Antifascismo – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org vandalismo, depredação e análise Tue, 04 Aug 2026 01:22:06 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2019/09/cropped-FAC_logo19_ilustra-32x32.png Antifascismo – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org 32 32 Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do Que o Fim da Polícia – Poster Para Imprimir https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2026/08/03/fim-do-mundo-fim-da-policia/ Mon, 03 Aug 2026 21:55:19 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3540 Continuar a ler "Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do Que o Fim da Polícia – Poster Para Imprimir"

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Um pensamento atribuído a Frederic Jameson e repetido por Slavoj Žižek e Mark Fisher, diz que, em nosso tempo, seria “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do Capitalismo”. A frase traz um diagnóstico crítico importante sobre a impossibilidade da imaginação e o sentimento perpétuo de que é impossível viver fora do atual sistema econômico e político dominante. A possibilidade de fim dessa ordem seria vivenciada apenas como o fim da humanidade em si e de seu mundo.

Talvez por esse motivo quase toda distopia apocalíptica conta com um roteiro semelhante, onde pessoas buscam reabilitar o mundo que foi destruído, e retornar para a “normalidade” conhecida – um desejo que se tornou universal durante a pandemia da Covid-19. Uma herança judaico-cristã, que aceita um deus, um mundo e, portanto, uma única “humanidade”. Se esquecendo que o mundo dos povos indígenas acabou muitas vezes desde 1492 mas seguem resistindo e nos ensinando a sobreviver o fim de mais esse mundo. 

Sejam reformistas ou revolucionários, tanto os defensores quanto os falsos críticos da ordem parecem concordar que os rumos do Capitalismo ameaçam a sobrevivência da vida no planeta. Porém sua disposição para acabar com as estruturas de dominação encontram limites no Estado e nos seus aparelhos repressores. De jacobinos a bolcheviques, de sociais-democratas a fascistas, a disputa parece ficar em torno da questão de que para superar o Capitalismo (ou o “sistema”) é necessário tomar o poder através de um “governo revolucionário” (e sua polícia). A questão parece ser sempre a de quem detém o controle de suas estruturas – e não a destruição das instituições que perpetuam a destruição de nossas comunidades e do meio ambiente.

Fica claro que críticas vindas da esquerda e das classes oprimidas muitas vezes evitam debater e promover ações que apontem para o fim da polícia e das prisões porque consideram que estas serão necessárias quando for sua vez de assumirem o comando por meios revolucionários ou da ocupação gradual dos postos de direção política. Afinal, quem vai impor as decisões do novo governo, do partido que “representa a classe” e seu comitê central?

Não é por acidente e nem deveria surpreender que movimentos revolucionários vitoriosos que se dedicaram a erguer sua própria polícia e a desenvolver seus aparatos repressivos, passaram a conduzir sua própria contrarrevolução e voltaram suas armas para as camadas populares que ajudaram a derrubar o regime anterior. Sem uma polícia e toda uma organização militar própria e secreta, os Bolcheviques não conseguiriam tomar grãos de camponeses à força, reprimir greves e massacrar camaradas socialistas e anarquistas que protestavam contra seus abusos.

Por compreenderem isso no seio da própria luta, anarquistas, desde Bakunin, diferenciam a revolução social, que derruba Estado e Capital em favor da ação direta e da autogestão, de uma revolução política; que entrega o controle do Capital ao Estado, dirigido pelos burocratas iluminados (e um tanto depressivos) da revolução e do partido que governa em nome dos trabalhadores.

* * *

Desde o surgimento do que entendemos por uma polícia moderna, na Inglaterra do século XIX, sua função era o de disciplinar as massas trabalhadoras e controlar as camadas excluídas e miseráveis. Quando empregar em seu próprio território um exército treinado para guerras contra inimigos externos parecia ser brutal e ineficiente, a polícia surge como uma força mais amena de profissionais empregados para defender a propriedade e agir contra o ameaças internas à paz: greves, rebeliões e movimentos sindicais.

Nas chamadas Américas, onde as sociedades foram fundadas sobre o colonialismo e a escravidão, as polícias surgem como uma extensão das forças que capturavam e mantinham pessoas escravizadas. Nunca foi seu objetivo prevenir o crime, mas governar garantindo que apenas os comportamentos de certos grupos sejam criminalizados e punidos com base não apenas na cor da pele e no pertencimento de classe, mas também no gênero, idade, profissão (ou a falta dela). Mesmo se você não tiver nada, a polícia estará lá. Ela é o patrão de quem não tem emprego ou casa. Para isso,  as elites no poder recrutam entre a massa empobrecida pessoas dispostas a defender seus interesses em troca de dinheiro e respeito. São traidores da classe dispostos a ferir sua comunidade por um salário e o poder que uma arma na mão pode lhe dar.

A chamada “Guerra às Drogas” trouxe de volta a noção militarizada da força bruta e letal para a repressão da sua própria população. Mas obviamente, que não igualmente para todas as pessoas envolvidas com produção, venda e consumo de drogas. As pessoas brancas ricas e proprietárias, no topo, sofrem (quando muito) processos legais e administrativos. Na base, a população preta, imigrante e periférica enfrenta o encarceramento em massa, suspensão de direitos básicos e o extermínio.

Reformar a polícia é, portanto, apenas tentar dar mais legitimidade à sua existência e tornar mais difícil sua abolição. Mesmo quando a polícia recruta membros da mesma cor, gênero ou origem dos grupos tradicionalmente excluídos, a realidade mostra que isso apenas aumenta a tensão nessas comunidades.

* * *

A devoção ao Estado é, inevitavelmente, o amor pela polícia. Sem ela, não é possível uma divisão entre quem manda e quem obedece, entre quem trabalha e quem administra, entre pessoas incluídas e excluídas. Ela fabrica inimigos internos para justificar sua existência.

O mito de que a vida é melhor para  todo mundo – e não só para  a elite – com o trabalho da polícia está tão entranhado em nosso imaginário que as pessoas que se declaram revolucionárias e de esquerda acreditam que sua revolução também será melhor conduzida com a ajuda da polícia. Elas se recusam a assumir que o que desejam é a garantia de poder e controle que o uniforme e as armas dos especialistas em violência imposta os garante.

Em um mundo em colapso, a única coisa capaz de impedir que as pessoas consigam lutar por suas vidas e tirar a riqueza e os recursos das mãos dos ricos é a força bruta. A última e maior função do Estado é a repressão policial. Cientes disso, uma esquerda que almeja o poder centralizado não pode oferecer outra coisa que não um novo círculo de legitimação das forças de segurança. O Capitalismo pode até acabar, mas alguém precisa garantir o poder dos novos líderes.

Ou criamos comunidades livres e fortes com autogestão e por meio da ação direta, capazes de construir sua autodefesa sem depender de profissionais e especialistas em violência, ou prepararemos o terreno, os recursos materiais e a legitimidade de aparatos repressores que podem simplesmente cair na mão de futuros governos fascistas. Ou pior seguir na mão de benevolentes e humanistas governantes iluminados que praticam massacres em nome da democracia.

Quem fala de uma luta contra o capitalismo e o fascismo, sem falar de uma luta contra o Estado, suas polícias, tribunais, exércitos e prisões, fala com um cadáver entre os dentes.


LEITURAS RECOMENDADAS:

SOMOS TODAS ANTIFASCISTAS – MENOS A POLÍCIA: sobre como e com quem lutamos – por Facção Fictícia

Polícia: Um Estudo Etnográfico Foto-Ensaio Sobre a Obediência Armada – por CrimethInc.

O Fim do Policiamento – Alex S. Vitale

 

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“Um mundo governado pela força” — O ataque à Venezuela e os conflitos que virão. https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2026/01/08/governado-pela-forca-venezuela/ Thu, 08 Jan 2026 03:45:10 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3488 Continuar a ler "“Um mundo governado pela força” — O ataque à Venezuela e os conflitos que virão."

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No artigo a seguir, camaradas do coletivo CrimethInc. contextualizam o ataque o ataque à Venezuela na ordem mundial emergente, refletindo sobre como oferecer uma oposição eficaz para resistir e responder a esse novo cenário.

“Um mundo governado pela força” — O ataque à Venezuela e os conflitos que virão.

“Vivemos em um mundo governado pela força, governado pelo poder”, disse Stephen Miller ao apresentador da CNN, Jake Tapper, em 5 de janeiro de 2026, detalhando o programa fascista ao justificar a tomada da Groenlândia pela força. “Estas são as leis de ferro do mundo desde o princípio dos tempos.”

Na madrugada de 3 de janeiro, o governo Trump realizou uma operação feita para a televisão na Venezuela, bombardeando pelo menos sete alvos em Caracas e sequestrando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Celia Flores. Este foi o ápice de uma campanha de pressão que durou um ano, durante a qual o governo classificou imigrantes venezuelanos nos EUA como “narcoterroristas”, tentou aplicar a Lei de Inimigos Estrangeiros (Alien Enemies Act), bombardeou supostos “barcos de narcotráfico”, apreendeu petroleiros e mobilizou a Marinha dos EUA para bloquear a Venezuela.

Inicialmente, o governo Trump acusou Maduro de liderar o “Cartel de los Soles”, uma invenção tão absurda quanto a feita contra movimentos “antifas”. Embora tenham revisado essa acusação ontem, a fim de formular um argumento jurídico menos frágil, é típico de seu método começar com uma narrativa falsa e buscar meios de impô-la à realidade. Um dos principais objetivos de Donald Trump era publicar uma fotografia de Nicolás Maduro acorrentado, ecoando as fotos que agências federais têm divulgado de pessoas detidas pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos). Em vez de oferecer melhorias nas condições econômicas das pessoas, Trump oferece a seus apoiadores a emoção de se identificarem com carcereiros e torturadores. Seu objetivo é desumanizar seus adversários e dessensibilizar a todos para o tipo de violência necessária para sustentar seu reinado e o próprio capitalismo em uma era de lucros em declínio.

A mídia corporativa está desempenhando seu papel clássico de oposição leal, questionando a legalidade da ação enquanto demoniza Maduro e endeusa sua oponente de direita, María Corina Machado. Para anarquistas e outros que buscam se opor ao imperialismo, é necessário situar o ataque à Venezuela em um contexto mais amplo, refletir sobre o que seria uma oposição efetiva e identificar como podemos agir em resposta.

Incêndio no complexo militar Fuerte Tiuna, na Venezuela, 3 de janeiro de 2026.

O Manual

O governo dos Estados Unidos tem um longo histórico de intervenções imperialistas na América Latina, incluindo mais de um século de operações contra Cuba, os sangrentos golpes militares no Brasil em 1964, no Chile em 1973 e a invasão do Panamá por George Bush em 1989. O ataque à Venezuela dá continuidade a uma série de iniciativas mais recentes, desde as invasões do Afeganistão e do Iraque por George W. Bush em 2002 e 2003 até o desmantelamento da “ordem internacional baseada em regras” por Joe Biden, para permitir que Benjamin Netanyahu realize um genocídio na Palestina a partir de 2023.

Ao mesmo tempo, o programa da administração Trump representa um afastamento das normas anteriores. Ao buscar extrair recursos pela força bruta, sem a menor pretensão de qualquer outra agenda, Trump se junta a Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu na inauguração de uma era de pilhagem desenfreada por ganância.

Embora os subordinados de Trump tenham citado as eleições fraudulentas que ocorreram na Venezuela em 2024 para justificar o ataque, Trump não pretende trazer eleições ou “democracia” para a Venezuela. Algumas fontes afirmam que a oposição liderada por María Corina Machado conta com o apoio de quase 80% da população venezuelana, mas Trump sustenta que ela não tem apoio suficiente para governar; presumivelmente, ele se refere à falta de apoio dos militares. O próprio Trump prefere trabalhar com um regime autocrático que lhe seja diretamente subordinado. Ele também prefere não ter que prestar contas a eleições, seja na Venezuela ou nos Estados Unidos.

Trump está usando a guerra para evitar uma crise interna. Embora Trump e um grupo de republicanos anticomunistas pressionem há tempos por uma mudança de regime e a presença naval no Caribe esteja aumentando desde agosto, este golpe foi orquestrado para dominar o noticiário e desviar a atenção da piora nas pesquisas de opinião e de uma série de derrotas judiciais relacionadas aos esforços de Trump para mobilizar a Guarda Nacional dentro do seu próprio país. Ao mesmo tempo, as evidências da cumplicidade de Trump no esquema de abuso e estupro de menores de Jeffrey Epstein estão finalmente fragmentando sua base eleitoral.

À medida que os autocratas perdem o controle do poder, tornam-se mais perigosos e imprevisíveis. As manobras de Netanyahu para se manter à frente do escândalo de corrupção — incluindo sua disposição em sacrificar reféns para continuar perpetrando um genocídio — nos ensinam muito sobre esse assunto. Quando ameaçados por crises, esses governantes criam outras crises para distrair seus governados. Qualquer oposição eficaz deve se lembrar de manter o foco naquilo que Trump está tentando esconder. É isso que ele mais teme.

Entendido como uma operação midiática, o ataque à Venezuela é um ataque a todos nós: uma tentativa de intimidar todos aqueles que possam resistir ao regime de Trump, de nos fazer aceitar que a violência estatal continuará a aumentar independentemente do que façamos, de nos convencer de que não somos os protagonistas do nosso tempo.

Como argumentamos em 2025, Trump copiou grande parte de sua estratégia de autoritários como Vladimir Putin. Quando Putin se tornou primeiro-ministro em agosto de 1999, seus índices de aprovação eram ainda menores do que os de Trump atualmente. Ele resolveu esse problema por meio da segunda guerra da Chechênia, que reverteu drasticamente as pesquisas de opinião a seu favor. Depois disso, sempre que seu apoio caía, ele repetia esse truque — invadindo a Geórgia em 2008, a Crimeia e Donbas em 2014 e a Ucrânia em 2022 — consolidando lentamente o controle da sociedade russa até que pudesse se dar ao luxo de enviar russos para o moedor de carne da guerra, cem mil de cada vez.

Putin usou a guerra na Ucrânia como meio de controle interno — e, na Rússia, isso vai muito além da repressão de protestos. À medida que as condições econômicas pioram, Putin precisa projetar força e brutalidade continuamente, mas também precisa descobrir o que fazer com uma população cada vez mais inquieta e desesperada. Enviar jovens de famílias pobres do interior para o meio da guerra permite que Putin os mantenha ocupados; se algumas centenas de milhares deles nunca voltarem para casa, melhor ainda — eles não aparecerão nas estatísticas de desemprego e a polícia não precisará reprimir seus protestos. Da mesma forma, o recrutamento obrigatório fez com que milhares daqueles que provavelmente liderariam uma revolução fugissem do país. Essa é uma estratégia que veremos se repetir em outros lugares à medida que a crise global do capitalismo se intensifica.

A principal diferença entre os dois contextos é que, embora os Estados Unidos sejam muito mais poderosos que a Rússia, o poder de Trump não é nem de longe tão seguro quanto o de Putin. Ao mesmo tempo, após as desastrosas ocupações do Afeganistão e do Iraque, os eleitores americanos têm consideravelmente menos disposição para operações que coloquem em risco a vida de soldados americanos.

Trump não é particularmente um líder tático e disciplinado, nem um estrategista focado. Ele sempre se apoia em ameaças e intimidação para atingir seus objetivos, aproveitando-se da covardia e da fraqueza de seus contemporâneos. Presumivelmente, ele aposta que a intimidação servirá para dobrar os governos da América Latina aos seus caprichos sem a necessidade de novas ações militares. Se isso não funcionar, ele provavelmente pretende recorrer à tecnologia militar, mercenários e outros meios de exercer força sem ter que enviar tropas americanas para ocupar a Venezuela ou outros países. Mas a guerra, uma vez instaurada, impõe sua própria lógica. Se o governo Trump continuar por esse caminho, as forças americanas podem acabar envolvidas em um conflito aberto.

Na sequência do ataque à Venezuela, Trump e seus asseclas ameaçaram tomar medidas semelhantes contra o México, Cuba, Colômbia, Dinamarca e outras nações. Certamente, eles as executarão se sentirem que estão agindo de uma posição de força, mas mesmo que as coisas corram mal para ele, Trump pode tentar usar tais manobras para desviar a atenção de sua fragilidade.

Filas de carros aguardam em postos de gasolina na Venezuela após os ataques.

O Retorno da Pilhagem

O capitalismo começou em meio à pilhagem colonial e, à medida que as margens de lucro diminuem em toda a economia global, os governos estão retornando a essa estratégia antiquada de acumulação. Isso explica a apropriação de terras por Putin na Ucrânia, a tentativa contínua de Netanyahu de usar o genocídio como forma de gentrificação e a mais recente aventura de Trump na Venezuela.

Em um documento de “Estratégia de Segurança Nacional” de novembro de 2025, o governo Trump se comprometeu explicitamente com um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, visando “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental” como forma de “negar aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério”.

Trump adotou a renomeação autoengrandecedora dessa estratégia geopolítica como a “Doutrina Donroe”, afirmando que “o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente”. Trata-se de petróleo, como Trump enfatizou — a Venezuela detém 17% das reservas mundiais de petróleo —, mas também é uma forma de disputar poder com a China, grande investidora e importadora da indústria petrolífera venezuelana, responsável por 80% das exportações de petróleo da Venezuela e sustentando o setor com mais de US$ 60 bilhões em empréstimos desde 2007. Essa estratégia é anterior a Trump: uma renovação da Doutrina Monroe, com foco na competição com a China e a Rússia no Sul Global, foi um ponto-chave da Comissão de Estratégia de Segurança Nacional de 2024, criada durante o governo de Joe Biden. A Comissão de 2024 defendeu explicitamente a competição com a China e a Rússia por influência na América Latina no que diz respeito ao “desenvolvimento e exploração de recursos naturais, bem como instalações e capacidades para projeção de poder”. Embora Trump represente a guinada em direção à autocracia, a lógica geopolítica e econômica já estava em vigor.

Em outras palavras, a brutalidade desenfreada de Trump oferece à classe dominante uma solução para um problema que capitalistas de todos os tipos estão enfrentando: o problema da escassez de oportunidades.

O plano de Trump de permitir que empresas petrolíferas americanas assumam a extração de recursos na Venezuela faz parte de uma nova fase de pilhagem colonial, um retorno à apropriação direta de ativos de outros países. Precisamos entender isso dentro do contexto mais amplo de estagnação e financeirização. Historicamente, isso reflete períodos anteriores de “caos sistêmico” 1 quando a queda nos lucros obrigou os capitalistas a se voltarem para a especulação financeira e a máquina do sistema capitalista mundial entrou em colapso até ser reconstituída em uma nova ordem por meio da violência em massa. O exemplo recente mais relevante é o período de 1914 a 1945, que testemunhou as duas guerras mundiais do século XX.

Portanto, não se trata apenas de petróleo; é um meio de consolidar as condições para a exploração capitalista em geral e um vislumbre da violência em larga escala que está por vir. Estamos entrando em uma fase de relações baseadas na força bruta, não no “estado de direito” ou na diplomacia, e este ataque — assim como a própria presidência de Trump — é um sintoma, não uma causa.

Mas isso representa um afastamento do imperialismo nacionalista e populista do passado, no qual os regimes roubavam recursos da periferia global para melhorar a qualidade de vida no núcleo imperial. O ataque de Trump à Venezuela visa beneficiar um grupo cada vez menor de capitalistas. A classe média e a classe trabalhadora branca não são mais “parceiras minoritárias” em empreendimentos coloniais e têm cada vez menos motivos para se identificar com eles.

Em Caracas, pessoas limpam os destroços dos bombardeios dos Estados Unidos..

A Questão da Liderança

Inicialmente, a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez adotou um tom desafiador, mas logo recuou para uma retórica mais conciliatória. Isso gerou especulações de que Rodríguez estaria disposta a cooperar com o governo Trump, ou que já estaria cooperando.

Diversos cenários são possíveis, e é difícil determinar a verdade. Talvez os Estados Unidos tenham colocado Delcy Rodríguez em uma situação terrível, mas ela esteja resistindo bravamente; talvez o governo Trump já tenha negociado secretamente com Delcy Rodríguez, e ela pretenda adotar uma postura firme enquanto facilita a agenda americana de extração de recursos; talvez haja algo mais acontecendo. Independentemente disso, a vulnerabilidade do Chavismo2 frente ao sequestro de seu líder — e a possibilidade de que Rodríguez ou outros elementos do governo venezuelano sejam cúmplices, ou venham a ser cúmplices, do plano de Trump de assumir o controle dos recursos venezuelanos — ambos ressaltam o fato de que todas as hierarquias representam um ponto de falha para as lutas de libertação.

Já vimos como a liderança de movimentos revolucionários de esquerda anteriores, como o governo de Daniel Ortega na Nicarágua, foi forçado a se integrar ao funcionamento do neoliberalismo e obrigada a impor medidas de austeridade capitalista e controle estatal sobre as populações sob seu domínio. Diante dessas derrotas, alguns chegam à conclusão de que a única maneira de possuir soberania é controlar um Estado-nação poderoso que possua armas nucleares. Essa é a lógica que sustenta o “campismo”3, o apoio a potências imperialistas como a Rússia e a China, que rivalizam com os Estados Unidos.

No entanto, a Rússia e a China operam segundo a mesma lógica autoritária e capitalista que o governo dos Estados Unidos utiliza hoje — e aqueles que optam por apoiá-las não terão mais influência sobre as ações de seus líderes do que os venezuelanos têm sobre o governo dos Estados Unidos. Aqueles que buscam se alinhar a um ou outro ator geopolítico acabarão inevitavelmente defendendo autocratas genocidas a partir de uma posição de total impotência. A verdadeira alternativa não é o campismo, mas sim uma resistência popular internacional que ultrapasse fronteiras.

Mas para que isso se torne uma alternativa convincente, as pessoas nos Estados Unidos precisarão desenvolver a capacidade de impedir que o governo americano bombardeie e saqueie o exterior.

Agora é tudo ou nada para todos.

O Que Esperar, Como se Preparar

O ataque à Venezuela marca a escalada de uma guerra por procuração com a China. A mudança da base industrial, incluindo a indústria tecnológica, para a indústria bélica é uma forma de lidar com a economia estagnada, mas isso só será possível se o governo Trump conseguir inflamar ainda mais o “espírito nacional” e o patriotismo. Pode-se argumentar que a corrida para consolidar o financiamento e a proliferação da inteligência artificial visa criar uma população mais crédula e controlável para esse fim final.

A curto prazo, podemos esperar que o governo Trump tente mais uma vez usar a Lei de Inimigos Estrangeiros contra venezuelanos e outros alvos. A tentativa anterior de Trump e Miller foi derrotada na justiça porque os EUA não estavam, de fato, em guerra. Agora que criaram uma guerra, usarão isso para declarar uma série de novas emergências e justificar novas medidas repressivas. Também podemos esperar mais violência racista contra latino-americanos e chineses, bem como retaliação contra a política externa dos EUA por parte de atores não estatais ou agentes indiretos, das quais o governo Trump tentará se aproveitar para promover sua agenda.

As eleições de meio de mandato estão marcadas para novembro de 2026. Donald Trump e os republicanos não são os favoritos; mas Trump já ultrapassou tantos limites que não tolera nenhuma ameaça ao seu poder. Seja por interferência eleitoral, fraude ou, mais provavelmente, crises orquestradas que legitimem um estado de exceção, podemos esperar que as eleições de meio de mandato sejam as menos “democráticas” da história recente. As eleições por si só não nos tirarão dessa bagunça.

À medida que Trump enfrenta diversas crises, escândalos e obstáculos, ele se tornará mais violento, imprevisível e perigoso. Isso é um sinal de fraqueza, mas uma fraqueza respaldada por toda a força das Forças Armadas dos EUA. Devemos esperar confrontos militares em larga escala até outubro deste ano, incluindo novos destacamentos da Guarda Nacional e talvez até mesmo a decretação da lei marcial.

Guerras impopulares sem um mandato claro — especialmente guerras que resultam em baixas americanas ou outros sacrifícios em território nacional — podem significar a queda de um regime. É nossa tarefa transformar esta guerra — juntamente com os outros erros de Trump e as guerras que virão — em um fardo para toda a classe dominante. Será necessária tanta força popular para destituir Trump que devemos popularizar propostas igualmente ambiciosas — e não simplesmente exigir um retorno a um status quo centrista impopular. Os revolucionários devem se preparar para superar as tentativas centristas de reequilibrar o Estado. Pode parecer difícil de imaginar agora, mas levantes e revoluções se desenrolam rapidamente. As revoluções da “Geração Z” derrubaram regimes ao redor do mundo ao longo de 2024.

Manifestações por todos os Estados Unidos têm usado slogans conhecidos como “Sem sangue por petróleo”. Infelizmente, Trump concluiu que seus seguidores querem ambos: petróleo e sangue. Movimentos pacifistas tendem a ser inerentemente conservadores, pois buscam influenciar as políticas de Estado; mas, assim como os governos anteriores, o regime de Trump deixou claro que não se importa com a oposição. Em vez de apresentar demandas por meio de protestos simbólicos, precisamos construir movimentos horizontais capazes de atender às necessidades por meio de ações diretas. Esses movimentos devem se concentrar nas condições comuns que as pessoas comuns enfrentam de Caracas a Minneapolis: pobreza, austeridade, pilhagem de recursos essenciais, controle por mercenários violentos, domínio de magnatas irresponsáveis. A resistência às atividades do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) nos Estados Unidos representa um passo promissor nessa direção.

Se, de fato, como Stephen Miller sugere, os governos não representam os desejos ou a vontade do povo que governam, se — como já deveria ser óbvio para todos — eles não têm nossos melhores interesses em mente, mas simplesmente agem para acumular o máximo de riqueza possível para si mesmos, então ninguém é obrigado a obedecê-los. A única questão é como construir força coletiva suficiente — força popular suficiente, poder horizontal suficiente — para derrotá-los.

O retorno do fascismo em escala global — e, esperançosamente, a capacidade de derrotá-lo.

Apêndice: Leituras complementares

Para começar, os leitores devem consultar “FRENTE À OFENSIVA DO IMPÉRIO, SOLIDARIEDADE AO POVO VENEZUELANO! ”, uma declaração internacional de organizações anarquistas latino-americanas publicada em dezembro de 2025.

Para um contexto mais aprofundado sobre a situação na Venezuela, encorajamos os leitores de língua espanhola a consultar o arquivo da extinta publicação anarquista venezuelana El Libertario, onde se pode encontrar, por exemplo, uma avaliação crítica das organizações sociais bolivarianas de 2006, ou uma coletânea de textos sobre o papel da indústria petrolífera na repressão dos movimentos populares de base na Venezuela e na sua integração na economia global:

A Venezuela faz parte do processo de construção de novas formas de governança na região, que desmobilizaram os movimentos sociais que reagiram à aplicação de medidas de ajuste estrutural na década de 1990, relegitimando tanto o Estado quanto a democracia representativa para atender às cotas de exportação de recursos naturais para os principais mercados mundiais.”

-Ley Habilitante: dictadura para el capital energético (“A Lei Habilitante: Ditadura para o Capital Energético) em El Libertario # 62, março-abril de 2011

Podemos entender o ataque de Trump à Venezuela como uma forma de dar continuidade a esse “processo de construção de novas formas de governança na região” atualmente.


Uma lista de pessoas recentemente encarceradas em um único centro de detenção no Brooklyn indica a crescente gama de contradições histórico-mundiais que vêm à tona em nossa época.
  1. Em O Longo Século XX, Giovanni Arrighi argumenta que os últimos 700 anos testemunharam uma oscilação pendular previsível entre períodos relativamente “pacíficos” e estáveis ​​de expansão comercial, durante os quais mercados em crescimento permitem que capitalistas e estados lucrem sem concorrência significativa, e investimentos em produção ou comércio geram lucros confiáveis, e períodos cada vez mais caóticos de expansão financeira, durante os quais a competição intercapitalista reduz os lucros e o capital de investimento busca lucro principalmente por meio da especulação financeira. À medida que a economia global para de crescer, capitalistas e elites nacionais recorrem cada vez mais à força e à pilhagem para sustentar os lucros, culminando em períodos de “caos sistêmico”. Esses períodos são notavelmente violentos, caracterizados por gastos militares e pilhagem; Historicamente, esses ciclos só terminam quando uma nova força hegemônica impõe uma nova ordem global e restaura as condições para a acumulação capitalista. A hegemonia americana do século XX e o sistema internacional introduzido pelas Nações Unidas desempenharam esse papel após a Segunda Guerra Mundial, mas ambos estão em declínio desde a transição para a financeirização e a ascensão do “neoliberalismo” na década de 1970, e agora demonstram sua irrelevância à medida que mais e mais forças tentam obter lucros pela força bruta em vez do investimento capitalista. Os especialistas que lamentam o fim da ordem internacional baseada em regras e expressam nostalgia pelas Nações Unidas estão ignorando a floresta da estagnação econômica, concentrando-se apenas em figuras isoladas como Trump e Putin. Qualquer solução real para o período de barbárie em que estamos entrando terá que ser mais abrangente e ambiciosa do que a “Era das Revoluções” de 1789-1848. ↩
  2. Chavismo é o movimento socialista associado ao ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. ↩
  3. “Campismo” é uma palavra usada para descrever uma doutrina da época da Guerra Fria. os adeptos desse dogma sustentavam que o mais importante era apoiar a URSS a todo custo contra os estados capitalistas e imperialistas. Esta doutrina persiste hoje na parte da esquerda radical que apoia a Rússia de Putin na invasão da Ucrânia ou então relativiza a guerra em curso. Como fizeram na Síria, usam o pretexto de que os regimes russo ou sírio encarnam a luta contra o imperialismo ocidental e atlantista [isto é, pró-OTAN]. Infelizmente, esse anti-imperialismo maniqueísta, que é puramente abstrato, recusa-se a ver o imperialismo em qualquer ator que não seja o Ocidente.

“Um mundo governado pela força” — O ataque à Venezuela e os conflitos que virão. ©, .

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“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2024/12/05/nao-temos-medo-das-ruinas-declaracao-de-tekosina-anarsist-sobre-atual-situacao-em-rojava/ Thu, 05 Dec 2024 13:21:10 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3404 Continuar a ler "“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA"

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Desde 2020, a guerra civil na Síria não sofreu grandes desdobramentos. Com a Rússia, maior aliada do regime sírio, ocupada com a invasão da Ucrânia, e o Irã distraído com as agressões de Israel em Gaza e no Líbano, as forças jihadistas, como o grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), tomaram Aleppo, cidade mais importante no norte da Síria, desafiando o poder do ditador Bashar al-Assad e impondo nova ameaça à luta por liberdade e a revolução social em Rojava. Em em meio a esses eventos, o grupo Tekoşîna Anarşîst (Luta Anarquista/TA), atuando em Rojava há pelo menos 5 anos, lançou um comunicado sobre a situação e sua posição diante dos novos desdobramentos da guerra civil síria.

Já entrevistamos companheiros do TA em 2020 e traduzimos uma outra entrevista feita pela da federação Anarquista uruguaia (fAu) aqui em nosso blog. Convidamos a todas as pessoas interessadas na superação do capitalismo, do fascismo, do patriarcado e do colonialismo a conhecer o processo revolucionário em Rojava e a contribuição de anarquistas em solo para essas lutas. A tradução do artigo abaixo foi feita pela editora Terra Sem Amos.


“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”

Há mais de cinco anos, as Forças Democráticas Sírias (SDF) puseram fim ao califado do Estado Islâmico (ISIS). Agora, com a nova ofensiva do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), corremos o risco de reviver suas atrocidades. O HTS uniu diversos grupos jihadistas, incluindo ex-combatentes do califado em suas fileiras. Recentemente, eles iniciaram uma grande ofensiva, rompendo o cerco de Idlib e provocando o colapso do Exército Árabe Sírio (SAA). Aleppo foi a primeira grande cidade capturada, com a apreensão de grandes quantidades de armamento avançado deixado para trás por soldados do regime.

As SDF reagiram rapidamente, enviando reforços para proteger o bairro curdo de Sheh Maqsoud, em Aleppo, bem como os campos de refugiados na região de Sheba. No entanto, as forças que representam o exército turco, o Exército Nacional Sírio (SNA), iniciaram uma nova ofensiva coordenada com o HTS, invadindo essa mesma região de Sheba. Os refugiados deslocados pela invasão turca de Afrin em 2018 são, mais uma vez, forçados a abandonar seus lares sob a mira de armas. Mais de 100.000 pessoas agora buscam abrigo em tendas improvisadas às margens do rio Eufrates, ainda ameaçadas por novos avanços de grupos jihadistas.

Esses novos desdobramentos agravam a instabilidade no Oriente Médio e devem ser analisados em conjunto com outros conflitos em curso na região. A ocupação israelense de Gaza, juntamente com os ataques contra o Hezbollah, enfraqueceram a posição do Irã na Síria, limitando sua capacidade de apoiar o SAA. Tropas russas, também enfraquecidas após quase três anos de guerra na Ucrânia, abandonaram várias posições terrestres e estão bombardeando brutalmente Idlib e Aleppo. Os Estados Unidos tentam se manter fora do conflito, sabendo que Trump pode pressionar pela retirada de suas tropas do território sírio. Os soldados turcos ainda não estão abertamente envolvidos, mas o Estado turco está mexendo os pausinhos do SNA para continuar suas políticas genocidas contra o povo curdo. Assad está tentando obter apoio internacional de outros países árabes, e o Irã já começou a enviar reforços para uma contraofensiva conjunta com o SAA. Em meio a esse caos, a Revolução de Rojava e o Movimento de Libertação Curdo resistem como a principal esperança para revolucionários no Oriente Médio.

A maior movimentação de forças na Síria nos últimos cinco anos está em curso e pode ter implicações que ainda não conseguimos prever. É uma situação complexa, e vemos como muitos jornalistas têm dificuldade em compreendê-la. Grande parte da mídia ocidental tem sido complacente com o avanço do HTS, chegando até a chamá-los de oposição revolucionária, “rebeldes” contra a ditadura de Assad. Também desejamos a queda do regime, mas o HTS e seu “governo de salvação” não são uma solução libertadora. Seu objetivo é substituir a dinastia Assad por leis da sharia e um estado islâmico, pouco diferente do que o Talibã está fazendo no Afeganistão ou do que a República Islâmica do Irã tem feito desde 1979. Esse não é um futuro que podemos aceitar, e muitos sírios também não aceitarão.

Nós, como anarquistas e internacionalistas em Rojava, desempenharemos nosso papel nesses tempos desafiadores. Lutaremos ao lado das SDF para defender e expandir o projeto revolucionário, construindo uma sociedade sem Estado onde prevaleçam os princípios do confederalismo democrático, pluralismo e da revolução das mulheres. Conclamamos todas as forças anarquistas e outros movimentos revolucionários, agora mais do que nunca, a defender Rojava!

Sabemos que a guerra traz sofrimento e destruição, mas também pode abrir oportunidades para uma vida livre para aqueles que estão prontos. Vimos o que a vitória sobre o ISIS nos possibilitou e estamos prontos para continuar lutando por um futuro melhor. Porque não temos medo de ruínas!

Muitos camaradas estão perguntando: O que posso fazer para apoiar a revolução?
  • Viajar para o Nordeste da Síria (NES) não é possível no momento, pois as fronteiras estão fechadas. Mas você pode garantir que o que está acontecendo na Síria seja conhecido, escrevendo artigos, realizando entrevistas, podcasts, organizando palestras e eventos em coordenação com comitês de solidariedade já existentes.
  • Se houver manifestações de solidariedade em sua região, participe e apoie! Se não houver, talvez você possa organizá-las!
  • Você também pode fornecer apoio econômico aos mais necessitados, já que a crise humanitária atual é crítica e requer nossa atenção. Para isso, a Heyva Sor, uma organização independente, já está trabalhando para apoiar e prover assistência aos afetados pela guerra no nordeste da Síria.

Isto está longe de acabar. Mantenha-se informado e prepare-se para os próximos acontecimentos!


PARA SABER MAIS:

“NÃO TEMOS MEDO DAS RUÍNAS”: DECLARAÇÃO DE TÊKOŞÎNA ANARŞÎST SOBRE ATUAL SITUAÇÃO EM ROJAVA ©, .

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A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2024/11/13/a-historia-se-repete-farsa-trump/ Wed, 13 Nov 2024 18:43:36 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3391 Continuar a ler "A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder"

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Donald Trump venceu a eleição presidencial de 2024 nos Estados Unidos. Antifascistas, anarquistas e todos insubmissos deverão se preparar para lugar as mesmas batalhas de 2017-2020 novamente, em um terreno ainda mais perigoso, uma vez que Trump e sua base fascista conhecem melhor o terreno em que lutarão, além de terem mais cadeira no congresso e senado.

O retorno de Trump como presidente eleito pelo partido Republicano já é tratado como exemplo a ser seguido no Brasil por Jair Bolsonaro e seus familiares, que acompanharam de perto a apuração da eleição estadunidense. Apesar de condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral e tornado inelegível, Bolsonaro diz que será candidato voltar à presidência ou eleger um aliado próximo em 2026.

Outros paralelos entre o que aconteceu nos EUA e no Brasil podem ser traçados a partir da leitura do artigo a seguir, do coletivo CrimethInc., uma vez que desde a forma como concorreram, governaram e buscaram dar um golpe de estado ao perder a reeleições, um parece emular a cartilha do outro.

De qualquer forma, seja para combater o bolsonarismo nas próximas eleições, ou seus aliados ocupando cargos no executivo e legislativo, ou seus capangas ruas, é preciso avaliar como a esquerda brasileira fez de tudo para sabotar os protestos de rua, greves e organizações populares contra o governo Bolsonaro. Da  mesma forma que o partido Democrata condenou e atacou protestos radicais nos Estados Unidos, numa das maiores ondas de protestos de sua história, contra a polícia e o racismo.

Democratas tiraram a legitimidade de um levante popular amplo que trouxe ao debate a redução de investimentos em polícia e prisões, aceitando levar suas políticas ainda mais para a direita só para conseguir competir com Trump, enquanto abria caminho para o fascismo se radicalizar sem oposição popular. Por aqui, o ministro da Fazenda de Lula, Fernando Haddad, já avaliou como “moderada” a declaração de Trump ao anunciar vitória nas urnas.

Se não aprendermos com nossos erros por aqui e com a derrota da esquerda estadunidense, estaremos em desvantagem para enfrentar o fascismo que pode muito bem voltar ao poder em 2026, mas, o que é mais perigoso, se instalar no imaginário social como única saída “radical” para as crises do capitalismo.

Portando, publicamos e convidamos a todas as pessoas para entender a escala do que está acontecendo nos EUA e como foi o caminho até aqui.

Leia mais artigos do coletivo CrimethInc. em português aqui.


A batata quente muda de mãos novamente

Há muito tempo argumentamos que, no século XXI, o poder estatal é uma batata quente. Como a globalização neoliberal tornou difícil para as estruturas estatais mitigar o impacto do capitalismo sobre as pessoas comuns, nenhum partido é capaz de manter o poder estatal por muito tempo sem perder credibilidade. De fato, nos últimos meses, derrotas inesperadas minaram os partidos governantes na França, Áustria, Reino Unido, e Japão.

Na eleição de 2024, tanto Kamala Harris quanto Donald Trump já estavam manchados por seu relacionamento com o poder do estado, mas Harris era a única associada ao governo vigente e esta é uma das razões pelas quais ela perdeu. Dezenas de milhões de eleitores de Trump apoiam seu programa, sim, mas os eleitores que o empurraram para a vitória estavam essencialmente dando votos de protesto ao status quo.

Democratas fizeram tudo o que podiam para se associar à ordem dominante: movendo suas políticas para a direita, mudando o apoio de supostos “esquerdistas” dentro de suas fileiras, desmobilizando movimentos de protesto. Acontece que essa foi uma aposta perdida em um momento em que as pessoas estão sedentas por mudanças.

Resta saber como o resto do país responderá. Se a liderança do Partido Democrata for capaz de ceder e aceitar uma posição como sócios minoritários no fascismo, o futuro pode ser realmente sombrio. Por outro lado, se ficar claro que metade do país vai resistir ao programa Trump, parte da liderança Democrata será forçada a seguir sua posição como representantes dessa parte da população, como ocorreu em 2017.

O que acontecerá a seguir será decidido nas ruas.

O Partido da Cumplicidade

Republicanos se tornaram o partido do fascismo. Na preparação para esta eleição, os democratas se estabeleceram como o partido da cumplicidade com o fascismo.

O que significa reconhecer que Donald Trump é um fascista, mas não fazer nada além de incitar as pessoas a votarem contra ele? Se, de fato, Trump pretende introduzir o fascismo nos Estados Unidos — se, como ele prometeu explicitamente, ele irá perseguir milhões de pessoas (“a maior operação de deportação doméstica na história americana”), colocar os militares nas ruas para reprimir protestos e usar o sistema judicial para atacar qualquer um que se oponha a ele — então limitar-se à mera oposição eleitoral significa acolher o fascismo de braços abertos.

Quando o fascismo está a caminho, a coisa apropriada a fazer é organizar redes subterrâneas de resistência, como os antifascistas italianos e franceses fizeram nas décadas de 1930 e 1940. A coisa apropriada a fazer é se preparar para resistir por quaisquer meios necessários. Qualquer coisa menos que isso é cumplicidade.

Reformar as instituições que serão usadas pelos fascistas parar aplicar suas políticas é cumplicidade. Normalizar a violência contra as pessoas que os fascistas pretendem atacar é cumplicidade. Entregar as plataformas de comunicação por meio das quais as pessoas compartilham informações é cumplicidade. Desencorajar as pessoas do tipo de tática necessária para lutar contra um regime fascista é cumplicidade. Nos últimos quatro anos, os democratas fizeram cada uma dessas coisas.

A liderança do partido Democrata já está preparada para coexistir com fascistas, para ser governada por fascistas. Eles prefeririam o fascismo a mais quatro anos de protestos tumultuados. Ter um partido mais autoritário no poder lhes dá um álibi — os faz parecer bons em comparação, mesmo que sejam eles que canalizam as pessoas para fora das ruas e pavimentam o caminho para Trump executar seu programa.


O Caminho para o Fascismo

Vamos explicar por que os democratas são culpados por essa situação.

A Polícia

Democratas começaram a era Biden-Harris dobrando seu apoio à polícia, precisamente quando milhões de pessoas nos Estados Unidos estavam se perguntando se era hora de procurar uma maneira mais eficaz de lidar com a pobreza e as crises de saúde mental do que continuar canalizando grandes quantidades de financiamento público para a militarização dos departamentos de polícia. Quando Trump assumir o cargo novamente em 2025, os departamentos de polícia em todo o país que o governo Biden financiou e glorificou estarão na vanguarda da imposição da agenda de Trump.

A virada pró-polícia do Partido Democrata ajudou a trazer ex-policiais como o prefeito de Nova York, Eric Adams, para o gabinete em 2020. A administração de Adams tem sido um desastre; ele é atualmente o primeiro prefeito de Nova York a enfrentar acusações federais, incluindo suborno, conspiração e fraude. Desde então, Trump estendeu a mão para Adams, um homem forte corrupto para outro. É isso que acontece quando você coloca o poder do estado diretamente nas mãos das forças de repressão.

A Lei

Desde o início do primeiro governo Trump, os democratas concentraram suas críticas a Trump na ideia de que o que ele estava fazendo era ilegal, usando o slogan “Ninguém está acima da lei”. Como debatemos em 2018,

Se você está tentando estabelecer a base para um poderoso movimento social contra o governo de Trump, “ninguém está acima da lei” é uma narrativa autodestrutiva. O que acontece quando uma legislatura escolhida por manipulação eleitoral aprova novas leis? O que acontece quando os tribunais lotados com os juízes que Trump nomeou decidem a seu favor? O que você fará quando o FBI reprimir os protestos?

Agora, com a Suprema Corte controlada pelos indicados de Trump e este se preparando para retomar o poder, veremos as respostas para essas perguntas. Qualquer um que esteja determinado a impedir Trump de executar sua agenda precisará se preparar para quebrar as leis que a legislatura de Trump vai aprovar e os juízes de Trump irão aplicar.

Marchar sob a bandeira “ninguém está acima da lei” é cuspir na cara de todos aqueles para quem o funcionamento diário da lei é uma experiência de opressão e injustiça. É rejeitar a solidariedade com os setores da sociedade que poderiam dar a um movimento social contra Trump alavancagem nas ruas. Finalmente, é legitimar o próprio instrumento de opressão — a lei — que Trump eventualmente usará para suprimir seu movimento.

Como alertamos em julho passado, uma vitória de Trump significa que todas as instituições com as quais os centristas contavam para protegê-los — a política eleitoral, o sistema judiciário, a polícia, a inclinação dos cidadãos comuns de obedecer à lei e respeitar as autoridades — agora são armas nas mãos de seus inimigos.

A Mídia

Quando os donos do Twitter o venderam para Elon Musk em 2022, eles entenderam que estavam colocando o controle da principal plataforma de comunicação política do século 21 nas mãos de um megalomaníaco de extrema direita. Uma das primeiras coisas que Musk fez foi banir algumas das contas anarquistas mais conhecidas que ajudaram a mobilizar pessoas durante o primeiro governo Trump. Este foi um passo no processo de reduzir o Twitter a um veículo de propaganda de extrema direita.

Como apontamos na época,

A aquisição do Twitter por Musk não é apenas o capricho de um plutocrata individual — é também um passo para resolver algumas das contradições dentro da classe capitalista, para melhor estabelecer uma frente unificada contra os trabalhadores e todos os outros que sofrem a violência do sistema capitalista.

De fato, o financiamento de um grupo de bilionários foi um dos principais fatores que permitiram que Trump vencesse a eleição de 2024. Os bilionários conseguiram mudar sua lealdade para Trump em parte porque, com as plataformas de comunicação e os protestos de rua controlados, eles não precisaram temer que uma segunda administração Trump criasse um caos que seria ruim para os negócios.

Isso nos leva ao próximo ponto.

Esvaziando as Ruas

O esforço dos democratas para desacreditar e desmobilizar o movimento contra a polícia caiu diretamente nas mãos de seus adversários, preparando o caminho para Trump retornar ao poder sem resistência.

Ao competir com os Republicanos para se afirmarem como o partido da lei e da ordem, os Democratas permitiram que os Republicanos levassem o discurso sobre “crime” tão para a direita que Trump e seus capangas puderam usar a retórica de combate ao crime, embora crimes violentos tenham diminuído nos últimos anos. Isso contrasta dramaticamente com a maneira como Donald Trump se recusou a recuar seus pontos de discussão um milímetro sequer.

Ao mesmo tempo, Democratas buscaram impedir que novos movimentos ganhassem força. Quando o acesso ao aborto foi restringido em todo o país, por exemplo, os Democratas fizeram o melhor que puderam para impedir uma mobilização popular eficaz em resposta.

Beneficiou as perspectivas eleitorais dos democratas em 2024 esvaziar as ruas? Vamos voltar para 2020 para uma resposta.

Na época, em artigo de opinião após artigo de opinião, os centristas expressaram preocupação de que os confrontos de rua de maio e junho de 2020 pudessem influenciar a eleição para Donald Trump. Na verdade, o registro de eleitores democratas em junho de 2020 aumentou em 50%, enquanto o registro de eleitores republicanos cresceu apenas 6% naquele mês. Uma pesquisa entre o eleitorado constatou que, dentre as pessoas que citaram os protestos como um fator de determinação para votar em 2020, uma porção 7% maior disse que votou em Joe Biden.

Em outras palavras, a Revolta por George Floyd ajudou a eleger Biden.

E lembre-se: a Revolta de George Floyd não começou com uma campanha de registro de eleitores. Ela começou com a queima de uma delegacia de polícia. De acordo com uma pesquisa da Newsweek, 54% dos entrevistados acreditavam que queimar a delegacia era justificável. Se isso não tivesse ocorrido, o movimento não teria conseguido empurrar os assassinatos de George Floyd, Breonna Taylor e outros para o debate público, e não haveria ganho eleitoral para o Partido Democrata. Não há como criar movimentos poderosos sem tomar medidas reais contra as causas da injustiça.

Como o partido que coopta movimentos de resistência, os democratas teriam se beneficiado de movimentos mais poderosos em 2021-2024. Eles preferiram perder.

A Catraca Política

A campanha de Harris recebeu o apoio do ex-presidente George W. Bush, da ex-representante Liz Cheney, do apresentador de rádio conservador Charlie Sykes e de muitas outras figuras de direita. Isso não ocorreu apenas porque a agenda de Trump era chocante até mesmo para aqueles que antes representavam a face do establishment republicano — também porque Harris representava um projeto político centrista, deixando os Republicanos determinarem o discurso sobre questões como imigração.

Como já argumentamos anteriormente,

O sistema bipartidário dos EUA funciona como uma catraca, com o Partido Republicano puxando constantemente as políticas públicas e o discurso permitido para a direita, enquanto os Democratas, ao tentarem adquirir poder perseguindo o centro político, servem como um mecanismo que impede que as políticas e o discurso retornem.

Essa estratégia ajudou os Republicanos a normalizar o que antes eram ideias marginais sobre imigração e crime, mas não tornou os Democratas mais elegíveis.

Para voltar atrás no tempo, podemos ver que a vitória de Trump em 2024 marca uma virada crucial no discurso político do século XXI. Quando Trump foi eleito em 2016, o consenso neoliberal parecia invencível; sua vitória parecia representar um acaso em que um político atípico chegou ao poder cooptando a retórica do chamado movimento antiglobalização. Hoje, está claro que o auge do consenso neoliberal acabou e algo mais terá que vir a seguir. No entanto, por décadas, os democratas têm colaborado com os republicanos para esmagar movimentos que propunham uma alternativa. Eles suprimiram as forças dentro de seu campo, como a campanha de Bernie Sanders, que representavam um caminho a seguir; foi isso que tornou possível para Trump se apresentar falsamente como um representante da rebelião.

Isso tornou inevitável que a extrema direita detenha o poder na próxima fase, já que os Democratas ajudaram a suprimir alternativas anarquistas, antiautoritárias e de esquerda.

Dessensibilizando o Público

Finalmente, de forma dolorosa, o governo Biden já fez muito do trabalho para dessensibilizar o público em geral para o programa que um segundo governo Trump encorajado tentará executar. Acima de tudo, o governo Biden conseguiu isso apoiando os militares israelenses na execução de um genocídio brutal em Gaza. Ao fazer isso, Biden e Harris acostumaram milhões de pessoas à ideia de que a vida humana não tem valor inerente — que é aceitável massacrar, aprisionar e atormentar pessoas com base em seu status em um grupo demográfico específico.

Este é exatamente o tipo de ambiente que permitirá que Donald Trump execute o tipo de políticas internas brutais que ele pretende fazer quando retornar ao cargo em dois meses e meio.


O caminho à frente

No final das contas, não podemos culpar os Democratas por tudo. Nós falhamos em construir movimentos poderosos o suficiente para sobreviver aos seus esforços para nos suprimir. Nós ainda não estamos preparadas para impedir Trump de deportar milhões de pessoas e canalizar bilhões de dólares a mais para bilionários e o aparato de segurança do estado.

Felizmente, esta história ainda não acabou.

Temos a responsabilidade de não deixar que as estatísticas eleitorais nos desmobilizem. Como escrevemos em 2016, em resposta à primeira vitória de Trump,

As eleições servem para nos representar uns aos outros no nosso pior, destilando os aspectos mais ofensivos, covardes e servis da espécie. Muitas pessoas que nunca arrancariam pessoalmente uma mãe de seus filhos são capazes de endossar a deportação da privacidade de uma cabine de votação, assim como a maioria das pessoas que comem carne nunca poderiam trabalhar em um matadouro. Se não fosse pela alienação que caracteriza o próprio governo, a maioria das políticas feias que compõem a agenda de Trump nunca poderiam ser implementadas.

Haverá uma breve janela de possibilidade agora, quando milhões de pessoas que contavam com os Democratas para mantê-los seguros acordarem e perceberem que somos a única esperança um do outro. Temos que agir imediatamente para fazer contato uns com os outros, para restabelecer tudo o que perdemos desde o ano de 2020.

Temos que empreender projetos proativos que nos diferenciem dos partidos políticos, projetos que mostrem o que todos têm a ganhar com nossas propostas e que ofereçam oportunidades para pessoas de todas as esferas da vida se envolverem no projeto de mudar o mundo para melhor.

A boa notícia é que podemos fazer isso. Já fizemos isso antes. Nos vemos na linha de frente.


Leitura Adicional


A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder ©, .

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GEZI PARK: 10 anos dos levantes de junho na Turquia https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/06/29/revolta-gezi-park-10-anos/ Thu, 29 Jun 2023 20:15:25 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3207 Continuar a ler "GEZI PARK: 10 anos dos levantes de junho na Turquia"

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Quando as revoltas contra aumento das tarifas do transporte pelo Brasil tomaram escala nacional em  junho de 2013, em Istambul, um levante balançaria toda a Turquia, numa região ainda abalada pelos levantes da Primavera Árabe. As duas revoltas contra o custo e qualidade de vida em economias emergentes demonstravam solidariedade mútua: bandeiras e faixas em São Paulo em apoio ao levante turco, mensagens em Istambul solidarizavam com a revolta popular brasileira.

Uma década depois, Recep Tayyip Erdogan ainda está no poder na Turquia e acaba de vencer mais uma eleição cheia de polêmicas e suspeitas de fraude. Seu projeto de poder busca restaurar uma soberania turca na região, passando por cima da natureza, dos povos, especialmente os curdos. E para isso, se apoia em movimentos nacionalistas de bases fascistas e financia de forma oculta os jihadistas do Estado Islâmico, dispostos a eliminar o povo e a cultura curda e ameaçar a revolução social em Rojava.

No Brasil, o ciclo da década se fecha com o retorno do PT ao poder com a eleição de Lula em 2022, como única aposta eleitoral para barrar uma reeleição da extrema direita com Jair Bolsonaro.

No mês em que muito se fala e analisa sobre os levantes de junho de 2013 pelo Brasil, retomamos também esse movimento rebelde que tomou a Turquia na esteira de levantes internacionais como a Primavera Árabe e o Movimento Occupy.

Como vimos em 2020 e 2021 durante a pandemia da Covid-19, torcidas organizadas brasileiras romperam com o discurso pacificado do “fique em casa” adotado pela maior parte da esquerda enquanto a extrema-direita fazia carreatas e atos públicos para divulgar suas políticas de ódio e morte. Novamente, as torcidas ganharam atenção ao enfrentar nas estradas os bloqueios de bolsonaristas insatisfeitos com a derrota nas urnas. O potencial de mobilização e combatividade das torcidas organizadas de futebol é visível em muitos momentos de agitação social como nos últimos anos no Brasil, mas também no Chile em 2019 durante o “Estallido Social” contra preço das passagens e custo de vida. Nas revoltas da praça Taksin e Gezi Parque na Turquia de 2013 também temos exemplos emblemáticos dessa convergência.

Para relembrar essas lutas e nos inspirar para as próximas, revisitamos esse artigo lançado em 2014 na publicação Balaklava que analisa o levante turco e seus paralelos com a revolta no Brasil de 2013.

11 de junho de 2013, Praça Taksim.

“Por aqui para chegar à Comuna de Taksim”

Ao fim de maio de 2013, uma semana antes das Jornadas de Junho no Brasil, iniciou-se uma série de conflitos na Turquia que resultaram no maior levante popular da história do país. Só a época e a relevância histórica e política já são suficientes para induzir alguns paralelos entre os dois episódios, mesmo com tantas diferenças de contexto e proporções. Os confrontos na Turquia foram muito mais radicais e marcados por uma violência ainda maior em números. A população se ergueu contra um projeto de renovação urbana que contava com a demolição de um parque no centro de Istambul e o movimento se transformou rapidamente num levante contrário ao autoritarismo do presidente Erdogan. Tudo começou no Parque Gezi, vizinho à Praça Taksim, e logo se espalhou pela cidade e por todo o país.

Diferentemente dos poderosos protestos que vimos recentemente na Grécia em 2008, Espanha em 2011 ou nos Estados Unidos em 2012, o levante turco não foi gerado por uma crise de austeridade, com cortes de recursos sociais para salvar bancos e corporações como medida para estabilizar uma economia em constante crise. O levante turco foi, assim como no Brasil, um levante resultante do desenvolvimento e do crescimento econômico de um país emergente, porém muito particular. O primeiro-ministro Erdogan é conhecido por convergir um islamismo reacionário com um neoliberalismo desenvolvimentista bastante agressivo. Ao mesmo tempo que resgata tradições conservadoras, impõe um desenvolvimentismo econômico e infraestrutural. Privatizando e vendendo o que resta de recursos públicos enquanto o desemprego continua em alta, se empenhando em grandes empreendimentos, como uma ponte ligando dois continentes, a demolição e o replanejamento de várias partes das cidades para empreiteiras lucrarem com a construção civil e para que novos negócios se estabelecerem no local. Na capital Istambul um audacioso projeto de renovação e gentrificação previa desmatar parte do Parque Gezi e remodelar a Praça Taksin para abrigar shopping centers e ser uma “zona de pedestres”, dentre outros projetos para os ricos. No entanto, Erdogan parecia ignorar a relevância histórica e política do local para a população.

A Praça Taksin é um tradicional ponto de encontro de mobilizações sociais, protestos de Primeiro de Maio, e carrega um peso histórico de ter sido palco de diversas lutas sociais e massacres. Lá estudantes foram enforcados em 1977 como inimigos do Estado durante o regime militar por protestarem em um Primeiro de Maio. Em outras manifestações ao longo do mesmo ano, 34 pessoas foram baleadas e mortas por paramilitares. Exatos 30 anos depois, em 2007, a esquerda organizou um grande protesto em memória dos mortos de 1977, mas o governo tentou impedir o protesto e radicais resistiram com pedras e molotovs. Nos dois anos seguintes, mais protestos, confrontos e resistência do povo contra a polícia marcaram os dias dos trabalhadores e trabalhadoras.

Então, no dia 28 de maio de 2013, ativistas já se amarravam em árvores para impedir que fossem derrubadas e no dia 31 o levante explodiu, ecoando por todo o planeta. A primeira coisa a chamar atenção da imprensa por aqui foi que a polícia turca utilizava bombas e munições fabricadas no Brasil para reprimir a população numa série de operações que, ao fim do levante, resultaram em pelo menos 6 mil pessoas feridas – sendo 10 cegas – e mais de 10 mortes. Mesmo assim, muito foi noticiado sobre as experiências de vida comunal, resistência e autogestão que tomaram lugar na ocupação dessa área central de Istambul por 10 dias de intensa resistência.

Um dos projeteis de gás lacrimogêneo brasileiros utilizados pela polícia turca.

Entre o primeiro e o dia 10 de junho, todas as ruas e avenidas que levavam à Praça Taksim foram tomadas por barricadas para se defender da polícia. Em grandes avenidas era possível ver até 12 barricadas, muitas com mais de três metros de altura, usando materiais de construção, lixo, ônibus e veículos da mídia corporativa. Como em muitas outros levantes populares, as barricadas baniram a presença do Estado da área e abriram espaço para que novas e inimagináveis relações sociais pudessem surgir e tomar forma. Placas no caminho indicavam “Por aqui para chegar à Comuna de Taksim”.

A região era tradicionalmente muito frequentada por pessoas de todas as idades, mas conhecida por ser uma zona boêmia. Chamou atenção o fato da violência urbana ter caído significativamente com a tomada da praça pelas pessoas e a expulsão da polícia de toda a região. Sem o Estado, a população experimentava a solidariedade, cooperação e luta contra a repressão, deixando relações nocivas e competitivas de lado. Mulheres, que compunham ao menos metade (se não a maioria) das pessoas presentes, ressaltaram a queda de violência sexista, abusos e assédios. Muito disso devido a sua participação, juntamente pessoas LGBTQIA+ e tantas outras, inclusive intervindo sobre gritos de guerra e pichações sexistas e homofóbicas.

Um curioso caso envolveu as torcidas organizadas de futebol, grupos feministas e o movimento LGBTQIA+, que se destacaram pela presença política e combatividade nas ruas. As torcidas dos maiores times de Istambul, historicamente arqui rivais, se uniram na luta pela resistência pela Praça Taksim, sendo responsáveis por muito da energia nos confrontos contra a polícia. No entanto, foram também responsáveis por muitos gritos e grafites com mensagens sexistas e homofóbicas que conhecemos bem no Brasil. Feministas e queers combateram isso de uma forma transformadora para as pessoas ali, gritando de volta respostas antipatriarcais e pichando sobre os grafites com xingamentos machistas.

Como resultado das intervenções e debates antissexistas, algumas torcidas marcharam até a frente de um escritório de uma das maiores organizações LGBTQIA+ que, assim como muitos movimentos e organizações de esquerda, ficava em um prédio próximo ao Parque Gezi. Ao chegarem, disseram que reavaliaram suas posturas e as mensagens sexistas e homofóbicas que vinham passando, tendo absorvido isso da sociedade e reproduzindo-as sem questionar seu conteúdo. Disseram que iriam tomar posturas diferentes contra isso e, para selar seu pedido de desculpas, deram de presente à organização um escudo da tropa de choque da polícia.

Esse episódio resume muito bem o contexto de convergência entre tantas pessoas, grupos, organizações e comunidades de diferentes trajetórias que nunca se imaginaram lado a lado numa barricada e que se uniam ali, fazendo de suas causas uma luta comum. Para defender esse espaço, era preciso estarem em contato e em constante questionamento e revisão de suas próprias atitudes. Até mesmo conflitos étnicos foram deixados de lado quando as pessoas se uniram contra o partido e Erdogan e sua polícia. Nos prédios ao redor da praça tomada era possível ver bandeiras da Turquia juntas de bandeiras do PKK, o Partido dos Trabalhadores Curdos, envolvida na luta revolucionária em Rojava, fronteira entre a Síria e Turquia. Alguns disseram ser esse o verdadeiro processo de paz entre povos turcos e o povo Curdo, que por século resiste ao racismo, à  xenofobia e têm sua cultura criminalizada e perseguida em todos os países da região.

O clima marcante dentro da comuna de Taksim era o bom humor, o otimismo e a positividade. Até mesmo as barricadas eram pichadas com frases engraçadas e piadas com figuras políticas ou até teóricos anarquistas. Manifestantes estavam sempre criando sátiras e memes a serem compartilhados na internet. O bom humor ajudava a manter a união e aliviar a tensão e afastar o medo da violência policial.

O espírito anticapitalista e antiautoritário era visível na cooperação envolvida em cada construção. Materiais corriam de mão em mão, por jovens, mulheres, homens, idosas. Muitas barricadas foram construídas assim. Ao seu lado, havia sempre uma tenda com água, pedras e até abrigo para vigilantes descansarem.

Um dos cordões em que pessoas passavam pedras para construção de barricadas.

Cooperações inusitadas apareciam, unindo pessoas de classes e papéis muito diferentes. Camelôs e ambulantes que trabalhavam na região passaram a adaptar seus negócios e muitos passaram a vender máscaras de gás. Em um momento, comerciantes e estabelecimentos não simpáticos à ocupação tinham de cooperar ou sofrer as consequências. O dono de uma loja de kebab, postou no Facebook sua indignação com os “cães que tomaram conta da região”. Minutos após seu post a loja foi reduzida a destroços. Até mesmo a Starbucks acabou dizendo à imprensa que apoiava a resistência e alegou que sempre iria dar suporte ao movimento. Logo depois foi atacada por não cumprir o que foi dito.

Curiosamente, muito apoio foi de fato dado por membros da burguesia, principalmente em infraestrutura. Empresários forneceram materiais para enfermarias improvisadas, uma empresa de telefonia levou veículos que funcionavam como antenas para receber e transmitir o sinal necessário para comunicação via e-mail, tweets e mensagens de celular. Em suas vans era possível ver escrito “estamos aqui para contribuir para sua comunicação” – talvez uma forma de evitar que fossem incendiadas. O motivo por trás desse apoio, no entanto, é compreensível se considerarmos que muitos liberais e progressistas nas elites viam no tradicionalismo islâmico de Erdogan uma ameaça a suas liberdades modernas. E viram no levante de Gezi uma oportunidade. Esse fato revelou uma certa falha das mobilizações em Gezi quanto a firmar uma força anticapitalista, mesmo com muitos grupos anticapitalistas envolvidos.

Sem líderes

O movimento na Turquia também foi um movimento sem lideranças personalizadas, sem movimentos sociais e organizações partidárias tradicionais à frente. Os poderosos se viam frustrados em não conseguir encontrar líderes ou representantes com quem negociar e sabotar o movimento. Essa ausência de lideranças desenvolveu uma estrutura de decisão coletiva que foi talvez sua principal força. Os objetivos extrapolaram a preservação do parque e denunciaram uma crise de representação. A organização da comuna era totalmente autônoma. Pequenos grupos de afinidade armaram as primeiras tendas para se fixar e logo depois a região foi tomada por tendas e barracas de quase todos os grupos de esquerda, sociais e ativistas da cidade. Tudo funcionava com base no apoio mútuo e pessoas que nunca imaginaram um mundo sem polícia se surpreendiam com o clima harmonioso nesse território livre das garras do Estado. Assim como em muitos acampamentos do movimento Occupy, lojas grátis, bibliotecas, espaços para oficinas, enfermarias, várias cozinhas, espaços multimídia para produzir e transmitir conteúdo e muito eventos culturas preenchiam e enriqueciam o espaço.

As assembleias gerais eram descentralizadas e funcionavam como uma continuação das reuniões e demandas dos grupos de afinidades menores. No palco central havia um microfone aberto onde as pessoas podiam subir para falar do que quisessem. O caráter de ocupar uma parte da cidade e torná-la aberta a quem quer que seja para se juntar e construir em conjunto novas relações com as pessoas e o espaço foi fundamental para dissociar a ação política e o “protagonismo” de uma identidade engessada, como “trabalhadores” ou “estudantes” – categorias e identidades simplesmente inacessíveis para crescente parcela da população no capitalismo – e abrir espaço para ação e a livre associação rebelde independentes do seu papel na máquina.

Como sempre, o partido do governo tentava fragmentar a união da comuna espalhando mensagens distorcidas para criar uma divisão entre os chamados “provocadores” (isto é, aqueles que revidam quando a polícia ataca) ou os grupos “marginais” (esquerdistas e radicais). O já conhecido esforço para criar uma minoria deslegitimada a ser reprimida, para então, suprimir todo o movimento. No entanto foi difícil para Erdogan manter seu esforço de polarizar a sociedade e voltar a opinião pública contra a resistência do Parque Gezi. Toda vizinhança dos bairros centrais viam pessoalmente a truculenta e desproporcional ação da polícia ao mesmo tempo que a internet era inundada de imagens e relatos da repressão que manchava a imagem do governo de Erdogan.

A falta de aceitação do movimento em apontar representantes e porta-vozes para a armadilha disfarçada de negociação com o governo foi seguida por uma ofensiva ainda mais violenta do Estado para retomar o Parque. Depois de quase tomar a praça num violento ataque no dia 11 de junho, o Estado atacou a praça novamente quando ninguém esperava. Durante um festival que contava com a presença de muitas crianças e idosos a polícia entrou destruindo tudo e atacando a todos. A cidade explodiu em raiva mais uma vez, vizinhos se juntaram à resistência e abrigavam pessoas em suas casa, xingando os policias das janelas dos prédios.

Um movimento tão novo e com pouca experiência em atuação nas ruas, repleto de jovens que se mobilizavam pela primeira vez teve dificuldades de lidar com suas multidões sob os ataques da polícia. Cada noite era uma grande tensão, pessoas usavam capacetes, máscaras, e escreviam o tipo sanguíneo na roupa. Sua determinação era incrível. Mas o mais importante é que toda uma geração pode se encontrar e começar a sonhar juntas o que podem alcançar juntas.

Veículos da mídia encontraram novos usos durante a ocupação da Praça Taksin.

Novas relações

Em cada horta ou tenda médica; cada debate sobre sexismo e homofobia; ou na construção de cada palco ou barricada as pessoas estavam vivendo relações totalmente diferente das do cotidiano comum em qualquer cidade moderna. E essas relações emergiam em cada ação como uma forma de resistência a um poder hegemônico econômico e político. Esse é o espírito fundamental da comuna como máquina de guerra. Fazer de cada gesto uma forma de cuidar de si e das outras pessoas frente a um poder que tenta eliminar qualquer sombra de desobediência. Não buscar na estrutura uma forma de se incluir, mas sim uma forma de destruir toda a estrutura. Isso é uma batalha que tem como palco cada indivíduo e seus semelhantes. Escalando até o conflito político ou físico entre as comunas e os agentes do Império pelos territórios que queremos proteger.

Tão inesperado quanto, o levante no Brasil também foi marcado por violência policial e o uso indiscriminado dessas armas ditas “não-letais” que matam e mutilam. Demonstrações de solidariedade e apoio entre os povos de ambos os países circulavam pela internet. É difícil pontuar exatamente como e em que medida um levante influenciou o outro, mas podemos traçar alguns paralelos mais óbvios, inclusive com movimentos anteriores.

A resistência no Parque Gezi e na Praça Taksim empregaram amplamente formas de organização e estruturas semelhantes ao do movimento Occupy nos EUA e de ocupações de praças na Europa, ou Ocupa Sampa de 2012. As formas de divulgação e organização política são frequentemente comparadas às da primavera árabe de 2011. A inegável influência imediata do levante turco sobre as lutas de junho no Brasil foram visíveis tanto com manifestantes compartilhando maneiras de neutralizar bombas de gás made in Brazil quanto nas frases e gritos de guerra adaptados que lá diziam não se tratar de “apenas por algumas árvores” mas sim uma revolta contra um governo autoritário e o próprio sistema democrático, aqui transformado na balela do “não são só 20 centavos”. O problema está na forma como isso foi importado para o Brasil, atendendo à pautas direitistas e da embriagada classe média branca. Isso levou às mobilizações o risco de perder totalmente o foco da luta contra o aumento da passagem para pautas genéricas anticorrupção, contra o PT e outras tradicionais causas inofensivas e úteis para a elite.

Na Turquia a ampliação do discurso que motivava os confrontos ampliava a luta contra um governo autoritário, contra a democracia representativa, contra as forças policiais em si, contra o projeto urbanístico e juntava as pessoas para ações em favor de ocupar a cidade e torná-la um espaço gerido pelo e para o povo; enquanto isso, no Brasil, radicais, anarquistas e autonomistas não conseguiram ampliar a crítica ou difundir de forma mais ampla uma radicalidade além do discurso do “acesso à cidade” e correram o risco de ver a luta se tornar um caldeirão de causas inviáveis a curto prazo para a classe média brincar de ativismo no Instagram e a direita espreitasse o momento para inserir suas pautas. A radicalidade ficou por conta da ação meio desorientada de Black Blocs, durante e depois de junho. Enquanto o MPL lutou para manter a pauta da luta contra o aumento diante das explosão de temas genéricos e sem avanços possíveis no curto prazo. O que estrategicamente foi interessante para barrar imediatamente o aumento, beneficiando os bolsos de todos nós e abrir espaços para as multidões mostrarem que podem atingir seus objetivos se aceitarem assumir alguns riscos.

Da Turquia ao Brasil, da Grécia ao Chile, de Chiapas a Rojava, o trabalho, a moradia, o espetáculo e a miséria de nossas vidas serão as mesmas sob o Capitalismo. Cabe a todas as pessoas que querem organizar a revolta que destrua essa forma de vida intercambiar as lições de luta e os riscos que envolvem tomar as ruas quando novos atores chegam todos ao mesmo tempo disputando pautas e a dianteira dos chamados. Do contrário, corremos riscos semelhantes aos de camaradas anarquistas na Ucrânia que viram as ruas sendo tomadas por grupos conservadores e fascistas, enfrentando o Estado e seu aparato com as mesmas ferramentas que grupos libertários e radicais empregam em suas lutas, visando objetivos que desde o início já eram muito duvidosos. Ou, como vimos após os atos da extrema-direita de 2015 no Brasil, ferramentas desenvolvidas para lutas radicais podem facilmente ser apropriadas por reacionários.

Chamados serão feitos. Cabe principalmente a quem responder fazê-lo com o poder e as intenções necessárias para ampliar a revolta para caber nela tudo o realmente importa.


Mais sobre o tema:

GEZI PARK: 10 anos dos levantes de junho na Turquia ©, .

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QUEM TEM MEDO DE JUNHO 2013? – ciclo de eventos e debates https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/05/17/quem-tem-medo-de-junho-2013-ciclo-de-eventos-e-debates/ Wed, 17 May 2023 19:41:25 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3178 Continuar a ler "QUEM TEM MEDO DE JUNHO 2013? – ciclo de eventos e debates"

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A maior revolta popular do país vista a partir de sua radicalidade e potência de transformação hoje Junho de 2013 no Brasil foi um acontecimento intempestivo.

Nos dias de revolta que varreram o Brasil naquele junho, governos e suas polícias, jornalistas e seus ventríloquos universitários, partidos de esquerda e de direita com seus respectivos representantes, assim como as organizações de direitos humanos e seus ativistas, se apressaram em isolar os vândalos dos manifestantes pacíficos. O objetivo político era associá-los à anarquia entendida como desordem para entregar militantes e manifestantes para a violência brutal das Tropas de Choque e enfiá-los em bancos de delegacias e/ou tribunais. Hoje, alguns destes agentes políticos lamentam que a extrema-direita tomou as ruas e repetem, como autômatos, que a democracia está em crise e ameaçada pelo fascismo. Muitos colocam a culpa dessa situação ou o início dela, nas revoltas de junho de 2013. Querem criminalizar as revoltas e silenciar a potência de transformação que ela traz. Como é comum na história política moderna, apontam para a anarquia como um monstro político a ser dominado ou eliminado.

Esse ciclo de eventos, com palestras, conversas e debates, visam falar de um outro junho de 2013. Trata-se de uma série não unificada, mas articulada, que ocorrerá durante o mês de junho de 2023 sobre a atualidade das insurreições de junho de 2013 nas cidades de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Osasco, São Paulo e Belo Horizonte. Cada coletivo local fará as conversas e exibição de vídeos à sua maneira, mas que evitando o tom de efeméride para focar na singularidade e atualidade do acontecimento junho de 2013, destacando a revolta e suas conexões com outras mobilizações que estavam a acontecendo no planeta, os movimentos envolvidos e sua afirmação de autonomia e diferença com os movimentos sociais até aquele momento. Estamos interessados nos efeitos das insurreições de junho de 2013 ainda presentes hoje, tanto em termos de luta e características dos movimentos, quanto em termos de reação da ordem, com mudanças nas formas de repressão e controle e articulações da elite política para capturar insatisfações em processos institucionais, eleitorais e partidários.

Trata-se não de uma leitura final e totalizante do acontecimento, mas uma leitura libertária que busca mover a revolta no presente, soprando a brasa ainda acesa da labareda que varreu o Brasil há 10 anos.

DATAS: 
  • Porto Alegre: 19 de maio, no ESPAÇO.
  • Rio de Janeiro: dias 1, 6, 12 e 20 de junho, na Aldeia Maracanã, UERJ, ADEP & Cinelândia
  • Osasco: 14 a 16 de junho  na UNIFESP – Campus Osasco
  • São Paulo:  17 de junho na Praça do Ciclista (na concentração da Marcha da Maconha).
  • Belo Horizonte: 24 de junho na Kasa Invisível.

ORGANIZE TAMBÉM EM SUA CIDADE:

Muitos materiais foram produzidos por quem esteve nas ruas do lado dos debaixo e podem servir de introdução para debates e estudos. Abaixo, reunimos alguns desses materiais para exibição de vídeos e circulação de textos:
“Por que 2013 agora?”, vídeo por  Sonho, com colaboração dos coletivos Antimídia e Facção Fictícia.


Mais sobre o tema:

QUEM TEM MEDO DE JUNHO 2013? – ciclo de eventos e debates ©, .

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O 8 de Janeiro no Brasil – A Escalada Fascista do Capitólio ao Planalto https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/01/12/8-de-janeiro-brasil/ Thu, 12 Jan 2023 14:10:49 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3111 Continuar a ler "O 8 de Janeiro no Brasil – A Escalada Fascista do Capitólio ao Planalto"

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Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes apoiadores do ex-presidente derrotado Jair Bolsonaro invadiram prédios do governo em Brasília, numa imitação grotesca do fiasco que os eleitores de Donald Trump fizeram na capital dos EUA, Washington, no 6 de janeiro de 2021 . A seguir, analisamos partes um pouco da trajetória que levou a esses eventos e discutem o que antifascistas enfrentam por lá como consequência desses protestos.

Estas ações da extrema-direita brasileira coloca questões que anarquistas e outros antifascistas devem enfrentar em todo o mundo.

Quem está conduzindo os esforços da extrema-direita para escalar o conflito civil e transformar as instituições estatais em um campo de batalha? Embora muitos nos Estados Unidos tenham sugerido o envolvimento de Steve Bannon, o Brasil e a América Latina em geral têm uma longa história de golpes liderados por militares locais e forças de direita e apoiados por centristas e conservadores dentro do governo dos Estados Unidos. Ao contrário de Trump, o próprio Bolsonaro esteve ausente do Brasil durante o assalto aos prédios, tendo fugido antes do fim de seu mandato presidencial. Provavelmente é um erro reduzir esses eventos às maquinações de alguns autocratas.

Quem quer que esteja por trás da incursão, por que o desastre de 6 de janeiro de 2021 foi considerado bem-sucedido o suficiente para valer a pena ser repetido? O objetivo dos participantes era tomar o poder, exercer pressão sobre o novo governo ou provocá-lo a uma reação exagerada, legitimar táticas extralegais como um passo para a construção de um movimento fascista? Ou não há objetivo racional aqui, apenas os efeitos colaterais das estratégias de campanha dos demagogos de extrema-direita, a crescente polarização de uma sociedade fragmentada e a atração irresistível dessas táticas meméticas?

Como as populações marginalizadas que são alvo dos movimentos fascistas podem se mobilizar para se defender sem legitimar as mesmas instituições de Estado que tanto fascistas quanto centristas empregam contra elas? Como os anarquistas e outros que investem em mudanças sociais profundas podem impedir que os “rebeldes” de extrema-direita monopolizem a maneira como o público em geral vê as táticas que nós também precisaremos usar, embora em busca da libertação?

Esperamos que a seguinte contribuição ajude nossos camaradas a refletir sobre essas questões.


As Eleições Não Param o Fascismo

Desde a derrota de Jair Bolsonaro para o cargo de presidente do Brasil e a vitória de Luís Inácio Lula da Silva por uma margem de menos de 2% em 30 de outubro de 2022, as mobilizações da extrema-direita foram escalando em proporção e em violência nas ruas. Logo após o anúncio da vitória petista, manifestantes se mantiveram acampados diante de quartéis do Exército, fechando parte de vias, contestando o resultado das eleições e clamando por intervenção militar. Muitos desses acampamentos, que contavam com banheiros químicos, barracas e cozinha, eram financiados por empresários e políticos alinhados ao bolsonarismo e à extrema-direita que, posteriormente, tiveram contas bloqueadas e mandados de busca e apreensão ordenadas pelo Superior Tribunal Federal em novembro.

Como já tratamos, muitos caminhoneiros organizados por grupos patronais realizaram bloqueios em centenas de estradas pelo país, com a total conivência da Polícia Rodoviária Federal. Quando os bloqueios foram desmobilizados, movimentações urbanas passaram a prevalecer, com acampamentos diante de quartéis. Os acampamentos que começaram um caráter mais diverso, contando com idosos e crianças, passou para um perfil predominantemente masculino, marchando pela noite e dispostos a agir de forma mais contundente. Ações como linchamentos de pessoas que tentavam atravessar bloqueios, sequestros e até casos tortura de qualquer um que discordasse de suas táticas ou visões se tornaram comuns.

Uma ocupação pró-Bolsonaro. Os interesses de classe dos participantes são bem claros.

Na noite de 12 de dezembro, durante a diplomação do presidente Lula e seu vice Alckimin, a base de rua radicalizada do bolsonarismo avançou mais um passo: grupos que estavam acampados em Brasília, atacaram uma Delegacia e a sede da Polícia Federal, cinco ônibus e três carros foram incendiados como resposta à prisão de um homem indígena, também pastor evangélico e bolsonarista. Serere Xavante foi acusado de organizar atos golpistas, praticar ameaças e promover ataques ao Estado Democrático de Direito, teve a prisão decretada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Ainda assim, evidências já apontaram a imensa permissividade das autoridades policiais com a ação criminosa de bolsonaristas.

A mídia e diversos juristas acreditaram que bastaria chamar o que está acontecendo de terrorismo e tratar com prisões e penas duras seus participantes para barrá-los. Tal iniciativa é parte do processo pacificador que professa a fé nas leis e nas instituições que nada fizeram até agora para interromper de fato tais ações, deixando as ruas livres para o fascismo. O STF tentou responder mais uma vez com a prisão de dezenas de envolvidos nos atos e no financiamento dos acampamentos. A esquerda, como de costume, voltou a apostar que as instituições e a repressão policial e jurídica bastariam para fazer os protestos recuar.

A imagem de ônibus em chamas, antes o símbolo da luta contra a repressão do estado e a exploração capitalista, vista nos atos contra aumento da tarifa em 2013, contra a Copa da FIFA em 2014 ou tão comum contra ações da polícia nas periferias, agora está prestes a se tornar o retrato do “terrorismo de direita”. O papel de “defensor da lei e da ordem” passa então a ser adotado pela esquerda legalista e institucional que sob a tutela de um novo governo petista.

Como Trump em janeiro de 2021, Bolsonaro não suportou uma derrota em sua reeleição, porém, não estava no país no dia dos protestos e abandonou seus apoiadores para lutarem sozinhos por seu sonho golpista. Partiu no dia 30 de dezembro, com comitiva e familiares, o avião presidencial parte (com tudo pago com dinheiro público) para sua última viagem em direção a Orlando nos EUA. No Brasil, o General Mourão, vice-presidente, passa a ser o presidente em exercício. Esse fez um pronunciamento enaltecendo a alternância de poder, relativizando o papel central das Forças Armadas em duvidar das eleições e nas tensões institucionais provocados. Ambos são vistos por parte da extrema-direita como traidores, o que apenas deixou os bolsonaristas sem Bolsonaro ainda mais enraivecidos e dispostos a radicalizar ainda mais.

Na véspera do Natal de 2022, um episódio quase acelerou a escalada de violência fascista: um motorista de um caminhão de combustível encontrou um artefato explosivo no veículo e alertou a polícia – vale ressaltar que não houve investigação que levasse à ameaça de bomba, se não fosse o motorista, os policiais nunca encontrariam nada. O autor da tentativa de atentado, George Washington de Sousa, de 54 anos, foi preso e confessou ter a intenção de explodir o veículo perto do aeroporto de Brasília antes da posse de Lula, forçando então o ainda presidente Bolsonaro a instaurar um estado de sítio. No apartamento do autor ainda foram encontradas uma coleção de armas pesadas que o homem alegou ter adquirido ao longo de anos, motivado pelos discursos de Bolsonaro, além de mais explosivos oriundos de garimpos para outros atentados. Tudo isso chamou atenção das autoridades policiais e jurídicas, além da equipe de Lula para como os acampamentos bolsonaristas estavam servindo para o recrutamento e radicalização da extrema-direita.

No dia 01 de janeiro de 2023, Lula foi empossado sob forte esquema de segurança e se tornou o único presidente eleito três vezes pelo voto democrático no Brasil – e Bolsonaro o primeiro presidente a não conseguir se reeleger, também o primeiro na era democrática a se recusar a passar a faixa presidencial em cerimônia de posse. As imagens de representantes dos povos indígenas, trabalhadores, negros, deficientes e excluídos passando a faixa para Lula percorreram o mundo com otimismo, como se paliativos para uma sociedade capitalista em franco declínio e desagregação social não fossem apenas uma breve melhora superficial antes do colapso.

Mas a sensação de calmaria e otimismo após a “vitória do fascismo nas urnas” não duraria nem mesmo uma semana.

8 de janeiro de 2023, em Brasília.

O Motim dos Escoltados

Os protestos e acampamentos da extrema-direita diminuiram em número, mas continuaram por mais de dois meses. Nos primeiros dias do ano, um ato foi chamado para o domingo, dia 08 de janeiro. Cerca de 100 ônibus levaram 4 mil pessoas que estavam nas portas dos quartéis em diversas cidades do país seguiram em ônibus fretados para a capital Brasília, somando forças para um grande ato de repúdio à posse de Lula como presidente. Eles argumentam que, além das eleições terem sido fraudadas, Lula seria o chefe de uma quadrilha de criminosos que quer roubar o Brasil para “financiar o comunismo”.

Com a chegada dos ônibus à capital, os fascistas com a camisa da seleção e bandeiras do Brasil seguiram em marcha tranquilamente no início da tarde, sem nenhum tipo de interferência ou incômodo policial em um local que comumente é fortemente policiado e de difícil acesso , rumo aos prédios do Congresso Nacional, STF e Palácio do Planalto (sedes dos três poderes federais, legislativo, judiciário e executivo do Brasil). Lá destruíram janelas, equipamentos e mobiliário, danificando ou roubando objetos históricos e raríssimas obras de arte de Portinari, Di Cavalcanti, Brecheret e outros avaliados em milhões de dólares. Roubaram documentos e armas dentro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), no térreo do Palácio do Planalto, sede do poder executivo, o que levanta a hipótese de terem acesso previamente a informações sobre a localização desses objetos.

Como nos eventos do Capitólio em 6 de Janeiro de 2020 nos EUA, os manifestantes filmaram tudo o que faziam eles mesmos, mostrando o rosto e postando ao vivo nas redes sociais sem nenhum tipo de preocupação com a possível atribuição de crime posteriormente. Ironicamente, conseguiram atacar os prédios e humilhar as autoridades dos 3 Poderes da República, poderes esses em que muitos confiaram que livrariam a sociedade do fascismo após as eleições deu um governo de esquerda e progressista.

A invasão contou com a total conivência e colaboração da Polícia Militar do Distrito Federal, comandada pelo governador Ibaneis Rocha (antigo aliado de Bolsonaro), não havendo qualquer oposição ou repressão policial por pelo menos 3 horas. Policiais facilitaram a entrada dos invasores, e somente às 18h a polícia decidiu tomar alguma iniciativa e cercar os prédios. Diversos vídeos mostram policiais tirando selfies e rindo enquanto manifestantes invadiam o Congresso e outros flagram policiais sendo elogiados e confraternizando com os “manifestantes” dentro dos prédios invadidos.

8 de janeiro, 2023, Brasília.

Somente após as 20h é que as polícias incluindo a Força Nacional, tão eficiente em atacar professores, estudantes ou povos indígenas protestando no mesmo local, conseguiu “conter” pacificamente o protesto e prender entre cerca de 200 pessoas. Nos vídeos podemos ver a polícia retirando os bolsonaristas pacificamente, sem feridos ou mortos, sendo a policia brasileira a mais letal do mundo.

A reação institucional aos fascistas só começou, de fato, quando o presidente eleito Lula, que estava em uma cidade no interior de São Paulo, fez um pronunciamento condenando os atos e emitindo um decreto de Intervenção Federal na Segurança Pública do Distrito Federal, nomeando o Secretário de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Ricardo Cappelli, como interventor até o dia 31 de janeiro de 2023. Na prática, isso significa tirar as polícias do governo do estado do caso (Polícia Militar e Polícia Civil) e entregar o caso para as polícias do governo federal (Força Nacional de Segurança e Polícia Federal). Pela noite, o Ministro da Justiça e Segurança Pública, fez um pronunciamento dizendo que investigações foram abertas, os financiadores dos ônibus foram identificados e que cerca de 200 pessoas haviam sido detidas.

O Ministro da Justiça Flávio Dino, ex-juiz e ex-governador do estado do Maranhão, também se pronunciou, fazendo uma fala comedida onde tentou resguardar a institucionalidade, tratando os atos e as pessoas envolvidas como radicais isolados que seriam tratados como criminosos, esvaziando o conteúdo político do evento (embora o tenha chamado de tentativa de golpe de Estado). O ministro da Suprema Corte, Alexandre de Moraes, muito atuante durante toda gestão de Bolsonaro como uma espécie de “guardião da ordem institucional democrática”, também se pronunciou de forma dura e determinou o afastamento do governador do DF, conhecido quadro político do bolsonarismo.

No dia seguinte aos eventos, o quadro era de certa perplexidade da imprensa e das autoridades, apesar de tais ações estarem há meses anunciadas nas redes bolsonaristas, que estão apostando que a situação será pacificada pela atuação das instituições e pela persecução criminal aos golpistas envolvidos na ação, o que nós duvidamos.

Uma Manifestação Local de Uma Onda Fascista Global

Há muitas semelhanças com o aconteceu nos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, a chamada “Invasão do Capitólio”, porém, também há diferenças significativas, começando pela liderança política dos fascistas.

Jair Bolsonaro sempre se posicionou como apoiador de Donald Trump, alinhando-se com movimentos globais de extrema direita, como os da Polônia e da Hungria. A família Bolsonaro tem conexões com Steve Bannon, que orientou filhos de Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018 e em 2022 alegou que a eleição de Jair Bolsonaro era a segunda mais importante para o seu movimento. Após a derrota, Bannon e Trump, aconselharam Bolsonaro a contestar o resultado das eleições. Ainda assim, não é possível afirmar que haja interferência direta de Bannon ou da extrema-direita internacional.

A motivação para as duas invasões de prédios do governo também é semelhante no conteúdo da suposta conspiração: apoiadores de Bolsonaro alegam que as eleições foram fraudadas em favor de uma elite globalista simpática ao comunismo e à China, com o objetivo de desestabilizar governos nacionalistas para disseminam o que chamam de “ideologia de gênero”, incentivam o uso de drogas e promovem os interesses de cartéis criminosos internacionais. Seguindo o exemplo da alt-right em outras partes do mundo, eles se declaram liberais em seu programa econômico e conservadores em seu programa cultural. Assim, eles afirmam defender a família cristã tradicional como meio de espalhar a supremacia branca, o ódio às pessoas LGBTQI+ e a ansiedade sobre uma suposta ameaça comunista.

A forma de ação também guarda semelhança coma invasão do Capitólio nos EUA, uma turba fascista que não reconhecem a legitimidade das instituições e do processo eleitoral que derrotou o candidato deles, reivindicam ser representantes do povo e invadiram as sedes físicas dos poderes constituídos para depredar, gerar caos e enfrentamento com a esperança de suspender o resultado das eleições. Usam slogans associados ao que se chama de populismo de direita, dizendo que as instituições estão sendo manipuladas por uma elite globalista contra os interesses do povo que, no caso, são eles.

Tanto em 6 de janeiro de 2021 quanto em 8 de janeiro de 2023, uma turba fascista que se dizia a verdadeira representante do povo e se recusava a reconhecer a legitimidade do processo eleitoral que derrotou seu candidato invadiu a sede física dos poderes constituídos para gerar o caos na esperanças de suspender o resultado das eleições.

Após décadas de gestão democrática, durante as quais praticamente todos os partidos a aceitaram como a única forma possível de fazer política na era da globalização capitalista, a extrema direita recolocou a política no campo da disputa e do confronto. Está cada vez mais claro que o consenso construído no pós-Segunda Guerra Mundial em torno da fórmula capitalismo + democracia liberal + direitos humanos, que ignorava as contradições e desigualdades inerentes ao sistema capitalista e estatal, foi rompido. Significativamente, é a direita que aposta nessa ruptura, endossando explicitamente a insurgência e guerra civil, enquanto a maior parte da esquerda ainda se apega às instituições democráticas e à gestão de uma paz cada vez mais precária.

Os acontecimentos no Brasil diferem dos ocorridos nos Estados Unidos na medida em que os bolsonaristas se concentravam em algo mais antigo que o culto a Trump, algo que é próprio da história política brasileira: a nostalgia da ditadura que se instalou por um golpe civil-militar com a ajuda dos Estados Unidos em 1964 e fidelidade a todos os aspectos da ditadura que persistem na sociedade brasileira.

Na formulação do psicanalista Aziz Ab’Sáber: “O que resta da ditadura no Brasil? Tudo, menos a ditadura.”

Bolsonaristas golpistas aproveitando a conivência da polícia para posarem como rebeldes.

Além disso, diferente do que se passou nos EUA após a eleição de Biden, as Forças Armadas Brasileiras, composta por oficiais formados em escolas militares permeadas pelo discurso anticomunista do contexto de Guerra Fria e pelo revisionismo histórico que chama o golpe civil-militar de “revolução de 64”, são parte fundamental dos movimentos golpistas. O bolsonarismo (podendo ser chamado assim o atual neofascismo brasileiro e as movimentações de extrema direita no país) social e eleitoral é composto por inúmeros oficiais da reserva do exército, marinha e aeronáutica, além disso, os oficiais da ativa mal disfarçam seu apoio aos manifestantes e fazem, desde 2014, declarações públicas de sua oposição aos partidos e candidatos de esquerda. A prova mais evidente do apoio das Forças Armadas aos movimentos golpistas é a tolerância aos acampamentos nas portas dos quartéis de todo país, algo que não seria admitido se o teor das manifestações fosse outro.

A coalizão liderada pela esquerda institucional que ganhou as eleições em outubro, como temos repetido, acreditou novamente na institucionalidade e em um acordo nomeou para o Ministério da Defesa, José Múcio, um político de direita amigo dos militares cujo partido PTB tem como lema: “Deus, Família, Pátria e Liberdade” . O resultado foi que o próprio presidente Lula em sua declaração sobre os atos admitiu que o Ministro da Defesa não agiu como deveria para desocupar a porta dos quartéis.

Anarquistas e outros antifascistas marcham em 9 de janeiro de 2023 em várias cidades contra a ameaça do fascismo no Brasil.

O que se passa hoje no Brasil é uma manifestação inequívoca e radical da força que a extrema-direita tem ganhado no mundo nos últimos anos, impulsionada por um fascismo social difuso que sempre existiu na sociedade brasileira mas que a democracia instalada com a Constituição de 1988 não soube ou não quis combater, a começar pela participação dos militares no próprio processo de retomada retomada democrática nos anos 1980 e o seu “papel constitucional” como supostos garantidores dos poderes do Estado.

A maior vergonha para a esquerda como um todo – e especialmente para aqueles que se consideram radicais – é que o governo de Jair Bolsonaro e suas milícias reorganizaram toda a estrutura do Estado, desmantelando a saúde pública, a educação e as proteções ambientais enquanto miravam negros e indígenas pessoas, mulheres e pessoas LGBTQI+, tudo em meio a uma pandemia global que matou no Brasil mais pessoas do que a média per capita mundial. No entanto, fomos incapazes de responder a esses eventos – nem com uma greve geral, nem fechando cidades e rodovias, nem invadindo o palácio do presidente.

Agora, todas essas ações, que deveríamos ter tomado para nos defender contra a extrema direita, estarão associadas à extrema direita. Isso contribui para um discurso que pode nos paralisar, impossibilitando a alavancagem necessária contra os fascistas fora e dentro das instituições estatais, sem falar nos outros partidos que também usarão as instituições do governo para continuar impondo os piores efeitos do capitalismo sobre nós.

Nosso desafio agora é continuar fomentando a revolta e, principalmente, não sabotar o caminho da insurreição quando o aparato do estado está na mão da centro-esquerda e as ruas estão nas mãos dos fascistas e forças de segurança. Para isso, será , será preciso saber provocar a desordem sem ceder as chantagens dos mantenedores da ordem, com seu eterno moralismo defensor da propriedade privada ou estatal.

Ato em Belo Horizonte, 9 de janeiro de 2023 contra a ameaça fascista no Brasil.

Mais sobre o assunto:

NÃO EXISTE OPOSIÇÃO INSTITUCIONAL AO FASCISMO: Análises sobre a escalada da violência da extrema-direita no Brasil

ISTO NÃO É UMA INSURREIÇÃO POPULAR – Breves notas pós-eleitorais

Esquerda Eleitoral, Ações Diretas Fascistas e Resistência Antifascista As Eleições Brasileiras de 2022

Violência, democracia e segurança nas eleições de 2022 no Brasil

VÍDEO: “Chama a Polícia!” – Sobre a criminalização da ação direta e a legitimação das instituições.

O 8 de Janeiro no Brasil – A Escalada Fascista do Capitólio ao Planalto ©, .

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Copa do Mundo: autoritarismo, nacionalismo e negócios https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/12/23/copa-do-mundo-autoritarismo-capitalismo/ Fri, 23 Dec 2022 19:45:38 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2967 Continuar a ler "Copa do Mundo: autoritarismo, nacionalismo e negócios"

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Cartaz na Alemanha convocando para o boicote à Copa do Mundo de Futebol no Catar.

A Copa do Mundo FIFA no Catar acabou, mas, infelizmente, outras virão. A próxima, em 2026, será dividida entre México, Canadá e EUA e já podemos prever os impactos para os pobres e minorias desses locais tão marcados pela segregação e ataques à comunidades indígenas e negras. Mas por agora, convidamos todo o mundo a relembrar a trajetória da Copa do Mundo desde sua estreia em 1930 no Uruguai, passando pela sua relação com a Itália de Mussolini e as ditaduras civis-militares na América Latina, como na Argentina e no Brasil, fazendo a ponte entre esporte, identidade nacional, racismo, polícias e, é claro, negócios.

Como abordamos em uma publicação de 2014, para a máfia internacional do esporte conhecida como FIFA, o torneio é o seu maior negócio, transmitido para metade da população do globo e gerando um faturamento de cerca de 40 bilhões de reais. Na sua última edição, a primeira em um país árabe, a Copa do Mundo ganhou manchetes e até documentários dedicados a expor os impactos sociais e os altos custos para trabalhadores e trabalhadoras em condições sub-humanas que ergueram e operaram as estruturas do maior megaevento do planeta no Catar.

O pequeno país do Sudoeste Asiático, de apenas 2,8 milhões de habitantes é considerado o mais rico do mundo devido à abundância de petróleo e gás natural, o que colabora para as suspeitas de suborno para que membros da FIFA votassem para que país árabe sediasse o evento. Governado pela monarquia absolutista (Emirado) hereditária, imperam a censura à imprensa, a supressão aos direitos da mulheres e a criminalização da homossexualidade e toda comunidade LGBTQIA+ pelo Direito Islâmico.

Mesmo sendo tão rico, Catar não contava com toda a mão de obra necessária para erguer uma cidade praticamente do zero e 7 estádios em menos de uma década. Com apenas 380 mil cidadãos nascidos no Qatar e 90% da população total composta por imigrantes, o governo impulsionou a contratação de mais de 5 milhões de imigrantes, principalmente da Índia, Paquistão, Nepal e Bangladesh para trabalhar na construção dessas megaestruturas, incluindo estradas, aeroportos, hotéis e muito mais sob o calor assassino de 52ºC, que matou ao menos 571 trabalhadores nepaleses, chegando à soma total de quase 7 mil trabalhadores mortos – muitos, devolvidos às suas famílias em uma caixa com o nome do falecido do lado de fora.

Trabalhadores em obras da Copa do Catar.

Esses milhares de trabalhadores imigrantes foram submetidos a um regime de trabalho conhecido como Kafala, uma forma escravidão moderna, muito semelhante com o que vemos no agronegócio brasileiro, onde trabalhadores já chegam endividados para pagar pelo transporte que os levou até o local de trabalho e têm seus documentos confiscados enquanto estiverem trabalhando. A maioria estava alojada em instalações imundas sem água ou esgoto apropriados, defecando em buracos no chão e tomando banho em baldes.

Apesar de parecer que apenas agora direitos humanos básicos e as comunidades pobres e minorias estejam sob ataque para uma Copa do Mundo, lembramos as absurdas consequências das Copas realizadas no Brasil e na África do Sul, em 2014 e 2010 respectivamente. No primeiro, serviu para vender uma falsa imagem de integração racial e superação do sistema de Apartheid, enquanto removia favelas, sem-tetos e prostitutas dos centros urbanos. No segundo, removeu cerca de 250 mil pessoas de suas casas nos governos Lula-Dilma do PT, de abrir caminho para operações de pacificação e as UPPs no Rio de Janeiro.

Em todos os megaeventos esportivos há oportunidade para governos e capitalistas reorganizarem suas atividades e a estrutura das cidades. No caminho, vemos a falta de consideração com os interesses da população e a resistência popular. A situação piora conforme as condições sociais e econômica do país. Em 2006, a Suécia se recusou a receber a Copa do Mundo FIFA por preferir investir os altos custos públicos necessários para construir moradias. Nas recentes Olimpíadas de Tóquio em 2020, protestos também foram abafados quando denunciavam os riscos de um torneio em meio à pandemia. Como alegou o Secretário-Geral da FIFA em 2013, governos autocráticos e menos transparentes são os mais ideais para a realização de uma copa do mundo, o que explica o desvio das democracias centrais do capitalismo na última década, como Japão e Alemanha, para desembocar em países marcados pela desigualdade como Brasil e África do Sul, passando por regimes autocráticos como Rússia e Catar. Mesmo assim, além da oportunidade de reorganização do espaço e das relações de trabalho no capitalismo global, é possível ver e aprender com as lutas populares e anticapitalistas em diferentes partes do planeta resistindo e denunciando os efeitos dos megaeventos.

“Vou falar uma coisa que é loucura, mas menos democracia às vezes é melhor para organizar uma Copa do Mundo[…]. Quando você tem um chefe de Estado muito forte que pode decidir, como talvez Putin possa fazer em 2018… isso é mais fácil para nós organizadores do que um país como a Alemanha… onde você tem que negociar em diferentes níveis.”

– Jerome Valcke, Secretário-geral da FIFA, 2013.

MEGAEVENTOS COMO DINAMIZADOR ECONÔMICO E POLÍTICO

Numa economia neoliberal cada vez mais globalizada e urbana, as cidades são os principais palcos da acumulação de capital. Para atrair investimentos para um país, é necessário tornar suas cidades polos atrativos para investidores. Isso inclui ter uma vasta mão de obra disponível, um mercado consumidor voraz inserido na linguagem publicitária global e, principalmente, dispor das estruturas de serviços e produtos necessários para ser competitiva a nível global: polos industriais e de pesquisa, aeroportos internacionais, hotéis de luxo, centros de convenção, complexos portuários, centros comerciais, etc. O país que quer competir por investimentos e uma posição de destaque na economia mundial deve usar suas cidades como instrumentos para tal competição.

A visibilidade é crucial nesse processo: os eventos da Copa são transmitidos para mais de 3 bilhões de pessoas em 204 países, abrindo caminho para a venda e a exploração de imagens e publicidade em escala global. Uma influência que as grandes corporações e governos não querem abrir mão. Por isso, em conjunto, eles vão trabalhar para aprimorar a estrutura urbana com o objetivo de concentrar mais poder e capitais. Essa dinâmica integra um novo processo pós-colonial de unificação e uniformização urbana e mercadológica da economia mundial, voltada para o benefício dos ricos e mascarada sob o discurso de “legado dos megaeventos”. Como se tais obras fossem para o uso e o benefício da população como um todo. Pelo contrário, vemos o aumento de uma infraestrutura voltada para a circulação de automóveis e privatização do uso do espaço público ao invés de melhorias no transporte coletivo e nas políticas de mobilidade e acesso à cidade. Vemos a expansão de um mercado imobiliário “financeirizado” e especulativo ao invés da garantia de moradia digna e o fim da concentração fundiária urbana e rural. Além de importar um modelo de urbanização elitista para cidades já marcadas pela desigualdade social, a imposição dessas políticas demanda uma implementação policial e legal para lidar com a instabilidade e os conflitos inerentes a esse sistema, e conter a resistência política dos setores sociais mais afetados que vão combater a tirania por trás dos eventos.

Uma Breve História da Copa do Mundo

Para entender um aparato ou instituição, é preciso olhar para trás, para sua origem, para identificar a que fins ele foi criado. Em nossos esforços para entender a Copa do Mundo, voltamos a 1930, quando a primeira Copa foi realizada no Uruguai. Aquele pequeno país, que completou 100 anos de nacionalidade naquele ano, fez de tudo para sediar a Copa do Mundo e usá-la como ferramenta para consolidar uma identidade nacional.

Esses esforços incluíram a construção de novas estradas, estruturas urbanas e o maior estádio do mundo, além de pagar as despesas de viagem e hospedagem de todas as equipes que iriam competir – algo que nunca mais ocorreu a nenhum país-sede. Através de um esquema de fraudes e ameaças, o Uruguai foi premiado com o campeonato mundial e colheu a recompensa desejada de um renovado espírito nacionalista. Em três anos, o presidente deu um golpe de estado apoiado pela polícia, pelo exército e pelo partido político nacionalista.

Quatro anos depois, o bicampeonato aconteceu na Itália de Mussolini. Com saudações fascistas antes das partidas e a ameaça de morte pairando sobre toda a seleção italiana, o campeonato voltou a ser concedido ao país-sede. A comodidade de ser anfitriã e campeã em uma ditadura, quando o clamor nacionalista é sempre bem-vindo, pôde ser percebida em 1978, quando a Argentina sediou e conquistou a Copa no auge de uma sangrenta ditadura que “desapareceu” cerca de 30 mil pessoas. Também marcou a primeira vez que os eventos foram transmitidos daquele país para televisões de todo o mundo, destacando a ligação entre Copas do Mundo, ditaduras (seja com ou sem eleições), publicidade e melhorias na infraestrutura empresarial e de consumo. Com o tempo não foi mais necessário que países-sede comprassem suas vitórias para conseguir mobilizar sentimentos nacionalistas e proporcionar mais controle sobre os fluxos de riqueza e a criação de novos mercados para as elites locais e multinacionais.

Cartazes promovendo o boicote à Copa na Argentina, em meio à ditadura militar que matava e torturava milhares de pessoas.

Mais tarde, na década de 1980, tanto a Copa do Mundo quanto os Jogos Olímpicos passaram a servir de motores para a expansão do neoliberalismo global. Os eventos esportivos internacionais começaram a refletir a presença e a influência de corporações multinacionais que queriam que suas marcas fossem vistas por bilhões de pessoas e vendidas em todo o mundo.

Há também uma relação mais direta com a transformação urbana no discurso que justifica a construção de uma estrutura a ser deixada como “legado urbano”, como forma de ingressar na lista global de cidades capazes de atrair investimentos, turismo e publicidade em uma economia cada vez mais globalizada. Isso coincide com a diminuição do papel do Estado na gestão das demandas urbanas e o surgimento de um superávit financeiro internacional em busca de novos terrenos para se materializar como expansão comercial.

As políticas habitacionais perdem espaço para um mercado especulativo em que estradas, conjuntos arquitetônicos, shopping centers, portos e aeroportos são financiados com dinheiro público, mas apenas para que empreiteiras, imobiliárias e outros cartéis possam lucrar. Consequentemente, os aluguéis e o valor financeiro das propriedades disparam, forçando os moradores de bairros inteiros a se mudarem – se já não tiverem sido deslocados por despejos forçados, que podem assumir a forma de operações militares de boa-fé quando os moradores estão ocupando sem o devido status legal .

No Brasil, como na maioria dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, as políticas de gentrificação e renovação urbana assumem uma forma particularmente violenta porque atingem regiões e populações em situação precária abaixo dos padrões mínimos de vida encontrados nos países ricos. Esses bairros e favelas geralmente compreendem a maior parte das áreas suburbanas das grandes cidades, crescendo sem infraestrutura estatal ou planejamento urbano, pois as pessoas constroem suas casas da maneira que podem – sem recursos básicos, como serviços de água ou esgoto, e em solo vulnerável a chuvas, inundações , e deslizamentos de terra. As únicas instituições estatais sempre presentes são as forças policiais e militares.

Quando um megaevento se aproxima, essas favelas, prédios de ocupação autônoma ou terrenos improdutivos ocupados por movimentos rurais serão desmatados por todos os meios necessários. No Rio de Janeiro, as portas dos prédios a serem despejados foram pintadas com um número de identificação por funcionários da prefeitura, assim como os nazistas faziam com as vítimas do Holocausto; os moradores tiveram um prazo para deixar suas casas e não puderam recorrer aos meios legais para buscar uma indenização justa.

Foi assim que o Brasil violou sistematicamente as leis internacionais de direito à moradia, das quais é signatário, negando às comunidades afetadas a oportunidade de discutir os projetos que as desalojaram. Se um megaevento como a Copa do Mundo traz ganhos para um país, a questão é quem vai se beneficiar. Certamente não serão populações pobres e desprivilegiadas. João Havelange, ex-presidente brasileiro da FIFA (1974-1998), afirmou “vender um produto chamado futebol”, argumentando que “política e futebol não se misturam”. Sabemos que há muita política e poder por trás desse “produto”.

Um agente do estado escrevendo na parede de uma casa marcada para ser despejada na Favela Vila Autódromo, no Rio de Janeiro.

O PT de Lula e a Copa do Mundo

Um mega-evento não acontece no vazio ou sem um contexto amplo. Desde sua origem carrega as intenções de grupos corporativos e das máfias no comando da máquina estatal que vão se aprimorando a cada edição, seja para implementar novas políticas e mudanças urbanísticas que, sem um bom pretexto, jamais se tornariam prioridade, seja para acelerar ou otimizar um processo de globalização econômica ou tecnológica ou mesmo para renovar e integrar uma protocolo global de policiamento e militarização. O fato de o Brasil ter se candidatado para sediar os três maiores megaeventos do planeta em menos de uma década nos alerta para o que está por trás de tamanha ambição. O país recebeu a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016 e foi um forte candidato a sediar a Expo 2020, perdendo para Dubai: respectivamente o primeiro, o segundo e o terceiro maior evento do mundo.

Quais as intenções e os verdadeiros beneficiados desses empreendimentos? Qual o contexto de tamanha disputa por visibilidade mundial? A FIFA e o COI (Comitê Olímpico Internacional) há muito tempo perceberam que seus eventos tem o potencial de atrair para um país grande visibilidade e investimentos de toda parte do mundo. Portanto, têm a cobiça de governantes locais que querem fazer história dispondo de popularidade e de pretextos para usar massivos recursos públicos para “modernizar” cidades e mercados imobiliários e alavancar empreendimentos privados, enquanto necessidades urbanísticas populares, como educação, saúde e qualidade de vida em geral são negligenciados. O Brasil foi eleito em 2007 para sediar a Copa do Mundo de 2014. Era o primeiro ano do segundo mandato do PT, com Lula como presidente. E seu governo, desde o início, desenhou projeções a longo prazo para se estabelecer como potência mundial, tanto econômica quanto militar.

Em 2004 Lula enviou 1200 soldados para o Haiti numa intervenção com o objetivo de “estabilizar” o país em crise desde a queda do presidente Aristide. Foi a primeira vez que o Brasil liderou uma intervenção militar internacional e se deu através dos pedidos dos EUA e da França. Lula esperava com isso obter apoio dos dois países para se candidatar a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU quando esse passasse por uma reforma. Até hoje não aconteceu reforma e o Brasil não conseguiu a cadeira, mas se manteve presente em 9 das 16 operações de manutenções da paz da ONU ao redor do mundo. Mas o governo petista foi com sua missão no Haiti até o limite e levou a seleção brasileira de futebol para uma partida com a seleção haitiana na capital Porto Príncipe, num amistoso conhecido como “Jogo da Paz”, que comemorava o “sucesso” da ocupação e marcava o início de uma campanha de desarmamento da população. O evento contou com um desfile dos jogadores brasileiros em tanques de guerra enquanto eram ovacionados pela multidão.

A ambição e a megalomania de Lula eram tanta, que não se importou em dizer que a Copa seria do capital privado e em seguida abrir os cofres público para realizar o torneio mais caro de todos os tempos, que custou mais, inclusive, que as últimas três Copas juntas: Japão e Coreia do Sul em 2002, Alemanha em 2006 e África do Sul em 2010 custaram 30 bilhões de dólares. A Copa no Brasil em 2014 custou mais de 40 bilhões. A reforma de sete grande estádios e a construção de pelo menos cinco novos que não serão usados após o torneio (Brasília, Cuiabá, Manaus, Natal e Recife) foi quase inteiramente feita com dinheiro público. No total, foram disponibilizados 12 estádios de alto padrão, sendo que a própria FIFA exigia somente oito. Os planos de Lula e do Partido dos Trabalhadores eram muito grandiosos para caber em apenas dois mandatos, por isso houveram ainda desdobramentos de seus projetos no segundo mandato de Dilma, o quarto com o PT na Presidência da República.

Dilma foi ministra nos oito anos em que Lula foi presidente: primeiro como ministra das Minas e Energia e depois na Casa Civil. Foi também a mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) que retomou investimentos dos capitais da especulação urbana. Agora, vai precisar lidar com a tremenda dívida pública deixada como parte do verdadeiro legado da Copa do Mundo enquanto se prepara para as Olimpíadas já em 2016, também conquistadas durante a gestão de Lula. Só para a Copa no Brasil, a FIFA fechou mais de 900 contratos comerciais com empresas parceiras e patrocinadoras que tiveram monopólios na venda de produtos ligados ao torneio na região dos estádios e Fan Fests, além de alimentos, bebidas e serviços. Mesmo assim, o governo isentou a FIFA de pagar mais de 1 bilhão em impostos para realizar a Copa mais cara da história, mas também a mais lucrativa: 9 bilhões de reais foram arrecadados pela entidade que diz não ter fins lucrativos. Para os governantes ligados à realização dos megaeventos, o maior lucro é político e eleitoral. Para a FIFA, as empresas que ela mesma indica para planejar as obras de infraestrutura e para as empresas e empreiteiras que, não por acaso, são parte dos grupos que financiam campanhas eleitorais do Partido dos Trabalhadores, há um lucro financeiro de cifras bilionárias garantido pelo investimento de recursos públicos locais e pela força da repressão policial.

Ou seja, é importante perceber que o PT não esteve nem poderia estar sozinho em seus projetos. Ele foi o partido que mais recebeu doações privadas nos últimos anos, chegando a 79 milhões de reais em 2013, enquanto o PSDB, PMDB e PSB juntos conseguiram apenas 46 milhões de reais. Em 2014, ano da reeleição de Dilma Rousseff, o PT recebeu 47 milhões de reais das empreiteiras investigadas pela Lava Jato antes do primeiro turno, enquanto PMDB obteve 38 milhões e o PSDB 28 milhões. Havia, obviamente, uma simbiose de poderes econômicos e políticos entre o Partido dos Trabalhadores e aqueles que controlam grandes capitais no país – a despeito do que esbravejam a direita partidária e organizada ou a classe média conservadora quando acusam o partido da presidente de querer instaurar uma “ditadura soviética” no país.

O verdadeiro legado da Copa: um estado de emergência para manter a desigualdade social.

Os maiores resultados e o real legado da Copa já foram contabilizados muito antes do primeiro jogo: 250 mil pessoas desalojadas para realização de obras de infraestrutura sem serem realocadas devidamente; inúmeras obras que já estão subutilizadas depois do evento à custos bilionários de mais corrupção e desvios de verbas públicas que podiam ir para outras áreas precarizadas, como saúde, moradia e educação; ao menos dez operários morreram nas obras e suas famílias seguem sem as devidas indenizações. Outras das consequências tomaram a cena durante as semanas antes e durante o evento, e provavelmente vão perdurar por muito tempo: como trabalhadoras ambulantes impedidas de trabalhar durante a Copa nas regiões próximas das zonas de exclusão da FIFA tiveram suas licenças canceladas indefinidamente, exploração sexual de menores, e a repressão intensa a quem se organiza e protesta para denunciar tudo isso – afinal, nenhuma dessas medidas poderiam ser aplicadas sem a força bruta policial. Com as revoltantes condições impostas pela FIFA, vimos o Estado brasileiro testando e implementando novas políticas e aparatos para controlar o inimigo interno, o questionamento e o protesto. Momentos como esse, um megaevento mundial que abala a economia e as paixões forjadas no espetáculo, no ufanismo e no nacionalismo de um país inteiro, servem de pretexto e experimento para a articulação de uma nova ordem de controle estatal e corporativo dentro de um Estado de Exceção permanente.

“Não vai ter Copa do Mundo!”

A Lei Geral da Copa (n. 12.663/2012) firmada em 2012 com o Governo Federal e a FIFA, uma instituição privada, foi a maior ofensiva legal contra o povo brasileiro com o objetivo de garantir que os “padrões FIFA” de organização de eventos viabilizassem a realização da Copa das Confederações 2013 e a Copa do Mundo 2014. Essa lei custou ao povo a suspensão de direitos e normas constitucionais que já são tão precárias para a maioria. Um tribunal de plantão foi armado para julgar em menos de 48 horas greves ocorridas durante a Copa. Enquanto trabalhadores perdiam o direito de denunciar suas condições e lutar por melhorias, a FIFA podia evadir riquezas e não pagar impostos por fazer seus negócios dentro do território brasileiro. Uma Secretaria Extraordinária de Segurança Pública para Grandes Eventos foi criada ferindo princípios federativos e democráticos. A privatização do espaço público também foi institucionalizada com a determinação do uso de “ruas exclusivas” para a FIFA e seus parceiros, onde até mesmo o comércio local seria obrigado a manter as portas fechadas dentro do perímetro de exclusão em torno dos estádios.

A autorregulação, também inconstitucional, permitiu que a própria FIFA atuasse no mercado sem qualquer intervenção estatal, estipulando o preço que quisesse para ingressos, suspendendo quase totalmente o direito à meia-entrada e qualquer aplicação do Código de Defesa do Consumidor. Além disso, foi permitido o trabalho voluntário de mais de 20 mil pessoas durante a Copa, que se sujeitaram a trabalhar sem a proteção de direitos trabalhistas básicos e fora das normas constitucionais, em situação análoga à escravidão. Sendo que o trabalho voluntário só é previsto por lei para instituições não-lucrativas que tenham fins “cívicos, culturais, educativos, recreativos ou de assistência social” – o que sabemos não ser nenhum dos casos da FIFA. Também foi permitido o uso do trabalho infantil em atividades ligadas ao jogos, como a de gandula, o que é proibido no Brasil desde 2004.

Polícia de choque no Brasil, junho de 2013.

Policiamento Global

Os megaeventos mundiais que forjam paixões no calor do espetáculo oferecem a oportunidade de experimentar levar o controle estatal e corporativo a um estado de exceção permanente, quando as leis e a Constituição podem ser quebradas em nome de mais segurança, mesmo quando violam os direitos dos cidadãos que dizem proteger.

O Estado montou um amplo aparato jurídico para criminalizar os movimentos sociais pautado em definições inteiramente subjetivas. Os movimentos sociais foram caracterizados como “forças opostas”; os protestos foram definidos como algo que “causaria pânico” ou “provocaria ou instigaria ações radicais e violentas”. Contra estes, o governo autorizou a atuação das Forças Armadas. O estado também estabeleceu tribunais especiais para lidar com casos relacionados à Copa do Mundo e aprovou novos regulamentos que permitem que os tribunais respondam a ações de protesto, como bloqueios de estradas, com leis antiterrorismo especialmente severas. Além disso, o governo brasileiro gastou bilhões de dólares em tanques com canhões de água, drones e outros robôs controlados à distância, e armas “menos letais” – ainda capazes de incapacitar e matar seus alvos – para conter a chamada “agitação civil” e proteger contra o “terrorismo”. Enquanto mísseis riscavam o céu em Gaza, depois que tiros e bombas israelenses mataram duas mil pessoas durante a ofensiva em território palestino em 2014, drones vendidos por Israel monitoravam os estádios da Copa do Mundo no Brasil.

Em 13 de julho, 1.500 policiais cercaram um protesto próximo ao Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, atacando-o com bombas e balas de borracha; prenderam 30 manifestantes. Tanques cercaram as favelas. Caminhões do Exército estavam estacionados próximos aos estádios e às Fan Fests da FIFA, proporcionando um clima de repressão ostensiva. É claro que o Estado brasileiro vê seus pobres e movimentos sociais como seus próprios palestinos ou haitianos; as favelas são sua Faixa de Gaza ou Porto Príncipe.

No entanto, pode-se ver cartazes de apoio à resistência palestina exibidos juntamente com cartazes condenando a Copa do Mundo de 2014. Isso comunicou que a solidariedade, assim como a repressão, é “tão global quanto o capital”.

Armas fabricadas no Brasil foram usadas para reprimir a revolta do Parque Gezi na Turquia em 2013.

Durante a revolta do Parque Gezi, na Turquia, vimos imagens de pessoas exibindo cartuchos de gás lacrimogêneo e balas de borracha marcadas com a bandeira brasileira. Especulamos que fossem fabricados pela empresa Condor, uma das maiores produtoras mundiais de armas menos letais, localizada no estado do Rio de Janeiro. Em 2014, vimos 34 tanques alemães empregados na segurança da Copa do Mundo. Esses tanques blindados, com artilharia capaz de abater aeronaves, custaram ao Brasil 40 milhões de dólares. Enquanto isso, a empresa austríaca de armas de fogo Glock chegou a um acordo exclusivo para fornecer à polícia do Rio de Janeiro armas de fogo para as Olimpíadas de 2016. Segundo relatos de jornais,2a própria empresa financiou uma viagem da polícia brasileira a Viena. A FIFA atuou como assessor militar das Forças Armadas brasileiras, determinando quais equipamentos e armas deveriam ser adquiridos; foi a FIFA quem recomendou a compra de viaturas armadas.

A International Security and Defense Systems (ISDS) também forneceu equipamentos para vigilância e defesa durante as Olimpíadas. A ISDS é uma empresa israelense estabelecida em 1982; tem uma vasta experiência em massacrar e reprimir palestinos. Vários relatórios e documentos também apontam para o envolvimento do ISDS nos golpes e ditaduras na Guatemala, Honduras e El Salvador. Sua atuação no Brasil nas Olimpíadas de 2016 serviu como vitrine para seus produtos e serviços, além de um campo de testes de novas tecnologias e procedimentos de segurança em torno de megaeventos. Nas palavras do vice-presidente da ISDS, as Olimpíadas no Brasil seriam “uma incubadora de tecnologias israelenses nessas áreas”.

A utilização da Lei de Segurança Nacional (criada pela ditadura passada), a possível introdução de leis antiterrorismo, o Decreto de Lei e Ordem e a intensificação de outras leis mostram como os megaeventos servem para fortalecer as técnicas de controle do Estado. Ao impor essas regras, as corporações podem lucrar cada vez mais livremente. Tudo isso pode ser entendido como mais uma ofensiva do projeto neoliberal, centrado em uma grande cidade, mas com implicações globais. Serve como um meio de administrar a produção, o consumo e a circulação de bens e trabalho necessários para sua realização.

Ao herdar o projeto de Lula, o governo de Dilma Rousseff preparou o terreno para um policiamento militarizado e integrado que garantiria o sucesso da Copa. Os Centros Integrados de Comando e Controle (CICC), por exemplo, supervisionam 1.700 policiais: federais, militares, civis e rodoviários, além de equipes de trânsito e resgate, atuando em quatorze núcleos espalhados pelas doze cidades-sede dos jogos. O Ministério da Justiça de Dilma investiu cerca de US$ 100 milhões em tecnologia para operar esses centros; eles monitoram aeroportos, estágios, estações de metrô e outros pontos estratégicos em tempo real, e enviam reforços e apoios necessários a cada oito minutos. O plano de ação define uma resposta específica para cada tipo de ação; a polícia militar responde ao black bloc, a polícia federal responde a ocorrências no aeroporto, e assim por diante. O treinamento de habilidades para as forças armadas foi fornecido pelo FBI.

A tecnologia policial e militar criada para este evento permanecerá como legado permanente desses megaeventos. O Brasil, já militarizado e permeado por conflitos intermináveis, tornou-se agora ainda mais sofisticado em sua capacidade de conduzir a guerra interna. O intercâmbio de segurança entre os países tem sido fundamental para solidificar o papel do Brasil na economia global, trazendo treinamento, equipamentos e estratégias das forças policiais e militares mais violentas do mundo. Além da polícia e dos militares israelenses, eles incluíam a polícia francesa, o FBI e também empresas privadas como a Blackwater. A parceria Brasil-Israel continua trabalhando em conjunto contra o “terrorismo” e o narcotráfico. Acima de tudo, porém, eles se concentram no principal inimigo das economias e governos globalizados: seu próprio povo.

E a Copa Segue

Sim, porque é vergonhoso que os manifestantes contra a farra da FIFA sejam condenados, quando hoje grande parte dos próprios organizadores da Copa estão presos! Quando o ex-governador que nos reprimiu com selvageria está preso! Quando o país é levado à beira da fome e da devastação social pelos mesmos vampiros que tremeram de ódio quando a juventude tomou as ruas! Quando a Rede Globo, que nos perseguiu, ainda não explicou as suas negociatas em torno dos megaeventos!

– Nota dos 23 ativistas condenados por conta das manifestações de 2013/2014

Esperávamos atingir um pico de atividade e mobilização durante a Copa do Mundo de 2014 comparável ao que havíamos alcançado em 2013. Mas descobrimos que as expectativas não contam muito no decorrer da história. Embora muitos gritassem “Não vai ter Copa!” e se organizassem para tomar  as ruas com as pessoas por ela impactadas, a Copa ocorreu sem grandes transtornos para os beneficiados.

Sabemos que as leis, os direitos legais e a constituição só atendem às nossas necessidades quando isso produz ganhos ainda maiores para o governo e os patrões. Entendemos que a soberania nacional como gestão das leis e da segurança de um país concentra nas mãos dos poderosos o monopólio da tomada de decisões que afeta a todos nós. Além disso, ficamos sabendo que até esse teatro democrático que promete direitos humanos e direitos trabalhistas aos precários é uma fraude: quase tudo que dizem ser inalienável está sujeito a suspensão arbitrária a qualquer momento. E com essa suspensão entramos nos estados de emergência e guerra preventiva, muitas vezes regidos por instituições transnacionais nada democráticas – como a FIFA, cujos dirigentes não foram eleitos.

Não são apenas os presos por participar de um protesto ou supostamente organizar manifestações; toda a população sofre as consequências de um estado de exceção cada vez mais permanente. As populações negras e periféricas, assim como pobres, rurais e sem-teto, sentirão o peso dessas mudanças.

A FIFA saiu do Brasil com o maior lucro de sua história. Em 2018, seguiu para a Rússia, um dos países mais repressores da atualidade em termos de liberdade de expressão e direitos civis. Em 2022, a Copa foi para o Catar, conhecido por utilizar a mão de obra escrava de imigrantes;  Desde a última década, quando a Copa do Mundo de 2002 aconteceu no Japão e na Coreia do Sul, vimos a FIFA voltar sua atenção para os países emergentes, democracias recentes (se é que são democracias) caracterizadas por profunda corrupção em seus governos e dispostas a se curvar a pressões externas para aprovar leis de emergência.

Se os meios legais e constitucionais de que dispomos para nos defendermos de nossos próprios políticos já são tão ineficientes, nosso poder de defesa contra instituições que sequer estão em nosso território é ainda mais tênue. Nesta situação, assim como as ocupações de florestas, parques e territórios para impedir a construção de aeroportos, barragens, complexos portuários, mineração, apenas a organização de base e radical pode oferecer alguma esperança na luta contra megaeventos e a constante reestruturação capitalista.

CONTRA A COPA E SEU MUNDO!

Protesto no Rio de Janeiro em 13 de julho de 2014.

Para saber mais:

LUTANDO NO BRASIL – Sobre grandes mobilizações e o que fazer quando a fumaça se dissipa: Em português | Em inglês

LUTANDO NO BRASIL – Parte II: RECIFE, SÃO ROQUE E RIO DE JANEIRO: Em português

Com Vandalismo – Documentário, Coletivo Nigéria, Fortaleza, 2013

Copa do Mundo: autoritarismo, nacionalismo e negócios ©, .

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NÃO EXISTE OPOSIÇÃO INSTITUCIONAL AO FASCISMO: Análises sobre a escalada da violência da extrema-direita no Brasil https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/12/17/nao-existe-oposicao-institucional-ao-fascismo/ Sat, 17 Dec 2022 18:14:43 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3042 Continuar a ler "NÃO EXISTE OPOSIÇÃO INSTITUCIONAL AO FASCISMO: Análises sobre a escalada da violência da extrema-direita no Brasil"

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Na noite de 12 de dezembro, a violência da base bolsonarista de rua avançou mais um passo em sua radicalização. Uma Delegacia e a sede da Polícia Federal foram atacadas, cinco ônibus e três carros foram incendiados em Brasília como resposta à prisão de um indígena pastor evangélico e bolsonarista acusado de organizar os atos golpistas, praticar ameaças e promover ataques ao Estado Democrático de Direito. O homem que se intitula “líder indígena” mesmo sem o reconhecimento dos povos da sua etnia, teve a prisão decretada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.
Quando esses grupos neofascistas começam a adotar táticas de luta radicalizada sem qualquer oposição das polícias, é preciso refletir sobre o futuro dos conflitos políticos por vir. E repensar – mais uma vez – o papel da esquerda radical diante dos avanços do fascismo de rua.

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No início, a maioria dos atos dos autoproclamados “cidadãos de bem” contestando o resultado das eleições para presidente foram diurnos e compostos por homens, mulheres, idosos e, muitas vezes, crianças para dar um ar de “família” e justificar a falta de ação violenta da polícia que ataca protestos e bloqueios de movimentos de esquerda com ou sem crianças. Já nessa época, alertamos sobre o risco de atribuir falsa legitimidade a certas ações ao tratar como “insurreição popular” os atos bolsonaristas por intervenção militar e anulação das eleições patrocinados por empresários do agronegócio e das indústrias.

Agora, quando ações violentas como linchamentos e até sequestros e torturas se tornam parte do seu repertório de ação, um novo perfil majoritariamente masculino, radicalizado, noturno e disposto ao confronto aberto está se consolidando, segue sem oposição dos movimentos de esquerda e com o apoio quase integral das forças de segurança. É preciso compreender que o fascismo sem oposição nas ruas crescerá como um motim cada vez mais violento.

A esquerda petista, a mídia e alguns juristas acreditam que basta chamar o que está acontecendo de terrorismo e tratar com prisões e penas duras seus participantes. Tal iniciativa é parte do processo pacificador que professa a fé nas leis e nas instituições que nada fizeram até agora para barrar de fato tais ações e deixaram as ruas livres para o fascismo. Como resultado, a imagem de ônibus em chamas, antes o símbolo da luta contra a repressão do estado e a exploração capitalista, vista nos atos contra aumento da tarifa, contra a Copa da FIFA ou contra ações da polícia nas periferias, agora está prestes a se tornar o retrato do “terrorismo de direita”. E o papel de “defensor da lei e da ordem” passa a ser adotado pela esquerda legalista e institucional que em breve estará sob a tutela de um novo governo petista.

De fato, os confrontos do dia 12 mostram que essa direita está disposta a “não deixar ninguém” pra trás e lutar pela libertação de um dos seus integrantes. A Secretaria de Segurança do DF (governo alinhado ao Bolsonaro) alegou não ter efetuado nenhuma prisão para assim “reduzir danos e evitar uma escalada ainda maior nos ânimos”, atestando a eficiência da organização do protesto radicalizado. Dá a impressão até de que seu sucesso confirmaria a tese insurrecional de que “a força de uma insurreição é social, não militar“. Mas é bom lembrar que a motivação e os interesses dessa base radicalizada do bolsonarismo não são populares, isto é, originada dos debaixo: são os mesmos do presidente derrotado, sua família e sua rede de políticos eleitos para cargos no legislativo; além, é claro, do “partido militar” informal responsável pela eleição do representante do seu projeto de poder em 2018.

Uma imagem do futuro?

Assim sendo, não causa surpresa o fato das polícias militares e federais não efetuarem nenhuma prisão na noite de ataques pela libertação do pastor indígena bolsonarista. O que permite ao filho do milionário praticar feminicídio, dirigir bêbado e matar, ou ao aliado de político encomendar a morte de inimigos e seguir a vida sem importurnação é a mesma lógica que permite grupos fascistas cometerem atos de violência contra pessoas ou de destruição da propriedade sem a menor consequência: a justiça é burguesa e a polícia é sua empregada. Ambos têm lado, partido e ideologia. O fascismo está inscrito na forma-Estado, por isso nenhum governo suprime totalmente o fascismo, pois, quando necessário, recorre a ele para garantir seus privilégios e de sua classe dirigente.

Qualquer um de nós de grupos pobres, pretos, periféricos ou mulheres que praticarem tais atos colocarão suas vidas em risco. Pois serão imediatamente alvo de violência letal e prisões arbitrárias, provas plantadas e inquéritos forjados, como Rafael Braga ou os 23 do Rio de Janeiro, presos nos protestos de 2013/14. Naquela época, após uma década de gestão petista, os protestos de 2013 apresentaram os black blocs e táticas populares combativas contra a repressão policial e intelectuais de esquerda não pouparam críticas desonestas. Marilena Chauí, por exemplo, em fala para cadetes da PM do Rio, disse que anarquistas e adeptos da tácita black bloc “agiam com inspiração fascista”.

Dessa vez, o futuro governo de Lula e Alckmin, herdeiro das leis antiterrorismo de Dilma para criminalizar movimentos sociais, já se inicia com promessa de tolerância zero para protestos de rua – o que sempre vai bater mais forte nos movimentos populares e anistiar os fascistas aliados da polícia e do empresariado. O novo pacto de classes será ainda mais à direita do que aquele firmado há exatos 20 anos. Quando Flávio Dino, futuro ministro da Justiça de Lula, afirma que protestos com vandalismo serão tratados com rigor e como sinônimo de terrorismo, e um ex-ministro petista, Gilberto Carvalho, aponta que os ataques bolsonaristas são “o retorno dos black blocs”, podemos ter certeza de que qualquer ruptura nesse novo consenso petista será esmagado pela polícia e pela lei. Mas, por agora é conveniente deixar os fascistas na rua e retroalimentar a posição santificada da esquerda institucional, da fé nas estruturas de poder e gestão.

Mesmo que o STF detone uma diligencia policial para prender uma centena de apoiadores de protestos golpistas, isso não passa do que parece: um espetáculo na ordem. Passada a turbulência da transição, a pacificação já estará consolidada. Ele junta o aparato jurídico e policial à chantagem do “antes era pior” e o fascismo pode voltar para produzir sua fórmula mágica da paz com algumas migalhas de políticas públicas para os miseráveis.

O avanço eleitoral e como força social mobilizada da extrema-direita no Brasil, que sob o nome bolsonarismo e sob a liderança de militares congrega desde profissionais da violência (policiais e similares legais e ilegais) até amplos setores das classes médias e altas, coloca de maneira inequívoca quais os termos da atual falência funcional das democracias atuais: ou uma insurreição abole as regras do jogo para a construção de algo novo ou morreremos de inanição sob o julgo do aparato securitário do Estado e com medo perene de que a violência fascista irá nos atingir.


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VÍDEO: “Chama a Polícia!” – Sobre a criminalização da ação direta e a legitimação das instituições.

 

NÃO EXISTE OPOSIÇÃO INSTITUCIONAL AO FASCISMO: Análises sobre a escalada da violência da extrema-direita no Brasil ©, .

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“Chama a Polícia!” – Sobre a criminalização da ação direta e a legitimação das instituições. https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/12/10/chama-a-policia/ Sat, 10 Dec 2022 16:08:23 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3021 Continuar a ler "“Chama a Polícia!” – Sobre a criminalização da ação direta e a legitimação das instituições."

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A ocorrência de atos golpistas desde as eleições, com barricadas, bloqueios, muitas vezes descambando para a violência, levou muita gente e organizações de esquerda a pedir pela ação da polícia e da Justiça. Para muitas pessoas, Alexandre de Moraes virou um símbolo da resistência ao fascismo bolsonarista. Mas será que não ficou claro ainda que a polícia que prontamente dispersa e reprime manifestações de esquerda, vai relutar e procrastinar na hora de combater fascistas? Que um judiciário que agiu rapidamente para prender Lula, mesmo sem provas concretas, de forma a impedir que concorresse nas eleições de 2018 é o mesmo que permite que Jair Bolsonaro continue impune até hoje, apesar de todos crimes que claramente cometeu? Ainda não percebemos que legitimar e fortalecer essas instituições é um erro, pois elas sempre baterão mais forte em nós?

Para abordar essas questões, ajudamos (modestamente) o coletivo Antimidia a produzir um vídeo sobre polícia e a criminalização dos recentes protestos golpistas e passividade da esquerda hegemônica.

Historicamente, movimentos sociais de esquerda radical sempre criticaram as instituições que sustentam o regime que explora e oprime os povos deste território. Surgiram movimentos pedindo desmilitarização e mesmo o fim de polícias, denunciando que tribunais e prisões foram criados e sempre serviram aos interesses da elite política e financeira.

Mas durante o governo Jair Bolsonaro esse debate foi deixado um pouco de lago. Com as sucessivas ameaças fascistas às chamadas “instituições democráticas”, golpismo e autoritarismo, boa parte da esquerda parou de criticar as instituições repressivas do Estado e passou a defendê-las com unhas e dentes.

Se por um lado, a aliança de Lula com seus antigos opositores, levou a esquerda institucional e toda a política partidária ainda mais ao centro e à direita, do outro,  ativistas, movimentos sociais e mídias de esquerda reproduzem e fortalecem um discurso reacionário que reforça a legitimidade do Estado.

Quem até então pedia por repressão e respeito às leis eram as forças reacionárias e elites, que se beneficiam da ordem atual das coisas.
É preciso deixar claro que o aquilo que combatemos é o projeto fascista, que busca a manutenção e avanço de um projeto conservador e autoritário, que extermina e explora os povos deste território para o benefício de uma elite branca, rica e patriarcal.

Alguém nos chamou?

Barricadas, bloqueios, destruição de propriedade privada e confronto com a  polícia não são um problema em si. São táticas valiosas, historicamente usadas por movimentos sociais para resistir aos avanços do capital e do Estado e para lutar por uma vida digna. Não podemos negar que a forma como os fascistas utilizam essas táticas é diferente. Afinal, são fascistas. Não se importam com a vida humana e não hesitam em bloquear ambulâncias e pessoas que buscam atendimento médico ou outros serviços essenciais. E, ao contrário dos movimentos sociais, que buscam atacar estruturas de opressão, os apoiadores de Bolsonaro atacam violentamente qualquer pessoa que não demonstre apoio explícito a seu projeto autoritário e conservador. Chegando ao ponto de torturar, linchar e, em casos extremos, matar pessoas que discordam de sua visão política.

Dar carta branca para a polícia reprimir bloqueios, barricadas e outras formas de ação direta, mesmo que barre os movimentos fascistas é reforçar e legitimar instrumentos que baterão ainda mais forte sobre nós. Por mais duras que sejam as leis, a polícia e os tribunais sempre hesitarão e serão mais comedidas na hora de reprimir e punir fascistas do que ao reprimir as pessoas pobres, pretas, indígenas, periféricas, dissidentes de gênero. Basta olhar para exemplos de como a polícia reluta e têm dificuldade para remover os bloqueios, levando semanas para cumprir ordens judiciais. Em como o judiciário, mesmo quando tenta impor limites a Bolsonaro, ainda não agiu em relação aos diversos crimes cometidos por ele.

É bom lembrar que Alexandre de Moraes, hoje ministro do STF, símbolo das instituições democráticas frente ao fascismo de Bolsonaro, foi secretário de segurança pública durante o governo de Geraldo Alckmin no estado de São Paulo, e sua gestão foi marcada por brutal repressão a movimentos sociais e protestos em 2013 e 2014. Ele nunca esteve do nosso lado.

Quem são esses seus amigos?

Pior que uma ilusão, é uma armadilha entregarmos nossa segurança e nosso futuro a instituições que foram criadas para nos controlar e reprimir, enquanto protegem aqueles que nos massacram. A polícia pode até desfazer momentaneamente os bloqueios, punir alguns dos empresários que financiam a tentativa de golpe de Estado. Mas ela nunca vai acabar com o movimento fascista, pois já deixou bem claro que é parte dele. É óbvio que não devemos ficar imóveis, assistindo o fascismo ocupar as ruas e ameaçar nossa existência. Precisamos criar e fortalecer nossas próprias organizações para garantir nossa segurança. Pois ninguém fará isso por nós.

O bolsonarismo deu vida nova à violência de extrema-direita contra pessoas e serviços essenciais, algo que não víamos de forma organizada desde o período da Ditadura Militar. Nos últimos cinco anos a esquerda tem deixado para as instituições resolverem o problema, mas ele só se tornou mais violento e radical. Entregar nosso poder de ação nas mãos de políticos profissionais e tribunais é recuar. É permitir que a direita avance nas ruas e nas instituições. É urgente reocupar as ruas. Defender nossos territórios. E colocar as forças reacionárias na defensiva.

Nossa única opção.

“Chama a Polícia!” – Sobre a criminalização da ação direta e a legitimação das instituições. ©, .

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