FacFic – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org vandalismo, depredação e análise Mon, 19 Jun 2023 22:45:19 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://faccaoficticia.noblogs.org/files/2019/09/cropped-FAC_logo19_ilustra-32x32.png FacFic – Facção Fictícia https://faccaoficticia.noblogs.org 32 32 O Junho (rastejante) em Belo Horizonte https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/06/17/junho-de-2013-em-belo-horizonte/ Sat, 17 Jun 2023 17:25:46 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3218 Continuar a ler "O Junho (rastejante) em Belo Horizonte"

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(esse texto é dedicado a Douglas Henrique e Luiz Felipe, mortos pelo Estado em Junho de 2013)

Contra a criminalização, desinformação e apagamento sobre o acontecimento de 2013, mas também  buscando ir além das efemérides acríticas, esse texto tenta dar um pequeno panorama ciente da sua parcialidade sobre o evento de Junho e seus desdobramentos na cidade de Belo Horizonte.  É importante frisar que Junho tem características muito diversas, cada cidade e região do país vivendo a experiência insurrecional de maneira diferente. Talvez seja uma obviedade, mas a totalidade das análises demonstram quase sempre uma ênfase no Junho paulistano com algumas menções ao Rio de Janeiro. Enquanto em São Paulo a questão do aumento da passagem fez a luta estourar e reverberar por todo país, em BH a revolta foi canalizada para as questões relativas à Copa da FIFA. Esse mote apareceu também em cidades como Fortaleza e Rio de Janeiro. Mesmo dentro de Belo Horizonte há diferenças substanciais entre os chamados “grandes atos” e os protestos que ocorreram nas periferias e nas BR’s, onde autonomamente as pessoas fecharam as vias por um senso de indignação frente às precariedades cotidianas. Ainda há muito a ser descoberto sobre esses protestos invisíveis. Diferente da história senso comum que vem sendo contada, em BH as esquerdas mantiveram-se unidas e não saíram das ruas – com todos os problemas e ganhos – e a cidade não foi tomada pela direita. Esse relato sobre as manifestações na cidade pretende ser um registro feito por aqueles que estiveram imersos nesse processo, tentando fazer jus a  suas contradições.

Quando o Junho de 2013 explodiu em São Paulo com as manifestações do Movimento Passe Livre contra o aumento da passagem, o campo libertário de Belo Horizonte encontrava-se disperso. Nos anos anteriores, várias experiências libertárias subterrâneas foram colocadas em prática, com destaque para a Praia da Estação, um evento convocado anonimamente por autonomistas em 2010 que encontrou grande eco e força em BH, trazendo questões importantes sobre a ocupação da cidade, além de um forma organizativa horizontal e de caráter festivo que acabou atraindo vários setores da esquerda, organizados ou não. Ainda que a sensação verdadeira de que o campo autonomista e anarquista na cidade encontravam-se desarticulados,  grupos como o MAL (Movimento Anarquista Libertário) e o Espaço Ystilingue estavam atuantes. Ainda assim, quando estouram os protestos em SP, fomos todos pegos de surpresa!

A cidade passava também por uma onda de ocupações urbanas como a Ocupação Eliana Silva e Dandara, trazendo questões fundamentais sobre a cidade, a moradia e a vida comunitária. Além disso, em 2011 a formação do COPAC – Comitê dos Atingidos Pela Copa em Belo Horizonte (ligada a organização nacional, a ANCOP – Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa), tinha como objetivo debater, promover e defender os direitos daqueles atingidos diretamente pelos megaeventos da FIFA e também funcionou como um espaço articulador e convergente das diversas esquerdas de Belo Horizonte. 

No dia 15 de Junho de 2013, o COPAC convoca uma manifestação na Savassi, região nobre de Belo Horizonte, durante o primeiro jogo da Copa das Confederações organizada pela FIFA e realizada no Brasil. A manifestação começa com uma Copelada (como era chamada o futebol de rua do Comitê) e depois sai pelas ruas de Belo Horizonte, levando milhares de pessoas até a Fan Fest da Fifa na Praça da Estação – local que foi fechado para receber aqueles que queriam assistir aos jogos em um grande telão. Durante o trajeto, de maneira desorganizada, as pessoas começaram a se encontrar e a se reconhecerem. Houve pequenos embates em relação ao trajeto, formas de condução do protesto. A presença de partidos querendo “conduzir” a manifestação aguda nesse momento. No entanto, a sensação é de que até ali nunca havíamos tido um protesto com tantas pessoas e isso animou a convocação de uma nova manifestação para o próximo jogo que seria realizado no Mineirão.

A maneira dispersa como o movimento autônomo e libertário estava na manifestação, assim como sua  crescente criminalização acontecendo por todo o país, preocupou diversas pessoas ali presentes. A sensação era de que uma maior proximidade e organização favoreceria a radicalidade dentro do ato.  Na TV a opinião pública deslegitimava os protestos, principalmente aqueles que faziam uso da ação direta. Diversos partidos de esquerda também faziam a distinção entre “manifestantes” e “vândalos” ecoada tanto na mídia impressa quanto televisiva. Para pensar e conversar sobre essas questões, no dia 16 de junho houve uma reunião de anarquistas e autonomistas onde decidimos criar um bloco para ir às próximas manifestações. Neste encontro também surgiu a ideia de criarmos uma assembleia que pudesse convocar e reunir organizações e indivíduos para debater expectativas, rumos, convergências e ações possíveis. Ficou decidido que iríamos propor essa assembleia na reunião do COPAC que aconteceria no dia seguinte.

A reunião do COPAC foi realizada no dia 17 de junho em um espaço sindical. Foi constituída basicamente pelos partidos de esquerda (PSOL, PSTU, PCR, Brigadas Populares, etc), alguns sindicatos, professores universitários e outros movimentos. Ali afirmamos a necessidade de não se criminalizar as pessoas que fizessem uso de ação direta nas manifestações,  algo que sabíamos que estava acontecendo em São Paulo e também em Fortaleza, onde manifestantes eram entregues à polícia por pessoas de “esquerda”. A proposta foi entendida e acatada, todos concordaram. Além disso, falamos da ideia de uma assembleia que fosse aberta e horizontal. De início a ideia foi questionada,  para algumas pessoas dali não era desejável um espaço de organização tão aberto e chegaram mesmo a propor marcar a assembleia para ali mesmo no sindicato. Entretanto, acabaram concordando, de maneira um pouco condescendente, com a proposta da assembleia ser uma chamada geral, irrestrita e em um espaço aberto. Assim foi publicado o primeiro chamado da Assembleia Popular Horizontal(APH) a partir dos meios de comunicação do COPAC.

Nessa mesma tarde, por volta das 13 horas, ocorreu o primeiro grande protesto, partindo da Praça Sete, centro da capital mineira, em direção ao Mineirão, na zona norte da cidade. A estimativa da polícia era de 30 mil pessoas presentes no ato, havia muitos anos que não se via um protesto daquele tamanho na cidade. Ali mesmo foi feita uma votação e por maioria esmagadora a decisão foi a de ir até o estádio do Mineirão, onde aconteceria o jogo Taiti x Nigéria pela Copa das Confederações. Estavam lá diversas organizações e coletivos. Uma imensa maioria de manifestantes  carregavam cartazes criticando a Copa e divulgando diversas lutas, desde as relacionadas ao transporte público, passando pela educação, moradia e saúde. No trajeto de cerca de 11 km da Praça 7 ao Mineirão, a PM tentou inicialmente barrar o ato  na metade do caminho, em um local ainda distante do perímetro “estabelecido” pela FIFA como espaço de segurança, prevista na Lei Geral da Copa nº 12.663, de 5 de Junho de  2012. Esta legislação proibia não só o comércio informal e popular ao redor dos Estádios, mas também o livre acesso da população para atender as demandas de uma organização capitalista internacional. Esse espaço de exceção foi continuamente questionado e atacado pelos manifestantes por todo Junho de 2013 em BH.

Quando a manifestação encontrou a primeira barreira realizada pela PM na Avenida Antônio Carlos, depois de algumas tentativas de negociação e tensionamento, a Polícia liberou a marcha até o acesso da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), onde uma nova barreira com centenas de policiais já estava montada. Sem nenhum aviso, os policiais começaram a disparar bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e balas de borracha contra os manifestantes. Um helicóptero voando bem baixo também atirou bombas nas pessoas ali presentes. Ainda assim a disposição das pessoas para o enfrentamento permaneceu, enormes fogueiras e barricadas foram montadas e a polícia foi obrigada a recuar. O ímpeto das pessoas de avançar até o Mineirão era tamanho que os confrontos se estenderam até a noite. A PM feriu diversas pessoas e deteve várias outras. No caminho de volta dos manifestantes para o centro da cidade bancos e lojas foram destruídos.

Até então a cidade nunca havia visto um protesto desse tipo e nós libertários também não! Para além de todos os clichês envolvidos e todas as idealizações sobre a revolta, era evidente que algo estava acontecendo. Nunca havíamos presenciado uma disposição tão forte ao enfrentamento com a PM e a “fazer o certo”,como nos ensinou tão bem Alisson de apenas 15 anos em São Paulo.

 

No dia 18 de junho, debaixo do Viaduto Santa Tereza, um local importante para a cultura em BH, onde eram realizados o evento libertário Domingo Nove e Meia e o Duelo de MCs, aconteceu a primeira Assembleia Popular Horizontal. O espaço estava lotado, mais de mil pessoas, um método e uma forma  de conduzir esse encontro foram buscados de forma muito intuitiva. O microfone era aberto e as pessoas falavam livremente sobre a situação política de BH, sobre o protesto do dia passado, sobre os protestos que aconteciam em todo país, sobre os desmandos da FIFA, questões relacionadas à cidade, ao transporte, saúde e educação. Segundo a relatoria feita, mais de 100 falaram essa noite e a impressão era de que havia uma convergência entre as organizações, partidos, coletivos e indivíduos sob essa forma horizontalizada e autônoma. Como bem explica a wiki da APH (que funcionava como um modo gestão compartilhada, aberta e transparente), esse primeiro encontro marca “o início de um trabalho coletivo-colaborativo, horizontal e suprapartidário que busca sistematizar as pautas do movimento e divulgá-las de maneira clara, bem como propor e realizar atos organizados na cidade visando uma resposta efetiva para as demandas levantadas“. Havia nessa primeira sessão um desejo de participar, de falar livremente e ser ouvido, ao mesmo tempo que uma recusa das formas engessadas da política partidária, onde as lideranças falam e logo após a burocracia da votação impera. As falas eram tão abertas e surpreendentes que um dos participantes alegando ser um “embaixador intergaláctico” propôs em assembleia a “telepatia universal” (algo que foi prontamente acatado por todos). Toda essa estranha conjunção de perspectivas, organizações, ideologias fizeram com que saíssemos de lá animados e com encaminhamentos concretos, como uma agenda de ações, apontamentos temáticos sobre as questões políticas da cidade e também no cenário nacional, definições sobre os meios de comunicação da APH, a construção de um grupo de saúde e jurídico para apoio imediato aos próximos protestos. 

Pela TV e internet acompanhávamos e recebíamos relatos sobre os protestos de outras cidades, víamos as manifestações crescendo exponencialmente assim como a repressão violenta e a criminalização feita pelo Estado, inclusive referendado pela mídia. Em Belo Horizonte vários protestos eram chamados pelas redes sociais de maneira difusa, ninguém poderia saber muito bem quem convocava e nem de que maneira seria, mas mesmo assim muitos de nós íamos para ver e participar. 

Ainda no dia 18 de Junho havia sido chamado um novo ato em BH sem que se saiba quem o convocou. O fato do ato não ser chamado pelo COPAC e pela APH, fez com que diversos setores da esquerda estivessem desconfiados, mas a proximidade entre o Viaduto Santa Tereza e a Praça 7 fez com que diversas pessoas saindo da Assembleia se juntassem à manifestação. Faixas anti-corrupção eram vistas, as pessoas cantavam o hino nacional e uma parte da esquerda decidiu ir embora. Mais tarde um grupo apedrejou a Prefeitura. Outro grupo criou pequenas barricadas de lixo e fogo na Avenida Afonso Pena, algumas pessoas tentaram quebrar um ônibus e bater no motorista. Anarquistas próximos discutiram com esse pequeno grupo dizendo que os verdadeiros inimigos eram os bancos. As pessoas ficaram muito animadas com a proposição e foram em direção a um dos bancos e o quebraram. Caminharam mais um quarteirão e na Praça 7 quebraram e pilharam todos os bancos próximos. A polícia, de bem longe, apenas observou e nada fez, reforçando ainda mais a estranheza do dia. Alguns disseram precipitadamente que era uma ação orquestrada pela direita, outros acreditam que o Governador Antonio Anastasia deu ordens expressas para que a PM não agisse e permitisse tais ações com o intuito de conseguir vantagens políticas. Importante lembrar também que o Tribunal de Justiça movido pelo Estado de Minas Gerais havia proibido o Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação de realizar protestos durante a Copa, o Sind-UTE recorre e o Supremo Tribunal Federal acaba derrubando a decisão. O fato é que a longa hora sem que a polícia fosse vista durante o quebra-quebra levava a crer que a intenção dessa ausência era criar fatos enquanto alimentava a opinião pública contra as manifestações… o que de nenhuma maneira reduziu a alegria genuína de diversos jovens quebrando o banco da Praça Sete.

Soubemos depois que o Relógio da Copa na Praça da Liberdade também havia sido quebrado – o Relógio se tornou um símbolo central nos protestos de 7 de setembro do mesmo ano e na manifestação da abertura da Copa da FIFA em 2014.

No dia 20 de junho ocorreu outro ato que ninguém sabia de verdade quem havia convocado, mas na primeira sessão da APH havíamos tirado esse dia como um ato importante nacionalmente. De fato, nesse dia aconteceram manifestações em mais de 300 cidades, sendo que no Rio de Janeiro uma multidão estimada em 1,2 milhão de pessoas saiu às ruas. O ato novamente foi estranho e errático. Ainda que uma minoria das pessoas continuavam cantando o hino nacional, com discursos anti-corrupção, cartazes contra PEC 37 e camisas da Seleção. Andávamos sem objetivos claro, fomos em direção a Praça da Liberdade, passamos pela Área Hospitalar em completo silêncio e caminhamos até a Câmara Municipal, sendo que ela estava fechada (o atual Presidente da Câmara Gabriel Azevedo, na época um ilustre desconhecido da juventude do PSDB foi vaiado de forma unânime nesse dia). Esse protesto foi visto pela mídia como exemplar, sem violência e cívico… um protesto zumbi como passamos a chamar! A leitura desse ato demonstrou que, de fato, as ruas estavam em disputa.

Houveram diversos atos de tamanhos variados durante as últimas duas semanas de junho, em Belo Horizonte e região metropolitana, quase todos feitos de maneira auto-convocada e espontânea, inclusive com barricadas fechando BR’s e quase sempre exigindo passarelas, transporte de qualidade e barato, moradia digna. Essa é inclusive uma história importante de ser melhor lembrada e estudada.

No dia 22 de junho ocorreu mais um protesto, o maior até então. As estimativas foram de cerca de 150 mil manifestantes. O ato partiu mais uma vez da Praça Sete e caminhou pela Avenida Antônio Carlos, em direção ao Mineirão. Lá ocorria o jogo da Copa das Confederações da FIFA entre Japão e México. Após a passagem pela UFMG, manifestantes entraram na avenida Antônio Abrahão Caram, onde a PM havia construído uma barreira impedindo o acesso direto ao Mineirão. Ao tentarem ultrapassar a PM iniciou o confronto. Novamente, manifestantes procuraram ingressar na “Zona de Segurança” da FIFA e a polícia reagiu com a já conhecida truculência, lançando bombas de gás, de efeito moral e balas de borracha. Em resposta os manifestantes criaram barricadas, atearam fogo e depredaram concessionárias de carros importados próximas. Haviam dois helicópteros atacando a manifestação. A Força Nacional de Segurança Pública, requisitada pelo governador Antonio Anastasia à Presidenta Dilma, estava a postos no interior do Campus da UFMG, de dentro da mata atiravam contra os manifestantes na avenida. Diferentemente do primeiro protesto onde havíamos sido pegos despreparados, dessa vez as pessoas revidaram não apenas com pedras mas com rojões,  bombas caseiras e coquetéis molotov. Um certo ritmo conjunto começou a ser aprendido pelos que ali estavam, atacar e recuar juntos. O “efeito manada” começou a diminuir e uma grande parte dos manifestantes passaram a aprender a lidar melhor com os estouros, explosões e tiros. Passamos a pensar e agir em conjunto em uma luta que ensinava a lutar e desejar mais. Tomávamos mais coragem pois não estávamos mais sozinhos.

Anoitece e as pessoas ainda enfrentam a polícia usando o que tem nas mãos, se defendendo com placas de trânsito (uma delas era enorme e dizia “Obra da Prefeitura de Belo Horizonte”). A cavalaria avança sobre a manifestação e os vários manifestantes, mascarados ou não, conseguem fazer  as tropas recuarem. A manifestação então dispersa sob uma densa nuvem de gás que toma toda a Avenida. Quando a multidão voltava para casa, muitos indo em direção ao Centro da cidade, andando por uma Avenida Antônio Carlos deserta, manifestantes colocam fogo em uma réplica do símbolo da Copa da FIFA e de um outdoor gigantesco da Coca-Cola,  a patrocinadora oficial do evento que dizia ironicamente: “Vamos colorir o Brasil”. 

Nesse protesto 32 pessoas foram presas e pelos dados oficiais cerca de 20 foram para hospitais próximos, há vários relatos de médicos que tentaram ajudar as diversas vítimas da violência da PM e foram ameaçados sob a mira de armas.

 Ficamos estarrecidos ao saber que Luiz Felipe Aniceto de Almeida, de apenas 22 anos, caiu do Viaduto José Alencar ao correr das bombas, justamente no entroncamento das avenidas Antônio Abrahão Caram com a avenida Antônio Carlos. No desespero ele tenta pular de uma pista a outra e acaba caindo. Depois de muitas dificuldades para leva-lo ao Hospital, com a PM inclusive prejudicando os trabalhos de resgate, Luiz fica internado por três semanas mas não resiste e morre em decorrência da violência do Estado. Seis outras pessoas caem no mesmo local durante todos os protestos no mês de junho.

Em 23 de junho, ocorreu pela tarde, debaixo do Viaduto Santa Tereza, a segunda sessão da Assembleia Popular Horizontal de Belo Horizonte. Novamente o espaço estava lotado, cerca de 110 pessoas falaram ao microfone, muitas sugestões de pautas e de como as lutas deveriam acontecer. As principais pautas consensuadas foram as formas de comunicação “oficiais” da APH, as próximas manifestações em que estaríamos presentes, e quando seria a próxima sessão da Assembleia. Além disso, identificamos reivindicações consensuais relacionadas ao transporte e mobilidade urbana, como a revogação do aumento das passagens em Belo Horizonte ocorridas em dezembro de 2013 e a demanda de tarifa zero irrestrita; a FIFA e Megaeventos, como a revogação da Lei Geral e a prioridade orçamentária dada a Copa frente a questões básicas como educação, moradia e saúde; em relação à repressão e violência policial, a favor da retirada imediata da Força de Segurança Nacional da cidade e pedindo também a desmilitarização da polícia; e também um consenso sobre a saída de Marco Feliciano da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Como grande avanço dessa sessão, foram criados 12 grupos temáticos de trabalho (GTs) para encaminhar as discussões e propostas. Assim, esses GTs se reuniriam de maneira autônoma e retornariam à APH de maneira mais qualificada e organizada. Foram eles: Mobilidade Urbana, FIFA e Grandes Eventos, Saúde, Educação, Reforma Urbana & Moradia, Polícia, Reforma Política, Minorias Políticas, Democratização da Mídia, Meio Ambiente, Cultura e Permacultura. Também começaram a ser delineados vários princípios da APH como horizontalidade, não sectarismo, não estigmatização, autonomia dos grupos de trabalho, o caráter experimental, a busca de consenso, proatividade, transparência, a busca pela eficiência, o funcionamento em rede.   

No dia 25 de junho, diante da repercussão dos protestos, o governador Antonio Anastasia convida o COPAC para se reunir no Palácio do Governador. O convite surpreende, já que em todos os seus anos de governo ele nunca havia chamado nenhum movimento social para se reunir. A pauta era aberta e sua intenção pública era discutir demandas e segurança das próximas manifestações. Visto geralmente como um burocrata de perfil técnico, Antônio Anastasia era um político do PSDB e não era um idiota, nesse momento já sabia dos prejuízos que um governo performaticamente intransigente era capaz de gerar – o retrato de São Paulo com a queda de popularidade de Haddad e Alckmin era exemplar. Seu convite era motivado principalmente  por sua preocupação frente a manifestações já convocadas para o dia seguinte. A reunião não foi encarada pelo COPAC nem como boa e nem como ruim, apenas protocolar, mas dentre um dos compromissos firmados pelo Anastasia foi o de receber novamente o movimento para discutir as pautas reivindicadas, que ainda seriam definidas nas próximas sessões da Assembleia Popular Horizontal. O COPAC ainda entregou uma pauta com dez itens envolvendo principalmente questões ligadas aos atingidos pela Copa, como os barraqueiros do Mineirão e as ocupações, a questão do transporte público e também sobre a violência policial. Um dos acordos que o governador conseguiu extrair do COPAC foi o respeito ao limite de segurança perto do Mineirão, a “Zona de Exclusão FIFA”. Em “troca” seria demarcada uma barreira sem a presença ostensiva de policiais que ficariam distantes. A Polícia Militar de Minas Gerais então só reagiria, segundo o acordo, se os manifestantes agredissem a polícia! Um representante do COPAC e um policial militar se responsabilizariam por manter o diálogo e as negociações durante o protesto. Obviamente, isso não soou nada bem perante os diversos movimentos e mais do que isso, não havia como controlar uma revolta popular desse tipo.

Nesse mesmo dia houve a terceira sessão da Assembleia Popular Horizontal de Belo Horizonte cujo mote era o primeiro encontro dos Grupos Temáticos. Sendo assim, foi possível as pessoas se encontrarem e aderir a um GT que lhe fosse de maior interesse e também decidir em conjunto como se daria os trabalhos do grupo. Outra importante ação aconteceu também no dia 25. Os estudantes da UFMG ocuparam a reitoria da universidade, fazendo a Força Nacional desistir de ocupar o campus durante os outros jogos da Copa das Confederações. Essa ação conseguiu retirar uma garantia conjunta do Governo Federal e do Governo do Estado de que as tropas da Força Nacional não iriam utilizar  a UFMG novamente como base de operações e segurança, consequentemente como um espaço estratégico de repressão das manifestações como havia acontecido na última ida ao Mineirão.

No dia seguinte, 26 de junho, mais uma manifestação gigante, envolvendo cerca de 200 mil pessoas que partiram da Praça Sete em direção ao Mineirão. Ao longo do trajeto, pessoas de bairros periféricos que geralmente não estavam presentes no início dos atos começaram a “descer” e a acompanhar o protesto. Uma parte da marcha seguiu o acordo entre a COPAC e o governo estadual, passando direto pela Avenida Abrahão Caram. Alguns membros do COPAC chegaram mesmo a fazer uma barreira humana para indicar que as pessoas seguissem. Ainda assim, diversas pessoas se recusaram e passaram a subir a avenida tentando derrubar as grades que impediam o protesto de chegar ao Mineirão. A PM ainda que mais afastada atirou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha, uma repetição que virou comum e esperada por todo esse mês de junho. Assim  como no protesto anterior, a disposição ao enfrentamento aumentou ainda mais, contando agora com as pessoas mais preparadas e animadas a resistir. Isso não era pouca coisa! 

No viaduto foi pendurada uma enorme faixa amarela escrita “Unfair Players: FIFA – POLICE – ANASTASIA”, enquanto os focos de resistência e ataque contra a polícia e a Zona da FIFA se espalharam pelas ruas do entorno. Todas as lojas de carros e bancos próximos que ainda não haviam sido depredadas foram totalmente destruídas. Um caminhão foi colocado para fora de uma concessionária e incendiado por manifestantes, formando mais uma barricada. Uma moto é roubada, outra é jogada em uma fogueira, alguns levam televisores, outros jogam nas barricadas. Não há respeito nenhum pelas mercadorias, elas têm seus valores de troca suspensas e agora só servem para serem destruídas ou para criarem barricadas melhores. Dava a impressão de que houvesse dinheiro ali, as pessoas queimariam sem nenhum problema! Por mais que houvesse blocos organizados, a imensa maioria dos ali presentes eram “pessoas comuns”, não estavam de preto, não tinham balaclavas, muitas vezes nem cobriam o rosto. É impressionante quando as pessoas destroem com tanto empenho e felicidade as mercadorias que provavelmente teriam muitas dificuldades para comprar. 

Essa negação em ato das mercadorias e potência destrutiva chegou ao ápice quando no posto de gasolina da Antônio Carlos alguns manifestantes começaram a jogar gasolina no chão. Uma discussão se forma e pessoas do bloco preto próximas intervêm, impedindo que se ateasse fogo no posto. Não demora muito para as pessoas começarem a roubar a cerveja da loja de conveniência, bebendo, distribuindo, compartilhando e também quebrando as garrafas como em um grande ritual de dispêndio e dádiva. De fato, até então Belo Horizonte nunca sequer havia visto um protesto com tamanha radicalidade!

Os confrontos com a PM seguem até a noite. Durante a volta de grande parte dos manifestantes pela Avenida Antônio Carlos, eles são caçados pela PM enquanto um major do alto de um carro de som anuncia sistematicamente pela cidade: “Pedimos agora, voltem para suas casas. Pedimos a vocês, pessoas de bem, não se misturem aos bandalheiros. Voltem para suas casas. Retornem à sua casa. Estamos devolvendo a cidade para vocês”.

Cerca de 28 pessoas foram detidas naquele dia e, ainda durante a tarde, uma nova tragédia aconteceu: Douglas Henrique de Oliveira, de apenas 21 anos, um metalúrgico que acompanhava os protestos caiu do viaduto durante a tentativa de dispersão feita pela PM.  Ele foi socorrido por bombeiros e transportado de helicóptero para o hospital mas não resistiu. BH tem mais um morto cujo motivo é a violência policial a mando do Estado para defender a FIFA. 

No dia 27 de junho ocorre a quarta sessão da APH, onde frente às enormes dificuldades de conduzir um espaço que se pretenda horizontal, autônomo, autogerido e popular, as questões organizativas e metodológicas da assembleia apareceram de maneira contundente, na tentativa de evitar burocracias e principalmente o monopólio da estrutura pelas organizações de esquerda (anarquistas e autonomistas assumiram também essa autocrítica). A tendência nessas dinâmicas é não apenas que as mesmas pessoas falem, mas também que as mesmas figuras sejam “mesa”, ou seja, apresentem, conduzam, façam a mediação, controlem as inscrições, tempo, etc. O que pode parecer estranho para a maioria das pessoas, mas isso costuma ser visto como uma posição de destaque, permitindo uma maior visibilidade do sujeito e da sua organização, e também acaba por favorecer “coleguismos”, como o risco da não transparência para as inscrições, controle de tempo de fala, dentre outras coisas. Foi decidido então que para evitar os personalismos e os mesmos vícios, que quem quisesse participar destas tarefas deveriam levantar a mão e se tivessem mais de 5 pessoas, iria ser sorteada entre os interessados as seguintes tarefas: responsabilidade pela coordenação da assembleia, responsabilidade pela ata, responsabilidade pelo tempo e responsabilidade pelas inscrições. Decidiu-se também que essas funções deveriam ser sempre rotativas e quem estivesse nessas responsabilidades não teriam direito à fala na assembleia, para evitar qualquer tipo de manipulação. 

Na primeira tentativa de aplicação do método do sorteio, a pessoa sorteada para conduzir a assembleia foi um Guarda Municipal e membro do sindicato que vinha acompanhando e participando desde a primeira APH. Pane geral em nossos métodos experimentais! A assembleia começa e o guardinha conduz de maneira personalista, fazendo diversas falas arrogantes e machistas. Em pouco tempo uma mulher faz uma intervenção e propõe votar para “destituí-lo”, o que é aclamado por unanimidade da assembleia… nunca mais o guardinha apareceria. Esse é de fato um caso exemplar de que nosso caráter experimental nem sempre era a melhor das opções, mais que isso, por mais que efetivamente levasse a situações novas e imprevisíveis de se organizar, muitas das nossas ideias também eram capazes de gerar mais problemas que soluções. Por outro lado as metodologias aplicadas, e quase diariamente discutidas, eram testadas e modificadas conforme a luta avançava, permitiam que a assembleia tivesse uma dinâmica rica, veloz e múltipla de como se organizar e agir. 

As outras discussões dessa sessão da APH giraram em torno da análise do ato passado, como a urgência para libertar os companheiros presos, a morte do Douglas Henrique (inclusive com a proposta de mudar o nome do viaduto José de Alencar para Douglas Henrique). Também debatemos sobre a postura dos movimentos sociais que abandonaram a manifestação no meio, a necessidade de não dicotomizar o movimento entre vândalos e pacíficos, o combate a repressão policial do governador Anastasia, termos mais organização para cuidarmos melhor uns dos outros e por fim, continuar centrando as críticas ao governador do Estado Anastasia, ao prefeito Márcio Lacerda, ao presidente da Câmara Léo Burguês e ao Clésio Andrade (controlador da máfia dos transportes). Foi feito os repasses dos GTs e da reunião com o governador. Além disso, houve também a definição de uma nova ação centrada na questão do transporte e mobilidade urbana que foi marcado para a Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte.

Ainda que na cidade de São Paulo (estopim para as insurgências em todo Brasil) a principal causa das manifestações fosse o aumento da passagem de ônibus, em Belo Horizonte a ênfase inicialmente recaiu sobre os desmandos da Copa. Mesmo assim, a pauta sobre as tarifas também esteve muito presente nos cartazes e reivindicações nas ruas da cidade. O transporte público em BH era na época proporcionalmente o mais caro de todas as capitais do Brasil, extremamente sucateado, com aumentos anuais, precário e com estudantes tendo enormes dificuldades de acessar até mesmo o direito ao meio-passe. A cidade e a estrutura de transporte vinha sendo brutalmente reformada para criação de linhas de BRT e havia uma grande influência dos empresários do transporte nas decisões políticas municipais (enfim, uma máfia). Uma dessas decisões estava para ser definida em votação na Câmara Municipal para o dia 29 de junho e por isso a APH havia decidido acompanhar a votação deste projeto: a redução da tarifa de ônibus na Câmara a partir da redução de impostos municipais aos empresários.

No dia, um sábado,  o número de pessoas que resolveram ir à Câmara acompanhar as votações pela manhã era alto. A Câmara deu a desculpa que as galerias do plenário não poderiam suportar o número de presentes. Dessa forma, arbitrariamente os guardas municipais limitaram a entrada de apenas 300 pessoas. Os vereadores aprovaram em segundo turno o projeto, proposto pelo prefeito Márcio Lacerda, mas cuja redução seria de apenas 5 centavos no valor das tarifas de ônibus (com isso, a passagem de ônibus passaria de R$ 2,80 para R$ 2,75). Essa votação causou revolta em todos, pois além de tudo, a redução não valeria imediatamente, como ocorreu em outras capitais como São Paulo. A explicação dada segundo a prefeitura é que não haveria tempo hábil para publicação de uma portaria e que logo após esse dia seria decretado férias. A votação foi espertamente marcada como a última antes do recesso!

As pessoas ali presentes, impedidas de entrar na sessão pela truculência dos seguranças, da Guarda Municipal e Batalhão de Choque respondem aos empurrões e truculência com tintas. É a partir daí que resolvemos ocupar a Câmara até que o Prefeito Márcio Lacerda nos recebesse e abaixasse a tarifa. Estávamos revoltados com a redução pífia através da desoneração fiscal das empresas de ônibus que garantia o lucro exorbitante das máfias de transporte.

A Assembleia Popular Horizontal decretou a ocupação e rapidamente os diversos grupos, coletivos, partidos, organizações e indivíduos foram para a Câmara, trazendo barracas, colchões e montando uma cozinha comunitária. Logo o espaço ficou pequeno e passamos também a ocupar o jardim. Nos grandes mastros externos, 3 bandeiras foram hasteadas: “Ônibus Sem Catracas”, “Fora Lacerda” e dos Panteras Negras “Todo poder ao povo!”. Um piano apareceu no gramado. Os Grupos de Trabalho da ocupação começaram a organizar a comunicação, limpeza, rondas de segurança, comida, atividades culturais, grupos de discussão sobre o transporte, desmilitarização, políticas públicas, Arte, aulas abertas, saraus, shows, festas, reuniões de todo o tipo. Uma vida em comum passa a ser criada, de maneira autogestionada e aberta. Não houve um dia sequer sem que houvesse uma programação extensa e variada.

Mesmo aqueles que trabalhavam e não podiam ficar na ocupação em tempo integral dedicavam algumas horas pela manhã ou à noite, pessoas de fora dos círculos militantes e artísticos iam conhecer a ocupação, senhorinhas vinham pela manhã deixar uma sacola de pão… havia muita fartura e apoio! Uma infinidade de discussões, tendências, discordância e encontros de variadas pessoas perpassaram os longos, difíceis e prazerosos dias que estivemos lá.  Os primeiros dias foram muito desafiantes, ainda que tranquilos. Entre os principais problemas estava a mídia corporativa burguesa tentando constantemente jogar a opinião pública contra o movimento, inclusive exercendo vigilância constante pelas lentes das diversas emissoras que passavam por lá todos os dias. Havia também a sabotagem da própria Câmara deixando ligado o ar-condicionado no máximo pela noite, dificultando nosso sono e cortando também a internet (que é pública). Claro que os Guardas Municipais e seguranças tratavam os “novos e nobres moradores da Casa do Povo” de maneira extremamente hostil, mas nosso principal infortúnio era o fato de que o prefeito Márcio Lacerda fingia que absolutamente NADA estivesse acontecendo.

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Márcio Lacerda, era um prefeito-empresário do PSB que nunca havia tido nenhum cargo público, mas  foi eleito com apoio de importantes nomes do PT e PSDB local: Aécio Neves e Fernando Pimentel lado a lado e literalmente de mãos dadas. Lacerda já havia sido duramente criticado por sua posição frente a Praia da Estação, o modo como lidou com o carnaval e principalmente por sua completa ignorância frente aos movimentos sociais. O prefeito que nunca havia em seu mandato-gestão feito reunião ou recebido nenhum movimento social, logo apressou-se a dizer na imprensa que “não negociaria com a faca no pescoço”. A empolgação vinda das manifestações de junho, a forma organizativa horizontal e aberta da APH, o clima cultural, apoio popular e, por que não, o início das férias mantiveram o ânimo dos ocupantes elevados.

No dia 1° de junho, em uma tentativa frustrada de desocupar a Câmara, o prefeito anunciou na imprensa que haveria uma reunião entre ele e os ocupantes. O problema é que a tal reunião foi “descoberta” pouco antes da realização de uma assembleia na ocupação, de onde sairiam os nomes dos possíveis delegados que levariam às reivindicações ao prefeito. Mais uma vez, Lacerda desconsiderou toda a tentativa de construção de uma agenda comum e anunciou à imprensa a tal reunião marcada de uma hora para a outra sem combinar nada com quem de fato deveria dialogar. Realizamos então na assembleia da APH uma votação aberta e horizontal para a escolha dos delegados que iriam encontrar o prefeito repassando as propostas tiradas na APH. Essa reunião para a escolha dos delegados foi cheia, animada e controversa: diversos partidos e organizações que nunca haviam composto a APH e nem estavam no dia a dia da ocupação apareceram. Foram rechaçados e a assembleia elegeu 13 delegados e delegadas de maneira paritária.

Nossas  principais propostas eram: a revogação do decreto que aumentou o preço da tarifa em dezembro de 2012 (fazendo o preço da passagem retornar para R$ 2,65); passe livre para estudantes, desempregados e aposentados; revisão dos atuais contratos com as empresas que prestam serviço de transporte municipal e a publicação da planilha de custo das empresas de transporte.

No dia 2 de junho publicamos uma carta aberta ao prefeito onde exigíamos uma reunião com a prefeitura que não fosse decidida de maneira unilateral, além da redução imediata da passagem para desocuparmos a Câmara. Do outro lado, o Secretário Municipal da época, Josué Valadão, afirmava que desocupar a Câmara era a condição para que houvesse uma audiência com o prefeito. Claro que isso também foi rechaçado pelo movimento.

Na manhã do dia 3 de junho finalmente recebemos a notícia de que nos reuniríamos com o prefeito-empresário. A reunião realizada dentro da prefeitura e cercada pela imprensa, foi transmitida ao vivo para dentro da Câmara, em consonância com um princípio essencial da APH: a transparência. A habitual falta de educação e paciência do prefeito Márcio Lacerda ficou evidente e na reunião ele emitiu uma pérola sobre seu modo de fazer política: “Eu respeito sua opinião mas ela é irrelevante”. O que esperar afinal, de alguém que em 5 anos de mandato ele NUNCA havia recebido nenhum movimento social, limitando-se a governar a prefeitura como CEO de uma empresa?

Nem bem apresentadas nossas reivindicações, o prefeito fica nervoso e resolve terminar a reunião ao ser confrontado, levanta-se e sai. Os delegados da APH não hesitam e dizem: “Ótimo, já que estamos aqui dentro ocuparemos também a prefeitura!”. Os delegados também fazem troça do passado do prefeito (que de militante da ALN de Marighella, envolvido em um grande assalto e preso político na ditadura, agora era um milionário e gestor), assobiam a Internacional Comunista. O prefeito é aconselhado a voltar e evitando acirrar mais os ânimos, termina formalmente a reunião, assinando a ata para não desgastar sua imagem ainda mais. No final, cumprimentando os participantes da reunião, um dos delegados se recusa a cumprimenta-lo e o prefeito-empresário diz sarcasticamente: “É o seu direito, estamos em uma democracia!”. Grandes ironias!

No dia 5 de julho pressionado pela ocupação e seu grande apoio popular,  enquanto ocorria uma pequena manifestação que foi da Praça 7 até a porta da Prefeitura Municipal em apoio ao movimento, o Prefeito Márcio Lacerda anuncia a redução da tarifa de ônibus. Essa redução vinha através da desoneração de impostos da máfia do transporte, ou seja, sem o corte no lucro dos empresários. Contudo, uma grande festa e alegria tomou a todos e todas que estavam nessa luta, era possível por meio de uma ação direta mudar as coisas. 

No dia 6 de julho fica decidido em assembleia que iríamos sair e no dia 7 de julho, depois de 8 dias de resistência, intensas trocas e aprendizados, desocupamos a Câmara. Não sem antes festejarmos, nadamos ainda em uma piscininha e plástico instalada na portaria principal do prédio, comemos e dançamos. As bandeiras foram retiradas dos mastros oficiais ao som de aplausos e fomos em cortejo até “A Ocupação”. Um enorme evento cultural organizado pelo GT Cultura debaixo do Viaduto Santa Tereza, justamente onde a Assembleia Popular Horizontal começou e continuaria até meados de 2015 (ainda que sem a potência inicial).

No dia 10 de julho, entrou em vigor a redução nas tarifas, que passaram de R$ 2,80 para R$ 2,65 nos ônibus diametrais e de R$ 2 para R$ 1,85 nos ônibus circulares. Lacerda demonstrou que os poderosos e seus agentes só negociam com a faca no pescoço.

Essa pequena luta nós vencemos!

10 anos depois podemos ver os desdobramentos que o Junho rastejante de Belo Horizonte incentivou e potencializou, com diversas ações importantes na cidade, como o próprio prolongamento da Assembleia Popular Horizontal, a Ocupação da Prefeitura realizada pelas ocupações urbanas ainda em julho do mesmo ano, uma nova ocupação da Câmara em agosto de 2013, o apoio a resistência da Ocupação Izidora, o Encontro Libertário Terra Preta na Ocupação Guarani Kaiowá em setembro de 2013, o Viaduto Ocupado (ocupação no início de 2014 do Viaduto Santa Tereza que havia sido fechado para uma reforma sem ampla discussão com a cidade), a criação de um importante movimento como o Tarifa Zero (que inicialmente era o GT de Mobilidade da APH), os protestos contra a Copa da FIFA,  as ocupações Espaço Comum Luiz Estrela e Kasa Invisível, além de diversos outros desdobramentos e encontros que ainda precisamos descobrir.

 

O Junho (rastejante) em Belo Horizonte ©, .

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“O governo quer roubar anos de nossas vidas”: notícias e aprendizados da mobilização popular contra a reforma da aposentadoria que incendeia a França https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/04/08/greve-na-franca/ Sat, 08 Apr 2023 21:51:31 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3167 Continuar a ler "“O governo quer roubar anos de nossas vidas”: notícias e aprendizados da mobilização popular contra a reforma da aposentadoria que incendeia a França"

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Diante da intensificação da mobilização popular, o Estado francês assume a repressão como única resposta. Após um pequeno texto de contextualização, que resume a situação atual, reproduzimos abaixo alguns depoimentos de grevistas de diferentes setores, na ocasião de uma ação conjunta contra as “requisições” de trabalhadores, na central de incineração de lixo TIRU Ivry.

Bloqueio na refinaria de petróleo de Donges (Loire-Atlantique)

A mobilização popular na França contra a reforma da aposentadoria, que começou no último mês de janeiro, se intensificou fortemente nas duas últimas semanas, desde que o governo fez uso de um artigo controverso da constituição (o chamado “artigo 49.3”) para aprovar a lei sem passar pelo voto do Congresso. O uso deste artigo pelo Macron pela décima segunda vez desde que ele foi reeleito ano passado, no dia 16 de março, pode ser visto como mais uma medida autoritária de um governo enfraquecido. Um governo e um presidente que, desde o movimento das/dos coletes amarelos, atraiu uma ira popular ao assumir cinicamente o apelido de “presidente dos ricos” que a rua lhe atribuiu desde 2018. 

As desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres na sociedade francesa se aprofundaram drasticamente nos últimos anos. A taxa de precariedade do trabalho e de pobreza aumentou constantemente nas últimas décadas. Segundo estudos recentes, enquanto o número de bilionários triplicou desde 2010, milhares de franceses possuem menos de 5 euros por dia para viver. Por outro lado, o aumento do custo de vida atinge atualmente recordes. Enquanto isso, o “presidente dos ricos” suprimiu em 2018 o imposto de taxação das grandes fortunas, que existia desde os anos 1980. 

A atual reforma da previdência representa mais um passo rumo ao modelo social ultra-competitivo neoliberal defendido pelos macronistas. Uma reforma que exige do conjunto da população que ela trabalhe por mais dois anos de suas vidas (mudando a idade da aposentadoria de 62 para 64 anos), supostamente para compensar o déficit dos cofres públicos, sem considerar as desigualdades de condições entre as diferentes profissões e as desigualdades de gênero perante o trabalho (a aposentadoria feminina é historicamente inferior). Sem exigir uma contribuição maior dos mais ricos ou das grandes empresas. Sem considerar que pobres e ricos não são iguais perante a aposentadoria, enquanto os primeiros dependem absolutamente da previdência pública, os segundos possuem poupança, investem em patrimônio imobiliário ou fundos de pensão privados.

Segundo declarações do sindicato francês CGT, baseadas no instituto público de estatística INSEE, 25% dos trabalhadores mais pobres na França morrem antes de atingir a idade atual da aposentadoria (62 anos), contra apenas 6% dos mais ricos. Como dizem os manifestantes: “são anos das nossas vidas que o governo quer nos roubar”, enquanto uma ampla maioria da população continua se declarando a favor da mobilização e de sua intensificação. 

Na sequência do “49.3”, dia 16 de março, as ruas do país inteiro foram tomadas por multidões, com manifestações e revoltas populares quase que diariamente desde então. 

A dinâmica de greve também se intensificou, especialmente em alguns setores estratégicos, entre os quais os setores de produção de energia (refinarias de petróleo e centrais nucleares), a coleta de lixo ou ainda os principais portos do país. A força das greves também se explica por uma união pouco comum entre os diferentes sindicatos: a CGT, sendo o sindicato majoritário (com bases dispostas a travar o conflito social, apesar de líderes reformistas), os independentes (tais como o Sud-Solidaires) e os mais reformistas (CFDT, CFT, dentre outros que raramente se engajam por tanto tempo em greves reconduzíveis). 

Esta aliança e determinação dos sindicatos se explica pela postura do governo desde o início do movimento, que se recusou drasticamente a abrir uma mesa de negociação. Nos piquetes de greves, manifestações e ações, esses diferentes sindicatos têm se juntado a outros grupos: trabalhadores e trabalhadoras precarizadas, desempregados e desempregadas, estudantes, coletes amarelos, grupos anarquistas, feministas e autônomos. Essa diversidade de protagonistas implica uma diversidade de modalidades de ações. Em paralelo das greves, também houve em todo o país ações de bloqueio de rodovias, abertura de pedágios, ações de sabotagem etc. 

Com a greve nas refinarias, postos de gasolina em todas as regiões já tiveram que fechar por falta de estoque, enquanto a produção nacional de energia baixou fortemente. Em 17 de março, o sindicato CGT Energie afirmava ter atingido um recorde na baixa de produção (17.000 a 20.000 MW a menos para todo o país). No mesmo setor da energia, os grevistas também aplicam suas próprias modalidades de ação desde o início do movimento: cortes de energia seletivos (visando casas de parlamentares aliados ao governo), redução das faturas para as padarias e pequenos comércios, ou ainda o restabelecimento gratuito da energia às famílias que não conseguem pagar as contas. 

As greves no setor da coleta de lixo e limpeza urbana também surtiram efeitos fortes. Em algumas cidades, como em Paris, o acúmulo de lixos nas ruas chegou a atingir um ponto crítico (com cerca de 10.000 toneladas acumuladas apenas nas ruas da capital).  Nessa cidade, a mobilização histórica dos garis e dos trabalhadores dos centros de tratamento e incineração de lixo serviu como ponta de lança para a radicalização da greve, desde o início de março. 

A mobilização de estudantes e secundaristas também se intensificou, com bloqueios e ocupações das principais universidades do país e de centenas de colégios (especialmente nos dias de manifestação nacional). Em algumas universidades, estudantes entraram em confronto com grupos de extrema direita que intervieram para furar os bloqueios e atacar os grevistas.

A greve teve também forte adesão no setor do transporte (trem, transporte urbano e setor aéreo). Nos últimos dias, a companhia aérea low-cost RyanAir se revoltou de ter sido obrigada a cancelar 240 voos por causa da greve dos controladores aéreos franceses, e das perdas financeiras correspondentes. 

Perante a intensificação das greves e as consequências para a economia, o Estado intensificou a sua resposta repressiva: através da repressão policial, visando de modo indiscriminado todas e todos os manifestantes e grevistas, e através das chamadas “requisições”. 

Em termos de repressão, a violência policial se intensificou drasticamente, acompanhado com o uso de decretos e medidas de exceção. Para impedir os chamados “protestos selvagens” e noturnos que aconteceram diariamente em muitas cidades (espalhando barricadas, fogos e visando símbolos do poder), o governo decretou a proibição de agrupamentos em determinados locais da cidade, adotando a estratégia de cerco e prisões em massas e arbitrárias de manifestantes (apenas em 5 dias em Paris, entre os dias 16 e 20 de março, cerca de 800 pessoas foram presas). O número de manifestantes feridos dificilmente pode ser calculado. Os bombeiros de Paris disseram ter intervindo em 59 casos de emergência para socorrer civis em protestos, número inferior à realidade, se considerarmos a quantidade de feridos atendidos pelas equipes de pronto socorro auto-organizadas pelos manifestantes, as chamadas “street medic”. 

Bloqueio no porto do Havre. (Crédito : Julien Muguet, Le Monde)

Apenas na manifestação nacional do dia 23 de março, dois manifestantes foram mutilados por armas da polícia: um sindicalista do transporte, em Paris, perdeu o seu olho devido a um tiro de bala de borracha. Em Rouen, uma professora perdeu o polegar em razão da explosão de uma granada “não letal” atirada pela polícia. Cabe aqui lembrar que, desde os protestos contra a reforma trabalhista de 2016, e sobretudo a partir do movimento Coletes Amarelos, os casos de mutilações por conta da repressão policial em manifestações têm sido cada vez mais comuns. De certo modo, o Estado francês optou por enviar um recado claro às ruas, perante a intensificação das insurgências populares: na atual República francesa, manifestar e/ou resistir à ação policial significa doravante correr o risco de perder um olho, uma mão ou um nariz. 

A escalada impressionante na intensidade da repressão policial se manifestou nos últimos dias não apenas nas ruas, mas também no campo, como vimos com os acontecimentos de Sainte-Soline. Em paralelo do movimento contra a reforma da aposentadoria, uma mobilização ocorreu no dia 25 de março perto dessa pequena cidade da região Poitou-Charentes, contra um projeto de mega-bacias de retenção de água doce, que beneficia o agronegócio em detrimento dos pequenos agricultores e da biodiversidade da região. Marcada já há alguns meses, a mobilização – que tinha sido proibida pela polícia –  beneficiou do fervor social atual e reuniu cerca de 30.000 manifestantes que tentaram chegar até o canteiro de obras das mega-bacias. Membros do movimento camponês, ativistas e zadistas de todo o país se reuníram em Sainte-Soline. Mais de 3.000 policiais os receberam no local, usando de armamento de guerra para impedir a manifestação. Mais de 5.000 granadas “de efeito moral” foram atiradas. Os manifestantes resistiram durante horas, conseguiram furar o cerco policial e por pouco quase atingiram o canteiro de obra. Veículos policiais foram incendiados. Cerca de 200 manifestantes foram então fortemente feridos, incluindo dois que estão em coma, entre a vida e a morte, até os dias de hoje. 

“Tutorial de Barricada para bloqueios resistentes!”

Enquanto o aparato de guerra “não letal” está sendo usado para reprimir as manifestações, a principal resposta dada para o Estado para conter as greves foram as chamadas “requisições” (medidas judiciais que obrigam trabalhadores a interromper a greve para retomar a produção supostamente por razão de emergência). As “requisições” serviram nos últimos dias para reprimir as greves e bloqueios de produção, obrigando pela força os trabalhadores a retomar a produção. Na maioria dos casos, o governo assina um decreto estipulando o caráter de emergência da requisição, envia a força policial para desfazer os piquetes de greve e coloca se necessário trabalhadores não grevistas (por vezes convocados de outras regiões) para fazer o trabalho. Em resposta às requisições, uma grande quantidade de grevistas de outros setores, estudantes e grupos autônomos têm se organizado diariamente para reforçar os piquetes desde cedo, pela manhã. Essa coordenação tem sido facilitada pela “Rede Pela Greve Geral”, rede inter-profissional e independente de organização mútua que se formou durante o movimento. Nos piquetes, o que se discute, é que tudo isso já não é mais apenas sobre essa reforma da aposentadoria, mas sobre as nossas possibilidades de organização, solidariedade e enfrentamento perante o mundo que essa reforma e esse governo representa.

Diariamente, grupos se espalham nos quatro cantos de suas cidades para apoiar os bloqueios. Nas refinarias do Havre (Normandie) e de Fos-Sur-Mer (perto de Marseille), e em muitos outros locais, enquanto um importante aparato policial cercavam os grevistas, centenas de apoiadores se juntaram aos piquetes, resistindo à ofensiva policial para impedir as requisições. Se a refinaria do Havre conseguiu manter e reconduzir a greve, a produção em Fos-Sur-Mer foi retomada após um longo confronto. 

Chegamos ao ponto em que a economia do país ainda está girando pela única força dos cassetetes e das bombas de efeito moral. Sem o empenho da polícia e do exército, em todo o país, para tentar quebrar as greves, para forçar minimamente a produtividade a continuar, para manter uma certa dose de petróleo a correr nos oleodutos, tudo já entraria em colapso. Uma guerra está em curso para manter, a qualquer custo, a economia de pé. 

Na Central de Incineração de triagem de lixo TIRU Ivry (perto de Paris), a requisição também foi decretada. Perante a quantidade e a determinação das manifestantes que se juntaram ao piquete, a polícia foi obrigada a desistir de intervir, o que permitiu a recondução do bloqueio e da greve, até os dias de hoje. Desde o início de março, as gigantescas chaminés do TIRU pararam de soltar as colunas de fumaça que integram habitualmente a paisagem nessa parte da cidade colada ao anel periférico, ao leste de Paris.

No dia em que a requisição foi impedida, no contexto acalorado que segue a intensa repressão em Sainte-Soline, grevistas de diversos setores vieram declarar a sua determinação a continuar a luta, e compartilhar as suas perspectivas sobre os próximos passos da mobilização. 

Foi uma ótima oportunidade para coletar algumas palavras e perspectivas sobre os próximos passos da luta com grevistas de diferentes setores, que reproduzimos a seguir : 

M., trabalhador da coleta de lixo 

Temos cada vez mais companheiros, no setor da coleta de lixo, que se juntam à greve seguindo a mesma estratégia que estabelecemos aqui: entrar juntos em greve, garis com trabalhadores dos centros de triagem e incineração. Pois um setor não pode funcionar sem o outro. Agora é isto que estamos vendo em muitas cidades, além de Paris: em Fos-Sur-Mer, Marseille, Perpignan, Montpellier…

Começamos a greve aqui no início de março, inicialmente os piquetes estavam tranquilos pois a prefeita de Paris não exigiu requisição nem mandou polícia. Mas quando os lixos começaram a se amontoar nas ruas, o Estado ficou desesperado e começou a tentar de tudo para quebrar a greve : enviar empresas de coleta privadas para catar o lixo, requisições, polícias e repressão nos piquetes…

A questão do privado é complicada, porque hoje já temos quase metade dos distritos de Paris onde a coleta de lixo é privatizada. Foi uma medida iniciada pelo Chirac (antigo prefeito de Paris e antigo presidente da França), nos anos 1990, justamente para evitar as greves. Em resposta, a Rede Pela Greve Geral se mobilizou para bloquear também garagens de empresas privadas. De todo jeito, com os Centros de Incineração bloqueados, eles não têm onde enfiar o lixo. Dizem que eles estão colocando o que conseguem catar em aterros, por aí na periferia, ou em outros Centros de triagem muito longe daqui. 

Com a pressão no setor privado, algumas dessas empresas começaram a ter greves também. Em algumas empresas, como na Pizzorno, a direção logo ofereceu aumento aos trabalhadores para a greve não se alastrar. Acabamos de ter a confirmação inclusive que cinco centros privados de depósito de lixo se juntaram à greve hoje. 

Então vemos que essa questão do lixo só cresce. 

Mas a questão da requisição é outro problema. Por isso é muito importante termos muita gente aqui todos os dias para impedir que ela aconteça. Mas ela nem sempre surte efeito. Aqui perto, em uma garagem onde houve requisição, os colegas estão saindo com os caminhões mas estão catando o mínimo. Ninguém pode obrigar eles a encher o caminhão. Assim a greve continua tendo impacto. 

Precisamos agora colocar mais e mais pessoas nas ruas. Continuar a se organizar, a Rede Pela Greve Geral tem feito esse papel. Mas temos que multiplicar as trocas entre nós, conversar e se coordenar para fazer cair o governo. 

O., trabalhador do centro de Incineração do TIRU Ivry em greve. 

Aqui é o TIRU, a usina de incineração de Ivry. Existe aqui na região de Paris três principais locais onde o conjunto do lixo da capital é incinerado : a usina de Ivry, a de Issy-Les-Moulineaux, e a de Saint-Ouen. É aqui que todos os caminhões de lixo vem depositar as suas cargas diariamente, para elas serem queimadas. Os três incineradores entraram em greve esse mês contra a reforma da aposentadoria, a começar aqui pelo nosso, em Ivry.  Estamos em greve aqui desde o dia 6 de março, exatamente. O que aconteceu é que o governo decretou requisição de funcionários para quebrar a nossa greve.  Acontece dessa forma: um oficial de polícia vem no local, ele apresenta ao trabalhador uma ordem de requisição. O trabalhador em tese é obrigado a assinar e voltar ao trabalho, senão ele sofrerá processo na justiça em seguida. Enquanto isso, a polícia vem e desmonta o piquete de greve à força.

Por isso organizamos hoje um ato aqui, recebendo apoio de companheiras e companheiros de vários setores, para resistir perante a tentativa de requisição, e para defender nosso direito à greve. Estamos prontos para ir até o fim para combater essa reforma. Pelo menos até a reforma cair. 

Essa reforma pra mim é o seguinte: eles querem aumentar as contribuições dos trabalhadores para a previdência, e com isso querem que os trabalhadores trabalhem mais tempo, para se aposentar somente com 64 anos. Acontece que isso não toma em conta a dureza dos trabalhos manuais mais pesados. Trabalhar em uma usina de incineração, como aqui, é muito sofrido. As condições físicas são muito duras. Por isso temos um estatuto especial que nos permite nos aposentar antes. Agora eles querem nos roubar anos de aposentadoria, destruindo os estatutos especiais que existem para determinadas profissões. 

Os garis começaram a greve quase que junto conosco. Então nós seguimos o movimento dos garis para termos mais força juntos, e tentar criar uma sinergia das lutas. Nossos amigos garis também fazem um trabalho muito pesado e desvalorizado. Esses trabalhos se parecem afinal. Depois de um certo tempo de trabalho, suas costas são totalmente destruídas. Trabalhar até 64 anos nessas profissões é fisicamente impossível. Essa reforma então toca em cheio todas as profissões mais duras, mas de modo geral ela está atingindo o conjunto da população. Nosso objetivo é federar essa massa de trabalhadores, criar essa coesão para fazer a reforma cair. 

Temos que entender que a mobilização não se fará apenas pelos sindicatos. É preciso que todo mundo seja consciente da injustiça dessa reforma e se junte. Eu penso que hoje, todo mundo está afetado, seja os garis, os trabalhadores da saúde, da educação. Vemos que o governo está aos poucos destruindo o serviço público, é um projeto de privatização de todas as atividades da sociedade. Se amanhã esse serviço público desaparecer. Amanhã, alguns terão as condições financeiras para acessar a saúde e educação. E os outros estarão diante da catástrofe social. 

É por isto que reconduziremos essa greve ao máximo. E é por causa dessa nossa determinação que eles fazem de tudo para quebrar a nossa greve. Pela requisição, mas também pela violência policial, intimidando e agredindo os manifestantes durante os atos. Podemos ver nos últimos dias que o governo assume uma resposta unicamente repressiva. 

Mas hoje estamos unidos e numerosos aqui para continuar e para defender a nossa greve. E vai continuar. 

Mobilização na frente do TIRU Ivry (Credito : Révolution permanente)

S., trabalhadora da empresa de transportes urbanos, RATP  

Sou trabalhadora logística no metrô. E estou em greve. No nosso setor, a greve é massiva nos dias de mobilizações nacionais (uma dia por semana), mas temos pouco adesão à greve reconduzível (greve clássica, reconduzida à cada assembleia do movimento). Por isso, estou indo todos os dias de manhã apoiar as companheiras e companheiros nos piquetes e bloqueios mais estratégicos. Aqui no TIRU, mas também em muitos outros locais : tem garagens de caminhões de coleta de lixo, em Romainville, Aubervilliers, e outros, onde todo dia de manhã tem gente se juntando para apoiar o bloqueio. A luta é assim, uma vez que você coloca um pé dentro, você não consegue ir mais para trás. Ainda mais quando você vê a violência do governo e da polícia contra quem está mobilizado. Esses dias um companheiro nosso, da RATP, recebeu golpes de cacetete na cabeça no piquete, teve de ir ao hospital, recebeu 30 pontos. É por ele e para todas e todos que vamos continuar. Não desistiremos. 

 B., professor de colégio em greve 

Sou professor do colégio vizinho. Lá somos uma maioria de grevistas. Como quase todos os dias, venho aqui prestar apoio aos grevistas do TIRU. E devo dizer que hoje estou muito emocionado de estar aqui, e ver tanta gente contra a requisição de trabalhadores. Tem 12 anos que estou engajado no sindicato, o primeiro piquete de greve em que participei foi aqui no TIRU Ivry em 2011, contra a reforma anterior (nota: em 2010-2011 houve um ciclo de greves e protestos contra a reforma da previdência do governo Sarkozy, que aumentou a idade legal de aposentadoria de 60 para 62 anos). Tinha muito menos gente, mas já eram as e os trabalhadores do TIRU que estavam na primeira linha da greve. 

E hoje vemos muita gente aqui. Constatamos uma conjuntura peculiar: uma mobilização muito forte com uma convergência de todos os sindicatos CGT, Sud, FSU, FO… Deixamos as nossas brigas de lado para lutar juntos. E isso é muito bonito, temos uma verdadeira dinâmica. 

A greve reconduzível, no setor da educação, devo dizer que ela não é maioritária. Mas ela está ganhando força. A nossa determinação cresce. Meu sentimento é que do lado do governo, sentimos que eles estão balançando. Eles estão a dois dedos de ceder. E vamos ganhar porque estamos certos. É a história do povo. A história dos 90% que não querem essa reforma. Eles pisam em cima do povo, em cima dos parlamentares, isso aí acabou. Amanhã teremos uma mobilização nacional, e depois de amanhã vamos reconduzir a greve, até a queda da reforma, e além disso. Porque não estamos aqui mais somente contra a reforma, estamos lutando para uma outra sociedade. 

I., estudante, membra do coletivo Poing Levé

Eu me chamo I., sou do coletivo estudantil marxista revolucionário Poing levé (Punho erguido) Devo dizer que se a juventude entrou massivamente no movimento, foi graças ao estopim das greves iniciada pelos trabalhadores. Para nós, jovens, o “49.3” foi a gota d’água, um sinal de desprezo a mais deste governo que nos desrespeita há anos, depois de anos de pandemia, anos de precaridade, nas universidades, nos colégios. Anos de repressão também, depois de tantas manifestações e mobilizações  nas  quais nossos companheiros e companheiras são presas, espancados, mutiladas. Esses dias, o nosso camarada Léo foi preso, ficou na delegacia por mais de 55 horas, justamente porque participava de uma manifestação que acabaria aqui para vir apoiar os grevistas no TIRU Ivry. E, claro, o sinal de repressão mais grave que vimos nos últimos dias foi o massacre de Sainte-Solline, onde houve mais de 200 feridos. Temos um companheiro entre a vida e a morte. Há feridos grave, uma pessoa que perdeu o olho. E claro que é uma repressão que mostra o quanto o governo tem medo da juventude, o quanto ele tem medo da gente entrar de fato na batalha atual, ao lado dos trabalhadores. Acho que hoje foi um grande sinal de solidariedade, como outro dia, na refinaria da Normandie, onde mais de 150 jovens, trabalhadores, artistas, foram apoiar as.os grevistas contra a requisição. E é tipicamente este tipo de solidariedade que queremos mostrar reforçar com o Poing Levé, mas também com a Rede Pela Greve Geral. Porque eles têm medo da gente se organizar, e é isso que estamos fazendo. E já não é mais apenas contra essa reforma, e para repensarmos as nossas condições de trabalho e de vida como um todo nessa sociedade. 

Os estudantes agora estão entrando com força no movimento. Tivemos mais de 1000 estudantes em assembleia geral esses dias em Paris, Montpellier, Toulouse. A juventude está se auto-organizando. 

Todo mundo tem que apoiar os piquetes, e apoiar as caixas de doação para a greve. 

Estaremos aqui juntos até o fim. 

F., motorista de trem suburbano (RER) em greve

 

Sou motorista do RER A (linha de trem suburbano). Vim aqui para prestar todo o meu apoio aos trabalhadores do TIRU e aos garis, e a todos que colocaram uma zona nessa gigante nessa cidade repleta de lixos. Toda essa mobilização nos deu força para lutar. Graças a isso, fomos na frente da sede de Renaissance (partido do Macron) e despejamos montanhas de lixos na frente.

Na RATP (empresa pública de transporte urbano), estamos em greve reconduzível. Mas não são a maioria dos trabalhadores, muitos só entram em greve pontualmente. É importante lembrar que em 2019, estávamos na primeira linha da greve contra a reforma anterior do Macron. Ele tentou fazer passar um projeto de aposentadoria por pontos. Ele tentou nos vender como um avanço social uma reforma que era pior ainda que a atual : uma reforma  por pontos com regime de capitalização, nas quais iriamos entregar o dinheiro da nossa aposentadoria para fundos de pensão privados tipo BlackRock, Natixis etc (nota: esse tipo de aposentadoria foi experimentado inicialmente pelo Pinochet, no Chile, atualmente em vigor nos Estados Unidos, e adotado pelo governo Bolsonaro em 2019 no Brasil). Isso é o que eles queriam, era o projeto deles, e fizemos cair esse projeto em 2019, graças a força do movimento grevista. E agora ele volta com uma outra reforma. 

Esse governo que está aí, que está sempre comentando o que acontece no Irã, no Egito, na Tunísia, dando lição sobre a democracia, e o que eles fazem? Eles desviam a democracia, eles usam manobras para não seguir a voz do povo. E eles nos chamam de que? De milícia? De multidão? A multidão não está nem aí e ela vai esfregar esse projeto de reforma na cara deles. 

Hoje, é preciso que toda essa mobilização, toda essa bagunça se generaliza e se amplifica. E para isso, a Intersindical deve endurecer a sua linha. Os grandes sindicatos estão sendo muito tímidos, eu não consigo entender. Não é normal, que depois de um “49.3” eles não chamaram claramente todo mundo à tomar a praça da Concorde. Nessa noite, tinha muita gente na Praça, mas podíamos ser muito mais. E a polícia não teria nos tirado. O que é que as direções sindicais querem? A vitória ou a derrota? Tenho impressão que alguns estão hesitando, com medo, mas é o governo que deve estar com medo. Sim, a unidade sindical é bonita. Temos muitos logos aí nas faixas. Mas não são logos que vão nos fazer ganhar. Todos os sindicatos têm que assumir as suas responsabilidades para endurecer a luta. 

Estamos perto da vitória, com determinação. Mas precisamos de um plano estratégico e uma vontade em comum de ganhar. Todos os governos que foram derrotados, foram quando a juventude e os trabalhadores estavam juntos nas ruas. Precisamos também da juventude. Uma vez que estamos juntos, o governo não terá mais saída. Força para nós, força para os trabalhadores, e que a greve se generalize e se amplifique.


Para Saber Mais:

Camarada Serge: notícias da revolta popular na França

France in Flames – Coletivo CrimethInc.

“O governo quer roubar anos de nossas vidas”: notícias e aprendizados da mobilização popular contra a reforma da aposentadoria que incendeia a França ©, .

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Revolta na região peruana: Entrevista com companheir@s da Editorial Ande  https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2023/02/23/entrevista-sobre-a-revolta-no-peru/ Thu, 23 Feb 2023 21:25:57 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=3141 Continuar a ler "Revolta na região peruana: Entrevista com companheir@s da Editorial Ande "

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“Mais do que misturar espontaneidade com a defesa de Castillo, ou independência política de classe com sua subordinação a um caudilho, parece-nos que o processo atual, com todas as suas limitações, é um momento crucial. Não tanto pelos propósitos do movimento, mas pelo que ele representa em termos de experiência e aprendizado para a classe trabalhadora.”   

Em 7 de dezembro de 2022, Pedro Castillo foi afastado do cargo de presidente do Peru, após tentar fechar o Congresso, em meio a disputas entre a casta política e suas diferentes instituições, assumindo em seu lugar a então vice-presidente Dina Boluarte (que pertence ao mesmo partido político de esquerda  do presidente deposto, Peru Libre). Ao longo dos dias, isso desencadeou uma onda de protestos que até hoje mantêm um nível muito alto de conflito social, deixando já mais de 60 pessoas assassinadas nas mãos de uma repressão estatal extremamente brutal, com vários massacres em suas mãos (a mais violenta até agora, a de Juliaca, ocorreu em 9 de janeiro, e custou a vida de pelo menos 18 manifestantes).

Seria um grave erro classificar o atual movimento somente a partir da defesa exclusiva do ex-presidente: a agudização da luta de classes na região peruana expressa, com seus limites, o cansaço pelas sufocantes condições de vida em geral da população e da institucionalidade política.

 Nesse sentido, compartilhamos esta entrevista com o grupo Editorial Ande [1] – a quem agradecemos por ter tempo para nos responder- que fornece informações cruciais e uma análise lúcida da situação naquela região, contextualizando nacional e internacionalmente a situação atual ciclo de protestos, explicando sua gênese, avaliando seus limites e projeções, esclarecendo o panorama da luta de classes em geral, incluindo as lutas internas da classe capitalista e seus representantes políticos à direita e à esquerda.

Incentivamos a sua leitura, discussão e divulgação.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

1- No Chile, os setores antagônicos têm acompanhado de perto as notícias vindas do Peru,  que impressiona pela massividade das mobilizações e pelo alto nível de repressão estatal. Em particular, há algumas semanas aconteceu a chamada Marcha de los Cuatro Suyos. Em que consistia, quais eram os seus objetivos e alcance, e como tem sido a repressão?

Saudamos o interesse em querer desvendar o processo de luta de classes que vem se desenvolvendo nos últimos meses no Peru e agradecemos também pela entrevista. É bem verdade que o nível de repressão se tornou mais agudo, sendo maior do que o registrado nos últimos anos em outros países latino-americanos. A repressão no Peru, ao que nos parece, só é superada pela ocorrida na Colômbia, no contexto dos protestos de 2021 contra a reforma tributária de Iván Duque. Embora seja importante destacar que no Peru beiramos 2.000 feridos e mais de 60 mortos em apenas 2 meses, enquanto o massacre na Colômbia durou mais de 1 ano quando os membros da primera línea ainda estavam reprimidos. Se a repressão estatal continuar ou se intensificar como se tem visto até agora, isso poderia ser facilmente comparado ao que foi exercido pelas ditaduras latino-americanas dos anos 1970.

Um esclarecimento, a  Marcha de los Cuatro Suyos foi realizada em 2000 contra a ditadura cívico-militar de Alberto Fujimori. Justamente por isso, a atual marcha de 19 de janeiro foi chamada de 2ª Marcha de los Cuatro Suyos. A razão é muito geral: em ambas as datas houve uma concentração massiva de mobilizações desde regiões do interior do Peru até a capital Lima e lutaram contra políticos que assumem explicitamente a gestão do poder estatal de forma autoritária. Também foi chamada de “Toma de Lima”, embora nos interesse apontar que os aspectos fundamentais da luta não têm muito a ver com tais rótulos.

A marcha foi antes de tudo diversificada, massiva e desorganizada. Era formado essencialmente pela classe trabalhadora do campo e da cidade, e também estudantes. O proletariado das regiões de Puno, Ayacucho, Arequipa, Cusco, Apurímac, viajaram para Lima dias antes da marcha, sendo interceptado e intimidado pela polícia nas estradas ou bairros a caminho da capital. Apesar desses obstáculos, a grande maioria das delegações chegou ao seu destino. Aproximadamente 50.000 manifestantes se mobilizaram em Lima. Havia pelo menos três rotas de marcha. Uma que se mudou para o Kennedy Park, ou seja, para Miraflores, bairro conhecido por ser o centro de operações e residência tradicional de um amplo setor da burguesia de Lima. Outro caminho traçado pela Confederación General de Trabajadores del Perú (CGTP), que consistia em realizar um desfile pelas avenidas Grau, Abancay e Nicolás de Piérola para finalmente retornar à praça 2 de Mayo. Outro grande fluxo de manifestantes autoconvocados se dirigiu ao Congresso, que estava protegido pela polícia nacional, e por isso acabou enfrentando a polícia no cruzamento das avenidas Abancay e Nicolás de Piérola.

O baixo nível de organização refletiu-se na dispersão das marchas e dos diferentes percursos, mas sobretudo porque não foi formulada uma estratégia ou objetivo comum. Em muitos casos os grupos limitaram-se a cumprir os percursos traçados; em outros, os manifestantes se aproximaram das dependências dos meios de comunicação, ou perto das casas de políticos, ou burgueses para demonstrar seu descontentamento. Um contingente maior buscava chegar ao Congresso.

Em relação à repressão, é importante destacar que ela se concentra e tem se concentrado no parte sul do país. Em Lima houve uma forte repressão, mas não houve aniquilação direta da classe trabalhadora como em Juliaca, Ayacucho ou Andahuaylas. Sim, houve dezenas de detidos. Em outras regiões como Cusco, Puno e Arequipa houve tentativas de tomar o aeroporto. E nesta última região houve até um óbito.

 

2- Qual é o pano de fundo dessa onda de protestos que parece estar em ascensão? Como avalia este movimento no contexto global de crise, atualmente marcado pela guerra e pelo recente ciclo de revoltas?

 O cenário das lutas atuais no Peru se desenvolve como um momento de luta de classes em todo o mundo, determinado pela crise do capital. Observamos uma recessão técnica por dois trimestres consecutivos, principalmente nos ramos produtivos de países imperialistas como Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. Da mesma forma, a taxa de desemprego é gerada em ramos específicos dos setores de hidrocarbonetos, mineração, gás e plantas de petróleo, tendo em conta o aumento do emprego no setor de serviços. Há também altas taxas de inflação, principalmente nos setores de alimentação e habitação, aspectos que mais atingem a classe trabalhadora. Atrelado a isso, a guerra interimperialista, imanente à crise, Leva a um aumento no preço do petróleo e do gás gerando um efeito dominó nos preços dos produtos em todo o mundo. A escassez de fertilizantes se traduz em menor produção nos setores agrícolas em todo o mundo, enquanto as grandes empresas ligadas ao processamento e venda de combustíveis e aos bancos quebram ou entram em crise.

O Peru é um país que depende da importação de combustíveis, fertilizantes e alimentos; por outro lado, sua economia primário-exportadora o torna sensível a choques econômicos externos. Assim, todo esse aumento de preços vem afetando diretamente o custo de vida de sua população. Por exemplo, quando o custo do transporte aumenta, todas as mercadorias transportadas aumentam seus preços. A falta de fertilizantes leva a uma produção menor e seus altos custos aumentam o preço dos produtos agrícolas. Juntos, sua moeda é desvalorizada, entre outros fatores, pelo aumento da inflação e pela elevação dos juros pelo Reserva Federal dos Estados Unidos, tendo seus efeitos mais agudos nos últimos meses. A isto podemos acrescentar que o impacto da guerra teve um efeito contrário ao esperado, reduzindo o preço dos metais. Tudo isso gerou um aumento da inflação de mais de 2 pontos, atingindo o maior nível em 26 anos com 8,46% e mais de 15% nos alimentos. Isso faz com que produtos básicos para o consumo da classe trabalhadora, como a batata, por exemplo, aumentem seu preço em mais de 100%. O crescimento do Produto Interno Bruto em 2022 vem diminuindo, com queda de 3,8% para 1,7% no último trimestre.

Nesse cenário se localiza o processo de lutas interburguesas dentro do Estado que se desenrola de forma mais transparente desde 2016. Isso é muito bem visualizado com a destituição de presidentes e no confronto entre os poderes do Estado. Esse processo arrasta a classe trabalhadora a se posicionar pelas frações burguesas. No entanto, 2020 apresentou um cenário em que o proletariado da agroexportação do litoral sul e norte do país se levantou em greve. Foi um passo dos enfrentamentos interburguesas para um claro processo de luta de classes. A causa direta foi a tentativa de ampliação de um regime trabalhista para agroexportadores que foi instalado no governo Fujimori (2000) e que só flexibiliza e precariza o proletariado. Contratos temporários, utilização de services, estabilidade zero no emprego, salários reduzidos, etc., são características desse sistema de trabalho. No entanto, esse processo esteve ligado à pandemia, onde vimos claramente como o Estado beneficiou abertamente a burguesia e, da mesma forma, as disputas interburguesas no Peru que revelaram a corrupção e os interesses dos representantes da burguesia no Estado. Não se tratava apenas de uma eclosão da luta de classes, vinculada de forma temporária, mas de forma essencial. Essas disputas entre a burguesia abrem um cenário propício para que as lutas do proletariado explodam. Um cenário semelhante se apresenta agora. Passamos dos conflitos interburgueses para a luta de classes, onde o proletariado busca derrubar representantes da burguesia no Estado, embora no momento seja apenas uma mudança de tais representantes.

 

3- Nos primeiros dias, o movimento parecia se expressar com intensidade diferente nas províncias em relação a Lima. O que explicaria isso? Como esse fenômeno se desenvolveu?

As lutas foram mais ativas nas regiões fora de Lima, no começo e agora mesmo. Os trabalhadores das regiões mais agitadas, como Apurímac, mantêm uma renda mensal de S/. 714 de Puno com uma renda média de S/. 805. Isso equivale a 189 e 213 dólares por mês, respectivamente, embora sendo a média é certo que esse rendimento é ainda menor para os mais pobres. Na região sul peruana, destaca-se também o alto índice de anemia em crianças, com incidência em torno de 50% em Apurímac e Ayacucho e 70% em Puno. São esses trabalhadores explorados e precários no processo de acumulação do capital imperialista vinculados às mineradoras que saem às ruas para lutar. A indignação cresceu de sul a norte, impulsionada pelos trabalhadores da cadeia de montanhas da região sul, que tem uma grande história de luta, aos poucos foram convocados diferentes setores e regiões, o movimento se expandiu para incluir a própria Lima, tradicionalmente conservadora.

 

4- Vimos que a imprensa burguesa tem sido particularmente hostil às manifestações (“Isto é terrorismo”, “A polícia defende o Peru”, “É violência política, não é protesto social”, são algumas das manchetes que viram depois da marcha para Lima). Existem elementos específicos que explicam esse comportamento ou é apenas uma continuação de seu tradicional papel criminalizador?

A imprensa atual no Peru, como em grande parte da América Latina, é controlada e concentrada por um punhado de famílias. O Grupo El Comercio da família Miró Quesada controla aproximadamente 80% da imprensa escrita e um domínio na imprensa digital com 28% da mídia disponível nesse setor. Em dois de seus jornais mais populares, como Peru 21 e Trome, os trabalhadores que se manifestaram foram diretamente acusados de serem terroristas. O veículo de extrema-direita Willax, que pertence a corporação Erasmo Wong, é ainda mais obstinado no “terruquear”, pedindo abertamente para “atirar na cabeça” dos manifestantes. A partir desses grupos de imprensa constituinte e intimamente ligados à grande burguesia do Peru, que vem se espalhando a ideia de que quem se manifesta é vândalo ou terrorista. Esta posição nada mais é do que a expressão de seus “tradicionais” interesses de classe em um momento de agudização da luta de classes. Assim como os níveis repressivos se agudizaram diante da irrupção do proletariado, o papel da grande imprensa teve um movimento semelhante, tentando dar legitimidade à repressão estatal diante da opinião pública. Assim, o principal elemento para explicar a posição da grande imprensa é o próprio processo de luta e o medo gerado nos setores burgueses pela ação direta dos trabalhadores.

 

5- Qual tem sido a participação das minorias revolucionárias, anarquistas ou comunistas, durante o desenrolar destes dias?

 Em Lima verificamos a participação de anarquismos libertários, comunismo tradicional dos PCs e organizações social-democratas em geral. Certamente, existem minorias de ex-trotskistas, maoístas da velha guarda que deixaram suas antigas posições e assumiram uma posição revolucionária. Além disso, há novas organizações mais próximas das leituras da esquerda comunista alemã, holandesa e italiana, refeitas com a influência da Neue Marx-Lektüre e suas diversas vertentes. Mais tarde, anarquistas individualistas e marxistas com posição de classe, mas amplamente dispersos, têm participado também. Embora em geral, infelizmente, o grosso das organizações em marcha seja de tendência reformista e proclame como medida máxima a Assembleia Constituinte.

 

6- Qual tem sido o papel desempenhado pelas organizações mais tradicionais, como partidos de esquerda, sindicatos ou organizações indígenas?

 A maioria dos partidos de esquerda no Peru há muito se caracteriza por uma prática e um programa parlamentarista e reformista. Este procedimento se refletiu no apoio constante ao governo Castillo, que em nenhum momento representou alternativa alguma — como toda alternativa burocrática e parlamentar— para a classe trabalhadora. Basta recordar as lutas de março-abril que aconteceram em Junín, Ica, Cajamarca e outras regiões, devido à crise econômica desencadeada pela guerra russo-ucraniana e o correspondente aumento dos preços dos combustíveis e fertilizantes. O ex-presidente ignorou as reivindicações dos trabalhadores, chamando-os de valentões pagos pela direita, o que foi seguido por alguns partidos de esquerda como o Izquierda Socialista; enquanto isso, a maioria deles — como Patria Roja, ML 19 e Movimiento por la Unidad Popular— entenderam os acontecimentos como uma “traição” por parte de Pedro Castillo rumo as promessas de uma Assembleia Constituinte e de uma verdadeira alternativa popular e de esquerda, com uma menção tangencial ou nula ao contexto econômico mundial e muito menos ao proletariado como sujeito revolucionário.

Essa visão estreita da esquerda voltou a se manifestar nas lutas atuais. No plano teórico, encontram como motor das lutas atuais um processo de democratização que emergiu “de baixo”, cujos objetivos são a inclusão total de todos os membros da sociedade no jogo da democracia, cuja expressão seria a convocação a novos eleições e a tão aclamada — de maneira mais eufórica e repetitiva por esses partido  exclusivamente— a Assembléia Constituinte. No nível prático, eles têm divulgado suas proclamações parlamentares nas marchas e querendo se apropriar e direcionar à vontade o impulso subversivo dos trabalhadores. Como pode ser visto nos processos políticos do Chile e da Colômbia, a canalização das lutas para uma solução parlamentar — por meio de uma Assembleia Constituinte ou por meio da eleição de um novo presidente de esquerda, respectivamente — não faz mais do que atenuar e apaziguar os esforços dos trabalhadores, essa é a sua verdade natureza: são a esquerda do capital, reformistas, conciliadores de classes — quando não negam justamente a existência das classes —, não buscam a emancipação dos trabalhadores

Quanto aos sindicatos, eles têm uma relação estreita com os partidos de esquerda descritos acima. É o caso da Confederación General de Trabajadores del Perú (CGTP), que ao longo desses processos de luta manteve o mesmo discurso da Assembleia Constituinte e inclusive explorou a possibilidade de participar de uma Reunião de Acordo Nacional com a Presidenta Dina Boularte, que muito provavelmente teria sido realizado se não fosse o massacre de 18 manifestantes em Juliaca, Puno. É evidente o radicalismo dos trabalhadores, que se levantaram e se organizaram pelos seus próprios meios, ao qual pela mesma força das circunstâncias se somam a esquerda reformista e os sindicatos a ela alinhados.

7- Qual é a composição do movimento? Quão heterogêneo é? Tem traços de autonomia e espontaneidade ou limita-se a apoiar Pedro Castillo? Ou até que ponto as duas coisas se misturam?

 Em termos geográficos, o movimento é liderado principalmente por trabalhadores do campo da cidade de Central Sierra e do sul do país. A mobilização na capital é bastante pequena e tende a ser composta por universitários e setores mobilizados pelos partidos políticos da esquerda reformista, além de pequenos grupos de orientação diversa e autoconvocados. Estes últimos são os mais ativos nas tarefas de autodefesa que ocorrem nos confrontos com a polícia. Em termos gerais, a maioria dos manifestantes são trabalhadores (empregados ou desempregados, rurais ou urbanos). Onde uma certa heterogeneidade se manifesta é nos vários slogans que se agitam e na perspetiva estratégica que se defende. Os principais slogans são: a convocação de novas eleições, o que significaria uma mudança de poder executivo e legislativo; a convocação de uma Assembléia Constituinte e a renúncia de Dina Boluarte. Inicialmente, houve setores mais ligados ao antigo governo que agitaram —e continuam agitando— o pedido de libertação de Pedro Castillo e sua reintegração como presidente da república. Com o passar do tempo, esse pedido foi perdendo força, pois a tendência predominante é um descontentamento generalizado com o funcionamento das instituições burguesas. A principal limitação reside no fato de que a crítica do quadro institucional e dos partidos políticos burgueses ainda não foi capaz de reconhecer o papel desempenhado pelo reformismo e pela esquerda do capital na reprodução da miséria. Isso dá a políticos como Pedro Castillo alguma margem de manobra enquanto tentam capitalizar o descontentamento dos trabalhadores. Mas de forma alguma se pode dizer que a mobilização se limita a apoiá-lo. Essa confusão ocorre porque a saída de Pedro Castillo foi efetivamente o estopim das mobilizações. Mas seria um erro limitar-se a este evento e não analisar o contexto geral marcado pela crise e pela crescente decomposição das instituições burguesas. Mais do que misturar espontaneidade com a defesa de Castillo, ou independência política de classe com sua subordinação a um caudilho, parece-nos que o processo atual, com todas as suas limitações, é um momento crucial. Não tanto pelos propósitos do movimento, mas pelo que ele representa em termos de experiência e aprendizado para a classe trabalhadora.

 

8- Para onde é mais provável que o movimento se dirija? Quais são suas projeções? Tem perspectivas comunistas que poderiam ser desenvolvidas?

Falar de uma perspectiva comunista dirigindo o atual processo no Peru é um exagero e uma impossibilidade a curto prazo, devido às condições ideológicas da classe trabalhadora e à feroz criminalização contra o comunismo e as ideias revolucionárias. No entanto, o Peru é um país de extremos, se por um lado a direita parasitária tomou o poder por mais décadas do que em outros países latino-americanos, não deixando espaço para ação — mesmo para soluções reformistas —; por outro lado, nossa história de lutas foi marcada por grupos radicais que se levantaram contra o Estado. O terreno político peruano não tem sido propício ao desenvolvimento de um progressismo duradouro, entre outras coisas, devido ao nível de vínculos entre a burguesia e o imperialismo e porque a violência capitalista é muito profunda. Esse panorama desanimador foi revertido nas últimas marchas no Peru porque o que acaba sendo questionado, além das aspirações reformistas, é o Estado e a própria propriedade burguesa. Ou seja, o movimento da luta de classes no Peru expressa vozes conscientes do essencial. Nesse contexto, nasceu nosso grupo, sólido em princípios e com objetivos claros; acreditamos, por nossa experiência, que a classe trabalhadora exige e precisa do necessário desenvolvimento de um caminho revolucionário que só é possível por meio de sua associação como classe.

 

9- Em relação à casta política, como ela está enfrentando a crise? Está dividida? Existem partidos ou grupos que apoiam as manifestações? Existe uma clara diferenciação pontual entre esquerda e direita?

A casta política no Peru está aparentemente dividida. Ou seja, embora existam setores da direita e até mesmo da “extrema direita” fujimorista que apoiam as eleições antecipadas e a saída de Dina Boluarte, na prática todos eles, inclusive os partidos de esquerda, querem canalizar a mobilização dos trabalhadores para canais institucionais. Enquanto uns propõem uma Assembleia Constituinte e outros apenas eleições, e se envolvem em “grandes polémicas” no parlamento sobre essas diferenças que se apresentam como antagonismos irreconciliáveis; em termos reais, todos os partidos políticos querem restabelecer a calma política que garanta a plena continuidade da acumulação do capital. Assim, explica-se que não só a esquerda apoia as manifestações e que há centristas e até liberais participando da mobilização. Claro, enfatizando a necessidade de não violar a propriedade privada e o respeito à autoridade. Neste sentido, pode dizer-se que não existem diferenças substantivas, embora a nível imediato existam.

11- Como a solidariedade internacional poderia ser efetiva contra a repressão brutal e o eventual desenvolvimento de perspectivas anticapitalistas dentro do movimento na região peruana?

A luta de classes é um fenômeno mundial porque o próprio modo de produção capitalista o é; a ofensiva desse modo de produção vem crescendo e transformando em elementos de acumulação todas as esferas em que nos desenvolvemos. Estamos cientes de que a luta do proletariado está eclodindo em diferentes espaços e regiões, dadas as consequências da crise mundial. Tal solidariedade internacional deve se expressar na unidade dos trabalhadores em seus países e na formação de vínculos entre seus setores mais organizados, porque, apesar de existirem mediações concretas nas nações, as causas de nossa luta encontram-se nas tendências e contratendências do modo de produção capitalista. O proletariado peruano vem se esclarecendo no processo de luta com o aperfeiçoamento de seus métodos de luta e o aperfeiçoamento de suas organizações; no entanto, o reformismo ainda se impôs como a principal saída da crise devido à continuidade difusa das tarefas democrático-burguesas que desempenharam durante os últimos 50 anos. Diante disso, uma verdadeira solidariedade internacional dos grupos revolucionários deve ajudar a revelar o fracasso da social-democracia em suas tentativas de instalar e difundir soluções ilusórias para a classe proletária e, por outro lado, posicionar-se contra a violência policial e as políticas intervencionistas dos imperialismos. Colocar as coisas em seus termos reais é contribuir para o caminho necessariamente revolucionário dos trabalhadores em todo o mundo.

[1]     O grupo se apresenta como “uma editora comunista que traduz, edita, imprime e publica livros de diversos gêneros e saberes de diversas partes do mundo, sempre vinculado a pensar a sociedade e buscar transformá-la”.

 

Entrevista retirada do site dos companheiros do Vamos hacia la vida, realizada em 14 de fevereiro de 2023.

Revolta na região peruana: Entrevista com companheir@s da Editorial Ande  ©, .

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ENTREVISTA: Anarquistas Iraniano falam sobre os protestos em resposta ao assassinato pela polícia de Mahsa Amini https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2022/09/29/entrevista-com-anarquistas-iranianos/ Thu, 29 Sep 2022 20:33:05 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2949 Continuar a ler "ENTREVISTA: Anarquistas Iraniano falam sobre os protestos em resposta ao assassinato pela polícia de Mahsa Amini"

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INTRODUÇÃO

A 13 de setembro de 2022, Mahsa Amini, de 22 anos, foi presa por uma “patrulha de orientação” iraniana (também conhecida como “polícia da moralidade”). Mahsa foi presa em Teerão por não respeitar as leis relacionadas ao vestuário. Três dias depois, em 16 de setembro, a polícia informou a família de Mahsa de que ela “teve uma paragem cardíaca” e tinha entrado em coma dois dias antes de morrer.

Relatos de testemunhas oculares, incluindo o do seu próprio irmão, mostram de forma clara que ela foi brutalmente espancada durante a prisão. Exames médicos divulgados indicam que ela sofreu uma hemorragia cerebral e um acidente vascular cerebral  – lesões causadas por uma pancada que levaram à sua morte.

Manifestantes em Istambul, Turquia, seguram uma imagem de Mahsa Amini.

Desde que esta informação se tornou pública, protestos em massa eclodiram em todo o Irã para denunciar o assassinato de Mahsa pela polícia.

Para entender melhor essa situação em rápida mudança, realizamos uma breve entrevista com a Federação Anarquista ERA, uma organização com seções no Irã e no Afeganistão.

Esta entrevista foi realizada entre os dias 20/09/22 e 23/09/22.

ENTREVISTA

Black Rose / Rosa Negra (BRRN): Em primeiro lugar, poderiam apresentar-nos a Federação Anarquista ERA?

FAE: A Federação Anarquista ERA é uma federação anarquista regional ativa no chamado Irã, Afeganistão e mais além.

A nossa federação é baseada no Anarquismo de Síntese, aceitando todas as tendências anarquistas, exceto as tendências nacionalistas, religiosas, capitalistas e pacifistas. Os nossos muitos anos de experiência organizativa em ambientes extremamente opressivos como o Irã nos levaram a desenvolver e a utilizar táticas e filosofias organizativas insurrecionais.

Somos uma organização ateísta, vemos a religião como uma estrutura hierárquica que é mais antiga e duradoura do que quase todos os outros sistemas autoritários e muito semelhante ao capitalismo e outras estruturas sociais autoritárias que escravizam hoje a humanidade. A guerra de classes, do nosso ponto de vista, inclui a guerra contra o clero que nos rouba a liberdade e a autonomia, definindo o que é sagrado ou tabu, e impondo-os através da coerção e da violência.

BRRN: Quem foi Mahsa Amini? Quando, porque e como ela foi morta?

FAE: Mahsa Amini, a quem a sua família chama Zhina, era uma jovem curda comum de 22 anos, natural da cidade de Saghez (Saqez) no Curdistão.

Ela estava viajando com sua família para Teerã para visitar famíliares. Em 13 de setembro, enquanto estava com o seu irmão, Kiaresh Amini, a polícia da moralidade ou a chamada “Patrulha de Orientação” prendeu Mahsa por usar “hijab impróprio”. O irmão dela tentou resistir à prisão, mas a polícia usou gás lacrimogêneo e também espancou Kiaresh.

Muitas outras mulheres presas testemunharam o que aconteceu na van da polícia. No caminho para a delegacia, houve uma discussão entre as mulheres detidas e os policias. Mahsa Amini foi uma das que protestaram contra a prisão. Ela disse que não era de Teerã e que deveria ser libertada.

A polícia usou de violência física para calar todas as detidas. Mahsa também foi espancada. De acordo com testemunhas oculares, a policia atingiu a cabeça de Mahsa fazendo com que batesse com força na parte lateral da van em que seguiam.

Ela ainda estava consciente quando chegou à Agência de Segurança Moral, mas as outras mulheres detidas notaram que ela não estava bem. A polícia mostrou-se completamente indiferente e acuso dela ter protestado durante a viagem. As mulheres continuaram protestando para ajudar Mahsa a obter os cuidados médicos que ela precisava. Os protestos foram recebidos com violência por parte da polícia. Mahsa Amini foi novamente espancada pela polícia e perdeu a consciência.

A polícia tentou reanimá-la bombeando ar com massagens no peito e levantando e massageando suas pernas. Após essas tentativas frustradas, a polícia agrediu as outras mulheres confiscando todos os celulares e câmaras que pudessem ter gravado o incidente.

Depois de muita demora e de encontarem as chaves perdidas da ambulância, Mahsa foi levada para o Hospital Kasra.

A clínica que recebeu Mahsa Amini disse num post no Instagram que Mahsa estava com morte cerebral quando foi internada. Este post do Instagram foi posteriormente apagado.

Em 14 de setembro, uma conta no Twitter de um amigo que trabalhava no Hospital Kasra relatou que a polícia ameaçou os médicos, enfermeiros e funcionários para não tirarem fotos ou fazerem vídeos e para mentirem aos pais de Mahsa sobre a causa da morte. O hospital, intimidado, obedeceu à polícia. Disseram aos pais que ela tinha sofrido um “acidente” e a mantiveram em suporte de vida durante dois dias. Mahsa foi declarada morta em 16 de setembro. Exames médicos, divulgados por hacktivistas, revelam fraturas ósseas, hemorragia e edema cerebral.

BRRN: A identidade de Mahsa como curda desempenhou algum papel na sua prisão e na sua morte?

FAE: Sem dúvida, ser curdo em Teerã teve um papel importante na eventual morte de Mahsa. Mas, esta é uma realidade que todas as mulheres no Irã experimentam. Não precisamos ir muito longe para encontrar imagens de vídeos da polícia da moralidade espancando e forçando mulheres a entrarem em vans, atirando mulheres para fora de um carro em movimento e assediando mulheres de hijab devido ao seu “hijab impróprio”. Esses vídeos mostram apenas uma pequena parte do inferno que as mulheres passam no Irã.

O fato de Mahsa estar com o irmão no dia da sua prisão não foi um acaso. Na sociedade patriarcal do Irã, as mulheres devem ser acompanhadas por um familiar do sexo masculino, seja pai, marido, irmão ou primo, para afastar a policia da moralidade e desencorajar indivíduos desagradáveis em público. Casais jovens não devem ser vistos muito próximos um do outro em público ou correm o risco de serem espancados e presos pela polícia da moralidade. Os familiares devem ter documentos como prova caso sejam questionados pela polícia. Prender mulheres por causa de batons e unhas era uma realidade que muitos de nós, mais velhos, nos lembramos vividamente no Irã.

A ameaça de ataques com ácido por “mau hijab” é outro pesadelo que as mulheres enfrentam no Irã.

O patriarcado e a autocracia religiosa afetam todas as mulheres.

BRRN: Como é que o povo iraniano soube da morte de Mahsa? Qual foi a resposta popular inicial?

FAE: Como dissemos anteriormente, havia muitas testemunhas oculares. Nenhuma ameaça poderia ter impedido que a história da morte de Mahsa fosse conhecida.

Vale a pena mencionar que o médico que atendeu Mahsa e o fotojornalista que documentou o estado de Mahsa e da sua família em perigo foram presos, e seus paradeiros são desconhecidos.

A resposta inicial foi de indignação. As pessoas já compartilhavam a história de Mahsa desde o dia 14 de setembro. A indignação ainda não era suficientemente forte para provocar protestos e revoltas. As pessoas ainda pensavam que Mahsa estava em coma e havia esperança de sua recuperação. Então, ela foi declarada morta em 16 de setembro.

Primeiro, houve pequenos protestos no Hospital Kasra, que foram dispersados pela polícia. As faíscas da atual revolta foram acesas em Saghez, cidade natal de Mahsa.

Uma motocicleta da polícia é queimada em uma manifestação em Teerã.

BRRN: Qual a dimensão dos protestos atuais? Em que áreas do país se concentraram as manifestações?

FAE: A situação é muito dinâmica e está mudando excepcionalmente rápido. No momento em que escrevo estas linhas, as chamas da revolta incendiaram 29 das 31 províncias do Irã. Uma das características dessa revolta é que ela se espalhou rapidamente para as principais cidades do Irã, como Teerã, Tabriz, Isfahan, Ahvaz, Rasht e outras.

Qom e Mashhad, as fortalezas ideológicas do regime, juntaram-se à revolta. A ilha de Kish, o centro capitalista e comercial do regime, também se revoltou. Esta é a revolta mais diversificada que testemunhamos nos últimos anos.

Em 23 de setembro, os sindicalistas planejam uma greve geral em favor dos protestos.

O regime planejou uma manifestação do Exército para o mesmo dia. Muita coisa está acontecendo.

BRRN: Como o estado iraniano respondeu a estas manifestações?

FAE: A resposta inicial do regime foi menos brutal do que já experimentámos antes. Uma razão é que eles foram apanhados de surpresa. Não esperavam uma resposta tão forte. A razão mais importante é que Ibrahim Raisi está na ONU. A ausência de altos funcionários, a história divulgada de Mahsa e os protestos, e a pressão exercida sobre o governo sob o olhar atento da comunidade internacional pararam o massacre por enquanto.

Mas não nos enganemos. A polícia matou e feriu muitas pessoas desde o primeiro dia dos protestos. Alguns deles eram crianças de 10 anos e adolescentes de 15 anos. No entanto, antes tivemos  o mês de novembro de 2019, quando o regime massacrou milhares de pessoas em 3 dias.

Em todas as revoltas anteriores, a polícia não foi diretamente o alvo da raiva popular. Mas isso não aconteceu dessa vez. Desta vez, eles são os bandidos e as pessoas querem o seu sangue. Isso esgota-os física e mentalmente, o que consideramos uma boa notícia.

Neste momento, Saghez e Sanandaj estão passando por uma repressão implacável. O regime trouxe tanques e veículos militares pesados para reprimir a revolta. Há muitos relatos de munição real disparadas contra os manifestantes.

Os protestos continuam. Muitos carros da polícia foram vandalizados. As delegacias de polícia foram atacadas e incendiadas. Só precisamos nos armar saqueando o arsenal deles. Então, entraremos numa fase completamente diferente da revolta.

Uma barricada construída em uma manifestação em Teerã em 21/09/22.

BRRN: É correto considerar estes protestos como feministas?

FAE: Sim, absolutamente. Como em todas as outras revoltas, houve desenvolvimentos e movimentações subterrâneas..

Pode-se dizer que a recente campanha de repressão ao Hijab e o aumento da brutalidade da polícia da moralidade começaram em resposta à auto-organização espontânea, autónoma e feminista das mulheres iranianas. No início deste ano, as mulheres no Irã começaram a colocar na lista negra e a boicotar pessoas e empresas, como cafés, que aplicam estritamente o Hijab. O movimento era descentralizado e sem liderança e tinha como objetivo criar espaços seguros para mulheres e membros da comunidade LGBTQ.

Essa opressão brutal culminou neste momento em que as mulheres estão na vanguarda em todos os lugares, queimando os seus lenços e enfrentando a polícia, já sem Hijab. O principal slogan do levante também é “Mulher, Vida, Liberdade”, um slogan de Rojava, uma sociedade cujas reivindicações são baseadas na ideologia anarquista, feminista e laica.

BRRN: Que elementos políticos (organizações, partidos, grupos) estão presentes nas manifestações, se existirem?

FAE: Muitas organizações, partidos e grupos tentam se apropriar ou influenciar os protestos em seu benefício a cada levante.

A maioria deles deparou-se com um problema insolúvel durante esta revolta.

Primeiro, os monarquistas. Reza Pahlavi, o filho caloteiro do ex-xá do Irã, um indivíduo sustentado por dinheiro roubado e redes de mídia fora do Irã, pediu um dia nacional de luto em meio à indignação pública e aos protestos iniciais, em vez de usar seus recursos para ajudar o revolta. As pessoas finalmente viram o charlatão que ele é. A frase “Morte aos opressores, seja o Xá ou o Líder”, foi ouvida em todo o Irã.

Em seguida,  MEK ou Mujahedin Kalq. O MEK tem um problema ideológico com esta revolta. É uma seita cujos membros femininos são forçados a usar lenços vermelhos. A sua origem está numa combinação das ideologias marxistas e islâmicas, dominada pelos marxistas-leninistas antes de 1979, e hoje são uma seita ao serviço de estados capitalistas e imperialistas. No entanto, as mulheres no Irã estão queimando os seus lenços e o Alcorão. Eles não têm voz neste clima político.

Depois, há partidos comunistas que desprezam Rojava e sempre falam mal dela. A sua análise de classe, desmascarada e enferrujada, não os ajuda a ganhar corações aqui.

Apesar de todos os discursos e propaganda na defesa do secularismo e do feminismo, não tinham sequer um slogan voltado para a libertação das mulheres. A sua ideologia impedia-os de gritarem  “Mulheres, Vida, Liberdade”. Eles não tinham nada a dizer, por isso calaram-se. Graças a isso, a sua presença é muito mais fraca nos protestos atuais.

O movimento anarquista está crescendo no Irã. Esse revolta, sem liderança, feminista, antiautoritária e entoando slogans de Rojava, fez com que anarquistas, filiados e não afiliados na federação, tivessem uma forte presença nesse levante. Infelizmente, muitos foram presos e feridos também.

Estamos trabalhando para perceber o potencial anticapitalista desse movimento. Porque a República Islâmica é um culto e uma religião de morte, sendo o patriarcado, o racismo e o capitalismo os seus pilares ideológicos. Para vivermos, precisamos ser livres; e isso não pode ser feito sem que a libertação das mulheres esteja na vanguarda.

Manifestação de estudantes universitário em Teerã em 19/09/22.

BRRN: Em solidariedade. Obrigado pelo seu tempo.

FAE: Solidariedade.

Obs: Esta é uma tradução de uma entrevista publicada no site blackrosefed.org efetuada pelo Portal Anarquista e revisada pela Facção Fictícia

ENTREVISTA: Anarquistas Iraniano falam sobre os protestos em resposta ao assassinato pela polícia de Mahsa Amini ©, .

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Grupos de Afinidade São Gangues de Rua Com Análise – Relembrando UP AGAINST THE WALL, MOTHERFUCKERS! https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/10/19/grupos-afinidade-gangues-de-rua/ Tue, 19 Oct 2021 18:33:56 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=1853 Continuar a ler "Grupos de Afinidade São Gangues de Rua Com Análise – Relembrando UP AGAINST THE WALL, MOTHERFUCKERS!"

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“Vandalismo, Depredação e Análise”

Grupos de afinidades são grupos pequenos de pessoas que compartilham amizade, intimidade e confiança que se organizam para um fim. Na história do anarquismo, foram fundamentais para a sustentação de movimentos e revoluções inteiras, como na Federação Anarquista Ibérica durante a Revolução Espanhola, aponta o influente anarquista Murray Bookchin. Na Primeira Guerra Mundial, até mesmo o Exército Britânico optou por recrutar batalhões inteiros formados por amigos e vizinhos, os Pals Batallions, como forma de explorar a coesão fruto da afinidade e intimidade desses modelos, em oposição aos pelotões formados por desconhecidos. Na atualidade, redes grupos de afinidade organizam protestos antirracistas e radicalizam ações diretas, de apoio mútuo e assistência médica em conflitos no Brasil, nos Estados Unidos, no Chile e até revolução social em Rojava. O que demonstraria uma capacidade de adaptação e resiliência dos grupos de pessoas que se conhecem e compartilham laços profundos para lidar com situações e ambientes hostis.

No coletivo Facção Fictícia, costumamos usar  como slogan a frase “Vandalismo, Depredação e Análise”. Seu tom carrega uma ironia, mas também uma sutil referência a um contexto histórico maior e que gostaríamos compartilhar. A expressão é uma adaptação da frase “Uma Gangue de Rua com Análise” (A Street Gang with Analysis“), que era como se autodefiniam um dos coletivos artísticos, radicais e subversivos mais perigosos dos anos 60 nos Estados Unidos: os Up Against the Wall! Motherfuckers. Seu nome em português seria algo como “Mão na parede, filho da puta!” – uma frase bastante comum de se ouvir se pixar ou grafitar muros sem autorização é uma de suas atividades preferidas. Compartilharemos abaixo um de seus folhetos sobre grupos de afinidade, mas antes, gostaríamos de oferecer algum contexto histórico e apontamentos teóricos sobre o tema.

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“Nós éramos da rua. Nossa profissão foi a revolução. Foi tudo o que fizemos. Não tínhamos emprego, não éramos estudantes, tudo que fizemos foi radical. Uma militância radical. Verdadeiramente permanente. De manhã à noite, todos os dias. Dávamos comida de graça às pessoas, tínhamos um apartamento (que chamamos de “sala de jantar”) onde as pessoas podiam ficar sem pagar. Também tínhamos roupas disponíveis. Tudo o que fizemos foi de graça.”

– Ben Morea, em entrevista de 2018

Os Mutherfuckers!, como gostavam de se chamar, foram dos que levaram os grupos de afinidade aos limiares máximos da arte e da ação revolucionária. Sua história cruza com os movimentos sociais mais relevantes de sua época, como os Black Panthers, mas também com grandes nomes da música e da arte, como os Surrealistas, e autores de diversos pontos do espectro radical, de Murray Bookchin aos Situacionistas. Diz a lenda que veio deles a arma que a feminista Valerie Solanas, usou para dar o tiro que quase matou Andy Warhol e que foram eles os responsáveis por expulsar a banda MC5 em suas limousines de um show gratuito comunitário por “venderem a revolução”.

Formado em Nova York em meio às agitações políticas da década de 1960, o grupo se reuniu em torno da revista Black Mask. Mais tarde assumiriam o nome “não publicável” (“unprintable name”, segundo New York Times) Up Against the Wall Motherfucker!. ou simplesmente “The Motherfuckers” e, mais tarde, “The Family”. Autoproclamados herdeiros do dadaísmo e do surrealismo, sua primeira ação pública acabou por fechar o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa) em 1966 apenas divulgando que iriam até lá fazer uma intervenção, o que levou o museu a trancar as portas por medo de que fizessem qualquer coisa. Já em 1968, MoMA recebeu a exposição “Dada, Surrealism and Their Heritage”, sendo criticada por seu foco na cultura pop e pouco em seu lado político. Dessa vez, os Motherfuckers se juntaram a outros grupos como Chicago Surrealists e marcharam em 300 pessoas rumo ao museu que estava cercado pela polícia e tropas de choque. Manifestantes soltaram galinhas e bombas fedorentas dentro do museu. Mais tarde, Salvador Dalí teria admitido: “agora somos parte do establishment”.

“Não somos artistas, nem anti-artistas. Somos homens criativos – revolucionários. Como homens criativos, nos dedicamos a construir uma nova sociedade… O falso conceito de arte não pode nos conter.”

– Black Mask, nº3, janeiro de 1967

Sua prática ganguista desenvolvidas nas ruas, nos centros de detenção juvenil e em constante conflito com a polícia fez com que até mesmo os Situacionistas temessem a relação com o grupo. Os Situacionistas chegaram a criticar o “puro ativismo” e decidiu pela expulsão da revista Black Mask de seu círculo “sem que seus membros sequer tenham concordado em entrar”. Foram apresentados ao grupo francês pelo anarquista Bookchin, que mais tarde também romperia relações com o Debord e seu secto. Inspirados nos escritos dos Situacionistas sobre arte e sua crítica social radical, UATW/MF tomou a ideia de “totalidade” para sua proposta de “Revolução Total”. No entanto, a ação radical nas ruas que buscava encarnar o ódio do lúmpen proletariado como relatado no texto de Debord sobre a revolta do bairro negro de Watts, em Los Angeles de 1965, cujo os Motherfuckers levavam as últimas consequências em suas práticas de vida parecia assustar os eruditos Situacionistas que, segundo alguém que foi próximo ao movimento, Jean-Pierre Voyer, “exceto por Vienet, que era mecânico, não conseguiriam bater um prego”.

Por outro lado, movimentos radicais com tradição em ações comunitárias e disposição para a autodefesa armada, como os Panteras Negras, tinham profunda simpatia pelos Mutherfuckers. Suas ações tática e esteticamente se aproximavam dos Panthers. Segundo Gavin Grindon, “Morea foi a única pessoa branca a quem foi oferecido um título honorário filiação ao Partido dos Panteras Negras”. Grindon ressalta também que, inspirados por grupos como os Diggers de São Francisco e os próprios Panteras Negras, os UATW/MF “patrulhavam os bairros seguindo e vigiando a polícia, às vezes armados com facas ou correntes de moto. Ocasionalmente, eles livravam pessoas (interrompendo uma prisão e resgatando o preso). Eles se autodenominavam ACID (Comitê de Ação para Defesa Imediata) ou ESSO (Organização de Serviços do Lado Leste). Eles também montaram lojas gratuitas, […], programas de alimentação gratuita, clínicas gratuitas ocasionais e serviços jurídicos, todos financiados principalmente por doações.“

A última edição da revista Black Mask foi em 1968, marcando a mudança de nome do grupo para oficialmente Up Against the Wall Motherfucker – Uma gangue de rua com análise.

Dos debates com Murray Bookchin em décadas mais joviais e menos rabugentas de sua carreira, surgiu o termo “Grupos de Afinidade”, hoje comum entre os grupos militantes radicais. Herbert Marcuse,  que era tio de Tom “Osha” Neumann, membro dos Motherfuckers, deu uma palestra em Nova York e Ben Morea desafiou o intelectual e suas ideias sobre arte. Depois disso, alguns membros do grupo reuniram-se com Bookchin em seu apartamento e debateram junto do comunista Russel Blackwell sobre as milícias anarquistas na Revolução Espanhola de 1936, organizadas em grupos de compañeros. Na década seguinte, em 1971, protestos com dezenas de milhares de pessoas em Washington foram organizadas por uma constelação de grupos de afinidade coordenados. [GINDON, Gavin, Poetry Written in Gasoline, p. 23.]

“A comunidade precisa de espaço livre. Ele precisa sobreviver, ficar louco, respirar, expandir, amar, lutar, ligar. […] Um evento Motherfucker tinha que incluir comida grátis, música, discursos espontâneos, chamada e resposta.“

– Osha Newman, Up Against the Wall Motherf**ker!: A Memoir of Anarchism in the ’60s.

Afinidades: a primeira unidade de ação revolucionária

A herança do encontro entre esses militantes anti-artistas, anarquistas, socialistas, antirracistas e revolucionários para a prática dos movimentos atuais é extremamente relevante. Movimentos grandes e revoluções inteiras foram construídas com grupos e coletivos que começaram pequenos, rompendo com a norma estabelecida, se organizando para encontrar aliados e enfrentar sistemas inteiros.

Para atuar com o maior nível de segurança possível em momentos turbulentos onde é necessário agir fora dos mapas para romper o isolamento e encontrar seus pares, compartilhar cumplicidade, evitar grandes grupos ou exposição desnecessária. Essa é uma das vantagens dos grupos de afinidade. Nesse caso, nos referimos a grupos de amizade, cumplicidade e confiança, que compartilham pontos de vista comuns e interesse pelos mesmos objetivos e táticas, que desejam compartilhar tudo que é necessário para viver desde já a revolta que querem ver no mundo. Confiança, consenso, consentimento levado a um nível pessoal, face a face e não mediado. Esse tipo de grupo é uma forma de se organizar e tomar partido em grandes momentos de mobilização que rompem com os limites institucionais de movimentos sociais tradicionais, ao mesmo tempo que empoderam e encorajam a participação daquelas que não teriam legitimidade para se organizar de acordo com a mitologia marxista e das organizações de massas.

Esses grupos, em geral, não estão isolados entre si, mas em informal sintonia e, eventualmente, se encontrando com outros grupos pelo espaço das cidades, seja se descobrindo e colaborando durante um ato ou ação, seja estabelecendo uma rede de comunicação informal e boca a boca. Laços que se estreitam quando mais precisam, se dispersam quando a poeira baixa e a fumaça se dissipa mas nunca são deixados de lado para atrofiar. E nossas ações devem buscar aumentar a potência enquanto corpos e fortalecer suas conexões. Para aumentar essas potências, precisamos promover bons encontros: “a partir de agora, não aceitaremos nenhuma amizade que não seja política”.

As intervenções de rua do UATW/MF em 1966 já prefiguravam a estética Black Bloc que surgiria 20 anos depois nos movimentos de ocupação na Alemanha para se espalhar por todo o globo.

Visibilidade e Opacidade

Algumas pessoas podem atuar apenas com suas organizações, comunas ou grupos de afinidade, outras também podem estar em contato ou atuando em grupos maiores e maior mobilização e visibilidade. Mas é importante que se tenha em mente quais conexões trazem mais visibilidade (e seus riscos) para pessoas e grupos que pretendem permanecer opacos, invisíveis para o olho do poder. Importante considerar também que, se para algumas pessoas a visibilidade significa um risco, para outras ela é uma forma de proteção, que significa que se forem perseguidas e presas, contarão com possíveis mobilizações em solidariedade, o que pode ser mais embaraçoso para o Estado continuar efetuando uma escalada de prisões. Por isso é sempre mais útil para ele prender quem não tem tanta visibilidade dentro dos movimentos ou mesmo na mídia e, se possível, que esteja ligada a posturas mais radicais. Portanto, estar próximo dessas pessoas com maior visibilidade pode significar que as atenções que seriam dadas a elas, caiam sobre você e seu meio. Isso é particularmente perigoso quando essas pessoas com não dão a mínima para segurança e anonimato delas mesmas e daquelas relações com aquelas ao seu redor, ao mesmo que tempo que as convidam para somar com radicalidade em suas ações – como vimos nos principais grupos envolvidos na “luta contra o aumento” em junho de 2013 mas entre muitos outros episódios recentes da luta antifascista no Brasil contra o governo Bolsonaro.
 
Não quer dizer que grupos com disposição para ações mais radicais e criminosas e os grupos que atuam dentro da lei e com certa visibilidade não devam ter contato. Esse contato é estratégico para atingir a maioria dos nossos objetivos, no entanto deve ser feito com respeito às necessidades de segurança de cada parte. Além do mais, total anonimato e opacidade pode dificultar para o Estado nos encontrar, mas, ao mesmo tempo, pode nos isolar e dificultar que novas pessoas se se encontrem se tornem companheiras passem a cooperar. A repressão se beneficia quando grupos radicais se isolam em cenas reduzidas e privadas pois isso impede a adesão e a formação de uma base social de apoio e dificulta a propagação da ação direta e da solidariedade. Nosso maior desafio não é nos encarregar de táticas militares ultrassecretas, mas difundir habilidades e práticas libertárias de resistência. Não há nada melhor que atividades participativas, que ofereçam portas de entrada para novas pessoas e oportunidades para grupos existentes se unirem. Da mesma forma, anarquistas precisam equilibrar as vantagens do segredo com a necessidade de fazer circular novos formatos e energias rebeldes.
 
A guerra entre as classes invade todos os campos da vida: goste ou não, nascemos nisso e decidimos a todo o tempo como lutar. A questão é agir estrategicamente de forma a não lutar só. Isso é particularmente complicado no atual contexto de vigilância e repressão. Deve-se atuar em um grau mínimo de clandestinidade para que se possa resistir de forma significativa. Mas se o aspecto mais importante da resistência sãos as relações sociais que produzem a própria resistência, é um erro escolher formas de luta que criam bases e apoio social cada vez menores.
 
Se nossas bases sociais podem ficar menores à media que os conflitos se intensificam, pode ser mais apropriado manter guerras mais brandas que não provoquem a fúria total do Estado ou então começar uma unidade de resistência popular mais ampla do que apenas um grupo de afinidade com sua galera. Isso não quer dizer deixar de lado os grupos de afinidade, mas entender que eles devem ser um meio para catalisar a ação popular, não um fim em si mesmo. O Estado vai, normalmente, preferir desacredita e isolar grupos do que prendê-los ou matá-los. Perceber que essa é sua prioridade nos leva a defender nossas relações e conexões sociais como prioridade para nós. Podem nos espancar ou nos prender enquanto indivíduos, mas o importante é saber se manteremos vivos nossos valores e táticas.
 
Não estamos falando nenhuma novidade mas também não é um protocolo a ser seguido à risca. Estamos relatando uma forma de ser, estar e agir espontânea e ao mesmo tempo crítica. Uma forma de se encontrar, se afetar e de compartilhar cumplicidade, solidariedade e ódio contra o poder autoritário. Vimos essa forma emergir nas ruas do Brasil, no entanto é o tipo de células e redes que estiveram por trás de muitos dos maiores levantes da história recente, em diferentes países e continentes.
Capa da revista Black Mask em janeiro de 1968.

A seguir, uma tradução do panfleto sobre grupos de afinidade produzido e amplamente difundido pelos UATW/MF na década de 1960 e 70. Que sirva de inspiração para novas gerações que buscam uma profunda relação entre ética e estética, não como mera apresentação visual ou de estilo, mas como uma forma de intervir no mundo de forma radical. Se nossa arte não for revolucionária, então não é nossa revolução.

GRUPO DE AFINIDADE = UMA GANGUE DE RUA COM ANÁLISE

por Up Against the Wall! Motherfuckers

“As ideias podem criar situações de vida ou morte, mas um homem pode realmente apenas lutar e morrer por si e pela vida de seus amigos.”
– Chief Joseph

Na luta atual, formas de organização devem surgir sendo adequadas às condições modificadas que compõem a matéria real de nossos tempos. Devem ser formas suficientemente coeso para resistir à repressão; formas que podem crescer secretamente, aprendendo a se manifestar de infinitas de maneiras, para que seu modo de operação não seja cooptado pela oposição ou simplesmente seja esmagado. O grupo de afinidade é a semente/germe/essência da organização. Ela se reúne por Necessidade ou Desejo mútuos: grupos históricos coesos se unem das necessidades compartilhadas da luta pela sobrevivência, enquanto sonham com a possibilidade de amar. No período pré-revolucionário, os grupos de afinidade devem se reunir para projetar uma consciência revolucionária e desenvolver formas para lutas particulares. No próprio período revolucionário, eles emergirão como quadros armados nos centros de conflito e, no período pós-revolucionário, sugerem formas para a nova vida cotidiana.

As manifestações de massa são bem-sucedidas de duas maneiras: trazem níveis predominantes de consciência às ruas e tornam visível a quantidade de alienação ativa em nossa sociedade… e às vezes transcendem as questões de “manifestação” para se tornarem ações de massa. Como manifestações de massa, elas não conseguem avançar a natureza e as formas de nossa luta – como ações de massa (contra a polícia ou contra a propriedade), começam a definir a direção e a realidade do que nossa luta deve se tornar. “Motins” ou rebeliões são as formas mais altas de ação em massa que vimos até agora.

Folheto original sobre Grupos de Afinidade, por UATW/MF

Essas rebeliões projetam a consciência de uma comunidade em ação, uma vez que (1) libera bens e áreas geográficas e (2) envolve as forças de ocupação (PORCOS) na batalha. Essa forma também possui vantagens e limitações; e é em resposta a ambas que as pessoas estão descobrindo as possibilidades tático-teóricas de trabalhar juntas em pequenos grupos íntimos. As perspectivas para o futuro são claras em pelo menos um aspecto: os Homens e seus Porcos estão aprendendo o “controle de multidão” e estão ampliando sua resposta a todas as massas de pessoas que se dispõem a se comportar violando as “leis e a ordem” dessa sociedade. Nossos preparativos para avançar na luta devem sempre levar em conta as habilidades e tendências do inimigo. Manifestações de massa e rebeliões nos bairros continuarão a atender necessidades específicas em muitas situações… Mas, no sentido geral de luta contínua, é necessário que comecemos a agir da maneira que for mais favorável aos nossos meios e objetivos – O PEQUENO GRUPO QUE EXECUTA AÇÕES “PEQUENAS” ORQUESTRADO COM OUTROS GRUPOS PEQUENOS/AÇÕES “PEQUENAS” CRIARÃO UM CLIMA DE LUTAS GENERALIZADO EM QUE TODAS AS FORMAS DE REBELIÃO PODEM JUNTAR-SE E FORJAR A FORMA FINAL: REVOLUÇÃO…

Já vimos a resposta de pequenos grupos – as Comunas de Columbia, as Gangues Revolucionárias de Berkeley, os Comitês de Ação da França e outros até agora conhecidos apenas por suas ações (Cleveland). Nos próximos meses, esses grupos e muitos outros que se formarão enfrentam dois tipos de extrema necessidade, à medida que procuram criar a possibilidade de uma comunidade real:

(1) Desenvolvimento interno e segurança. Cada grupo continuará a criar seu próprio senso de identidade através da síntese consciente da teoria/prática; e cada grupo aplicará essa identidade à realidade existente da maneira mais eficaz.

(2) Relações externas com grupos semelhantes. Devemos começar a estabelecer as formas de comunicação e conscientização mútua que podem permitir maior mobilidade e maior resposta a crises mais do que locais. Isso significa que teremos que começar a criar uma rede de grupos de afinidade (dentro das comunidades existentes e entre essas comunidades).

Essa rede ou “Federação” deve ser caracterizada por uma frouxidão estrutural que garanta a identidade e autodeterminação de cada grupo de afinidade, bem como uma realidade organizacional que permita o máximo de ações coordenadas direcionadas à revolução total.

O conceito de grupo de afinidade de forma alguma nega a validade das ações de massa; antes, essa ideia aumenta as possibilidades revolucionárias dessas ações. A minoria ativa é capaz, porque é teoricamente mais consciente e melhor preparada taticamente, para acender o primeiro pavio e fazer os primeiros avanços. Mas é tudo. Os outros podem seguir ou não seguir… A minoria ativa desempenha o papel de um agente agitador permanente, incentivando a ação sem pretender liderar … Em certas situações objetivas – com a ajuda da minoria ativa – a espontaneidade encontra seu lugar no movimento social. É a espontaneidade que permite o avanço e não os slogans ou diretrizes dos líderes. O grupo de afinidade é a fonte de espontaneidade e de novas formas de luta.

up against the wall/MOTHERFUCKERS

341 EAST 10th St. LOWER EAST SIDE NEW YORK, NY.

“Procuramos pessoas que gostam de desenhar”

Para Saber Mais:

Análises Críticas de uma Gangue de Rua – Textos publicados originalmente nas revistas Black Mask e UAW/MF (Nova York, 1966-7).

UP AGAINST THE WALL, MOTHERFUCKERS! – Conversa com Ben Morea – Entrevista de 2018.

Como Formar Um Grupo de Afinidade – Coletivo CrimethInc.

“Sobre grupos de afinidades” – Livreto organizado por Imprensa Marginal e Instituto de Estudos Libertários

Grupos de Afinidade – Murray Bookchin

Acerca dos Grupos de Afinidade – Das Lutas e GAMA – Grupo de Afinidade e Movimentação Anarquista

Petry Written in Gasoline– Artigo de Gavin Grindon sobre Black Mask e UATW/MF em PDF para impressão, em inglês.

Up Against The Wall Motherfucker! – An anthology of rants, posters and more – zine em PDF para impressão, em inglês.

 

Grupos de Afinidade São Gangues de Rua Com Análise – Relembrando UP AGAINST THE WALL, MOTHERFUCKERS! ©, .

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“Guantánamo Calabro”: Carta de Cesare Battisti https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/06/23/carta-de-cesare-battisti/ Wed, 23 Jun 2021 17:35:48 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2521 Continuar a ler "“Guantánamo Calabro”: Carta de Cesare Battisti"

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Guantánamo Calabro

Em 16 de maio de 2021, Cesare Battisti, o ex-militante comunista italiano que se exilou no Brasil e foi extraditado ao início de 2019 da Bolívia para a Itália, escreveu do presídio de Rossano Calabro uma carta ao jornal online italiano Carmilla onde conta pela primeira vez os detalhes da extradição ilegal da qual foi vítima e o papel cumprido pelos governos italiano, brasileiro e boliviano nessa ocasião. Ele traz a discussão também por sua escolha, que gerou muitas polêmicas sobretudo na esquerda brasileira, ao se declarar culpado. Uma escolha que levou o ex-presidente Lula a se arrepender de ter-lhe dado asilo (escrevemos sobre isso no artigo “Lula só Fez Autocrítica Onde Estava Certo: Comentários à Declaração Sobre Cesare Battisti“).

Nessa carta Battisti lembra que a base legal do seu asilo não foi a inocência ou estraneidade dos fatos violentos dos quais o então grupo político dele, os Proletari Armati per il Comunismo (PAC) foi autor, mas pela natureza política desses delitos e pela persecução política da qual foi vítima na Itália. A carta oferece também a Battisti a possibilidade de refletir, criticamente e autocriticamente, sobre a dramática fase dos chamados “anos de chumbo” na Itália, a que ele define como “a degeneração de um 68 reprimido em sangue, que durou 15 anos”. Uma época da história que o governo italiano, por meio do tratamento ilegal e lesivo dos mais básicos direitos humanos ao qual somente o próprio Battisti, parece não saber ou querer ainda superar.

Iniciei, a partir de 2 de junho, uma greve de fome e médica” escreveu Cesare Battisti em um texto enviado através de sua filha ainda a ser traduzido.


 

Cesare Battisti escoltado por forças policiais ao desembarcar no aeroporto italiano

Para começar, gostaria de avisar que os próximos pontos dizem respeito a algumas passagens importantes em minha história pessoal, podem não ser exaustivos, nem afirmam sê-lo. É apenas questão de responder, embora de forma fragmentada, às perguntas mais frequentes que me foram feitas até agora por aqueles que, apesar da intoxicação da mídia, não desistiram de querer entender o meu caso. Mesmo que estes dados possam ser apenas parciais, a intenção é a de fornecer informações básicas que possam ajudar aos interessados a tirar suas próprias conclusões. Perdoe-me então, pela descontinuidade de uma edição sem pretensões de ser publicamente coerente. E em qualquer caso, dadas as circunstâncias, um discurso linear e profundo não seria possível para mim. Por esta razão, peço aos interessados para consultar meus escritos en Carmilla ou no meu último manuscrito que está sendo analisado atualmente por “Le Seuil” França.

É natural, mas também óbvio, começar da minha prisão na Itália. Durante meus 20 meses de isolamento prisional em Oristano, dos quais apenas 6 foram em um estado de semi-legalidade, alimentei a esperança de que mais cedo ou mais tarde a Instituição entenderia que não se pode punir ou vingar aplicando a um veterano dos anos 70 o status de prisioneiro de guerra de fato. Isso é o que sugere a privação de direitos estabelecida pelas leis nacionais e pelas regras do direito internacional. Em resposta a pedidos formais por motivos de tratamento desumano, citando medidas de segurança sem precedentes, que, além disso, têm sido aplicadas retroativamente há 41 anos, o Estado responde literalmente: “a documentação solicitada foi retida do seu direito de acesso”. Mas, então, nos perguntamos, qual é a possível defesa? Esta é a razão pela qual entrei em greve de fome em Oristano.

Em resposta, o Estado raivoso me transferiu para a pior prisão da Itália, me colocando à força na secção ISIS-AS2. Isso, apesar das ameaças recebidas no passado e no presente, proferidas pelas diferentes frentes jihadistas contra mim. Mas se Cesare Battisti foi designado pela Autoridade Judicial para a segurança média, não tendo o “impeditimento”1, o que ele está fazendo no AS2? Minha presença na secção ISIS implica em grandes dificuldades e pequenas margens de sobrevivência: sem nunca sair da cela para a banho de sol; limitando também a comida, já que são do ISIS os trabalhadores que a distribuem; objeto de ameaças através do portão da grade; privado de computador onde eu posso exercer a minha profissão; vigiado na frente e objeto de CED (medida disciplinar) a cada pequena reclamação; sujeito à censura, alegando suposta “atividade subversiva” (sic) e assim por diante, até ser impedido também no direito de defesa, estabelecido pelo artigo 24 da Constituição. Eu poderia encontrar meus familiares italianos, uma hora por semana quatro vezes por mês, mas, dada a distância do meu local de residência e a idade avançada dos meus irmãos, que varia de 70 a 80 anos, isso raramente acontece. Minha família que vive na França e no Brasil só posso contactá-la com chamadas de vídeo no meu celular uma vez por semana, mas então tenho que desistir das visitas presenciais. Desta forma, passo meses sem contato com meus filhos, para os quais tenho que pedir notícias por carta, quase sempre retidas pela censura porque estão escritas em uma língua estrangeira. Disseram-me até mesmo que meus filhos deveriam aprender a escrever em italiano para receber notícias de seu pai. Isso porque o censor tem dificuldade com o francês ou o português, que são as línguas maternas dos meus filhos. Esse é um tratamento desumano não só para qualquer prisioneiro, mas especialmente para alguém cujo último crime data de 41 anos atrás. E como se isso não fosse suficiente, o governo se compromete a manter um nível absurdo de periculosidade alimentando um processo de criminalização constante a ponto de poder justificar a apreensão do meu computador, onde eu estava completando um romance sobre o conflito em Rojava e o drama dos imigrantes. Apenas para se manter em sintonia com o ditame de reintegração na vida civil.

Vamos dar um passo atrás e chegar à minha fuga do Brasil. As autoridades italianas nunca aceitaram meu refúgio no Brasil. O Estado trabalhou com todas as suas forças, mas também com meios ilícitos como a corrupção e a oferta de privilégios políticos e econômicos, para obter a minha entrega fraudulenta a todo custo! O Brasil abriga uma gigantesca comunidade de origem italiana, equivalente a 35 milhões de cidadãos. Um país dentro do país! Esta importante parcela da sociedade brasileira, além de controlar alguns setores da economia, tem uma forte influência no aparato militar do brasileiro. Há numerosas figuras na ditadura de origem italiana, como o próprio Bolsonaro. Mas pouco importa se o ex-capitão Bolsonaro, que foi expulso do exército, se ele e seus acólitos são súditos inescrupulosos, se não claramente criminosos à frente de milícias sangrentas. A Itália, através da Embaixada, sempre manteve relações privilegiadas com os lobbies militares próximos a Bolsonaro. A ponto de empurrar as empresas ítalo-brasileiras a entrar ativamente na campanha presidencial de Bolsonaro. Em troca de tal amizade, Bolsonaro promete minha extradição. Embora a Constituição o impeça de fazê-lo – você não pode revogar um decreto após 5 anos de sua emissão – Bolsonaro mantém sua promessa. Ao comprar e vender influência na Suprema Corte Federal, é desavergonhadamente ignorada a Constituição e o estatuto de prescrição dos crimes atribuídos a mim, e em dezembro de 2018 é decretada a ordem de extradição.


O governo de esquerda cessante me garantiu contato direto com o presidente da Bolívia, Evo Morales, que pessoalmente permitiu que o fundador do MST, Juan Pedro Stedile, me recebesse na Bolívia com a concessão de refúgio político. Em uma operação combinada entre o PT (Partido dos Trabalhadores) brasileiro e o Mas (Movimento ao Socialismo) boliviano, fui transferido para Santa Cruz de la Sierra. Aqui fui entregue a um emissário do governo empregado direto do Chanceler. Enquanto esperava a papelada para refúgio, fui alojado em um Centro de Monitoramento: instalações pertencentes ao Ministério do Interior, que serviram de base para espionagem da oposição à Evo Morales! Uma dúzia de operadores de informática trabalharam lá, com os quais tive relações cordiais. De vez em quando chegava um alto funcionário do Estado, então eu tinha que ficar trancado no meu quarto no final do pátio. Tive imediatamente a impressão de que estava sendo observado a cada passo, não apenas por forças supostamente amigáveis. Quando a vigilância se tornou mais rigorosa, apontei para o Chefe de Governo que dirigia o centro, mas ele respondeu de forma evasiva. Quando eu tinha já a certeza de que tinha algo errado, fui pego a alguns passos do centro, enquanto ia às compras. De repente, todos aqueles a quem eu havia sido apresentado para a regularização do asilo tinham desaparecido.

Mesmo assim, eu não perdi as esperanças. Claramente pensei na traição de Evo Morales, mas ainda assim contava com as leis bolivianas que excluem a extradição por delitos políticos e, especialmente no meu caso, por estar prescrito de acordo com as leis bolivianas. Então, eu disse a mim mesmo, o pior que pode acontecer será cumprir algum tempo de prisão durante o processo de extradição. Em vez disso, eu deveria ter suspeitado que o que a Itália queria evitar era exatamente um julgamento regular. Os próprios policiais bolivianos da Interpol, alguns dos quais eu tinha encontrado no Centro de Monitoramento, pareciam bastante envergonhados com o que estava prestes a acontecer. Eles não tiveram dificuldade em me informar que ali tinha um monte italianos, brasileiros e agentes de outro país, que eles não queriam especificar. Eles me disseram claramente que minha pele estava sendo negociada e chamavam seus governantes de malandros. Entendi o que estavam falando na manhã seguinte. Quando uma equipe trajada de negro e com capuzes entrou e me levou para o aeroporto internacional de Santa Cruz de la Sierra.

Colocado e guardado em uma sala cujas janelas se viam da pista, eu estava observando as questões burocráticas entre um núcleo da Polícia Federal brasileira e alguns oficiais da Força Aérea Boliviana. A menos de 100 metros da pista, os motores do turbo propulsor da PF Brasil estavam aquecendo. Um pouco mais tarde eu estava acompanhando o Delegado (Comissário) e sua equipe a bordo do avião brasileiro. Em algum momento, houve um tumulto. Eles me tiraram de lá e voltamos para a mesma sala. Aqui fui entregue à polícia boliviana, enquanto os agentes brasileiros saíam sem mim. Por um momento tinha a esperança que Evo Morales tivesse dado uma contra-ordem. Uma esperança fugaz, até a chegada de um grande grupo de pessoas com cores italianas no pescoço, que me levou ao avião oficial que nos esperava muito longe na pista de pouso. Eu até tentei resistir: “É um seqüestro”, gritei. A resposta foi desarmante: “e daí? Mas desta vez funcionou”. Na Bolívia, como no Brasil, as pessoas gritaram sobre o escândalo e o vergonhoso seqüestro permitido por Evo Morales. Houveram protestos e até mesmo manifestações. Obviamente, não houve nenhuma menção a isso na Itália. Ninguém esperava que Evo Morales, já desacreditado pela base de seu partido, fosse tão longe. Mas o mais surpreendente para a covardia foi a Vice-Presidente Linera, com seu passado, que desapareceu na última hora para evitar dar explicações aos amigos comuns.

Algumas pessoas se perguntaram com razão se esses procedimentos, que não são nada menos do que fraudulentos, não podem ser denunciadas às autoridades internacionais. A esse respeito, gostaria de informar que existem atualmente três procedimentos planejados contra os delitos acima mencionados, cometidos pelo Brasil, Bolívia e Itália. Respectivamente, o primeiro é um apelo à OEA e à ONU por um ato inconstitucional na anulação de um decreto presidencial de mais de 5 anos e a separação forçada da unidade familiar – o filho menor e a esposa que permanecem no Brasil -, o segundo é um apelo à ONU contra a Bolívia por sequestro e expulsão ilegal; o terceiro é um apelo à ONU contra a Itália por receptação ilícita; um apelo ao Tribunal Europeu por tratamento desumano na prisão. Mas um procedimento de petições internacionais leva muito tempo e é urgente para mim sair do inferno de Guantanamo Calabro: eu não tenho um impedimento, o que estou fazendo no AS2?

Me dizeram que lendo “Indio”, meu último romance publicado na França, pode-se ver nas entrelinhas a intenção de lidar com o sistema de justiça italiano. Terminei o último rascunho do “Indio” quando ninguém acreditava seriamente que uma pessoa como Bolsonaro pudesse se tornar presidente. Isso quer dizer que algumas de minhas reflexões sobre o futuro incerto do eterno refugiado e perseguido são insuspeitas. A desinformação que nos últimos 15 anos me fez o monstro a ser abatido, impossibilitou qualquer tentativa de lançar luz sobre meu caminho político-militante primeiro, refugiado depois. Tiveram o cuidado de não divulgar minhas tentativas de reconciliação e pacificação com uma suposta nova realidade social na Itália. Eu acreditava que a democracia italiana tivesse amadurecido, que fosse capaz de encarar sua própria história com dignidade e consciência. Estou obviamente me referindo aos “anos de chumbo”, um capítulo dramático de nossa História relegado a uma zona de sombra e tabu, onde a revisão histórica é dominante.

Só para mencionar algumas tentativas de aproximação, a mais séria e formal foi enquanto eu estava na prisão em Brasília, durante o longo processo de extradição. Após algumas reuniões com o pessoal da Embaixada da Itália, onde fiz uma proposta de diálogo para o governo italiano. Foi num momento em que eu já estava certo de não ser extraditado. Propus-lhes que eu aceitaria voluntariamente a extradição se o Governo estivesse disposto a abrir um debate, com pessoal qualificado, para finalmente fazer uma avaliação histórica do período da luta armada, “a degeneração de um 68 reprimido em sangue, que durou 15 anos”. O pessoal da embaixada, ou seja, os espiões, prometeram informar, mas nunca mais apareceram. Enquanto isso, eu também tinha iniciado uma correspondência com Alberto Torreggiani – sabemos que ele foi ferido por seu próprio pai durante o ataque dos PAC (Proletários Armados para o Comunismo, NdT), no qual eu não participei. A correspondência com Alberto Torreggiani, que hoje ele nega por ordem do Estado, ou simplesmente influenciado por reacionários justicialistas, era parte de uma intenção mais articulada de aproximação com as famílias das vítimas dos PAC. Isso no quadro da criação de um clima favorável para retornar, sem ódio, às responsabilidades de todos os componentes do conflito e, quem sabe, finalmente virar aquela página maldita dos “anos de chumbo”. Infelizmente, esta tentativa também colidiu com a intolerância feroz de certos setores políticos e didáticos sempre prontos a alimentar o ódio por interesses partidários obscuros. Não se pode não assistir com desconfiança as pontuais declarações públicas dos parentes das vítimas (obviamente sempre falamos apenas de um lado da barricada) alguns dos quais provavelmente nem tinham nascido na época: 41 anos atrás! E porquê sempre culpar o Battisti, como se tivesse sido ele quem inventou a luta armada? Enquanto os fascistas sob as ordens de alguma instituição estão se divertindo e ninguém grita na rua? Ou será justamente para proteger os assassinos em massa que temos que queimar uma testemunha, para que a desinformação sobre esses anos seja totalmente efetiva.

A praga do Estado nos faz lembrar que devemos ficar calados. A pergunta que deveria ser feita por aquelas pessoas inconscientes que, com raiva nos olhos, exigem a execução para Cesare Battisti, deveria ser mais ou menos esta: “Por que até 2003 ninguém se importava com ele?” Quando Cesare Battisti ainda era apenas mais um entre as dezenas de refugiados italianos ao redor do mundo? Numa época em que ele publicava livros e artigos também na Itália e recebia visitas de personalidades italianas ligadas ao mundo político, cultural e até institucional? O que aconteceu em determinado momento, de modo que de repente ele se tornou o “monstro”, a ponto de alimentar o ódio dos parentes das vítimas – que estava até então adormecido? – e da mídia malandra? É absurdo que nenhum desses justicialistas pense em se perguntar. No entanto, a resposta é simples: Battisti escreve, fala na televisão, dá entrevistas e debates na arena internacional, investiga o passado, é autocrítico, mas ao mesmo tempo denuncia uma guerra civil que o Estado desencadeou e combateu com bombas nas praças e uma repressão sem precedentes. E tem permanecido reticente com a História.

A luta armada na Itália não nasceu em alguma mente pervertida e não foi praticada por quatro desesperados. Ela surgiu de um grande movimento cultural e político que não podia suportar a opressão de um Estado corrupto e assassino. Um milhão de pessoas nas ruas e todos os cúmplices revolucionários. 6.000 pessoas condenadas; cerca de 60.000 denunciadas; mais de 100 grupos armados organizados; centenas os mortos, a maioria deles nas fileiras revolucionárias. Esse é o contexto social no qual os PAC nasceram. Não foi um partido armado, mas a expressão horizontal combatente da ampla frente de protesto, nas fábricas, no território e na educação nacional. Que seu ideal era comunista é claro pelo próprio nome (Proletários Armados pelo Comunismo), mas eles não tinham a intenção de invadir o Palácio de Inverno, nem de tomar o poder do Estado. Eram núcleos difusos e independentes que respondiam à sua maneira à injustiça desenfreada, à extrema direita que se armava em defesa dos privilégios do capital. Fortificados pela ideia de que o verdadeiro comunismo não poderia ser o expresso pela União Soviética, ao contrário, mas simplesmente aquele de uma sociedade futura inevitável, livre e igualitária, imaginada com extrema clareza no “Manifesto” de Marx e Engels. Apenas isso, sem mais sem menos. Que o momento histórico e o uso de armas tivesse sido correto ou não, os fatos e todos os militantes conscienciosos o disseram. Entre os quais eu me coloco em termos inequívocos. Pode-se admitir o erro, sem cair na indecência daqueles que se iludem de que podem compensar por tudo declarando seu arrependimento. Nunca uma palavra foi tão denegrida. Tenho demasiado respeito pela história e pelas vítimas que ela fez para pensar em me esconder atrás de uma camada de hipocrisia.

Pensava-se que a Itália tivesse superado certas fraquezas e estivesse pronta para enfrentar sua própria História. Em vez disso, 40 anos depois, através de suas mais altas representações, ainda oferece aos cidadãos o mesmo show ignóbil, com a presa arrastada entre a multidão enfurecida; os insultos dos caçadores que evocam a presa; os selfie dos ministros; a folia da televisão; Battisti na arena; desfrute agora Povo! Aqui estão as torturas sofridas, depois de um sequestro triunfantemente reivindicado. A tal ponto que até o Tribunal de Cassação julgou mais ou menos nesses termos: “se a Bolívia cometeu um ilícito, não nos importa, eles nos deram Battisti e nós o levamos”. Nós o levaremos! Mas então vocês são uns traficantes! Mas não basta apreendê-lo e trazê-lo de volta para a prisão. Ele também deve ser tratado como um prisioneiro de guerra sem a proteção do estatuto. Não podemos legalmente dar-lhe 41 bis e impedimento? Não importa, nós os damos a ele de fato, mantendo-o isolado e impedindo-o de receber o tratamento que lhe permitiria ter acesso aos benefícios reservados a todos os presos. E se ele reclamar, nós o linchamos utilizando a mídia; nós o colocamos contra a vingança popular; aplicamos censura; lhe tiramos o seu computador para trabalhar; o colocamos na secção do ISIS onde ele será forçado a permanecer em isolamento voluntário. Aí está a tortura!

Chegamos agora à minha escolha pessoal de julgamento. Estava dizendo que há vários anos eu vinha cogitando uma solução decente para pôr fim a esta perseguição, onde as forças políticas italianas não poupavam meios coercitivos ou pressões. A propósito, devo salientar que minhas declarações de inocência – nunca dirigidas às autoridades, somente à mídia – apenas apareceram depois de 2004 na França, e isso para forçar o Estado italiano a admitir o uso desviante da Justiça nos julgamentos da luta armada. Antes disso, e depois, eu nunca havia negado minha filiação ao PAC, assumindo as responsabilidades políticas. A responsabilidade criminal deveria ter sido provada primeiro no tribunal, antes de emitir sentenças de prisão perpétua e esperar por confissões tardias. Portanto, deve ficar claro que os países que aceitaram meu pedido de refúgio nunca o fizeram, e não poderiam tê-lo feito, com base a uma suposta declaração de inocência – como falsamente declarado pelo oportunista Lula – mas exclusivamente por causa da natureza política do crime.

Pensei seriamente em uma solução coletiva dos nossos anos 70. O clima político na Itália não era o ideal, mas eu sabia da existência de personalidades e tendências dentro do mundo judiciário que, tendo lutado na linha de frente na guerra contra o “terrorismo” – como dizem hoje em dia – conheciam bem o assunto e não tinham interesse em recorrer à propaganda obscurantista para entender a realidade dos fatos. Certas pistas me disseram que estas pessoas, ou correntes de pensamento, ainda esperavam que um dia pudéssemos virar estas tristes páginas da história com dignidade e respeito pela memória nacional. Posso citar a este respeito o pensamento do magistrado emérito Giuliano Turone, juiz examinador do julgamento sobre os PAC, que em seu livro “O caso Battisti” afirma mais ou menos nestes termos: “Paradoxalmente, aceitando suas responsabilidades políticas e penais, poderia ser apenas Cesare Battisti a tornar possível finalmente rever e encerrar este capítulo da história”. As palavras podem não ser as mesmas, mas o sentido é este. Movido por este sentimento, alimentado pela esperança de que 40 anos eram já muito tempo e que a democracia italiana tinha que ter amadurecido e que o Estado também era um administrador forte e responsável, decidi confiar na justiça e chamei o promotor de Milão. Aquela minha deposição em 23 de março de 2019 foi uma escolha dolorosa. Estava longe da Itália desde 1981, e meus contatos com o belpaese eram reduzidos a poucos membros da família e ao editor. Não podia imaginar que, além da histeria da mídia, eu ainda pudesse despertar a vingança do Estado. Com a enorme dificuldade de ter que voltar a um julgamento que havia sido arquivado por décadas, sem nenhum fato novo para contribuir, exceto pelas ressalvas agora impossíveis sobre minhas próprias responsabilidades. Não me restava nada para fazer a não ser tomar o pacote completo, porém, criminalmente, não teria peso. Diante da escolha de enfrentar um julgamento histórico, e eu não fui o único a acreditar nisso, que sentido teria em mergulhar no código penal 40 anos depois?

Fui condenado a duas penas perpétuas e seis meses de prisão solitária por ter sido considerado culpado de praticamente todos os crimes cometidos pelo PAC, incluindo quatro atentados mortais. Onde a minha presença física no local do crime não podia ser provada, fui considerado o instigador. Devo talvez ressaltar que em tal conflito, os instigadores não existem e, se existissem, teríamos que procurá-los entre o povo? Em qualquer caso, certamente não poderia ter sido eu.

Eu admiti tudo. Reiterei minha autocrítica pela escolha de ter participado da luta armada, porque foi política e humanamente desastrosa. Mas eu não o tinha dito mil vezes ao longo de todos estes anos? Não tinha nada a arrepender-me porque, errado ou não, não se pode mudar com uma visão a posteriori o significado de eventos historicamente definidos por um contexto social específico. Seria absurdo dizer que não poderia ter sido evitado, mas sei que o movimento revolucionário não se esquivou de assumir suas responsabilidades. Não podemos dizer o mesmo por parte do Estado. Também não tinha nada a pedir em troca de minha confissão. Não teria sido legalmente exigido e bastava para mim que tivesse sido aplicada a lei, como para qualquer outro condenado sem o terrível “impedimento”, para ter acesso a algum benefício futuro reservado a todos.

Em resumo, é como dizer, tudo bem, vocês ganharam e eu estou aqui para testemunhar os cantos de vitória imerecida. Mas, uma vez terminada a festa, caro Estado democrático, vamos todos nos comprometer a reabilitar a história violada, enquanto eu cumpro minha sentença, de acordo com os termos das leis nacionais e das regras internacionais da humanidade como qualquer outro condenado? Pura ilusão. Depois de ter ostentado para o mundo inteiro o fruto de uma caçada suja, cantado uma vitória obtida por engano sobre o sangue das vítimas e a honra barrada da História, o Estado dos remendos não se contradiz e mostra sua verdadeira face. Ela se entrega aos bócios da forca, cavalga a onda populista, sacrifica até mesmo a palavra das autoridades que a serviram, mesmo quando não a mereciam.

Este é o sentimento que me acompanhou de Oristano a Guantanamo Calabro, à mercê do ISIS e submetido a um tratamento digno de uma ditadura militar. Mas não perdi a esperança e estou certo de que a justiça e a verdade prevalecerão.

1 No texto original é ergastolo ostativo, que poderia ser traduzido com “prisão perpétua hostil”. É a exceção à regra na medida em que não permite qualquer tipo de benefício ou recompensa para a pessoa condenada. A prisão perpétua hostil é infligida a indivíduos altamente perigosos que cometeram certos crimes (por exemplo, seqüestro com o propósito de extorsão ou associação mafiosa) e é o que é conhecido como o “fim da sentença nunca”.

“Guantánamo Calabro”: Carta de Cesare Battisti ©, .

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DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/06/02/union-libertaria-estudiantil-y-del-trabajo/ Wed, 02 Jun 2021 13:46:28 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2507 Continuar a ler "DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo"

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Esta é a segunda parte de uma série de entrevistas com individualidades, coletivos e organizações anárquicas de diferentes regiões do território dominado pelo estado colombiano.

Dessa vez com a Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo.


As notícias que nos chegam aqui indicam que a insurreição que tomou as ruas se iniciou com uma luta contra a reforma tributária que o governo de Ivan Duque tentou implementar. Todavia, consideramos interessante levar em conta o contexto das lutas recentes nos territórios em que as insurreições acontecem, principalmente porque há menos de 2 anos as cidades colombianas já haviam sido local de manifestações multitudinárias e intensas. Sendo assim, gostaríamos que vocês comentassem um pouco sobre o processo de lutas que está ocorrendo no momento no território dominado pelo Estado colombiano e qual a relação com as lutas que antecederam esse momento.

As lutas de cada território estão sujeitas ao contexto, aos costumes e às necessidades de cada lugar, já que isso influência no pensamento e na posição política de cada habitante. O entorno de rebeldia que estamos vivendo desde 28 de abril deste ano se dá pela acumulação de exigências e demandas que foram feitas nos anos anteriores em cada uma das regiões. As demandas dos trabalhadores, estudantes, camponeses, indígenas, mulheres e dissidências sexuais seguem sendo as mesmas que há 20 anos. As pessoas viram ser traída a sua confiança não apenas no governo de Ivan Duque, esse é um problema de tempos atrás, com a diferença de que no período do atual presidente a violência estatal aumentou, a precarização do trabalho está mais vigente que nunca.

A confiança traída pela burocracia sindical nas manifestações anteriores tem sido o detonador para que a população colombiana inicie sua organização mediante assembleias, que apensar de não serem reconhecidas como um instrumento legítimo dentro da estrutura política do país, é sim um instrumento no qual o povo se sente representado.

O território conhecido como América do Sul possui um histórico bastante intenso de revoltas. Na última década, foram várias… podemos lembrar, por exemplo, da insurreição que tomou as ruas das cidades brasileiras em junho de 2013 ou do estallido social que se evidenciou no território chileno em outubro de 2019. Apesar de suas diferenças entre as forças envolvidas e dos efeitos produzidos, em geral diziam respeito a uma luta contra o aumento no custo de vida, o que significa diretamente uma luta pela vida e contra a miséria produzida pelo capitalismo e pelo Estado. E nos parece que a revolta que está ocorrendo no momento no território colombiano tem algumas características em comum. Como vocês analisam essa relação?

Os povos do mundo inteiro têm uma luta em comum, cujo horizonte é a liberdade e a dignidade. No caso da América do Sul temos em comum, além dos aspectos já mencionados, a invasão europeia disfarçada de descobrimento, que levou ao quase extermínio total das populações indígenas que habitavam esta parte do mundo. O ar de luta que se respira no sul do continente é parte de um exercício de memória das novas gerações e a luta contra o silêncio que no qual os mais velhos tiveram que padecer. A luta é pela liberação do continente invadido por europeus e pelas políticas inumadas do Estado norte-americano.

Por outro lado, as redes sociais têm nos permitido conhecer táticas de luta e organização utilizadas em outros países, o que levou à criação das chamadas primeiras, segundas, terceiras e quartas linhas de defesa e luta durante as manifestações.

A pandemia do Covid-19 tem afetado sobretudo as classes populares tanto em relação a morte por contágio quanto pelo aumento da miséria e piora nas condições de vida. Ao mesmo tempo, em algumas regiões a pandemia e o risco de infecção tem esvaziado as ruas e, de certo modo, funcionado como uma barreira para as mobilizações de rua multitudinárias. Como vocês analisam essa relação, já que a reforma tributária de Duque, por exemplo, afetaria diretamente o sistema de saúde colombiano?

Embora seja verdade que Covid-19 é um vírus que se tornou uma pandemia, não devemos desconhecer o uso que o Estado tem dado a ele como mecanismo de controle da população. Devo esclarecer que o sistema de saúde colombiano sempre foi uma miséria, os trabalhadores da saúde não tem condições laborais dignas. Somado a isso, monopólios burgueses fizeram da saúde do povo colombiano um negócio, portanto as classes populares tiveram de escolher entre a morte por Covid ou a morte por fome, sendo obrigadas a sair para trabalhar de maneira informal e expor suas vidas.

Quero informar com grande alegria que a reforma de saúde que o governo pretendia implantar foi derrubada graças às manifestações que, em muitos casos, as pessoas deram suas vidas nas ruas.

Nos chegam vários vídeos e imagens do terrorismo de Estado com assassinatos, torturas e outras formas de agressão por parte da polícia colombiana. Sabemos que isso não é um fato isolado, pois esta é uma ação regular de todos os Estados, sobretudo quando uma mobilização ataca a ordem e a paz dos ricos. Como se estrutura a policia colombiana e como tem sido o histórico de repressão policial às manifestações?

A polícia colombiana está configurada de maneira hierárquica. No escalão mais alto se encontram os oficiais, seguido de suboficiais e por último ficam os agentes e soldados de patrulha dessa instituição. O corpo armado segue as indicações do Ministério da Defesa.

As manifestações são reprimidas principalmente por um setor da polícia chamado ESMAD (Escuadrón Móvil Anti Disturbios), armado com trajes blindados, escudos, capacetes e armas letais. Apesar de o Ministério da Defesa afirmar que a polícia atua sob todos os protocolos estabelecidos, nas manifestações temos companheiras e companheiros assassinados por esse esquadrão, com ações que vão desde armas de fogo até morte por espancamento. O ESMAD foi implementado na prefeitura de Andrés Pastrana em Bogotá como uma medida temporária, isso já faz 22 anos. Ao que parece, não foi nada temporário.

A maior parte da repressão foi vivida pelo movimento estudantil, desde aproximadamente os anos 60 do século passado se registram mortes em manifestações. Cabe ressaltar que os policiais contam com grande impunidade e encobrimento do Estado.

Existe algum debate sobre a autodefesa nas ruas? Existe algum debate dos movimentos e coletivos em relação a abolição da policia, por exemplo?

O debate geralmente se dá entre a autodefesa popular e as classes altas que sempre vem com maus olhos quando o silêncio da miséria é interrompido nas ruas. Nos bairros populares sempre se sofreu o abuso policial, portanto a defesa dos manifestantes frente aos corpos policiais sempre é justificada e aprovada pelos manifestantes, ainda que as vezes haja certas discordâncias. A ação direta das pessoas se dá como resposta à repressão policial.

A reforma policial sempre é um perigo nas petições das assembleias, até agora temos 52 pessoas mortas nas ruas, esperamos desta vez conseguir se não a abolição desse corpo de assassinos, ao menos levar a cabo uma reforma. Devemos isso às pessoas que já não estão mais entre nós.

Por fim, nos interessa muito as diferentes expressões do anarquismo na região conhecida como América do Sul. Portanto, gostaríamos que vocês falassem um pouco sobre as forças envolvidas nas lutas anárquicas da região colombiana.

A anarquia na Colômbia tem uma grande história, mas foi apagada pelas versões oficiais, incluindo a do Partido Comunista. A Greve das Bananeiras, Ferroviários e o Grêmio Petroleiro do século passado foi movida por anarquistas. O pensamento libertário é muito comum entre a juventude colombiana, ainda que se deva reconhecer que existem algumas carências de organização. Isso tem mudado nas manifestações atuais, o povo responde com uma estrutura horizontal, dada de maneira espontânea e instintiva.

Enquanto ULET, estamos influenciados sobretudo pelo anarcossindicalismo de origem espanhola, mas não desconhecemos que estamos em um contexto totalmente diferente e que nossa prática deve estar de acordo com o território em que vivemos e lutamos.

Não é equivocado dizer que as manifestações que se vivem na atualidade aqui na Colômbia sejam de caráter anarquista, mesmo que não recebam tal etiqueta. O clamor popular se acumula por meio de assembleias e horizontalidade nos diferentes espaços.

PARA SABER MAIS:

DAS BARRICADAS #1: MUROS QUE GRITAM, PEDRAS QUE VOAM – entrevista com Taller la Parresia sobre a insurreição na região colombiana

Colômbia Perdeu o Medo – A Revolta Segue em Todo o País Enfrentando a Violência de Estado

Video: Revolta e repressão na Colombia, por coletivos Antimídia e Submedia


Abajo, la versión original de la entrevisa en español.

Las noticias que nos llegan indican que la insurrección que tomó las calles comenzó con una lucha contra la reforma tributaria que el gobierno de Iván Duque intentó aplicar . Sin embargo, nos parece interesante tener en cuenta el contexto de las recientes luchas en los territorios donde se producen las insurrecciones, sobre todo porque hace menos de dos años las ciudades colombianas ya habían sido escenario de masivas e intensas manifestaciones. Por lo tanto, nos gustaría que comentaras un poco sobre el proceso de luchas que se está dando actualmente en el territorio dominado por el Estado colombiano y cuál es la relación con las luchas que precedieron a este momento.

Las luchas de cada territorio están sujetas al contexto, costumbres y necesidades de cada lugar, ya que esto influye en el pensamiento y posición política de cada habitante. El entorno de rebeldía que estamos viviendo desde el 28 de abril del presente año se da por la acumulación de exigencias y peticiones que se habían dado en años anteriores en cada una de las regiones. Las demandas de los obreros, estudiantes, campesinos, indígenas, mujeres y disidencias sexuales siguen siendo las mismas que hace mas de 20 años. Las personas han visto traicionada su confianza no solo en el gobierno de Ivan Duque, este es un problemas de tiempo atrás, con la diferencia en que en el periodo del actual presidente la violencia Estatal ha crecido, la precarización laboral esta más vigente que nunca.

La confianza traicionada por la burocracia estatal en anteriores protestas ha sido el detonante para que la población colombiana inicie su organización mediante asambleas, que si bien no son reconocidas como un instrumento legitimo dentro de la estructura política que tiene el país si es una instrumento en el que el pueblo se siente representado.

El territorio conocido como Sudamérica tiene una historia muy intensa de revueltas. En la última década ha habido varias… podemos recordar, por ejemplo, la insurrección que tomó las calles de las ciudades brasileñas en junio de 2013 o el llamado estallido social que se hizo evidente en territorio chileno en octubre de 2019. A pesar de sus diferencias entre las fuerzas implicadas y los efectos producidos, en general se trataba de una lucha contra el aumento del coste de la vida, lo que significa directamente una lucha por la vida y contra la miseria producida por el capitalismo y el Estado. Y nos parece que la revuelta que se está ocurriendo actualmente en territorio colombiano tiene algunas características en común. ¿Cómo analizan esta relación?

Los pueblos del mundo entero tienen una lucha en común, cuyo horizonte es la libertad y la dignidad. En el caso de Sudamérica tenemos en común además de los dos aspectos anteriormente mencionados, la invasión europea disfrazada de descubrimiento que lleva a casi el total exterminio de las poblaciones indígenas que habitante para aquella época esta parte del mundo. El aire de lucha que se respira en el sur del continente es parte de un ejercicio de memoria de las nuevas generaciones y la lucha contra el silencia que tuvieron que padecer los mayores. La lucha es por la liberación del continente invadido por europeos y víctima de políticas inhumanas del Estado Norteamericana.

Por otro lado, las redes sociales nos han permitido conocer tácticas de luchas y organización empleadas en otros países, lo que ha llevado a la creación de las primeras, segunda, tercera y cuarta línea de defensa y luchas durante las manifestaciones.

La pandemia de Covid-19 ha afectado, sobre todo, a las clases populares tanto por el número de muertes como por el aumento de la miseria y el empeoramiento de las condiciones de vida. Al mismo tiempo, el riesgo de infección ha vaciado las calles en algunas regiones y ha actuado como una barrera para las grandes movilizaciones callejeras. ¿Cómo analiza esta relación, ya que una de las reformas que Duque pretende implementar afectaría directamente al sistema de salud colombiano?

Si bien es cierto que el COVID-19 es un virus hecho pandemia, no debemos desconocer el uso que el Estado ha dado a este como mecanismo de control de la población. Debo aclarar que el sistema de salud colombiano siempre ha sido una miseria, el personal medico no tiene condiciones laborales dignas. Adicional a esto, monopolios burgueses han hecho de la salud del pueblo colombiano un negocio, por lo anterior las clases populares han tenido que escoger entre la muerte por covid o la muerte por hambre, viéndose obligados a salir a trabajar de manera informal exponiendo sus vidas.

Quiero informarles con gran alegría que la reforma a la salud que pretendía implantar el gobierno ha sido tumbada gracias a las manifestaciones, que en muchos casos han puesto su vida en las calles.

Hemos recibido varios videos e imágenes de terrorismo de Estado con asesinatos, torturas y otras formas de agresión por parte de la policía colombiana. Sabemos que no se trata de un hecho aislado, ya que es una acción habitual de todos los Estados, especialmente cuando una movilización ataca el orden y la paz de los ricos. ¿Cómo está estructurada la policía colombiana y cuál ha sido la historia de la represión policial contra las manifestaciones?

La policía colombiana, esta conformada de manera jerárquica en el escalón mas alto se encuentran oficiales, seguido de suboficiales y por último quedan los agentes y patrulleros de dicha institución. Este cuerpo armada sigue las indicaciones del ministerio de defensa.

Las manifestaciones se ven reprimidas principalmente por una dependencia de la policía llamada ESMAD (Escuadrón móvil Anti Disturbios), armados con trajes blindados, escudos, cascos y armas letales. Aunque según el Ministerio de Defensa el cuerpo policial actúa bajo todos los protocolos establecidos, en las manifestaciones tenemos compañeros y compañeras asesinados por este escuadrón con acciones que van desde arma de fuego hasta muerte a golpes por parte de los uniformados. El ESMAD fue implementado en la Alcaldía de Andrés Pastrana en Bogotá como una medida temporal, esto hace 22 años. Al parecer no fue temporal.

La mayor parte de la represión la ha vivido el movimiento estudiantil, desde aproximadamente los años 60 del siglo pasado se registran muertes en manifestaciones. Cabe aclarar que la policías cuenta con gran impunidad y encubrimiento del Estado.

¿Hay algún debate sobre la autodefensa en las calles? ¿Hay algún debate por parte de los movimientos y colectivos sobre la abolición de la policía, por ejemplo?

El debate generalmente se da entre la autodefensa popular y las clases altas que siempre ven con malos ojos cuando el silencio de la miseria se interrumpe en las calles. En los barrios popular siempre se ha sufrido el abuso policial por lo tanto la defensa de los manifestantes frente a los cuerpos policiales siempre es justificado y aprobada por los manifestantes, aunque a veces se dan discrepancias. La acción directa de los manifestantes se da como respuesta a la represión policial.

La reforma policial siempre es un pliego en las peticiones de las asambleas, a la fecha llevamos 52 muertos en las calles, esperamos esta vez lograr si no la abolición de este cuerpo de asesinos si llevar a cabo una reforma. Se lo debemos a los que ya no están.

Por último, nos interesan mucho las diferentes expresiones del anarquismo en la región conocida como Sudamérica. Así que nos gustaría que hablaras un poco sobre las fuerzas involucradas en las luchas anárquicas en la región colombiana.

La anarquía en Colombia tiene gran historia, pero ha sido borrada por las versiones oficiales e incluso del Partido Comunista. La huelga de las bananeras, ferroviarios y gremio petrolero del siglo pasado fue movida por anarquistas. El pensamiento libertario es muy común en la juventud colombiana, aunque se debe reconocer que se ha caracterizado por la carencia de organización. Esto ha cambiado en las actuales manifestaciones el pueblo responde a una estructura horizontal, dada de manera espontánea e instintiva.

En cuanto a la ULET, estamos influenciados principalmente por el Anarcosindicalismo de origen español, pero no desconocemos que estamos en un contexto totalmente diferente y que nuestra practica debe ser acorde en el territorio en el que vivimos y luchamos.
No es desacertado decir que las manifestaciones que se viven en la actualidad en Colombia son de carácter anarquista, aunque no reciban dicha etiqueta. El clamor popular se recoge mediante asambleas y horizontalidad en los diferentes espacios.

DAS BARRICADAS #2: Entrevista Sobre as Lutas na Colômbia – com Unión Libertaria Estudiantil y del Trabajo ©, .

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Algumas breves reflexões em torno da luta pelxs prisioneirxs da revolta https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2021/03/09/luta-pelxs-prisioneirxs-da-revolta/ Tue, 09 Mar 2021 19:02:52 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2453 Continuar a ler "Algumas breves reflexões em torno da luta pelxs prisioneirxs da revolta"

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Seguindo com a difusão das lutas que ocorrem no território dominado pelo Estado chileno e da campanha pela liberdade imediata e sem restrições de compas anarquistas que caíram antes e durante a insurreição que queimou as ruas daquela região em outubro de 2019, publicamos uma tradução de um texto lançado originalmente em espanhol no canal anticarcerário Refractario, em fevereiro de 2021.

Pela abolição da sociedade carcerária, pela liberação total!

Que viva a anarquia!


Como sabemos, a revolta iniciada em outubro de 2019 não nos trouxe somente belas e enriquecedoras experiências de combate ao Estado e de rachadura nas relações de autoridade, mas também uma longa lista de mortes, torturas, violações, mutilações e prisões.

Durante os primeiros dias, o número de pessoas envolvidas na revolta que ingressavam nas prisões aumentou rapidamente de dezenas a centenas, até chegar ao ápice de milhares. Em dezembro de 2019 o Estado mantinha atrás das grades 2500 delas, acusadas de participar de uma ou outra forma em ações da revolta.

Com o passar do tempo, muitas conseguiram sair com prisão domiciliar ou outras medidas cautelares, pois a maioria estava presa principalmente por delitos considerados menores (desordem, saques etc.). Permaneceram em prisão preventiva principalmente as acusadas de incêndio e portes de bomba molotov, sendo mantidas reclusas em distintas prisões do país, literalmente desde Arica até Punta Arena. Em fevereiro de 2021, sem existir um número exato, não mais de 200 devem ser aquelas que se encontram atrás das grades, mesmo que um alto número esteja em prisão domiciliar ou outras medidas.

Desde o primeiro dia da revolta quem questionou e enfrentou permanentemente a prisão identificou não somente a iminente realidade de quem caíu por conta da repressão, mas também a necessidade de continuar com força a luta pelxs prisioneirxs subversivxs em situações de completa ruptura com a ordem estabelecida. Foi assim que em 27 de novembro de 2019 distintas individualidades anarquistas e antiautoritárias chamaram uma manifestação em frente ao Centro de Justicia, onde se dizia “A quantidade de presxs rebeldes neste momento é impressionante e estão arriscando condenações muito longas. É necessário instalar o discurso anticarcerário antes que seja tarde demais…” e finalizava com a frase “Porque poderia ser qualquer pessoa. Fogo nas prisões, liberdade a nossxs presxs da revolta de outubro e da guerra social”.

Logo, com o passar do tempo se foram formando distintas coordenadorias e instâncias de apoio axs prisioneirxs da revolta de forma mais ou menos permanente, tanto a nível regional como nacional. Durante os momentos ápices da revolta, aquelas orgânicas funcionaram a todo vapor tanto no apoio concreto como na difusão e agitação, muitas vezes sem dar conta da imensa quantidade de prisões, das dificuldades de manter contato com seu entorno e da permanente entrada de novas pessoas no cárcere.

As fortes medidas repressivas instauradas em março de 2020 com a desculpa da pandemia golpearam profunda e inegavelmente o ritmo dos enfrentamentos nas ruas. Assim foi como, nos meses mais agudos de confinamento e prisão, essas persistentes iniciativas mantiveram viva a necessidade de apoio axs presxs da revolta e a visibilidade de suas diferentes situações particulares. Quando as ruas voltaram a ser tomadas de forma massiva e com vitalidade pelxs rebeldes, o tema dxs prexs políticxs da revolta 1 já estava completamente instalado.

Foi justamente no contexto do plebiscito por uma nova constituição (setembro-outubro-novembro) que não apenas surgiram inúmeros grupos de apoio axs prisioneirxs da revolta, mas também grande parte das assembleias territoriais e individualidades voltaram seu interesse ao tema das prisões. Após o plebiscito essa realidade se tornou inegável, talvez movidas pela culpa de ter apoiado a institucionalização da revolta, com certa vergonha de quem votou nas urnas do poder (incluindo várixs “anarquistas”) ou talvez pelo “dever democrático” de resolver o tema das prisões da revolta às portas de um novo processo. O certo é que o assunto realmente se espalhou por toda parte, transbordando qualquer organização que tivesse algum caráter específico de apoio às pessoas presas. Desde então a situação dxs prisioneirxs da revolta adquiriu um protagonismo, passando a ser parte dos principais pontos de mobilização das ruas.

Vasculhando becos sem saída

No final de 2020 começou a ser gestada, por parte de alguns setores, a necessidade de buscar uma “solução política” axs presxs da revolta e, em função dessa necessidade, ir trabalhando em sua criação, gestão e, óbvio, sua administração.

A “solução política” assume que o encarceramento de quem participou da revolta se deve a motivações políticas e por isso uma das possibilidades de sua liberação seria de caráter político-administrativo, muito mais do que jurídico. Tudo isso considerando a enorme quantidade de pessoas processadas e as diferentes situações que englobam xs presxs da revolta.

Com essa premissa, vários interesses começaram a confluir, construindo uma saída institucional em relação às prisões. De um lado se encontrava uma fração dos poderosos, partidos políticos e administradores das estruturas, que buscavam capitalizar politicamente essa mobilização, voltar a legitimar e se validar politicamente, bem como respaldar seus próprios candidatos a constituintes. A aposta destes setores é a desmobilização e a paz social após “solucionar” o problema dxs prisioneirxs políticxs, continuar com a institucionalização da revolta e limpar o processo constituinte.

De outro lado se encontram os distintos grupos e coletivos que nasceram nos últimos meses em apoio axs presxs políticxs da revolta, vários deles com partidos políticos ou candidatos constituintes por trás (basta cavar um pouquinho – não muito, só um pouco – para se da conta, para poder ver suas bandeiras), que somado a algumas organizações, buscam se legitimar frente aos poderosos (daí as inumeráveis e entediantes cartas escritas aos partidos, políticos, instituições etc. há mais de um ano), desejosos de mais democracia e mais direitos. São os excluídos desejosos de serem incluídos nas estruturas de dominação, quem não busca destruir a ordem imperante, mas reformar e melhorar o funcionamento de suas engrenagens.

Como evidência de tudo isso podemos ver, em novembro de 2020, a gestação de um “Grupo de iniciativa por la Liberación de los presos políticos”, que obviamente não se refere a todas as pessoas que poderiam ser consideradas presas políticas, mas somente, exclusiva e excludentemente aquelas presas durante a revolta. Aquela iniciativa está (ou estava) conformada por Agrupación de Familiares de Presos Políticos Santiago 1, Agrupación de Familiares y Amigos de Presos de Políticos, Agrupación de Familiares y Amigos de Prisioneros Políticos Guacoldas, Agrupación de Prisioneros Políticos de la Granja em conjunto com uma série de deputados do Partido Comunista, Revolución Democrático e Partido Progresista.

Já não se buscava mais forçar uma saída política, como ocorre com inumeráveis greves de fome, mobilizações de rua ou lutas intermediarias, mas diretamente ser parte do grupo e auxiliar os poderosos. Como boa negociação da mão do poder, muitos desses grupos foram se transmutando e acomodando suas posições a medida que foram caminhando com os poderosos, como veremos mais adiante.

Presxs da revolta

Como é sabido, a realidade dxs presxs da revolta é diversa e distinta, como o é e tem sido a própria revolta: estudantes, periféricxs, conscientes, posições revolucionárias, democratas, indignação, cidadanismo, apoio à nova constituição, contra todas as constituições etc.

Acreditar em uma identidade própria ou uma forma lógica das pessoas presas no contexto da revolta não somente é irreal e poderia implicar em uma falsificação histórica, mas gera continuamente o choque contra a muralha dos fatos. As contínuas petições/recomendações/sugestões para que xs presxs da revolta se organizem, buscando comparar com outros momentos de encarceramento massivo (ditadura ou durante a década de 1990) são completamente distantes da realidade. E isso não por uma mudança no grau de repressão e nem pelas modificações na realidade carcerária entre gendarmes e presxs, nem tampouco pelo tipo de prisão, mas justamente pelas diferentes trajetórias e posicionamentos das pessoas. Muitas vezes existindo posturas completamente distintas, contraditórias ou atém mesmo antagônicas tanto políticas como no cotidiano.

É esta a realidade dxs presxs da revolta e sua dinâmica a nível nacional. Da mesma forma existe uma série de particularidades em cada prisão e inclusive em cada módulo, onde muitas vezes existe um desconhecimento da história recente (ou inclusive atual) da prisão política ou até mesmo de outras realidades de prisioneirxs da revolta no mesmo território.

Em maio de 2020, “Algunos anarquistas presos en el módulo 14 de santiasco 1” alertavam sobre a “danosa ‘romantização’ que a rua e a luta deram a este módulo de ‘manifestantes’. Os ânimos da luta não somente se dissolveram na rua, houve um efeito real na capacidade de coordenação entre nós e o exterior”.

É dentro desta grande variedade que existem exceções que levantaram distintas iniciativas dentro, desde bibliotecas, barrotazos 2 e gestos que xs permite se posicionar de uma ou outra maneira.

Na atualidade, desde o plano prático, nos encontramos com pequenos grupos de presxs em regiões e uma quantidade maior em Santiago, principalmente na prisão/empresa (concedida) Santiago 1. Grande parte de quem caiu por ações associadas à revolta começou a habitar o módulo 14, destinado em um primeiro momento exclusivamente para elxs, e logo em seguida foram transferidxs para o módulo 12, onde estão até hoje. Quem caiu após a quarentena, durante o recrudescimento das manifestações, começou a habitar o módulo 3, isso sem falar dos vários casos de prisioneirxs da revolta que se encontram dispersos em outros módulos por distintas circunstâncias.

Ainda no sentido prático, várias pessoas conseguiram sair com a modificação de medida cautelar, outras aceitaram um julgamento abreviado e conseguiram cumprir sua pena em “liberdade vigiada”, há também aquelas que acabaram de ser presas e outras (até agora somente um punhado) foram condenadas à prisão. A realidade é sumamente dinâmica e versátil entre xs presxs da revolta.

Apesar de terem saído alguns textos escritos por elxs, alguns assinados, outros anônimos e alguns agrupados como “Presxs Subversivxs em Resistência”, a família adquiriu um papel relevante tanto como porta-voz como na integração de determinadas instâncias.

Indulto/Anistia

Antes de continuar, uma breve e simples definição a respeito destas medidas excepcionais do Estado de intervir em um processo jurídico: o Indulto “perdoa” a pena do delito, do já condenado; enquanto que a Anistia “perdoa” o próprio delito pelo qual a pessoa é processada. O Indulto assume que houve um delito e um castigo, mas é o castigo que se perdoa enquanto que a Anistia assume que realmente o delito não foi tal devido à condições especiais do contexto no qual ocorreram.

Apesar de inicialmente os distintos grupos começaram a avaliar a possibilidade de uma saída política, ela sempre foi pensada mediante mobilizações de rua, as denúncias e a agitação levariam o poder a um caminho no qual a Anistia parecia ser a saída mais adequada para a situação dxs presxs da revolta.

Ao que parece, a criação e as negociações no interior do “Grupo de iniciativa” fizeram com que, rapidamente, vários discursos e posições se transmutassem. Desse modo alguns grupos tiveram que abandonar a sua defesa da Anistia como também reescrever seus panfletos e/ou declarações. Agora a Anistia não serviria e nem seria possível, mas o melhor caminho seria o Indulto. E porque? Alguns setores das velhas organizações de Direitos Humanos, verdadeiros traficantes da memória e dxs mortxs, se incomodavam com o conceito de “Anistia” já que lhes recordava a aplicação de tal ferramenta durante a ditadura (com uma memória curta e repleta de lugares comuns). De igual maneira, o Indulto é menos lesivo ao Estado de direito, já que de uma ou outra forma reconheceria o funcionamento das investigações, das polícias, dos tribunais e somente se perdoaria a sentença.

Finalmente em 9 de dezembro de 2020 os senadores participantes do “Grupo de iniciativa” começaram a tramitação da lei de Indulto axs presxs do “estallido social”, projeto que finalmente, durante seu desenvolvimento, resultou ser um híbrido entre Anistia e Indulto.

No contexto destes debates públicos, em espaços de solidariedade, dentro da prisão e também em múltiplos conflitos quanto a participação ou vínculo de representantes de instituições, xs “Presxs subversivxs en resistencia”, desde Santiago 1 lançaram um comunicado listando uma série de requisitos “seja para a anistia ou indulto” e mostrando seu total rechaço a convivências com os poderosos.

Outros espaços decidiram seguir apostando na Anistia, ainda que, na prática, o único projeto existente fosse o de Indulto. Desenvolvendo desde então uma campanha e uma presença nas ruas pela “Liberdade imediata sem condições” sem necessariamente fazer referência ao Indulto.

Ao longo da história e em diferentes momentos históricos, ambas ferramentas (Indulto ou Anistia) foram utilizadas pelo Estado de acordo com o momento e com perspectivas históricas determinadas. Em alguns momentos essas possibilidades foram vistas e apoiadas por distintos grupos revolucionários, como exemplo podemos mencionar os Indultos do início de 2000 alcançados por meio de mobilização e luta por prisioneirxs subversivxs pertencentes a grupos armados dos anos 1990, condenadxs a altíssimas penas de prisão, o que lhes permitiu sair da prisão, alguns dxs quais caíram anos depois ao continuar lutando.

Por outro lado, houveram diferentes Anistias durante a ditadura que conseguiram liberar várixs prisioneirxs políticxs, como também assegurar a impunidade judicial de milicos.

Nos anos 1970 houve o Indulto fornecido pela Unidade Popular a miristas (integrantes do Movimiento de la Isquerda Revolucionária) e vopistas (integrantes da Vanguardia Organizada del Pueblo), como também uma série de Anistias decretadas pelo Estado após conflitos sociais, buscando refundar sua legitimidade e paz social. No plano internacional podemos lembrar das lutas dos Grupos Autónomos na Espanha pela Anistia total de todxs xs prisioneirxs revolucionárixs dos distintos grupos armados daquela época ou também das referências à “Anistia geral” feitas pelos setores mais radicalizados do ETA (Euskadi Ta Askatasuna) na prisão.

Isso somente para pincelar com um pouco de história, pois existem milhares de experiências mais. As críticas ao Indulto como ferramenta incidem no fato de ser considerada o pedido de perdão e clemência ao Estado; enquanto que as críticas à Anistia podem ser encontradas principalmente nos escritos de Alfredo Bonanno, que afirma que a apelação a tal medida é um chamado a pôr fim ao enfrentamento e inclusive negar a existência do antagonismo. O certo é que ambas são medidas do Estado, fórmulas que quando forem conseguidas por meio da luta, sem arrependimento, com dignidade e posições revolucionárias firmes, podem significar uma vitória parcial em determinadas lutas. Esta lógica é aplicável quando se pensa desde posições revolucionárias, situação que muda quando compreendemos que em uma revolta social, quem participa no combate de rua, a pessoa que está presa ou quem foi golpeada pela repressão não tem porque ser necessariamente companheira de luta e, portanto, as avaliações da realidade são muito diferentes. O principal risco está na crença, na fé no Estado, na justiça e em compartilhar o significado dos conceitos com o inimigo: o perdão, a paz, o arrependimento, a democracia, os direitos humanos e a clemência.

Por todas as pessoas sequestradas pelo poder

Reconhecemos a condição de reféns do Estado dxs presxs e nessa situação assumimos que as distintas batalhas que têm ocorrido e sempre ocorrerão implicam em negociar com inimigo desde a correlação de forças, assim têm sido as mobilizações, as greves de fome, o reconhecimento de “direitos prisionais”, incluindo alguns julgamentos ou tratamentos médicos. O equilíbrio entre arrancar uma decisão favorável seja mediante uma greve de fome ou intensas mobilizações de rua não é e nem será o mesmo que se sentar, forjar, administrar e engolir saídas políticas em conjunto e desde o próprio sistema. Mesmo quando possa existir um diálogo com o poder e o inimigo, este não será desde o mais baixo clientelismo político, convivência ou buscando sua validação.

A centralidade que a luta pela liberdade dxs presxs da revolta tem tido é importante e foi relevante sobretudo para a própria mobilização de rua. Instalar a prisão como uma realidade possível, viabilizar o invisível do cárcere e ir posicionando uma crítica aguda ao Estado e suas prisões é um desafio permanente no fecundo campo da inestabilidade social aberta desde outubro de 2019. Contudo, esta luta não deve esquecer das contínuas batalhas dxs demais companheirxs prisioneirxs, nos referimos pontualmente a Juan Aliste, Marcelo Villarroel, Joaquín García, Juan Flores, Mauricio Hernández, Pablo Bahamondes, Francisco Solar, Mónica Caballero e Felipe Ríos, para quem, em alguns espaços de solidariedade, parece haver uma separação tácita entre xs presxs “do bem” e “do mal”. Esquecer dos discursos vitimistas não é somente importante, como também uma necessidade para a sobrevivência da solidariedade revolucionária sem que seja asfixiada nos discursos democráticos de direitos humanos.

O projeto de Indulto seguirá seu caminho, se ele permite que algumas pessoas presas no contexto da revolta voltem às ruas, ótimo, se seu projeto fracassar (basta recordar a ameaça de veto ao projeto, expressa pelo governo) nossa disposição tem de conseguir ultrapassar as fórmulas e cálculos dos poderosos. Combater e se mobilizar pelxs presxs da revolta, subversivxs, anarquistas e mapuches é um contínuo que não cabe naqueles acordos entre senadores e aquelas paródias de movimentos revolucionários dos anos 1980-90. Assumir as reais possibilidades de tirar companheirxs da prisão tem de ser um desafio para ultrapassar a mera “assistência” à sua prisão ou as referências abstratas e etéreas que impedem a materialização das solturas

Lembrar que é na rua, na propaganda e na agitação multiforme onde subjaz nossa força e vitalidade. É justamente desde a oposição total a este mundo que podemos gerar estratégias para tirar xs companheirxs das prisões e enfrentarmos obstáculos concretos, como a modificação do decreto 321, que freia a “liberdade condicional”, ou a continuidade de penas por parte da procuradoria militar a prisioneirxs revolucionárixs (Marcelo Villaroel e Mauricio Hernandez), bem como os próximos julgamentos que virão a curto prazo contra prisioneirxs da revolta, axs quais são exigidas décadas de prisão.

Destruir e superar tais obstáculo serão conquistas específicas e palpáveis da luta, como têm sido a volta das visitas com um mínimo grau de dignidade. Tudo dependerá de nós e dxs companheirxs na prisão, as vontades e os gestos concretos.

Claro, podemos nos conformar com isso, com os ganhos mínimos, podemos situar que a mão do Estado está por trás de tudo, onde qualquer luta estará perdida de antemão ou simplesmente podemos combater tudo que temos a combater para continuar a batalha milimétrica dentro das prisões, tirar compas do cárcere para que das grades e das cadeias sobrem apenas ruínas.

Presxs da revolta para as ruas, ruas para a revolta!

A derrubar a modificação da 321! A combater a prisão perpétua encoberta!

Que a revolta arrebente os muros das prisões”

Publicación Refractario

Fevereiro de 2021


1 Nota de Tradução: apesar da expressão “presx políticx” ser utilizada poucas vezes no decorrer do texto, sendo priorizado mais os termos “presx subversivx” ou “presx da revolta”, a partir de uma perspectiva abolicionista penal nós consideramos importante ressaltar que toda prisão é política. Admiramos e saudamos o cuidado e sensibilidade com os quais essa discussão é apresentado no texto e o modo pelo qual este repercute as práticas em geral da luta anticarcerária que vem se fortalecendo no território dominado pelo Estado chileno, sobretudo ao tratar da continuidade da luta dentro do cárcere e da ação de algumas pessoas sequestradas pelo Estado de se assumirem enquanto presas subervisas. Por entendermos a importância deste debate e por buscarmos estimulá-lo permanentemente, tomamos a liberdade de escrever esta nota, pois em nossa perspectiva o uso de determinados termos não se limita a um preciosismo linguístico, mas possui efeitos concretos na luta pelo fim da sociedade carcerária e pela liberação total.

2 N.T.: tipo de manifestação ocorrida dentro das prisões que consiste em fazer ruído dentro das celas, batendo nas grades, barrotes em espanhol.

Algumas breves reflexões em torno da luta pelxs prisioneirxs da revolta ©, .

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Bem-vindas às Linhas de Frente: Além da Violência e da Não-violência – por coletivo Chuang https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2020/09/16/bem-vindas-as-linhas-de-frente/ Wed, 16 Sep 2020 22:31:33 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2114 Continuar a ler "Bem-vindas às Linhas de Frente: Além da Violência e da Não-violência – por coletivo Chuang"

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O texto a seguir foi lançado em junho pelo Coletivo Chuang 闯  e traz uma importante e inovadora análise dos recentes levantes em Hong Kong contra a lei de extradição e seus paralelos e influência sobre as ondas de protesto no Chile e nos Estados Unidos nas táticas usadas por manifestantes e a relação entre “violência” e “não-violência”. Traduzimos e lançamos o material porque ele oferece uma abordagem que atualiza o debate sobre como manifestantes encontraram formas de cooperar em diferentes táticas, posições e capacidades para que o maior número e variedade de pessoas pudessem participar dos protestos com maior segurança e enfrentar as leis e a violência policial em uma ampla cooperação.

Já mencionamos o trabalho do coletivo Chuang, sempre crítico ao capitalismo de estado da China, especialmente em relação à crise que sanitária em que vivemos com seu artigo Contágio Social – Coronavírus, China, Capitalismo Tardio e o ‘Mundo Natural’. Esperamos que esse novo texto contribua para o debate e inspire os próximos momentos de agitação e protestos de rua no Brasil e no mundo.


Bem-vindas às Linhas de Frente: Além da Violência e da Não-violência

Em maio e junho de 2020 os EUA assistiram a alguns dos maiores protestos e levantes combativos em décadas. O movimento, que tomou o país, começou em Minneapolis após a polícia assassinar George Floyd. A raiva que se seguiu levou a manifestações em massa, confrontos com a polícia, incêndios e saques, luto e rebelião que se espalharam por todos os estados do país em questão de horas. A delegacia do Terceiro Distrito Policial de Minneapolis, onde os policiais assassinos trabalhavam, foi incendiada e carros de polícia foram queimados também de Nova York a Los Angeles nos maiores ataques à edifícios de instituições estatais repressivas dos EUA em mais de um século. Tais atos foram abastecidos por décadas de raiva contra a polícia racista e o incessante assassinato de pessoas negras pelas mãos da polícia. Agora, até a esquerda eleitoral reformista está discutindo seriamente uma versão mais suave da abolição da polícia em nível nacional, re-imaginada como “cortar os orçamentos” da polícia, e o Conselho da Cidade de Minneapolis prometeu “dissolver” o departamento de polícia da cidade. Há pouco tempo, tal demanda teria sido considerada utópica.

À medida que o movimento contra a brutalidade policial e a própria instituição da polícia se desenrolam rapidamente nos EUA, já vimos marcas de outros confrontos e lutas de massas que surgiram em todo o mundo no ano passado, do Chile à França, Líbano, Iraque, Equador e Catalunha, para citar apenas alguns. Aqui, qualquer análise ampla da rebelião nos EUA seria prematura, já que os incêndios dos motins ainda estão literalmente acesos nas cidades do país. Em vez disso, gostaríamos de fazer algumas breves observações sobre as lutas em Hong Kong, sobre as quais fizemos o nosso melhor para acompanhar de perto, concentrando-nos em uma inovação tática específica que acreditamos ser uma contribuição útil para os protestos em andamento nos EUA e além. Já vimos pessoas nas ruas adotando lições isoladas de Hong Kong e outros pontos críticos no ciclo global de rebeliões do ano passado: uma barricada indiscutivelmente ao estilo Hong Kong com carrinhos de supermercado do lado de fora do Terceiro Distrito Policial em Minneapolis, técnicas para extinção de gás lacrimogêneo em Portland, relatos de lasers ofuscando as câmeras policiais e viseiras em várias cidades, guarda-chuvas contra spray de pimenta em protestos em Columbus e Seattle, e grafites em apoio a manifestantes de Hong Konge nas portas de lojas fechadas ou saqueadas em várias cidades. As semelhanças eram tão impressionantes, de fato, que levaram o paranoico editor-chefe do tabloide estatal chinês The Global Times, Hu Xijin, a concluir que “os manifestantes de Hong Kong se infiltraram nos Estados Unidos” e “planejaram” os ataques.

https://twitter.com/Woppa1Woppa/status/1268051170292977665?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1268051170292977665%7Ctwgr%5Eshare_3&ref_url=http%3A%2F%2Fchuangcn.org%2F2020%2F06%2Ffrontlines%2F

“Você vê as pessoas implantando táticas de Hong Kong de maneira muito eficaz aqui, implantando táticas de Hong Kong aqui, para impedir que o gás lacrimogêneo atinja manifestantes e veículos”
Vai Portland! Use esse grande cérebro HK IQ!”

Pouco podemos fazer para orientar a maneira como esse movimento se desenrola (nem gostaríamos de fazê-lo), mas esperamos que algumas das ferramentas e táticas empregadas por nossos amigos e camaradas em Hong Kong possam ser úteis para aqueles que estão nas ruas de outras cidades.[1] Em particular, oferecemos para sua avaliação o desenvolvimento do papel de “linha de frente” no movimento de Hong Kong, com a esperança de que possa ser útil para superar a divisão entre participantes combativos e pacíficos nas ruas em outros lugares.

Como em movimentos do passado, já houve divergências significativas sobre como se envolver com as forças do estado nos EUA. Como com outros movimentos desde Ferguson e de antes, algumas (mas não todas) organizações ativistas formais começaram a se engajar com a ala “branda” da força policial local, entrando em ação para conter as ações de confronto no início dos protestos: “Líderes comunitários” colaboram com a polícia, conduzindo multidões para emboscadas e panelões (envelopagem ou kettling) e, literalmente, apontam manifestantes “violentos” na multidão. Enquanto isso, os governos locais em todo o país afirmam que aqueles que estão iniciando a destruição de propriedade ou lutando contra a polícia são “agitadores externos”, com o prefeito de Seattle tweetando que “grande parte da violência e da destruição, tanto aqui como em todo o país, foi instigada e praticada por homens brancos”. Mas é bem óbvio que a raiva reprimida contra a polícia é extremamente generalizada e emergiu um amplo consenso nas ruas de que ela deve se combatida.

Hong Kong pode oferecer um caminho que escapa à aparente inevitabilidade dos conflitos sobre violência, não violência e como se envolver com as forças do estado. Para aqueles que buscam uma nova maneira de preencher as lacunas entre as formas ação combativas e as de ação pacífica, pensamos que uma das contribuições mais importantes da cidade para a nova era de lutas tem sido o desenvolvimento de papéis e formações particulares a serem implantados nas ruas, bem como as estruturas por trás desses papéis que ajudaram a engajar melhor as pessoas dispostas a lutar contra policiais em coordenação com outras pessoas no movimento. Em particular, queremos destacar o conceito de “frontliners” (“linhas de frente” ou “primera línea”) de Hong Kong, que não apenas desenvolveram muitas técnicas de sucesso para confrontar a polícia, mas também estabeleceram um novo tipo de relação entre os membros combativos e não-violentos das ações de rua através de muitos meses de experimentação .

https://twitter.com/shikonshoto/status/1268031123780562949?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1268031123780562949%7Ctwgr%5Eshare_3&ref_url=http%3A%2F%2Fchuangcn.org%2F2020%2F06%2Ffrontlines%2F

“Mais guarda-chuvas na linha de frente aqui em Seattle. Já passamos cerca de cinco minutos do toque de recolher e até agora ainda está tudo pacífico. Se quiserem assistir ao live dm me pelo link pic.twitter.com/ZyKMoGe0PL
— katie (@shikonshoto) June 3, 2020″

O que significa estar “na linha de frente?” O termo se tornou incrivelmente popular nos últimos meses em vários idiomas e campos sociais, especialmente para se referir a profissionais da saúde e outros que são particularmente vulneráveis ​​à pandemia da Covid-19 em andamento. Isso ofuscou a onda original de popularidade do termo na cobertura da mídia no ano passado, quando se referia a manifestantes em várias partes do mundo. As saudações oficiais a profissionais da saúde enquanto trocava de turno em Wuhan e Nova York nos soam muito estranho, pois são orquestrados pelo estado e fazem um eco ao “¡vivan lxs de la primera línea!” que saudou manifestantes que voltavam de batalhas com a polícia no Chile no outono passado.

O que permitiu essas manifestações versáteis e aparentemente opostas do termo foi justamente sua capacidade de integrar atividades que, em outro contexto, estariam separadas, propondo uma unidade definida não pela homogeneidade, mas pelo apoio à luta geral, simbolizada por aqueles na “linha de frente”. Agora, com o retorno dos protestos nos Estados Unidos, parece possível que o uso do termo possa voltar a se referir às pessoas que enfrentam a polícia: Em Connecticut, uma fila de manifestantes vestidos de preto enfrenta a polícia usando máscaras que antes eram destinadas a prevenir a propagação do vírus e, em uma captura de tela borrada do momento, uma mulher segura uma placa que diz: “os únicos aliados são os que estão na linha de frente”.

Via Chen Ronghui

A ideia básica que permite ao conceito de linha de frente integrar o movimento além da velha divisão entre “violência” e “não-violência”, ou “diversidade de táticas”, é que quem está na linha de frente assume riscos pessoais para proteger quem está ao redor, preferencialmente com (mas frequentemente sem) equipamentos de proteção especiais, e esses riscos ajudam a impulsionar todo o movimento. É também por isso que o conceito se estendeu tão facilmente à resposta à pandemia, porque a lógica básica do risco pessoal em apoio à luta é mais ou menos a mesma. Mas, nesses casos, o estado tinha um claro interesse em mobilizar o termo para cooptar respostas populares ou disfarçar sua própria incompetência, tudo com o objetivo final ainda sendo a supressão da pandemia. Agora, porém, o estado não tem esse interesse, uma vez que não compartilha do mesmo objetivo dos manifestantes que invocam o conceito de linha de frente. Em vez disso, ele apresentará “líderes comunitários” e talvez até mesmo os retrate como presentes “na linha de frente” do movimento de alguma forma, mas não há necessidade nem mesmo de fingir apoiar aqueles que realmente estão em conflito com a polícia. Isso significa que o termo tem a capacidade de retornar ao significado que ganhou em Hong Kong, definido através dos riscos assumidos em defesa de todas as pessoas ou do ato de colocar a própria vida em risco para manter todos os outros seguros e, ao mesmo tempo, impulsionar a luta.

No decurso da escalada dos confrontos de rua ao longo de 2019, os manifestantes de Hong Kong produziram inovações rápidas, incluindo a invenção de novos equipamentos e formações distintas com posições táticas específicas a serem preenchidas dentro do corpo do protesto. A “frontliner” pessoa na linha de frente surgiu neste contexto como um papel reconhecível para aqueles que, com estratégias para extinguir gás lacrimogêneo e escudos, se posicionaram diretamente contra a polícia, apoiadas por camaradas nas segunda e terceira linhas.

Tradução de slogans entre protestos de Hong Kong e do Chile: “Não voltaremos à normalidade, porque a normalidade era o problema”.

Essa inovação tática se espalhou rapidamente, primeiro para o Chile e depois para outros contextos latino-americanos. O primeiro salto de Hong Kong para o Chile provavelmente foi traduzido por meio de um vídeo dos protestos carregado no YouTube ou simplesmente transmitido pelo ar inebriante do ciclo de revolta de 2019. Um participante de um “clã” chileno da linha de frente deixa claro que as táticas que seu grupo usa foram adotadas em Hong Kong. Logo, outros manifestantes locais estavam preparando táticas notavelmente semelhantes, incluindo escudos, slogans, construção inventiva de barricadas e a adaptação generalizada de canetas laser de alta potência como ferramentas para interromper a visão e as câmeras da polícia (bem como, em um caso memorável , a destruição de um drone policial). Além dessas adaptações específicas, a estrutura do movimento chileno também foi organizada em linhas reconhecíveis: após um período de manifestações contra o aumento dos preços do transporte público, incluindo a evasão generalizada de tarifas e grandes marchas, uma repressão policial desencadeou manifestações massivas e tumultos que são amplamente referidos no Chile como uma “explosão social”. No vídeo de um protesto na Plaza Italia, Santiago, Chile, um homem em um prédio com vista para a praça observa com entusiasmo que a manifestação “só é possível por causa de um grupo de crianças” que se organizou “para deter as forças repressivas”.

No período seguinte, com a declaração do estado de emergência em cidades de todo o país, o espaço para manifestações pacíficas foi defendido por uma linha de frente de manifestantes dispostos a lutar contra a polícia. Como em Hong Kong, esses frontliners eram organizados principalmente por funções: portadoras de escudos, atiradores de pedras, médicos, “mineiros” (arrancando petras para jogar), manifestantes na linha de trás com lasers para interromper a visão policial ou câmeras e barricadas para bloquear avanços. Ao contrário dos desenvolvimentos posteriores na estratégia de “ser água”(“be water”) de Hong Kong, que focava no desgaste da polícia por meio de constante mobilidade, o movimento chileno começou com a linha de frente estabelecendo e defendendo linhas específicas em torno da “zona zero” ou “zona vermelha” para evitar que os policiais entrassem em áreas onde outras manifestantes estavam reunidas. Com o aumento da repressão, no entanto, os confrontos diários tornaram-se essencialmente batalhas de rua entre a linha de frente organizada e a polícia. Ainda assim, no entanto, a importância da linha de frente como uma ferramenta para tornar possível o protesto de rua foi amplamente reconhecida por pessoas dentro e fora do movimento, com “representantes da linha de frente” recebendo aplausos intensos quando convidadas para participar de talk shows. Como em Hong Kong, frontliners que formaram grupos autônomos para defender o movimento tiveram apoio de participantes externos, tanto anonimamente quanto em grupos, como alguns meios de comunicação de direita reclamaram.[2]

Táticas semelhantes também foram adotadas na Colômbia, via Chile e Hong Kong, à medida que grupos se organizando no Facebook reconheceram que havia a necessidade de proteger os manifestantes no movimento estudantil da violência policial. No entanto, os primeiros membros dos grupos da linha de frente mais proeminentes declararam que agiriam de formas puramente “defensivas” em vez de atacar a polícia diretamente. Mas, à medida que o movimento popular mais amplo se extinguiu, as opiniões sobre esses grupos (caracterizados por seus escudos azuis amigos​​ da mídia) começaram a mudar. Os frontliners adotaram conscientemente a estratégia “seja água” de Hong Kong, mas isso foi percebido por muitos nos movimentos estudantis como um abandono físico do movimento estudantil, que não tinha feito as mesmas escolhas táticas. De forma mais ampla, a linha de frente nos protestos estudantis colombianos foi considerada oportunista, tentando fazer um espetáculo amigável à mídia e tentando conduzir marchas para longe das rotas acordadas. No final das contas, esse tipo de “linha de frente” altamente inorgânica se alienou do apoio que primeiro recebeu do resto do movimento.

“Amor pela Primera Línea” em grafite nos protestos chilenos.

Em todos esses diferentes contextos, o desenvolvimento do papel linha de frente marcou um avanço significativo nas táticas de confronto de rua com a polícia. Essas táticas devem, é claro, mudar para se adequar a situações particulares, mas podemos aprender com o conhecimento global cada vez maior da luta. Na década seguinte ao declínio do movimento alter-globalização ou antiglobalização, a discussão sobre táticas para combater a polícia em grande parte congelou em debates sobre o “black bloc”. Originado na Alemanha dos anos 1980, o black bloc se refere à tática de usar trajes de protesto totalmente pretos, que impedem a polícia de apanhar um indivíduo no meio da multidão. Em parte devido ao seu sucesso prático, as ações do black bloc nos Estados Unidos e em grande parte da Europa foram sujeitas a debates intermináveis ​​que, em última instância, se resumem ao papel que a ação combativa deve desempenhar nos protestos de rua. Nos Estados Unidos, o resultado final foi uma redução das tensões em que os manifestantes que apoiavam a ação combativa e aqueles que só podiam apoiar a ação não-confrontativa chegaram a se dividir em áreas das cidades para evitar a interação entre os grupos. Afirmações de que o black bloc protege manifestantes não-violentos (seja diretamente ou atraindo a repressão policial e seus recursos para outros lugares) têm sido pontos de discordância comuns, mas nunca chegaram a um consenso. Na melhor das hipóteses, há uma defesa de uma “diversidade de táticas”, talvez a melhor expressão para descrever essa frágil redução de tensões.

Logo no início de tais movimentos, a diversidade de táticas permite uma tênue coexistência de protestos combativos e pacíficos, uma vez que há muitos participantes e múltiplas marchas, permitindo que as pessoas se distribuam nos locais onde prevalece seu tipo preferido. O termo efetivamente imagina esferas inteiramente diferentes nas quais “diversas táticas” podem ocorrer. Mas nem sempre é esse o caso. À medida que a repressão do estado aumenta e o momentum projeção inicial diminui, as duas esferas são forçadas a se fundir. É precisamente neste ponto que táticas mais agressivas são necessárias para defender o movimento como um todo contra a polícia e para continuar empurrando as coisas para frente enquanto a energia dos participantes diminui. Por um lado, é quando a função repressiva do estado é ativada, à medida que a polícia local é reabastecida e recebe apoio de níveis superiores de governo. No entanto, por outro, este é também o momento em que o estado mobiliza seu aparato de controle brando (soft control) na forma de lideranças comunitárias, organizações sem fins lucrativos e políticos “progressistas”, todos os quais desempenham um papel essencial no rompimento da tênue aliança tática que existia nos primeiros dias. Afinal, essas são as pessoas mais bem-sucedidas em difundir o mito do “agitador externo”, criticando o dano à propriedade causado pelo “anarquista branco” e, muitas vezes literalmente, entrando no meio para evitar ataques contra polícia ou mesmo o resgate de manifestantes detidas e, após os protestos, são as que vão encorajar as pessoas a entregar vídeos delatando quem jogou garrafas na polícia e inundar as redes sociais com postagens afirmando que foram policiais ou mesmo nacionalistas brancos que quebraram as primeiras janelas.

Nos protestos de 2019 em Hong Kong e no Chile, porém, de maneiras e velocidades diferentes, a afirmação de que o bloco protege outras pessoas transformou-se em um saber claro e inegável. Isso foi possível em parte por meio do apagamento de quaisquer significados anteriores atribuídos à tática black bloc e sua substituição pelo papel da primera línea: manifestantes que, ao se sujeitarem ao grave perigo e ao gás lacrimogêneo, estavam agindo unicamente em defesa de todas as outras no protesto contra a polícia. Isso representa uma mudança: não há mais uma grande separação geográfica em dois corpos de manifestantes (uma zona de protesto pacífico e outro de confronto), mas em vez disso, um único corpo se uniu, protegido na linha de frente por aqueles que assumiram o papel de estar lá. Em um sentido ainda mais amplo e, talvez ainda mais importante, os protestos de Hong Kong e do Chile reconfiguraram totalmente o papel dos manifestantes vestidos de preto, mascarados e combativos dispostos a lutar contra a polícia. Ao contrário da situação nos Estados Unidos, onde muitas vezes é possível que a mídia e a polícia colaborem no isolamento de combatentes, retratando-os como separados do corpo principal de “bons manifestantes” e ainda mais distantes do corpo político em geral, as primera líneas também chegaram a ser amplamente (senão completamente) entendidas como agindo em defesa de todas as pessoas, manifestantes e não manifestantes, tornando possível resistir a um status quo insustentável.

A construção de uma solidariedade efetiva entre “militantes valentes” (勇武) e adeptos da “não-violência pacífica e racional” (和理非) não foi o resultado automático do movimento ascendente em 2019 em Hong Kong, nem aconteceu da noite para o dia. Como nos Estados Unidos, movimentos anteriores em Hong Kong estavam divididos entre linhas ideológicas de confronto e não violência, bem como entre aqueles nas ruas e a “oposição controlada” dos partidos pan-democratas no Conselho Legislativo (LegCo).[3] Devemos lembrar que os protestos de 2019 vieram depois de anos de experimentação, incluindo o surgimento e o fracasso do Umbrella Moviment (Movimento Guarda-Chuva) de 2014: um protesto igualmente massivo e amplamente “pacífico” que cumpriu todos os modelos defendidos pelos defensores liberais da não-violência.

Quando o movimento foi derrotado de forma tão decisiva, a juventude de Hong Kong começou a agitar de novas maneiras – primeiro em ações de rua em menor escala, como a estranha e ainda polêmica “Rebelião das Almôndegas de Peixe”(“Fishball Riots”)[4] de 2016. Nessas ações, vimos algo como a linha de frente separada de sua base em manifestações massivas. A juventude ainda se recuperando do terrível fracasso do “paz, amor e não-violência” de 2014, em vez disso, entrou em confronto direto, declarando guerra à polícia, empilhando e jogando tijolos e, em seguida, testando a estratégia “seja água”, baseada na recusa de se manter parado em um local específico. Ao mesmo tempo, eles não esperaram pelo apoio de outros manifestantes e não fizeram nenhum esforço para recrutá-los. O resultado foi que as linhas de frente da “Rebelião das Almôndegas de Peixe” , do modo como eram, não tinham a conotação de defender as outras pessoas, como têm agora. Este caso de enfrentamento ainda é controverso entre os cidadãos de Hong Kong dentro do movimento, pois sua natureza isolada o tornou uma espécie de aventura arriscada (isso sem falar no papel desempenhado por pessoas locais de extrema-direita nos levantes). Agora, entretanto, vemos táticas muito semelhantes redistribuídas e aprimoradas, mas em um contexto surpreendentemente diferente. É como se as táticas testadas nas ações (relativamente) pacíficas de 2014 e nos confrontos (relativamente) violentos com a polícia de 2016 fossem finalmente forçadas a se combinar em uma síntese eficaz.

As raízes desta síntese podem ser melhor vistas perto do final do Movimento Guarda-Chuva, que tomou forma por meio de interações, muitas vezes conflituosa, entre organizações formais e dezenas de milhares de participantes autônomas. Durante as ocupações das regiões Central District e, posteriormente, de Mong Kok, alguns elementos do movimento foram organizados de modo central, com ocupações centradas em um “grande palco” (大台) que era essencialmente controlado por grandes organizações políticas, particularmente dois grupos de estudantes: a Federação de Sindicatos de Estudantes de HK e o Scholarism (algo como “Eruditismo”, um grupo fundado por estudantes de ensino médio), além dos principais partidos eleitorais do campo Pan-democratático e um monte de ativistas de ONGs conhecidas. Embora essas ocupações jamais teriam começado – muito menos se sustentado – sem grandes esforços de trabalho e ação autônoma, as organizações formais tentaram manter um nível de controle sobre a forma do movimento e, em alguns casos, tentaram cancelar ações específicas, algumas das quais continuaram de qualquer maneira sem seu apoio. Ainda assim, quem estava em posições de liderança eram os grupos que eventualmente entraram em negociações com o governo. Como em muitos contextos ocidentais, essas organizações eram orientadas, em grande medida, para a chamada “não-violência racional”. No entanto, as tensões entre os radicais e aqueles que controlavam o palco aumentaram durante o movimento, atingindo um pico com o ataque de manifestantes ao prédio da LegCo, após o qual manifestantes não-violentos e organizadores rotularam todos os militantes como agentes secretos de Pequim ou “destruidores”. Por outro lado, algumas manifestantes começaram a circular slogans pedindo a desmontagem do palco principal (e o centro de poder que ele representava) (拆 大 台) e que os bloqueios montados para tentar impedir os ataques a LegCo fossem desfeitos (散 纠察) .

Na esteira do fracasso do Movimento Guarda-chuva e do fim das ocupações, a primeira fase do Movimento Anti-Extradição de 2019 – aproximadamente desde a proposta de lei em março de 2019 até a marcha de dois milhões de pessoas em 16 de junho – a não-violência racional era a tática dominante. No entanto, após a relutância do governo em retirar a lei frente ao movimento de massa não-violento e, após a repressão policial cada vez mais violenta, um consenso bruto emergiu em torno de alguns princípios básicos: aprendendo com as falhas do Movimento Guarda-chuva, os novos protestos não deveriam ser organizado em torno de um corpo central e não tentariam ocupar e manter um espaço. Esta forma organizacional foi especificamente concebida a partir dos principais palcos do Movimento Guarda-chuva, tendo a “descentralização” como um slogan e princípio organizacional traduzido em cantonês como “sem um grande palco” (无大台).[5]

Ao mesmo tempo, as experiências de violência da repressão policial criaram um clima de solidariedade entre os manifestantes. Com base em demandas unificadas – primeiro pela retirada da lei de extradição e, em seguida, para um inquérito sobre a brutalidade policial, o fim das classificações de manifestantes como criminosos, anistia para os detidos e sufrágio universal – os participantes alcançaram um amplo consenso de que o sucesso exigiria um nível de unidade entre militantes e manifestantes pacíficos: “sem divisões, sem dissidência, sem traições” (不分化、不割席、不督灰) ou, mais positivamente, “cada um lutando à sua maneira, escalamos a montanha juntos” (兄弟爬山,各自努力) e “os pacíficos e os valentes são indivisíveis, ascendemos e caímos juntos” (和勇不分、齐上齐落). Pesquisas de participantes do movimento realizadas no local no início de junho mostraram que 38% dos entrevistados acreditavam que “táticas radicais” eram úteis para fazer o Estado ouvir as demandas dos manifestantes, mas em setembro o número subiu para 62%. Quando questionados se as táticas radicais eram compreensíveis diante da intransigência estatal, quase 70% já concordaram em junho e, em julho, esse percentual havia subido para 90%. Em setembro, apenas 2,5% dos entrevistados afirmaram que o uso de táticas radicais pelos manifestantes não era compreensível. Na mesma pesquisa, em setembro, mais de 90% dos participantes concordaram com a afirmação de que “Unir ações pacíficas e combativas é a maneira mais eficaz de obter resultados”. [6] Um ponto de inflexão semelhante pode estar surgindo nos EUA, onde quase 80% dos entrevistados respondeu afirmativamente uma pesquisa nacional que questionou se a raiva que levou à atual onda de protestos é “justificável”. Nela, 54% afirmou que a resposta à morte de George Floyd, incluindo o incêndio de um prédio da delegacia de polícia, é sim justificável.

Em Hong Kong, a natureza descentralizada do movimento, combinado com o crescente sentimento de um propósito unificado comum entre manifestantes pacíficos e combativos permitiu a formação e reprodução de papéis reconhecíveis nos quais as participantes podiam apoiar umas às outras em grupos organizados de forma autônoma, coordenados anonimamente por meio ferramentas online como Telegram e fóruns como LIHK.org. Essas ferramentas e estruturas organizacionais são dignas de uma análise separada ou de um guia de protesto de código aberto: o Telegram permite a criação de estruturas extremamente flexíveis enquanto preserva o anonimato, o que permitiu que manifestantes e apoiadores desenvolvessem todo um ecossistema digital crucial para driblar e enganar a polícia em tempo real. O recurso dos “Canais” do Telegram permitiu a criação de salas de bate-papo em grande escala semelhantes ao recurso de comentários no software de transmissão ao vivo que os manifestantes nos EUA estão usando. No entanto, embora esses “mares públicos” (公海) fossem capazes de fornecer algumas informações úteis, eles foram considerados como estando sob vigilância policial devido à sua natureza pública, e a organização sensível foi feita em canais separados entre grupos de amizade e confiança.

Manifestantes também criaram outros canais especificamente para compartilhar a localização da polícia e rotas de fuga, que eventualmente alcançaram dezenas de milhares de participantes do protesto. Nesses canais, a postagem é restrita a administradores ou bots especialmente designados, que retransmitem informações verificadas sobre a localização e disposição das forças policiais, ajudando a minar o fenômeno do boato descontrolado comum em qualquer protesto. Essas informações são coletadas por meio de crowdsourcing de indivíduos que trabalham como observadores no entorno das manifestações, que enviam atualizações em canais designados de acordo com um formato específico, para que possam ser facilmente padronizadas e repassadas para agregadores de dados que monitoram canais de informações e transmissões ao vivo, publicando atualizações para canais de difusão e mapas em tempo real de localizações policiais.

Além dos relatos, os canais do Telegram criados para ações específicas também permitiram aos participantes transmitir informações sobre as necessidades (“primeiros socorros necessários nessa esquina, “ferramentas pra extinguir de gás lacrimogêneo são necessárias em breve”) e tomar decisões coletivas sobre as respostas em tempo real por meio de funções de votação em tempo real. Este último permitiu escolhas rápidas, como a rota de fuga a tomar para evitar um ataque policial. É importante ressaltar que esses métodos organizacionais atraíram tanto militantes quanto aqueles que estavam relutantes, desinteressados (devido ao status de imigrante, deficiência ou outra vulnerabilidade potencial à violência policial) ou incapazes de participar na linha de frente: enquanto as pessoas na linha de frente enfrentavam a polícia e sua escalada de violência, apoiadoras não-violentos se envolveram nas marchas, como médicos ou fornecendo suporte logístico (transporte de suprimentos de barricadas, ferramentas para lidar com gás lacrimogêneo ou roupas para as pessoas da linha de frente vestidas de preto poderem se trocar), como observadores filmando policiais com câmeras ou como batedores alimentando informações para outros apoiadores que trabalham como agregadores de dados.

As pessoas de “fora” da linha de frente forneciam, de várias maneiras, suporte material direto para quem estava na linha de frente: em algumas ações, manifestantes sem equipamento formaram paredes humanas, às vezes usando guarda-chuvas, para proteger as pessoas da linha de frente enquanto trocavam as roupas e equipamentos que as identificavam, evitando que fossem presas a caminho para casa. Outras, embora não participem diretamente na linha de frente, facilitaram os danos à propriedade usando seus guarda-chuvas para tapar as câmeras enquanto as vidraças eram quebradas. Depois, no movimento, os manifestantes fora das linhas de frente traziam materiais para coquetéis molotov utilizados nas ações e formaram correntes humanas fornecendo materiais para reabastecer rapidamente a linha de frente com garrafas, gasolina, açúcar e panos.

Além dessas ações específicas de apoio, simplesmente permanecer nas ruas durante as proibições de reuniões públicas acabou sendo entendido como um meio de apoiar o movimento: um amigo conta a história de um funcionário de escritório mais velho, anônimo, em uma pausa para fumar que, depois de ler no Telegram que um grupo de pessoas da linha de frente estavam perto de seu prédio e precisavam ganhar tempo para não serem pegos pela polícia, caminhou diretamente até a linha de polícia e tentou começar uma briga com os policiais, pensando que sua identidade como uma pessoa mais velha e bem vestida poderia diminuir sua chance de ser preso e fornecer mais um álibi se o fizesse. No entanto, essa generalização da luta também é vista por alguns como uma das razões pelas quais a polícia finalmente se voltou para a estratégia mais recente de “kettling” (“envelopagem”, “panelão” ou “caldeirão de Hamburgo”) e prisão em massa de todos em uma determinada área: qualquer pessoa nas ruas agora pode ser considerada participante dos protestos, ou pelo menos odiar a polícia.

Imagem das funções nos protesto de Hong Kong, traduzida anonimamente e divulgada durante as recentes lutas

No início do movimento, no entanto, antes do aumento da repressão policial e das prisões no final do verão e outono de 2019, o papel das pessoas na linha de frente era relativamente claro, com opções para os apoiadores permanecerem separados do confronto direto com a polícia construindo barricadas, fornecendo suprimentos para a linha de frente enquanto as pessoas apagavam as bombas de gás lacrimogêneo ou escondendo a linha de frente da polícia enquanto trocavam de roupa. Contudo, essa divisão ainda era um tanto problemática, pois a aceitação da linha de frente como um segmento central do movimento, de certo modo, deu àquelas que realmente lutavam contra a polícia uma posição de “maior mérito”, o que levou a alguns manifestantes pacíficos serem acusados de não serem combativos o suficiente. Mas, à medida que a aceitação da ação militante cresceu junto com a violência policial cada vez mais extrema, essas divisões começaram a ruir. Por outro lado, ações que antes eram entendidas como pacíficas passaram a ser associadas a um risco cada vez maior de identificação e prisão.

Por exemplo, a criação e proteção dos “Lennon Walls”[7] de arte de protesto e auto-expressão foi originalmente entendida como um modo de participação completamente “pacífico”, mas como o número de ataques violentos aos “Lennon Walls” e prisões das pessoas que trabalhavam neles aumentou, tornou-se difícil continuar participando sem preparação física e mental para a violência. Diante da violência policial e do “terror branco” dos ataques a manifestantes feitos por bandidos pró-Pequim, qualquer divisão entre aqueles que estavam dispostos a colocar seus corpos em risco e aqueles que estavam comprometidos com atos de menor risco ou eticamente não-violentos tornou-se cada vez mais difícil de desenhar. Isso foi particularmente verdadeiro porque um número crescente de manifestantes foi preso. Para alguns amigos, a decisão de entrar na linha de frente foi gradual e resultou da erosão gradual das diferenças entre as atividades da linha de frente e outras formas de apoiar o movimento. Outros amigos relataram conversas difíceis que tiveram com seus pais idosos que, vendo a prisão de tantos jovens, resolveram se juntar à linha de frente para preencher a lacuna.

Embora tenhamos focado propositalmente em táticas materiais ao invés de identidade política, deve-se reconhecer que as cinco demandas que ajudaram a fornecer base para uma admirável unidade entre manifestantes em Hong Kong também acabaram encobrindo divisões políticas significativas. Em particular, o fato de o movimento ter uma base tão amplamente significava que incluía (e em alguns casos foi impulsionado pelos) sentimentos locais de direita. Ao contrário dos Coletes Amarelos na França, que tinham uma base de participação igualmente ampla, a escalada de táticas militantes que incluiu danos à propriedade não serviu para tirar os elementos da direita do movimento. Em vez disso, em Hong Kong a situação foi o contrário, e alguns (mas não todos) esquerdistas limitaram sua participação no movimento, sem vontade de entoar slogans ao lado de nacionalistas que pediam uma revolução para “restaurar” Hong Kong, ou de participar de marchas com alguns agitando bandeiras dos Estados Unidos ou regimes coloniais britânicos.

Enquanto a estrutura racial da política dos EUA torna a participação da direita na rebelião em curso praticamente impossível (apesar dos políticos promoverem mentiras afirmando o contrário), a estrutura do movimento de Hong Kong em torno de um conjunto unificador de cinco demandas também é um tanto estranha para o contexto estadunidense. Embora sua própria impossibilidade tenha dado ao movimento espaço para crescer, o uso de demandas insustentáveis ​​saiu de moda nos Estados Unidos. Após o fracasso dos primeiros protestos anti-guerra em meados dos anos 2000, a ascensão e queda do Occupy alguns anos depois definiu o que se tornaria a norma, em que um excesso de demandas causou uma incapacidade generalizada de “concordar” com qualquer coisa. Na primeira onda de protestos Black Lives Matter após o levante em Ferguson em 2014, um fenômeno semelhante ocorreu: as organizações sem fins lucrativos BLM “oficiais” fizeram demandas concretas por câmeras nos uniformes dos policiais e para que o dinheiro para equipamento militar fosse canalizado para treinamentos de anti-racismo e “mitigação” dos conflitos, mas essas nunca foram as demandas popularmente endossadas pelas ruas. Em vez disso, o movimento se articulou não em torno de uma demanda, mas de uma afirmação: de que as Vidas Negras Importam.

Essa é a afirmação que voltou como uma forte coerência na revolta atual. Ao mesmo tempo, isso pode estar mudando um pouco. Mas ainda não há um conjunto coerente de demandas que possa unir os manifestantes pacíficos e militantes que se levantaram após o assassinato de George Floyd. Se tais demandas surgissem, provavelmente seriam básicas e improváveis ​​de serem alcançadas sem “desmantelar o grande palco” da normalidade nos Estados Unidos, bem como as Cinco Demandas de Hong Kong: anistia geral, abolição da polícia ou reparações por séculos de assassinatos e escravidão sancionados pelo Estado. Os apelos pelo “desmonte da polícia” parecem ter ganhado destaque agora, depois de serem apanhados por grupos ativistas e políticos progressistas locais. Mas tal demanda está muito aquém do apelo mais popular para abolir a polícia e permite que os líderes locais afirmem que estão “desmontando” os departamentos de polícia quando, na verdade, estão apenas realizando cortes fracionários de orçamentos. Nesse sentido, “desmontar a polícia” parece estar assumindo um caráter semelhante à demanda por câmeras corporais em 2014.

Com ou sem tais demandas, vemos a inovação central do papel das pessoas na linha de frente como algo embutido nas novas relações que se tornam possíveis: entre a “linha de frente” e a segunda linha, a terceira e outros manifestantes de apoio. Uma semelhança entre as experiências dos manifestantes de Hong Kong e os das ruas dos Estados Unidos é que, embora muitos tenham experimentado por muito tempo a repressão policial, esta é para muitos a primeira vez (ou pelo menos um dos momentos mais graves) que a repressão policial ao protesto pacífico é visível. Em certo sentido, a evolução do papel da linha de frente foi realmente forçada a acontecer por conta da ação policial. Uma vez que a repressão ao movimento em Hong Kong passou de um certo ponto, dois fatos se tornaram aparentes: primeiro, a polícia é fundamentalmente violenta, segundo, que ela vai usar essa violência independentemente de seus alvos protestarem pacificamente ou não. Em segundo lugar, ficou explícito que, para o movimento continuar, manifestantes teriam de ser capazes de se defender.

Enquanto os reforços da polícia e da Guarda Nacional tentam dispersar os protestos de formas incrivelmente violentas nas ruas de quase todas as grandes cidades dos EUA, parece possível que o país veja um ponto de inflexão semelhante em termos da escala e intensidade da repressão. Para aqueles que buscam caminhos a seguir – maneiras de apoiar nossos amigos, amigas e camaradas, trabalhar em solidariedade, chorar os mortos pela polícia e garantir que tal violência sistêmica acabe algum dia – um método de continuar a luta pode ser encontrado reconhecendo que o papel da linha de frente é proteger todos os outros. Por isso dizemos: bem-vindas à linha de frente, e também à segunda e terceira linhas, e aos médicos e médicas e linhas de suprimentos, todos ocupando espaços, as ilustradoras e os responsáveis pelas impressões e distribuições, as pessoas que fazem streaming ao vivo e todos aqueles que tuitam informações dos rádios policiais. Talvez desta vez possamos estar todos juntos.

“Estou feliz por lutar ao seu lado!” — “Eu também, valeu, camarada”

Para saber mais:

Notas

1. Esta análise é o resultado de muitas conversas com amigos em Hong Kong, Chile e Estados Unidos, entre os quais gostaríamos de destacar Dashu e KW por sua ajuda paciente na verificação de fatos e esclarecimento de informações para este artigo. Eles esperam que suas experiências de HK possam ser úteis para a luta contra a brutalidade policial e o racismo nos Estados Unidos e em outros lugares.

2. Como observam camaradas no Chile, as táticas específicas de escudos contra balas de borracha, manifestantes mascaradas como defensores de manifestantes pacíficos e barricadas estão presentes no Chile desde os anos 1980, e o uso de máscaras e a defesa contra a polícia foram particularmente importantes durante a ditadura, para prevenir manifestantes de serem capturados, torturados e mortos. Outras táticas semelhantes às utilizadas em Hong Kong, como o uso de materiais amarrados entre postes de luz para evitar o avanço de viaturas policiais, também estiveram presentes no Chile antes de 2019. Essas táticas históricas e funções preexistentes, como médicos, apoiadores e pessoas que observam a ação da polícia, definitivamente influenciaram as formas como o conceito de linha de frente foi adotado no Chile. Da mesma forma, enquanto o movimento de Hong Kong enfatizava a mobilidade por meio da estratégia “seja água”, os movimentos chilenos têm uma forte tendência histórica à proteção de uma zona específica, o que influenciou a forma como as linhas de frente se desenvolveram ali.

3. Embora o campo Pan-democratico apoie a reforma eleitoral em Hong Kong, em grande parte apoia a política governamental existente – além do Partido Trabalhista e da Liga dos Social-democratas, os únicos dois partidos membros a manter qualquer tipo de agenda de esquerda.

4. N.T.: Protestos ocorridos em 2016 contra ação policial para reprimir camelôs em Mong Kok, em hong Kong. O nome “Fishball Riots” faz referência às almôndegas de peixe, produto muito comum nos comércios da região.

5. Ainda que este princípio organizacional tenha desempenhado um papel importante em ajudar o movimento a se tornar mais militante e se sustentar, de acordo com nossos amigos no local, ele também parece ter se tornado um obstáculo para a possibilidade de politização anticapitalista, então não deve ser romantizado : “Embora soe horizontal ou anarquista, na prática não está relacionado a nada como discussões democráticas entre os participantes, mas mais ideologicamente associado aos grupos locais que se opunham ao grupo Pan-democratico que estava no poder e controlava o palco. Por fim, o termo se espalhou entre a massa mais ampla de participantes, que temiam que o conflito entre essas facções políticas minasse o movimento, e surgiu um consenso de que ninguém deveria tomar o poder. … Mas isso não envolve, e até mesmo impede ativamente, o tipo de transmissão de diferentes pontos de vista no local, normalmente associados a termos como ‘horizontal’ ou ‘movimento sem líder’.” (Extraído de “Remolding Hong Kong”.)

6. Estas estatísticas são todas do “Anti-ELAB protest”, relatório de investigação local sobre o tema (反逃犯条例修订示威”现场调查报告).

7. N.T.: termo utilizado para se referir a uma intervenção coletiva permanente criada por milhares de manifestantes na parede exterior do prédio do governo central de Hong Kong. Consistia em cobrir as paredes com milhares de post-it carregando mensagens dos manifestantes; uma obra contra a censura.

Bem-vindas às Linhas de Frente: Além da Violência e da Não-violência – por coletivo Chuang ©, .

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Lula só Fez Autocrítica Onde Estava Certo: Comentários à Declaração Sobre Cesare Battisti https://faccaoficticia.noblogs.org/post/2020/08/25/lula-e-cesare-battisti/ Tue, 25 Aug 2020 16:53:17 +0000 https://faccaoficticia.noblogs.org/?p=2051 Continuar a ler "Lula só Fez Autocrítica Onde Estava Certo: Comentários à Declaração Sobre Cesare Battisti"

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Cesare Battisti preso em 1981

Na última quinta-feira (20 de agosto de 2020), o ex-presidente Lula pediu desculpa ao que ele chamou de “esquerda italiana” por ter dado asilo político, em 2010, ao ex-militante da luta armada (ou como a mídia gosta dizer “terrorista”) Cesare Battisti. Já faz um tempo, diante do desastre que levou 13 anos do governo petista e seu suposto progressismo a eleição e consolidação de um neo-fascista na presidência, que muitas pessoas pedem ao seu líder, Lula da Silva, para que ele fizesse uma autocrítica sobre os muitos erros do Partido dos Trabalhadores. Ainda que não resolvesse muita coisa, infelizmente Lula não se desculpou e nem reconheceu nenhum tipo de problema sobre Belo Monte, sobre a missão militar no Haiti, sobre o aumento brutal e progressivo de pessoas encarceradas, nem sobre a política de “campeões nacionais” onde grandes empresas eram estimuladas com dinheiro público em mega esquemas de corrupção sistemática. Porém, ele pediu desculpas sobre Cesare Battisti.

Gostaríamos de deixar muito claro que a pergunta histórica e política sobre a questão não seria “Battisti é ou não é inocente?“, a pergunta fundamental aqui é: “Battisti foi e continua a ser um perseguido político?”.

Na Itália contemporânea Battisti é o símbolo da vingança do Estado dos anos de 1970, os chamados “Anos de Chumbo”. O problema tem raízes históricas: o Estado italiano sempre considerou os “Anni di Piombo” como um assunto referente a “extremismos opostos” (fascistas de um lado e comunistas de outro) utilizando de “terrorismo”. Nisso foi de fundamental importância o colaboracionismo do PCI (Partido Comunista Italiano), no âmbito da sua política de “compromisso histórico”, onde o PCI em acordo com Partido Democrata Cristão (DC) estabeleceram uma coalizão parlamentar e chegaram a negociar, sem sucesso, uma parceria de governo. Na verdade, porém, os anos setenta foram uma época de grandes conquistas populares na Itália, de avanços da luta de classe e também de “guerra civil”. Mais ainda, foi um período, sobretudo no seu ápice em 1977, onde realizou-se a maior e talvez única, porem sui generis, tentativa revolucionária em um país europeu depois de 1945.

Quando falamos aqui de “guerra civil” entendemos em primeiro lugar a chamada “estratégia da tensão”, que foi utilizada entre 1969 e 1984 para parar a radicalização das lutas estudantis (que eclodiu em 1968) e operária (com o chamado “outono quente” de 1969 nas grandes fábricas do norte). O Estado italiano, através dos serviços secretos e dos seus braços armados, membros de organizações fascistas paramilitares, explodiram muitas bombas em lugares públicos: em feiras comerciais (Milão, 25 de abril de 1969), em bancos (Milão, 12 de dezembro de 1969, 17 mortos), em trens e estações ferroviárias (vários locais em 9 de agosto de 1968; Gioia Tauro, 22 de julho de 1970, seis mortos; trem Italicus, 4 de agosto de 1974, 12 mortos; Bolonha, 2 de agosto de 1980, 85 mortos, trem Rapido 904, 23 de dezembro de 1984, 17 mortos), em manifestações cívicas (Milão, 17 de maio de 1973, quatro mortos) e protestos sindicais (Brescia, 28 de maio de 1974, oito mortos). O objetivo dessas bombas era, por um lado, a perseguição de grupos de esquerda e anarquistas com as acusações de sua autoria, que logo foram reveladas sem fundamento, mas sobretudo tratava-se também de uma tentativa de gerar medo no meio de uma população em forte convulsão social.

Entre as décadas de 1960 e 1970 houve também pelo menos duas tentativas claras de golpe de Estado militar (o chamado “Piano Solo” em 1964 e o chamado “Golpe Borghese” em 1970). Diferente da maioria dos países europeus, que depois de 1968 tiveram uma grande derrota das forças revolucionárias, os movimentos sociais italianos tiveram uma década de crescimento, formidável em intensidade e radicalidade, e também conquistas de direitos sociais . Muitos foram os assassinatos políticos naquele período, muitos os mortos em manifestações de ruas, incontáveis os casos de ocupações prolongadas de escolas, universidades e fábricas, vários conflitos armados entre manifestantes e policiais, sobretudo em 1977 quando em Bolonha houve uma verdadeira insurreição derrotada pela chegada de tanques convocados pelo prefeito “comunista” e em Roma durante uma manifestação aconteceu a tomada de arsenal militar. Depois da derrota do movimento de 1977, muitas vanguardas políticas adentraram a luta armada para radicalizar o ataque ao Estado. Naquele âmbito, já operavam desde 1969 as Brigadas Vermelhas, que em 1978 sequestraram e assassinaram o ex-Primeiro Ministro e líder do partido de governo Democracia Cristã Aldo Moro. Mesmo que a maioria dos militantes revolucionários rechaçasse a prática da luta armada e da clandestinidade continuando no terreno da luta de massas, a rede de organizações armadas na época era muito grande, inclusive há a hipótese que as Brigadas Vermelhas pudessem contar em seu momento de ápice com cerca de 500 mi simpatizantes e possível colaboradores.

Cesare Battisti e políticos do Partido dos Trabalhadores

Para enfrentar um desafio revolucionário desse tamanho, o Estado italiano operou em duas maneiras: em primeiro lugar, desencadeou uma repressão feroz contra milhares de militantes revolucionários sendo muitos dos quais nunca aderiram à luta armada e passaram anos na cadeia acusados de terrorismo, usando métodos de tortura e de delação premiada (algo que o ex-presidente do Brasil deveria conhecer muito bem, não é mesmo Lula?!); em segundo lugar, fizeram cientificamente circular, por meio da colaboração das máfias e dos fascistas, heroína para ferrar com a juventude revolucionária, o chamado movimento da Autonomia Operária na Itália foi o segundo experimento do uso repressivo de massa com essa droga, depois dos Panteras Negras nos EUA. Por último, o Estado ganhou graças a colaboração do Partido Comunista, que sobretudo já desde o final de 1940 pela política stalinista de preservação da ordem da Guerra Fria, mas mais ainda desde os anos 1970 (com o “Eurocomunismo” e o já citado “compromisso histórico”) passou de partido revolucionário a ser um partido gestor da classe operária e dos movimentos sociais (ao leitores, isso lembra também algum partido brasileiro?). Tudo isso não só favoreceu, mas também impulsou as ações repressivas.

Que o Estado tenha sido o grande vencedor da “guerra civil” italiana dos anos 70 não resta dúvida nenhuma, mas o verdadeiro tamanho dessa vitória é justamente o fato do Estado querer negar que essa própria guerra aconteceu. Hoje em dia, por um estranho caso do destino, é isso que está em jogo na “questão Battisti”: o Battisti, para além dos méritos pessoais específicos, representa a verdade histórica dessa guerra invertida. A representa sobretudo pelo fato de ter recebido o asilo político, primeiro na França e depois no Brasil. Não por ser “inocente” ou “culpado” perante os dispositivos jurídicos, mas por ser reconhecido como um “perseguido político”, Battisti evidencia ainda mais a sujeira do Estado italiano que por décadas, sem nunca deixar de ser uma democracia formal e tendo que aceitar importantes conquistas sociais pelo força dos movimentos, enfrentou a ameaça revolucionária com bombas, atentados, assassinatos e tortura.

Battisti nos anos 70 foi um jovem proletário preso por roubo que se “politizou” na prisão. Depois de sair da cadeia, militou um breve período da sua vida no pequeno grupo guerrilheiro PAC (Proletari Armati per il Comunismo), que foi formado em 1977 no interior do movimento da Autonomía Operária. A prática mais frequente de ação dos PAC foi o roubo (chamado por eles de “expropriação proletária”), porém o grupo também reivindicou quatro homicídios como ações políticas: de um marechal dos Carabinieri (uma espécie de policia militar italiana) do presídio de Udine em 1978, de dois comerciantes responsáveis pela morte de assaltantes por “legítima defesa” e executando ambos em 16 de fevereiro de 1979, e de um policial em abril de 1979. Battisti foi preso em junho daquele ano por posse ilegal de armas e associação subversiva, sendo condenado a 12 anos de prisão inicialmente. Escapou da cadeia em 1981 e refugiou-se primeiro na França e logo depois no México, onde morou como foragido até voltar para a França em 1990 protegido pela chamada “Doutrina Mitterand”, política estabelecida pelo presidente François Mitterand que consistia em não extraditar aqueles italianos em solo francês que tivessem rompido com seu passado violento e cujo amplo direito de defesa não estivesse garantido. Ao longo dos anos 1980, Pietro Mutti, ex-dirigente da organização preso, resolveu colaborar com a justiça graças aos mecanismos de delação premiada e acusou Cesare como executor ou organizador de todos os quatro homicídios feito pelos PAC. Battisti era o bode expiatório perfeito, estava foragido em Puerto Escondido, no México. Foi assim que de um simples militante de base dos PAC, terminou condenado a prisão perpetua, acusado de todas as ações delitivas feitas por uma organização de não menos de 60 militantes, sendo que duas acusações foram feitas posteriormente quando o caso foi reaberto 10 anos depois.

Como se sabe, depois da vergonhosa operação Bolsonaro-Morales-Salvini de janeiro do ano passado, o sequestro da Interpol e a volta para a Itália, Battisti admitiu todas as culpas pelas quais foi condenado, mas ele admitiu em um contexto em que a derrota (pelo menos a dele e a dos anos 70) era mais que definitiva, quando ele sabia perfeitamente que ia morrer na cadeia, que os poucos que ainda o defendiam depois de 30 anos de terrorismo midiático estatal não tinham mais nenhuma presença no debate público. Nossa hipótese é que com a sua confissão tentou reduzir um pouco a dureza da pena, tentando assim conseguir certa indulgencia por parte do Estado. O que certamente não aconteceu (aqui você pode ler uma carta recente onde denuncia as condições ilegais em que é detido e aqui mais uma reflexão sobre a sua confissão).

Battisti e Tarso Genro, então Ministro da Justiça do governo Lula

Podemos nos perguntar: por qual razão foi tão importante para o Estado italiano não só prender Battisti (que, lembremos, já passou muitos anos da sua pena em prisões na Itália, França e Brasil), mas organizar uma operação internacional e midiática desse nível, violando os mais básicos direitos legais? Como por exemplo, que Battisti foi preso na Bolívia e voou direto para a Itália, caso fosse extraditado do Brasil não poderia ser condenado a prisão perpétua pois o país não tem essa medida no seu ordenamento legal e também sendo negado a ele a permissão de falar com seu filho brasileiro de cinco anos por skype.

Concluímos, no final das contas, que o Estado quis se vingar de Battisti por três razões: 1) porque ele chegou a representar um símbolo, mesmo sem querer, de uma página da história italiana que de acordo com os órgãos oficiais deveria ser esquecida ou cancelada, alimentando continuamente o mito de que ele seria um “monstro” e “terrorista”, completamente alheio de qualquer conexão com a problemática social do seu tempo; 2) porque Battisti conseguiu burlar a máquina repressiva jurídico-estatal por quase 40 anos e chegou até a ter celebridade como um brilhante escritor; 3) porque o simples fato de que tanto a França como o Brasil tivessem reconhecido seu direito a proteção humanitária, foi visto pelo Estado italiano, como a prova de que a luta armada era reconhecida como expressão de uma guerra civil em ato e não como simples terrorismo delinquente (como vimos, o terrorismo naqueles anos, foi do Estado e pelo Estado).

Essa foi a importância do justo ato de Lula em conceder asilo político em 2010 para Cesare Battisti, não por considerar que ele era inocente, mas reconhecer que ele era perseguido politicamente por um país onde sempre formalmente reinou a democracia.

É na extrema importância daquele ato que pode se ver a impotência e miséria atual de Lula e suas palavras.

 

Lula só Fez Autocrítica Onde Estava Certo: Comentários à Declaração Sobre Cesare Battisti ©, .

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