Anarquismo – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org vandalismo, depredação e análise Tue, 04 Aug 2026 01:22:06 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2019/09/cropped-FAC_logo19_ilustra-32x32.png Anarquismo – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org 32 32 Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do Que o Fim da Polícia – Poster Para Imprimir https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2026/08/03/fim-do-mundo-fim-da-policia/ Mon, 03 Aug 2026 21:55:19 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3540 Continuar a ler "Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do Que o Fim da Polícia – Poster Para Imprimir"

]]>

 

[Baixe em PDF]

Um pensamento atribuído a Frederic Jameson e repetido por Slavoj Žižek e Mark Fisher, diz que, em nosso tempo, seria “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do Capitalismo”. A frase traz um diagnóstico crítico importante sobre a impossibilidade da imaginação e o sentimento perpétuo de que é impossível viver fora do atual sistema econômico e político dominante. A possibilidade de fim dessa ordem seria vivenciada apenas como o fim da humanidade em si e de seu mundo.

Talvez por esse motivo quase toda distopia apocalíptica conta com um roteiro semelhante, onde pessoas buscam reabilitar o mundo que foi destruído, e retornar para a “normalidade” conhecida – um desejo que se tornou universal durante a pandemia da Covid-19. Uma herança judaico-cristã, que aceita um deus, um mundo e, portanto, uma única “humanidade”. Se esquecendo que o mundo dos povos indígenas acabou muitas vezes desde 1492 mas seguem resistindo e nos ensinando a sobreviver o fim de mais esse mundo. 

Sejam reformistas ou revolucionários, tanto os defensores quanto os falsos críticos da ordem parecem concordar que os rumos do Capitalismo ameaçam a sobrevivência da vida no planeta. Porém sua disposição para acabar com as estruturas de dominação encontram limites no Estado e nos seus aparelhos repressores. De jacobinos a bolcheviques, de sociais-democratas a fascistas, a disputa parece ficar em torno da questão de que para superar o Capitalismo (ou o “sistema”) é necessário tomar o poder através de um “governo revolucionário” (e sua polícia). A questão parece ser sempre a de quem detém o controle de suas estruturas – e não a destruição das instituições que perpetuam a destruição de nossas comunidades e do meio ambiente.

Fica claro que críticas vindas da esquerda e das classes oprimidas muitas vezes evitam debater e promover ações que apontem para o fim da polícia e das prisões porque consideram que estas serão necessárias quando for sua vez de assumirem o comando por meios revolucionários ou da ocupação gradual dos postos de direção política. Afinal, quem vai impor as decisões do novo governo, do partido que “representa a classe” e seu comitê central?

Não é por acidente e nem deveria surpreender que movimentos revolucionários vitoriosos que se dedicaram a erguer sua própria polícia e a desenvolver seus aparatos repressivos, passaram a conduzir sua própria contrarrevolução e voltaram suas armas para as camadas populares que ajudaram a derrubar o regime anterior. Sem uma polícia e toda uma organização militar própria e secreta, os Bolcheviques não conseguiriam tomar grãos de camponeses à força, reprimir greves e massacrar camaradas socialistas e anarquistas que protestavam contra seus abusos.

Por compreenderem isso no seio da própria luta, anarquistas, desde Bakunin, diferenciam a revolução social, que derruba Estado e Capital em favor da ação direta e da autogestão, de uma revolução política; que entrega o controle do Capital ao Estado, dirigido pelos burocratas iluminados (e um tanto depressivos) da revolução e do partido que governa em nome dos trabalhadores.

* * *

Desde o surgimento do que entendemos por uma polícia moderna, na Inglaterra do século XIX, sua função era o de disciplinar as massas trabalhadoras e controlar as camadas excluídas e miseráveis. Quando empregar em seu próprio território um exército treinado para guerras contra inimigos externos parecia ser brutal e ineficiente, a polícia surge como uma força mais amena de profissionais empregados para defender a propriedade e agir contra o ameaças internas à paz: greves, rebeliões e movimentos sindicais.

Nas chamadas Américas, onde as sociedades foram fundadas sobre o colonialismo e a escravidão, as polícias surgem como uma extensão das forças que capturavam e mantinham pessoas escravizadas. Nunca foi seu objetivo prevenir o crime, mas governar garantindo que apenas os comportamentos de certos grupos sejam criminalizados e punidos com base não apenas na cor da pele e no pertencimento de classe, mas também no gênero, idade, profissão (ou a falta dela). Mesmo se você não tiver nada, a polícia estará lá. Ela é o patrão de quem não tem emprego ou casa. Para isso,  as elites no poder recrutam entre a massa empobrecida pessoas dispostas a defender seus interesses em troca de dinheiro e respeito. São traidores da classe dispostos a ferir sua comunidade por um salário e o poder que uma arma na mão pode lhe dar.

A chamada “Guerra às Drogas” trouxe de volta a noção militarizada da força bruta e letal para a repressão da sua própria população. Mas obviamente, que não igualmente para todas as pessoas envolvidas com produção, venda e consumo de drogas. As pessoas brancas ricas e proprietárias, no topo, sofrem (quando muito) processos legais e administrativos. Na base, a população preta, imigrante e periférica enfrenta o encarceramento em massa, suspensão de direitos básicos e o extermínio.

Reformar a polícia é, portanto, apenas tentar dar mais legitimidade à sua existência e tornar mais difícil sua abolição. Mesmo quando a polícia recruta membros da mesma cor, gênero ou origem dos grupos tradicionalmente excluídos, a realidade mostra que isso apenas aumenta a tensão nessas comunidades.

* * *

A devoção ao Estado é, inevitavelmente, o amor pela polícia. Sem ela, não é possível uma divisão entre quem manda e quem obedece, entre quem trabalha e quem administra, entre pessoas incluídas e excluídas. Ela fabrica inimigos internos para justificar sua existência.

O mito de que a vida é melhor para  todo mundo – e não só para  a elite – com o trabalho da polícia está tão entranhado em nosso imaginário que as pessoas que se declaram revolucionárias e de esquerda acreditam que sua revolução também será melhor conduzida com a ajuda da polícia. Elas se recusam a assumir que o que desejam é a garantia de poder e controle que o uniforme e as armas dos especialistas em violência imposta os garante.

Em um mundo em colapso, a única coisa capaz de impedir que as pessoas consigam lutar por suas vidas e tirar a riqueza e os recursos das mãos dos ricos é a força bruta. A última e maior função do Estado é a repressão policial. Cientes disso, uma esquerda que almeja o poder centralizado não pode oferecer outra coisa que não um novo círculo de legitimação das forças de segurança. O Capitalismo pode até acabar, mas alguém precisa garantir o poder dos novos líderes.

Ou criamos comunidades livres e fortes com autogestão e por meio da ação direta, capazes de construir sua autodefesa sem depender de profissionais e especialistas em violência, ou prepararemos o terreno, os recursos materiais e a legitimidade de aparatos repressores que podem simplesmente cair na mão de futuros governos fascistas. Ou pior seguir na mão de benevolentes e humanistas governantes iluminados que praticam massacres em nome da democracia.

Quem fala de uma luta contra o capitalismo e o fascismo, sem falar de uma luta contra o Estado, suas polícias, tribunais, exércitos e prisões, fala com um cadáver entre os dentes.


LEITURAS RECOMENDADAS:

SOMOS TODAS ANTIFASCISTAS – MENOS A POLÍCIA: sobre como e com quem lutamos – por Facção Fictícia

Polícia: Um Estudo Etnográfico Foto-Ensaio Sobre a Obediência Armada – por CrimethInc.

O Fim do Policiamento – Alex S. Vitale

 

Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do Que o Fim da Polícia – Poster Para Imprimir ©, .

]]>
A COP30 não é um fracasso — é uma farsa https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2025/12/22/cop30-farsa/ Mon, 22 Dec 2025 15:09:40 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3468 Continuar a ler "A COP30 não é um fracasso — é uma farsa"

]]>

Em novembro de 2025, líderes de governos, empresas e ONG’s se reuniram em Belém, Pará, para a COP30 para debater supostas saídas ecológicas para o inferno na Terra que o capitalismo está construindo. Nosso camarada Peter Gelderloos, anarquista e pesquisador autônomo estadunidense esteve presente nos eventos críticos à conferência, percorrendo o território brasileiro coletando entrevistas com membros de comunidades indígenas, assentamentos e territórios de movimentos como MST e Teia dos Povos, além de ocupações urbanas. O artigo a seguir é uma das primeiras impressões que o autor publicou sobre o contexto e propostas em torno da COP30.

O autor está prestes a lançar livro “As soluções já estão aqui: estratégias revolucionárias ecológicas vindas de baixo”, editado neste ano pelas editoras Teia dos Povos, GLAC e Entremares e fez um bate-papo sobre o Jornadas ANTI-COP30 em Belém, organizadas pelo Centro de Cultura Libertária da Amazônia (CCLA).

Para saber mais sobre a posição de anarquistas do Pará sobre a COP30 e como foram as Jornadas Anti-COP30, leia o artigo completo do do CCLA aqui.


A COP30 não é um fracasso, é uma farsa – Porque cúpulas climáticas não podem resolver a crise e porque devemos apoiar as lutas indígenas

Ao fim da cúpula climática da COP30 em Belém, no estado brasileiro do Pará, os organizadores de conferências têm pouco a mostrar após duas semanas de conversas altamente divulgadas. Isto é ruim para todos. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas precisava desesperadamente restaurar sua reputação. Afinal, a COP 29 do ano passado ocorreu no Azerbaijão, onde os combustíveis fósseis representam 90% das exportações e onde o governo estava sendo acusado de realizar genocídio nos meses que antecederam a conferência. No ano anterior, a COP 28 foi realizada em Dubai, capital de outro petro-estado.

Este ano, a estratégia de marketing para a conferência climática começou com um mea culpa pela exclusão histórica dos povos indígenas. Um comunicado de imprensa da ONU anunciando as conclusões de um relatório recente sobre os povos indígenas e a crise climática colocou da seguinte forma: “De projetos de energia verde impostos sem consentimento para decisões políticas tomadas em salas onde as vozes indígenas estão ausentes, essas comunidades são muitas vezes excluídas de soluções climáticas, deslocadas por eles e negadas os recursos para liderar o caminho”.

Para isso, o Ministério dos Povos Indígenas (PMI) do Brasil convidou 360 líderes indígenas para participar de negociações dentro da COP, após um processo de seis meses em que eventos foram realizados com 80 povos indígenas cujos territórios são ocupados pelo estado brasileiro. O objetivo era “garantir a maior participação indígena na história das Conferências Climáticas da ONU”, segundo o site oficial da COP 30. Em uma espécie de chamada e resposta, o The New York Times e outros meios de comunicação ecoaram acriticamente essas alegações, com manchetes como “Indígenas, há muito marginalizados nas negociações climáticas, sobem ao palco”.

O que essas declarações pressupõem é que, embora possa haver erros no processo, a solução é maior participação. Nenhuma dessas instituições – a ONU, os grandes meios de comunicação, as principais ONGs e os governos mundiais – parece disposto a enfrentar a verdade de que o processo da COP não está simplesmente falhando em resolver a crise climática: eles não podem resolver a crise climática. E essa farsa está atrapalhando estratégias reais e ativas para proteger os povos indígenas e abordar o ecocídio.

A metáfora do Times sobre tomar o palco é apropriada, dada a natureza vistosa e espetacular desses esforços. Cidades em todo o Brasil têm sido cobertas de publicidade colorida que mostra povos indígenas e vida selvagem amazônica. E na segunda-feira, quando uma marcha dos povos indígenas começou a segunda e última semana da COP30, representantes indígenas que apoiam o governo e a conferência tiveram seu lugar na frente da marcha, com grandes faixas e um sistema de som móvel, enquanto grupos mais críticos falando sobre a falta de resultados reais foram relegados para trás.

Anarquista e outros movimento se juntam aos protestos Anti-COP30 em Belém, novembro de 2025.

Para manipular os movimentos indígenas, os governos usam benefícios e punições. Os benefícios incluem promessas de investimento e financiamento, como os US $ 11,8 bilhão que quatro países europeus e trinta e cinco filantropias apoiadas pela indústria prometeram aos povos indígenas nos próximos cinco anos. A maior parte desse dinheiro é destinada a ONGs que trabalham com povos indígenas. Tais investimentos têm um histórico duvidoso quando se trata de proteger a terra ou aumentar a autonomia indígena, embora seja certamente um recurso significativo para apoiar representantes indígenas em conformidade que são frequentemente nomeados pelos estados que ocupam suas terras.

As punições, entretanto, podem variar de técnicas difíceis a suaves de repressão. O dia da marcha, dos direitos humanos e dos grupos ambientais publicou uma carta aberta acusando o chefe climático da ONU, Simon Stiell, de ​ “ criando um efeito arrepiante e um sentimento de insegurança para os indígenas povos”, após Stiell pedir ao Brasil que aumentasse as forças de segurança em torno do local da COP.

No dia anterior, homens armados atacaram a comunidade indígena Guarani Kaiowá de Pyelito Kue, no sul Estado brasileiro de Mato Grosso do Sul, matando o defensor da terra Vicente Fernandes Vilhalva, ferindo outros quatro membros da comunidade e queimando por todas as casas e propriedades da comunidade. O assalto, o quarto de seu tipo em duas semanas, vem como os Guarani Kaiowá se envolveram em um luta para reocupar algumas de suas terras ancestrais.

De todas as realizações que o quadro climático dominante pode se orgulhar, nenhuma delas tem a ver com a redução das emissões de gases de efeito estufa ou a desaceleração do desmatamento e a devastação de áreas úmidas em todo o mundo. Quando países específicos são capazes de reivindicar uma redução nas emissões, é em parte graças ao comércio de carbono e sistemas de contabilidade de carbono que os lobistas corporativos se certificaram de que estão incluídos em acordos climáticos, como eu relatei anteriormente aqui, aqui e aqui. Pelo contrário, as realizações da COP têm a ver com a garantia de investimentos e financiamento. As empresas que podem reivindicar um rótulo verde estão desfrutando de um mercado em crescimento e os lucros que vêm com ele, mas o benefício para as comunidades indígenas ou o movimento mais amplo para parar a crise ecológica é duvidoso.

Manifestantes indígenas marcham do lado de fora da conferência climática COP30 em Belém do Pará, Brasil, 17 de novembro.

Os povos indígenas em todo o Brasil fizeram seus maiores avanços na recuperação de seu território não com planos de investimento, mas por meio de ações diretas. O Ka’apor da Amazônia tem queimado caminhões madeireiros. Os Guarani da Mata Atlântica usaram protestos e bloqueios para forçar o governo a devolver uma pequena parte de suas terras que haviam sido roubadas. Gah Te Iracema, líder espiritual da comunidade Kaingang de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, que viajou para Belém para a COP 30, me diz que ““recuperamos uma parte de nossa terra, mas não é reconhecida pelo governo. Então, estamos aqui para falar sobre a nossa luta. Nós chamamos isso de recuperação de terras, mas é como voltar para nossa casa.”

Os Guarani Kaiowá, mencionados acima, foram violentamente expulsos de suas terras nos anos 1980 s. Os principais interesses da pecuária então se mudaram e assumiu. Os Guarani Kaiowá têm tentado recuperar alguns dos suas terras, mas a FUNAI, a agência governamental brasileira designada para proteger os povos indígenas, não seguiu com oficial demarcação. Um relatório da Survival International, uma organização que defensores dos direitos dos povos indígenas em todo o mundo, chamado a estagnação “ uma violação do direito brasileiro e internacional” que tem forçou “os Guarani a suportar ataques violentos e assassinatos nas mãos dos pecuaristas e policiais apoiados por políticos locais que atuam com impunidade”. O relatório prossegue: “Um acordo oficial feito entre promotores públicos, FUNAI, e os Guarani em 20072007, e terras recentes promessas de demarcação do Presidente Lula — não foram mantidos.”

O povo Guarani Kaiowá enfrenta escassez de alimentos e envenenamento por químicos agrícolas. Ao mesmo tempo, esses fazendeiros e donos de plantações têm uma voz menos pública mas bastante mais efetiva na COP30: s lobistas agrícolas, dos quais mais de 300 vieram à COP30, onde alguns receberam “acesso privilegiado” a negociações chave. Atualmente, a pecuária e a expansão de terras agrícolas, maioritariamente para plantações de soja para a alimentação do gado, são os principais fatores de desmatamento da bioma da Amazônia. O presidente Lula propôs uma mudança para outra indústria lucrativa, uma com uma reputação mais verde: os biocombustíveis, que podem substituir os combustíveis fósseis. No entanto, as plantações que cultivam biocombustíveis também contribuem para o desmatamento. Um estudo recente pelo think thank Transport and Environment descobriu que, quando todos os seus impactos são contabilizados, os biocombustíveis causam 16% mais emissões que os combustíveis fósseis.

Isso aponta para uma falha incorrigível na discurso oficial sobre o clima. Para todos os principais participantes — ministros do governo, indústria lobistas e até mesmo os diretores de grandes ONGs — o inquestionável fundação de uma solução climática é uma economia baseada no crescimento organizada por governos. A questão fundamental na COP 0 e todas as anteriores conferências climáticas não é, “como paramos a mudança climática?” A questão com a qual eles estão trabalhando é: “ que respostas às mudanças climáticas são compatível com o poder do Estado e as economias baseadas no crescimento?” E a resposta eles se recusam a admitir é que respostas efetivas não são compatíveis com o sistema atual, porque este sistema em si — suas formas aceitáveis de organização política e econômica — são as causas profundas da crise.

Os investidores não estão no negócio de dar dinheiro a programas dos quais eles não pode tirar lucro. Culturas se empoderando plenamente, que são eco-centradas e comunais, que não tratam a terra como mercadoria, são a verdadeira solução — mas isso seria uma má notícia para os negócios e para todos os governos em todo o mundo que atrelam seu poder ao crescimento econômico. Não importa quantos representantes de povos marginalizados estão na mesa de diálogo: o crescimento econômico está em conflito com a vida neste planeta. Não podemos ter ambos.

Para todos nós tentando sobreviver em meio a catástrofes em série sobre um planeta sitiado, a escolha entre lucro e a vida não deveria ser uma escolha difícil.


Peter Gelderloos é um pesquisador independente, escritor anarquista e militante estadunidense, autor de diversas obras, incluindo o célebre livro Como a Não Violência Protege o Estado e Anarquia Funciona.

A COP30 não é um fracasso — é uma farsa ©, .

]]>
ENTENDENDO A AUTODISSOLUÇÃO DO PKK — O Que Isso Significa Para o Oriente Médio? https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2025/07/20/pkk-2025/ Sun, 20 Jul 2025 20:47:57 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3457 Continuar a ler "ENTENDENDO A AUTODISSOLUÇÃO DO PKK — O Que Isso Significa Para o Oriente Médio?"

]]>

Em 12 de maio de 2025, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (Partiya Karkerên Kurdistanê, PKK) anunciou sua dissolução após mais de quatro décadas de luta armada contra o governo turco. Isso ocorreu após um apelo do líder do PKK, Abdullah Öcalan, que estava preso, para dissolver a organização. Em 11 de julho, combatentes do PKK participaram de uma cerimônia em homenagem ao desarmamento. O que isso significará para os movimentos curdos de libertação e para o Oriente Médio em geral?

Na análise a seguir, o coletivo CrimethInc, convida uma militante feminista curda que se baseia em mais de dez anos de engajamento político e de pesquisa com o movimento de libertação curdo para explorar essas questões. Criada no Irã e radicada na diáspora, a autora, Soma.r, trabalhou em estreita colaboração com mulheres do PKK e permanece ativamente ligada ao movimento.


Introdução

Um grupo de combatentes do PKK foi simbolicamente desarmado em 11 de julho de 2025, na Caverna Jasna, localizada na região autônoma curda do Iraque. O local carrega um profundo significado histórico e político: em 1923, serviu como refúgio e base de comando durante os ataques coloniais britânicos. Naquele mesmo ano, a Caverna Jasna tornou-se uma gráfica clandestina do Bangî Haq (“Chamado da Verdade”), o primeiro jornal curdo revolucionário, fundado pelo jornalista Ahmad Khwaja. Esse ato uniu resistência anticolonial, luta política e jornalismo clandestino.

Um século depois, o ato de desarmar aqui não é rendição — é uma declaração política, ecoando através de camadas do tempo. Traça uma linha entre o passado e o presente, invocando a memória como estratégia. Ao escolher Jasna, os combatentes nos lembram: as revoluções podem mudar de forma, mas suas raízes são profundas. Onde o império antes buscava silêncio, vozes curdas imprimiram a verdade. Onde as armas agora são depostas, novas lutas podem surgir — enraizadas na mesma terra, mas moldadas por novos imaginários.

Caverna de Jasna, local do desarmamento simbólico do PKK em 11 de julho de 2025.

Este ato ganha ainda mais ressonância à luz dos eventos recentes. Apenas dois dias antes, Abdullah Öcalan, o lendário líder do PKK, reapareceu em uma mensagem de vídeo — a primeira desde 1999 — clamando pelo fim da luta armada e instando por uma mudança definitiva em direção à política democrática. Este momento convida não apenas à comemoração, mas também à interpretação: como um movimento guerrilheiro, antes sinônimo de resistência armada, realiza transformação política por meio de atos simbólicos?

Para compreender a autodissolução do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), devemos ter em mente a amplitude de sua base social, que abrange dezenas de milhões de pessoas. Desde a prisão de Öcalan em 1999, o movimento curdo na Turquia cresceu além de suas origens guerrilheiras, tornando-se um projeto político complexo, enraizado em diversos grupos urbanos e rurais, seculares e religiosos, curdos e não curdos — embora o proletariado permaneça central. Atualmente, opera por meio de uma estrutura híbrida que combina um braço armado em Qandil com uma ampla rede civil envolvendo sindicatos, municípios, partidos legais, organizações de mulheres, mídia e plataformas de solidariedade transnacional. Sua práxis política já foi territorial e transnacional, legal e clandestina, militarizada e profundamente social. Entre as mudanças mais transformadoras está a ascensão do Movimento de Libertação das Mulheres Curdas (KWLM), que reposicionou a emancipação de gênero como um núcleo simbólico e estratégico. Nas cartas de Öcalan, o projeto Rojava e o papel crescente do KWLM são consistentemente mantidos como as conquistas contemporâneas mais significativas do PKK.

Em um acontecimento significativo para o cenário político curdo, o PKK anunciou sua dissolução após seu 12º Congresso. Essa decisão foi moldada por uma série de diálogos iniciados em outubro de 2024, envolvendo Abdullah Öcalan (por meio de seu sobrinho e da delegação do Partido da Igualdade e Democracia dos Povos) e motivada por declarações do líder do Partido do Movimento Nacionalista (Milliyetçi Hareket Partisi, MHP), Devlet Bahçeli, um partido político de extrema direita e ultranacionalista na Turquia. Öcalan enfatizou a necessidade de transição da questão curda da luta armada para a política democrática, afirmando ter capacidade para liderar essa mudança se as condições permitissem.

Em resposta, o PKK iniciou consultas internas e expressou sua disposição de concordar com a realização de um congresso sob a liderança de Öcalan. Em 27 de fevereiro de 2025, Öcalan emitiu um “Apelo à Paz e a uma Sociedade Democrática” formal, instando o PKK a encerrar suas atividades armadas e a assumir a responsabilidade de alcançar uma resolução pacífica. Em resposta, o PKK declarou um cessar-fogo unilateral em 1º de março. Em seguida, realizou-se o 12º Congresso da organização, onde a decisão de dissolver o PKK e encerrar sua campanha armada foi formalmente adotada pela liderança do PKK e do Partido das Mulheres Livres do Curdistão (PAJK).1

A visão estratégica de Öcalan foi desenvolvida de forma mais completa na edição de maio de 2025 (nº 521) da Serxwebûn, a publicação mensal oficial do PKK. Esta última edição apresentou o documento completo de 20 páginas que Öcalan havia submetido ao Congresso, juntamente com uma carta de quatro pontos endereçada aos delegados, delineando o quadro político para a transição para uma fase pacífica e democrática do movimento curdo. Anunciando o fim de sua história ininterrupta de 44 anos, a revista declarou: “Tudo está pronto para um novo e mais forte começo.”

Em sua carta de 27 de abril, Abdullah Öcalan delineia uma visão transformadora para a era pós-PKK, centrada na nacionalidade democrática, na economia ecológica e comunitária e na modernidade democrática como alternativa tanto ao Estado-nação capitalista quanto ao socialismo real. Ele propõe a sociedade democrática como o programa político da nova era — uma que não visa a captura do Estado, mas sim a criação de estruturas autônomas e populares, como os bens comuns. Nesse contexto, conceitos como socialismo democrático, comunalismo e confederalismo regional tornam-se centrais tanto para a libertação curda quanto para a transformação regional mais ampla. Öcalan chama isso de uma nova forma de internacionalismo e exorta todos os atores a assumirem a responsabilidade por sua materialização, sugerindo que o sucesso no Curdistão pode ter efeitos em cascata na Turquia, Síria, Iraque e Irã.2 Os textos desta edição — incluindo discursos, resoluções e documentos do congresso — refletem uma tentativa de reconfigurar o horizonte estratégico do movimento.

O recente apelo de Öcalan à dissolução não é inédito, visto que o PKK oscila há muito tempo entre a luta armada e a negociação. No entanto, este momento sinaliza uma mudança ideológica mais profunda: desde 2004, o movimento se reestruturou em torno do “confederalismo democrático” por meio da União das Comunidades Democráticas do Curdistão (KCK) — uma estrutura abrangente que inclui o PKK, mas está visivelmente ausente do atual plano de dissolução.

O significado de “dissolução” permanece altamente ambíguo. Será que sinaliza o fim do PKK, uma mera reformulação da marca ou uma mudança tática dentro de um arco mais longo de adaptação política? Mais criticamente, o que significa para as lutas antiestatais e anticoloniais na região desmantelar uma estrutura que historicamente obscureceu a resistência armada e a mobilização popular?

O significado de “dissolução” permanece altamente ambíguo. Será que sinaliza o fim do PKK, uma mera reformulação da marca ou uma mudança tática dentro de um arco mais longo de adaptação política? Mais criticamente, o que significa para as lutas antiestatais e anticoloniais na região desmantelar uma estrutura que historicamente obscureceu a resistência armada e a mobilização popular?

Mesmo dentro do PKK, as interpretações variam. Zagros Hiwa, porta-voz de Relações Exteriores do KCK, declarou à Sterk TV que as resoluções pedem o fim do conflito armado — não o desarmamento — e questionou a viabilidade disso, dada a proximidade de 100 metros entre soldados turcos e guerrilheiros. Outros discordam. Amir Karimi, da filial Irã-Curdistão do PKK, afirmou: “Aqueles que mais lutaram e suportaram têm o maior direito de falar sobre paz”. Enquanto isso, o presidente do Parlamento turco, Numan Kurtulmuş, enquadrou o processo como parte de um esforço nacional para resistir à fragmentação imperialista:

“O Iraque e a Síria foram fragmentados, o Líbano tornou-se ingovernável. Líbia, Sudão e Somália foram divididos. Esses países se transformaram em campos de batalha alimentados por divisões tribais, étnicas e religiosas, e alguns foram desmantelados por organizações terroristas. Poderíamos ter esperado passivamente, como uma “vaca amarela”, pela nossa vez de sermos desmembrados, ou turcos, curdos e todos os outros poderiam se unir para derrotar essa agenda imperialista. Escolhemos este último caminho e estamos comprometidos em avançar juntos.”

Não é de surpreender que esse apelo tenha gerado divisão, incerteza e um amplo espectro de respostas entre os ativistas curdos. Aqui, desvendaremos essas questões analisando a evolução histórica do PKK em relação aos processos de paz e explorando as implicações mais amplas de sua dissolução para os movimentos contemporâneos antiestatais, anticapitalistas e decoloniais.

Começaremos com uma breve visão geral de como a violência revolucionária emergiu por meio da luta armada no movimento curdo e como essa trajetória se entrelaçou com uma série de iniciativas de paz fracassadas que frequentemente reproduziam novos ciclos de guerra. Em seguida, podemos nos voltar para a questão central: por que o PKK buscou o desarmamento unilateral? Examinaremos sua decisão em relação às mudanças na dinâmica política nos níveis regional, nacional e global. Por fim, refletiremos sobre os riscos, as incertezas e os cálculos estratégicos que cercam essa mudança, concluindo com uma leitura de gênero que destaca o papel do movimento de libertação das mulheres curdas na definição tanto dos limites quanto das possibilidades desse processo.

Abdullah Öcalan anunciando a dissolução do PKK em uma mensagem de vídeo em julho de 2025.

A Provação Curda da Violência Estatal e da Apatridia

Como o PKK declarou em 12 de maio de 2025:

O PKK nasceu como um movimento de libertação contra a política de negação do povo curdo consagrada no Tratado de Lausanne e na Constituição turca de 1924.

De uma “nação” imperial reconhecida, os curdos tornaram-se “minorias étnicas” em Estados que os reprimiram, assimilaram e os apagavam. Apesar de serem quase 40 milhões de pessoas — 20% da população da Turquia —, os curdos continuam sendo o maior povo apátrida do mundo, excluídos do reconhecimento político e cultural.

A repressão estatal muitas vezes assumiu formas genocidas: a campanha de Anfal no Iraque (1987-1988) matou 180.000 curdos; as políticas de desnacionalização da Síria na década de 1960 deixaram dezenas de milhares de apátridas; o Irã enquadra os ataques militares em regiões curdas como jihad; e a Turquia proibiu por muito tempo as palavras “curdo” e “Curdistão”, rotulando os curdos como “turcos das montanhas”. Só a guerra entre o PKK e os militares turcos já custou mais de 40.000 vidas, em um contexto mais amplo de conflitos curdos que mataram mais de 250.000 desde a década de 1960.

A República Turca foi construída sobre o genocídio de armênios e a negação da identidade curda, ambos servindo para impor um projeto nacionalista homogeneizador. O PKK surgiu na década de 1970 em resposta direta a esse regime excludente. Sua oposição não era apenas militar, mas também cultural e política, como simbolizado pelo juramento parlamentar de Leyla Zana em 1991 (“Faço este juramento pela fraternidade dos povos turco e curdo”) — em curdo — pelo qual ela cumpriu dez anos de prisão.

Hoje, o imperialismo turco combina colonialismo interno com expansão neoimperial regional. Desde 2016, Ancara mobiliza milícias islâmicas que atuam como proxies — como o “Exército Nacional Sírio” (SNA) — por todo o norte da Síria (Afrin, al-Bab, Azaz, Jarablus, Idlib). Essas milícias permitem que a Turquia terceirize a guerra, ao mesmo tempo em que promove uma agenda neo-otomana de arabização forçada, islamização e engenharia demográfica. Promessas de salários de até US$ 2.500 atraem jovens que sobrevivem com meras dezenas de dólares, transformando a guerra em empregos precários.

Desde 2015, a Turquia lançou operações sucessivas — Escudo do Eufrates, Ramo de Oliveira, Primavera da Paz — ocupando áreas curdas, deslocando populações e possibilitando saques, violência em massa e reengenharia étnico-política. Os ataques aéreos no Iraque contra Qandil e Sinjar se intensificaram, com pouca resposta global. Esse modelo de guerra — privatizado, precário e transnacional — estendeu-se à Líbia (2019-2020), Azerbaijão (2020), Iêmen, Níger e Paquistão. Redes paramilitares ligadas à inteligência turca, como a Brigada Sultan Murad, operam a partir de aldeias curdas como Sinara, perto de Afrin.

O alcance da Turquia também é extraterritorial: na Europa, ativistas curdas são vigiadas, extraditadas ou mortas. Os assassinatos de figuras feministas importantes como Sakine Cansız (Paris), Hevrîn Xelef (Síria) e Nagihan Akarsel (Iraque) refletem uma estratégia de gênero para decapitar a liderança revolucionária e sufocar a articulação feminista transnacional. O imperialismo turco funde milicização islâmica, economias de guerra transnacionais e soberanias fragmentadas, produzindo uma violência desregulamentada na qual a lógica do mercado se sobrepõe aos interesses estatais.

Essa violência extraterritorial não é uma extensão isolada do poder estatal, mas um mecanismo central de uma agenda geopolítica mais ampla. Essa projeção agressiva de força não é meramente oportunista; faz parte de um projeto neo-otomano e neocolonial mais amplo que visa reafirmar a influência turca em seus antigos territórios imperiais. Fundamental para essa visão é a integração da geografia e dos recursos do Curdistão à arquitetura emergente do comércio global — particularmente por meio do Corredor do Meio, discutido a seguir.

No entanto, essa violência gerou uma resistência igualmente transnacional. O PKK politizou a questão curda, transformando uma população apátrida em um sujeito político organizado. Liderado em grande parte por mulheres, seu projeto continua sendo uma das poucas visões revolucionárias contemporâneas centradas na justiça social, no pluralismo e em críticas radicais ao poder. Contra os esquerdismos estatista, campista ou nacionalista, que são predominantemente moldados por paradigmas verticais, militaristas e masculinistas, o movimento curdo — especialmente sua dimensão feminista — desloca o político de paradigmas centrados no Estado para formas corporificadas, localizadas e solidárias. Seu slogan, Jin, Jiyan, Azadî (“Mulher, Vida, Liberdade”), forjado em décadas de luta subalterna, tornou-se um grito global durante a revolta iraniana de 2022.

Mas essa resistência foi possibilitada pela luta armada. E isso levanta a questão-chave: o que acontece com o horizonte revolucionário curdo com a dissolução anunciada do PKK?

A Paz Como Máscara Para a Guerra: a Traição Recorrente do Movimento Curdo

O repetido fracasso dos processos de paz no Curdistão revela não uma falta de comprometimento curdo, mas a recusa arraigada dos Estados regionais em reconhecer os direitos curdos. No Irã, as negociações de Viena de 1989 terminaram com o assassinato do líder curdo Abdul Rahman Ghassemlou e seus colegas — um ato replicado no assassinato de seu sucessor, Sadegh Sharafkandi, em Berlim, em 1992. No Iraque, a violação do Acordo de Autonomia de 1970 por Bagdá levou à campanha genocida de Anfal.

A Turquia seguiu uma trajetória semelhante. Embora o movimento curdo tenha buscado consistentemente o diálogo, a política estatal turca oscila entre gestos de paz efêmeros e repressão sistemática. A iniciativa do presidente Özal no início da década de 1990 morreu com ele, e a década seguinte testemunhou violência estatal maciça, incluindo tortura, deslocamentos forçados e apagamento cultural. A captura de Abdullah Öcalan em 1999 marcou uma mudança: ele pediu um cessar-fogo e a dissolução do PKK. No entanto, a resposta punitiva do Estado apenas aprofundou a desconfiança curda.

Apesar da repressão, o movimento curdo se transformou. Em 2004, emergiu o confederalismo democrático, rejeitando o nacionalismo em favor do pluralismo popular. A resistência armada continuou, juntamente com estratégias político-legais, culminando nas vitórias eleitorais do Partido Democrático Popular (Halkların Demokratik Partisi, HDP). Mas os esforços de paz, incluindo as negociações de Oslo (2008-2011)3 e o Processo de İmralı (2013-2015), foram sabotados pelo Estado. Primeiro, o vazamento das negociações desencadeou uma reação nacionalista em 2009; mais tarde, em 2015, o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan abandonou o Memorando de Dolmabahçe em resposta aos avanços curdos na Síria, particularmente a vitória do YPG e do YPJ (Unidades de Defesa do Povo e Unidades de Proteção das Mulheres) em Kobanê. O colapso do processo de paz desencadeou uma repressão brutal que deslocou mais de 350.000 pessoas e resultou na morte de cerca de 1.700 indivíduos, ao mesmo tempo que posicionou a Turquia entre os principais perseguirores de jornalistas do mundo. Em agosto de 2016, Erdoğan negava que quaisquer negociações tivessem ocorrido. Dessa perspectiva, os gestos do governo turco em relação às negociações de paz frequentemente sinalizaram sua preferência por operações militares, seja por meio de guerra ou golpe.

Para muitos curdos, a luta armada tornou-se uma necessidade existencial contra o que consideram ser uma dominação colonial, precisamente como resultado desse conflito assimétrico, que alguns descrevem como uma “guerra contra a paz”. Inspirado por Frantz Fanon, o PKK enquadra a violência como autodefesa estratégica. Enquanto as críticas internas questionam a guerra urbana e a militância prolongada, persiste um amplo apoio curdo, enraizado em traumas históricos e no fracasso das vias políticas. A persistente caracterização da identidade curda pelo Estado como uma ameaça reforça esse impasse.

Em 2025, tal horizonte parecia mais ilusório do que nunca. Mas “tudo o que é sólido pode se desfazer no ar”. Conforme destacado pelo acadêmico curdo Adnan Çelik e outras vozes dentro do movimento, a mensagem de Öcalan durante o 12º Congresso do PKK, embora inesperada, sinalizou uma ruptura: em contraste com seu apelo de 2015 por uma “abertura democrática”, a declaração de 2025 despojou-se da riqueza ideológica de apelos anteriores, omitindo críticas ao Estado-nação, ao capitalismo neoliberal, ao colonialismo interno e ao patriarcado. Embora a declaração inicial retrate o PKK como uma relíquia da Guerra Fria, desprovida de legitimidade estratégica ou ideológica — clamando por seu desarmamento sem concessões políticas ou reconhecimento das reivindicações históricas curdas —, essa postura é parcialmente revisada na carta de 27 de abril, que dedica atenção significativa à história da repressão curda por estados regionais e ao legado de resistência do PKK.

Amplamente percebida como uma capitulação unilateral, a mudança de Öcalan provocou choque dentro do movimento — com muitos interpretando-a como uma forma de humilhação implícita e apagamento de sacrifícios passados, segundo Çelik. Em vez de desencadear o colapso, estimulou tanto respostas organizacionais imediatas — como a proposta de um congresso de dissolução — quanto um intenso esforço interpretativo para preservar legados cruciais. Este momento sinaliza uma importante reconfiguração estratégica, mudando o foco da busca por um projeto sociopolítico para a gestão da herança militante, da memória e da resiliência política em meio a um cenário geopolítico transformado.

Hoje, a questão curda permanece estruturalmente sem solução. A reconciliação é impossível enquanto o Estado turco oscilar entre ofertas de paz vazias e repressão brutal. Enquanto o Estado se apega a paradigmas nacionalistas, o movimento curdo continua a se adaptar — entre insurgência e imaginação, memória e resiliência.

Essa tensão entre a negação do Estado e a resistência curda foi posta em evidência no discurso histórico de Erdoğan, pós-desarmamento, em 12 de julho, onde ele reconheceu oficialmente que o Estado turco cometeu assassinatos em massa de curdos, privou-os de seus direitos e iniciou essa violência em locais como a prisão de Diyarbakır. Ele admitiu ter queimado aldeias, criminalizado indivíduos não identificados, proibido a língua curda e negado às mães o direito de falar curdo com seus filhos. Proferido na esteira do desarmamento simbólico do PKK, o discurso, insistindo na unidade de turcos, curdos e árabes, marca uma mudança da insurgência para a reconciliação, servindo como um espetáculo orquestrado pelo Estado no qual o Estado turco reafirma seu poder soberano ao controlar a narrativa da violência passada e da ordem futura, posicionando-se como o único árbitro da memória, da verdade e da legitimidade histórica. Enquadrado como um ato de encerramento, esse momento, em vez disso, consolida a autoridade do Estado. A dissolução da luta armada curda não se traduz em uma transformação política genuína, mas sim em contenção simbólica. O que parece paz é, na realidade, uma reformulação da dominação, preparando o terreno para novas formas de controle sob o disfarce de reconciliação.

Mulheres participando do desarmamento simbólico do PKK em 11 de julho de 2025.

Por que a Dissolução?

Em carta datada de 25 de abril de 2025, Abdullah Öcalan articulou a lógica por trás da proposta de dissolução do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), enquadrando-a não como uma derrota, mas como uma mudança deliberada de paradigma. Ele enfatiza que esse processo, longe de ser um desarmamento imediato exigido pelo Estado turco, requer profunda crítica ideológica, autorreflexão e um debate prolongado para remodelar tanto a personalidade quanto a mentalidade. O PKK, fundado para elevar a consciência nacional curda e expor a opressão sistêmica, agora enfrenta uma fase em que o próximo passo em direção à liberdade deve ser construído com base em instituições democráticas, renovação cultural e comunalismo4 –transformações que o PKK, como organização hierárquica armada, pode não mais incorporar. É nessa trajetória que a dissolução deve ser entendida: como o ápice de uma ruptura teórica com o modelo de Estado-nação do século XX e seu militarismo, definido pela violência sistêmica que agora “perdeu sua justificação (raison d’être)”. A visão de Öcalan de um confederalismo democrático, fundamentado na autonomia local, na igualdade de gênero e na economia ecológica, sinaliza uma ruptura decisiva com os modelos estatistas e militarizados do passado e uma mudança em direção a um projeto social pós-Estado.

Essa evolução ideológica, no entanto, não é repentina nem isenta de controvérsias. Desde a década de 1990, o PKK passou por uma transformação interna significativa, confrontando o colapso do socialismo e as tendências autoritárias inerentes aos paradigmas estatistas. A sobrevivência do movimento dependeu de adaptabilidade e engajamento crítico, culminando na decisão do 12º Congresso de encarar a dissolução como uma reorientação radical, em vez de uma capitulação. A carta enfatiza que o fracasso, ao longo de duas décadas, em integrar plenamente os princípios democráticos, ecológicos e feministas às estruturas organizacionais precipitou este momento de mudança decisiva.

Estrategicamente, a presença política curda ganhou destaque em toda a Turquia e no Oriente Médio em geral, particularmente por meio de iniciativas de libertação das mulheres e avanços políticos em todas as quatro regiões curdas. Esse progresso desafia a concepção anterior da Turquia de que o PKK era uma mera entidade terrorista. A recente declaração do conselheiro presidencial Mehmet Uçum de que “os curdos são um componente essencial da nação turca” sinaliza uma recalibração ideológica em nível estatal.

Nessa situação, a dissolução do PKK pode ser vista como uma manobra tática para remover obstáculos ao reconhecimento internacional, especialmente das estruturas curdas em Rojava, onde o rótulo de “terrorista” serviu para justificar incursões militares turcas. O desarmamento visa proteger Rojava como um projeto político autônomo, garantindo sua sobrevivência e legitimidade nos cenários regional e internacional. Relatos sugerem que um encontro entre Abdullah Öcalan e Masoud Barzani (líder de longa data do Partido Democrático do Curdistão no Curdistão iraquiano) poderá ocorrer em breve — um desenvolvimento que, acima de tudo, fortalece a hipótese de uma aliança regional curda emergente com o objetivo de reforçar a estabilidade de Rojava no atual contexto geopolítico.

Apesar dos ganhos diplomáticos decorrentes do papel desempenhado pelas forças curdas na luta contra o ISIS, o apoio internacional tem permanecido inconsistente. O apelo de Öcalan à dissolução voluntária pode ser uma estratégia preventiva para evitar a derrota total em meio ao crescente isolamento militar. Desde o colapso do processo de paz de 2015, a intensificação da pressão militar turca – operações transfronteiriças, guerra com drones e vigilância – tem confinado as operações do PKK principalmente a Qandil, minando sua capacidade na Turquia. Mesmo o 12º Congresso do PKK, realizado recentemente, ocorreu 12 anos após o 11º Congresso, principalmente devido à falta de segurança e à pressão militar da Turquia. O PKK abordou essa questão em uma carta divulgada em 4 de maio, dirigida à população e aos ativistas do movimento:

Um olhar retrospectivo às últimas duas décadas revela o seguinte: embora o novo paradigma visasse facilitar uma integração mais profunda com a sociedade, na prática, foram os membros dos quadros que experimentaram a maior desconexão com ele — mesmo com o movimento como um todo caminhando em direção à descriminalização. Embora o objetivo fosse cultivar estruturas organizacionais mais fortes e promover modos de vida comunitários e socialistas, o que na verdade emergiu foi um aumento do individualismo e do materialismo. É evidente que, em nosso engajamento com as massas, falhamos em fornecer educação adequada ou em fomentar a organização de uma sociedade verdadeiramente democrática. No domínio militar, fomos incapazes de desenvolver ou implementar treinamento e organização eficazes para a autodefesa social. Permanecemos, nas montanhas, no nível de unidades de guerrilha separadas da sociedade e completamente cercadas. Essa condição não só levou ao aumento de baixas, como também enfraqueceu o impacto político e propagandístico de nossa luta armada. Gradualmente, nossa capacidade de guerra eficaz ficou confinada a uma área geográfica muito limitada.

Avanços tecnológicos, notadamente a guerra algorítmica e a vigilância em tempo real, aprofundaram esse isolamento, à medida que os Estados da OTAN priorizam as relações com Ancara. Enquanto isso, a autonomia curda na Síria está ameaçada pela centralização desse regime, e a influência turca cresce no norte do Iraque com aprovação local tácita. Essas condições levaram o centro político do PKK da luta armada à busca por legitimidade civil e institucional em toda a região curda. A dissolução representa um desarmamento simbólico e uma realocação estratégica, deslocando a luta curda para arenas políticas e transnacionais, onde o poder popular é redefinido fora do paradigma do confronto militar.

O declínio no recrutamento do PKK e a incapacidade de traduzir alianças anti-ISIS em apoio internacional duradouro ressaltaram a necessidade dessa recalibração estratégica. A proposta de Öcalan é entendida pelos apoiadores não como uma rendição, mas como uma adaptação lúcida às novas realidades geopolíticas e militares, incluindo a perspectiva de um cessar-fogo temporário em Qandil e Rojava.

Segundo muitos analistas curdos, a posição de Öcalan reflete sua persistente oposição a Israel e sua relutância em ver o movimento curdo forçado — por necessidade estratégica — a uma aliança tática ou pragmática com o país. Isso, argumentam, é o que impulsiona sua busca por soluções políticas preventivas destinadas a evitar tais alinhamentos. Outros defensores do movimento curdo argumentam que a decisão de Öcalan e do PKK foi uma tentativa estratégica de impedir que o Curdistão se tornasse a próxima Gaza do Oriente Médio. Eles argumentam que as limitações militares do PKK diante de um aparato de guerra interestatal e internacional altamente tecnológico — somadas à persistente campanha da Turquia para aniquilar o Curdistão e Rojava — exigiram uma recalibração política. Essa mudança, sugerem, também é influenciada pelo declínio do poder material e simbólico da solidariedade global com a causa curda, que permanece significativamente mais fraca do que o amplo apoio mobilizado aos palestinos. Nessa perspectiva, se a Turquia implementasse um cenário semelhante ao de Gaza contra os curdos, haveria pouca capacidade ou vontade internacional de intervir. Com a diminuição dos meios materiais de resistência e a ausência de mobilização regional ou internacional comparável, os atores curdos precisam adotar estratégias alternativas de sobrevivência. Essa decisão é, portanto, vista não como uma retirada, mas como uma tática calculada e pragmática para resistir a um contexto geopolítico cada vez mais insuportável.

Esta mudança estratégica não pode ser compreendida sem reconhecer o profundo custo humano do conflito. Guerrilheiros curdos, quadros do PKK e, especialmente, civis estão exaustos; os custos cumulativos da guerra tornaram-se insuportáveis. Milhares de jovens foram perdidos, cidades inteiras destruídas, famílias fragmentadas, corpos marcados, gerações moldadas pela prisão, exílio, precariedade e estigma. Esse acúmulo de sofrimento ao longo de mais de quarenta anos confere à palavra “paz” uma nova ressonância: não como capitulação, mas como uma necessidade vital — um alento há muito aguardado após décadas de sufocamento.

Da perspectiva do Estado turco, a dissolução alinha-se com uma estratégia política orquestrada por Recep Tayyip Erdoğan, que visa estender seu poder além do limite constitucional de 2028. Ao se apresentar como o arquiteto de um novo processo de paz, Erdoğan espera conquistar partes do eleitorado curdo enquanto fragmenta a oposição. Enquadrado como reconciliação, o apelo ao fim da luta armada é, na realidade, uma manobra para romper alianças emergentes entre as forças curdas e as correntes progressistas da oposição. Em 2019, o apoio tático dos eleitores curdos — notadamente por meio do HDP (agora Partido da Igualdade dos Povos, DEM) — foi crucial para a vitória da oposição em grandes cidades como Istambul e Ancara. Essa estratégia busca isolar as facções nacionalistas seculares dentro do Partido Republicano do Povo (Cumhuriyet Halk Partisi, CHP) daquelas abertas ao diálogo com o movimento curdo, mantendo, ao mesmo tempo, um discurso de securitização para uso doméstico. Essa engenharia eleitoral continua baseada num duplo cálculo: enfraquecer a mobilização conjunta da oposição e dissuadir as forças curdas de criticar o regime abertamente por medo de comprometer uma potencial paz.

Nessa configuração complexa, o movimento curdo se encontra em uma posição que lembra os protestos do Parque Gezi de 2013. Como então, qualquer abertura ao diálogo com o Estado implica, paradoxalmente, o reconhecimento de sua legitimidade, mesmo que este continue sendo o principal objeto de contestação. Essa tensão exige que o movimento curdo adote uma postura equilibrada: engajar-se em esforços de paz sem se dissolver na política institucional turca ou alienar movimentos sociais mais amplos. O resultado é uma forma de isolamento estratégico, mas também pode ser uma oportunidade para construir um espaço político autônomo no qual a questão curda possa ser articulada sem armas, porém sem renúncia.

Enquanto isso, Erdoğan continua a explorar a retórica da securitização, criminalizando figuras políticas curdas e perpetuando o estereótipo do “inimigo interno” para consolidar sua base conservadora. O contraste entre a repressão contínua e a linguagem conciliatória da paz ressalta a natureza cínica da iniciativa: não se trata de um compromisso genuíno com a resolução, mas sim de uma manobra tática disfarçada de diálogo.

Tanto Erdoğan quanto o Estado turco como um todo buscam facilitar a integração do Curdistão e seus recursos aos mercados capitalistas contemporâneos por meio do desarmamento. Em um discurso delineando o novo processo de 2025, Erdoğan articulou abertamente os objetivos capitalistas que impulsionam essa iniciativa:

Uma Turquia livre do terrorismo elevará a economia turca acima de tudo. Assim que atingirmos esse objetivo, a União Turca de Câmaras e Bolsas de Mercadorias (TOBB) será a principal beneficiária. A partir de agora, a Turquia competirá em uma nova liga.

Da mesma forma, o Ministro das Finanças turco, Mehmet Şimşek, declarou que a Turquia gastou quase US$ 1,8 trilhão nas últimas cinco décadas na “luta contra o terrorismo” e que o fim do conflito poderia trazer benefícios econômicos significativos ao país.

Esses imperativos econômicos, no entanto, não se limitam apenas a considerações domésticas. Estão inseridos nas ambições geopolíticas mais amplas da Turquia. O chamado processo de paz de 2025 entre a Turquia e o PKK é menos um passo genuíno em direção à reconciliação do que uma manobra geopolítica que visa neutralizar o poder militar, político e econômico curdo como pré-condição para a integração da Turquia ao capitalismo infraestrutural neoliberal. No centro dessa estratégia está a concretização do “Corredor do Meio”, uma rota comercial transeurasiática que conecta a China à Europa via Ásia Central, Cáucaso e Turquia. Esse corredor posiciona a Turquia como um polo logístico na circulação capitalista global. É crucial tanto para a Iniciativa Cinturão e Rota da China (BRI, um projeto multitrilionário que liga a China à Europa, África e Oriente Médio por meio de rotas terrestres e marítimas) quanto para o Corredor Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC, um projeto de infraestrutura concorrente que visa assegurar o domínio geopolítico e comercial ocidental), apoiado pelos EUA.

O “Corredor do Meio”.”

Mais recentemente, essa visão foi reforçada pela iniciativa “Rota do Desenvolvimento” — um projeto de US$ 17 bilhões liderado pelo Iraque, Turquia e Estados do Golfo, que liga o Golfo Pérsico (via Porto de Grand Faw, no Iraque) à Europa através do território turco. A rota proposta corta diretamente o sudeste da Turquia, de maioria curda, ampliando ainda mais os desafios geopolíticos da contenção curda. Após o 7 de outubro e o genocídio israelense contra palestinos em curso, os alinhamentos geopolíticos regionais foram ainda mais desestabilizados — produzindo uma nova onda de política de corredores estratégicos, na qual a centralidade logística e diplomática da Turquia apenas se intensificou. Em meio ao colapso dos equilíbrios de poder tradicionais no Levante e no Golfo, o controle da Turquia sobre essas rotas de infraestrutura — particularmente aquelas que contornam a influência iraniana e síria — tornou-se ainda mais indispensável para os blocos ocidentais e não ocidentais.

Mas, para que a Turquia consolide o controle sobre essas rotas, deve eliminar todos os atores subalternos ou não estatais, especialmente as forças curdas. O desarmamento do PKK deve, portanto, ser lido não como desmilitarização, mas como o encerramento da luta armada curda sob um novo regime de securitização infraestrutural. Com o “corredor xiita” do Irã (eixo Teerã-Damasco-Beirute) neutralizado, Assad derrubado e o eixo do PKK e das Forças Democráticas Sírias (FDS) rompido sob pressão dos EUA e de Israel, os atores curdos foram estruturalmente removidos das negociações de poder regional. Com o apoio tácito da OTAN, a Turquia realizou campanhas militares e reengenharia demográfica para consolidar o controle sobre as regiões curdas. Nesse contexto, “paz” torna-se um eufemismo para pacificação capitalista, com a reconciliação política substituída pela contenção espacial e militar para permitir fluxos ininterruptos de capital, bens e influência geopolítica através dos corredores imperiais de extração e controle.

O apoio de Erdogan ao apelo do PKK por desarmamento deve ser visto no contexto mais amplo da geopolítica em transformação no Oriente Médio e da evolução do equilíbrio de poder na região. Reflete também o uso estratégico da dinâmica curda pela Turquia para combater rivais como Israel e Irã. Uma complexa interação de cálculos políticos nacionais e regionais levou a Turquia a adotar essa tática. Isso é claramente articulado em uma carta do Comitê Central do PKK datada de 4 de maio:

A escalada da Terceira Guerra Mundial no Oriente Médio, os resultados do conflito de Gaza, iniciado em 7 de outubro de 2023, os ataques significativos do Hamas e do Hezbollah contra os ataques israelenses e o colapso do regime Baath na Síria – estendendo assim a transformação regional ao Irã e à Turquia – desempenharam um papel fundamental para nos levar a este estágio. O medo e a ansiedade existencial gerados no Estado turco e no governo do AKP-MHP, combinados com as pressões por mudanças democráticas impostas internamente pelo nosso movimento e pelo povo turco, e externamente pelo sistema capitalista transnacional, constituem os principais fatores que motivam o governo [Devlet] Bahçeli e sua conhecida retórica e apelos à ação. Consequentemente, chegamos ao estágio atual como resultado dos desenvolvimentos políticos e militares mencionados.

O paradoxo é profundo: um movimento com considerável força territorial e organizacional é forçado a se reinventar precisamente porque esse poder o torna suscetível à aniquilação algorítmica. Em última análise, a proposta de Öcalan convida a uma releitura fundamental da luta revolucionária em uma era definida por drones, metadados e vigilância total. Ela desafia o movimento curdo a imaginar uma forma de resistência que transcenda o confronto armado, encontrando poder no silêncio em vez de em tiroteios.

Armas queimam durante uma cerimônia que representa o desarmamento simbólico do PKK em 11 de julho de 2025.

Da Guerrilha à Transição Política: Tensões, Esperanças, Horizontes

O anúncio, em fevereiro de 2025, da potencial retirada armada do PKK levanta questões profundas sobre as condições sob as quais uma luta de guerrilha prolongada poderia se transformar em um processo político, especialmente em um contexto marcado por autoritarismo arraigado, repressão e impasses ideológicos. Embora alguns interpretem esse movimento como um sinal de reconfiguração estratégica e ideológica, ele permanece profundamente ambíguo. O governo turco, enquadrando o momento não como um “processo de paz”, mas como um “processo de limpeza do terrorismo” (“Terörden arındırma süreci”), sinaliza uma postura punitiva que se afasta da linguagem conciliatória de 2015, lançando dúvidas sobre a possibilidade de uma resolução justa e abrangente.

Isso levanta várias questões urgentes. A democratização na Turquia pode ser definida como meros gestos simbólicos — como a libertação condicional de Abdullah Öcalan (e sua convocação ao parlamento para apelar aos curdos para que se retirassem de Qandil e adotassem um caminho político pacífico) ou concessões culturais limitadas — ou deve implicar reformas constitucionais de longo alcance, a libertação em massa de presos políticos e o reconhecimento formal dos direitos coletivos curdos, incluindo a autonomia regional e o direito à educação em língua curda? O restabelecimento de mandatos municipais anulados, o retorno de exilados ou uma anistia geral seriam suficientes para convencer o PKK de que um caminho político viável surgiu? Muitos temem que Erdoğan possa renegar seus compromissos assim que tiver assegurado a influência política que busca, repetindo a traição do processo de 2015 e correndo o risco de um retorno ao conflito com o movimento curdo em uma posição de fragmentação e legitimidade enfraquecida.

Ao contrário de outros processos de paz — como os que envolveram o Exército Republicano Irlandês na Irlanda do Norte, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) na Colômbia ou a Euzkadi ta Azkatasuna (ETA) na Espanha — o Estado turco recusou-se a se envolver em busca da verdade e da reconciliação, na reestruturação constitucional ou no reconhecimento político genuíno. Na Colômbia, por exemplo, o desarmamento foi acompanhado por iniciativas de justiça restaurativa, frequentemente lideradas por mulheres e sobreviventes da violência estatal. Um potencial semelhante reside no movimento de mulheres curdas, mas o caso curdo permanece excepcional em sua criminalização sistemática e negação da existência de um problema político. Ao mesmo tempo, o que distingue o caso do PKK de muitos outros exemplos é que ele conta com o apoio de um poderoso e influente movimento civil e político de massa. A luta não se limitou apenas à esfera militar, mas também se enraizou profundamente nas arenas civil e política.

A decisão do PKK de se engajar no desarmamento expõe contradições internas. Apesar de estar preso desde 1999, Öcalan permanece como a autoridade incontestável do movimento, centralizando a tomada de decisões em uma estrutura vertical que suprime o pluralismo interno. Sua declaração recente — “Posso dizer que os oponentes do processo não têm valor. Eles fracassarão” — sintetiza um modelo em que a autoridade carismática ofusca a deliberação coletiva, gerando uma crise de legitimidade na qual se espera que combatentes e ativistas sigam diretrizes de cima para baixo, sem mecanismos de tomada de decisão participativa. Essa centralização reproduz uma base militante despolitizada e sufoca a democratização interna necessária para uma transformação genuína.

No cenário em evolução, alguns analistas destacam dois acontecimentos que podem marcar passos preliminares rumo ao desarmamento e à transição para uma ordem democrática. Primeiro, em um gesto simbólico, um grupo de guerrilheiros, alguns dos quais ocupavam cargos de liderança, depuseram publicamente suas armas na presença da mídia, acompanhados de uma declaração que afirmava:

Estamos prontos para participar da política democrática.

Em segundo lugar, espera-se que o Parlamento turco estabeleça um órgão provisoriamente intitulado “Comissão para a Paz Social e Transição Democrática”, encarregado de formular uma estrutura legal e institucional para apoiar o desarmamento e reformas democráticas mais amplas.

Embora essas iniciativas possam inicialmente se desdobrar em uma escala limitada e simbólica, seus proponentes as veem como indicadores da vontade mútua de avançar no processo de paz. No entanto, experiências passadas, como o envio de três grupos de guerrilheiros ao Estado turco entre 2000 e 2007, ressaltam a vulnerabilidade persistente de tais esforços às políticas estatais repressivas e à persistente desconfiança estrutural que continua a dificultar uma resolução duradoura. Nem os guerrilheiros nem a liderança do PKK parecem ingênuos quanto aos riscos envolvidos. Eles parecem estar abordando o processo com cautela estratégica e previsão política, preservando deliberadamente a opção de retornar à luta armada, se necessário. Como Bese Hozat,5, copresidente do Conselho Executivo do KCK declarou em uma entrevista após o desarmamento simbólico de 30 guerrilheiros no Curdistão iraquiano em julho:

Se atendêssemos incondicionalmente a todas as exigências do Estado, isso levaria ao seguinte resultado: espera-se que outros grupos façam o mesmo — destruam suas armas, retornem à Turquia e se rendam. Se tal abordagem se tornar a norma, o destino que nos aguarda e aos nossos camaradas será a prisão ou a morte. Mas tal futuro não é algo que aceitamos. O Estado turco precisa entender isso.

Ainda assim, alguns dentro do movimento veem isso como uma oportunidade de transcender seu legado militarista leninista e hierárquico. Uma mudança em direção a uma participação civil mais ampla e à renovação interna poderia reposicionar o PKK dentro de um quadro democrático mais amplo. A emergência do Partido DEM como um ator significativo sugere a possibilidade de transformar uma formação nacionalista curda em uma força pluralista capaz de unificar as constituições democráticas mais amplas da Turquia. No entanto, o risco de abandono — tanto pelo Estado turco quanto por apoiadores internacionais — é grande, tornando a promessa de renovação dependente de reformas estruturais, e não de acomodações retóricas.

Uma estrutura de justiça transicional é crucial. Sem o reconhecimento das atrocidades do passado — particularmente durante a década de 1990 e o período brutal de 2015-2016 — qualquer cessar-fogo permanecerá frágil. Verdade, reparação e a descolonização das narrativas nacionais são pré-requisitos para uma paz significativa. Caso contrário, a memória coletiva curda continuará a carregar traumas não curados que podem reacender o conflito.

O contexto regional torna o desarmamento precário. A Síria permanece instável e o frágil cessar-fogo entre as forças curdas e a Hayat Tahrir al-Sham (HTS), após a recente Conferência de Unidade Curda, parece cada vez mais incerto. As campanhas militares em curso da Turquia contra posições curdas no Iraque e na Síria, incluindo mais de 500 ataques aéreos contra zonas controladas pelo PKK no Curdistão iraquiano somente em maio de 2025, minam a viabilidade de uma transição de paz. Simultaneamente, as supostas ofertas indiretas de Ancara — como o reconhecimento da autonomia curda na Síria em troca da dissolução do PKK — permanecem vagas e pouco confiáveis. Uma ofensiva em larga escala em Rojava ameaçaria colapsar a arquitetura civil e militar do projeto curdo.

Dentro dessa configuração transnacional, o PKK não é uma força guerrilheira isolada, mas parte de uma rede mais ampla estabelecida desde 2002 pela União das Comunidades do Curdistão (KCK), que inclui o PYD na Síria (2003), o PJAK no Irã (2004) e o PÇDK no Iraque (2002). Essas organizações irmãs, embora nominalmente autônomas, estão ideologicamente alinhadas à visão de Öcalan de confederalismo democrático e estão profundamente enraizadas em suas respectivas sociedades, particularmente por meio de iniciativas lideradas por mulheres. A ambiguidade do apelo de Öcalan ao desarmamento — se ele visa apenas a ala turca do PKK ou se estende a essas entidades aliadas — aumenta a incerteza. Alguns analistas sugerem que os quadros poderiam ser realocados para outras frentes, como o PJAK ou Rojava, em vez de serem desmobilizados de uma vez, levantando a possibilidade de uma dissolução tática em vez de estratégica. Assim, o destino das forças guerrilheiras nas montanhas Qandil permanece incerto, já que os sinais de Ancara são ambíguos e frequentemente contraditórios, confundindo a linha entre o rumor e a realidade. Por exemplo, o membro do AKP, Şamil Tayyar, afirmou que quase 300 membros seniores do PKK seriam realocados para países terceiros, como África do Sul e Noruega, enquanto aproximadamente 4.000 combatentes seriam gradualmente recebidos na fronteira. No entanto, além dessas declarações não oficiais, que medidas concretas — além de gestos retóricos — o Estado turco realmente tomará?

No âmbito interno, a supressão do CHP por Erdoğan — historicamente um partido nacionalista secular cúmplice de políticas anticurdas — revela os paradoxos da oposição turca. Para muitos curdos, o CHP continua sendo parte do problema e não uma alternativa, dificultando a formação de uma coalizão democrática inclusiva. Enquanto isso, as tensões internas dentro do movimento curdo, combinadas com a consolidação autocrática de Erdoğan, continuam a fragmentar o campo político, tornando incerto um realinhamento político pluralista.

Apesar desses desafios, o movimento curdo demonstra notável resiliência e adaptabilidade estratégica. Continua a articular uma visão política que resiste à militarização, ao mesmo tempo que afirma o direito à autodefesa — alinhando-se às lutas anticoloniais globais. Em Rojava, por exemplo, a Administração Autônoma mantém uma formidável infraestrutura de segurança, incluindo as Forças Democráticas Sírias (FDS), o YPG-YPJ e as forças Asayish, estimadas em mais de 80.000 membros. Em Rojhilat, o PJAK continua a organizar a oposição ao regime iraniano. Essas formações refletem um movimento transfronteiriço profundamente enraizado que não pode ser reduzido a um mero fenômeno de guerrilha.

Essa infraestrutura material sugere que, mesmo que o processo atual entre em colapso, o PKK e seus aliados poderiam transitar para uma nova fase de resistência, talvez mais fragmentada e prolongada. Décadas de guerra assimétrica, consolidação ideológica e inserção social conferiram ao movimento uma capacidade de sobrevivência incomparável a muitos atores revolucionários. Sua legitimidade advém não apenas da capacidade militar, mas também do cultivo da consciência política, da libertação de gênero e da autonomia popular.

No cerne dessa esperança reside uma questão ética mais profunda. Não seria profundamente injusto – talvez até cínico – projetar nossas visões de democracia radical, anticapitalismo, internacionalismo feminista e antifascismo não estatal em um povo já sobrecarregado pela marginalização, repressão, pobreza estrutural e criminalização implacável? Podemos, de boa-fé, pedir a um povo geopoliticamente vulnerável e assediado que carregue, sozinho, o fardo de nossas utopias revolucionárias? Como pode uma força revolucionária marginal – política e militarmente isolada, desprovida de apoio estatal ou internacional – sobreviver não apenas como organização, mas como portadora de visão política e prática emancipatória? Como pode preservar seus ideais em um ambiente dominado por Estados poderosos e atores imperiais dispostos a aniquilá-la por meio de massacres, limpeza étnica e violência sexual sistêmica? Este momento crítico nos obriga a reconsiderar os próprios termos de nossa solidariedade. Como podemos manter uma postura política radical em uma ordem global cada vez mais dominada pela militarização e pelo autoritarismo, sem cair na abstração romântica ou na resignação política?

O que permanece em jogo não é apenas o destino de um grupo armado, mas a viabilidade de um projeto político que redefiniu os parâmetros da luta no Oriente Médio. Enquanto o espectro de uma nova guerra paira em meio a promessas não cumpridas e à escalada militar, o movimento curdo continua a suscitar uma questão universal: como pode uma força revolucionária, destituída da condição de Estado e enfrentando uma repressão avassaladora, preservar sua práxis emancipatória sem sucumbir ao apagamento ou à concessão?

Repensando a Dissolução Através de Uma Lente de Gênero

Durante muito tempo ofuscado pelo PKK, o movimento das mulheres curdas emergiu desde a década de 1990 como um poderoso ator ideológico e organizacional — o que muitos descrevem como uma “revolução dentro da revolução”. Inicialmente marginalizadas dentro de uma estrutura militarizada e dominada por homens, as militantes curdas transformaram essa exclusão em uma oportunidade estratégica, formando uma aliança dialética e recíproca com o líder do PKK, Abdullah Öcalan. Essa relação, longe da submissão patriarcal, permitiu que ambos os partidos se tornassem recursos políticos um para o outro: Öcalan instrumentalizou o movimento das mulheres para expandir e reformar o PKK, enquanto as mulheres usaram sua autoridade simbólica para centralizar a libertação de gênero na luta curda.

O reconhecimento das mulheres como a “força de vanguarda da revolução” por Öcalan foi fundamental para redefinir a liderança e a legitimidade de um movimento moldado há muito tempo pela virilidade. Ele incentivou a criação de estruturas paralelas femininas e apoiou a Jineologia (Jineolojî), uma epistemologia feminista teorizada como central para sua visão de confederalismo democrático. Por sua vez, as mulheres curdas legitimaram sua liderança ideológica. Elas reafirmaram, em especial, o apelo de Öcalan pela suspensão da luta armada após sua captura em 1999 — um momento de profunda crise para o PKK, marcado por deserções em massa entre 2002 e 2004 (aproximadamente 1.500 combatentes deixaram o PKK em meio à reorientação ideológica e às lutas internas que culminaram no retorno ao conflito armado em meados de 2004). A lealdade contínua das mulheres durante esse período foi uma escolha estratégica que visava preservar a continuidade ideológica em meio à fragmentação e à repressão.

No entanto, essa lealdade tinha limites. Propostas por maior autonomia — como a criação de um Partido das Mulheres Trabalhadoras Curdas — foram bloqueadas pelo Comitê Central do PKK, revelando persistentes restrições estruturais. Ainda assim, a aliança se manteve, especialmente porque a virada ideológica de Öcalan em 2005 em direção ao confederalismo democrático colocou a igualdade de gênero no centro de um novo modelo político. Em 2012, Öcalan recusou-se a se reunir com uma delegação de paz sem representação do movimento de mulheres, ressaltando sua indispensabilidade. Simbolicamente, em 2013, as mulheres em Rojava anunciaram a criação das YPJ (Unidades de Proteção às Mulheres) no aniversário de Öcalan, reafirmando tanto sua confiança em sua visão quanto sua reivindicação de militância autônoma.

Este paradoxo — a construção da autonomia política das mulheres por meio de um líder masculino — suscita tensões críticas. Embora o discurso de Öcalan promova a descentralização e a desmilitarização, sua autoridade carismática permanece central. O horizonte feminista do movimento está, portanto, entrelaçado com a dependência estratégica. Os repetidos apelos de Öcalan pelo desarmamento do PKK, particularmente nos últimos anos, amplificam essa contradição: desafiam a masculinidade militarizada há muito arraigada na luta revolucionária, mas também provocam incerteza quanto à influência das mulheres em um processo político desarmado.

Historicamente, a resistência armada permitiu que as mulheres curdas conquistassem visibilidade, liderança e legitimidade. O combate rompeu tabus de gênero e criou capital simbólico, mesmo correndo o risco de reproduzir o que alguns teóricos chamam de “masculinidade adotada” — uma replicação de normas patriarcais sob o pretexto de igualdade revolucionária. A atual mudança em direção à desmilitarização, ao mesmo tempo em que abre espaço para práticas feministas comunitárias e não hierárquicas, também ameaça desmantelar as estruturas que protegiam e empoderavam as mulheres sob a violência do Estado. Essa tensão é central nos debates sobre o futuro do movimento.

A potencial dissolução do PKK suscita questões urgentes: o movimento das mulheres curdas aproveitará o momento para afirmar sua plena autonomia? Desenvolverá uma postura feminista distinta nessa mudança estratégica? A dissolução enfraquece ou empodera as mulheres na luta curda? O desarmamento pode representar um passo em direção à paz feminista ou uma vulnerabilidade estratégica. Algumas militantes defendem uma desmilitarização cautelosa e condicional — condicionada à consolidação institucional, ao reconhecimento internacional e à garantia dos direitos das mulheres, visto que consolidou mentalidades de guerra masculinas, abrindo espaço para práticas feministas, comunitárias e não hierárquicas radicais. Historicamente enraizada em ideais masculinistas — onde heroísmo, martírio e bravura militar definiam a legitimidade — a violência revolucionária curda é agora desafiada pelo apelo de Öcalan à desmilitarização, que busca deslocar o movimento em direção a um horizonte feminista desvinculado da masculinidade militarizada. Mas outros alertam que a desmilitarização pode expor as mulheres à violência patriarcal e estatal renovada, especialmente se os ganhos obtidos pelo YPJ ou YJA-Star (Unidades de Mulheres Livres, Yekîneyên Jinên Azad ên Star) não forem politicamente salvaguardados.

Além da luta armada, mulheres curdas e turcas desempenham há muito tempo papéis vitais na resistência civil e nos compromissos de paz. As Mães da Paz (Dayikên Aşîtîyê) — mães curdas que perderam filhos no conflito entre o PKK e o Estado — tornaram-se símbolos da resistência não violenta nas décadas de 1990 e 2000. Campanhas como “Não Toque na Minha Amiga” (1990) e “Mulheres Caminham Juntas” mobilizaram redes de base para enfrentar o nacionalismo, o racismo e a guerra.6 Em 2009, a Iniciativa Feminista pela Paz (BİKG) reuniu mulheres de todas as etnias para exigir a desmilitarização, a reconstrução social e até mesmo processos de paz. Esses movimentos demonstraram como as mulheres transformaram experiências de perda e marginalização em ação política.

Em uma carta datada de 30 de maio, da Prisão de İmralı para a Academia Jineolojî, Öcalan reafirmou que a libertação das mulheres é a verdadeira medida do socialismo, chamando-a de fundamento de sua luta revolucionária. Ele descreveu a Jineologia como um projeto transformador em andamento e as mulheres como potenciais líderes da paz e da democracia no Oriente Médio. De fato, Öcalan conta com as mulheres para liderar essa transição, dado o papel de liderança das mulheres em esforços de paz anteriores no Curdistão.

A escolha de Bese Hozat — comandante e copresidente de longa data da União das Comunidades do Curdistão (KCK) e companheira próxima de Sakine Cansız, a icônica líder feminista do PKK assassinada em Paris em 2013 — como figura central na cerimônia simbólica de desarmamento do PKK em 11 de julho ressalta a centralidade duradoura da liderança feminina no movimento curdo. Mesmo em um momento de transição, esse gesto simbólico reafirma o compromisso ideológico do movimento com a libertação de gênero e honra o legado do feminismo curdo revolucionário.

O desafio agora está em navegar pelas contradições da desmilitarização: equilibrar a ética feminista com a necessidade de proteção, a autonomia com alianças estratégicas e a construção da paz com a agência política.

Qualquer futuro processo de paz deve centrar-se nas realidades vividas e nas visões políticas das mulheres curdas. O papel delas não tem sido periférico, mas fundamental — e são as suas decisões estratégicas, não apenas as de Öcalan, que moldarão o próximo capítulo do movimento curdo.

Bese Hozat liderando a cerimônia simbólica de desarmamento do PKK em 11 de julho de 2025.

Conclusão

Da perspectiva dos apoiadores do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), a potencial dissolução da organização não deve ser interpretada como o fim da luta curda, mas sim como o marco de uma nova e ainda indefinida fase de resistência. Embora essa perspectiva incorpore um otimismo estratégico, também exige reflexão cuidadosa. Redefinir a resistência em um contexto tão complexo exige uma compreensão sutil de suas limitações, contradições e riscos inerentes. Em outras palavras, embora essa abordagem possa abrir novos caminhos para o movimento, ela não deve ser aceita acriticamente como uma solução definitiva sem uma análise completa. Mecanismos para integrar o feedback crítico de membros e ativistas do PKK – particularmente as vozes de mulheres presas políticas – nesse processo são necessários para garantir sua legitimidade.

O PKK enfrenta uma confluência de desafios complexos, incluindo pressões militares e tecnológicas intensificadas, bem como restrições políticas tanto em nível nacional quanto regional. Esses desafios limitam severamente a capacidade do movimento de sustentar a luta armada e alcançar a transformação estrutural. A mudança para formas legais de organização lideradas por civis representa uma aposta estratégica significativa. Embora essa transição mereça consideração e experimentação sérias, seu sucesso depende do cumprimento de diversas condições críticas; na ausência delas, o fracasso ou a marginalização continuam sendo um risco substancial. Além disso, a tensão entre as pressões imediatas do Estado e a visão de longo prazo do PKK para um processo político prolongado levanta questões sobre a viabilidade e o momento dessa mudança.

Caso o processo político seja novamente minado por Erdoğan, o PKK está preparado para retomar a resistência armada, não por desespero, mas como continuação de sua lógica política duradoura, baseada na dignidade coletiva e na autodeterminação. No entanto, tal ressurgimento provavelmente acarretaria dificuldades e custos significativos, desproporcionalmente suportados pela população curda.

Longe de ser meramente um ator tático, o movimento de libertação curdo incorpora um projeto político mais amplo que rompe fundamentalmente com as noções predominantes de soberania e legitimidade em toda a região. Qualquer mudança substancial em sua orientação estratégica exige uma compreensão da interação entre restrições estruturais, riscos geopolíticos e relações de poder assimétricas nos níveis local, regional e internacional. Na melhor das hipóteses, a guinada do movimento em direção à institucionalização poderia não apenas consolidar sua legitimidade política, mas também abrir novos caminhos para a reconciliação intracurda, particularmente com rivais de longa data como o Partido Democrático do Curdistão (KDP). Esse realinhamento estratégico poderia potencialmente lançar as bases para uma arquitetura política curda transnacional — mais inteligível e diplomaticamente aceitável para os atores internacionais, especialmente as potências ocidentais que historicamente marginalizaram as reivindicações curdas em favor de seu alinhamento estratégico com Ancara.

Essa redefinição contínua da resistência curda também enfrenta desafios internos substanciais, incluindo tensões entre facções e o imperativo de reconciliação política, que deve prosseguir em paralelo com a aceitação dos atores regionais e globais. No entanto, esse processo oferece o potencial de cultivar estruturas políticas mais inclusivas e legítimas.

Por fim, a transformação proposta na linguagem e nas modalidades de resistência — articulada por Abdullah Öcalan e pelos apoiadores do PKK — responde às realidades da vigilância tecnológica e da guerra contemporâneas. Isso desafia a resistência militante convencional, enfatizando a adaptabilidade, a resiliência e a rearticulação do poder em formas novas e menos visíveis.


Armas queimam durante uma cerimônia que representa o desarmamento simbólico do PKK em 11 de julho de 2025.


Notas:

  1. “O processo que culminou em nosso 12º Congresso começou com uma reunião em 23 de outubro de 2024, entre o sobrinho do Líder Apo e nossa delegação. Essa reunião ocorreu em resposta às declarações e apelos feitos por Devlet Bahçeli, líder do Partido do Movimento Nacionalista (MHP), a partir do início de outubro. Durante a reunião, o Líder Apo declarou publicamente que ‘se as condições necessárias forem atendidas, ele tem a capacidade teórica e prática de mover a questão curda de um contexto de violência e conflito para um de política democrática e resolução legal’. Nos meses seguintes, uma série de reuniões foi realizada entre a delegação do Partido da Igualdade e Democracia dos Povos (DEM) e o Líder Apo na Ilha de İmralı. Esses encontros foram acompanhados por mensagens do Líder Apo que moldaram ainda mais o processo. Ele primeiro endereçou cartas à liderança dos partidos políticos na Turquia, seguidas por correspondências direcionadas a nós. Nessas cartas, ele articulou sua posição sobre a conclusão das atividades conduzidas sob o nome do PKK e o fim da luta armada, afirmando que sua missão histórica havia chegado ao fim. Em nossa resposta, expressamos nossa disposição de realizar o congresso proposto, enfatizando que tais decisões fundamentais só poderiam ser tomadas com o envolvimento direto e a liderança do Líder Apo durante o próprio congresso. Dando um passo adiante, o Líder Apo, por meio da delegação do Partido DEM, lançou o “Apelo à Paz e a uma Sociedade Democrática” em 27 de fevereiro. Nesse apelo, ele nos instou a convocar o congresso e tomar decisões para encerrar oficialmente as atividades sob o nome do PKK e encerrar a luta armada. Ele também declarou sua disposição de assumir total responsabilidade histórica pela iniciativa. Após esse apelo, em uma declaração pública divulgada em 1º de março, reafirmamos a posição anteriormente compartilhada em nossa carta ao Líder Apo. Para apoiar o processo, declaramos um cessar-fogo unilateral, que comunicamos ao público. Esses acontecimentos desencadearam intensos debates públicos tanto nacional quanto internacionalmente. Participamos ativamente dessas discussões, apresentando nossos pontos de vista e nos esforçando para oferecer avaliações escritas e verbais para ajudar nosso povo e aliados a obter uma compreensão clara e completa de o processo. Além disso, transmitimos tanto as atas das reuniões realizadas com o Líder Apo quanto as diretrizes preparadas em nome das lideranças do PKK e do PAJK (Partido das Mulheres Livres do Curdistão) relativas à organização do nosso partido. Todas essas ações foram realizadas com pleno conhecimento e consentimento da delegação do congresso. Para a declaração completa, consulte a [Declaração do Comitê Central do PKK datada de 4 de maio de 2025] (https://firatnews.com/kurdIstan/pkk-merkez-komitesi-nin-12-kongre-ye-sundugu-yazi-213569).
  2. “Nossa visão para a nova era se baseia na reconstrução da sociedade com base na nacionalidade democrática, nos princípios ecoeconômicos e no comunalismo. Para estabelecer filosoficamente essa estrutura — suas dimensões ideológicas e sua materialização na sociedade mais ampla —, temos a responsabilidade de formular sua estrutura teórica e conceitual… Estamos no processo de moldar os componentes ideológicos, o programa prático e as dimensões tático-estratégicas do futuro. A sociedade democrática constitui o programa político desta era. Ela não tem o Estado como seu objetivo principal. A política de uma sociedade democrática é a política democrática… O socialismo democrático, da mesma forma, significa uma democracia socialmente fundamentada… A vida livre dos povos se torna possível por meio da comuna… Em um esforço para transcender a modernidade e o socialismo real que a serviu, buscamos desenvolver uma nova análise e uma teoria socialista alternativa. Chamamos essa estrutura de ‘Modernidade Democrática’. Nela, a nação democrática é proposta como uma alternativa ao Estado-nação; a comuna e o comunalismo substituem o capitalismo; e a economia-ecologia é proposta no lugar do industrialismo. Análises correspondentes foram desenvolvidas para articular e fundamentar essas mudanças conceituais… A vitória no Curdistão também terá impacto na Síria, no Irã e no Iraque. A República da Turquia terá a oportunidade de se renovar, abraçar a democracia e assumir um papel de liderança na região… Posso afirmar com segurança que os oponentes desse processo são desprovidos de valores significativos — e, em última análise, fracassarão. No entanto, concretizar essa visão impõe uma responsabilidade significativa a todas as partes envolvidas. O confederalismo regional se revela uma necessidade absoluta; ao mesmo tempo, esse caminho exige inevitavelmente o surgimento de uma nova forma de internacionalismo. Você pode ler a carta completa aqui.
  3. O Partido da Justiça e Desenvolvimento (Adalet ve Kalkınma Partisi, AKP) respondeu com repressão intensificada. Em 2009, os “julgamentos KCK” levaram à prisão de quase 10.000 pessoas — políticos, defensores dos direitos humanos, sindicalistas e feministas — sob acusações generalizadas de terrorismo.
  4. O conceito de “comuna” torna-se central. Para Öcalan, ela representa o instrumento autêntico do povo, em oposição ao Estado-nação, que ele vê como a extensão armada do capitalismo. A construção de uma sociedade comunal por meio de municípios democráticos só é possível com uma luta anticapitalista coerente, apoiada por clareza política e determinação inabalável. Sem isso, o projeto fracassará.
  5. A família de Bese Hozat foi vítima do massacre perpetrado pelo Estado turco durante a revolta de Dersim, em 1938. Ela afirmou que sua família foi vítima de genocídio, com seu pai e seu avô mortos. Seu irmão e sua irmã também foram assassinados pelo Estado turco. Sua avó, sobrevivente do massacre, conseguiu escapar após suportar severas dificuldades nas mãos de soldados turcos. ↩
  6. Veja, por exemplo, este artigo de Soma Negahdarinia.

PARA SABER MAIS:

ENTENDENDO A AUTODISSOLUÇÃO DO PKK — O Que Isso Significa Para o Oriente Médio? ©, .

]]>
A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2024/11/13/a-historia-se-repete-farsa-trump/ Wed, 13 Nov 2024 18:43:36 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3391 Continuar a ler "A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder"

]]>

Donald Trump venceu a eleição presidencial de 2024 nos Estados Unidos. Antifascistas, anarquistas e todos insubmissos deverão se preparar para lugar as mesmas batalhas de 2017-2020 novamente, em um terreno ainda mais perigoso, uma vez que Trump e sua base fascista conhecem melhor o terreno em que lutarão, além de terem mais cadeira no congresso e senado.

O retorno de Trump como presidente eleito pelo partido Republicano já é tratado como exemplo a ser seguido no Brasil por Jair Bolsonaro e seus familiares, que acompanharam de perto a apuração da eleição estadunidense. Apesar de condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral e tornado inelegível, Bolsonaro diz que será candidato voltar à presidência ou eleger um aliado próximo em 2026.

Outros paralelos entre o que aconteceu nos EUA e no Brasil podem ser traçados a partir da leitura do artigo a seguir, do coletivo CrimethInc., uma vez que desde a forma como concorreram, governaram e buscaram dar um golpe de estado ao perder a reeleições, um parece emular a cartilha do outro.

De qualquer forma, seja para combater o bolsonarismo nas próximas eleições, ou seus aliados ocupando cargos no executivo e legislativo, ou seus capangas ruas, é preciso avaliar como a esquerda brasileira fez de tudo para sabotar os protestos de rua, greves e organizações populares contra o governo Bolsonaro. Da  mesma forma que o partido Democrata condenou e atacou protestos radicais nos Estados Unidos, numa das maiores ondas de protestos de sua história, contra a polícia e o racismo.

Democratas tiraram a legitimidade de um levante popular amplo que trouxe ao debate a redução de investimentos em polícia e prisões, aceitando levar suas políticas ainda mais para a direita só para conseguir competir com Trump, enquanto abria caminho para o fascismo se radicalizar sem oposição popular. Por aqui, o ministro da Fazenda de Lula, Fernando Haddad, já avaliou como “moderada” a declaração de Trump ao anunciar vitória nas urnas.

Se não aprendermos com nossos erros por aqui e com a derrota da esquerda estadunidense, estaremos em desvantagem para enfrentar o fascismo que pode muito bem voltar ao poder em 2026, mas, o que é mais perigoso, se instalar no imaginário social como única saída “radical” para as crises do capitalismo.

Portando, publicamos e convidamos a todas as pessoas para entender a escala do que está acontecendo nos EUA e como foi o caminho até aqui.

Leia mais artigos do coletivo CrimethInc. em português aqui.


A batata quente muda de mãos novamente

Há muito tempo argumentamos que, no século XXI, o poder estatal é uma batata quente. Como a globalização neoliberal tornou difícil para as estruturas estatais mitigar o impacto do capitalismo sobre as pessoas comuns, nenhum partido é capaz de manter o poder estatal por muito tempo sem perder credibilidade. De fato, nos últimos meses, derrotas inesperadas minaram os partidos governantes na França, Áustria, Reino Unido, e Japão.

Na eleição de 2024, tanto Kamala Harris quanto Donald Trump já estavam manchados por seu relacionamento com o poder do estado, mas Harris era a única associada ao governo vigente e esta é uma das razões pelas quais ela perdeu. Dezenas de milhões de eleitores de Trump apoiam seu programa, sim, mas os eleitores que o empurraram para a vitória estavam essencialmente dando votos de protesto ao status quo.

Democratas fizeram tudo o que podiam para se associar à ordem dominante: movendo suas políticas para a direita, mudando o apoio de supostos “esquerdistas” dentro de suas fileiras, desmobilizando movimentos de protesto. Acontece que essa foi uma aposta perdida em um momento em que as pessoas estão sedentas por mudanças.

Resta saber como o resto do país responderá. Se a liderança do Partido Democrata for capaz de ceder e aceitar uma posição como sócios minoritários no fascismo, o futuro pode ser realmente sombrio. Por outro lado, se ficar claro que metade do país vai resistir ao programa Trump, parte da liderança Democrata será forçada a seguir sua posição como representantes dessa parte da população, como ocorreu em 2017.

O que acontecerá a seguir será decidido nas ruas.

O Partido da Cumplicidade

Republicanos se tornaram o partido do fascismo. Na preparação para esta eleição, os democratas se estabeleceram como o partido da cumplicidade com o fascismo.

O que significa reconhecer que Donald Trump é um fascista, mas não fazer nada além de incitar as pessoas a votarem contra ele? Se, de fato, Trump pretende introduzir o fascismo nos Estados Unidos — se, como ele prometeu explicitamente, ele irá perseguir milhões de pessoas (“a maior operação de deportação doméstica na história americana”), colocar os militares nas ruas para reprimir protestos e usar o sistema judicial para atacar qualquer um que se oponha a ele — então limitar-se à mera oposição eleitoral significa acolher o fascismo de braços abertos.

Quando o fascismo está a caminho, a coisa apropriada a fazer é organizar redes subterrâneas de resistência, como os antifascistas italianos e franceses fizeram nas décadas de 1930 e 1940. A coisa apropriada a fazer é se preparar para resistir por quaisquer meios necessários. Qualquer coisa menos que isso é cumplicidade.

Reformar as instituições que serão usadas pelos fascistas parar aplicar suas políticas é cumplicidade. Normalizar a violência contra as pessoas que os fascistas pretendem atacar é cumplicidade. Entregar as plataformas de comunicação por meio das quais as pessoas compartilham informações é cumplicidade. Desencorajar as pessoas do tipo de tática necessária para lutar contra um regime fascista é cumplicidade. Nos últimos quatro anos, os democratas fizeram cada uma dessas coisas.

A liderança do partido Democrata já está preparada para coexistir com fascistas, para ser governada por fascistas. Eles prefeririam o fascismo a mais quatro anos de protestos tumultuados. Ter um partido mais autoritário no poder lhes dá um álibi — os faz parecer bons em comparação, mesmo que sejam eles que canalizam as pessoas para fora das ruas e pavimentam o caminho para Trump executar seu programa.


O Caminho para o Fascismo

Vamos explicar por que os democratas são culpados por essa situação.

A Polícia

Democratas começaram a era Biden-Harris dobrando seu apoio à polícia, precisamente quando milhões de pessoas nos Estados Unidos estavam se perguntando se era hora de procurar uma maneira mais eficaz de lidar com a pobreza e as crises de saúde mental do que continuar canalizando grandes quantidades de financiamento público para a militarização dos departamentos de polícia. Quando Trump assumir o cargo novamente em 2025, os departamentos de polícia em todo o país que o governo Biden financiou e glorificou estarão na vanguarda da imposição da agenda de Trump.

A virada pró-polícia do Partido Democrata ajudou a trazer ex-policiais como o prefeito de Nova York, Eric Adams, para o gabinete em 2020. A administração de Adams tem sido um desastre; ele é atualmente o primeiro prefeito de Nova York a enfrentar acusações federais, incluindo suborno, conspiração e fraude. Desde então, Trump estendeu a mão para Adams, um homem forte corrupto para outro. É isso que acontece quando você coloca o poder do estado diretamente nas mãos das forças de repressão.

A Lei

Desde o início do primeiro governo Trump, os democratas concentraram suas críticas a Trump na ideia de que o que ele estava fazendo era ilegal, usando o slogan “Ninguém está acima da lei”. Como debatemos em 2018,

Se você está tentando estabelecer a base para um poderoso movimento social contra o governo de Trump, “ninguém está acima da lei” é uma narrativa autodestrutiva. O que acontece quando uma legislatura escolhida por manipulação eleitoral aprova novas leis? O que acontece quando os tribunais lotados com os juízes que Trump nomeou decidem a seu favor? O que você fará quando o FBI reprimir os protestos?

Agora, com a Suprema Corte controlada pelos indicados de Trump e este se preparando para retomar o poder, veremos as respostas para essas perguntas. Qualquer um que esteja determinado a impedir Trump de executar sua agenda precisará se preparar para quebrar as leis que a legislatura de Trump vai aprovar e os juízes de Trump irão aplicar.

Marchar sob a bandeira “ninguém está acima da lei” é cuspir na cara de todos aqueles para quem o funcionamento diário da lei é uma experiência de opressão e injustiça. É rejeitar a solidariedade com os setores da sociedade que poderiam dar a um movimento social contra Trump alavancagem nas ruas. Finalmente, é legitimar o próprio instrumento de opressão — a lei — que Trump eventualmente usará para suprimir seu movimento.

Como alertamos em julho passado, uma vitória de Trump significa que todas as instituições com as quais os centristas contavam para protegê-los — a política eleitoral, o sistema judiciário, a polícia, a inclinação dos cidadãos comuns de obedecer à lei e respeitar as autoridades — agora são armas nas mãos de seus inimigos.

A Mídia

Quando os donos do Twitter o venderam para Elon Musk em 2022, eles entenderam que estavam colocando o controle da principal plataforma de comunicação política do século 21 nas mãos de um megalomaníaco de extrema direita. Uma das primeiras coisas que Musk fez foi banir algumas das contas anarquistas mais conhecidas que ajudaram a mobilizar pessoas durante o primeiro governo Trump. Este foi um passo no processo de reduzir o Twitter a um veículo de propaganda de extrema direita.

Como apontamos na época,

A aquisição do Twitter por Musk não é apenas o capricho de um plutocrata individual — é também um passo para resolver algumas das contradições dentro da classe capitalista, para melhor estabelecer uma frente unificada contra os trabalhadores e todos os outros que sofrem a violência do sistema capitalista.

De fato, o financiamento de um grupo de bilionários foi um dos principais fatores que permitiram que Trump vencesse a eleição de 2024. Os bilionários conseguiram mudar sua lealdade para Trump em parte porque, com as plataformas de comunicação e os protestos de rua controlados, eles não precisaram temer que uma segunda administração Trump criasse um caos que seria ruim para os negócios.

Isso nos leva ao próximo ponto.

Esvaziando as Ruas

O esforço dos democratas para desacreditar e desmobilizar o movimento contra a polícia caiu diretamente nas mãos de seus adversários, preparando o caminho para Trump retornar ao poder sem resistência.

Ao competir com os Republicanos para se afirmarem como o partido da lei e da ordem, os Democratas permitiram que os Republicanos levassem o discurso sobre “crime” tão para a direita que Trump e seus capangas puderam usar a retórica de combate ao crime, embora crimes violentos tenham diminuído nos últimos anos. Isso contrasta dramaticamente com a maneira como Donald Trump se recusou a recuar seus pontos de discussão um milímetro sequer.

Ao mesmo tempo, Democratas buscaram impedir que novos movimentos ganhassem força. Quando o acesso ao aborto foi restringido em todo o país, por exemplo, os Democratas fizeram o melhor que puderam para impedir uma mobilização popular eficaz em resposta.

Beneficiou as perspectivas eleitorais dos democratas em 2024 esvaziar as ruas? Vamos voltar para 2020 para uma resposta.

Na época, em artigo de opinião após artigo de opinião, os centristas expressaram preocupação de que os confrontos de rua de maio e junho de 2020 pudessem influenciar a eleição para Donald Trump. Na verdade, o registro de eleitores democratas em junho de 2020 aumentou em 50%, enquanto o registro de eleitores republicanos cresceu apenas 6% naquele mês. Uma pesquisa entre o eleitorado constatou que, dentre as pessoas que citaram os protestos como um fator de determinação para votar em 2020, uma porção 7% maior disse que votou em Joe Biden.

Em outras palavras, a Revolta por George Floyd ajudou a eleger Biden.

E lembre-se: a Revolta de George Floyd não começou com uma campanha de registro de eleitores. Ela começou com a queima de uma delegacia de polícia. De acordo com uma pesquisa da Newsweek, 54% dos entrevistados acreditavam que queimar a delegacia era justificável. Se isso não tivesse ocorrido, o movimento não teria conseguido empurrar os assassinatos de George Floyd, Breonna Taylor e outros para o debate público, e não haveria ganho eleitoral para o Partido Democrata. Não há como criar movimentos poderosos sem tomar medidas reais contra as causas da injustiça.

Como o partido que coopta movimentos de resistência, os democratas teriam se beneficiado de movimentos mais poderosos em 2021-2024. Eles preferiram perder.

A Catraca Política

A campanha de Harris recebeu o apoio do ex-presidente George W. Bush, da ex-representante Liz Cheney, do apresentador de rádio conservador Charlie Sykes e de muitas outras figuras de direita. Isso não ocorreu apenas porque a agenda de Trump era chocante até mesmo para aqueles que antes representavam a face do establishment republicano — também porque Harris representava um projeto político centrista, deixando os Republicanos determinarem o discurso sobre questões como imigração.

Como já argumentamos anteriormente,

O sistema bipartidário dos EUA funciona como uma catraca, com o Partido Republicano puxando constantemente as políticas públicas e o discurso permitido para a direita, enquanto os Democratas, ao tentarem adquirir poder perseguindo o centro político, servem como um mecanismo que impede que as políticas e o discurso retornem.

Essa estratégia ajudou os Republicanos a normalizar o que antes eram ideias marginais sobre imigração e crime, mas não tornou os Democratas mais elegíveis.

Para voltar atrás no tempo, podemos ver que a vitória de Trump em 2024 marca uma virada crucial no discurso político do século XXI. Quando Trump foi eleito em 2016, o consenso neoliberal parecia invencível; sua vitória parecia representar um acaso em que um político atípico chegou ao poder cooptando a retórica do chamado movimento antiglobalização. Hoje, está claro que o auge do consenso neoliberal acabou e algo mais terá que vir a seguir. No entanto, por décadas, os democratas têm colaborado com os republicanos para esmagar movimentos que propunham uma alternativa. Eles suprimiram as forças dentro de seu campo, como a campanha de Bernie Sanders, que representavam um caminho a seguir; foi isso que tornou possível para Trump se apresentar falsamente como um representante da rebelião.

Isso tornou inevitável que a extrema direita detenha o poder na próxima fase, já que os Democratas ajudaram a suprimir alternativas anarquistas, antiautoritárias e de esquerda.

Dessensibilizando o Público

Finalmente, de forma dolorosa, o governo Biden já fez muito do trabalho para dessensibilizar o público em geral para o programa que um segundo governo Trump encorajado tentará executar. Acima de tudo, o governo Biden conseguiu isso apoiando os militares israelenses na execução de um genocídio brutal em Gaza. Ao fazer isso, Biden e Harris acostumaram milhões de pessoas à ideia de que a vida humana não tem valor inerente — que é aceitável massacrar, aprisionar e atormentar pessoas com base em seu status em um grupo demográfico específico.

Este é exatamente o tipo de ambiente que permitirá que Donald Trump execute o tipo de políticas internas brutais que ele pretende fazer quando retornar ao cargo em dois meses e meio.


O caminho à frente

No final das contas, não podemos culpar os Democratas por tudo. Nós falhamos em construir movimentos poderosos o suficiente para sobreviver aos seus esforços para nos suprimir. Nós ainda não estamos preparadas para impedir Trump de deportar milhões de pessoas e canalizar bilhões de dólares a mais para bilionários e o aparato de segurança do estado.

Felizmente, esta história ainda não acabou.

Temos a responsabilidade de não deixar que as estatísticas eleitorais nos desmobilizem. Como escrevemos em 2016, em resposta à primeira vitória de Trump,

As eleições servem para nos representar uns aos outros no nosso pior, destilando os aspectos mais ofensivos, covardes e servis da espécie. Muitas pessoas que nunca arrancariam pessoalmente uma mãe de seus filhos são capazes de endossar a deportação da privacidade de uma cabine de votação, assim como a maioria das pessoas que comem carne nunca poderiam trabalhar em um matadouro. Se não fosse pela alienação que caracteriza o próprio governo, a maioria das políticas feias que compõem a agenda de Trump nunca poderiam ser implementadas.

Haverá uma breve janela de possibilidade agora, quando milhões de pessoas que contavam com os Democratas para mantê-los seguros acordarem e perceberem que somos a única esperança um do outro. Temos que agir imediatamente para fazer contato uns com os outros, para restabelecer tudo o que perdemos desde o ano de 2020.

Temos que empreender projetos proativos que nos diferenciem dos partidos políticos, projetos que mostrem o que todos têm a ganhar com nossas propostas e que ofereçam oportunidades para pessoas de todas as esferas da vida se envolverem no projeto de mudar o mundo para melhor.

A boa notícia é que podemos fazer isso. Já fizemos isso antes. Nos vemos na linha de frente.


Leitura Adicional


A História se Repete: Primeiro como Farsa, Depois como Tragédia – Por que o Partido Democrata é Responsável ​​pelo Retorno de Donald Trump ao Poder ©, .

]]>
Anarquia e Luta Conjunta na Palestina e em Israel – por Uri Gordon https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/11/16/anarquia-luta-palestina-israel-gordon/ Thu, 16 Nov 2023 13:26:51 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3339 Continuar a ler "Anarquia e Luta Conjunta na Palestina e em Israel – por Uri Gordon"

]]>
[Baixar PDF]
O presente texto foi lançado em 2007 como um capítulo do livro “Anarquia Viva!”, escrito pelo anarquista israelense Uri Gordon. O capítulo mobiliza análises sobre as lutas e perspectivas anarquistas na faixa palestina ocupada militarmente pelo Estado de Israel. Achamos oportuno fazer circula-lo em formato zine/brochura agora que o genocídio palestino perpetrado por Israel atinge uma nova etapa, já considerada a mais letal da história desse conflito. Também porque, como se observa há mais de 75 anos, as tecnologias coloniais de ocupação militar e controles ambientais usadas pelo Estado de Israel dá o tom de como diversos grupos armados estatais atuam na contenção e extermínio de grupos resistentes.

No dia 7 de outubro de 2023, o braço aramado do grupo palestino Hamas lançou um ataque surpresa no território reivindicado por Israel. Ao menos 1.400 pessoas foram mortas, a maioria civis e outras centenas foram feitas de reféns. Ação que expôs o óbvio da atual utopia securitárias das democracias: não existe sistema de segurança, por mais hightech que seja, imune à ataques, pois as pessoas que vivem sob a violência estatal ostensiva e permanente vão reagir por diversos meios, legítimos ou não.

O Estado israelense respondeu com um cerco total à Faixa de Gaza, cortando os suprimentos de alimentos, água, energia e combustíveis, e bombardeando indiscriminadamente a região com ataques aéreos, enquanto prepara uma grande ofensiva terrestre que foi colocada em marcha no dia 28 de outubro, produzindo um montante de mortes e destruição sem precedentes.
Nos primeiros seis dias de conflito mais de 6 mil ataques aéreos a Gaza — uma das regiões com a maior densidade populacional do planeta — atingiram principalmente alvos civis, incluindo hospitais, escolas, prédios residenciais e rotas de saída através das quais parte do povo palestino e cidadãos de diversos países tentavam fugir da área de conflito e dos campos para pessoas refugiadas. Até a conclusão desta edição, um mês após o primeiro ataque, esses bombardeios mataram mais de 10 mil pessoas, incluindo mais de 5.000 crianças, e feriram outras centenas de milhares. Mais de um milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas e muitas estão desaparecidas sob os escombros de prédios residenciais, escolas, hospitais e universidades bombardeadas por Israel.

Este é apenas o capítulo mais recente de mais de um século de violência colonial genocida contra o povo palestino. O Estado de Israel comprova que não surge como uma resposta, mas uma continuação das práticas de extermínio do Holocausto, já que mobiliza as mesmas tecnologia políticas de contensão, controle e execução perpetradas pela Alemanha nazista, mas contras os povos que habitam a faixa de Gaza e com acréscimo de um militarismo hightech. Mesmo antes os ataques do Hamas em outubro, a política de Apartheid e terrorismo do etno-estado israelense reproduz a mesma lógica dos guetos nazistas tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia, onde o Hamas sequer tem atuação, e colonos e as forças de segurança israelenses praticam torturas, fuzilamentos, sequestros e bombardeios.

Menos de dois anos antes dos ataques do Hamas e da agressão genocida israelense, houve o início da invasão russa e a guerra na Ucrânia. Ambos ressaltam os interesses geopolíticos e militares que atravessam os territórios e trazem ao debate o fantasma de uma nova guerra mundial nuclear. E em ambos, anarquistas e demais movimentos radicais de base ressaltam a importância da solidariedade internacionalista, a autodefesa e a autodeterminação dos povos.

O texto de Uri Gordon aborda as origens socialistas e internacionalistas dos kibutz nos anos 1920, antes da política sionista se materializar em um Estado étnico-nacionalista; as contradições e desafios dentro da luta anarquista e anticapitalista radical em geral ao se envolver no conflito Palestina/Israel junto aos povos; e também aponta para algumas saídas possíveis. Ademais, demonstra que não há saída para o conflito mais significativo de nossa era pela via estatal, confirmando a hipótese histórica dos anarquistas no século XXI. Também contribui para que o debate, que os novos ataques militares de Israel suscitam, saiam do binarismo e possam ser abordados de um perspectivas da diversidade dos povos contra a violência dos Estados.

Baixe, leia, copie, distribua e organize a solidariedade!

Facção Fictícia,
primavera de 2023.


Para saber mais, recomendamos o recente vídeo do coletivo Antimídia:

Do Rio Ao Mar – Uma mensagem pela libertação da Palestina

Anarquia e Luta Conjunta na Palestina e em Israel – por Uri Gordon ©, .

]]>
BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 10 anos de uma das ações radicais mais emblemáticas de 2013 https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/10/30/black-blocs-libertacao-animal-10-anos/ Mon, 30 Oct 2023 23:14:33 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3324 Continuar a ler "BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 10 anos de uma das ações radicais mais emblemáticas de 2013"

]]>

Exatamente 10 anos atrás, em outubro de 2013, um protesto contra o uso de animais em testes realizados em um laboratório no interior do estado de São Paulo se transformou em uma das mais emblemáticas ações diretas daquele ano que mudou o cenário político e os movimentos sociais no Brasil. O evento por si só já chama a atenção pelo tamanho, pela eficiência das diferentes ações e pelo sucesso alcançado, ainda mais no contexto brasileiro, pouco familiarizado com ações radicais pela libertação animal aliada a uma perspectiva anticapitalista.

Acreditamos ser importante revisitar tais acontecimentos para aprender com suas limitações e desenvolver seus acertos no que diz respeito a diversidade de táticas, coordenação de diferentes movimentos, radicalidade e contundência da ação que pode inspirar outros grupos e novas campanhas. Para isso, revisitamos essa breve análise e entrevistas feitas logo nas semanas seguintes com duas participantes das linhas de frente dessas ações.

A ação em São Roque: bons exemplos mas não um modelo pronto

Após dias acorrentadas nos portões do Instituto Royal, na cidade de São Roque, denunciando o uso e o assassinato de animais com técnicas como a vivissecção (cortar animais ainda vivos e sem anestesia para experimentações), ativistas atraíram a atenção da mídia e de outras organizações para a causa. E na madrugada do dia 18 daquele mês a manifestação se tornou uma ação de resgate dos animais que libertou quase 200 cães da raça beagle e dezenas de ratos. Toda a ação foi fotografa e filmadas pelas participantes.

Do lado de fora do laboratório, a estrada foi tomada por barricadas logo pela manhã. Uma viatura da polícia militar e um carro da imprensa foram queimados por manifestantes. Algumas pessoas menos acostumadas com a dinâmica de resistência em protestos de rua ainda tentaram formar uma barreira para proteger os carros de emissoras de TV da destruição, mas não adiantou. Do lado de dentro, jaulas foram esvaziadas, computadores, documentos e materiais de pesquisa foram destruídos. Paredes pixadas por símbolos da Frente de Libertação Animal (ALF) e ruas tomadas por Black Blocs que montaram barricadas para impedir que a tropa de choque chegasse ao laboratório e prendesse manifestantes.

Carro de emissora de TV depredada e viatura da Polícia Militar incendiada na estrada em frente ao laboratório.

Para muitas pessoas ali, era como se enfim chegasse o dia que toda uma geração de movimentos pela libertação animal, anticapitalistas e anarquistas sonharam e trabalharam para ver. Era o momento em que táticas radicais se encontram, convergem permitindo que movimentos distintos, com táticas distintas, operassem em conjunto para uma ação efetiva. Foi possível atingir tanto seu objetivo imediato (resgatar os animais e impor consequências ao laboratório pelo uso e tortura dos mesmos), quanto objetivos de médio e longo prazo (o fechar o laboratório e a educar a opinão pública sobre o tema). A ação chamou a atenção do público geral e tomou as notícias em todo o país, provocando uma mudança inédita no imaginário das pessoas sobre o que é possível fazer em uma ação direta pelos animais e educando as pessoas sobre o quão perverso e inútil são os testes em animais e o uso dos animais para qualquer fim. Tudo isso devido a uma janela de possibilidades aberta nas ruas em junho de 2013 nos grandes levantes contra o aumento das passagens no transporte público.

A invasão do Instituto Royal é um exemplo emblemático mas que também desperta curiosidade e demanda reflexão. Como nas ruas tomadas na luta contra o aumento em todo o país em junho daquele ano, a batalha em São Roque contou com a presença de uma grande diversidade de pessoas. Diferentes idades, posições políticas, classes sociais e também diferentes táticas e modos de luta e organização: ativistas que defendem o “bem estar animal” (ou que focam sua ação apenas em cães e gatos) estavam lado a lado com grupos veganos anticapitalistas. Personalidades da TV ou manifestantes de classe média que defendem a causa animal protegidas atrás de barricadas feitas por Black Blocs anarquistas. Um mosaico de inúmeras formas e contextos de luta se aliaram com um objetivo comum. A articulação prévia de longos dias foi organizada por um número reduzido de pessoas e catalisou a luta que surgiu de forma espontânea para centenas de pessoas que aderiram ao movimento imediatamente após um chamado aberto para a ação direta. Uma estratégia improvisada e repentina se tornou a principal arma contra uma polícia despreparada e incapaz de prever os movimentos de pessoas determinadas a agir.

Animais foram resgatados, o laboratório declarou falência e o impacto nas leis e na opinião pública foi maior do que todo o ativismo estritamente legalista ou outros protestos simbólicos contra a empresa durante os cinco anos anteriores: até o início de 2014, novas leis que regulam e restringem o uso de animais em testes foram aprovadas, incluindo a proibição desse tipo de teste para cosméticos em todo o país. O que nos prova que mesmo quando as pessoas querem apenas reformas, novas leis ou o fim de uma instituição opressiva, é melhor demonstrar força popular para realizar essas mudanças por nossas própria ações do que pedir pacificamente e esperar a boa vontade de poderosos. Se nos mostrarmos irredutíveis e com disposição para ação, as autoridades vão correr para nos atender antes que consigamos algo por nossa conta. Nesse momento é que os movimentos devem buscar ainda mais força para dobrar as autoridades.

Manifestantes rompendo as barreiras policiais e ativistas resgatando cães dentro das dependências do Instituto Royal.

A invasão ao Instituto Royal serve com um exemplo de sucesso obtido quando a organização de longo prazo encontra a imprevisibilidade de ações imediatas, inovadoras e capazes de mudar de táticas para encontrar uma brecha no sistema, antes que a repressão policial seja capaz de reagir à altura. Questionando o discurso tradicional das lutas sociais legalistas, vimos que a diversidade de táticas e de formas de organização, quando aliadas, podem ser a chave para vitórias que tornam possível o que era até mesmo impensável.

Ainda assim, o episódio é um bom exemplo e não um modelo ou receita a serem seguidos metodicamente. Mais do que buscar repetir suas táticas e etapas de ação, é preciso entender e assimilar as posturas que permitiram o sucesso da ação. Mesmo conflituosa e divergente para muitas pessoas que participaram, a ação mostra que uma diversidade de táticas e frentes de luta diferentes pode ser muito mais eficientes, tanto a curto quanto a longo prazo. Diferentes níveis de luta, como ação direta e confronto com forças de repressão, mídia independente e autônoma, comissões legais e porta-vozes, ajudam a distribuir a legitimidade dos movimentos e torna difícil a tentativa do Estado de isolar e silenciar “minorias infiltradas” ou “grupos radicais” do resto da luta. Essa harmonia e cumplicidade entre formas diferentes de ação se mostrou muito efetiva para libertar os animais, impor danos ao laboratório e não dividir o movimento entre “legítimos” e “ilegítimos”, “legais” ou “ilegais”, impedindo que as autoridade encontrassem divisões fáceis entre participantes que permitisse isolar e prender quem realizou ações ilegais de invasão, dado a propriedade.

O sucesso imediato e a continuidade do debate sobre o uso de animais como objetos e sua condição de propriedade em um sistema capitalista conseguem ir para além do reformismo bem-estarista (que visa apenas regular o uso de animais) e desafia o moralismo burguês dos movimentos abolicionistas (que lutam para que nenhum animal seja considerado propriedade) que se baseiam, muitas vezes, em princípios pacifistas como valores absolutos.

Black Blocs formando um cordão de proteção para bloquear o avanço da polícia em direção ao laboratório.

É necessário sempre repensar táticas, ser capaz de inovar e sempre fazer uma autocrítica. Não há problema na radicalização das ações antiautoritárias e de libertação. O problema não é atacar ferozmente o sistema, mas sim não continuar atacando. Somente a radicalização aliada ao debate sobre uma diversidade de táticas e discursos pode impedir que a legitimidade das lutas seja determinada pela mídia, pelo Estado ou por ativistas privilegiados – empresários, apresentadoras de TV e políticos – que buscam sequestrar lutas sociais organizadas por pessoas anônimas ou invisibilizadas como forma de acumular ainda mais poder e privilégios.

Para compreender um pouco mais de como foi a luta por trás das barricadas e por baixo das máscaras, publicamos aqui dois relatos escritos por pessoas que estiveram na invasão do laboratório. Elas contam como foram esses momentos de luta e descrevem sua importância para ações futuras. É preciso mais debates e, principalmente, mais ações que desafiam as leis e as “receitas de bolo” revolucionárias.

Por uma luta de libertação animal e humana total, radical e anticapitalista!

Primeiro Relato:

Em meio ao instável cenário político que veio após os protestos de junho de 2013, ativistas pelos direitos animais começaram uma campanha para fechar o Instituto Royal, um laboratório localizado no interior do estado de São Paulo conhecido pelos testes em animais e pelas práticas de vivissecção.

Após alguns dias atraindo atenção para o assunto e para esse estabelecimento em particular, a noite que mudaria como a mídia, a população e até legisladores encaram a vivissecção estava por vir. E sua história seria escrita através da ação direta. Naquela noite, em especial, as pessoas se reuniam em frente ao portão do laboratório atraídas pelas notícias que circulavam nas mídias sociais. No momento que cheguei àquela área rural cortada por estradas de terra e algumas poucas casas, a polícia estava guardando os portões e podíamos ver funcionários e seguranças privados andando dentro do prédio. Caminhões entravam e saíam, aparentemente, levando documentos e animais por medo de uma invasão. Mas essa não era uma ação da Frente de Libertação Animal (ALF). Pessoas de todos os tipos estavam presentes. Algumas só se importavam com os beagles, outras com apenas cães e gatos em geral, outras eram ativistas dos direitos animais. Black Blocs também estavam lá e até apresentadoras de TV que apoiam causas animais chegaram pois a mídia começou a divulgar que uma invasão estaria para acontecer. O que fez com que a mídia burguesa aparecesse e também mais pessoas em geral.

A polícia logo ficou em menor número e claramente incapaz de lidar com o fenômeno que tomava forma ali. É importante lembrar que São Roque fica a uma hora de qualquer cidade maior. Em poucas horas éramos muitas à postos naquela estrada sem saída cercada de mato. A estrada termina em um portão com uma largura que cabe 15 pessoas enfileiradas. De repente não parecia mais ser uma barreira e a polícia já demonstrava não estar preparada para a situação. O que pode dizer que eles poderiam reagir de forma desproporcional, mas como não se tratava do batalhão de choque, era mais provável que iriam apenas recuar. Especialmente devido à diversidade da multidão composta por senhoras de cinquenta ou sessenta anos junto a estudantes e pessoas vestidas como um Black Bloc.

Por volta da meia noite os carros do laboratório não conseguiam mais sair pelo portão e os latidos dos cães nos lembrava que as pessoas do lado de fora não eram as únicas apreensivas. Redes sociais funcionavam fortalecendo centenas de nós que estavam ali. Às duas da manhã, no dia 18 de outubro, ficou óbvio que haveria uma invasão. Bastou alguém tomar a iniciativa de começar a bater no cadeado do portão com uma pedra para que todo mundo ver que estava na hora. O portão já estava sendo derrubado enquanto gente cortava as cercas e a multidão pressionava em todas as possíveis entradas.

Entramos! Uma pequena estrada leva ao prédio principal, com mais portas a serem quebradas e arrombadas. A polícia só conseguia olhar e a mídia estava lá dentro também com as câmeras ligadas. A maioria das pessoas usava máscaras como em um resgate aberto. Algumas de nós, que temiam o que podia acontecer depois, tínhamos o cuidado de cobrir nossos rostos.

Um por um, quase 200 beagles foram transportados no colo subindo o morro até onde, há poucos minutos, havia um portão onde outras ativistas esperavam com seus carros – praticamente todo mundo chegou lá de carro porque não havia outro meio de transporte para o local a essa hora da noite. Quem libertava os cães de suas jaulas não sabia para onde eles estavam sendo levados. O que importava era que estavam sendo libertos da exploração. Isso foi útil quando ativistas que estavam lá dentro sob o foco das câmeras começaram a ser identificados e sofrer acusações por roubar “propriedade privada”. Como argumentamos, as chamadas “propriedades” nunca foram tomadas como posse daquelas pessoas que os tiraram de lá.

Um grupo de advogados voluntários se formou para defender quem era identificado e uma rede clandestina de veterinárias se dispuseram a remover chips que poderiam identificar animais adotados. Curiosamente, um deputado que atua na área de bem estar animal também estava presente durante o resgate, atraído pela presença da mídia e pela multidão de ativistas. Ele adotou dois beagles que passaram a morar em sua casa e poucos dias depois a mídia estava lá para filmar os cães e contar sua história. Em seu benefício, a lei brasileira diz que um membro do congresso não pode ser acusado desse tpo de crime enquanto exerce seu mandato. Para pessoas menos privilegiadas, podíamos apenas ter a companhia de alguns beagles que sofreram abusos, com sinais de mutilação e traumas psicológicos que às vezes são difíceis de notar.

A invasão foi realmente uma cena caótica, sem planejamento prévio, nenhuma direção e, provavelmente, não é um modelo a ser repetido. Sua espontaneidade foi a mágica que fez com que tudo fosse possível. Sua diversidade foi um fator que fez os números de participantes possíveis e a repressão impossível. A compaixão de todo mundo presente foi a força que ampliou seu significado para além dos indivíduos salvos.

Poucas semanas depois, após extensiva e persistente cobertura da mídia sobre o assunto, leis começaram a ser propostas na cidade, no estado e no país. A prefeitura mandou trancar o laboratório e manifestantes mantiveram a pressão até que o Instituto Royal anunciou seu fechamento no dia seis de novembro. Ainda assim, eles recusavam a liberar os animais que ainda estavam lá durante o primeiro resgate. Então uma nova e legítima ação da ALF realizada no dia 13 de novembro por uma pequena célula resgatou os 300 ratos que ainda estavam lá e nenhum animal esteve presente para testemunhar os últimos momentos do Instituto Royal.

Interior do laboratório atacado durante a madrugada.

“Tendo em vista as elevadas e irreparáveis perdas e os danos sofridos em decorrência da invasão realizada no último dia 18 – com a perda de quase todo o plantel de animais e de aproximadamente uma década de pesquisas -, bem como a persistente instabilidade e a crise de segurança que colocam em risco permanente a integridade física e moral de seus colaboradores, os associados concluíram que está irremediavelmente comprometida a atuação do Instituto Royal para dar continuidade à realização pesquisa científica e testes mediante utilização de animais. Por este motivo, o Instituto decidiu encerrar suas atividades na unidade de São Roque”

–Declaração do Instituto Royal em 06/11/2013 sobre seu fechamento.

Vídeo da segunda invasão ao Instituto Royal para resgatar ratos que ainda estavam presos.

Segundo Relato:

Nós fomos de carro de São Paulo a São Roque em três pessoas no segundo dia de manifestação. Ativistas que retiraram os cães ficaram a noite toda lá e, no dia seguinte, iriam retirar os roedores que restaram. Eu cheguei em São Paulo pela manhã e nós chegamos no instituto no começo da tarde, a Rodovia Raposo Tavares já estava interditada pela Polícia Militar muito antes. Chegando lá havia muito tumulto e uma divisão bem clara: de um lado, ativistas pacifistas pelos cães com faixas e dizeres cristãos, se recusando a cobrir o rosto e mantendo distância do conflito com a Tropa de Choque. Do outro, pessoas de máscaras e bandanas iam de encontro a linha policial. A polícia parecia estar evitando o conflito e focando na porta do instituto, que já estava fortemente protegida pela PM para evitar a segunda entrada dos militantes. Uma viatura foi incendiada e logo após outro carro de uma emissora de TV também estava em chamas. A polícia interviu muito após isso para tentar dispersar a manifestação e me juntei a um grupo que se formou para tentar entrar no instituto através da mata em volta. Pulamos uma cerca e tentamos dar a volta para entrar pela parte de trás onde não havia policia, mas havia helicópteros sobrevoando o local e nos escondemos em uma casa abandonada. De lá chegamos perto dos limites do instituto para encontrar com uma segurança privada, sem identificação e portando de armas de fogo.

A PM percebeu a tentativa de entrar por trás e começou a perseguir alguns manifestantes dentro da mata. O grupo inicial havia se dividido em vários por não concordar em como entrar no instituto. Havia ainda ativistas que se recusam a cobrir o rosto por insistir em que resgatar animais não consistia em crime. E foi esse o sentimento que persistiu do começo ao fim.

Considerando que as pessoas que organizaram a manifestação inicial são pacifistas e cristãs, houve muita desorganização por conta desse racha ideológico. As pessoas pacifistas colocaram muito em risco a identidade e segurança de quem se dispôs a entrar no instituto e enfrentar a polícia.

Por fim, encurralados, saímos da mata muito longe do instituto e fomos cercadas por bombas de gás. A manifestação foi se dispersando no fim da tarde e só nos restou o plano de voltar em outra ocasião.

Havia pessoas de várias partes do país. Todas as placas, cercas, carros e estruturas no perímetro do instituto foram destruídas. Em comparação a junho de 2013, houve muito mais organização, disposição em se arriscar e união. Todos presentes nas ações radicais sabiam claramente qual era o objeto e que tal objeto era extremamente legítimo. Motivadas de maneira quase emotiva, as pessoas viram claramente que aquilo era apenas o começo e que a PM não era capaz de frustrar nossas tentativas, tamanha a presença e vontade de muitas pessoas dispostas a libertar aqueles animais por quaisquer meios necessários. Esse evento inspirou o resgate das chinchilas em Itapecirica e outras ações. E independente de rachas ideológicos, foi possível conciliar a disposição dos Black Blocs em se arriscar com a força legalista para fechar o instituto Royal permanentemente e proteger as pessoas que tiveram suas identidades expostas.

Um acontecimento sem precedentes no Brasil e uma semente que, acredito eu, ainda vá germinar em forma de um Frente pela Libertação Animal concreta.


Para baixar e imprimir:

[PDF Leitura] [PDF Impressão]

BLACK BLOCS E LIBERTAÇÃO ANIMAL – 10 anos de uma das ações radicais mais emblemáticas de 2013 ©, .

]]>
GEZI PARK: 10 anos dos levantes de junho na Turquia https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/06/29/revolta-gezi-park-10-anos/ Thu, 29 Jun 2023 20:15:25 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3207 Continuar a ler "GEZI PARK: 10 anos dos levantes de junho na Turquia"

]]>

Quando as revoltas contra aumento das tarifas do transporte pelo Brasil tomaram escala nacional em  junho de 2013, em Istambul, um levante balançaria toda a Turquia, numa região ainda abalada pelos levantes da Primavera Árabe. As duas revoltas contra o custo e qualidade de vida em economias emergentes demonstravam solidariedade mútua: bandeiras e faixas em São Paulo em apoio ao levante turco, mensagens em Istambul solidarizavam com a revolta popular brasileira.

Uma década depois, Recep Tayyip Erdogan ainda está no poder na Turquia e acaba de vencer mais uma eleição cheia de polêmicas e suspeitas de fraude. Seu projeto de poder busca restaurar uma soberania turca na região, passando por cima da natureza, dos povos, especialmente os curdos. E para isso, se apoia em movimentos nacionalistas de bases fascistas e financia de forma oculta os jihadistas do Estado Islâmico, dispostos a eliminar o povo e a cultura curda e ameaçar a revolução social em Rojava.

No Brasil, o ciclo da década se fecha com o retorno do PT ao poder com a eleição de Lula em 2022, como única aposta eleitoral para barrar uma reeleição da extrema direita com Jair Bolsonaro.

No mês em que muito se fala e analisa sobre os levantes de junho de 2013 pelo Brasil, retomamos também esse movimento rebelde que tomou a Turquia na esteira de levantes internacionais como a Primavera Árabe e o Movimento Occupy.

Como vimos em 2020 e 2021 durante a pandemia da Covid-19, torcidas organizadas brasileiras romperam com o discurso pacificado do “fique em casa” adotado pela maior parte da esquerda enquanto a extrema-direita fazia carreatas e atos públicos para divulgar suas políticas de ódio e morte. Novamente, as torcidas ganharam atenção ao enfrentar nas estradas os bloqueios de bolsonaristas insatisfeitos com a derrota nas urnas. O potencial de mobilização e combatividade das torcidas organizadas de futebol é visível em muitos momentos de agitação social como nos últimos anos no Brasil, mas também no Chile em 2019 durante o “Estallido Social” contra preço das passagens e custo de vida. Nas revoltas da praça Taksin e Gezi Parque na Turquia de 2013 também temos exemplos emblemáticos dessa convergência.

Para relembrar essas lutas e nos inspirar para as próximas, revisitamos esse artigo lançado em 2014 na publicação Balaklava que analisa o levante turco e seus paralelos com a revolta no Brasil de 2013.

11 de junho de 2013, Praça Taksim.

“Por aqui para chegar à Comuna de Taksim”

Ao fim de maio de 2013, uma semana antes das Jornadas de Junho no Brasil, iniciou-se uma série de conflitos na Turquia que resultaram no maior levante popular da história do país. Só a época e a relevância histórica e política já são suficientes para induzir alguns paralelos entre os dois episódios, mesmo com tantas diferenças de contexto e proporções. Os confrontos na Turquia foram muito mais radicais e marcados por uma violência ainda maior em números. A população se ergueu contra um projeto de renovação urbana que contava com a demolição de um parque no centro de Istambul e o movimento se transformou rapidamente num levante contrário ao autoritarismo do presidente Erdogan. Tudo começou no Parque Gezi, vizinho à Praça Taksim, e logo se espalhou pela cidade e por todo o país.

Diferentemente dos poderosos protestos que vimos recentemente na Grécia em 2008, Espanha em 2011 ou nos Estados Unidos em 2012, o levante turco não foi gerado por uma crise de austeridade, com cortes de recursos sociais para salvar bancos e corporações como medida para estabilizar uma economia em constante crise. O levante turco foi, assim como no Brasil, um levante resultante do desenvolvimento e do crescimento econômico de um país emergente, porém muito particular. O primeiro-ministro Erdogan é conhecido por convergir um islamismo reacionário com um neoliberalismo desenvolvimentista bastante agressivo. Ao mesmo tempo que resgata tradições conservadoras, impõe um desenvolvimentismo econômico e infraestrutural. Privatizando e vendendo o que resta de recursos públicos enquanto o desemprego continua em alta, se empenhando em grandes empreendimentos, como uma ponte ligando dois continentes, a demolição e o replanejamento de várias partes das cidades para empreiteiras lucrarem com a construção civil e para que novos negócios se estabelecerem no local. Na capital Istambul um audacioso projeto de renovação e gentrificação previa desmatar parte do Parque Gezi e remodelar a Praça Taksin para abrigar shopping centers e ser uma “zona de pedestres”, dentre outros projetos para os ricos. No entanto, Erdogan parecia ignorar a relevância histórica e política do local para a população.

A Praça Taksin é um tradicional ponto de encontro de mobilizações sociais, protestos de Primeiro de Maio, e carrega um peso histórico de ter sido palco de diversas lutas sociais e massacres. Lá estudantes foram enforcados em 1977 como inimigos do Estado durante o regime militar por protestarem em um Primeiro de Maio. Em outras manifestações ao longo do mesmo ano, 34 pessoas foram baleadas e mortas por paramilitares. Exatos 30 anos depois, em 2007, a esquerda organizou um grande protesto em memória dos mortos de 1977, mas o governo tentou impedir o protesto e radicais resistiram com pedras e molotovs. Nos dois anos seguintes, mais protestos, confrontos e resistência do povo contra a polícia marcaram os dias dos trabalhadores e trabalhadoras.

Então, no dia 28 de maio de 2013, ativistas já se amarravam em árvores para impedir que fossem derrubadas e no dia 31 o levante explodiu, ecoando por todo o planeta. A primeira coisa a chamar atenção da imprensa por aqui foi que a polícia turca utilizava bombas e munições fabricadas no Brasil para reprimir a população numa série de operações que, ao fim do levante, resultaram em pelo menos 6 mil pessoas feridas – sendo 10 cegas – e mais de 10 mortes. Mesmo assim, muito foi noticiado sobre as experiências de vida comunal, resistência e autogestão que tomaram lugar na ocupação dessa área central de Istambul por 10 dias de intensa resistência.

Um dos projeteis de gás lacrimogêneo brasileiros utilizados pela polícia turca.

Entre o primeiro e o dia 10 de junho, todas as ruas e avenidas que levavam à Praça Taksim foram tomadas por barricadas para se defender da polícia. Em grandes avenidas era possível ver até 12 barricadas, muitas com mais de três metros de altura, usando materiais de construção, lixo, ônibus e veículos da mídia corporativa. Como em muitas outros levantes populares, as barricadas baniram a presença do Estado da área e abriram espaço para que novas e inimagináveis relações sociais pudessem surgir e tomar forma. Placas no caminho indicavam “Por aqui para chegar à Comuna de Taksim”.

A região era tradicionalmente muito frequentada por pessoas de todas as idades, mas conhecida por ser uma zona boêmia. Chamou atenção o fato da violência urbana ter caído significativamente com a tomada da praça pelas pessoas e a expulsão da polícia de toda a região. Sem o Estado, a população experimentava a solidariedade, cooperação e luta contra a repressão, deixando relações nocivas e competitivas de lado. Mulheres, que compunham ao menos metade (se não a maioria) das pessoas presentes, ressaltaram a queda de violência sexista, abusos e assédios. Muito disso devido a sua participação, juntamente pessoas LGBTQIA+ e tantas outras, inclusive intervindo sobre gritos de guerra e pichações sexistas e homofóbicas.

Um curioso caso envolveu as torcidas organizadas de futebol, grupos feministas e o movimento LGBTQIA+, que se destacaram pela presença política e combatividade nas ruas. As torcidas dos maiores times de Istambul, historicamente arqui rivais, se uniram na luta pela resistência pela Praça Taksim, sendo responsáveis por muito da energia nos confrontos contra a polícia. No entanto, foram também responsáveis por muitos gritos e grafites com mensagens sexistas e homofóbicas que conhecemos bem no Brasil. Feministas e queers combateram isso de uma forma transformadora para as pessoas ali, gritando de volta respostas antipatriarcais e pichando sobre os grafites com xingamentos machistas.

Como resultado das intervenções e debates antissexistas, algumas torcidas marcharam até a frente de um escritório de uma das maiores organizações LGBTQIA+ que, assim como muitos movimentos e organizações de esquerda, ficava em um prédio próximo ao Parque Gezi. Ao chegarem, disseram que reavaliaram suas posturas e as mensagens sexistas e homofóbicas que vinham passando, tendo absorvido isso da sociedade e reproduzindo-as sem questionar seu conteúdo. Disseram que iriam tomar posturas diferentes contra isso e, para selar seu pedido de desculpas, deram de presente à organização um escudo da tropa de choque da polícia.

Esse episódio resume muito bem o contexto de convergência entre tantas pessoas, grupos, organizações e comunidades de diferentes trajetórias que nunca se imaginaram lado a lado numa barricada e que se uniam ali, fazendo de suas causas uma luta comum. Para defender esse espaço, era preciso estarem em contato e em constante questionamento e revisão de suas próprias atitudes. Até mesmo conflitos étnicos foram deixados de lado quando as pessoas se uniram contra o partido e Erdogan e sua polícia. Nos prédios ao redor da praça tomada era possível ver bandeiras da Turquia juntas de bandeiras do PKK, o Partido dos Trabalhadores Curdos, envolvida na luta revolucionária em Rojava, fronteira entre a Síria e Turquia. Alguns disseram ser esse o verdadeiro processo de paz entre povos turcos e o povo Curdo, que por século resiste ao racismo, à  xenofobia e têm sua cultura criminalizada e perseguida em todos os países da região.

O clima marcante dentro da comuna de Taksim era o bom humor, o otimismo e a positividade. Até mesmo as barricadas eram pichadas com frases engraçadas e piadas com figuras políticas ou até teóricos anarquistas. Manifestantes estavam sempre criando sátiras e memes a serem compartilhados na internet. O bom humor ajudava a manter a união e aliviar a tensão e afastar o medo da violência policial.

O espírito anticapitalista e antiautoritário era visível na cooperação envolvida em cada construção. Materiais corriam de mão em mão, por jovens, mulheres, homens, idosas. Muitas barricadas foram construídas assim. Ao seu lado, havia sempre uma tenda com água, pedras e até abrigo para vigilantes descansarem.

Um dos cordões em que pessoas passavam pedras para construção de barricadas.

Cooperações inusitadas apareciam, unindo pessoas de classes e papéis muito diferentes. Camelôs e ambulantes que trabalhavam na região passaram a adaptar seus negócios e muitos passaram a vender máscaras de gás. Em um momento, comerciantes e estabelecimentos não simpáticos à ocupação tinham de cooperar ou sofrer as consequências. O dono de uma loja de kebab, postou no Facebook sua indignação com os “cães que tomaram conta da região”. Minutos após seu post a loja foi reduzida a destroços. Até mesmo a Starbucks acabou dizendo à imprensa que apoiava a resistência e alegou que sempre iria dar suporte ao movimento. Logo depois foi atacada por não cumprir o que foi dito.

Curiosamente, muito apoio foi de fato dado por membros da burguesia, principalmente em infraestrutura. Empresários forneceram materiais para enfermarias improvisadas, uma empresa de telefonia levou veículos que funcionavam como antenas para receber e transmitir o sinal necessário para comunicação via e-mail, tweets e mensagens de celular. Em suas vans era possível ver escrito “estamos aqui para contribuir para sua comunicação” – talvez uma forma de evitar que fossem incendiadas. O motivo por trás desse apoio, no entanto, é compreensível se considerarmos que muitos liberais e progressistas nas elites viam no tradicionalismo islâmico de Erdogan uma ameaça a suas liberdades modernas. E viram no levante de Gezi uma oportunidade. Esse fato revelou uma certa falha das mobilizações em Gezi quanto a firmar uma força anticapitalista, mesmo com muitos grupos anticapitalistas envolvidos.

Sem líderes

O movimento na Turquia também foi um movimento sem lideranças personalizadas, sem movimentos sociais e organizações partidárias tradicionais à frente. Os poderosos se viam frustrados em não conseguir encontrar líderes ou representantes com quem negociar e sabotar o movimento. Essa ausência de lideranças desenvolveu uma estrutura de decisão coletiva que foi talvez sua principal força. Os objetivos extrapolaram a preservação do parque e denunciaram uma crise de representação. A organização da comuna era totalmente autônoma. Pequenos grupos de afinidade armaram as primeiras tendas para se fixar e logo depois a região foi tomada por tendas e barracas de quase todos os grupos de esquerda, sociais e ativistas da cidade. Tudo funcionava com base no apoio mútuo e pessoas que nunca imaginaram um mundo sem polícia se surpreendiam com o clima harmonioso nesse território livre das garras do Estado. Assim como em muitos acampamentos do movimento Occupy, lojas grátis, bibliotecas, espaços para oficinas, enfermarias, várias cozinhas, espaços multimídia para produzir e transmitir conteúdo e muito eventos culturas preenchiam e enriqueciam o espaço.

As assembleias gerais eram descentralizadas e funcionavam como uma continuação das reuniões e demandas dos grupos de afinidades menores. No palco central havia um microfone aberto onde as pessoas podiam subir para falar do que quisessem. O caráter de ocupar uma parte da cidade e torná-la aberta a quem quer que seja para se juntar e construir em conjunto novas relações com as pessoas e o espaço foi fundamental para dissociar a ação política e o “protagonismo” de uma identidade engessada, como “trabalhadores” ou “estudantes” – categorias e identidades simplesmente inacessíveis para crescente parcela da população no capitalismo – e abrir espaço para ação e a livre associação rebelde independentes do seu papel na máquina.

Como sempre, o partido do governo tentava fragmentar a união da comuna espalhando mensagens distorcidas para criar uma divisão entre os chamados “provocadores” (isto é, aqueles que revidam quando a polícia ataca) ou os grupos “marginais” (esquerdistas e radicais). O já conhecido esforço para criar uma minoria deslegitimada a ser reprimida, para então, suprimir todo o movimento. No entanto foi difícil para Erdogan manter seu esforço de polarizar a sociedade e voltar a opinião pública contra a resistência do Parque Gezi. Toda vizinhança dos bairros centrais viam pessoalmente a truculenta e desproporcional ação da polícia ao mesmo tempo que a internet era inundada de imagens e relatos da repressão que manchava a imagem do governo de Erdogan.

A falta de aceitação do movimento em apontar representantes e porta-vozes para a armadilha disfarçada de negociação com o governo foi seguida por uma ofensiva ainda mais violenta do Estado para retomar o Parque. Depois de quase tomar a praça num violento ataque no dia 11 de junho, o Estado atacou a praça novamente quando ninguém esperava. Durante um festival que contava com a presença de muitas crianças e idosos a polícia entrou destruindo tudo e atacando a todos. A cidade explodiu em raiva mais uma vez, vizinhos se juntaram à resistência e abrigavam pessoas em suas casa, xingando os policias das janelas dos prédios.

Um movimento tão novo e com pouca experiência em atuação nas ruas, repleto de jovens que se mobilizavam pela primeira vez teve dificuldades de lidar com suas multidões sob os ataques da polícia. Cada noite era uma grande tensão, pessoas usavam capacetes, máscaras, e escreviam o tipo sanguíneo na roupa. Sua determinação era incrível. Mas o mais importante é que toda uma geração pode se encontrar e começar a sonhar juntas o que podem alcançar juntas.

Veículos da mídia encontraram novos usos durante a ocupação da Praça Taksin.

Novas relações

Em cada horta ou tenda médica; cada debate sobre sexismo e homofobia; ou na construção de cada palco ou barricada as pessoas estavam vivendo relações totalmente diferente das do cotidiano comum em qualquer cidade moderna. E essas relações emergiam em cada ação como uma forma de resistência a um poder hegemônico econômico e político. Esse é o espírito fundamental da comuna como máquina de guerra. Fazer de cada gesto uma forma de cuidar de si e das outras pessoas frente a um poder que tenta eliminar qualquer sombra de desobediência. Não buscar na estrutura uma forma de se incluir, mas sim uma forma de destruir toda a estrutura. Isso é uma batalha que tem como palco cada indivíduo e seus semelhantes. Escalando até o conflito político ou físico entre as comunas e os agentes do Império pelos territórios que queremos proteger.

Tão inesperado quanto, o levante no Brasil também foi marcado por violência policial e o uso indiscriminado dessas armas ditas “não-letais” que matam e mutilam. Demonstrações de solidariedade e apoio entre os povos de ambos os países circulavam pela internet. É difícil pontuar exatamente como e em que medida um levante influenciou o outro, mas podemos traçar alguns paralelos mais óbvios, inclusive com movimentos anteriores.

A resistência no Parque Gezi e na Praça Taksim empregaram amplamente formas de organização e estruturas semelhantes ao do movimento Occupy nos EUA e de ocupações de praças na Europa, ou Ocupa Sampa de 2012. As formas de divulgação e organização política são frequentemente comparadas às da primavera árabe de 2011. A inegável influência imediata do levante turco sobre as lutas de junho no Brasil foram visíveis tanto com manifestantes compartilhando maneiras de neutralizar bombas de gás made in Brazil quanto nas frases e gritos de guerra adaptados que lá diziam não se tratar de “apenas por algumas árvores” mas sim uma revolta contra um governo autoritário e o próprio sistema democrático, aqui transformado na balela do “não são só 20 centavos”. O problema está na forma como isso foi importado para o Brasil, atendendo à pautas direitistas e da embriagada classe média branca. Isso levou às mobilizações o risco de perder totalmente o foco da luta contra o aumento da passagem para pautas genéricas anticorrupção, contra o PT e outras tradicionais causas inofensivas e úteis para a elite.

Na Turquia a ampliação do discurso que motivava os confrontos ampliava a luta contra um governo autoritário, contra a democracia representativa, contra as forças policiais em si, contra o projeto urbanístico e juntava as pessoas para ações em favor de ocupar a cidade e torná-la um espaço gerido pelo e para o povo; enquanto isso, no Brasil, radicais, anarquistas e autonomistas não conseguiram ampliar a crítica ou difundir de forma mais ampla uma radicalidade além do discurso do “acesso à cidade” e correram o risco de ver a luta se tornar um caldeirão de causas inviáveis a curto prazo para a classe média brincar de ativismo no Instagram e a direita espreitasse o momento para inserir suas pautas. A radicalidade ficou por conta da ação meio desorientada de Black Blocs, durante e depois de junho. Enquanto o MPL lutou para manter a pauta da luta contra o aumento diante das explosão de temas genéricos e sem avanços possíveis no curto prazo. O que estrategicamente foi interessante para barrar imediatamente o aumento, beneficiando os bolsos de todos nós e abrir espaços para as multidões mostrarem que podem atingir seus objetivos se aceitarem assumir alguns riscos.

Da Turquia ao Brasil, da Grécia ao Chile, de Chiapas a Rojava, o trabalho, a moradia, o espetáculo e a miséria de nossas vidas serão as mesmas sob o Capitalismo. Cabe a todas as pessoas que querem organizar a revolta que destrua essa forma de vida intercambiar as lições de luta e os riscos que envolvem tomar as ruas quando novos atores chegam todos ao mesmo tempo disputando pautas e a dianteira dos chamados. Do contrário, corremos riscos semelhantes aos de camaradas anarquistas na Ucrânia que viram as ruas sendo tomadas por grupos conservadores e fascistas, enfrentando o Estado e seu aparato com as mesmas ferramentas que grupos libertários e radicais empregam em suas lutas, visando objetivos que desde o início já eram muito duvidosos. Ou, como vimos após os atos da extrema-direita de 2015 no Brasil, ferramentas desenvolvidas para lutas radicais podem facilmente ser apropriadas por reacionários.

Chamados serão feitos. Cabe principalmente a quem responder fazê-lo com o poder e as intenções necessárias para ampliar a revolta para caber nela tudo o realmente importa.


Mais sobre o tema:

GEZI PARK: 10 anos dos levantes de junho na Turquia ©, .

]]>
QUEM TEM MEDO DE JUNHO 2013? – ciclo de eventos e debates https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/05/17/quem-tem-medo-de-junho-2013-ciclo-de-eventos-e-debates/ Wed, 17 May 2023 19:41:25 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3178 Continuar a ler "QUEM TEM MEDO DE JUNHO 2013? – ciclo de eventos e debates"

]]>

A maior revolta popular do país vista a partir de sua radicalidade e potência de transformação hoje Junho de 2013 no Brasil foi um acontecimento intempestivo.

Nos dias de revolta que varreram o Brasil naquele junho, governos e suas polícias, jornalistas e seus ventríloquos universitários, partidos de esquerda e de direita com seus respectivos representantes, assim como as organizações de direitos humanos e seus ativistas, se apressaram em isolar os vândalos dos manifestantes pacíficos. O objetivo político era associá-los à anarquia entendida como desordem para entregar militantes e manifestantes para a violência brutal das Tropas de Choque e enfiá-los em bancos de delegacias e/ou tribunais. Hoje, alguns destes agentes políticos lamentam que a extrema-direita tomou as ruas e repetem, como autômatos, que a democracia está em crise e ameaçada pelo fascismo. Muitos colocam a culpa dessa situação ou o início dela, nas revoltas de junho de 2013. Querem criminalizar as revoltas e silenciar a potência de transformação que ela traz. Como é comum na história política moderna, apontam para a anarquia como um monstro político a ser dominado ou eliminado.

Esse ciclo de eventos, com palestras, conversas e debates, visam falar de um outro junho de 2013. Trata-se de uma série não unificada, mas articulada, que ocorrerá durante o mês de junho de 2023 sobre a atualidade das insurreições de junho de 2013 nas cidades de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Osasco, São Paulo e Belo Horizonte. Cada coletivo local fará as conversas e exibição de vídeos à sua maneira, mas que evitando o tom de efeméride para focar na singularidade e atualidade do acontecimento junho de 2013, destacando a revolta e suas conexões com outras mobilizações que estavam a acontecendo no planeta, os movimentos envolvidos e sua afirmação de autonomia e diferença com os movimentos sociais até aquele momento. Estamos interessados nos efeitos das insurreições de junho de 2013 ainda presentes hoje, tanto em termos de luta e características dos movimentos, quanto em termos de reação da ordem, com mudanças nas formas de repressão e controle e articulações da elite política para capturar insatisfações em processos institucionais, eleitorais e partidários.

Trata-se não de uma leitura final e totalizante do acontecimento, mas uma leitura libertária que busca mover a revolta no presente, soprando a brasa ainda acesa da labareda que varreu o Brasil há 10 anos.

DATAS: 
  • Porto Alegre: 19 de maio, no ESPAÇO.
  • Rio de Janeiro: dias 1, 6, 12 e 20 de junho, na Aldeia Maracanã, UERJ, ADEP & Cinelândia
  • Osasco: 14 a 16 de junho  na UNIFESP – Campus Osasco
  • São Paulo:  17 de junho na Praça do Ciclista (na concentração da Marcha da Maconha).
  • Belo Horizonte: 24 de junho na Kasa Invisível.

ORGANIZE TAMBÉM EM SUA CIDADE:

Muitos materiais foram produzidos por quem esteve nas ruas do lado dos debaixo e podem servir de introdução para debates e estudos. Abaixo, reunimos alguns desses materiais para exibição de vídeos e circulação de textos:
“Por que 2013 agora?”, vídeo por  Sonho, com colaboração dos coletivos Antimídia e Facção Fictícia.


Mais sobre o tema:

QUEM TEM MEDO DE JUNHO 2013? – ciclo de eventos e debates ©, .

]]>
A REVOLTA POPULAR NO PERU – Anarquistas Discutem a Revolta Contra a Violência Policial e o Estado de Emergência https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/02/23/a-revolta-popular-no-peru/ Thu, 23 Feb 2023 15:28:05 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3138 Continuar a ler "A REVOLTA POPULAR NO PERU – Anarquistas Discutem a Revolta Contra a Violência Policial e o Estado de Emergência"

]]>
Em dezembro de 2022, uma onda de protestos populares liderados por camponeses e os movimentos indígenas varreram o Peru depois que o ex-presidente Pedro Castillo sofreu impeachment após uma tentativa fracassada de dissolver o legislativo e sua vice-presidente, a conservadora Dina Boluarte, assumiu o governo. Em 14 de dezembro, o ministro da Defesa, Alberto Otárola, decretou estado de emergência, suspendendo a liberdade de reunião, a liberdade de ir e vir, a inviolabilidade do lar e outros direitos. No entanto, os protestos só aumentaram de intensidade. Em 18 de janeiro, movimentos populares do sul do Peru marcharam até a capital em uma mobilização conhecida como “Tomada de Lima”. Estudantes e sindicatos os receberam, juntando-se aos protestos para exigir novas eleições para a presidência e o legislativo. Em resposta, a polícia matou mais de 60 pessoas e feriu milhares. Para uma visão direta desses acontecimentos, conversamos com anarquistas peruanos, na esperança de obter uma perspectiva sobre os aspectos desse movimento que ultrapassam a política de estado.


O Peru tem uma longa história de golpes de estado no poder e violência estatal e paramilitar no campo. Após uma crise envolvendo a falta da última página de um contrato entre o governo peruano e a Companhia Internacional de Petróleo, o general Juan Velasco Alvarado derrubou o presidente eleito Fernando Belaúnde Terry em 1968. A partir da década de 1980, o grupo armado maoísta Sendero Luminoso conduziu uma guerra de guerrilha no campo que ceifou dezenas de milhares de vidas. O presidente Alberto Fujimori dissolveu o Congresso em 1992 para obter o poder absoluto, que manteve por meio de uma vasta rede de atividades secretas coordenadas pelo chefe do serviço de inteligência do Peru, Vladimiro Montesinos – até ser derrubado em 2000 após uma eleição fraudulenta. Em novembro de 2020, protestos generalizados forçaram o presidente interino Manuel Merino a renunciar após apenas cinco dias no cargo.

Mais recentemente, o vizinho Equador viu revoltas em 2019 e 2022, nas quais grupos de base ligados à Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) desempenharam um papel central na resistência às medidas de austeridade impostas pelo Estado. Algo semelhante ocorre hoje no Peru, onde um movimento composto principalmente por camponeses e indígenas interrompeu o funcionamento do capitalismo extrativista, afirmando seus próprios interesses e estruturas organizacionais fora do quadro do poder estatal.

À medida que uma nova série de tentativas de golpe ocorre nas Américas, do 6 de janeiro de 2021 nos Estados Unidos ao 8 de janeiro de 2023 no Brasil, é importante aprender como os movimentos populares podem manter a resistência diante da repressão policial – especialmente movimentos envolvendo os explorados e excluídos.

Conversamos com participantes do Periodico Libertária, publicação anarquista que surgiu como parte da resistência ao regime peruano. Seu objetivo, como eles dizem, é “a libertação total dos Andes e de todo o território dominado pelo estado assassino chamado ‘Peru’”.

Capa da primeira edição do Periodico Libertária, com o slogan “Espalhamos a anarquia quando podem”. O balão diz “Um misantropo que também é filantropo, é um pouco difícil de entender” e a legenda diz “Oxímoro: Protesto dos trabalhadores do IPC em Lima, 29 de junho de 1956”.

Em outros países, são muito escassas as informações que recebemos sobre a revolta que ocorre neste momento nas ruas peruanas. A mídia noticia de forma superficial que há manifestações e greves, com repressão policial que já matou dezenas de pessoas e feriu milhares. Ainda assim, pouco se discute sobre o contexto e quando se fala, mantém-se o binário: apoio a Pedro Castillo, presidente que tentou dissolver o Congresso e aplicar um golpe, ou a destituição de Dina Boluarte, sua vice que assumiu o cargo depois do Impeachment do presidente, e também a demanda popular pela realização de uma nova eleição. Mas sabemos que as revoltas estão sempre para além dessas simplificações e, por isso, é preciso entender o contexto e as lutas recentes nos territórios onde as insurreições acontecem. Sendo assim, gostaríamos que você escrevesse uma história de uma perspectiva anarquista sobre o que está acontecendo lá no momento e quais são as possíveis conexões com outras insurreições que ocorreram na chamada América Latina?

Normalmente, os meios de comunicação de massa cobrem os protestos no exterior como algo isolado e localizado, mesmo que o que está acontecendo esteja a apenas alguns quilômetros de distância. Nos meios de “comunicação” existe o receio de expor problemas estruturais e analisá-los em profundidade. Sabe-se que no Peru vivemos um processo antiautoritário que poderia ocorrer em qualquer país latino-americano, especialmente considerando a coincidência e a origem dos problemas – racismo estrutural, pobreza extrema, corrupção institucionalizada e uma violenta democracia neoliberal.

Nesse caso, a repressão do atual governo tem sido caracterizada pelo racismo desenfreado. Houve massacres em cidades dos Andes e do Altiplano [as montanhas e planaltos do Peru]. Obviamente, a desprezível imprensa amarela não tem apresentado uma representação fiel da realidade. Enquanto a militarização continua em várias cidades – como Ica, no litoral, e Puno, no altiplano – o último assassinado em Lima (28/01/23) foi descrito pela mídia como mero delinquente quando sua morte foi transmitida no um canal a cabo no país. Há um constante confronto assimétrico entre as armas do Estado e as lutas dos povos em busca da liberdade.

No que diz respeito às conexões com outros eventos, sem esquecer os problemas específicos deste território e o caráter camponês da revolta peruana, as referências mais próximas são as experiências antiautoritárias de outubro de 2019 da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE). A diferença está na ausência de grandes organizações indígenas, já que a Confederación Campesina del Perú (a Confederação Campesina do Peru fundada em 1947) sofreu o violento assédio do Sendero Luminoso (grupo marxista) e também a perseguição do ditador Alberto Fujimori, resultando em sua atual desintegração. Para compensar esta ausência existem as organizações camponesas de base , tanto provinciais como distritais.

Isso também explica o fracasso da esquerda política em direcionar os protestos para seus interesses. Vimos confrontos abertos com parlamentares nas ruas e até ações diretas contra suas propriedades.

Confrontos em Lima.

Você pode falar sobre a participação dos camponeses e indígenas nas manifestações?

Deve-se afirmar abertamente que os grupos camponeses estão à frente dos levantes neste território. Existem diferentes grupos étnicos no Peru que resistiram à maquinaria colonial (em todas as suas formas) e mantêm uma longa tradição antiautoritária. Nessas circunstâncias, diferentes etnias ou nações se uniram para enfrentar diretamente a açougueiro Dina Boluarte.

Embora alguns dos partidos políticos tenham contribuído para organizar os protestos por meio de suas bases, eles estão tentando se posicionar como vanguarda; isso não é mais sustentável, pois as pessoas não aceitam mais os apelos à não violência vindos desses partidos. É por isso que as pessoas queimaram prédios estatais, incluindo delegacias de polícia.

Por outro lado, essas ações também nascem de uma justa sede de vingança contra a capital Lima, porque dirige toda a maquinaria legal colonialista que, através do extrativismo e outras atividades econômicas, esmaga as populações das províncias, usando a violência do estado e força privada para expulsá-los, prendê-los e até matá-los sempre que se opõem a um projeto – ou simplesmente quando exigem o cumprimento dos termos com os quais concordaram como condições para aceitar um projeto estatal ou privado.

A isto se somam as lembranças do comportamento de muitas pessoas de Lima que alugavam quartos, apartamentos ou casas a gente do interior e que não queriam abater o aluguel (ou baixar o valor ou adiá-lo) durante a primeira fase da pandemia, e ainda começou a expulsá-los de suas casas, causando um êxodo de pessoas dos Andes e da selva de volta aos seus lugares de origem por causa da quarentena. Da mesma forma, algumas pessoas foram expulsas de suas casas “por medo de contágio”, porque a imprensa (irresponsavelmente como sempre) espalhou o medo sobre o COVID-19. Além disso, como eles viajavam em grandes grupos a pé porque o transporte era proibido por medo de contágio – e eles nem podiam usar o próprio transporte – a polícia começou a reprimi-los em todos os postos de controle da estrada. E também, os habitantes de algumas localidades, temendo a exposição ao vírus, também participaram dessa repressão e do fechamento das estradas de seus territórios.

É perigoso generalizar esse ódio a todos que moram em Lima, algo que pouco se tem falado nas redes sociais, talvez porque muitas pessoas já tenham família, amigos ou moradia nas províncias para onde possam ir se essa situação tornar-se mais aguda e as províncias tomam a decisão de bloquear o envio de alimentos para Lima. Lima quase não produz alimentos in natura, apenas alimentos processados ​​– mas sem matéria-prima importada de fora, nem isso seria possível.

É por isso que, há alguns dias, circulou um vídeo da caminhada de Ancón ao centro de Lima (que dizem ser 20 quilômetros) em que uma senhora do Sul agradeceu aos lxs desactivadorxs [os “desativadores”, os grupos que se organizam para neutralizar as armas químicas da polícia] pelo esforço e disseram (embora eu acredite que de brincadeira) que terão um espaço na Grande República do Sul. Parece que essa ideia de dividir o Peru em duas repúblicas, que surgiu durante as eleições presidenciais (primeiro entre a direita, quando viram que grande parte do Sul votaria em Pedro Castillo, e depois nos meios de esquerda, que acredita isso é do interesse de seu governo), ganhou força como resultado dos assassinatos de cidadãos. Isso pode ser aproveitado pelos esquerdistas que – com Evo Morales à frente e o apoio da China por meio de sua Cúpula da CELAC [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos] – aspiram a governar os novos pactos comerciais extrativistas com a China, especialmente do lítio presente na cidade de Puno, no sul do Peru e na fronteira com a Bolívia. Até os Estados Unidos pretendem obter o controle dessa área, por isso apoia o modelo de exportação mineral para aquela região – não só com a presença de seu embaixador, mas também apoiando o governo do Peru e suas forças armadas e policiais, militarmente e taticamente. É por isso que eles enviaram forças militarizadas para Puno.

Diante de várias propostas de “independência” ou de saída para esta crise, é preciso analisar cada uma delas, pois atrás de cada uma há aspirantes a opressores querendo puxar os cordelinhos em benefício próprio. Os irmãos e irmãs no Chile já estão nos alertando sobre os perigos ou a ilusão de uma Assembléia Constituinte, até mesmo do próprio processo. [Para mais contexto, veja nossa cobertura de como o movimento no Chile se perdeu na tentativa de introduzir uma nova constituição por meios institucionais.] A esquerda, com seus partidos políticos e parlamentares, está tentando se fazer passar por aliada desses protestos em um esforço que só pode ser descrito como oportunismo político; em alguns lugares, os manifestantes os expulsaram ou vaiaram. A esquerda tenta fingir que se importa com seus irmãos e irmãs nas províncias, mas eles apenas os veem e os tratam como possíveis votos a seu favor.

Para concluir, foram os camponeses que colocaram seus corpos em risco nesses protestos – que, com suas huaracas feitas à mão, trocaram projéteis com a tombería [tropa de choque], repelindo as covardes forças repressivas do sangrento regime de Dina Boluarte. Eles sabem que é uma questão de vitória ou morte; a democracia nunca resolveu nada para eles, ao contrário daqueles que se venderam a um partido. Essas marchas trouxeram à tona o racismo velado no Peru.

Também nos preocupamos com os recursos para o autocuidado e as possibilidades de voltarem para casa quando tudo passar. Já existe um precedente infeliz desde 2000, quando o povo indígena Shipibo-Konibo foi abandonado e marginalizado após os protestos maciços da “Marcha de los 4 Suyos” contra o ditador Fujimori. [A “Marcha dos Quatro Quartos” em julho de 2000 foi uma mobilização de massas organizada por esquerdistas, partidos social-democratas e movimentos sociais contra as eleições fraudulentas e a posse de Fujimori]. Com a queda do ditador e o parlamento cheio de políticos contrários ao antigo regime, toda a esquerda, centro e liberais se esqueceram dessas pessoas, que ainda sofrem com a pobreza extrema.

A mídia corporativa sempre vê os eventos da perspectiva da polícia.

Vimos imagens de terrorismo de Estado no Peru, incluindo assassinatos, tortura e prisão em massa, bem como outras formas de agressão da polícia peruana. Sabemos que estes não são eventos isolados – a repressão é algo comum em todos os estados, especialmente quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como está estruturada a polícia peruana? Qual é a história da repressão policial contra os protestos no Peru?

A moderna polícia peruana foi fundada em 1988, a partir da unificação de três agências estatais anteriores. Sabemos que a formação de policiais é um fenômeno transnacional, ou seja, no desenvolvimento da instituição do policiamento, houve vários modelos que serviram de ideal para outros países (em um momento, foi o modelo francês, em outro, o modelo espanhol e, atualmente é uma mistura de várias instituições repressivas em todo o planeta).

No início, a polícia peruana só dispunha de bastões, apitos e coisas do gênero para estabelecer a ordem municipal; então seu armamento aumentou: pistolas, rifles, pinochios (conhecidos no Chile como guanacos, são carros blindados usados ​​para atacar manifestações), caminhões, motocicletas, gás lacrimogêneo, spray de pimenta, drones e computadores.

Eles sempre estiveram do lado do poder. Eles fizeram greve apenas uma vez, durante a ditadura de Velasco Alvarado, que os reprimiu com força militar, deixando um número desconhecido de mortos.

Nos anos 1980 e 1990, as autoridades deram à polícia imunidade legal e moral para assassinar a fim de eliminar o Sendero Luminoso (partido maoísta). Foi então que cometeram as piores injustiças: assassinar, torturar, estuprar, desaparecer, extorquir em todas as cidades e vilas do Peru.

Em 2000 [quando o presidente Alberto Fujimori fugiu para o Japão, substituído por Alejandro Toledo], eles tiveram que se adaptar à ideologia do novo presidente; porém, carregavam no DNA o autoritarismo e o racismo, junto com o montesinism. [Vladimiro Lenin Ilich Montesinos Torres, ex-oficial de inteligência do exército e espião dos EUA, foi conselheiro do ditador Fujimori e serviu como chefe do serviço de inteligência do Peru sob seu comando.]

A história recente da polícia é um exemplo claro da impunidade do setor político Fujimontesinista, que nunca foi expulso do aparato institucional do Estado, apenas acomodado nele. Hoje, as práticas repressivas vêm dos ex-quadros de Vladimiro Montesinos e também de seus aprendizes.

Polícia se mobiliza para atacar manifestantes no Peru.

Como o chamado Brasil, Argentina, Chile e muitos outros lugares, a região peruana viveu uma ditadura civil-militar. É um território com uma longa história de golpes, como o do presidente peruano Alberto Fujimori em 1992. Fale da resistência e da memória combativa contra os legados da ditadura e a continuidade da repressão e do extermínio na democracia.

É verdade que nesta região houve seguidas interrupções da democracia representativa (o que, obviamente, como anarquistas, não queremos de qualquer maneira) e, consequentemente, houve vários períodos de resistência ao autoritarismo e às ditaduras. No entanto, e um tanto contraditoriamente, também houve ditadores apreciados pelos setores populares – por exemplo, o militar nacionalista Juan Velasco Alvarado, que é celebrado por um setor da esquerda conservadora ou kitsch.

Outro ponto a destacar é que o antifascismo dos anos 1930 e 1940 e suas experiências de resistência foram esquecidos no Peru – goste ou não, quem participou do confronto foram anarquistas, comunistas, apristas [membros a APRA, Aliança Popular Revolucionária Americana, um partido socialista fundado em 1924] e progressistas.

A memória antiautoritária das esquerdas dos anos 1970 e 1980 se perdeu com as perseguições sofridas pelo ditador Fujimori e pelos genocidas do Sendero Luminoso – comunistas dogmáticos que assassinaram camponeses, líderes esquerdistas e qualquer outro que se opusesse a eles. Tudo isso contribuiu para uma despolitização nos anos 1990 e para a aceitação da narrativa neoliberal delirante sobre o “empreendedorismo” em 2000, que grande parte da população dessa região ainda hoje aceita.

Apesar de tudo isso, no dia 5 de abril, aniversário do golpe do genocida Fujimori, marcham contra tudo o que representa a atual ditadura: o neofujimorismo, o neoliberalismo, a corrupção em massa, o narcotráfico e o genocídio. É preciso reconhecer que os partidos de esquerda procuram monopolizar o “anti-fujimorismo” para ganhos políticos e que, seguindo as vicissitudes da política peruana, alguns “anti-fujimoristas” revelaram sua verdadeira face a ponto de ingressar nas fileiras do pos-fascistas (por exemplo, o autor conservador Mario Vargas Llosa, [ex-ministro do Interior] Fernando Rospigliosi e [presidente em exercício] Dina Boluarte, entre outros).

Em todo caso, é o antifujimorismo que entregou o trono da presidência ao atual governo. E embora alguns se orgulhem disso (por ter impedido que Keiko Fujimori, filha mais velha do ex-presidente peruano Alberto Fujimori, chegasse ao poder), é preciso dizer claramente que isso só contribuiu para consertar um abominável sistema político que foi brutalmente nos explorando – sob o qual há massacres contínuos nos Andes, graças a políticos, bandidos e empresários.

Agora, vemos ressurgir essa memória combativa; muitas pessoas pararam de se censurar e estão falando sobre o que sofreram por resistir à ditadura de Fujimori. Ao mesmo tempo, o ataque da extrema-direita tem indignado as pessoas pela forma como usam a acusação de “terrorismo” contra quem se opõe a eles e aos seus ídolos. O famoso “terruqueo” é um conceito que nasceu na década de 1980: é o adjetivo usado para definir quem pode ser morto impunemente. Se você é um terruco(suposto terrorista), pode queimar na fogueira ou ser executado – como fizeram sistematicamente os militares em Ayacucho nas décadas de 1980 e 1990.

Por isso, hoje, o mais próximo da memória combativa é o esforço para desarmar os partidários do ditador genocida Fujimori de sua arma semântica: o “terruqueo”. E é assim que as pessoas estão procedendo nas regiões do sul (lugar onde tanto os militares quanto o Sendero Luminoso massacraram os camponeses). Sem falar em confrontá-los implacavelmente nas ruas até que o fascismo seja destruído!

Os restos de um edifício histórico que pegou fogo perto da Plaza San Martin em Lima durante as manifestações de janeiro de 2023. Segundo o filho do proprietário, o incêndio foi causado por bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia para dispersar manifestantes.

Há debates sobre legítima defesa nas ruas? Existe alguma discussão por parte dos movimentos e coletivos sobre a abolição da polícia?

Nesta região, ouvimos vários discursos diferentes sobre a polícia. O primeiro é o desrespeito da polícia pelos assassinatos de manifestantes, o que é compatível com o repugnante “princípio da proporcionalidade” (teoria imbecil que tem origem no pacifismo do século passado e justifica guerras, massacres, etc., com base em igualar o uso de armas). A maioria das pessoas que promovem essa ideia são cidadãos e esquerdistas moderados (obviamente não vão atacar a instituição pela qual querem disciplinar quando estiverem no poder). O segundo é o discurso da extrema-direita que dá desculpas ao gatilho (apoiando tomberìa e militares em matar sem repercussão legal ou moral) e até mesmo paramilitarismo fascista.

Dentro da esquerda radical, não há quase nada sobre abolir a polícia, embora as pessoas odeiem a instituição por sua corrupção, sua inutilidade em responder a feminicídios, crimes antissociais e outras questões e, finalmente, pelo papel que a polícia desempenha na proteção do empresariado extrativista.

Como anarquistas, acreditamos que é urgente pedir a destruição dessa instituição assassina. Há alguns dias, no blog, um camarada compartilhou alguns artigos não anarquistas discutindo a origem da polícia, a fim de imprimi-los e compartilhá-los na linha de frente.

Ele nos convidou a compartilhar o seguinte fragmento:

“Desde a formação das primeiras cidades, quem as governou teve necessariamente de criar forças repressivas para resguardar os seus domínios dos ataques externos daqueles que procuravam reclamar o que estes governantes lhes arrebataram nas zonas rurais onde viviam, e contra os ataques internos dos aqueles que estavam insatisfeitos com esses governos, reinos ou impérios. Toda a história da civilização e de suas cidades e outros domínios sempre foi dividida entre governantes e governados. A questão é que a direita ama a polícia porque, para ela, os policiais se comportam como servidores que garantem a segurança de seus domínios e privilégios. Por outro lado, o problema é que seu suposto adversário, a esquerda, não busca a abolição da polícia porque isso enfraqueceria seu controle quando chegar ao poder. A abolição da polícia é um passo necessário para uma vida em plena liberdade, encontrar outras formas de convivência equilibrada e respeito é mais um passo necessário para não depender para sempre da existência da polícia. De fato, as comunidades indígenas viveram outrora sem a instituição da polícia ou sua lógica. Hoje, em várias dessas comunidades, essas lógicas e práticas estão sendo impostas como parte do processo civilizatório do sistema e dificultam nosso caminho.

Contracapa da primeira edição do Periodico Libertária. “Mais de 300 assassinados sob a democracia (2003-2020), graças a políticos e policiais. Fogo eterno para os assassinos tomberìa [polícia] e seus símbolos!”

Por fim, estamos interessados ​​nas diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Por favor, fale sobre os envolvidos nas lutas anárquicas na região peruana.

O anarquismo é muito humilde nesta região. Existem diferentes organizações e indivíduos com diferentes abordagens: anarco-sindicalismo, insurgentes, plataformistas e anarquistas sem adjetivos. Não há “black bloc” como observado em outras regiões, ou talvez haja, mas apenas muito pequeno. Tampouco existem “grandes organizações” – admitamos isso como uma forma de autocrítica – mas existem indivíduos que resistem nas diversas províncias do Peru.

A repressão em Lima que o açougueiro Manuel Merino supervisionou em 2020, que representou para muitos jovens anarquistas seu primeiro encontro com a verdadeira face do estado assassino, destacou a urgência de autocuidado e autodefesa agudos, bem como um retorno à realidade (o resultado da situação foi um governo de transição, o enfraquecimento dos protestos e injustiça permanente para os caídos).

Atualmente, com um levante em curso, os anarquistas que não vivem na capital (especialmente no sul do Peru) experimentaram suas consideráveis ​​limitações para enfrentar as forças repressivas e as armas letais da ditadura cívico-militar de Dina Boluarte.

Apesar disso, não desanimamos. A tarefa dos anarquistas hoje, desde nossa humilde posição, é acompanhar os camponeses em todas as ações diretas. Como nossas famílias camponesas , vamos junto com elas em qualquer posição possível, seja resistindo na linha de frente, desativando gás lacrimogêneo, dando assistência médica, coletando doações para nossas irmãs, divulgando medidas de autocuidado, debatendo todas as questões políticas e sociais de nossa região e, finalmente, conhecer sua experiência de resistência. Sem intermediários, políticos de esquerda e influenciadores legalistas, marchamos juntos para a destruição da ditadura cívico-militar e não descansaremos enquanto não vermos a justiça que nos foi roubada séculos atrás.

Manifestação em Puno.

A REVOLTA POPULAR NO PERU – Anarquistas Discutem a Revolta Contra a Violência Policial e o Estado de Emergência ©, .

]]>
PORQUE 2013 AGORA? – Novo vídeo por Antimídia https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/02/01/porque-2013-agora-novo-video-por-antimidia/ Wed, 01 Feb 2023 17:38:39 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3121 Continuar a ler "PORQUE 2013 AGORA? – Novo vídeo por Antimídia"

]]>
É cada vez mais comum ver pessoas e organizações de esquerda defenderem uma narrativa que busca responsabilizar as Jornadas de Junho de 2013 pela ascensão do fascismo bolsonarista, traçando paralelos entre o uso da tática black bloc e os ataques fascistas em Brasília no dia 8 de janiero de 2023. Há quem defenda que junho de 2013 teria sido orquestradas por forças ocultas para desestabilizar o governo de esquerda.  Mas essa versão não se sustenta quando analisamos o contexto de greves e movimentos sociais no período.
Assista ao vídeo editado por Antimídia, compatilhe, difunda e debata:

Não começou em 2013, não vai terminar em 2023

2013 foi o auge de uma série histórica de protestos, paralisações e ocupações que vão de 2011 a 2016, segundo uma expressão local e tendências globais derivadas da crise de 2008. Foi um ano de lutas populares, no qual houve o maior número de greves desde o fim da ditadura civil-militar (1964-1985). Foram mais de duas mil greves. Mil e cem apenas no setor privado. Aderiam a essas manifestações trabalhadores que não viam mais os sindicatos como seus representantes e que procuravam deixar manifesta sua insatisfação com a situação e a precariedade das condições de trabalho e vida. Várias categorias entraram em greve de forma autônoma, contrariando seus próprios sindicatos.

Os governos petistas alimentaram uma insatisfação popular ao gastar bilhões em megaempreendimentos, como a hidrelétrica de Belo Monte e as obras do Programa de Aceleração do Crescimento, da Copa do Mundo e das Olimpíadas, que levaram à remoção de comunidades periféricas e povos indígenas de suas terras. A esquerda vivia seu delírio de grande nação desenvolvimentista. E para garantir que a nação se desenvolvesse em direção ao progresso foi mobilizada a presença cada vez mais militarizada do Estado nas favelas, periferias e regiões onde habitam povos tradicionais. Muitas dessas obras incentivaram ainda mais o uso do automóvel, o que impulsionou movimentos orgânicos em defesa do transporte público e livre de tarifas e catracas, por mobilidade urbana e em defesa dos espaços públicos.

E enquanto a gestão do PT levou alguns movimentos sociais para dentro das instituições, por meio de conselhos participativos que nada decidem, tirando deles o papel de pressionar o Estado por mudanças, a característica autônoma e horizontal desses novos movimentos os tornou mais atraentes para a atuação política das pessoas, seguindo uma onda global do período de recusa da representação. Em todo planeta se dizia; “Não nos representam!”. Eles ganharam corpo e adesão popular por abordar o que era esquecido pela esquerda no governo, que a solução não era uma mera questão de gestão do neoliberalismo, e exigiam mudanças mais radicais.

Repressão e violência de Estado

Ao se confrontar com manifestações horizontais, sem lideranças definidas e que se recusavam a ser assimiladas, as organizações da esquerda brasileira descobriram que estavam desconectadas das demandas populares e começaram a atacar e deslegitimar a revolta. A maior parte dos partidos de esquerda lançou notas se desvinculando e criticando a ação de supostos anarquistas. Alguns inclusive ajudaram os aparatos de repressão do Estado e entregando pessoas à polícia.

O governo do Partido dos Trabalhadores e seus aliados não hesitaram em responder à indignação popular com criminalização através do aparelhamento das polícias e da aprovação de uma lei antiterrorista. Lei que tem pouco sentido em um país cuja única prática terrorista foi, e continua sendo, o terrorismo do Estado. No entanto, respondia-se a mais uma demanda internacional para a realização dos megaeventos.

Um povo que se volta contra aquele que diz ser o “governo do povo” não poderia ser um povo. A filósofa Marilena Chaui disse numa palestra para Policiais Militares do Rio de Janeiro que quem aderia à tática Black Bloc era fascista. Para tais intelectuais, até hoje, 2013 não foi uma revolta popular, mas o início do fascismo brasileiro.

Dentro dessa lógica, parte da esquerda vê 2013 como o início de uma reação das classes médias privilegiadas às conquistas sociais alcançadas durante os governos do PT, manipuladas para servir aos interesses dos inimigos imperialistas de sempre. Para inserir esses contratempos em uma narrativa global, se adotou a noção de “guerra híbrida”.

Guerra híbrida?

Guerra híbrida é um conceito, cunhado por militares estadunidenses. Uma primeira referência à expressão aparece em um artigo de 2005 escrito pelo general James Mattis e pelo tenente-coronel Frank Hoffman, ambos das forças armadas dos EUA, cujo objetivo era projetar cenários de guerras futuras. A expressão-conceito foi popularizada ao descrever as ações da Rússia durante a anexação da Crimeia em 2014. A intenção era criar na esquerda uma repulsa a mobilizações populares. Para isso difunde-se a ideia de que todas as manifestações e lutas contra opressões, como as lutas antirracista, feminista e da comunidade LGBTQIA+, assim como manifestações autônomas e contra a política representativa e as instituições, seriam na verdade demandas implantadas por governos imperialistas para desestabilizar governos.

Essa narrativa vem do livro Guerras Híbridas, que fez sucesso com a esquerda brasileira depois de 2013. Seu autor, Andrew Korybko, é um analista politico que se alinha às políticas do Estado russo e seus interesses geopolíticos. Ele defende o regime fascista de Viktor Orbán na Hungria e o AfD, partido alemão de extrema direita. Em 2016 apoiou a candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, para “acabar com o totalitarismo do politicamente correto”.

Korybko estrutura seu livro no pensamento geopolítico de Aleksandr Dugin, intelectual russo, conservador e cristão, que é uma das principais influências do Presidente russo Vladimir Putin. Foi Dugin que fundou o Partido Nacional-Bolchevique depois do fim da União Soviética, uma vertente do fascismo conhecida como nazbol. O nome é homenagem ao nazismo e ao comunismo bolchevique, que um dia, segundo ele, serviram de contraponto à expansão dos Estados Unidos. O símbolo do partido é similar à bandeira nazista, mas com uma foice e martelo pretos em vez da suástica no centro.

Misturando elementos do comunismo com outros da extrema-direita, busca seduzir pessoas da esquerda para um projeto político que é essencialmente fascista. Muito de seu programa pode parecer atraente para pessoas libertárias e de esquerda – pois é anticapitalista e anti-imperialista; elogia aspectos de sociedades e tradições não-ocidentais e pré-coloniais ao mesmo tempo em que condena o Estado-Nação. Essas posições – por mais necessárias que possam ser para um programa radical de esquerda – não são nem boas nem más em si mesmas; antes, são instrumentos, ferramentas para a criação de um novo mundo.

A influência de Dugin vai desde o coordenador de campanha de Trump, Steve Bannon, até o filósofo do Bolsonarismo, Olavo de Carvalho, com o qual colaborou.

Guerra midiática

As jornadas de junho de 2013 contaram com a presença popular massiva. As pessoas que protestavam em peso eram, claramente, das camadas excluídas, camelôs, moradoras de rua, faveladas, trabalhadoras precarizadas e, claro, boa parte da chamada classe média.

Ao perceber a escala das manifestações, a grande mídia considerou que a insatisfação popular poderia ser manipulada discursiva e midiaticamente. Mas mesmo com os ataques diários da imprensa corporativa, o apoio popular não parava de crescer em solidariedade contra brutalidade da violência Estatal. A tática black block, que embora não fosse novidade, ganhou destaque em meio aos protestos e teve amplo apoio popular. As mídias digitais e as redes sociais ajudaram nesse sentido, desmentindo a constante desinformação da imprensa corporativa, e permitiram que as imagens da violência Estatal fossem mostradas diretamente à população.

Quando a guerra da informação fracassou em domesticar a revolta, o Estado iniciou o processo de mobilização intensa das forças de repressão com protagonismo militar, criação de inquéritos policiais para perseguir manifestantes, arrancando pessoas de suas casas para prendê-las e treinamento para policiais atuarem em manifestações em países como Inglaterra e França. Com a repressão, as forças da ordem obtiveram mais êxito em gerir e abafar a revolta.

Fracasso da esquerda, vitória da direita

A esquerda institucional fracassou em aproveitar essas mobilizações para avançar suas pautas mais radicais (considerando que seu objetivo deveria ser esse, mas estava evidente que não era). Nem mesmo suas pautas reformistas avançaram. E até hoje se recusa em reconhecer que 2013 foi produto de uma insatisfação com o modelo de o inclusivo promovido pelos governos petistas e reação ao seu limite que havia chegado com o fim do ciclo das commodities pós crise de 2008. Até ali acreditava-se que era possível integrar a população ao mercado de consumo através de uma economia baseada no extrativismo. E não ousou perturbar as estruturas que sustentam a desigualdade no país.

Continuar a negar a legitimidade dessas manifestações é garantir a permanente criminalização do protesto e das dissidências.

Por outro lado a direita soube tirar proveito da insatisfação popular. E pela primeira vez desde 1964, voltou com força às ruas. Enquanto isso, tudo o que os setores majoritários de esquerda fizeram foi clamar pela legalidade e pela ordem. Inúmeras pessoas e organizações que se dizem de esquerda abriram mão de apoiar lutas sociais contra as opressões para defender as próprias instituições opressivas do Estado burguês.

Daqui pra frente

A volta de Lula ao jogo político é uma forma do sistema restabelecer a fé nas instituições burguesas como a democracia representativa. De certa maneira, está se tentando restabelecer os acordos entre elites econômicas, políticas e militares que fundaram a nova república e foram abaladas pelas manifestações de junho de 2013. Mas agora num arranjo ainda mais à direita e até mesmo com amplos setores da esquerda defendendo o fortalecimento de polícias, tribunais e prisões em nome da defesa do chamado “Estado democrático de direito”.

O novo governo petista precisará de alianças cada vez mais amplas para defender avanços sociais cada vez mais tímidos, ao mesmo tempo em que as condições econômicas e políticas que no passado permitiram sua governabilidade agora tendem a se deteriorar.

A estabilidade que buscam não virá apenas através de bolsas, auxílios ou políticas de inclusão. Veremos cada vez mais o aumento da vigilância e do controle, com dispositivos de segurança que multiplicam o encarceramento em massa e o genocídio dos povos pretos, indígenas e marginalizados, seja na cidade ou no campo.

O retorno de Lula e do PT ao governo pode ser uma conjuntura favorável, mas não vai durar muito. O Estado jamais extinguirá completamente o fascismo, pois depende dele para restabelecer o controle quando perde legitimidade política.

Enquanto os povos não ocuparem e tiverem autonomia sobre seus territórios e suas vidas, a pacificação e a conciliação de classes do lulismo apenas abafarão as revoltas populares, enquanto legitimam e fortalecem as instituições do Estado. E quando a esquerda perder o poder novamente, uma nova tomada fascista voltará a ser uma ameaça.


Mais sobre o tema:

A REVOLTA – essa ingovernável que perturba o sono dos governantes – artigo de 2020.

2013: memórias e resistências,  de Camila Jourdan

NÃO EXISTE OPOSIÇÃO INSTITUCIONAL AO FASCISMO: Análises sobre a escalada da violência da extrema-direita no Brasil

Com Vandalismo! – Documentário de 2014 que vai à “linha de frente” para registrar os confrontos e entrevistar os manifestantes para mostrar as motivações dos atos de desobediência civil.

PORQUE 2013 AGORA? – Novo vídeo por Antimídia ©, .

]]>