seu tempo na plataforma, Mengzhu também ajudou a organizar várias greves de pilotos e foi supostamente bem-sucedido em atender às demandas dos trabalhadores. Ele e outros organizadores da greve também foram presos pela polícia em algum momento de 2019. Em suas discussões com amigos, ele observou enfaticamente que seu estilo de organização não podia ser imitado e atribuiu seu apelo generalizado à sua obsessão pessoal com networking, ajudar os outros e realizar streaming para seu público. No momento em que este artigo foi escrito, Chen continuava detido e ainda aguardava julgamento.[8] Amigos de Mengzhu tentaram arrecadar dinheiro para pagar honorários advocatícios no WeChat, mas o link para a página de arrecadação de fundos foi bloqueado pelos censores.

Mengzhu oferece um quadro interessante da realidade complexa e muitas vezes contraditória da organização dos trabalhadores na China, que raramente corresponde à miragem do “movimento trabalhista” promovido por muitos ativistas. Neste caso, a fama nas mídias sociais e até mesmo uma espécie de ethos empreendedor de pequena-empresa parecem ter sido parte integrante do crescimento da rede de Mengzhu. Argumentamos que essas complexidades inesperadas são essenciais para a compreensão da organização do trabalhador a longo prazo. Tanto no primeiro quanto no segundo número de nossa revista, procuramos enfatizar uma visão mais ampla da organização que extrapolou os limites do “movimento operário”, que atua como pano de fundo teórico para tantas análises do conflito de classes na China.[9] No futuro, será ainda mais essencial abandonar as presunções herdadas sobre como deve ser um “movimento operário” ou mesmo um “movimento social” mais geral, se esperamos compreender o caráter real da guerra de classes. Por exemplo, junto com o recente aumento nas ações das fábricas, podemos notar a força social potencial da franja em expansão de trabalhadores desempregados e subempregados, que estão crescendo em número em todo o país. Na extremidade inferior, isso é sugerido pela organização entre os entregadores de delivery e pelas demolições em curso que visam a chamada “população de baixa renda” (低端 人口).[10] Mas também é visível entre aqueles que ocupam posições sociais marginalmente mais elevados, como no discurso sobre a “involução” (内 卷) e no regime de trabalho “996”[11] entre os trabalhadores de colarinho branco, ou ainda mesmo no número crescente de protestos de proprietários de imóveis.[12]

Ainda não está claro como essas tendências afetarão as tensões sociais. Mas a desaceleração em curso no crescimento econômico parece indicar que todas essas tendências irão piorar com mais estagnação. A extensão do desemprego na China no último ano da pandemia ainda é pouco conhecida, mas a situação não deve melhorar significativamente. Durante o congresso do partido em março de 2021, o premiê Li Keqiang citou a criação de empregos como a “principal prioridade” do governo central, parecendo indicar que o emprego ainda não se recuperou verdadeiramente do declínio. Isso é ainda mais confirmado pela realidade de que foi a renovação do boom imobiliário – e não um renascimento industrial – que primeiro tirou a economia nacional de sua depressão após o lockdown. Enquanto isso, temos que ter em mente como os problemas econômicos afetaram os setores do colarinho-branco mais ricos ou mesmo pequenos burgueses, setores da sociedade que estão, sem dúvida, sentindo a pressão da perda de empregos e cortes de salários ou a dizimação de seus negócios, tudo em cima do já pesado fardo de dívidas que carregavam antes da pandemia. Embora essas tensões sociais possam não parecer tão inerentemente esquerdistas quanto as lutas trabalhistas, elas provavelmente continuarão a causar ondas e, infelizmente, a atrair mais a atenção e a ação da elite política. Como observamos em nosso último número da revista, a agitação social dos proprietários parece ter superado o número dos protestos trabalhistas no final dos anos 2010. Agora, no mundo pandêmico e pós-pandêmico, a política de classe provavelmente assumirá outras formas inesperadas com base nessas tensões sociais subjacentes. É essa realidade – e não uma analogia histórica de má qualidade – que deve servir de ponto de partida para qualquer pessoa que tente especular sobre o futuro do conflito de classes na China.

Rail: No final do livro, você fazem um argumento bastante interessante, e pode-se dizer especulativo, sobre o futuro do Estado chinês, uma vez que a pandemia deixou clara a necessidade de reconstruí-lo. Você argumenta que, embora continue em sua função primária a serviço do capitalismo, o estado está sendo reestruturado em algo diferente dos estados ocidentais ou de seus precedentes imperialistas e socialistas, enquanto recicla elementos de todos esses modelos. Para quais novas necessidades específicas e novos desafios este novo estado está sendo reestruturado e em que princípios ideológicos ele se baseia?

Chuang: Basicamente, a ideia central aqui é dupla: primeiro, estamos argumentando que a China ainda está em processo de construção de um estado propriamente capitalista. Não há nada realmente novo nisso, é claro, e os imperativos centrais do estado capitalista são mais ou menos universais, o que significa que muitos aspectos desse processo são muito semelhantes aos projetos de construção do estado que acompanharam o desenvolvimento capitalista em outros lugares. Mas, em segundo lugar, também é errado supor que isso significa que o estado que está sendo construído na China hoje será necessariamente semelhante a qualquer um dos estados capitalistas anteriores que surgiram em lugares como os Estados Unidos, a Europa ou nas colônias em seus detalhes. Esses imperativos capitalistas universais são requisitos básicos, mas a existência de funções universais não nos dá muitos discernimento sobre as estruturas institucionais exatas que são adaptadas para servi-las. Na verdade, esperaríamos que ocorresse o oposto: à medida que mudam as condições de acumulação de capital global, esse projeto de construção do Estado torna-se cada vez mais parte integrante de todo o processo de desenvolvimento. Não é coincidência que cada onda de industrialização de “desenvolvimento tardio” tenha visto o estado desempenhando papéis cada vez mais centrais em todo o processo. As pessoas frequentemente esquecem que uma das previsões mais consistentes de Marx sobre como o capitalismo se desenvolveria era que a escala social de produção aumentaria junto com a centralização industrial e que o sistema de crédito desempenharia um papel integral na gestão da acumulação em tal escala. Então, é realmente tão inesperado testemunhar o surgimento de um estado supervisionando enormes conglomerados industriais, ao lado de tentativas de disciplinar e direcionar suas atividades por meio da supervisão institucional e do fornecimento de crédito por meio de grandes bancos estaduais (não vale pena notar que principalmente por meio de injeções fiscais)?

Em um nível mais filosófico, há outra dimensão para este segundo argumento. Porque não se trata apenas do fato de que estados mais expansivos agora são necessários para garantir as condições básicas de acumulação. Também aborda a questão de como esse processo é percebido por aqueles que nele estão envolvidos e que tipo de forma ideológica ele assume. Em parte, esta peça foi escrita como uma réplica a toda a moda da filosofia ocidental que tenta teorizar “o estado” como tal puramente por referência à experiência europeia e à linhagem civilizacional que remonta a Roma – como se a jurisprudência romana abrisse esta janela secreta para o funcionamento interno do estado hoje. Estamos dizendo: não, você não pode simplesmente pegar algo que Foucault ou Agamben ou mesmo Mbembe escreveu sobre a Europa moderna, a Roma antiga ou o mundo colonial,e aplicá-lo no atacado à China, como se a lógica da política fosse um transplante inteiramente estrangeiro, introduzido na transição para o capitalismo. Na verdade, queremos apontar que há uma arrogância enlouquecedora de filósofos que escrevem críticas de “império” e “civilização” que nada sabem sobre a história de todos os maiores impérios de vida mais longa em toda a Ásia (para não mencionar na África ou na Américas).

Neste caso, a realidade é ainda mais contundente, porque a China tem sua própria tradição filosófica vibrante e de longa data que sempre se preocupou (na verdade, este é sem dúvida sua preocupação central) com questões de governança e política. Mais importante ainda, esta tradição filosófica está sendo ativamente revivida hoje, fundida com tendências conservadoras do pensamento ocidental e seletivamente implantada por aqueles que estão no poder para justificar ideologicamente, conceituar e até mesmo guiar o progresso material do projeto de construção do estado no terreno. É muito importante compreender esta dimensão do processo, mesmo que também tenhamos que ter em mente que a expressão filosófica do projeto de construção do Estado vai ser diferente da realidade no terreno. Não é realmente o caso que esta filosofia atua como um “manual” para aqueles que estão no poder, ou mesmo que forneça uma imagem precisa de como o poder do Estado funciona na realidade. Na verdade, muitas vezes faz o oposto, idealizando o estado e afirmando uma missão quase cosmológica para o PCCh,encarregado de liderar o rejuvenescimento espiritual da suposta nação chinesa. Mas essa é uma característica importante de como esse processo está sendo expresso por meio da reflexão sobre si mesmo. Por todas essas razões, pegamos emprestado um pouco da linguagem exagerada desses filósofos e demos a este capítulo um título irônico: “A praga ilumina a grande unidade de todos sob o céu”. Claro, essa unidade é uma piada.

Nada disso significa que o projeto de construção do Estado simplesmente avançará sem ser contestado. Como acontece com qualquer elemento do capitalismo, podemos ter certeza de que o conflito de classes nunca é eliminado definitivamente. Mas pode não ter a forma que esperávamos. Podemos de fato ver mais atos de desespero e desespero, conforme os conflitos sociais explodem de maneiras imprevisíveis, especialmente para as camadas mais baixas da sociedade chinesa, como o recente bombardeio de um prédio do governo em Guangzhou por causa de uma disputa de terra, ou o recente suicídio de um motorista de caminhão por uma multa de 2.000 yuans (cerca de US$ 300).[13] As queixas de maior valor das camadas superiores, como fraude de investimento ou conflitos de desenvolvimento imobiliário, provavelmente continuarão a crescer em número e receberão mais cobertura na mídia nacional e estrangeira – esses indivíduos também tendem a ter maior acesso ao sistema jurídico e uma melhor chance de reconhecimento formal a esse respeito. Isso pode não refletir o real “equilíbrio de forças” em relação à luta de classes na China, mas podemos esperar que, pelo menos na superfície, haverá um crescente “emburguesamento” das lutas sociais, por falta de uma palavra melhor, mesmo assim. Processo é pontuado por explosões violentas dos mais pobres do país. Desnecessário dizer que as demandas dos ricos (como a manutenção do vacilante mercado imobiliário) serão uma das principais prioridades do Estado. O mesmo não acontece com os caminhoneiros ou a “população de baixa renda” que vê suas casas demolidas.

Devemos também estar atentos aos caminhos de como as formas celulares e o estilo de mobilização pelo estado podem se desenvolver no futuro. Como observamos no capítulo final do livro, embora o estado formal se mostrasse relativamente fraco, as estruturas de poder de pequena escala foram moldadas em uma velocidade incrível. Comitês de residentes locais, seguranças e outros voluntários – com ligações a partidos e organizações governamentais – tornaram-se as principais faces do poder estatal quando se tratava de regulamentar o movimento de cidadãos entre bairros, ou mesmo dentro e fora de suas casas. Esses desenvolvimentos também não passaram despercebidos pelo capital. No ano passado, o chefe da Câmara de Comércio Europeia, Jorge Wuttke, não se queixou do desenvolvimento de alguma burocracia abrangente, centralizada e autoritária que atrapalha os negócios, muito pelo contrário:“A colcha de retalhos de regras conflitantes que emergiu da luta contra o COVID-19 produziu centenas de feudos, tornando quase impossível transportar mercadorias ou pessoas pela China.” Como principal representante do capital estrangeiro, Wuttke pediu ao governo que padronizasse medidas “em jurisdições maiores” para “colocar a economia real de pé”.[14] Esse poder em retalhos permanece até hoje, embora de uma forma mais latente. Apesar da pandemia ter passado e esses sistemas tenham relaxado um pouco, a realidade é que eles não desapareceram. As redes recém-desenvolvidas que ligam os órgãos formais do poder estatal a corpos informais de voluntários, empresas de gestão imobiliária, segurança, etc. simplesmente afundaram logo abaixo da superfície, chamando a atenção e reafirmando sua presença sempre que ocorrem surtos locais. No entanto, isso não é importante apenas para o gerenciamento da pandemia. A parte mais especulativa do capítulo argumenta que redes igualmente locais e o que chamamos de “para-formais” podem surgir em face de choques nativos ou exógenos, como uma corrida aos bancos, ou durante a mobilização nacionalista que acompanharia qualquer conflito militar .


Para mais textos do coletivo Chuang em português:

Notas:
  1. Conforme examinado em nosso artigo “ Red Dust” , isso na verdade começou sob Mao, não Deng Xiaoping, e é uma das muitas razões pelas quais argumentamos que periodizar a história chinesa de acordo com a sequência de “grandes líderes” é enganoso. Intencionalmente, nunca chamamos o regime de desenvolvimento de “era Mao”, por exemplo, nem a transição para o capitalismo de “era Deng”, porque a história não pode ser reduzida a ações, caprichos ou teorias políticas de estadistas.
  2. Gabriel Crossley e Stella Qiu, “China’s stunning export comeback has factories scrambling for workers”, Reuters, 20 de dezembro de 2020. https://www.reuters.com/article/us-china-economy-manufacturing-idUSKBN28V0AL .
  3. 疫情期间务工者遇到劳动争议该咋办? “What should workers with a labor grievance do during the pandemic?” 公民日报 People’s Daily, 27 de novembro de 2020. www.xinhuanet.com/fortune/2020-11/27/c_… .
  4. 北京发布2019年劳动人事争议仲裁十大典型案例 “Beijing Announces Top Ten Labor Arbitration cases from 2019” 新华网 Xinhua. www.xinhuanet.com/2019-11/05/c_11251960..
  5. SCMP Reporter, “China’s annual Lunar New Year migration, usually the biggest of its kind, looks very different in 2021″, South China Morning Post, 7 de fevereiro de 2021. www.scmp.com/magazines/post-magazine/lo…..
  6. Chuang and Friends (Trans), “Delivery Workers, Trapped in the System”, Chuang Blog , 12 de novembro de 2020. https://chuangcn.org/2020/11/delivery-renwu-translation/ .
  7. Sobre Mengzhu e sua prisão, veja Emily Feng, “He Tried To Organize Workers In China’s Gig Economy. Now He Faces 5 Years In Jail”, NPR, 13 de abril de 2021, www.npr.org/2021/04/13/984994360/he-tri… ; Matt Dagher-Margosian, “Free Mengzhu! An interview with Free Chen Guojiang 关注盟主”, Asia Art Tours, https://asiaarttours.com/free-mengzhu-an-interview-with-free-chen-guojiang-关注盟主/. Sobre casos semelhantes no passado, veja nosso artigo “Picking Quarrels” da segunda edição de nossa revista: https://chuangcn.org/journal/two/picking-quarrels/ .
  8. Os últimos relatórios dos direitos trabalhistas que monitoram o China Labour Bulletin no início de junho afirmam que ele ainda está detido. Consulte “Food delivery worker burns uniform in symbolic protest”, China Labour Bulletin, 8 de junho de 2021. clb.org.hk/content/food-delivery-worker… .
  9.  Consulte “No Way Forward, No Way Back” e “Gleaning the Welfare Fields” na edição 1 e “Picking Quarrels” na edição 2, ambos disponíveis aqui: https://chuangcn.org/journal .
  10. Sobre o discurso da “população de baixa renda” e sua popularização após a demolição de residências de baixo custo em Pequim em 2017, consulte: “Adding Insult to Injury: Beijing’s Evictions and the Discourse of Low-End Population”. https://chuangcn.org/2018/01/low-end-population/ .
  11. Para uma discussão de ambos, consulte: “Involution: Wildcat on China’s 2020”. https://chuangcn.org/2021/05/involution-wildcat-on-chinas-2020/ .
  12. Para uma análise das tendências de longo prazo, veja nossa análise em “Picking Quarrels,” citado acima. Exemplos de protestos de proprietários de casas podem ser encontrados diariamente online, para aqueles que procuram. Incidentes maiores às vezes são abordados em detalhes em publicações críticas para a China, como a Radio Free Asia, talvez uma vez por mês ou mais. Por exemplo, os residentes de um bairro em Chongqing entraram em confronto com mais de uma centena de policiais do choque em maio por causa de um conflito de longa data com autoridades que queriam estabelecer um escritório do governo local em sua comunidade residencial. Veja: “重庆 保 利 香雪 小区 爆发 大规模 抗暴 事件 业主 赶走 数百 名 黑衣 人” www.rfa.org/mandarin/yataibaodao/renqua…. A campanha de demolição do governo de Pequim no complexo de Xiangtang, nos subúrbios ao norte da cidade, foi relatada por vários veículos de língua inglesa. Por exemplo, consulte: “Residents Protest As China Demolishes Some Of Beijing’s Wealthy Suburbs”. www.npr.org/2021/01/26/960855956/reside….
  13. Veja nosso relatório recente sobre esses eventos: “Bombing the Headquarters: Desperate Measures in a Time of Involution”, Chuang Blog , 23 de maio de 2021. https://chuangcn.org/2021/05/bombing-headquarters/ .
  14. Veja “COVID-19 Severely Impacting Business: trade associations call for proportionate measures to get real economy back on track”, um comunicado de imprensa conjunto da Câmara de Comércio Alemã na China e da Câmara de Comércio da União Europeia em Câmara, 27 de fevereiro de 2020. china.ahk.de/news/news-details/covid-19….

​O Estado da Praga – Entrevista com coletivo Chuang ©, .

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Revista Tormenta #2 – 2021 https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/01/04/revista-tormenta-2-2021/ Tue, 04 Jan 2022 20:19:17 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2787 Continuar a ler "Revista Tormenta #2 – 2021"

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Esta é segunda edição da Revista Tormenta, que compila alguns dos principais artigos de análise, entrevistas e traduções que fizemos sobre as lutas sociais radicais no Brasil e outros países em 2021. Escrevemos ainda sob os efeitos da maior pandemia do século agravada por um dos governos mais desastrosos que já dominaram este território. Gostaríamos de estar aqui comentando os avanços das lutas antifascistas em 2021, mas os eventos nos limitam buscar ânimo e recuperar o fôlego depois que o potencial das mobilizações de rua se chocaram com os medos e de desejos legalistas de partidos e movimentos alinhados com a lei burguesa. Esses sim lutaram como nunca para pacificar as ruas. Entre sonhos de trazer uma imagem do passado de governos petistas e a falta de senso crítico, preferiram se juntar à direita e negociar a paz com a polícia. Vimos os atos antibolsonaristas serem rifados pelas frentes amplas de partidos e centrais sindicais. A criminalização, a agressão física e até a fabricação de “infiltrados” serviu para isolar qualquer forma de ação combativa, linhas de frente e blocos autônomos capazes de defender manifestantes e atacar as estruturas de poder capitalista e estatal.

Enquanto no oeste da Europa, ou países como Índia, Tunísia e Grécia, a ciência e o combate à pandemia são usados como pretexto para a repressão policial, por aqui a mentalidade obscurantista do governo faz uso de discursos anticientíficos (ou de uma metódica ciência eugenista) para deixar morrer centenas de milhares de pessoas de uma infecção evitável – que em seu segundo ano, não conta sequer com dados sobre infecções e hospitalizações transparentes. Como previmos, o governo de Jair Bolsonaro e seus militares segue inabalado apesar da CPI da Covid enumerar seus inúmeros crimes contra a vida e a deliberada propagação do vírus. Ainda que os governos de extrema-direita estejam perdendo tração e sendo derrotados nas urnas nos últimos dois anos, não podemos ter a esperança de que eleições eliminem o bolsonarismo e o fascismo da política, da polícia ou das ruas. Construir a luta radical, de base, direta e autônoma será necessário para provar mais uma vez que a institucionalidade e a democracia representativa nunca foram atalhos para uma transformação social real.

Esperar que um novo governo PT reproduza, no atual contexto de resseção e retração dos investimentos externos, a política econômica que aliviou a miséria de milhões no início dos anos 2000 é tão absurdo quanto esquecer o aumento de 620% do encarceramento, as UPPs, os desalojos de milhares de pessoas para obras da Copa e Olimpíadas, lei antiterrorismo, o uso do exército como polícia e toda a estrutura repressiva que o atual governo herdou – se alguém se espanta com o a atuação do General Heleno, atual ministro-chefe do GSI, deve lembrar dos massacres que ele comandou no Haiti em nome do governo Lula. A volta do PT ao governo pode afrouxar a corda nos nossos pescoços, mas a forca estará sempre montada para ser usada, especialmente quando a extrema-direita tomar o poder novamente.

Após o fracasso de Trump em se reeleger, da vitória de Boric no Chile e as pesquisas eleitorais apontarem Lula como favorito em 2022, é possível que vejamos os limites dos governos de aspiração fascista e estilo populista. O extremismo dos que se dizem “sem viés ideológico” carrega tanta ideologia que os torna capazes até de ignorar dados científicos primários – em vez de utilizá-los em prol da gestão neoliberal e se apresentarem como heróis com a solução para a pandemia. As mortes e prejuízos econômicos e diplomáticos dessa equação podem não ser capazes de manter o poder em suas mãos por muito tempo. No entanto, apesar da perícia petista em gestão, conhecemos bem os limites dos governos progressistas que falharam em sanar os efeitos catastróficos do neoliberalismo nas Américas nas últimas décadas. Enquanto buscam respeitar as leis e a etiqueta dos ritos democráticos, não conseguem competir com as paixões mobilizadas pela direita que declara abertamente seu ódio às minorias, afirma que opositores são inimigos e devem ser eliminados, que seus apoiadores devem se armar e que somente uma “guerra civil resolverá os problemas do país”.

O moralismo de esquerda ainda não é páreo para a radicalidade do pânico moral fascista. Muito menos para eliminar sozinho a estrutura mafiosa dos militares se mantiveram no poder ao fim da ditadura e construíram uma base miliciana, com grupos de extermínio e toda sorte de crime organizado que hoje celebra e se beneficia do governo Bolsonaro. Sabemos, também, que apesar das forças de centro-esquerda se colocarem como oposição ao bolsonarismo, sua possível volta ao governo servirá mais uma vez como recomposição das forças com a manutenção do pacto de pacificação e amansamento das possibilidades de insurreição. O plano deles é que “tudo mude” para que permaneça exatamente igual.

Podemos esperar um dos mais conflituosos anos eleitorais. A promessa de violência nas ruas para contestar qualquer resultado negativo nas urnas já está feita. E a demonstração de que há números e disposição para ocupar as ruas foi feita no último 7 de setembro. Subestimar o potencial de seus militantes mais fanáticos é ignorar a influência que a invasão do Capitólio em janeiro de 2021 pode ter sobre o bolsonarismo por aqui.

A eleição vai colocar como nunca esse embate à prova, às custas da pacificação de qualquer oposição radical nas ruas contra esse governo. Além de espalhar mais uma vez uma outra campanha para mostrar que existe ação política além do voto, devemos combater tanto a ordem que a esquerda neoliberal quer impor quanto o caos dentro da ordem que esse governo fascista quer fazer crescer. Não importa quem for eleito, seremos ingovernáveis!!


VÍDEO: FIM DE ANO / FIM DO MUNDO

Para enterrar esse ano e abrir um novo ciclo de lutas, aqui uma mensagem de ano novo do coletivo Antimídia, com quem tivemos a honra de colaborar em diversos vídeos em 2021:

Revista Tormenta #2 – 2021 ©, .

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DAS BARRICADAS #3 Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Editorial Piedemonte https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/06/29/das-barricadas-3-piedemonte/ Tue, 29 Jun 2021 13:57:43 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2537 Continuar a ler "DAS BARRICADAS #3 Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Editorial Piedemonte"

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Dando continuidade à série de entrevistas com pessoas e grupos tomando parte nos levantes no território colombiano em 2021, trazemos uma conversa com Editorial Piedemonte, de Bogotá, coletivo editorial subversivo dedicado à circulação de literatura libertária independente.

Nessa entrevista, terceira de uma série onde conversamos com coletivos atuando em solo colombiano, o coletivo aborda a atualidade do levante que já dura dois meses contra o governo de Ivan Duque e suas medidas tributárias neoliberais que afundam ainda mais na pobreza uma população já tão afetada pela pandemia da Covid-19. O saldo é brutal, com mais de 70 mortos e 300 desaparecidos oficialmente registrados nesses mais de 60 dias de greve geral. Ainda assim, o povo nas ruas prova que se submeter ao governo é mais perigoso do a pandemia. Sua bravura nas ruas levou ao cancelamento da Copa América, que foi transferida para o Brasil.

Que a sua coragem inspire nossas lutas contra o governo fascista de Jair Bolsonaro em nosso território.

Boa leitura, nos vemos nas ruas!

(Abajo, el texto en español.)


PORTUGUÊS

As notícias que nos chegam aqui no Brasil indicam que a insurreição que tomou as ruas se iniciou com uma luta contra a reforma tributária que o governo de Ivan Duque tentou implementar. Todavia, consideramos interessante levar em conta o contexto das lutas recentes nos territórios em que as insurreições acontecem, principalmente porque há menos de 2 anos as cidades colombianas já haviam sido local de manifestações multitudinárias e intensas. Sendo assim, gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre o processo de lutas que está ocorrendo no momento no território dominado pelo Estado colombiano e qual a relação com as lutas que antecederam esse momento.

O anúncio do pacote de reformas tributaria, trabalhista, da previdência e de saúde foi o ponto de ruptura definitivo de um precário equilíbrio na paciência dos povos que habitam estes territórios. De certo modo, os levantes recentes são uma continuação dos processos sociais desenvolvidos em 2019 contra a mesma violência neoliberal. As reformas, em termos gerais, propõem um aprofundamento dos processos de privatização da vida, ao que assistimos desde os anos 1980; um retrocesso nos direitos trabalhistas, civis e a restrição de acesso aos direitos mais fundamentais. Além disso, foi central nas manifestações populares de 2019 o rechaço à política de morte do Estado fascista colombiano: o assassinato sistemático de lutadorxs sociais (mal chamados pelos meios de “líderes sociais”) por parte das forças repressivas do Estado e dos grupos militares por meio dos quais se segue sustentando as oligarquias nestes territórios; o descumprimento dos acordos de paz firmados com a guerrilha marxista das FARC em 2016, após mais de 50 anos de insurgência, que prometiam uma reforma agrária, reparação às vítimas do conflito e reformas que de alguma maneira poderiam abrir outros cenários políticos; ademais, as lutas ambientais ganharam força nos tempos recentes ante o absoluto desprezo do Estado e do empresariado na Colômbia com toda a forma de vida não disciplinada e não produtiva. Da mesma forma, tornaram-se centrais nas lutas que ocorrem os primeiros projetos de fracking [perfuração do solo para extrair gás natural com grande impacto ambiental], a pulverização nas aéreas de cultivos de coca, os bosques e as regiões camponesas com glifosato, bem como a construção de represas e hidrelétricas que deslocam enormes populações humanas e não humanas de seus territórios.

As primeiras ações populares foram convocadas pelos setores que tradicionalmente ocuparam esse papel, o movimento estudantil e sindical reformista, e sob as estratégias e coreografias recorrentes no protesto social, como marchas e protestos nos centros das principais cidades, abaixo-assinados etc. Mas o próprio descontentamento popular rebaixou os limites destas organizações e produziu não somente outras formas de protesto, mas de organização. A forma das organizações de base, os espaços comunitários e os processos de educação popular, entre outros, nos setores marginalizados das cidades permitiram a emergência de outro tipo de situações. As cozinhas comunitárias organizadas espontânea e solidariamente, as assembleias populares autoconvocadas e as ações diretas, como bloqueios e a formação de “primeiras linhas” nos bairros, são mostras de outras potências a serem desenroladas na luta.

Gostaríamos de dizer que foi a pandemia (junto com as medidas fascistas-higienizantes) o que desarticulou essa revolta recente, mas a realidade foi que assistimos não somente a brutal repressão armada (com mais de 15 pessoas assassinadas pela polícia) e legal esperada por parte de uma ditadura, mas também o desgaste do movimento social em suas lutas e a cooptação dos protestos por parte dos sindicatos e organizações acomodadas e reformistas; a pandemia só impediu que reagíssemos com a velocidade suficiente e foram retomadas as ações que no início de 2020 começaram a decair.

Nos parece necessário também abordar os processos e ações em rechaço à brutalidade policial e à instituição depois de múltiplos abusos, jamais resolvidos, e não só no marco da mobilização social. Somente em 2020 a polícia cometeu dois massacres em Bogotá e territórios próximos. Em 4 de setembro 9 pessoas detidas em uma instalação policial em Soacha foram queimadas vivas, no que a polícia quis fazer parecer que foi um acidente ou um incêndio provocado por parte das pessoas detidas, para as quais foi negado ajuda. Em 8 de setembro Javier Ordoñez foi brutalmente assassinado por resistir a uma detenção arbitrária nas proximidades de sua casa, foi torturado em instalações da polícia. No dia seguinte o descontentamento popular se manifestou em boa parte dos bairros populares de Bogotá, sujeitos a violência sistemática da polícia, e foram destruídos vários pontos de vigilância da instituição em uma só noite. A resposta foi desmesurada, criminosa e grotesca, com 13 pessoas assassinadas pela polícia. Odiamos, cada vez mais, a polícia.

A greve geral convocada para 28 de abril deste ano atravessa todas essas lutas, alimentada também pela miséria absoluta imposta pelo Estado aos povos que vivem neste território durante a pandemia. A primazia do capital sobre toda forma de vida se expressou nos resgates aos bancos e empresas multimilionárias, na política de “austeridade” para o gasto social e no progressivo fortalecimento das criminosas formas repressivas do Estado, enquanto as pessoas passam fome nos bairros, nos campos e não há saúde ou educação decentes para quem não possa pagar. Essas revoltas e manifestações populares foram potencializadas e mantidas pela dignidade das organizações dos povos indígenas, sujeitos a um verdadeiro genocídio por ação e omissão por já há 500 anos. Sua capacidade de organização e confrontação tem sido profundamente relevante nos últimos acontecimentos.

Com isso queremos situar alguns dos pontos de apoio e tensões sobre os quais se mantém as lutas presentes.

O território conhecido como América do Sul possui um histórico bastante intenso de revoltas. Na última década, foram várias… podemos lembrar, por exemplo, da insurreição que tomou as ruas das cidades brasileiras em junho de 2013 ou do estallido social que se evidenciou no território chileno em outubro de 2019. Apesar de suas diferenças entre as forças envolvidas e dos efeitos produzidos, em geral diziam respeito a uma luta contra o aumento no custo de vida, o que significa diretamente uma luta pela vida e contra a miséria produzida pelo capitalismo e pelo Estado. E nos parece que a revolta que está ocorrendo no momento no território colombiano tem algumas características em comum. Como vocês analisam essa relação?

Acreditamos que é uma leitura precisa da situação, relacionar os levantes recentes de Abya Yala, contando também os de Equador e Bolívia, como parte de um mesmo sintoma. Os chamados “tarifaços” e “pacotaços” tem sido uma constante dos levantes populares recentes, e a partir desse primeiro rechaço começam a se manifestar realidades mais profundas e desejos que excedam as primeiras formulações desse descontentamento. Dizer “nossa luta é pela vida”, por mais essencialista que as vezes possa nos parecer, não é um slogan desproporcional quando nos deparamos com o empobrecimento permanente de nossas vidas nas engrenagens do trabalho e do desemprego, da violência, do disciplinamento e do espólio de toda forma vivente. Poderíamos reunir sob o rechaço radical ao neoliberalismo todas essas manifestações de descontentamento popular, mesmo que, em boa parte de maneira intuitiva. E aqui queremos insistir que boa parte das formas organizativas inéditas até agora são libertárias de maneira intuitiva, muitas delas baseadas no apoio mútuo e na autogestão das necessidades sem recorrer à organizações políticas tradicionais ou lideranças. Não podemos confiar cegamente nessas emergências, pois vimos como nesses espaços também podem surgir formas de poder autoritárias, mas queremos assinalar nelas a possibilidade de uma articulação e desenvolvimento das potências da prática anarquista, inclusive estando presente nestes territórios, ainda que de modo marginal.

No território dominado pelo Estado chileno, as forças moderadas tentaram colocar fim à revolta de 2019 com um processo constituinte, silenciando o fato de que centenas de compas ainda estão sequestradxs nas prisões, com penas que podem chegar a 15 anos, dezenas foram mortas e feridas. O processo ocorreu e mesmo com uma abstenção significativa, alguns setores consideraram uma vitória, como se a insurreição tivesse alcançado seu objetivo. Como vocês analisam essa tentativa de canalizar a revolta para as instituições?

Acreditamos poder ver uma constante nesse ponto inclusive com as diferenças entre os processos particulares. Sobre o caso chileno, compas anarquistas tem denunciado os interesses dos setores moderados e da própria direita na negociação da constituinte, sabem que a na vitória é melhor ficar em alerta (saben que sobre la victoria más vale estar en guardia). A tentativa de capitalizar os levantes como política eleitoral por parte de setores moderados ou de “centro” ainda encontra forte resistência nos territórios ocupados pelo estado colombiano, embora tenha começado a aparecer consignas lamentáveis do tipo “a revolução se faz nas urnas”. Nos preocupa a capacidade de captura que estes setores têm, no sentido em que não só silenciam de fato as vozes de desejos radicais dos levantes com seu manto de legitimidade democrática, como mencionam xs compas sobre o caso chileno, mas também fecham a possibilidade de debates reais e radicais que devem se dar para construir verdadeiros cenários de justiça e liberdade. A captura dos movimentos sociais por parte da institucionalidade é o aprisionamento de nossos sonhos de liberdade, representa a reviravolta para ajustar o intolerável deste sistema, abre caminho para sua Pax social. Falar de pactos sociais de reconciliação ou de “vitória” quando há companheirxs desaparecidxs, presxs, mortxs pelas mãos do estado e das oligarquias é um excesso e dá continuidade à repressão sistêmica.

Não se trata de querermos expressar nossa radicalidade pela via da negatividade absoluta, mas de que ainda há muito por se fazer. Nestes territórios, inclusive se a resistência decai, será implementada a retaliação aos elementos e setores dissidentes da sociedade pelos meios que já conhecemos. A desaparição forçada, a tortura, o encarceramento, o assassinato, não são práticas que o estado fascista colombiano tenha pudor em exercer jamais para manter sua forma; ademais, em relação às práticas de retaliação por parte do estado, é conhecida a sua associação perversa com grupos paramilitares e sua ação sistemática e sádica de eliminação de oponentes e de práticas que se oponham ou critiquem qualquer status quo imposto pelas oligarquias regionais, situação que deixa em completa ameaça xs companheiros que durante todo este tempo têm resistido. É necessário que estejamos atentxs ao que pode vir.

Toda nossa solidariedade às pessoas que sofrem em sua própria carne a violência da repressão, não façamos delxs mártires, xs queremos vivxs, alegres e resistindo nas ruas e nos campos.

A pandemia do Covid-19 tem afetado sobretudo as classes populares tanto em relação a morte por contágio quanto pelo aumento da miséria e piora nas condições de vida. Ao mesmo tempo, em algumas regiões a pandemia e o risco de infecção tem esvaziado as ruas e, de certo modo, funcionado como uma barreira para as mobilizações de rua multitudinárias. Como vocês analisam essa relação, já que a reforma tributária de Duque, por exemplo, afetaria diretamente o sistema de saúde colombiano?

Embora a pandemia, a possibilidade da própria doença, tenha mantido um grande número de pessoas fora das ruas por um tempo, a própria miséria produzida pelas insuficientes e violentas medidas do Estado as levaram às ruas para ganhar a vida, o medo de morrer de fome é maior o de morrer de uma doença desconhecida. O que foi inicialmente uma barreira também determinou a força do descontentamento social. Talvez nos setores mais abastados, que também fizeram parte do movimento social, o medo do contágio tenha sido maior, mas a indignação foi tanta que as ruas se encheram com mais força do que em 2019, sem paranoia viral. Ainda há massividade nas mobilizações e aparentemente o contágio em termos reais não aumentou como consequência. E sobre o absurdo e a violência da reforma fracassada do sistema de saúde, não pudemos fazer nada menos do que cuspir.

Nos chegam vários vídeos e imagens do terrorismo de Estado com assassinatos, torturas e outras formas de agressão por parte da polícia colombiana. Sabemos que isso não é um fato isolado, pois esta é uma ação regular de todos os Estados, sobretudo quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como se estrutura a policia colombiana e como tem sido o histórico de repressão policial às manifestações?

Nos territórios ocupados pelo estado colombiano a polícia é uma instituição militar, o contexto do conflito interno de mais de 60 anos de duração, somado às estratégias de contra-guerrilha orientadas pelos EUA e a Guerra contra as drogas tem feito a instituição parte do mesmo aparato. A polícia não responde em última instância à uma autoridade civil de Estado no Ministério do Interior, como fariam outras polícias, mas ao Ministério da Defesa (de Guerra). Parte das demandas de quem pretende uma reforma se centra neste fato estrutural, na desmilitarização da polícia. A doutrina do inimigo interior rege sobre todas as suas ações.

A midiatização dos assassinatos, torturas e demais incontáveis abusos por parte das forças repressivas do estado colombiano tem permitido não investigações legais aos responsáveis (demasiadamente inúteis sob a captura institucional do fascismo), mas a tomada de consciência massiva do agir criminoso da polícia, de maneira incontestável. As estratégias de manipulação dos meios de comunicação hegemônicos tem sido profundamente afetadas no interior destes territórios pelos relatos diretos das pessoas envolvidas nesses atos, inclusive sob a censura e o cerco midiático que nos foram impostos. Boa parte dos fatos registrados tem como responsável o Escuadrón Móvil Anti Disturbios (Esmad), criado em 99 como unidade de polícia destinada ao controle de manifestações com uso de armas “menos letais” e obedecendo os parâmetros internacionais de repressão na democracia. Em seus primeiros 20 anos de ação cometeu 59 assassinatos confirmados (pela mesma justiça estatal, fato não menor) no contexto das lutas sociais, além de mutilar, estuprar e ferir uma quantidade incalculável de pessoas. Muitos outros registros de brutalidade policial recentes se centram nas zonas próximas e no interior dos Centros de Atención Inmediata (CAI), utilizados como estações de patrulha e vigilância dentro dos bairros das cidades, e que tem operado como centros de tortura, estupros, capturas ilegais e assassinatos.

Existe algum debate sobre a autodefesa nas ruas? Existe algum debate dos movimentos e coletivos em relação a abolição da policia, por exemplo?

O rechaço à polícia se deslocou progressivamente dos “indivíduos isolados e corruptos” para a própria instituição. É óbvio que os setores moderados demandam do estado, não a abolição da polícia, mas uma reforma, pois veem nela uma instituição com funções sociais que nós não podemos jamais reconhecer. As pessoas e coletividades mais ou menos críticas que recebem alguma atenção por parte dos meios hegemônicos se expressam nesse sentido, tal como xs políticxs que se referem à necessidade de transformação da polícia e pedem a defesa e limpeza da própria instituição. Só no interior das coletividades antiautoritárias está se dando o debate em torno da abolição da polícia. Inclusive na demanda de várias das Primeiras Líneas está sendo pedido apenas uma reforma.

Sobre a autodefesa é um debate complexo, por uma parte desde o mesmo fato de nomear a prática em um contexto no qual os paramilitares e seu projeto fascista esvaziaram de potencia radical o próprio termo (nomeando-se Autodefensas Unidas de Colombia). Acreditamos que é um debate necessário, quando cresce a violência repressiva de maneira sistêmica, fazermos a pergunta sobre a necessidade e as formas de nos protegermos de maneiras não somente defensivas. As Primeras Líneas são uma mostra do debate em cenários amplos, em 2019 o exercício começou em setores estudantis não habituados ao uso da violência, sem conhecimentos práticos para exercê-la ou realmente se defender dela para além de capacetes e escudos, organizadxs sobre um discurso de defesa e, muitas vezes, devemos lembrar, em oposição às práticas e identidades de grupos que reivindicam a ação direta e a violência desde distintos lugares da radicalidade já há tempos. Nestes dois anos, as práticas das Primeras Líneas têm se transformado, se compreendeu à força sobre a capacidade de resposta à repressão estatal. Mesmo que o debate vá para além dos cenários de defesa nas mobilizações, acreditamos que na maioria dos casos não está presente fora destas perspectivas.

Por fim, nos interessa muito as diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Portanto, gostaríamos que vocês falassem um pouco sobre as forças envolvidas nas lutas anárquicas da região colombiana.

Nestas terras não existiu historicamente um movimento anarquista de massas, como no Brasil, na Bolívia, no Chile ou na Argentina, mas tem estado presente ao longo de todos os levantes e protestos desde o início do século XX. O anarquismo está presente de forma marginal nas lutas operárias, nas individualidades que entraram ou saíram dos processos guerrilheiros, no trabalho de artistas, jornalistas, algumas editoras, organizações educativas, grupos de combate de rua e ação direta, bem como demais manifestações de desejo por outros mundos. Assistimos nestas insurreições também a proliferação de ideias e pulsões anarquistas, os cenários de agitação de difusão do pensamento ácrata tem sido menos relevantes que as ações que os grupos tem impulsionado acompanhando estes processos de lutas sociais. Tem sido por meio das práticas que proliferam as ideias e se fortalecem. O acompanhamento e promoção de assembleias locais e populares, as campanhas de solidariedade com xs companheirxs em luta através da arrecadação de fundos, alimentos e insumos de primeiros socorros, o trabalho educativo e organizativo dos coletivos de Educação Popular e a beleza das cozinhas populares, que nos reúnem em torno do alimento para seguir resistindo, são algumas destas práticas que fazem visíveis as forças vivas do anarquismo em momentos como o atual. Apesar do anarquismo seguir sendo uma ideia marginal na prática política, são muitas as individualidades e coletivos voltados para a ação desde práticas antiautoritárias, solidárias e autogeridas.

Por isso, agradecemos a solidariedade que representa esta entrevista, a escuta e difusão em outras regiões golpeadas como nós por esta miséria e de pé, como nós, contra ela. Esperamos que o que tenhamos a dizer daqui pra frente nos distancie cada vez mais da denúncia e que possamos falar com mais força do que conseguimos, do que faremos nosso com nossas próprias forças.

Que viva a anarquia!


PARA SABER MAIS:

Colômbia Perdeu o Medo – A Revolta Segue em Todo o País Enfrentando a Violência de Estado

Video: Revolta e repressão na Colombia, por coletivos Antimídia e Submedia

DAS BARRICADAS #1: MUROS QUE GRITAM, PEDRAS QUE VOAM – entrevista com Taller la Parresia sobre o levante na Colômbia

DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo


EN ESPAÑOL

Las noticias que nos llegan indican que la insurrección que tomó las calles comenzó con una lucha contra la reforma tributaria que el gobierno de Iván Duque intentó aplicar . Sin embargo, nos parece interesante tener en cuenta el contexto de las recientes luchas en los territorios donde se producen las insurrecciones, sobre todo porque hace menos de dos años las ciudades colombianas ya habían sido escenario de masivas e intensas manifestaciones. Por lo tanto, nos gustaría que comentaras un poco sobre el proceso de luchas que se está dando actualmente en el territorio dominado por el Estado colombiano y cuál es la relación con las luchas que precedieron a este momento.

El anuncio del paquete de reformas, tributaria, laboral, pensional y de salud, fue el punto de quiebre definitivo de un precario equilibrio en la paciencia de los pueblos que habitan estos territorios. De cierta manera, los levantamientos recientes son una continuación de los procesos sociales desarrollados en el 2019 contra la misma violencia neoliberal. Las reformas, en términos generales, proponen una profundización de los procesos de privatización de la vida, a los que asistimos desde los años 80; un retroceso en los derechos laborales, civiles y la restricción del acceso a los derechos más fundamentales. Además de ello, fue central en las manifestaciones populares del 2019 el rechazo a la política de muerte del Estado fascista colombiano: el asesinato sistemático de luchadorxs sociales (mal llamadxs por los medios “líderes sociales”) por parte de las fuerzas represivas del estado y los grupos paramilitares por medio de los cuales se siguen sustentando las oligarquías en estos territorios; el incumplimiento de los acuerdos de paz firmados con la guerilla marxista de las FARC en 2016, tras más de 50 años de insurgencia, que prometían una reforma agraria, reparación a las víctimas del conflicto y reformas que de alguna manera podrían abrir otros escenarios políticos; además, las luchas ambientales han cobrado fuerza en los tiempos recientes ante el absoluto desprecio del estado y el empresariado en colombia hacia toda forma de vida no disciplinada y no productiva, asimismo los primeros proyectos de fracking,la fumigación aérea de los cultivos de coca,los bosques y el campesinado con glifosato, y la construcción de represas e hidroeléctricas que desplazan inmensas poblaciones humanas y no humanas de sus territorios, se han hecho una parte central de las luchas que nos convocan.

Las primeras acciones populares fueron convocadas por los sectores que tradicionalmente han ocupado ese papel, el movimiento estudiantil y sindical reformista, y bajo las estrategias y coreografías recurrentes en la protesta social, como marchas y plantones hacia el centro de las ciudades principales, pliegos de peticiones, etc. Pero el propio descontento popular rebasó los límites de estas organizaciones y produjo no sólo otras formas de protesta sino de organización. La fuerza de las organizaciones de base, los espacios comunitarios y los procesos de educación popular, entre otros, en los sectores marginalizados de las ciudades, permitieron la emergencia de otro tipo de situaciones. Las ollas populares organizadas espontánea y solidariamente, las asambleas populares autoconvocadas y las acciones directas, como los bloqueos y la formación de “primeras líneas” en los barrios son muestra de otras potencias a ser desarrolladas en la lucha.

Nos gustaría decir que fue la pandemia (junto con las medidas fascisto-higienizantes) lo que desarticuló esta revuelta reciente, pero la realidad fue que asistimos no sólo a la brutal represión armada (con más de 15 personas asesinadas por la policía) y legal esperada por parte de una dictadura, sino al desgaste del movimiento social en sus luchas y a la cooptación de la protesta por parte de los sindicatos y organizaciones acomodadas y reformistas; la pandemia sólo impidió que reaccionáramos con la velocidad suficiente y fueran retomadas las acciones que a comienzos del 2020 comenzaban a decaer.
Nos parece necesario también abordar los procesos y acciones en rechazo a la brutalidad policial y la institución después de los múltiples abusos, jamás resueltos, y no sólo en el marco de la movilización social. Sólo en el 2020 la policía cometió dos masacres en Bogotá y territorios cercanos, el 4 de septiembre fueron quemadas vivas 9 personas detenidas en una instalación policial en Soacha, en lo que la policía ha querido hacer parecer como un accidente o un incendio provocado por parte de las personas detenidas, a las cuales se les negó el auxilio. El 8 de septiembre fue brutalmente asesinado Javier Ordoñez por resistirse a una detención arbitraria en las cercanías de su vivienda y torturado en instalaciones de la policía. Al día siguiente, el descontento popular se manifestó en buena parte de los barrios populares de Bogotá, sujetos a la violencia sistemática de la policía, y fueron destruidos varios de los puntos de vigilancia de la institución en una sola noche. La respuesta fue desmesurada, criminal y grotesca, 13 personas asesinadas por la policía. Odiamos, cada vez más entre nosotrxs, a la policía.

La huelga general convocada para el 28 de abril de este año recoge todas estas luchas, alimentada además por la miseria absoluta impuesta por el Estado durante la pandemia a los pueblos que habitamos estos territorios. La primacía del capital sobre toda forma de vida ha sido expresada en los rescates a los bancos y empresas multimillonarias, en la política de “austeridad” para el gasto social y en el progresivo fortalecimiento de las criminales fuerzas represivas del estado, mientras la gente pasa hambre en los barrios, en los campos y no hay salud o educación decentes para quien no pueda pagarlas. Estas revueltas y protestas populares han sido además potenciadas y mantenidas por la dignidad de las organizaciones de los pueblos indígenas, sujetos a un verdadero genocidio por acción y omisión desde hace 500 años. Su capacidad de organización y confrontación ha sido profundamente relevante en los hechos recientes.
Con esto queremos situar algunos de los puntos de apoyo y tensiones sobre los cuales se mantienen las luchas presentes.

El territorio conocido como Sudamérica tiene una historia muy intensa de revueltas. En la última década ha habido varias… podemos recordar, por ejemplo, la insurrección que tomó las calles de las ciudades brasileñas en junio de 2013 o el llamado estallido social que se hizo evidente en territorio chileno en octubre de 2019. A pesar de sus diferencias entre las fuerzas implicadas y los efectos producidos, en general se trataba de una lucha contra el aumento del coste de la vida, lo que significa directamente una lucha por la vida y contra la miseria producida por el capitalismo y el Estado. Y nos parece que la revuelta que se está ocurriendo actualmente en territorio colombiano tiene algunas características en común. ¿Cómo analizan esta relación?

Creemos que es una lectura precisa de la situación, el relacionar los levantamientos recientes de Abya Yala, contando también los de Ecuador y Bolivia, como parte de un mismo síntoma. Los llamados “tarifazos” y “paquetazos” han sido una constante de los levantamientos populares recientes, y a partir de ese primer rechazo comienzan a manifestarse realidades más profundas y deseos que exceden las primeras formulaciones de ese descontento. Decir “nuestra lucha es por la vida”, por más esencialista que pueda a veces parecernos, no es una consigna desproporcionada cuando nos enfrentamos al empobrecimiento permanente de nuestras vidas en los engranajes del trabajo y el desempleo, de la violencia, el disciplinamiento y el despojo de toda forma viviente. Podríamos reunir bajo el rechazo radical del neoliberalismo a todas estas manifestaciones de descontento popular, aunque aún en buena parte, de manera intuitiva. Y aquí quisiéramos insistir en que buena parte de las formas organizativas inéditas hasta ahora en estos escenarios son libertarias de manera intuitiva, muchas de ellas basadas en el apoyo mutuo y la autogestión de las necesidades sin recurrir a organizaciones políticas tradicionales o a liderazgos. No podemos confiar ciegamente en estas emergencias, porque hemos visto cómo en estos espacios también pueden surgir formas de poder autoritarias, sino queremos señalar en ellas la posibilidad de una articulación y desarrollo de las potencias de la práctica anarquista, incluso siendo su presencia en estos territorios todavía marginal.

En el territorio dominado por el Estado chileno, las fuerzas moderadas intentaran poner fin a la revuelta de 2019 con un proceso constituyente, silenciando el facto de que centenas de compas aún están secuestradxs en las prisiones, con condenas que pueden llegar hasta 15 años, decenas fueran muertas y heridas. El proceso ocurrió y mesmo con una abstención significativa, algunos sectores consideraran una victoria, como se la insurrección tuviese alzado su objetivo. Como ustedes analizan esta tentativa de canalizar la revuelta a las instituciones?

Creemos poder ver una constante en ello, incluso con las diferencias entre los procesos particulares. Sobre el caso chileno, lxs compañerxs anarquistas han denunciado los intereses de los sectores moderados y de la propia derecha en la negociación de la constituyente, saben que sobre la victoria más vale estar en guardia. El intento de capitalizar los levantamientos en la política electoral por parte de sectores moderados o “de centro” es aún resistido con fuerza en los territorios ocupados por el estado colombiano, aunque han comenzado a aparecer consignas lamentables del tipo “la revolución es en las urnas”. Nos preocupa la capacidad de captura que tienen estos sectores, en el sentido en que no sólo silencian de facto las voces y deseos radicales de los levantamientos con su manto de legitimidad democrática, como mencionan lxs compas para el caso chileno, sino que también cierran la posibilidad de debates reales y radicales que han de darse para construir verdaderos escenarios de justicia y libertad. La captura de los movimientos sociales por parte de la institucionalidad es la clausura de nuestros sueños de libertad, representa la vuelta de tuerca para ajustar lo intolerable de este sistema, abre el camino para su Pax social. Hablar de pactos sociales de reconciliación o de “victoria” cuando hay compañerxs desaparecidxs, encarceladxs, muertxs a manos del estado y las oligarquías, es un exceso y continúa con la sistematicidad de la represión. No se trata de que queramos expresar nuestra radicalidad por la vía de la negatividad absoluta sino de que hay aún mucho por hacer.

En estos territorios, incluso si decae la resistencia, será implementada la retaliación a los elementos y sectores disidentes de la sociedad por los medios que ya conocemos. La desaparición forzada, la tortura, el encarcelamiento, el asesinato no son prácticas que el estado fascista colombiano haya tenido pudor en ejercer jamás para mantener su forma; además,en relación con éstas prácticas de retaliación de parte del estado, es conocida la manguala perversa con grupos paramilitares y su accionar de eliminación sistemática y sádica de contradictores y prácticas que se opongan o critiquen cualquier statu quo impuesto por las oligarquías regionales, situación que deja en completa vulnerabilidad a lxs compañerxs que duranten todo este tiempo han resistido. Es necesario que estemos atentxs a lo que puede venir.

Toda nuestra solidaridad para quienes hoy sufren en carne propia la violencia de la represión, no hagamos de ellxs mártires, lxs queremxs vivxs, alegres y resistiendo en las calles y los campos.

La pandemia de Covid-19 ha afectado, sobre todo, a las clases populares tanto por el número de muertes como por el aumento de la miseria y el empeoramiento de las condiciones de vida. Al mismo tiempo, el riesgo de infección ha vaciado las calles en algunas regiones y ha actuado como una barrera para las grandes movilizaciones callejeras. ¿Cómo analiza esta relación, ya que una de las reformas que Duque pretende implementar afectaría directamente al sistema de salud colombiano?

Si bien la pandemia, la posibilidad de la enfermedad en sí, mantuvo a un gran número de personas fuera de las calles durante un tiempo, la propia miseria producida por las medidas insuficientes y violentas del Estado las llevaron a la calle a buscarse la vida, siendo mayor el miedo a morir de hambre que de una enfermedad desconocida. Lo que en un principio fue una barrera determinó también la fuerza del descontento social. Quizás en sectores más acomodados, que también han sido parte del movimiento social, el miedo al contagio ha sido mayor pero ha sido tal la indignación que las calles se han llenado con más fuerza que en el 2019, sin paranoias virales. Hay aún masividad en las movilizaciones y al parecer el contagio en términos reales no ha incrementado por ello.

Y sobre el absurdo y la violencia de la fallida reforma a la salud no podríamos menos que escupir.

Hemos recibido varios videos e imágenes de terrorismo de Estado con asesinatos, torturas y otras formas de agresión por parte de la policía colombiana. Sabemos que no se trata de un hecho aislado, ya que es una acción habitual de todos los Estados, especialmente cuando una movilización ataca el orden y la paz de los ricos. ¿Cómo está estructurada la policía colombiana y cuál ha sido la historia de la represión policial contra las manifestaciones?

En los territorios ocupados por el estado colombiano la policía es una institución militar, el contexto del conflicto interno con más de 60 años de duración, sumado a las estrategias de contraguerrilla orientadas por EEUU y la Guerra contra las drogas, han hecho de la institución parte del mismo aparato. La policía no responde en última instancia a la autoridad civil del Estado en el Ministerio del Interior, como harían otras policías, sino al Ministerio de Defensa (de Guerra). Parte de las demandas de quienes pretenden una reforma se centran en este hecho estructural, en la desmilitarización de la policía. La doctrina del enemigo interno rige sobre todo su accionar.

La mediatización de los asesinatos, torturas y demás incontables abusos por parte de las fuerzas represivas del Estado colombiano ha permitido no investigaciones legales a los responsables (inútiles por demás bajo la captura institucional del fascismo) sino la toma de conciencia masiva del accionar criminal de la policía, de manera incontestable. Las estrategias de manipulación de los medios de comunicación hegemónicos han sido profundamente afectadas al interior de estos territorios por los testimonios directos de las personas involucradas en estos hechos, incluso bajo la censura y el cerco mediático que nos han sido impuestos. Buena parte de los hechos registrados tienen como responsable al Escuadrón Móvil Anti Disturbios (Esmad), creado en el 99 como unidad de policía destinada al control de las manifestaciones con el uso de armas “menos letales” y obedeciendo los estándares internacionales de represión en democracia. En sus primeros 20 años de acción cometió 59 asesinatos confirmados (por la misma justicia estatal, hecho no menor) en el contexto de la protesta social, además de mutilar, violar y herir a una cantidad incalculable de personas. Muchos otros de los registros de brutalidad policial en el marco actual se centran en zonas cercanas y al interior de los Centros de Atención Inmediata (CAI) apostados como estaciones de patrullaje y vigilancia al interior de los barrios en las ciudades, y que han operado como centros de tortura, violación, capturas ilegales y asesinato.

¿Hay algún debate sobre la autodefensa en las calles? ¿Hay algún debate por parte de los movimientos y colectivos sobre la abolición de la policía, por ejemplo?

El rechazo a la policía se ha desplazado progresivamente de los “individuos aislados y corruptos” a la propia institución. Es claro que los sectores moderados demandan del Estado, no la abolición de la policía, sino una reforma, porque ven en ella una institución con funciones sociales que nosotrxs no podemos reconocer jamás. Las personas y colectividades más o menos críticas que reciben alguna atención por parte de los medios hegemónicos se expresan en este sentido, al igual que lxs políticxs que se refieren a la necesidad de la transformación de la policía y piden la defensa y limpieza de la propia institución. Sólo al interior de las colectividades antiautoritarias se está dando el debate en torno a la abolición de la policía. Incluso en las demandas de varias de las Primeras Líneas se está pidiendo apenas una reforma.

Sobre la autodefensa, el debate es complejo, por una parte desde el mismo hecho de nombrar la práctica, en un contexto en donde los paramilitares y su proyecto fascistizante vaciaron de potencia radical a la palabra misma(nombrándose Autodefensas Unidas de Colombia). Creemos que es un debate necesario, cuando crece la violencia represiva de manera sistemática, hacernos la pregunta sobre la necesidad y las formas de protegernos de maneras no sólo defensivas. Las Primeras Líneas son una muestra del debate en escenarios amplios, en el 2019 el ejercicio comenzó desde sectores estudiantiles no habituados al uso de la violencia, sin conocimientos prácticos para ejercerla o defenderse realmente de ella, más allá de algunos cascos y escudos y organizadxs bajo un discurso de defensa, y muchas veces, debemos recordarlo, en oposición a las prácticas e identidades de grupos que reivindican la acción directa y la violencia desde distintos lugares de la radicalidad desde hace ya tiempo. En estos dos años, las prácticas de las Primeras Líneas se han transformado, se ha comprendido, a las malas, la necesidad de la capacidad de respuesta a la represión estatal. Aunque el debate va más allá de los escenarios de defensa de las movilizaciones, creemos que en la mayoría de escenarios no está presente aún fuera de estas perspectivas.

Por último, nos interesan mucho las diferentes expresiones del anarquismo en la región conocida como Sudamérica. Así que nos gustaría que hablaras un poco sobre las fuerzas involucradas en las luchas anárquicas en la región colombiana.

En estas tierras no ha existido históricamente un movimiento de masas anarquista, como en Brasil, Bolivia, Chile o Argentina, pero ha estado presente a lo largo de todos los levantamientos y protestas desde principios del siglo XX. El anarquismo ha estado presente de forma marginal en las luchas obreras, en individualidades que entraron o salieron de los procesos guerrilleros, en el trabajo de artistas, periodistas, algunas editoriales, organizaciones educativas, grupos de combate callejero y acción directa y demás manifestaciones del deseo por otros mundos. Asistimos en estos estallidos también a la proliferación de ideas y pulsiones anarquistas, los escenarios de agitación y difusión del pensamiento ácrata han sido menos relevantes que las acciones que los grupos han impulsado acompañando estos procesos de luchas sociales, ha sido a través de las prácticas que proliferan las ideas y se hacen fuertes. El acompañamiento y promoción de asambleas locales y populares, las campañas de solidaridad con lxs compañerxs en lucha a través de la recolección de fondos, alimentos e insumos de primeros auxilios, el trabajo pedagógico y organizativo de los colectivos de Educación Popular y la belleza de las ollas populares, que nos reúnen en torno al alimento para seguir resistiendo, son algunas de estas prácticas que hacen visibles las fuerzas vivas del anarquismo en escenarios como el actual.

Pese a que el anarquismo sigue siendo una idea marginal en la práctica política, son muchas las individualidades y colectivos volcados a la acción desde prácticas antiautoritarias, solidarias y autogestivas.

Por ello agradecemos la solidaridad que representa esta entrevista, la escucha y difusión en otras regiones golpeadas como nosotrxs por esta miseria y de pie, como nosotrxs, contra ella. Esperamos que lo que tengamos que decir de aquí en adelante nos distancie cada vez más de la denuncia y podamos hablar con más fuerza de lo que hemos logrado, de lo que haremos nuestro con nuestras propias fuerzas.

¡Que viva la anarquía!

DAS BARRICADAS #3 Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Editorial Piedemonte ©, .

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DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/06/02/union-libertaria-estudiantil-y-del-trabajo/ Wed, 02 Jun 2021 13:46:28 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2507 Continuar a ler "DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo"

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Esta é a segunda parte de uma série de entrevistas com individualidades, coletivos e organizações anárquicas de diferentes regiões do território dominado pelo estado colombiano.

Dessa vez com a Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo.


As notícias que nos chegam aqui indicam que a insurreição que tomou as ruas se iniciou com uma luta contra a reforma tributária que o governo de Ivan Duque tentou implementar. Todavia, consideramos interessante levar em conta o contexto das lutas recentes nos territórios em que as insurreições acontecem, principalmente porque há menos de 2 anos as cidades colombianas já haviam sido local de manifestações multitudinárias e intensas. Sendo assim, gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre o processo de lutas que está ocorrendo no momento no território dominado pelo Estado colombiano e qual a relação com as lutas que antecederam esse momento.

As lutas de cada território estão sujeitas ao contexto, aos costumes e às necessidades de cada lugar, já que isso influência no pensamento e na posição política de cada habitante. O entorno de rebeldia que estamos vivendo desde 28 de abril deste ano se dá pela acumulação de exigências e demandas que foram feitas nos anos anteriores em cada uma das regiões. As demandas dos trabalhadores, estudantes, camponeses, indígenas, mulheres e dissidências sexuais seguem sendo as mesmas que há 20 anos. As pessoas viram ser traída a sua confiança não apenas no governo de Ivan Duque, esse é um problema de tempos atrás, com a diferença de que no período do atual presidente a violência estatal aumentou, a precarização do trabalho está mais vigente que nunca.

A confiança traída pela burocracia sindical nas manifestações anteriores tem sido o detonador para que a população colombiana inicie sua organização mediante assembleias, que apensar de não serem reconhecidas como um instrumento legítimo dentro da estrutura política do país, é sim um instrumento no qual o povo se sente representado.

O território conhecido como América do Sul possui um histórico bastante intenso de revoltas. Na última década, foram várias… podemos lembrar, por exemplo, da insurreição que tomou as ruas das cidades brasileiras em junho de 2013 ou do estallido social que se evidenciou no território chileno em outubro de 2019. Apesar de suas diferenças entre as forças envolvidas e dos efeitos produzidos, em geral diziam respeito a uma luta contra o aumento no custo de vida, o que significa diretamente uma luta pela vida e contra a miséria produzida pelo capitalismo e pelo Estado. E nos parece que a revolta que está ocorrendo no momento no território colombiano tem algumas características em comum. Como vocês analisam essa relação?

Os povos do mundo inteiro têm uma luta em comum, cujo horizonte é a liberdade e a dignidade. No caso da América do Sul temos em comum, além dos aspectos já mencionados, a invasão europeia disfarçada de descobrimento, que levou ao quase extermínio total das populações indígenas que habitavam esta parte do mundo. O ar de luta que se respira no sul do continente é parte de um exercício de memória das novas gerações e a luta contra o silêncio que no qual os mais velhos tiveram que padecer. A luta é pela liberação do continente invadido por europeus e pelas políticas inumadas do Estado norte-americano.

Por outro lado, as redes sociais têm nos permitido conhecer táticas de luta e organização utilizadas em outros países, o que levou à criação das chamadas primeiras, segundas, terceiras e quartas linhas de defesa e luta durante as manifestações.

A pandemia do Covid-19 tem afetado sobretudo as classes populares tanto em relação a morte por contágio quanto pelo aumento da miséria e piora nas condições de vida. Ao mesmo tempo, em algumas regiões a pandemia e o risco de infecção tem esvaziado as ruas e, de certo modo, funcionado como uma barreira para as mobilizações de rua multitudinárias. Como vocês analisam essa relação, já que a reforma tributária de Duque, por exemplo, afetaria diretamente o sistema de saúde colombiano?

Embora seja verdade que Covid-19 é um vírus que se tornou uma pandemia, não devemos desconhecer o uso que o Estado tem dado a ele como mecanismo de controle da população. Devo esclarecer que o sistema de saúde colombiano sempre foi uma miséria, os trabalhadores da saúde não tem condições laborais dignas. Somado a isso, monopólios burgueses fizeram da saúde do povo colombiano um negócio, portanto as classes populares tiveram de escolher entre a morte por Covid ou a morte por fome, sendo obrigadas a sair para trabalhar de maneira informal e expor suas vidas.

Quero informar com grande alegria que a reforma de saúde que o governo pretendia implantar foi derrubada graças às manifestações que, em muitos casos, as pessoas deram suas vidas nas ruas.

Nos chegam vários vídeos e imagens do terrorismo de Estado com assassinatos, torturas e outras formas de agressão por parte da polícia colombiana. Sabemos que isso não é um fato isolado, pois esta é uma ação regular de todos os Estados, sobretudo quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como se estrutura a policia colombiana e como tem sido o histórico de repressão policial às manifestações?

A polícia colombiana está configurada de maneira hierárquica. No escalão mais alto se encontram os oficiais, seguido de suboficiais e por último ficam os agentes e soldados de patrulha dessa instituição. O corpo armado segue as indicações do Ministério da Defesa.

As manifestações são reprimidas principalmente por um setor da polícia chamado ESMAD (Escuadrón Móvil Anti Disturbios), armado com trajes blindados, escudos, capacetes e armas letais. Apesar de o Ministério da Defesa afirmar que a polícia atua sob todos os protocolos estabelecidos, nas manifestações temos companheiras e companheiros assassinados por esse esquadrão, com ações que vão desde armas de fogo até morte por espancamento. O ESMAD foi implementado na prefeitura de Andrés Pastrana em Bogotá como uma medida temporária, isso já faz 22 anos. Ao que parece, não foi nada temporário.

A maior parte da repressão foi vivida pelo movimento estudantil, desde aproximadamente os anos 60 do século passado se registram mortes em manifestações. Cabe ressaltar que os policiais contam com grande impunidade e encobrimento do Estado.

Existe algum debate sobre a autodefesa nas ruas? Existe algum debate dos movimentos e coletivos em relação a abolição da policia, por exemplo?

O debate geralmente se dá entre a autodefesa popular e as classes altas que sempre vem com maus olhos quando o silêncio da miséria é interrompido nas ruas. Nos bairros populares sempre se sofreu o abuso policial, portanto a defesa dos manifestantes frente aos corpos policiais sempre é justificada e aprovada pelos manifestantes, ainda que as vezes haja certas discordâncias. A ação direta das pessoas se dá como resposta à repressão policial.

A reforma policial sempre é um perigo nas petições das assembleias, até agora temos 52 pessoas mortas nas ruas, esperamos desta vez conseguir se não a abolição desse corpo de assassinos, ao menos levar a cabo uma reforma. Devemos isso às pessoas que já não estão mais entre nós.

Por fim, nos interessa muito as diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Portanto, gostaríamos que vocês falassem um pouco sobre as forças envolvidas nas lutas anárquicas da região colombiana.

A anarquia na Colômbia tem uma grande história, mas foi apagada pelas versões oficiais, incluindo a do Partido Comunista. A Greve das Bananeiras, Ferroviários e o Grêmio Petroleiro do século passado foi movida por anarquistas. O pensamento libertário é muito comum entre a juventude colombiana, ainda que se deva reconhecer que existem algumas carências de organização. Isso tem mudado nas manifestações atuais, o povo responde com uma estrutura horizontal, dada de maneira espontânea e instintiva.

Enquanto ULET, estamos influenciados sobretudo pelo anarcossindicalismo de origem espanhola, mas não desconhecemos que estamos em um contexto totalmente diferente e que nossa prática deve estar de acordo com o território em que vivemos e lutamos.

Não é equivocado dizer que as manifestações que se vivem na atualidade aqui na Colômbia sejam de caráter anarquista, mesmo que não recebam tal etiqueta. O clamor popular se acumula por meio de assembleias e horizontalidade nos diferentes espaços.

PARA SABER MAIS:

DAS BARRICADAS #1: MUROS QUE GRITAM, PEDRAS QUE VOAM – entrevista com Taller la Parresia sobre a insurreição na região colombiana

Colômbia Perdeu o Medo – A Revolta Segue em Todo o País Enfrentando a Violência de Estado

Video: Revolta e repressão na Colombia, por coletivos Antimídia e Submedia


Abajo, la versión original de la entrevisa en español.

Las noticias que nos llegan indican que la insurrección que tomó las calles comenzó con una lucha contra la reforma tributaria que el gobierno de Iván Duque intentó aplicar . Sin embargo, nos parece interesante tener en cuenta el contexto de las recientes luchas en los territorios donde se producen las insurrecciones, sobre todo porque hace menos de dos años las ciudades colombianas ya habían sido escenario de masivas e intensas manifestaciones. Por lo tanto, nos gustaría que comentaras un poco sobre el proceso de luchas que se está dando actualmente en el territorio dominado por el Estado colombiano y cuál es la relación con las luchas que precedieron a este momento.

Las luchas de cada territorio están sujetas al contexto, costumbres y necesidades de cada lugar, ya que esto influye en el pensamiento y posición política de cada habitante. El entorno de rebeldía que estamos viviendo desde el 28 de abril del presente año se da por la acumulación de exigencias y peticiones que se habían dado en años anteriores en cada una de las regiones. Las demandas de los obreros, estudiantes, campesinos, indígenas, mujeres y disidencias sexuales siguen siendo las mismas que hace mas de 20 años. Las personas han visto traicionada su confianza no solo en el gobierno de Ivan Duque, este es un problemas de tiempo atrás, con la diferencia en que en el periodo del actual presidente la violencia Estatal ha crecido, la precarización laboral esta más vigente que nunca.

La confianza traicionada por la burocracia estatal en anteriores protestas ha sido el detonante para que la población colombiana inicie su organización mediante asambleas, que si bien no son reconocidas como un instrumento legitimo dentro de la estructura política que tiene el país si es una instrumento en el que el pueblo se siente representado.

El territorio conocido como Sudamérica tiene una historia muy intensa de revueltas. En la última década ha habido varias… podemos recordar, por ejemplo, la insurrección que tomó las calles de las ciudades brasileñas en junio de 2013 o el llamado estallido social que se hizo evidente en territorio chileno en octubre de 2019. A pesar de sus diferencias entre las fuerzas implicadas y los efectos producidos, en general se trataba de una lucha contra el aumento del coste de la vida, lo que significa directamente una lucha por la vida y contra la miseria producida por el capitalismo y el Estado. Y nos parece que la revuelta que se está ocurriendo actualmente en territorio colombiano tiene algunas características en común. ¿Cómo analizan esta relación?

Los pueblos del mundo entero tienen una lucha en común, cuyo horizonte es la libertad y la dignidad. En el caso de Sudamérica tenemos en común además de los dos aspectos anteriormente mencionados, la invasión europea disfrazada de descubrimiento que lleva a casi el total exterminio de las poblaciones indígenas que habitante para aquella época esta parte del mundo. El aire de lucha que se respira en el sur del continente es parte de un ejercicio de memoria de las nuevas generaciones y la lucha contra el silencia que tuvieron que padecer los mayores. La lucha es por la liberación del continente invadido por europeos y víctima de políticas inhumanas del Estado Norteamericana.

Por otro lado, las redes sociales nos han permitido conocer tácticas de luchas y organización empleadas en otros países, lo que ha llevado a la creación de las primeras, segunda, tercera y cuarta línea de defensa y luchas durante las manifestaciones.

La pandemia de Covid-19 ha afectado, sobre todo, a las clases populares tanto por el número de muertes como por el aumento de la miseria y el empeoramiento de las condiciones de vida. Al mismo tiempo, el riesgo de infección ha vaciado las calles en algunas regiones y ha actuado como una barrera para las grandes movilizaciones callejeras. ¿Cómo analiza esta relación, ya que una de las reformas que Duque pretende implementar afectaría directamente al sistema de salud colombiano?

Si bien es cierto que el COVID-19 es un virus hecho pandemia, no debemos desconocer el uso que el Estado ha dado a este como mecanismo de control de la población. Debo aclarar que el sistema de salud colombiano siempre ha sido una miseria, el personal medico no tiene condiciones laborales dignas. Adicional a esto, monopolios burgueses han hecho de la salud del pueblo colombiano un negocio, por lo anterior las clases populares han tenido que escoger entre la muerte por covid o la muerte por hambre, viéndose obligados a salir a trabajar de manera informal exponiendo sus vidas.

Quiero informarles con gran alegría que la reforma a la salud que pretendía implantar el gobierno ha sido tumbada gracias a las manifestaciones, que en muchos casos han puesto su vida en las calles.

Hemos recibido varios videos e imágenes de terrorismo de Estado con asesinatos, torturas y otras formas de agresión por parte de la policía colombiana. Sabemos que no se trata de un hecho aislado, ya que es una acción habitual de todos los Estados, especialmente cuando una movilización ataca el orden y la paz de los ricos. ¿Cómo está estructurada la policía colombiana y cuál ha sido la historia de la represión policial contra las manifestaciones?

La policía colombiana, esta conformada de manera jerárquica en el escalón mas alto se encuentran oficiales, seguido de suboficiales y por último quedan los agentes y patrulleros de dicha institución. Este cuerpo armada sigue las indicaciones del ministerio de defensa.

Las manifestaciones se ven reprimidas principalmente por una dependencia de la policía llamada ESMAD (Escuadrón móvil Anti Disturbios), armados con trajes blindados, escudos, cascos y armas letales. Aunque según el Ministerio de Defensa el cuerpo policial actúa bajo todos los protocolos establecidos, en las manifestaciones tenemos compañeros y compañeras asesinados por este escuadrón con acciones que van desde arma de fuego hasta muerte a golpes por parte de los uniformados. El ESMAD fue implementado en la Alcaldía de Andrés Pastrana en Bogotá como una medida temporal, esto hace 22 años. Al parecer no fue temporal.

La mayor parte de la represión la ha vivido el movimiento estudiantil, desde aproximadamente los años 60 del siglo pasado se registran muertes en manifestaciones. Cabe aclarar que la policías cuenta con gran impunidad y encubrimiento del Estado.

¿Hay algún debate sobre la autodefensa en las calles? ¿Hay algún debate por parte de los movimientos y colectivos sobre la abolición de la policía, por ejemplo?

El debate generalmente se da entre la autodefensa popular y las clases altas que siempre ven con malos ojos cuando el silencio de la miseria se interrumpe en las calles. En los barrios popular siempre se ha sufrido el abuso policial por lo tanto la defensa de los manifestantes frente a los cuerpos policiales siempre es justificado y aprobada por los manifestantes, aunque a veces se dan discrepancias. La acción directa de los manifestantes se da como respuesta a la represión policial.

La reforma policial siempre es un pliego en las peticiones de las asambleas, a la fecha llevamos 52 muertos en las calles, esperamos esta vez lograr si no la abolición de este cuerpo de asesinos si llevar a cabo una reforma. Se lo debemos a los que ya no están.

Por último, nos interesan mucho las diferentes expresiones del anarquismo en la región conocida como Sudamérica. Así que nos gustaría que hablaras un poco sobre las fuerzas involucradas en las luchas anárquicas en la región colombiana.

La anarquía en Colombia tiene gran historia, pero ha sido borrada por las versiones oficiales e incluso del Partido Comunista. La huelga de las bananeras, ferroviarios y gremio petrolero del siglo pasado fue movida por anarquistas. El pensamiento libertario es muy común en la juventud colombiana, aunque se debe reconocer que se ha caracterizado por la carencia de organización. Esto ha cambiado en las actuales manifestaciones el pueblo responde a una estructura horizontal, dada de manera espontánea e instintiva.

En cuanto a la ULET, estamos influenciados principalmente por el Anarcosindicalismo de origen español, pero no desconocemos que estamos en un contexto totalmente diferente y que nuestra practica debe ser acorde en el territorio en el que vivimos y luchamos.
No es desacertado decir que las manifestaciones que se viven en la actualidad en Colombia son de carácter anarquista, aunque no reciban dicha etiqueta. El clamor popular se recoge mediante asambleas y horizontalidad en los diferentes espacios.

DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo ©, .

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DAS BARRICADAS #1: MUROS QUE GRITAM, PEDRAS QUE VOAM – entrevista com Taller la Parresia sobre o levante na Colômbia https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/05/18/muros-que-gritam-pedras-que-voam/ Tue, 18 May 2021 16:12:20 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2478 Continuar a ler "DAS BARRICADAS #1: MUROS QUE GRITAM, PEDRAS QUE VOAM – entrevista com Taller la Parresia sobre o levante na Colômbia"

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Há semanas as ruas do território dominado pelo Estado colombiano estão em efervescência, com paralisação total dos serviços, manifestações de rua, piquetes e barricadas. Uma insurreição tomou a região após o governo de Ivan Duque tentar implementar reformas, sobretudo a tributária, que aumentariam ainda mais a miséria e afetariam sobretudo as classes populares.

Como forma de solidariedade às companheiras e companheiros que estão em luta nas ruas neste momento, enfrentando a polícia e o risco de contágio por COVID-19 para afirmar seu direito à vida, publicamos hoje a primeira parte de “DAS BARRICADAS”, uma série de entrevistas realizadas com individualidades, coletivos e organizações anárquicas de diferentes partes da região colombiana.

Consideramos necessário difundir as análises das próprias pessoas envolvidas na insurreição, não apenas sobre a luta destas últimas semanas, mas levando em conta as recentes lutas dos últimos anos, a configuração das forças envolvidas, o histórico de resistência e da repressão que tenta sufocar as múltiplas formas de vida e de luta.

A seguinte entrevista foi realizada com o Taller la Parresia, compas que partem do uso do grafismo produzido em várias regiões sulamericanas como forma de ação direta e intervenção nos muros da cidade de Medelín, segunda maior cidade ocupada pelo Estado colombiano e localizada no Vale de Aburrá.

Abajo, la versión original de la entrevisa en español.

Taller Parresía em intervenção nas ruas colombianas.

PORTUGUÊS

As notícias que nos chegam aqui indicam que a insurreição que tomou as ruas se iniciou com uma luta contra a reforma tributária que o governo de Ivan Duque tentou implementar. Todavia, consideramos interessante levar em conta o contexto das lutas recentes nos territórios em que as insurreições acontecem, principalmente porque há menos de 2 anos as cidades colombianas já haviam sido local de manifestações multitudinárias e intensas. Sendo assim, gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre o processo de lutas que está ocorrendo no momento no território dominado pelo Estado colombiano e qual a relação com as lutas que antecederam esse momento.

Sim, como vocês comentaram, é um acumulado e não só nosso, mas de todo o povo e de nossxs amigxs na América latina. Vivemos o 2013 no Rio de Janeiro, seguimos as jornadas de nossxs amigxs em Santiago e Valparaíso, estivemos atentxs ao que acontecia em La Paz e em Quito. Tudo isso nos deixou em choque em cada momento.

Além disso, a execução de Marielle Franco, a de Santiago Maldonado, Bertha Cáceres, os 43 de Ayotzinapa e tantxs ex-combatentes que apostaram no processo de paz colombiano, xs líderes sociais, xs milhares de detidxs e desaparecidxs políticos e a todas as pessoas que sofrem o drama do deslocamento/migração venezuelana e mesoamericana.

Porem, para nós tudo se torna mais intenso com a necropolítica do Estado. Seguimos o caso das execuções extrajudiciais, chamados falsos positivos, jovens passados como guerrilheiros mortos em um combate que causou milhares de desaparecidos e execuções seletivas por parte dos militares para dar conta ao financiamento dos EUA. Também o desastre da represa que sequestrou o rio Cauca e a inundação das terras do cânion com centenas de fossas comuns, chamada Hidroituango.

Tudo tem sido muito intenso já há alguns anos, pois o Estado colombiano é uma máfia e se organiza como tal para exterminar seu povo e toda forma de organização e de vida. Além de ter super organizado suas frentes paramilitares e todo o assunto da produção e circulação de cocaína que agora se sabe que está a mando dos cartéis mexicanos.

Em novembro de 2019 nos somamos às jornadas de luta no Chile, em La Paz e Quito, e estranhamos que vocês, em suas cidades, não tenham feito isso. Nos moveu muito essas barricadas que apareceram nas cidades andinas e mesmo em Medelín, onde quase os Andes terminam ou entre os Andes.
Fomos documentando todo o processo insurrecional – o mapeamos e o narramos – porque pensamos que as lutas e nossas ações vão mais além do que esta prisão chamada pátria. Essa foi uma resenha das jornadas de novembro e dezembro de 2019 em Medelín e esta é a forma de confronto que se apresenta com o esquadrão de choque. Outra coisa a comentar é que igual a vocês [no Brasil], nós vivemos uma ocupação militar do território e isso nos expõe muito e faz que a luta seja muito complicada pelo medo e pela capacidade do Estado de exterminar as pessoas que se envolvem nesse processo.

“Governo de Parasitas”

O território conhecido como América do Sul possui um histórico bastante intenso de revoltas. Na última década, foram várias… podemos lembrar, por exemplo, da insurreição que tomou as ruas das cidades brasileiras em junho de 2013 ou do “estallido social” que se evidenciou no território chileno em outubro de 2019. Apesar de suas diferenças entre as forças envolvidas e dos efeitos produzidos, em geral diziam respeito a uma luta contra o aumento no custo de vida, o que significa diretamente uma luta pela vida e contra a miséria produzida pelo capitalismo e pelo Estado. E nos parece que a revolta que esta ocorrendo no momento no território colombiano tem algumas características em comum. Como vocês analisam essa relação?

Sim, há muita fome, muita miséria descarada e as pessoas já não aguentam mais isso. Isso fez com que muita gente se somasse ao trabalho de denúncia, que outros colocassem o corpo para enfrentar o esquadrão anti-distúrbios e a polícia. E as comunidades indígenas, camponesas e negras enfrentassem os militares. Por isso nos dedicamos a analisar o processo de insurreição confrontando com o processo de devastação da América Latina para entender essas táticas, as formas de permanência no espaço urbano e as formas de fazer as denúncias, não apenas localizadas, mas falando axs companheirxs latinoamericanxs.

Muitas causas e questões comuns nos atravessam, a migração/deslocamento, os massacres, o processo de devastação e o extrativismo, as gentrificações, por alguma razão nos separaram, mas nessas mesmas fissuras conseguimos nos conectar, nos conhecer e nos afetar por tudo aquilo que sentimos ser parte de nossa aposta de permanência no território e sobretudo na rua.

Vivemos a intensidade das jornadas de junho no Rio de Janeiro em 2013, voltamos para as olimpíadas e descemos por Montevidéu e Buenos Aires, conhecendo tudo o que estava passando. Quando voltamos para a Colômbia vimos como se negava a possibilidade das pessoas envolvidas na guerrilha de entrarem em um processo de paz e como se tomava de assalto o Estado brasileiro e colombiano. Toda essa experiência nestes acontecimentos nos levou a compreender as coisas de uma forma diferente e que nos mantivéssemos atentos ao que ocorre.

Tudo isso nos levou a buscar no gráfico latino-americano um lugar para narrar e apresentar as denúncias nas ruas e assim temos feito desde 2019 e isso tem servido para nos organizarmos, termos uma disciplina e criar certas formas de consensos para permanecermos juntxs.

A pandemia do Covid-19 tem afetado sobretudo as classes populares tanto em relação a morte por contágio quanto pelo aumento da miséria e piora nas condições de vida. Ao mesmo tempo, em algumas regiões a pandemia e o risco de infecção tem esvaziado as ruas e, de certo modo, funcionado como uma barreira para as mobilizações de rua multitudinárias. Como vocês analisam essa relação, já que a reforma tributária de Duque, por exemplo, afetaria diretamente o sistema de saúde colombiano?

Isso é brutal, como a pandemia tirou tudo que estava escondido e por fim as pessoas sentiram na verdade o que estava acontecendo. Agora não penso tanto no vírus, ainda que siga aí e os contágios e as mortes aumentem, basta ver o que passa com vocês, essa aparição das covas em São Paulo e em Manaus.

E sim, a rua se esvaziou, mas aqui em Medellín foi por uns 3 meses, depois vieram manifestações contra a brutalidade policial que nunca tinham sido vistas antes, o centro era uma barricada e lembrava quando muitos jovens saiam dos quebradas como quando desciam da Rocinha ou das manifestações na Avenida Presidente Vargas, o Rio de Janeiro.

Barricadas em Bogotá

Quando a saúde é um negócio. As vacinas, os tratamentos, as formas de hospitalização, é tudo brutal. Por outro lado tem se explorado o cuidado coletivo e as formas de nos mantermos fortes quanto ao que acontece e afeta nosso corpo.

Agora o Estado colombiano está tirando a saúde pública das classes populares e vão deixá-las sem o serviço de saúde. Está sendo gerado um processo de eugenia e somente sobreviverão aqueles que sejam mais conscientes de seu corpo e tenham a possibilidade de se cuidar.

Este processo de desmonte da saúde pública e da educação está deixando para todas as pessoas problemas muito grandes e muito urgentes de serem atendidos. Por um lado, me parece importante que tenhamos em conta esses processos e os atendamos por conta própria, mas pensando nas classes populares é interessante como têm se voltado para as formas comunitárias de como começaram os bairros; os cultivos, as autoconstruções, as formas de encontro na rua, isso parecia ter sido exterminado, mas começamos a ver que a memória retorna.

Nos chegam vários vídeos e imagens do terrorismo de Estado com assassinatos, torturas e outras formas de agressão por parte da polícia colombiana. Sabemos que isso não é um fato isolado, pois esta é uma ação regular de todos os Estados, sobretudo quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como se estrutura a policia colombiana e como tem sido o histórico de repressão policial às manifestações?

O Esquadrão Antidistúrbios (ESMAD) é uma coisa brutal. Estão muito mais equipado que o choque de ordem, que a Gendarmeria e os Carabineiros. É uma mistura de robocop e batman, e tem uma letalidade brutal. O enfrentamento com eles é quase impossível, mas quando se vê os jovens parados frente a eles, se pensa muito no que se tornou esta luta, uma coisa de desespero absoluto. Além disso, agora com os tanques que os acompanham e foram comprados durante a pandemia, se chamam de Venom e tem um disparador de mais de 24 tiros de todos os tipos de balas recalsadas, granadas de atordoamento (N.T.: conhecidas no Brasil como bombas de efeito moral) e cargas tanto dissuasivas (armamento menos letal) quanto letais.

A polícia está formada por vários organismos, a SIJIN (Seccional de Investigación Judicial) – que são verdadeiros assassinos muitas vezes a paisana, devem estar agora montando uma tremenda perseguição; a polícia de verde; e outra que apoia os antidistúrbios. Isso é algo muito brutal, apoiando as frentes paramilitares fortemente armados, como se pode ver na cidade de Cali há alguns dias.

Já levamos mais de 20 anos com a ESMAD e temos exigido seu desmonte. Somente após 16 anos, agora, condenam um deles por assassinar Nicolas Neira, um jovem anarquista de 15 anos morto em Bogotá.

No momento se conta mais de 40 mortos nesta jornada, alguns assassinados pela ESMAD, outros por paramilitares e policiais. E algo do que não se tem falado é das pessoas desaparecidas, já são mais de 1000 e isso frente ao acumulado da guerra na Colômbia, na qual chegam a milhares. Medelín e Antioquia são as mais afetadas por esse flagelo.

Existe algum debate sobre a autodefesa nas ruas? Existe algum debate dos movimentos e coletivos em relação a abolição da policia, por exemplo?

A palavra autodefesa não é utilizada porque para nosso contexto é parte do que propõem os grupos paramilitares de organização e enfrentamento às guerrilhas e ao povo organizado. Não saberia dizer qual é o tipo de debate, se fala muito dos cuidados e da organização em Minga, que propõem os indígenas de Cauca, que envolve trabalho coletivo e organização horizontal e proteção.

E sim, sobre o assunto policial/militar há muito debate há muitos anos. A campanha pelo desmonte da ESMAD e tantas outras contra o terror de Estado. De fato tudo isso junto com a JEP ( J_uridisccion Especial de Paz_) e a comissão da verdade que foram abertas com o processo de paz. Agora, como o que muda na situação atual? Que a guerra entrou nas cidades entrou nas cidades, querem nos levar a um cenário de guerra civil.

Há muitos anos trabalhamos em questões antimilitaristas, contra a ocupação militar, então tudo isso que vimos nos Estados Unidos com George Floyd, o que passa no México com os desaparecidos e os narcotraficantes, no Brasil com as milícias e as chacinas, nos atravessa por aqui e nos toca…

Cartazes colados por Taller Parresía

Por fim, nos interessa muito as diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Portanto, gostaríamos que vocês falassem um pouco sobre as forças envolvidas nas lutas anárquicas da região colombiana.

O anarquismo já nos acompanha há alguns anos e cada vez mais surgem pessoas afins à causa anárquica. É muito bonito ver isso na Colômbia, pois não temos uma tradição de anarquistas. Também temos mudado muito por conta da guerra, então cada vez mais nos inteiramos do que passa com nossxs irmãxs, estar como no meio do caminho entre São Paulo e São Francisco, na Califórnia, nos permite um intercâmbio muito interessante. Bogotá é uma cidade que tem uma expansão do anarquismo muito interessante de acompanhar. De qual forças se poderia falar? A feminista é muito forte, também a luta ecológica tem tomado muita força. E bem… vemos que proliferam muito agora as ações diretas de arte urbana, um movimento muito ativo de denúncia, além dos indígenas de Cauca e os processos de liberação da mãe terra, as organizações negras e camponesas. Em todo o que temos semeado com todxs xs companheirxs que passaram por aqui e se solidarizaram com as comunidades e coletivos neste território. A luta anárquica pode se encontrar de muitas maneiras muito bonitas de experimentar.

Agora sobre as armas? Para nós isso é muito complicado de abordar. Recentemente um amigx da Flor do Asfalto, uma ocupação na região portuária do Rio de Janeiro onde conhecemos nossxs companheirxs, me falava do cenário de guerra civil que está ocorrendo agora na Birmânia e isso já acontece com nós em apenas 15 dias do último levante.

Por outro lado, essas gerações se formaram com a resiliência – e como analisa o Núcleo de Sociabilidade Libertária (NUSOL) em São Paulo, isso pode ser uma deriva ao fascismo –, outros como nós nas lutas antimilitaristas e na resistência cultural, onde aprendemos e não tenderíamos como nos posicionar de outro modo. Penso que temos vindo fazendo já ha muitos anos. Vamos ver como se desencadeiam os acontecimentos. Por agora se está vendo muito apoio internacionalista, também muitos migrantes colombianos agitando e denunciando, então o importante é não ficarmos sozinhxs.
Há dois dias estava ocorrendo um bloqueio de uma via nacional, chegavam gente de todos os povos do oriente, de Antioquia, do departamento de Medelín… e houve shows, queima de pneus, cozinha comunitária e montamos uma oficina de serigrafia. Então algo passou para que a gente consiga fazer isso, amanhã voltam as manifestações e assim estamos…

“Estado Assassino” – Grafite nas ruas de Medelín denunciando o terrorismo de estado.

PARA SABER MAIS:

Colômbia Perdeu o Medo – A Revolta Segue em Todo o País Enfrentando a Violência de Estado

Video: Revolta e repressão na Colombia, por coletivos Antimídia e Submedia


EN ESPAÑOL

Las noticias que nos llegan indican que la insurrección que tomó las calles comenzó con una lucha contra la reforma tributaria que el gobierno de Iván Duque intentó aplicar . Sin embargo, nos parece interesante tener en cuenta el contexto de las recientes luchas en los territorios donde se producen las insurrecciones, sobre todo porque hace menos de dos años las ciudades colombianas ya habían sido escenario de masivas e intensas manifestaciones. Por lo tanto, nos gustaría que comentaras un poco sobre el proceso de luchas que se está dando actualmente en el territorio dominado por el Estado colombiano y cuál es la relación con las luchas que precedieron a este momento.

Si como comenta ustedes es un acumulado, y no solo nuestro sino con todo el pueblo y nuestrxs amigxs en america latina, vivimos el 2013 en Rio de Janeiro, seguimxs las jornadas de nuestrxs amigxs en chile y valparaiso, estubimos al tanto de lo que acontecia en el alto en la paz, y en quito. todo nos puso en schock en cada momento.

Ademas la ejecucion de Marielle, la de Santiago, Bertha, los 43 de ayotzinapa y tantos excombatientes que le apostaron al proceso de paz en colombia, los lideres sociales, a los miles de detenidos y desaparecidos politicos y a todos que han sufrido el drama del desplazamiento/migracion venezolana y la mesoamericana.

Pero para nosotros todo se vuelve mas intenso con la necropolitica de este estado, hemos seguido el caso de las ejecuciones extrajuciales, llamados falsos positivos, jovenes pasados como guerrilleros muertos en combate que causo miles de desaparecidos y ejecuciones selectivas por parte de los militares para rendirles cuentas al financiamiento de EEUU. Ademas el desastre de la represa que secuestro del rio cauca y en su llenado cubrio las tierras del cañon con cientos de fosas comunes, llamada hidroituango.

Todo ha sido muy intenso de hace unos dos años para la fecha, pues el estado colombiano es una mafia y se organiza como tal para exterminar al pueblo, y toda forma de organizacion y de vida. Ademas de tener super organizado sus frentes paramilitares y todo el asunto del la produccion y circulacion de la cocaina que ahora se sabe que esta al mando de los carteles mexicanos.

En 2019 en noviembre nos sumamos y extrañamos que ustedes en sus ciudades no, a las jornadas en chile, la paz y quito, nos movio mucho estas barricadas que aparecian en las ciudades andinas, y mismo desde medellin, casi donde terminan los andes o entre los andes.

Fuimos documentando todo este proceso insurrecional :: y lo mapeamos y lo narramos :: porque pensamos que que las luchas nuestras acciones van mas alla de esta carcel q nos montaron como la patria.

Esta fue una reseña de las jornadas de noviembre y diciembre del 2019 en Medellin ::  y esta la forma de confrontacion que se presenta con el escuadron antidisturbios;

Algo a reseñar es que igual que ustedes vivimos una ocupacion militar del territorio y esto nos expone demasiado y hace que la lucha muy complicada de llevar, por el miedo y la capacidad del estado de exterminar a los que involucran en este proceso.

El territorio conocido como Sudamérica tiene una historia muy intensa de revueltas. En la última década ha habido varias… podemos recordar, por ejemplo, la insurrección que tomó las calles de las ciudades brasileñas en junio de 2013 o el llamado estallido social que se hizo evidente en territorio chileno en octubre de 2019. A pesar de sus diferencias entre las fuerzas implicadas y los efectos producidos, en general se trataba de una lucha contra el aumento del coste de la vida, lo que significa directamente una lucha por la vida y contra la miseria producida por el capitalismo y el Estado. Y nos parece que la revuelta que se está ocurriendo actualmente en territorio colombiano tiene algunas características en común. ¿Cómo analizan esta relación?

Si, hay mucha hambre, mucha miseria asi descarada y la gente no aguanta mas esto, esto ha hecho que mucha gente se sume al trabajo de denuncia, otros pongan el cuerpo para enfrentar al escuadron antidisturbios, y a la policia. y las comunidades indigenas, campesinas, y negras a los militares. por eso nos hemos dedicado a analizar el proceso de insurreccion confrontado con el proceso de devastación de america latina para entender las tacticas, las formas de permanencia en el espacio urbano y las formas de hacer las denuncias, no solo localizadas sino hablandole a los compañerxs latinoamericanxs.

Nos atraviesan muchas causas y cuestiones comunes, la migracion/Desplazamiento, las masacres, el proceso de devastacion y el extractivismo, las gentrificaciones, por alguna razon nos han separado pero en esas mismas fisuras hemos logrado conectarnos, conocernos y afectarnos por todo aquello que sentimos que es parte de nuestra apuesta de permanencia en el territorio y sobre todo la calle.

Vivimos la intencidad de las jornadas de junio en Rio en 2013, volvimos para las olimpiadas, y bajamos por montevideo y buenos aires, conociendo todo lo que estaba pasando, cuando volvimos a colombia vimos como se le negaba la posibilidad a los guerrilleros de entrar en un proceso de paz, y como se tomaba por asalto el estado brasilero y el colombiano, toda esta experiencia en estos acontecimientos ha llevado a que nos comprendamos de una forma diferente y que nos mantengamos atentos a lo que acontece.

Todo esto nos llevo a buscar en la grafica latinoamericana un lugar comun para narrar y presentar las denuncias en la calle, y asi lo hemos venido haciendo desde el 2019 :: https://caosdisfuncional.medium.com/del-miedo-en-el-meme-al-cartel-en-la-calle-un-virus-que-expande-en-el-valle-de-aburr%C3%A1-9b822626ec11 y esto nos ha servido para organizarnos, tener una disciplina y a crear cierta forma de consensos para permanecer juntxs. https://www.instagram.com/tallerlaparresia/

La pandemia de Covid-19 ha afectado, sobre todo, a las clases populares tanto por el número de muertes como por el aumento de la miseria y el empeoramiento de las condiciones de vida. Al mismo tiempo, el riesgo de infección ha vaciado las calles en algunas regiones y ha actuado como una barrera para las grandes movilizaciones callejeras. ¿Cómo analiza esta relación, ya que una de las reformas que Duque pretende implementar afectaría directamente al sistema de salud colombiano?

Eso es brutal, como la pandemia saco todo lo que estaba escondido y porfin la gente sintio en verdad que estaba aconteciendo. Ahora no pienso tanto en el virus, aunque sigue ahi y los contagios y las muertes aumentan, solo es ver lo que les pasa a ustedes, esa aparicion de las fosas en SP y en Manaus.
y si la calle se vació, mas aca en medellin fue por unos 3 meses, despues vinieron unas protestas contra la brutalidad policial para septiembre del 2020 que nunca antes se habia visto, el centro era una barricada, y recordaba mucho los jovenes saliendo de los barrios como cuando bajaban de la Rocinha o las manifestaciones en la avenida presidente Vargas en Rio.

En cuanto a la salud, es un negocio, las vacunas, los tratamientos, las formas de hospitalizacion. es brutal todo esto. por otro lado se ha explorado el cuidado colectivo, y las formas de mantenernos fuertes en lo q acontece y nos afecta al cuerpo; https://caosdisfuncional.hotglue.me/
Ahora el estado colombiano esta sacando la salud publica a las clases popularles, y los va dejar sin el servicio de salud, se esta generando todo un proceso de eugenesia, y solo sobreviveran aquellos que sean mas concientes de su cuerpo y tengan la posibilidad de cuidarlo.

Este proceso de desmantelamiento de la salud publica y la educacion esta dejando para todos unos problemas muy grandes y muy urgentes de atender, por un lado se me hace importante que tomemos estos procesos y los atendamos por cuenta propia, mas pensando en las clases populares es interesante como se han vuelto a las formas comunitarias de como empezaron los barrios; los cultivos, las autoconstrucciones, las formas de encuentro en la calle, esto parecia exterminado, mas empezamos a ver que esta memoria vuelve.

Hemos recibido varios videos e imágenes de terrorismo de Estado con asesinatos, torturas y otras formas de agresión por parte de la policía colombiana. Sabemos que no se trata de un hecho aislado, ya que es una acción habitual de todos los Estados, especialmente cuando una movilización ataca el orden y la paz de los ricos. ¿Cómo está estructurada la policía colombiana y cuál ha sido la historia de la represión policial contra las manifestaciones?

El escuadron antidisturbios ESMAD es una cosa brutal, estan mucho mas equipados que el choque de ordem, que la guendarmeria y los carabineros, es una mezcla de robocop y batman, y tienen una letalidad brutal, el enfrentamiento con ellos es casi imposible mas cuando uno ve a los jovenes parados frente a ellos piensa mucho en lo que se ha vuelto esta lucha, una cosa ya desesperacion absoluta. Ademas ahora con las tanquetas que los acompañan y que fueron adquiridas en pandemia, se llaman las Venom y tienen un disparador de mas de 24 tiros de todo tipo de balas recalsadas, aturdidoras, y cargas tanto disuasivas y letales.

La policia, esta formada por varios organismos, la sijin que son unos asesinos muchas veces de civil esos deben ahora estar montando tremenda persecusion, la policia de verde, y otra que apoya a los antidistubios, eso es algo muy brutal, apoyando a los frentes paramilitares fuertemente armados, como se puedo ver en la ciudad de cali hace dos dias.

Ya llevamos mas de 20 años con el ESMAD y hemos exgidio su desmonte, apenas ahora 16 años despues condenan a uno de ellos por asesinar a Nicolas Neira un joven anarquista de 15 años en bogota.

Ahora se cuenta mas de 40 muertos en estas jornadas, unos por el ESMAD, otros por paramilitares y policiales. y algo de lo que no hemos hablado es los desaparecidos, ya van llegando a los 1000, y esto frente al acumulado de la guerra en colombia que se cuentan por miles. Medellin y antioquia son los mas afectados por este flajelo (https://caosdisfuncional.medium.com/desaparici%C3%B3n-forzada-en-antioquia-colombia-6a457f765b23).

¿Hay algún debate sobre la autodefensa en las calles? ¿Hay algún debate por parte de los movimientos y colectivos sobre la abolición de la policía, por ejemplo?

La palabra autodefensa no se emplea por que para nuestro contexto es parte de lo que proponen los grupos paramilitares de organizacion y enfrentamiento a las guerrillas y al pueblo organizado. No sabria decir cual es el tipo de debate, se habla mucho de los cuidados y de la organiacion en Minga que proponen los indigenas del Cauca, que involucra trabajo colectivo y organizacion horizontal y proteccion.

y si, acerca del asunto policial/militar si hay mucho debate hace muchos años, la campaña por el desmonte del esmad, y tantas otras contra el terror de estado, de hecho todo esto junto con la JEP, juridisccion especial de paz, y la comision de la verdad que se abrieron del proceso de paz, aunque esto puede fracasar como la experiencia de ustedes con la comision de la verdad, se ha logrado exponer con claridad como es el terror de esta guerra, ahora que cambia la situacion actual? que la guerra entro a la ciudades, nos quieren llevar a un escenario de guerra civil.

Ya hace muchos años trabajamos en las cuestion antimilitarista, en contra de la ocupacion militar, entonces todo esto que vimos en estados unidos con George Floyd, lo que pasa en mexico con los desaparecidos y los narcos, con brasil con las milicias, las chacinas pasa por nosotros aca y nos toca…

Por último, nos interesan mucho las diferentes expresiones del anarquismo en la región conocida como Sudamérica. Así que nos gustaría que hablaras un poco sobre las fuerzas involucradas en las luchas anárquicas en la región colombiana.

El anarquismo ya viene desde hace unos años con nosotrxs, y cada vez mas, muchas gente a fin a la causa anarquica, es muy bonito ver eso en colombia, por que no tenemos una tradicion de anarquistas, tambien hemxs migrado mucho por la guerra, entonces cada vez mas nos enteramxs que pasa con nuestros hermanxs, estar como en la mitad entre san pablo y san francisco en california nos permite un intercambio muy interesante, Bogotá es una ciudad que ha tenido una expancion del anarquismo muy intersante de seguir. De que fuerzas se podrian hablar? la feminista esta muy fuerte, tambien la ecopolitica pienso ha tomado mucha fuerza, y bueno vemos que proliferan mucho ahora las acciones directas del arte urbano, un movimiento de denuncia muy activo, ademas los indigenas del cauca y los procesos de liberacion de la madre tierra, y las mismas organizaciones negras, hasta las campesinas. En todo lo que hemxs sembrado con todxs los compañerxs que han pasado por él y se han solidarizado con las comunidades y colectivos en este territorio. La causa anarquica puede encontrarse de muchas maneras muy bonitas de experimentar.

Ahora acerca de las armas? eso es muy complicado de abordar para nosotrxs. Ahora un amigxs de la flor do asfalto aquella ocupacion en la zona portuaria de Rio donde conocimos a nuestros compañeros, me hablaba del escenario en Birmania de guerra civil como esta acontenciado ahora, y esto ya acontece con nostrxs en apenas casi 15 dias de el ultimo levantamiento.

Por otro lado estas generaciones se formaron con la resiliciencia y como analiza el NuSol en SP esto puede ser una deriva al fascismo, otros como nosotrxs en las causas antimilitaristas y en la resistencia cultural, de ahi aprendimos y no tendriamos otra que posicionar esto, y pienso que lo hemxs venido haciendo hace ya muchos años. Vamos a ver como desencadenan estos acontecimientos, por ahora se esta viendo mucho apoyo internacionalista, tambien muchos colombianos migrantes agitando y denunciando, entonces lo importante es no quedarnos solxs.

Hace dos dias estaba en un bloqueo de via nacional, llegaba gente de todos los pueblos del oriente de antioquia, el departamento de medellin, y hubo concierto, quema de llantas, olla comunitaria, y montamos el taller de serigrafia, Entonces algo ha pasado para podamos hacer todo esto, mañana vuelven las movilizaciones, y asi estamxs…

DAS BARRICADAS #1: MUROS QUE GRITAM, PEDRAS QUE VOAM – entrevista com Taller la Parresia sobre o levante na Colômbia ©, .

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CONTRA A RESIGNAÇÃO — Entrevista Sobre a Situação de Mónica Caballero e Francisco Solar https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/03/06/contra-a-resignacao-entrevista-monica-francisco/ Sat, 06 Mar 2021 15:52:07 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2430 Continuar a ler "CONTRA A RESIGNAÇÃO — Entrevista Sobre a Situação de Mónica Caballero e Francisco Solar"

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Em julho de 2020 a polícia do Chile prendeu Mónica Caballero e Francisco Solar com acusações que os ligam a atentados a bomba. Mónica e Francisco já são perseguidos pelos estados chilenos e espanhóis com acusações semelhantes por mais de 10 anos. Suas detenções ocorrem em um momento no qual o Estado acentua a perseguição e os golpes contra iniciativas anárquicas, sobretudo após a insurreição que toma as ruas do Chile desde 2019 e atravessam o período de pandemia.

Mónica e Francisco durante julgamento.

A solidariedade a todas as pessoas que lutam por um mundo livre do estado e do capitalismo é, por definição uma luta internacionalista. Primeiramente, por princípios, mas também porque a colaboração e o intercâmbio entre as forças policiais e militares para reprimir movimentos e indivíduos rebeldes é também uma luta global. Como apontam camaradas da rede CrimethInc.:

“O caso contra Mónica e Francisco no Chile oferece um vislumbre de um possível futuro após as revoltas anti-polícia em andamento. Podemos ter certeza de que o governo dos Estados Unidos prestou muita atenção às estratégias que governos como da França, de Hong Kong, e do Chile usaram para reprimir rebeliões dentro de suas fronteiras — e podemos acreditar que o governo brasileiro está buscando aprender as mesmas lições. Quando um estado democrático como o Chile consegue empregar uma estratégia de repressão, isso representa um passo à frente para todos os outros governos democráticos que também buscam subjugar sua população.”

Portanto, para dar continuidade às publicações em solidariedade permanente com Mónica e Francisco, realizamos uma entrevista com Familiares y Amigxs de Presxs Subversivxs y Anarquistas da região chilena. Para além da atualização sobre o processo, tratamos da importância da solidariedade ativa com as pessoas presas e as recentes lutas no território dominado pelo Estado chileno.


Nos últimos anos, Mónica e Francisco foram alvo de acusações e prisões tanto no território dominado pelo Estado chileno em 2010 (no que ficou conhecido como “Caso bombas”) quanto no espanhol alguns anos depois. Gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre esse histórico de perseguição e qual foi o impacto nos espaços e na luta em geral.

Para contextualizar um pouco e contar brevemente sobre os casos repressivos nos quais ambxs compas estiveram envolvidxs, é necessário começar em 2010. O Estado buscou dar um ponto final aos diferentes ataques com explosivos por parte de grupos anarquistas e anticapitalistas, e assim lançou uma arremetida contra distintxs companheirxs anarquistas sob acusações de formar parte de uma “Associação Ilícita Terrorista”, golpeando distintas expressões antiautoritárias. Após passar muitos meses na prisão, uma longa greve de fome e mobilizações, xs companheirxs conseguiram ser soltxs para enfrentar um extenso julgamento do qual foram posteriormente absolvidxs.

Um pouco depois, Mónica e Francisco partiram para a Espanha e em 2013 foram detidxs pelo ataque explosivo à basílica de Pilar. A colaboração entre os Estados foi evidente desde o primeiro momento e cabe observar que durante a investigação pelo ataque e antes das detenções, diferentes informes policiais e agentes de inteligência viajavam de um lado a outro, dando recomendações de por onde direcionar a investigação e confirmando as suspeitas em torno axs companheirxs.

Após um rápido julgamento, foram condenadxs a 12 anos de prisão, para logo conseguirem baixar sua pena para 4 anos e meio, conseguindo ser expulsxs para o Chile em 2017, com o correspondente circo midiático e perseguição policial que durou vários meses.

Em 24 de julho de 2020, dia em que foram sequestradxs pelo Estado chileno, Mónica e Francisco tiveram suas prisões preventivas decretadas por 6 meses para investigação. Recentemente, esgotado esse tempo, um novo prazo foi estipulado e a prisão foi prorrogada sem que tenha havido uma sentença. Qual é a situação do processo? Existe alguma previsão de data para que seja realizado o julgamento?

A situação processual é a seguinte: Francisco é acusado pelo envio de dois pacotes explosivos para a 54ª Delegacia de polícia e ao ex-ministro do interior Rodrigo Hinzpeter (cúmplice de uma brutal repressão durante o seu mandato), o artefato enviado para a polícia conseguiu explodir enquanto que o destinado ao ex-Ministro por acaso não foi aberto e conseguiram descobrí-lo logo após a primeira explosão; Mónica e Francisco são acusadxs do duplo atentado explosivo em uma imobiliária no bairro dos ricos durante a revolta.

Ambxs estão formalizadxs sob a lei de controle de armas, além de várias acusações de homicídios frustrados. Quando foram detidxs, o tribunal lhes deu um prazo de 6 meses de investigação, data que foi renovada agora em fevereiro de 2021. É possível que se prolongue esse período investigativo por 2 anos antes de acontecer o julgamento.

Acreditamos que se a procuradoria quisesse já poderia realizar o julgamento, mas também ao que parece esta demora teria a ver com a participação da equipe de investigação em outros julgamentos ou talvez com a revisão minuciosa do processo judicial para que nenhum erro seja cometido, como ocorreu no “Caso bombas”.

Sob o argumento sanitário de combate ao Covid-19, tanto Mónica e Francisco como as demais pessoas presas foram impedidas de receber visitas, o que as deixou em uma espécie de isolamento ainda mais severo dentro da prisão. Como está a situação no momento? As visitas já voltaram a ocorrer? Como Mónica e Francisco se encontram neste momento?

A situação segue restrita basicamente a uma visita, somente uma pessoa durante 2 horas a cada três semanas. Cada prisão e regime tem suas particularidades. No caso da Mónica, ela tem de escolher esta semana se deseja ter uma visita ou se receber uma encomenda (alimento que entra na prisão, entregue por pessoas solidárias), enquanto que no caso de Francisco as limitações o obrigam a receber somente visitas de sua família “sanguínea”. Desde “Familiares y amigxs de Presxs Subversivxs y anarquistas” temos participado informando e lutando, com diferentes formas de agitação, pela volta das visitas.

Concretamente, ambxs se encontram bem, vivendo diferentes realidades da prisão. Francisco, por sua vez, se encontra sob estrito isolamento, grande parte do dia trancado, com escassa ou nenhuma luz solar, enquanto que Mónica está na _Sección de Connotación Pública_, isolada do resto da população penal, tendo de conviver com presas que estão isoladas das demais por serem acusadas de crimes considerados intoleráveis e que podem ser alvo de vingança das outras presas.

Apesar das distintas realidades, ambxs se encontram bem de ânimo, têm acesso a telefones da gendarmeria para poder se comunicar com amigxs e companheirxs, sempre perguntando sobre o exterior e por demais compas que estão na prisão.

O território dominado pelo Estado chileno é muito convulsivo e tem um histórico intenso de insurreições e lutas anárquicas. Das que mais temos notícias são a intensificação do levante mapuche dos últimos anos, sobretudo com as recuperações territoriais, e a revolta de 18 de outubro de 2019. Nos chegam informações de várixs mapuches presxs e assassinadxs (como foi o caso mais recente da compa Emília BAU, morta por sicários de um condomínio privado em Panguipulli), assim como outras mais de 2 mil pessoas detidas, muitas feridas e outras assassinadas por carabineiros. Nos parece muito evidente que a prisão das pessoas envolvidas nas lutas é um golpe dos Estados para tentar apagar a chama insurreta que arde nas ruas. Gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre a situação atual das lutas por aí e como analisam essa reação das forças repressivas.

O panorama repressivo é amplo, assim como a luta. Sem dúvida, desde 18 de outubro, quando começou a revolta no Chile, por um lado marcou um antes e depois, mas ao mesmo tempo uma continuidade e agudização. É inegável que muita gente está na prisão por relação com a luta, em dezembro de 2019 se chegou ao número de 2500 presxs da revolta, cifra que logo foi caindo paulatinamente. É uma realidade ampla e diversa, mais do que um grupo homogêneo e com posições claras.

Sobre xs presxs da revolta, igual que xs mortxs e multiladxs, produto da repressão naquele pocesso, é necessário assinalar que nem todxs são companheirxs revolucionárixs, mas sim pessoas que se levantaram contra a ordem imperante, pelos motivos mais variados.

É uma realidade ampla e diversa, com muitas posições políticas, desde as mais anárquicas e irreconciliáveis até posturas cidadãs e de gente desejosa de integrar o sistema, passando por muitas outras que simplesmente estavam cansadas e saíram a protestar espontaneamente com muita raiva. É importante assumir essa diversidade para não cair em romantizações, idealizar situações ou forçar dinâmicas que não são assim.

É justamente considerando essa realidade que surgiram diferentes iniciativas solidárias com xs presxs da revolta, como também em memória e vingança axs mortxs e multiladxs, assim como contra o Estado.

Mesmo com a perseguição constante por parte do Estado, Mónica e Francisco se mantiveram em combate com a cabeça erguida , sobretudo na prisão. Inclusive escreveram um comunicado que aborda a necessidade de sintonia entre as lutas dentro e fora das prisões. Ela e ele conseguem ter contato com as outras pessoas subersivas que também estão na prisão? E com as que estão fora? Está permitido o acesso a libros e cartas, por exemplo?*

Mónica e Francisco têm feito parte de um entorno de proximidade com xs companheirxs na prisão há anos, ambxs eram visitas frequentes de compas subversivxs presxs. Portanto, essa relação se mantém inquebrantável, mas simplesmente mudou de forma e modalidade. Francisco, apesar de estar na mesma unidade penal, tem pouco contato direto com quem se encontra na Segurança Máxima e quase nenhum contato direto (cara a cara) com quem está na Alta Segurança, mas mesmo assim redes e vínculos são fortalecidos, existindo comunicação fluída entre todxs xs companheirxs.

Como uma amostra se pode observar o escrito em conjunto entre distintxs companheirxs, escrito desde dentro, chamado “Ante la revuelta, el plebiscito y la situación judicial: Comunicado de prisionerxs de la guerra social por la destrucción de la sociedad carcelaria”

Como vocês analisam a importância da solidariedade transpassar tanto os muros das prisões quanto a fronteira entre os Estados?

Esse é um dilema necessário e interessante, um desafio para a luta anárquica. No caso dxs companheirxs, já nos deparamos com a questão da solidariedade internacionalista em 2010 com o “Caso bombas” onde se forjaram informalmente belas redes e sintonia internacional com xs detidxs. Por outra parte, quando foram presxs na Espanha essa pergunta se dirigia a nós, sobre nossa capacidade de articulação e de transpassar as fronteiras. Hoje xs compas estão presxs aqui, existe um monte de cotidianidade de urgência para resolver, desde o doméstico, a encomenda, o dinheiro, o legal etc., que sempre se requer ajuda.

Mas esse é somente um aspecto da solidariedade, existindo por outra parte a difusão e agitação do caso e talvez mais importante e nutritivo são os debates públicos em torno das prisões dxs companeirxs. Trazer para as ruas, deixar que falem somente e exclusivamente desde sua condição de prisioneirxs e ir contribuindo na luta.

Em outra dimensão, existe um temor que a solidariedade com ambxs esteja cheia de resignação, de que não valha a pena lutar e que somente sobraria aceitar com resignação uma possível condenação para logo ter de se encarregar dos gastos da vida dxs companheirxs na prisão. Esse cenário é realmente o pior.

Por fim, como as pessoas solidárias podem apoiar a campanha pela liberdade de Mónica e Francisco? Exite algum canal no qual se pode acompanhar as informações e comunicados?

Os textos e informativos nós subimos nas páginas de contrainformação, tratamos de ser bem explicitxs e regularmente publicar atualizações e informações relevantes. Nos distanciamos das posturas que buscam passar desapercebidas ou baixar a cabeça diante disso. Xs companheirxs estão presxs por ações na luta, são parte da luta há anos e corresponde manter um diálogo e informação com todxs que estejam deste lado da barricada.

Sobre as formas com as quais se pode apoiar, essa resposta radica na capacidade criativa de cada pessoa, desde a difusão e agitação, até a coleta de dinheiro, como também a comunicação direta com elxs mediante cartas, xs contemplar em projetos ou simplesmente levantar uma iniciativa solidária própria.


PARA SABER MAIS:

O FOGO QUE ARDE DESDE A CORDILHEIRA

CHILE: CARTAS DE PRESOS ANARQUISTAS EM SOLIDARIEDADE A MÓNICA E FRANCISCO

Uma Nova Onda de Repressão no Chile – CrimethInc.

Poster em Solidariedade a Mónica e Francisco para imprimir – A.N.A.

CONTRA A RESIGNAÇÃO — Entrevista Sobre a Situação de Mónica Caballero e Francisco Solar ©, .

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